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domingo, 2 de agosto de 2015

Vozes anoitecidas



"Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não das raças, mas de existências."

Mia Couto

domingo, 5 de janeiro de 2014

'venenos de deus, remédios do diabo'

- Tens medo de fazer amor comigo?
- Tenho - respondeu ele.
- Por eu ser preta?
- Tu não és preta.
- Aqui, sou.
- Não, não é por seres preta que eu tenho medo.
- Tens medo que eu esteja doente...
- Sei prevenir-me.
- É porquê, então?
- Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti.

[mia couto, 'venenos de deus, remédios do diabo']

domingo, 13 de outubro de 2013

Lições


Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trêmula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?

- Mia Couto, no livro "Idades Cidades Divindades",

Lisboa, Caminho, 2007.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos.
MIA COUTO


No livro "Terra Sonâmbula"

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O Espelho


Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

- Mia Couto, no livro "Idades Cidades Divindades",

Lisboa, Caminho, 2007.

domingo, 26 de maio de 2013

"Para quem vive numa jaula, afogar-se é o melhor que lhe pode suceder.".

 (Por MIA COUTO)

terça-feira, 21 de maio de 2013

Poema Mestiço





escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico

sangro norte
em coração do sul

na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo

hei-de
começar mais tarde

por ora
sou a pegada
do passo por acontecer...
MIA COUTO

No livro "Raiz de Orvalho e outros poemas"

domingo, 28 de abril de 2013



O que mais dói na miséria é a
ignorância que ela tem de si mesma.
Confrontados com a ausência de tudo,
os homens abstém-se do sonho,
desarmando-se do desejo de serem outros.

MIA COUTO, No livro "Vozes Anoitecidas"

domingo, 21 de abril de 2013



Palavra que desnudo
Entre a asa e o vôo
nos trocamos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a imperceptível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo

- Mia Couto, no livro "Raiz de Orvalho e outros poemas"

sábado, 13 de abril de 2013



Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia
 
pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia
 
fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei
 
eu vi
a árvore morta
e soube que mentia
 
(Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas")

sábado, 23 de março de 2013



"O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro."
(Fala de Tuahir)



- in "Terra sonâmbula", de Mia Couto.