sábado, 13 de julho de 2013

Cultura e Civilização

Gilberto Gil

a cultura
a civilização
elas que se danem
ou não

somente me interessam
contanto que me deixem meu licor de jenipapo
o papo
das nites de são joão
somente me interessam
contanto que me deixem meu cabelo belo
meu cabelo belo
como a juba de um leão
contanto que me deixem
ficar na minha
contanto que me deixem
ficar com minha vida na mão
minha vida na mão
minha vida

a cultura
a civilização
elas que se danem
ou não

eu gosto mesmo
é de comer com coentro
eu gosto mesmo
é de ficar por dentro
como eu estive algum tempo
na barriga de claudina
uma velha baiana
cem por cento





Poemas do moçambicano José Craveirinha

SEM ALMA

Recuso
meu corpo.

Companheiro desolado
ele foge de sua alma
quando por instantes
a ternura do diabo
me toma.

José Craveirinha.


GULA

Uivam
as suas maldições
as insidiosas hienas
própria sanha.

Rituais
de tão escabrosa gulodice
que até nos esfomeados
aldeões da tragédia
a gula dos quizumbas
se baba nas beiças
das catanas,
dos machados.

José Craveirinha


A BOCA

Jucunda boca
deslabiada a ferozes
júbilos de lâmina
afiada.

Alva dentadura
antónima do riso
às escancaras desde a cilada.

Exotismo de povo flagelado
esse atroz formato
da fala.


 SUELTO

No laboratório
o lobo dirige a radioatividade
e concentra o cobalto.

Na igreja
pequenos esqueletos juntam
no catecismo os metacarpos
e rezam.

José Craveirinha


DE PROFUNDIS

Possessos de sangue
em abrenúncios
de gritos

Ao rosnar
da súcia,
em de profundis de facas.


José Craveirinha

José Craveirtinha -- Antologia Poética", organizado por Ana Mafalda Leite e publicado pela editora da Universidade Federal de Minas Gerais, na coleção "Poetas de Moçambique".

Fonte: Cláudio Daniel

DE SOLO IMAGINARME



De sólo imaginarme que tu boca
pueda juntarse con la mía, siento
que una angustia secreta me sofoca,
y en ansias de ternura me atormento…

El alma se me vuelve toda oído;
el cuerpo se me torna todo llama
y se me agita de amores encendido,
mientras todo mi espíritu te llama.

Y después no comprendo, en la locura,
de este sueño de amor a que me entrego;
si es que corre en mis venas sangre pura,
o si en vez de la sangre corre fuego…


Alice Lardé de Venturino, mujer pionera, fiel creyente de la importancia de educar a la mujer. Se sobrepuso a la idiosincrasia de su época y su postura la hizo seguir adelante e interesarse por las ciencias como prueba que las mujeres pueden incursionar en cualquier campo. Sin duda un hermoso ejemplo de que la perseverancia, la constancia y la voluntad deben ser nuestras principales herramientas para seguir adelante.

Nombre: Alice Lardé de Venturino.
Nacimiento: San Salvador, 29 de junio de 1895.

Fallecimiento: San Salvador, 13 de octubre de 1983.

Memória de Elefante

"(...) O psiquiatra pensou que toda a gente nesse dia queria separar de um dos últimos presentes que a mulher lhe dera no desejo inútil de melhorar sua aparência de noivo de província congelado numa postura hirta de fotografia de feira: desde a adolescência que trazia consigo, colado à assimetria das feições, o ar postiço e triste dos mortos de família nos álbuns de retratos, de sorrisos diluídos pelo iodo do tempo. Meu amor, falou dentro de sim mesmo apalpando a gravata, sei que isto não alivia nem ajuda mas de nós dois fui eu o que não soube lutar: e vieram-lhe à memória longas noites na praia desfeita dos lençois, a sua língua desenhando devagar contornos de seios iluminados de uma rede de veias pela primeira luz da aurora, o poeta Robert Desnos a agonizar de tifo num campo de prisioneiros alemão murmurando É a minha manhã mais matinal, a voz de John Cage a repetir Every something is an echo of nothing, e a forma como o corpo dela se abria em concha para o receber, vibrando tal as folhas dos cumes dos pinheiros agitados por um vento invisível e tranquilo.

(...) Amo-te tanto que te não sei amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne que és feita, se o nosso casamento definhou de mocidade como outros de velhice, se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio"

 Lobo Antunes

NANAS DEL PAN


NANAS DEL PAN

No pidas pan, mi niño,
que no tenemos,
yo te contaré un cuento
mientras te duermo:

Un papá sin trabajo
se fue del pueblo,
a correr los caminos
tras tu sustento.

Como no lo encontró
llamó a la puerta,
y recogió sus cosas
y su escopeta.

Lo buscan los civiles
por todas partes,
han quedado sin pan
curas y alcaldes.

Muchos papás se esconden
allá en los montes,
me lo ha dicho el arroyo:
vendrá ésta noche.

Duérmete tú, mi niño,
duerme tranquilo,
que tu padre defiende
tu pan a tiros.

.-Pepe Balmón
.-Ex preso político del PCE(r).
.-Soria, Noviembre-78



L'unico vero viaggio, l'unico bagno di giovinezza sarebbe non andare verso nuovi paesaggi, ma avere altri occhi, vedere l'universo con gli occhi di un altro, di cento altri, vedere i cento universi che ciascuno vede, che ciascuno è .


Marcel Proust

A viagem só real, o único banho de juventude não iria para novas paisagens, mas tem outros olhos, ver o universo através dos olhos do outro, de cem outros, Ver os cem universos que cada um vê, que cada um é.


Marcel Proust

Ti piace l’amore?

" Ti piace l’amore?
Non lo so.
Ora ce l’hai?
Sì, mi sono accorto di avercelo. E’ cominciato dalla mano, la prima volta che me l’hai tenuta. Mantenere è il mio verbo preferito.
Sei innamorato di me?
Ho cominciato dalla mano che si è innamorata della tua quando me l’hai tenuta. Poi si sono innamorate le ferite che si sono messe a guarire alla svelta.
Allora, ti piace l’amore?
E’ pericoloso. Ci scappano le ferite. Non è una serenata al balcone, somiglia a una mareggiata di libeccio, strapazza il mare sopra, lo rimescola sotto. Non lo so se mi piace."


Erri De Luca

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Karl Marx



A colher de súbito cai no silêncio da língua.
Paro com a gelada imagem do tempo nos sentidos
puros. E sei que não é uma flor aberta
ou a noite cercada de águas extremas.
Paro por esta monstruosa
ingénua força da morte.
_ A colher envolvida pelo silêncio extenuante
da minha boca, da minha vida.
 Herberto Helder


"É na poesia que se dá a múltipla ação guerrilheira do Tet, quando, por baixo, o ícone invade o corpo verbal, baratinando-o com som e música, fala e cor, tato e espaço e impedindo-o de discursar e de afirmar o que quer que seja fora de si mesmo. A arte, ou melhor, o ícone, é aquele riso rabelaisiano da praça pública que desierarquisa todas as formas, atraindo-as para os baixos corporais da linguagem. Não pode pôr-se a serviço de uma revolução, porque é a revolução; menos ainda a serviço do poder, pois é antipoder por sua própria natureza: luta em seu próprio seio, perpetuamente, contra as hipotaxes finalistas. É por isso que a arte não pode fazer discurso ideológico. Não apenas porque não disponha de predicação lógica, mas por ser um mundo naturalmente opositivo e sublevado contra o velho tirano logo-ideológico que conhece desde e pela raiz, já que dá, a ele, nascimento contínuo... Esta, a verdadeira resistência poética." ::: Décio Pignatari

PARA VIVER MAIS VIDAS


 "Os livros acumulam a sabedoria que os povos de toda a Terra adquiriram ao longo dos séculos. É improvável que a minha vida individual, em tão poucos anos, possa ter tanta riqueza quanto a soma de vidas representada pelos livros. Não se trata de substituir a experiência pela literatura, mas multiplicar uma pela outra. Não lemos para nos tornar especialistas em teoria literária, mas para aprender mais sobre a existência humana. Quando lemos, nos tornamos antes de qualquer coisa especialistas em vida. Adquirimos uma riqueza que não está apenas no acesso às idéias, mas também no conhecimento do ser humano em toda a sua diversidade." (TZVETAN TODOROV)

Sozinho


"Sozinho" (Tradução de Adriano Nunes)

Sozinho

Do instante infante eu não fora
Como os outros - Não enxergara
Como os outros - Sequer trouxera
Paixões duma igual primavera -
Doutra origem eu conquistara
Minhas mágoas - Não despertara
Meu peito pra o prazer co' alinho -
Tudo amara e amara sozinho -
Portanto - na infância - na aurora
Da aflita vida desenhara
Do mal e bem a fossa infinda
O enigma que me atara ainda -
Dessa torrente, ou dessa fonte -
Do rubro báratro do monte -
Do sol que me houvera cercado
Pelo seu outono dourado -
Do relâmpago no céu alto
Quando por mim dera seu salto -
Do trovão e da tempestade -
Da nuvem que tomara de
(Quando o céu dera-se a brilhar)
Demônio a forma em meu olhar.

Edgar Allan Poe: “Alone”

Alone

From childhood’s hour I have not been
As others were—I have not seen
As others saw—I could not bring
My passions from a common spring—
From the same source I have not taken
My sorrow—I could not awaken
My heart to joy at the same tone—
And all I lov’d—I lov’d alone—
Then—in my childhood—in the dawn
Of a most stormy life—was drawn
From ev’ry depth of good and ill
The mystery which binds me still—
From the torrent, or the fountain—
From the red cliff of the mountain—
From the sun that ’round me roll’d
In its autumn tint of gold—
From the lightning in the sky
As it pass’d me flying by—
From the thunder, and the storm—
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view—

POE, Edgar Allan. The Complete Poetry. With New Afterword by April Bernard. New York: Penguin, 2008, p. 65.

Enlouquecer.


Campos abanados pelo silêncio. Alguém como eu
mergulhando no que é o obscuro
das vacas dormindo.
Estrelas giradas, de repente mortas
sobre mim. Penso alterar tudo,
recuperar agora as colinas do mundo.
Falando de amor, eu falo
do génio destruidor. Falo que é preciso
criar a velocidade das coisas.
Que é preciso caçar flores, golpear estrelas,
meter o sono nas vacas, desentranhar-lhes
o sono,
dar o sono às estrelas.
Enlouquecer. 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Angustia

"Lembro-me de um fato, de outro fato anterior ou posterior ao primeiro,
mas os dois vêm juntos. E os tipos que evoco não têm relevo. Tudo
empastado, confuso. Em seguida os dois acontecimentos se distanciam e entre eles nascem outros acontecimentos que vão crescendo até me darem sofrível noção de realidade. As feições das pessoas ganham nitidez. De toda aquela vida havia no meu espírito vagos indícios. Saíram do entorpecimento recordações que a imaginação completou."


- Graciliano Ramos, em "Angustia", 1936.

O quarto de Jacob

"Quer o censuremos ou elogiemos, não há como negar o cavalo selvagem que trazemos dentro de nós. Ele galopa desenfreado; cai na areia, exausto; sente a terra girar; tem – sem dúvida – um impulso de afeto para com pedras e relvas, como se a humanidade tivesse acabado; e quanto aos homens e mulheres, vamos esquecê-los – não podemos ignorar o fato de que tal desejo muitas vezes nos domina."


- Virginia Woolf
A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos.
MIA COUTO


No livro "Terra Sonâmbula"

Beco sem saída

( Ahmad shamlou , Irã 1979)

Eles cheiram sua boca
Para descobrir se você disse a alguém:
Eu te amo!
Eles cheiram seu coração
Tempos tão estranhos, minha cara.

Eles punem o amor 
em vias publicas
por açoitamento.
Devemos esconder o nosso amor em armários escuros!
Nesse tortuoso beco de um amargo frio
Eles mantem seu fogo vivo
Queimando nossos poemas e canções;
Não ponha sua vida em perigo por seus pensamentos!
Tempos tão estranhos ,minha cara!
Aquele que bate a sua porta no meio da noite
Sua missão é quebrar a sua lâmpada!
Devemos esconder nossas luzes em arrmários escuros!!!
Observe! Açougueiros estão em guarda nas ruas
Com seus cutelos ensanguentados e tabuas de corte
Tempos tão estranhos, minha cara.
Eles cortaram os sorrisos dos lábios
e as canções das gargantas.
Devemos esconder nossas emoções em armários escuros!

Ele assam canarios 
num fogo de jasmim e violetas!
Tempos tão estranhos ,minha cara.

Intoxicado pela vitória ,
Satan desfruta um banquete 
Em nossa mesa de luto.
Devemos esconder nosso Deus em armários escuros!


O SOBREVIVENTE



Carlos Drummond de Andrade

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema – uma linha que seja - de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.
Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para a digestão.
Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura.
Mas até lá, felizmente, estarei morto.
Os homens não melhoraram
E matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.
Desconfio que escrevi um poema.

 

Graciliano Ramos


Graciliano Ramos é um escritor cujo engajamento aparece no texto. É de dentro para fora. Natural, portanto, ver em todas as mesas da FLIP que trataram de sua obra certo contexto mais político. De minha parte fiquei feliz. Embora não possa afirmar – e seria irresponsabilidade se o fizesse, que ele apoiaria os atuais protestos, creio em seu posicionamento. Provavelmente estaria do lado daqueles que pedem: educação, saúde, segurança e infraestrutura. Destilaria todo o seu humor sarcástico contra a corrupção. Afinal, integridade sempre foi seu lema. Tenho observado quando passeio entre as postagens uma parcela muito grande, em tom jocoso, desmerecendo o movimento que foi para as ruas. Sou pela normalidade institucional, considero o atual governo legítmo, afinal foi eleito democraticamente, mas não tampo o sol com a peneira. Há muita coisa errada e o povo está certo em se manifestar. Os movimentos nasceram nas redes sociais, com a desordem própria delas. O Facebook invadiu as calçadas do jeito que é. Segmentos mais e menos conscientes representados. O mundo agora é assim, não espera lideranças. Há muito a ser pensado. Um país que tem Renan Calheiros como presidente do Senado, Henrique Alves como presidente da Câmara, Marco Feliciano na Comissão dos Direitos Humanos, deve ser olhado com atenção. Mais uma vez tentando adivinhar o sentimento “graciliânico” acredito que estaria pessimista, como sempre. Seria o mais razoável ante o quadro atual.

 (...)

Ricardo Ramos Filho

NOITES BRANCAS


"...há em Petersburgo muitos recantos estranhos. Nesses lugares parece que não penetra aquele mesmo sol que brilha para todos os petersburguenses, mas sim um outro, novo, enviado como que de propósito para esses recantos, e que brilha com uma luz diferente e particular. Nesses lugares, Nástienka querida, vive-se uma vida absolutamente diferente, que não se parece em nada com a que ferve à nossa volta, uma vida que poderia existir num reino distante e desconhecido mas não junto a nós, nesta nossa época séria, seríssima. Essa vida é uma mistura de algo puramente fantástico, calidamente ideal e, ao mesmo tempo (ai, Nástienka!), palidamente prosaico e comum, para não dizer vulgar até o inverossímil." (Fiodor Dostoievski)
 

 

Dialogo com Guimarães Rosa

"Escrevendo, descubro sempre um novo pedaço de infinito. Vivo no infinito; o momento não conta. Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida, também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa. Quando escrevo, repito o que vivi antes. E para estas duas vidas um léxico apenas não me é suficiente. Em outras palavras: gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. O crocodilo vem ao mundo como um magister da metafísica, pois para ele cada rio é um oceano, um mar da sabedoria, mesmo que chegue a ter cem anos de idade. Gostaria de ser um crocodilo, porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade."
 
- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz
 

 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Lavoura arcaica

Toda ordem traz uma semente de desordem, a clareza, uma semente de obscuridade, não é por outro motivo que falo como falo."


- Raduan Nassar, in: Lavoura arcaica, 1975.
"Outra afirmação nociva, sincera em alguns, mas que, para outros, é apenas desculpa, é que o meio social atual não permite que se seja moral, e que, conseqüentemente, é inútil tentar esforços destinados a permanecerem sem sucesso; o melhor a fazer, é tirar das circunstâncias atuais o máximo possível para si mesmo sem se preocupar com o próximo, exceto a mudar de vida quando a organização social tiver também mudado. Certamente, todo anarquista, todo socialista compreende as fatalidades econômicas que, hoje, obrigam o homem a lutar contra o homem; e ele vê, como bom observador, a impotência da revolta pessoal contra a força preponderante do meio social. Mas é igualmente verdade que, sem a revolta do indivíduo, associando-se a outros indivíduos revoltados para resistir ao meio e procurar transformá-lo, este meio nunca mudará.
Somos, todos sem exceção, obrigados a viver, mais ou menos, em contradição com nossas idéias; mas somos socialistas e anarquistas precisamente na medida em que sofremos esta contradição e que procuramos, tanto quanto possível, torná-la menor. No dia em que nos adaptássemos ao meio, não mais teríamos, é óbvio, vontade de transformá-lo, e nos tornaríamos simples burgueses; burgueses sem dinheiro, talvez, mas não menos burgueses nos atos e nas intenções."

Errico Malatesta



La senté en mis rodillas y le pedí que me contara. Ella negó con la cabeza. La acaricié, la besé en la frente. Se le escapó alguna lágrima. Con el pañuelo le sequé la cara y la soné. Entonces volví a pedirle: - Andá, decime.

Me contó que su mejor amiga le había dicho que no la quería. Lloramos juntos, no sé cuánto tiempo, abrazados los dos, ahí en la silla. Yo sentía las lastimaduras que Florencia iba a sufrir a lo largo de los años y hubiera querido que Dios existiera y no fuera sordo, para poder rogarle que me diera todo el dolor que le tenía reservado.

Eduardo Galeano

Poemas malditos, gozosos e devotos.




V

Para um Deus, que singular prazer.
Ser o dono de ossos, ser o dono de carnes
Ser o Senhor de um breve Nada: o homem:
Equação sinistra
Tentando parecença contigo, Executor.

O Senhor do meu canto, dizem? Sim.
Mas apenas enquanto dormes.
Enquanto dormes, eu tento meu destino.
Do teu sono
Depende meu verbo minha vida minha cabeça.

Dorme, inventado imprudente menino.
Dorme. Para que o poema aconteça.


XII

Estou sozinha se penso que tu existes.
Não tenho dados de ti, nem tenho tua vizinhança.
E igualmente sozinha se tu não existes.
De que me adiantam
Poemas ou narrativas buscando

Aquilo, que se não é, não existe
Ou se existe, então se esconde
Em sumidouros e cimos, nomenclaturas

Naquelas não evidências
Da matemática pura? É preciso conhecer
Com precisão para amar? Não te conheço.

Só sei que me desmereço se não sangro.
Só sei que fico afastada
De uns fios de conhecimento, se não tento.

Estou sozinha, meu Deus, se te penso.


XIX

Teus passos somem
Onde começam as armadilhas.
Curvo-me sobre a treva que me espia.

Ninguém ali. Nem humanos, nem feras.
De escuro e terra tua moradia?

Pegadas finas
Feitas a fogo e a espinho.
Teu passo queima se me aproximo.

Então me deito sobre as roseiras.
Hei de saber o amor à tua maneira.

Me queimo em sonhos, tocando estrelas.


XX

Move-te. Desperta.
Há homens à tua procura.
Há uma mulher, que sou eu.
A Terra mora na Via-Láctea
Eu moro à beira de estradas
Não sou pequena nem alta.

Sou muito pálida
Porque muito caminhei
Nas escurezas, no vício
De perseguir uns falares
Teus indícios.

Move-te Tua aliança com homens
Teu atar-se comigo
Tem muito de quebra e dessemelhança.
Muito de nós agonizam.
A terra toda. Há de ser quase
Brinquedo adivinhares
Onde reside o pó, onde reside o medo.

Não te demores.
Eu tenho nome: Poeira.

Move-te se te queres vivo.


XXI

Não te machuque a minha ausência, meu Deus,
Quando eu não mais estiver na Terra
Onde agora canto amor e heresia.
Outros hão de ferir e amar
Teu coração e corpo. Tuas bifrontes
Valias, mandarim e ovelha, soberba e timidez.

Não temas.
Meus pares e outros homens
Te farão viver destas duas voragens:
Matança e amanhecer, sangue e poesia.

Chora por mim. Pela poeira que fui
Serei, e sou agora. Pelo esquecimento
Que virá de ti e dos amigos.
Pelas palavras que te deram vida
E hoje me dão morte. Punhal, cegueira

Sorri, meu Deus, por mim. De cedro
De mil abelhas tu és. Cavalo-d’água
Rondando o ego. Sorri. Te amei sonâmbula
Esdrúxula, mas te amei inteira.



Hilda Hilst – Poemas malditos, gozosos e devotos.

Oi, da ne vecher

"Oi, to ne vecher" ou "Oi, da ne vecher" é uma antiga canção popular russa/cossaca, datada possivelmente do século XVII, então também conhecida por "O sonho de Stepan Razin". Stenka Razin, nascido na Rússia, foi um líder cossaco que liderou uma rebelião contra a burocracia da nobreza e dos tsares no sul da Rússia. Ela foi gravada por inúmeros artistas. Originalmente possuía 7 estrofes, que faziam referência expressa ao referido herói; algumas versões elevaram para 11 estrofes, mas na maioria das gravadas atualmente (como a que eu apresento aqui, com a Pelageya), há apenas quatro estrofes.

A canção refere-se a um sonho que o Sr. Razin teve, prenunciando a própria morte. Ele vê dois sinais de morte segundo a superstição cossaca: seu próprio cavalo descontrolado, e seu chapéu caindo da cabeça.

Ai, ainda não é noite, ainda não é no-oite.
Eu cochilei um pouqui-inho.
Eu cochilei um pouquinho,
Ai, e no sono eu tive um sonho.
Eu cochilei um pouquinho,
Ai, e no sono eu tive um sonho.

Eu vi em sonhos
Como se o meu cavalo preto
Ficasse selvagem, enlouquecesse,
Ai, pinoteasse debaixo de mim.
Ai, ficasse selvagem, enlouquecesse,
Ai, pinoteasse debaixo de mim.

Ah, vieram ventos ma-aus
Ah, da banda do oriente
Ah, e arrancaram o meu chapéu
Ai da minha cabeça temerária.
Ah, e arrancaram o meu chapéu
Ai da minha cabeça temerária.

Mas o nosso capitão era perspicaz,
Ele foi capaz de decifrar o meu sonho.
Ai, perderás, ele fala,
A tua cabeça temerária
Ai, perderás, ele fala,
A tua cabeça temerária.

Ai, ainda não é noite, ainda não é no-oite.
Eu cochilei um pouqui-inho.
Eu cochilei um pouquinho,
Ai, e no sono eu tive um sonho.
Eu cochilei um pouquinho,
Ai, e no sono eu tive um sonho.

*em russo*

Ой, да не вечер, да не ве-ечер.
Мне малым-мало спало-ось.
Мне малым-мало спалось,
Ой, да во сне привиделось.
Мне малым-мало спалось,
Ой, да во сне привиделось.

Мне во сне вчера привиделось
Будто конь мой вороной
Разыгрался, расплясался,
Ой, разрезвился подо мной.
Разыгрался, расплясался,
Ой, разрезвился подо мной.

Ой, налетели ветры злы-ые,
Да с восточной стороны,
И сорвали черну шапку
С моей буйной головы.
И сорвали черну шапку
С моей буйной головы.

А есаул-то наш догадлив был,
Он сумел сон мой разгадать.
Ой, пропадет он говорил мне
Твоя буйна голова.
Ой, пропадет он говорил мне
Твоя буйна голова.

Ой, да не вечер, да не ве-ечер.
Мне малым-мало спало-ось.
Мне малым-мало спалось,
Ой, да во сне привиделось.
Мне малым-мало спалось,
Ой, да во сне привиделось.


E entre esses crimes [contra a literatura], o mais sério não é a perseguição dos autores, não é a censura e etc., nem mesmo a entrega dos livros à fogueira. Há um crime mais sério - a negligência dos livros, sua não-leitura. Por este crime as pessoas pagam durante toda a sua vida: se uma nação comete o mesmo crime, ela paga durante toda a sua história.

Joseph Brodsky


Malone Morre

Servem-me sopa. Eles devem saber que não tenho mais dentes. Tomo a sopa uma vez em cada duas que me servem, uma vez a cada três, em média. Quando meu urinol está cheio, eu o coloco ao lado do prato. Daí, fico vinte e quatro horas sem urinol. Não, tenho dois. Tudo foi previsto. Estou nu na cama, sob as cobertas, que eu aumento ou diminuo conforme as estações. Nunca sinto calor, nem frio. Não me lavo nunca, mas também não me sujo. Quando sinto que algum lugar do meu corpo está sujo, esfrego-o com o dedo molhado de saliva. O essencial é comer e cagar. Parto e penico, penico e prato, esses são os dois pólos da vida.


Samuel Beckett

sábado, 6 de julho de 2013

Eu não gosto de falar de felicidade

 "Eu não gosto de falar de felicidade, mas sim de harmonia: viver em harmonia com a nossa própria consciência, com o nosso meio envolvente, com a pessoa de quem se gosta, com os amigos. A harmonia é compatível com a indignação e a luta; a felicidade não, a felicidade é egoísta."
 

- José Saramago, in 'La Jornada' (1998).

Grande Sertão: veredas

"Viver é muito perigoso... Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa... O mais difí­cil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra."

- João Guimarães Rosa


'Lavoura Arcaica


“... rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando aberto para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é.”

- Raduan Nassar

Quando nós estávamos na guerra



Quando nós estavamos na guerra,
Quando nós estavamos na guerra,
Lá cada um pensava
na sua amada ou esposa.
Lá cada um pensava
na sua amada ou esposa.

E eu, é claro, poderia pensar,
E eu, é claro, poderia pensar,
Quando olhava para o cachimbo,
para a sua fumaça azul,
Quando olhava para o cachimbo,
para a sua fumaça azul,

Como você um dia mentiu pra mim,
Como você um dia mentiu pra mim,
Mas o seu coração de menina
há muito entregara a outro.
Mas o seu coração de menina
há muito entregara a outro.

Mas eu não pensei nisso,
Mas eu não pensei nisso,
E apenas fumava
o tabaco amargo turco no cachimbo
E apenas fumava
o tabaco amargo turco no cachimbo

Eu só estou esperando a bala certa,
Eu só estou esperando a bala certa,
Para acabar com a minha tristeza
e para aniquilar nossa inimizade.
Para acabar com a minha tristeza
e para aniquilar nossa inimizade.

Quando nós estivermos na guerra,
Quando nós estivermos na guerra,
Voarei ao encontro das balas
no meu cavalo preto.
Voarei ao encontro das balas
no meu cavalo preto.

Mas aparentemente a morte não é pra mim
Mas aparentemente a morte não é pra mim
E de novo o meu cavalo preto
me traz de volta do fogo
E de novo o meu cavalo preto
me traz de volta do fogo.

~em russo~

Когда мы были на войне

Когда мы были на войне,
Когда мы были на войне,
Там каждый думал о своей
Любимой или о жене.
Там каждый думал о своей
Любимой или о жене.

И я, конечно, думать мог,
И я, конечно, думать мог,
Когда на трубочку глядел,
На голубой ее дымок,
Когда на трубочку глядел,
На голубой ее дымок.

Как ты когда-то мне лгала,
Как ты когда-то мне лгала,
Но сердце девичье свое
Давно другому отдала.
Но сердце девичье свое
Давно другому отдала.

Но я не думал ни о чем,
Но я не думал ни о чем,
Я только трубочку курил
С турецким горьким табачком.
Я только трубочку курил
С турецким горьким табачком.

Я только верной пули жду,
Я только верной пули жду,
Чтоб утолить печаль свою
И чтоб пресечь нашу вражду.
Чтоб утолить печаль свою
И чтоб пресечь нашу вражду.

Когда мы будем на войне,
Когда мы будем на войне,
Навстречу пулям полечу
На вороном своем коне,
Навстречу пулям полечу
На вороном своем коне.

Но видно смерть не для меня
Но видно смерть не для меня
И снова конь мой вороной
Меня выносит из огня
И снова конь мой вороной
Меня выносит из огня


Tuca

Faz algum tempo
fomos todos os filmes de amor do mundo
todas as árvores do inferno.
Viajávamos em trens que uniam nossos corpos
à velocidade do desejo.

Como sempre, a chuva caía em toda parte.

Hoje nos encontramos na rua.
Ela estava com seu marido e seu filho;
Éramos o grande anacronismo do amor,
a parte pendente de uma montagem absurda.
Parece uma lei: tudo o que apodrece forma uma família.


Fabián Casas, “Tuca”, Libros de Tierra Firme, 1990.

Prefiro a liberdade perigosa à tranquila servidão



"Acrescentemos que não há forma de governo tão sujeita às guerras civis e às agitações intestinas quanto a forma democrática ou popular, porque não há outra que tenda tão forte e continuamente a mudar de forma, nem que exija mais vigilância e coragem para ser mantida na forma original. É sobretudo nessa constituição que o cidadão deve armar-se de força e constância, e ter presente no coração, todos os dias da vida, o que dizia um palatino virtuoso na dieta da Polônia: Malo periculosam libertatem quam quietum servitium (Prefiro a liberdade perigosa à tranquila servidão)" (Rousseau)

Renúncia


Chora de manso e no íntimo... Procura
Curtir sem queixa o mal que te crucia:
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.

Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será, ela só, tua ventura...

A vida é vã como a sombra que passa...
Sofre sereno e de alma sobranceira,
Sem um grito sequer, tua desgraça.

Encerra em ti tua tristeza inteira.
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...


- Manuel Bandeira, [Teresópolis, 1906. - De Carnaval (1919)].

Europas Schande

Das neue politische Gedicht "Europas Schande" von Günter Grass hier in voller Länge.


Dem Chaos nah, weil dem Markt nicht gerecht,
bist fern Du dem Land, das die Wiege Dir lieh.

Was mit der Seele gesucht, gefunden Dir galt,
wird abgetan nun, unter Schrottwert taxiert.

Als Schuldner nackt an den Pranger gestellt, leidet ein Land,
dem Dank zu schulden Dir Redensart war.

Zur Armut verurteiltes Land, dessen Reichtum
gepflegt Museen schmückt: von Dir gehütete Beute.

Die mit der Waffen Gewalt das inselgesegnete Land
heimgesucht, trugen zur Uniform Hölderlin im Tornister.

Kaum noch geduldetes Land, dessen Obristen von Dir
einst als Bündnispartner geduldet wurden.

Rechtloses Land, dem der Rechthaber Macht
den Gürtel enger und enger schnallt.

Dir trotzend trägt Antigone Schwarz und landesweit
kleidet Trauer das Volk, dessen Gast Du gewesen.

Außer Landes jedoch hat dem Krösus verwandtes Gefolge
alles, was gülden glänzt gehortet in Deinen Tresoren.

Sauf endlich, sauf! schreien der Kommissare Claqueure,
doch zornig gibt Sokrates Dir den Becher randvoll zurück.

Verfluchen im Chor, was eigen Dir ist, werden die Götter,
deren Olymp zu enteignen Dein Wille verlangt.

Geistlos verkümmern wirst Du ohne das Land,
dessen Geist Dich, Europa, erdachte.


A vergonha da Europa

Embora próxima ao caos, não para agradar o mercado,  longe estás da terra que foi seu berço.

Que com a alma você buscou e acreditou encontrar

Hoje o desejas, pior do que lixo valorizado.

Nu no pelourinho do devedor sofre uma nação para quem das graças era mais que natural.

País condenado a ser pobre, cuja riqueza

adorna cuidados museus botin por você vigiado

Os que invadiram com armas esta terra bendita de ilhas levavam, com seu uniforme,  Hölderlin na mochila.

País tolerado e justo, cujos coronéis

toleraste um dia como parceiros.

País sem lei que o poder, que está sempre certo, aperta o cinto cada vez mais.

Desafiando-te, veste-se de negro Antígona, e todo o país veste luto hoje o povo cujo hospede eras.

Mas, fora do país, o namoro de parentes de Creso acumulou em suas câmeras tudo que dourava reluzente

Beba de uma vez, baby! grita o clack dos comissários, mas com raiva Sócrates retorna seu copo transborda.

Amaldiçoaram os deuses em coro aquilo que pertence a você, mas sem a sua permissão não pode ser expropriado o Olympus.


Sem esse país vais murchar, Europa, desprovida do espírito que te concebeu.


terça-feira, 2 de julho de 2013

El ser


“El ser que espero no es real. El otro viene allí donde yo lo espero, allí donde yo lo he creado ya. Y si no viene lo alucino: la espera es un delirio.”


— Roland Barthes

segunda-feira, 1 de julho de 2013

As utopias



Utopias
são facas
de dois
gumes:

Num dia
dão flores,
noutro
são estrume.

Na travessia
do deserto
as utopias
são miragens.

Mas como
se alimentar
de paisagens?

As utopias
mobilizam.
E a longo prazo
paralisam.

Utopias
são ambíguas:
podem aliviar
no presente
as fadigas,
mas no futuro
levam a um muro
sem saída.

Mais que
dilema
bigume:
estrela
e negrume,
trampolim
e tapume
ou fênix
implume,
nenhuma
imagem
as utopias
resume.

As utopias
são facas
de três gumes.

Affonso Romano de Sant'Anna; in: Intervalos amorosos e outros poemas escolhidos


cidadão e consumidor



""Quando se confundem cidadão e consumidor, a educação, a moradia, a saúde, o lazer aparecem como conquistas pessoais e não como direitos sociais. Até mesmo a política passa a ser uma função do consumo. Essa segunda natureza vai tomando lugar sempre maior em cada indivíduo, o lugar do cidadão vai ficando menor, e até mesmo a vontade de se tornar cidadão por inteiro se reduz."
Milton Santos - geógrafo e professor na USP.

O barão nas árvores

Para conservar os livros, Cosme construiu em diversas ocasiões algo semelhante a bibliotecas pênseis, protegidas da chuva e dos roedores, mas mudava-a constantemente de lugar, segundo estudos e os gostos do momento, pois ele considerava os livros um pouco como pássaros e não queria vê-los parados ou engaiolados, senão entristeciam.Na mais maciça daquelas estantes aéreas alinhava os tomos da Enciclopédia, de Diderot e D'Alembert, á medida que lhe chegavam de um livreiro de Livorno. E mesmo que, nos últimos tempos, à força de estar em meio aos livros ficara com a cabeça meio nas nuvens, cada vez menos interessado pelo mundo ao redor, agora, a leitura da Enciclopédia, certos belíssimos verbetes como Abeille, Arbre, Bois, Jardin faziam-no redescobrir todas as coisas em torno como novas. Dentre os livros que encomendava começaram a figurar também manuais de artes e ofícios, por exemplo, a arboricultura, e não via a hora de aplicar os novos conhecimentos.


 De Italo Calvino.

OS PROTESTOS PRECISAM SE FOCAR NA CRÍTICA AO CAPITALISMO



“As manifestações atuais são relevantes, mas não estão atacando a estrutura. É revelador que as pessoas destinem seus impulsos de agressividade e de ódio à arena política estatal, mas quase nunca ao campo econômico e ao próprio sistema capitalista. Por exemplo, ao criticar o transporte público, voltamos os olhos para o papel do Estado, mas esquecemos das empresas e dos empresários que operam as máquinas do transporte público. As pessoas estão mirando um horizonte de conquistas imediatas, talvez porque compreendam os limites da política e dos governantes. No mais das vezes, os manifestantes querem riscar do mapa as estruturas políticas impostas, mas, sem propor alternativas, tendem a substituí-las por estruturas similares. No fim, com o estoque de utopias que temos agora, se nos fosse dada a possibilidade de reescrever essa história, escreveríamos o mesmo que já lemos antes. Não temos tinta nas mãos para escrever coisas novas nessas páginas.”

Alysson Leandro Mascaro, autor de “Estado e forma política”, em entrevista para o jornal O Estado de São Paulo: http://goo.gl/Yitfv

O ebook de "Estado e forma política" já está disponível: http://bit.ly/14mqRZ4


Estado

 “[...] o Estado nunca enfrenta a consciência intelectual ou moral de um homem, mas apenas seu corpo, seus sentidos. Não está equipado com inteligência ou honestidade superiores, mas com força física superior.”

- Henry David Thoreau

domingo, 30 de junho de 2013

O Espírito de Liberdade

“O homem transfere para o ídolo suas paixões e qualidades. Quanto mais se empobrece, tanto maior e mais forte se torna o ídolo. Este é a forma alienada da experiência que o homem tem de si mesmo. Ao cultuar o ídolo, o homem cultua a si mesmo. Mas esse ‘eu’ é um aspecto parcial, limitado, do homem: sua inteligência, sua força física, sua energia, fama etc. identificando-se com um aspecto parcial de si mesmo, o homem limita-se a tal aspecto; perde sua totalidade de ser humano e deixa de crescer. É dependente do ídolo, já que somente na submissão a ele encontra a sombra, embora não a substância de si mesmo.” 
(Erich Fromm, “O Espírito de Liberdade”)


Discurso de posse, em 1994

"Nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes.
Nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos amedronta.
Nos perguntamos: "Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível?" Na verdade, quem é você para não ser tudo isso?...Bancar o pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de você.
E à medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo".

(Discurso de posse, em 1994)
Nelson Mandela

Adorável, irmãos, adorável


Como no terrível Terek os cossacos expulsaram,
Os cossacos expulsaram 40 mil cavaleiros.
E cobriram os campos, e cobriram as praias,
Centenas de pessoas picadas e feridas a tiro.

Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.
Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.

O nosso atamã sabe quem escolhe
"Esquadrão, montar", mas esqueceram de mim
Eles permanecem animados na ação dos cossacos
Me deixaram no chão empoeirado e ardente.

Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.
Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.

E a primeira bala, e a primeira bala
A primeira bala feriu o cavalo na pata.
E a segunda bala, a segunda bala,
A segunda bala me feriu no coração.

Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.
Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.

A minha esposa vai lamentar um tempo, e então casar-se com outro
Casar com meu camarada, esquecer de mim
Apenas lamento pela liberdade no campo amplo
Apenas lamento por meu sabre afiado e por meu cavalo pardo.

Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.
Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.

E minhas tranças castanhas, e meus olhos brilhantes,
A grama, as ervas e o absinto logo irão cobrir.
E meus ossos brancos, e meu coração valente,
Os gaviões e os corvos espalharão pela estepe.

Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.
Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.

~em russo~

Любо, братцы, любо

Как на грозный Терек выгнали казаки,
Выгнали казаки сорок тысяч лошадей.
И покрылось поле и покрылся берег,
Сотнями порубленных, пострелянных людей.

Любо, братцы, любо,
любо, братцы, жить
С нашим атаманом не приходится тужить.
Любо, братцы, любо,
любо, братцы, жить
С нашим атаманом не приходится тужить.

Атаман наш знает кого выбирает,
"Эскадрон, по коням", да забыли про меня.
Им осталась воля да казачья доля,
Мне осталась пыльная, горючая земля.

Любо, братцы, любо,
любо, братцы, жить
С нашим атаманом не приходится тужить.
Любо, братцы, любо,
любо, братцы, жить
С нашим атаманом не приходится тужить.

А первая пуля, а первая пуля,
А первая пяля в ногу ранила коня.
А вторая пуля, а вторая пуля,
А вторая пуля в сердце ранила меня.

Любо, братцы, любо,
любо, братцы, жить
С нашим атаманом не приходится тужить.
Любо, братцы, любо,
любо, братцы, жить
С нашим атаманом не приходится тужить.

Жинка погорюет, выйдет за другого.
За мого товарища, забудет про меня.
Жалко только волюшки во широком полюшке,
жалко сабли вострой да буланного коня.

Любо, братцы, любо,
любо, братцы, жить
С нашим атаманом не приходится тужить.
Любо, братцы, любо,
любо, братцы, жить
С нашим атаманом не приходится тужить.

Кудри мои русые, очи мои светлые,
Травами, бурьяном, да полынью зарастут.
Кости мои белые, сердце мое смелое,
Коршуны да вороны по степи разнесут


RETORNELLO


Nunca mais retornemos ao jardim
como rosas ou lírios ou alegres girassóis
nem como ave celebrando no cipreste
o renascimento infinito da plumagem
em forma de uma flor qualquer.

Soldados armados de ventos uivantes
passariam por lá como nuvens explosivas
e arrastariam nossas almas renascidas
para a invernada dos espinhos.

Retornemos ao jardim em forma
de esperanças e sonhos e quimeras
porque os ventos ceifariam apenas
nossas flores...
Mas não saberiam como levar
as nossas primaveras...

Julis Calderón

(Numa lembrança de Che Guevara)

Vida


Para um destino incerto caminhamos,
Tontos de luz, dentro de um sonho vão;
E finalmente, a gloria que alcançamos
Nem chega a ser uma desilusão!

Levanta-se da sombra, entre altos ramos,
Como um fumo a subir, lento, do chão,
A distancia que tanto procuramos,
E os nossos braços nunca atingirão.

Mas um dia, perdidos, hesitante,
A alma vencida e farta, as mãos tateantes,
De repente, paramos de lutar;

E ao nosso olhar, cansado de amargura,
As montanhas têm muito mais altura,
O céu mais astros, e mais água o mar!


- Ronald de Carvalho, no livro “Poemas e Sonetos”, 1919.

O pântano


Podem vê-lo, sem dor, meus semelhantes!...
Mas, para mim que a Natureza escuto,
Este pântano é o túmulo absoluto,
De todas as grandezas começantes!

Larvas desconhecidas de gigantes
Sobre o seu leito de peçonha e luto
Dormem tranqüilamente o sono bruto
Dos superorganismos ainda infantes!

Em sua estagnação arde uma raça,
Tragicamente, à espera de quem passa
Para abrir-lhe, às escâncaras, a porta...

E eu sinto a angústia dessa raça ardente
Condenada a esperar perpetuamente
No universo esmagado da água morta!


- Augusto dos Anjos, in "Eu e outras poesias". 42ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

Cárcere das Almas


Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
Que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!

Ó Formas vagas, nebulosidades!
Essência das eternas virgindades!
Ó intensas quimeras do Desejo...


- Cruz e Sousa, do livro Últimos Sonetos, 1905.
Tira-me a luz dos olhos: continuarei a ver-te
Tapa-me os ouvidos, continuarei a ouvir-te
E embora sem pés caminharei para ti
E já sem boca poderei ainda convocar-te.
Arranca-me os braços: continuarei abraçando-te
Com o meu coração como com a mão
Arranca-me o coração: ficará o cérebro
E se o cérebro me incendiares também por fim
Hei-de então levar-te no meu sangue.

---

“Gosta de rosas? Parece-me agora que todas as rosas do mundo florescem para ti e graças a ti – e que apenas uma generosa renúncia tua permite à Primavera mantê-las e fingir que são delas”



-Rilke a Lou Andreas Salomé, Correspondência.

Poética


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


- Manuel Bandeira, no livro "Libertinagem e Estrela da Manhã". 14ª ed., Editora Nova Fronteira, 2000, pág. 32-33.
Se tantas vezes te importuno, ó Deus meu vizinho,
batendo forte à tua porta na noite extensa,
é porque te ouço respirar, da tua presença
sei: estás na sala, sozinho.
Se de algo precisares, não há ninguém ali
que possa te trazer um gole d’água sequer.
Vivo sempre à escuta. Dá-me um sinal qualquer.
Estou bem perto de ti.

Entre nós há apenas um muro, coisa pouca,
por mero acaso aliás;
bem pode ser que um grito da tua ou minha boca —
e eis que se desfaz
sem só rumor ou ruído.

Com imagens tuas o muro foi construído.

Diante de ti tuas imagens são como nomes.
E quando um dia dentro de mim esteja acesa
a luz com que te conhece minha profundeza,
será, nas molduras, brilho que se esbanja e some.

E os meus sentidos, que um torpor célere consome,
estão sem pátria, exilados da tua grandeza.


Rilke | O livro de Horas | Trad. José Paulo Paes
Tu, escuridão da qual descendo
de ti gosto mais que da labareda:
ela reduz
o mundo em que reluz
a uma espécie de círculo
fora do qual nenhum ser a conhece.

já a escuridão, em si tudo contém:
formas e flamas e animais, e eu
- assim como também ela reúne
pessoas e potências…

e pode ser isto: uma grande força
a se mover nos subúrbios de mim…

Acredito nas noites.

Trad. Geir Campos

*

Tu, obscuridade de onde emana
meu ser, amo-te mais do que à chama
que o mundo reduz
ao círculo da sua luz:
ali dentro, resplandece;
fora dali, ser nenhum a reconhece.

Mas na obscuridade tudo se contém:
as formas e as chamas, os animais e eu também,
nela que consorcia
existências e energias —

Pode bem ser que uma força sombria
se mova em minhas cercanias.

É às noites que minha alma se confia.

Trad. José Paulo Paes


Rilke | O livro de Horas
Nunca te vi, que não tivesse o desejo de te rezar. Nunca te ouvi, que não tivesse o desejo de acreditar em ti. Nunca te esperei, sem o desejo de sofrer por ti. Nunca te desejei, sem ter também o direito de me ajoelhar à tua frente. Sou para ti como o bastão para o caminhante, mas sem te apoiar. Sou para ti como o cetro é para o rei, mas sem te enriquecer. Sou para ti como a última pequena estrela é para a noite, ainda que a noite mal a distinguisse e ignorasse a sua cintilação.

René


Rilke | "Correspondência Amorosa", Rainer Maria Rilke e Lou Andreas-Salomé | trad. Manuel Alberto, Relógio D'Água Editora.