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sábado, 8 de fevereiro de 2014

O conceito do Brasil cordial



Sergio Buarque de Holanda, o pai do Chico, formulou já faz um tempo o conceito do Brasil cordial. Precisa ser revisto. Deixamos de ser amistosos. Substituímos o carinho com que tratávamos uns aos outros por leis bem mais mesquinhas. Venceu a de Gerson: “farinha pouca meu pirão primeiro”. Lutamos para levar vantagem, passamos por cima de quem estiver no caminho, quase sempre com pouca ética. E na sanha de ganhar acabamos endurecendo o coração, perdendo a gentileza, estranhando quem está ao nosso lado. Talvez por termos tão pouco em todas as áreas. O resultado é uma sociedade assustadora em muitos sentidos. Violenta, conservadora, incapaz de observar com sensibilidade qualquer problema. A nossa gente continua não fugindo à luta. Mas tornou-se belicosa e cruel. Alia-se ao que há de mais reacionário em termos de pensamento. A merencoria luz da lua entranhou-se nos espíritos. Há uma dura melancolia nos envolvendo.

Ricardo Ramos Filho

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Graciliano Ramos


Graciliano Ramos é um escritor cujo engajamento aparece no texto. É de dentro para fora. Natural, portanto, ver em todas as mesas da FLIP que trataram de sua obra certo contexto mais político. De minha parte fiquei feliz. Embora não possa afirmar – e seria irresponsabilidade se o fizesse, que ele apoiaria os atuais protestos, creio em seu posicionamento. Provavelmente estaria do lado daqueles que pedem: educação, saúde, segurança e infraestrutura. Destilaria todo o seu humor sarcástico contra a corrupção. Afinal, integridade sempre foi seu lema. Tenho observado quando passeio entre as postagens uma parcela muito grande, em tom jocoso, desmerecendo o movimento que foi para as ruas. Sou pela normalidade institucional, considero o atual governo legítmo, afinal foi eleito democraticamente, mas não tampo o sol com a peneira. Há muita coisa errada e o povo está certo em se manifestar. Os movimentos nasceram nas redes sociais, com a desordem própria delas. O Facebook invadiu as calçadas do jeito que é. Segmentos mais e menos conscientes representados. O mundo agora é assim, não espera lideranças. Há muito a ser pensado. Um país que tem Renan Calheiros como presidente do Senado, Henrique Alves como presidente da Câmara, Marco Feliciano na Comissão dos Direitos Humanos, deve ser olhado com atenção. Mais uma vez tentando adivinhar o sentimento “graciliânico” acredito que estaria pessimista, como sempre. Seria o mais razoável ante o quadro atual.

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Ricardo Ramos Filho

quinta-feira, 28 de março de 2013



Ricardo Ramos Filho

Outro dia peguei um taxi. Corrida curta que o tráfego complicado transformou em oportunidade de prolongado bate-papo. O motorista era jovem e falava pelos cotovelos. A mesma reclamação de todos: excesso de multas. Contou-me sobre um médico conhecido dele. A figura comprou um carro e registrou como sendo da sogra, velhinha entrevada e desabilitada, para tentar fugir do acúmulo de pontos na carteira. No andar da carruagem acabaria tendo a licença para conduzir o veículo suspensa. Achei a ideia boa, ainda não tinha pensado nela. No trajeto passamos por alguns radares. Agora em cada esquina existe um com diversas funções: punir excesso de velocidade, verificar se o indivíduo está burlando o dia do rodízio, se ultrapassou o farol vermelho. Como tudo em nosso grande país desimportante o intuito não é educar, ensinar o povo a andar dentro de normas civilizadas. O negócio é faturar, encher os cofres da administração, autuar o cidadão. E então o Jurandir, nessa altura já sabia o nome do rapaz, fez-me uma confissão, em tom um pouco mais baixo. Contou-me que à noite, na madrugada fria paulistana, reúne uns camaradas e sai detonando os delatores eletrônicos. Quebram o maior número possível. Olho por olho, dente por dente. Fiquei calado ouvindo. Meu primeiro impulso foi condenar a atitude. Afinal são equipamentos caros, comprados com o dinheiro dos nossos impostos. Mas já estávamos chegando ao meu destino. Paguei a corrida, nos despedimos. Desejou que eu fosse com Deus. Sempre acho engraçado quando me pedem para ir com Ele. Dentro do elevador senti vontade de quebrar a câmera que me vigiava.