domingo, 12 de dezembro de 2010

Elegia IX - Outonal

Nenhuma beleza de Primavera ou Verão em tal graça

Como a que descobri numa face Outonal.

As jovens Belezas forçam-nos ao amor: isso é Violação;

Esta apenas aconselha, e não lhe podemos escapar.

Se fosse vergonha amar, não seria vergonha aqui

Onde a Afeição toma o nome de Reverência.

Foram-lhe os primeiros anos a Idade de Ouro? É verdade,

Mas ela agora é ouro bem martelado e sempre novo.

Aquele foi o seu tempo tórrido e inflamador,

Este é o seu temperado clima Tropical.

Olhos belos, quem vos pedir mais fogo que o emanado,

É porque, febril, deseja a pestilência.

Não chamem campas a estas rugas; se campas fossem

Seriam as do amor, porque ele não está noutro lugar.

Porém o amor não jaz aqui morto, mas aqui se senta

Consagrado a esta trincheira, como um Anacoreta;

E aqui até que a morte dela, que será a dele, chegue

Não cavará uma Campa, mas erigirá um Túmulo.

Aqui habita; e apesar de viajar por todo o lado

Com Estadão, é ainda aqui a sua residência fixa:

Aqui onde está calma a Tarde, não o meio-dia ou a noite,

Sem voluptuosidades, porém toda deleite.

Todas as palavras dela, próprias a todos os ouvintes

Seja no Folgar, seja em Conselho, podemos seguir.

Este é o madeiro do amor, a juventude os seus arbustos;

Ali ele, como vinho em Junho, faz ferver o sangue,

Que depois se tempera, quando o nosso gosto

E apetite de outras coisas é passado.

O estranho amor Lídio de Xerxes, o Plátano,

Foi amado pela idade, e porque nenhum era maior,

Ou então porque, sendo jovem, a natureza lhe abençoou

A juventude com a glória da idade, a Esterilidade.

Se amamos as coisas há muito procuradas, a Idade é algo

Que levamos cinquenta anos a conquistar.

Se as coisas são transitórias, e cedo se corrompem,

A Idade será mais amável nos seus últimos dias.

Mas não nomeiam Faces Invernais, de pele flácida,

Descarnadas como um saco vazio, antes a bolsa da alma;

Cujos Olhos buscam luz de dentro, pois tudo aqui é sombra;

Cujas bocas são buracos, mais gastos do que feitos;

Em que um a um cada dente partiu para vários lugares

A fim de lhes humilhar as almas na Ressurreição:

Não me nomeiem essas Cabeças mortas viventes,

Porque estas não são Anciãs, mas Antigas.

Odeio extremos; porém antes preferia ficar

Com Tumbas do que Berços;para passar um dia.

Dado que tal é o movimento natural do amor, possa ainda

O meu amor abrandar, e viajar monte abaixo

Nunca a suspirar atrás de belezas em crescimento. Assim,

Irei definhando no fluxo dos que se dirigem para casa.







John Donne in Elegias Amorosas. Edição bilingue. Trad. Helena Barbas. Assírio & Alvim, 1997.,pp49/51

Sua Putidade o Crimertídaco

Esse filho de quem nem pode chamar-se bem uma puta,

persegue-me, arranha-me, arrepela-me, cospe

sempre ao meu lado, e nos lugares aonde

julga que eu passei. Filho, como é,

do que nem pode chamar-se bem

uma puta, vive de cuspir, de arrepelar

de arranhar, de perseguir as sombras

que ele julga serem as de quem não passa

nos becos onde a mãe o deu à luz,

depois de untada a vida com lubrificante

que lhe ficou, brilhantina, agarrado ao cabelo,

e a mãe, logo que o viu, lhe calçou

meias verdes e lhe comeu o imbigo.

Filho do que, de puta, nem por prenha basta

para gerar um esterco assim tão penteado,

tão crítico, tão de meias verdes,

tão arrotantemente porco nas regueifas que

do cachaço ascendem ao tutano encefálico,

julga suinamente que não há lugares,

nem seres humanos, livres de presença

de Sua Putidade. Há.

Exactamente as pessoas e os lugares aonde

ser filho da puta é ser filho da puta,

com ou sem regueifas nas ideias

ou verdura nas meias,

ou brilhantina uterina

de quem lambido foi em sua mãe

antes de nascer para cri-mer-tí-da-co.





3 de Agosto de 1962

Jorge de Sena in Dedicácias. Guerra e Paz, Editores, 2010., pp.29

Cartas a Um Jovem Poeta

« (...)é bom estar só, pois a solidão é difícil, mas o facto de uma coisa ser difícil é mais uma razão para que a façamos.

Também amar é bom, pois o amor é difícil. Amor de um ser humano por outro: isso é talvez o mais difícil que nos está destinado, o extremo, a prova e o exame final, a obra para a qual toda as outras são apenas preparação. É por isso que os jovens, novos em todas as coisas, ainda não sabem amar: têm de aprender primeiro. Têm de aprender a amar, com todo o seu ser, com todas as suas forças concentradas no coração que bate inquieto e ansioso. Mas o tempo de aprender é sempre prolongado e fechado, e assim é o amor por muito tempo e pela vida fora; a solidão é para aquele que ama um isolamento intenso e profundo. Amar não é, antes de mais, nada adquirido que se designa por abrir-se, entregar-se e unir-se a outra pessoa (pois o que seria uma união do ainda impreciso, do ainda por ordenar - ?) mas é um ensejo sublime para o indivíduo amadurecer - tornar-se algo dentro de si próprio, tornar-se mundo, mundo para si por amor a outra pessoa, é uma grande e ambiciosa exigência para ele, algo que o torna eleito e o destina à grandeza. Só neste sentido, como obrigação assumida de se trabalharem a si próprios («escutar e martelar noite e dia»), é que os jovens deveriam fazer uso do amor que lhes é oferecido. A perda no outro e a entrega a qualquer espécie de comunhão não é para eles (que ainda terão de poupar e juntar durante muito tempo, muito tempo) - é a finalização, é talvez aquilo para que as vidas quase já não chegam.



Rainer Maria Rilke in Cartas a Jovens Poetas. Trad. de Lino Marques Relógio D'Água Editores, 2003., pp 68/69

Uma mulher estranha

«Temos que voltar para casa. Os trenós rangem no gelo. Uma brisa suave atira-nos ao rosto com pequenos flocos de neve, e vemos então a luz das lâmpadas eléctricas como que através de um prisma. No cais, as casas iluminadas parecem enormes. Estreito levemente Natália pela cintura; mas não me atrevo a apertá-la mais. Sinto um milhão de sensações finas, subtis - mas as palavras não me ocorrem e não sei que lhe hei-de dizer. Em que está pensando a sua linda cabeça pequenita, que ela protegeu com o regalo? E forço-me por me lembrar do seu rosto, que agora não vejo e de que me esqueci completamente. Tenho junto de mim uma mulher que não conheço e que quero conhecer. Para quê? Para uma pequena e vulgar aventura amorosa? Não, não! Nada d'isso!

-Voltemos para casa.

-Sim, minha querida. Se me vierem à cabeça ideias vis a seu respeito, matar-me-ei.

Vejo que sofre, que é um ser que mal começou a viver e já tem o coração despedaçado. Lá em casa espera-a o marido moribundo. E um drama - e não se sabe qual dos dois sofre mais.»







N. Garin in Uma Mulher Estranha. Contos.Trad. Fernando Lopes Graça. Edições «Sírius», 1941, pp.128/129

Limites

Destas ruas que afundam o poente

Uma (mas qual?) já tenho percorrido

Pela última vez, indiferente

E sem adivinhá-lo, submetido



A Quem prefixa omnipotentes normas

E uma secreta e rígida medida

Às sombras e aos sonhos e às formas

Que destecem e tecem esta vida.



Se para tudo há um termo e há medida,

Última vez e nunca mais e olvido,

Nesta casa de que pessoa querida

Nos despedimos sem ter sabido?



A noite cessa p'ra lá da vidraça

E da pilha dos livros que truncada

Sombra pela indecisa mesa espaça

Há-de havê-los dos quais não lemos nada.



No Sul ao menos um portão arruinado

Existe com jarrões de alvenaria

E nopais dentro, que me está vedado

Como se fosse uma litografia.



Fechaste alguma porta pela certa

E para sempre. Um espelho em vão te aguarda.

Julgavas a encruzilhada aberta

E Jano quadrifonte está de guarda.



Entre as tuas memórias uma existe

Que sem remédio se veio a perder;

Àquela fonte não te hão-de ver

Descer o branco sol, a lua triste.



Não volta a tua voz a quanto o persa

Disse em língua de aves e de rosas,

Quando ao sol-pôr, perante a luz dispersa,

Quiseres dizer inolvidáveis cousas.



E o incessante Ródano e o lago,

Esse ontem, sobre o qual hoje me inclino,

Tão perdido estará como Cartago,

Sepulta em fogo e sal pelo latino?



Parece-me na alva que soou

Vivo rumor de gente. Assim vos vais,

(Foi tudo quem me quis e me olvidou)

Espaço e tempo e Borges já deixais.





Jorge Luis Borges in Poemas Escolhidos. Edição bilingue. Selecção e Trad. Ruy Belo.

Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp.31-33

Elegia I - CIÚME

Mulher carinhosa, que verteu marido morto desejas

E de seus grandes ciúmes ainda te queixas.

Se inchado de veneno jazesse no seu último leito,

O corpo coberto por uma crosta cauterizada,

Aspirando o ar, tão rouco e rápido, como pode

Cravejar o mais ágil músico;

Com repugnante vomitado, pronto a expelir

A alma para fora de um Inferno, adentro de novo,

Feito surdo pelos urros uivantes dos parentes pobres

A implorar, com poucas e falsas lágrimas, grandes legados,

Não chorarias, mas alegre e prazenteira estarias

Como um escravo, que amanhã fosse libertado.

Porém tu choras, quando o vês engolir avidamente

A sua própria morte, o ciúme que envenena o coração.

Oh, agradece-lhe muito, ele é bem-educado,

Pois suspeitando, amavelmente nos avisou

Que não devemos, como usávamos, troçar abertamente

Da sua deformidade com enigmas de escárnio;

Nem estando juntos à sua mesa sentados,

Com palavras, toques, ou olhares de viés, adulterar;

Nem quando ele, inchado e satisfeito pela comezaina

Se senta, e ressona, enjaulando-se na cadeira de verga,

Deveremos nós outra vez usurpar-lhe a cama,

Nem beijarmo-nos e brincar na casa dele, como dantes.

Agora vejo grandes perigos; porque aquele é

O seu reino, o seu castelo, a sua diocese.

Mas - como os homens invejosos que insultariam

O seu Príncipe, ou lhe cunhariam o ouro, para outro país

A si próprios se exilam, e aí o fazem - ,

Se brincarmos noutra casa, que teremos a temer?

Ali zombaremos dos comportamentos caseiros,

Das suas intrigas cegas, e espiões a soldo,

Como o fazem os habitantes da margem direita do Tamisa

Ao Mayor de Londres, ou os alemães ao orgulho do Papa.





John Donne in Elegias Amorosas. Edição Bilingue. Trad. Helena Barbas, Assírio & Alvim, 1997

Os murmúrios da floresta

Enfim, um belo dia Romão viu-se casado. Trouxe a sua jovem esposa para a cabana da floresta. Nos primeiros dias não fez senão ralhar com ela, atirando-lhe ao rosto as vergastadas que tinha apanhado por sua causa.

-Não vale a pena martirizarem assim por ti um bom cristão.

Quando voltava da floresta, começava a querer expulsá-la de casa.

-Vai-te. Não quero mulheres em minha casa. Não gosto de dormir com mulheres, porque cheiram mal.

Dizia ele isto.

Mas, depois, foi-se acostumando a pouco e pouco. Oxana arrumava-lhe a casa, varria, lavava, tudo estava muito limpo e arranjado. Romão sentia-se contente e já se ria. Não só fez as pazes, como começou a gostar dela.

Palavra de honra, até ele mesmo se admirava!

Devo dar graças ao senhor, que me ensinou a ser razoável - dizia ele depois. Meu Deus, que parvo que eu era! Apanhar tantas vergastadas, para quê?! Agora vejo bem que fazia mal, recusando-me a casar. Estou muito contente com Oxana, mesmo muito contente.

Passaram-se as semanas e os meses. Um dia, reparei que Oxana se deitou num banco e começou a gemer. Durante a noite piorou. No dia seguinte, ouvi, com grande surpresa minha, o choro de uma criança.

«Toma! Há um menino cá em casa, disse eu para comigo. E não me enganava.

O menino não viveu muito tempo: apenas até à noite. Quando anoiteceu, já se não ouvia. Oxana pôs-se a chorar. Romão disse-lhe:

-Pronto, acabou-se. Já não temos menino. Não vale a pena chamar o pope; nós próprios o enterraremos debaixo de um pinheiro.

Romão atreveu-se a dizer isto. E não só o disse, como o fez: - abriu um buraco e enterrou o menino. Vês aquele velho tronco, acolá? São os restos de um pinheiro fulminado por um raio. Foi ali precisamente que Romão enterrou o menino. Ouve o que te vou dizer, meu rapaz: quando o sol se põe e a primeira estrela aparece no céu, um passarinho voa por cima desse sítio, soltando gritos de aflição. O coração despedaça-se-me ao ouvi-lo. O passarinho é a alma do menino que foi enterrado sem os Sacramentos, e suplica que lhe ponham uma cruz. Disseram-me que só um sábio que conheça os livros santos poderá salvar essa alma penada.

Oxana esteve muito tempo doente. Logo que melhorou um bocado, começou a passear horas inteiras sobre a campa do filho. O que ela chorava, meu Deus! Os seus lamentos ouviam-se em toda a floresta. A pobre não se podia consolar.

A Romão era-lhe indiferente a morte da criança; mas tinha dó de Oxana.

Ao vê-la chorar, dizia:

-Cala-te, minha estúpida. Não há de que chorar. Aquele menino morreu; mas pode ser que tenhamos outros, e até talvez melhores do que ele. Porque pode ser que o menino morte não fosse meu...Não sei nada, mas as pessoas murmuram...E o novo com certeza que será meu.





Korolenko in Os murmúrios da floresta. Contos.Trad. Fernando Lopes Graça. Edições «Sírius», 1941, pp. 104/105
O murmúrio da floresta tornou-se mais forte. O velho levantou a cabeça e escutou.


-O furacão aproxima-se, diz ele. Conheço-o bem. Quando ele começa a rosnar, a puxar pelos pinheiros, a arrancá-los da terra, é uma coisa que faz calafrios. É o demónio da floresta que se enfurece - acrescentou ele, mais baixo.

-Como é que o sabes, avô?

-Ora essa, sei-o muito bem! Compreendo a linguagem das árvores. Vês tu? As árvores também têm medo. O álamo alpino, por exemplo, essa árvore maldita, está sempre a gemer. Mesmo quando não há vento, treme. O pinheiro também. Quando está bom tempo, canta docemente; mas logo que o vento começa a soprar, põe-se a gemer de angústia. Escuta. Eu vejo mal, mas tenho bom ouvido. Agora é a azinheira que começa a queixar-se. O demónio da floresta ataca as azinheiras. É sempre assim antes do furacão.







Korolenko in Os murmúrios da floresta. Contos.Trad. Fernando Lopes Graça. Edições «Sírius», 1941, pp.98
- Bons dias, avô. Não está ninguém em casa?


- Eh! - e o velho fez um gesto negativo com a cabeça. Nem Zakar nem Máximo cá estão. Motria também partiu para a floresta, em busca da vaca. A vaca, provavelmente, extraviou-se. Talvez tenha sido devorada pelos ursos...Não, não está cá ninguém.

-Não faz mal, esperarei; e, enquanto espero, faço-lhe companhia.

-Como queiras.

Enquanto prendo o cavalo a uma azinheira, o velho olha-me com os seus olhos débeis e apagados. É muito, muito velho. Não vê quase nada, e as suas mãos são trémulas.

-Quem és tu, meu rapaz? -pergunta-me ele, depois de eu me ter sentado ao seu lado.

De cada vez que apareço faz idêntica pergunta.

-Ah! Agora caio em mim. É verdade, já me recordo, diz ele, contente, enquanto vai consertando uma velha bota rota - A minha velha cabeça já não conserva memória de nada. É como um crivo: dos que morreram há muito, recordo-me bem, mesmo muito bem; mas da gente nova esqueço-me sempre. Já se vê, como vivo neste mundo há tanto tempo...

-Vive nele assim há tanto tempo?

-Vamos, vamos, que há bastante. Já cá andava quando os franceses aqui vieram para batalhar com o nosso imperador.

-Então já tem visto muito, e já pode contar muita coisa.

O velho olha para mim com estranheza.

-Eu? Que tenho eu visto? Apenas a floresta, sempre rumorosa, seja de noite ou de dia, seja de inverno ou de verão. Tenho passado aqui toda a minha vida com estas árvores, e não tenho dado conta disso. Estou quase à hora da morte; mas às vezes, quando começo a pensar, pergunto a mim mesmo se vivi verdadeiramente ou não. Talvez nunca tenha vivido...





Korolenko in Os murmúrios da floresta. Contos.Trad. Fernando Lopes Graça. Edições «Sírius», 1941, pp.96/97

Memórias De Um Louco

Levai-me para longe deste mundo! Avante Avante! Que nada se veja...

Já não vejo diante de mim o céu formoso. Uma estrela brilha ao longe. Sob a lua, passam bosques com as suas alamedas umbrosas, debaixo de uma neblina azulada. Dum lado, o mar; do outro, a Itália...

Eis as cabanas russas. É a minha casa que se vê à distância? Não é a minha mãi que está à janela? Mãi, mãi! Salva o teu pobre filho. Derrama uma lágrima sobre a sua pobre cabeça doente...Tu vês como o martirizam? Aperta ao teu peito o pobre órfão. Não há no mundo lugar para ele; expulsam-no de toda a parte. _ Mamã, mamã! Tem piedade do teu pobre filho doente...

Sabem que o Bey da Argélia tem uma verruga por baixo do nariz?...


Nikolai Gogol in Contos.Trad. Fernando Lopes Graça. Edições «Sírius», 1941, pp.50
'Depressa se vai a primavera

Choram os pássaros e há lágrimas

nos olhos dos peixes' (pp.31)






'As cigarras cantam

sem saberem que é a morte

que as escuta' (pp.40)









'Crepúsculo:

as ervas parecem seguir

os rebanhos que recolhem. (pp.48)



Matsuo Bashô in O gosto solitário do orvalho. Antologia Poética.

Versões de Jorge de Sousa Braga. Assírio & Alvim, 1986

Poema Conjectural

Etiquetas: Haiku, Matsuo Bashô



O doutor Francisco Laprida, assassinado no dia

22 de Setembro de 1829 pelos «montoneros» de

Aldao, pensa antes de morrer:

Zumbem as balas pela tarde última

Há vento e há cinzas sobre o vento,

dispersam-se o dia e a batalha

disforme, e a vitória é dos outros.

Triunfam os bárbaros, os gaúchos.

Eu, que estudei as leis e mais os cânones,

eu, Francisco Narciso de Laprida,

cuja voz declarou a independência

destas cruéis províncias, derrotado,

de sangue e de suor manchado o rosto,

sem esperança nem medo e perdido,

vou para Sul por arrabaldes últimos.

Como aquele capitão do Purgatórioque,

debandando a pé e ensanguentado

o plaino, a morte fez cegar, tombar

lá onde um rio obscuro perde o nome,

assim hei-de eu cair. Hoje é o termo.

A noite lateral de infindos pântanos

espia-me e demora-me. Oiço os cascos

da minha quente morte que me busca

com ginetes, com belfos e com lanças.

Eu que ansiei ser outro, ser um homem

de sentenças, de livros, de ditames,

sob o céu jazerei entre lameiros;

mas endeusa-me o peito inexplicável

um júbilo secreto. Entretanto enfim

o meu destino sul-americano.

A esta fatal tarde me levava

o labirinto múltiplo de passos

que meus dias teceram desde um dia

da meninice. Descobri por fim

a recôndita chave dos meus anos,

a sorte de Francisco de Laprida,

a letra que faltava, essa perfeita

forma que soube Deus desde o princípio.

No espelho desta noite recupero

o meu insuspeitado rosto eterno.

Vai-se fechar o círculo e aguardo.

Pisam meus pés a sombra dessas lanças

que me buscam. A mofa já da morte,

os ginetes, as crinas, os cavalos

adejam sobre mim...Já o primeiro

golpe me fende o peito, o duro ferro,

a faca interior sobre a garganta.

Jorge Luis Borges in Poemas Ecolhidos. Edição bilingue. Trad. e

selecção de Ruy Belo. Dom Quixote, 2003., pp.17/19

A Morte

Para Yvan Goll

A morte é uma flor que só se abre uma vez.

Mas quando abre, nada se abre com ela.

Abre sempre que quer, e fora de estação.

E vem, grande mariposa, adornando caules ondulantes

Deixar-me ser o caule forte da sua alegria.



Paul Celan in A Morte É Uma Flor. Poemas do Espólio.

Trad. João Barrento. Edição Bilingue. Edições Cotovia, Lisboa, 1998., pp.15
Sensação de vazio


Ao despedir-me colhi

uma espiga de trigo (pp.39)





Admirável aquele

cuja vida é um contínuo

relâmpago (pp.51)





Tendo adoecido em viagem

em sonhos vagueio agora

na planície deserta





Matsuo Bashô in O gosto solitário do orvalho. Antologia Poética. Versões de Jorge de Sousa Braga. Assírio & Alvim, 1986
Hoje, o poeta é obrigado a renunciar à sua vocação porque se lhe evidenciou já o seu desespero, porque já reconheceu a sua incapacidade de comunicar. Tempo houve em que ser-se poeta era a mais elevada das vocações; hoje é a mais fútil. E é assim, não porque o mundo se tenha tornado imune à voz do poeta, mas porque ele próprio já não acredita na sua missão divina. Há mais de um século que os poetas andam a cantar fora de tom; chegámos finalmente ao ponto em que ninguém os consegue acompanhar. O berro da bomba continua a fazer sentido, mas os delírios do poeta parecem uma algaraviada. Parecem e são, se, dois biliões de pessoas que há no mundo, só alguns milhares fazem de conta que entendem o que um determinado poeta diz. O culto da arte chega ao fim no momento em que só existe um punhado de eleitos. Nesse momento já não se trata de arte, mas sim da linguagem cifrada duma sociedade secreta devotada à divulgação de um individualismo desprovido de sentido.

Henry Miller in o Tempo dos Assassinos, Um estudo sobre Rimbaud. Trad. Manuela R. Miranda. Hiena Editora, 1985., pp.38

Os murmúrios da floresta

A floresta estava agitada.

Naquela floresta havia sempre um murmúrio, um murmúrio regular, surdo como o eco de sinos longínquos, tranquilo e vago, como uma suave romança sem palavras, como uma recordação do passado. Aquela floresta estava sempre cheia de murmúrios, porque era muito velha e nunca tinha sido violada pelo machado dos lenhadores. Os altos pinheiros seculares erguiam os seus troncos vermelhos, como um exército sombrio, cerrando as copas verdes em espessas abóbadas.

Debaixo destas, tudo era calmo e cheirava a resina. Através do tapete de agulhas verdes, que cobria a terra, cresciam grandes fetos fantásticos, completamente imóveis. Nasciam ervas nos sítios húmidos. Florinhas humildes vergavam de cansadas as suas pesadas cabecitas. Mas nos cimos ouvia-se, incessantemente, sem interrupção, a selva a murmurar, soltando suspiros doloridos. (pp. 95)

Korolenko in Contos. Trad. Fernando Lopes Graça. Edições «Sírius», 1941.
IV Tortura e indústria



Não, isto não é uma prisão. Deve ser uma oficina. Aqui trabalha-se. Não podes deixar de ver grandes ferramentas, guinchos, plataformas elevatórias e potros. Há guindastes em movimento nestes pavilhões, correntes rangem, giram sarilhos e rodas. Ao fundo arde ainda o fogo, o fumo sobe. Parece mesmo que estamos numa forja. Só os pregos além são difíceis de explicar, e as estacas; e aquelas construções de madeira - não sabemos se são andaimes, se patíbulos.



As semelhanças entre os instrumentos de tortura de uma época e os seus

instrumentos técnicos.

Primeiro grau, esmagamento dos polegares em tornos com ranhuras ou pon-

tas rombas: a tortura de Bamberg.

Segundo grau, torniquete violento nos braços, feito com cordões de pêlo, e

torção das pernas: o instrumento de Mecklemburgo.

Terceiro grau, alongamento do corpo no potro ou sobre uma escada de mão,

acompanhado de queimaduras nos flancos, nos braços e nas unhas; a lebre

lardeada.

E assim a tortura se manteve nos tribunais alemães até ao fim do século

XVIII, e mesmo depois.





Hans Magnus Enzensberger. Mausoléu. Trad. e prefácio de João Barrento. Edições Cotovia, Lisboa, 2004., p. 93
«(...) Todas as suas obras apodreceram e enferrujaram, e ele próprio queimou os seus papéis, desenhos e projectos. Desempenhou um papel importante na história do pão.






IV







Muitas das palavras que utilizou (era construtor de carruagens) desapareceram: lança, tamancos, copa e albas. Teria sido capaz de nos explicar o que é um céu recolhido.





V





...uma espécie que manipula a sua própria evolução por meio de intervenções planificadas nas suas condições de vida e no seu programa genético. A este processo chama-se auto-evolução. (Exemplo: o construtor de carruagens que desaparece enquanto tal ao inventar um carro a vapor. Também o moleiro não se extingue por si próprio.) Desconhece-se o fim último daquela intervenção planificada.





VI





O grão é levado da carrada de taleigos para a moega; daqui passa pelo orifício fundo da moega e corre pelo olho da mó para a caleira; escoa-se da caleira, para ser comprimido entre a mó andadeira e a fixa, cai pelo veio, vai dar ao tremonhado, acaba no limpador, a farinha é levada para a eira, peneirada, passa depois à câmara de mistura, junta-se no silo, passa pela mangueira de enchimento e cai na barrica. O moinho está cheio de moleiros suados; mestres-moleiros, homens com horas de moer, ajudantes; numa roda viva, vão movimentando os carolos, a farinha macia e a áspera, a farinha de primeira, de segunda, de resíduo, a flor-de-farinha, levantam-na e carregam-na, arrumam e transportam.

Depois aparece o inventor e constrói um moinho de onde desaparecem os moleiros. A única agitação no edifício sem vivalma é a das correias transportadoras de alcatruzes, dos monta-cargas, dos alimentadores, dos hélices da moagem: aparelhos pelos quais o grão, ora na horizontal, ora na vertical vai passando de um dispositivo para o outro através da máquina, evitando assim todo o trabalho manual e toda a sujidade.»





Hans Magnus Enzensberger. Mausoléu. Trad. e prefácio de João Barrento. Edições Cotovia, Lisboa, 2004., p. 121/123

Forma da ausência

XII



Este quarto tornou-se um poço profundo.

O candeeiro é uma estrela pregada na água.

A cama infantil no seu lugar; os lençóis, por agora

lançam reflexos circulares

enquanto à superfície da toalha

as horas lentas, imponderáveis, caem como fetos

de palha,

nela traçando círculos invisíveis. Ninguém fala

no interior - e se falasse ninguém ouviria. Quando

um copo

tomba, cai sem fazer ruído na palma do silêncio.

Não se quebra.

Sozinho, dissolvido da na água, o antigo grito da

separação

torna o poço mais sombrio e mais profundo.

Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.36

Lou

«(...) Esbofeteei-a cegamente. Ela abriu de novo os olhos. Amanhecia e eu via-os brilhar de lágrimas e de raiva; debrucei-me sobre ela; acho que estava a fungar como um animal e ela pôs-se aos berros. Mordi-a em cheio entre as coxas. Tinha a boca cheia dos seus pêlos negros e duros; larguei-a um pouco e depois recomecei mais abaixo onde era mais tenro. Eu nadava no seu perfume, ela espalhara-o também aí, e cerrei os dentes. Tentava pôr-lhe uma mão sobre a boca, mas ela berrava como um porco, gritos de arrepiar. Então cerrei os dentes com todas as minhas forças e cravei-lhos. Senti o sangue esguichar-me na boca e os seus rins agitavam-se apesar das cordas. Tinha a cara cheia de sangue e recuei um pouco sobre os joelhos. Nunca ouvira uma mulher gritar daquela maneira; de repente, reparei que nas minhas cuecas tudo se retesava; isso alvoraçou-me como nunca, mas tive medo que alguém aparecesse. Risquei um fósforo e vi que ela estava a sangrar muito. Por fim, desatei a bater-lhe, primeiro só com o punho direito, no maxilar, senti os dentes a partirem-se-lhe e continuei, queria que ela parasse de gritar. Bati com mais força, e depois recolhi a saia dela, colei-lha contra a boca e sentei-me em cima da sua cabeça. Ela retorcia-se como um verme. Nunca pensei que ela custasse tanto a morrer; fez um movimento tão violento que julguei que o meu antebraço esquerdo ia desprender-se; apercebi-me de que estava agora sob uma fúria tal que seria capaz de a esfolar; então levantei-me para acabar com ela ao pontapé, e calquei-a com todo o meu peso pondo-lhe um sapato de través na garganta. Quando ela deixou de se mexer, fui outra vez tomado pela mesma sensação. Agora tremiam-me os joelhos e tive medo de que fosse agora a minha vez de desmaiar.»









Boris Vian. Irei cuspir-vos nos túmulos. Sob o pseudónimo de Vernon Sullivan. Trad. Maria João Costa Pereira. Relógio D'Água, 2003, p.132/133
«Mas da casca nasce uma concha dura


que protege o corpo como uma carapaça.

Por isso não tenho nada a relatar

da minha vida a não ser

as minhas publicações.



Resumo diário: quatro horas de trabalho, no máximo,

depois da visita às estufas.

Longa sesta, enrolado num cachecol,

no sofá. Muda de roupa. Depois do jantar

alguém toca uma sonata ao piano.



Cedo para a cama. Insónias:

Passava quase sempre mal as noites,

ficava acordado ou sentado na cama.»

Hans Magnus Enzensberger. Mausoléu. Trad. e prefácio de João Barrento. Edições Cotovia, Lisboa, 2004., p. 179
Também possuo uma vida e devo vivê-la. Nada


de vinganças;

que poderia, mais uma morte, arrancar à morte,

sobretudo uma morte violenta? E que poderia

acrescentar à vida? Os anos

passaram. Não sinto ódio; esqueci, talvez?, estou

cansado? Não sei.

Até sinto uma relativa simpatia pela criminosa;

ela mediu abismos imensos,

um grande crescimento fez crescer-lhe os olhos

na obscuridade

e ela vê - vê o inesgotável, o irrealizável, o imu-

tável. Ela vê-me.

Também eu quero ver o assassínio de meu pai na

totalidade apaziguadora da morte,

esquecê-lo na morte completa

que também nos espera. Esta noite revelou-me

a inocência de todos os usurpadores. E todos somos,

de um modo ou outro, usurpadores - estes dos

povos, dos tronos,

aqueles do amor ou da morte; minha irmã

usurpadora da minha única vida; e eu da tua.


Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.66
Esta noite de espera deixa-me uma aberta para


o exterior

e o interior. Não distingo claramente. Talvez

grandes máscaras deterioradas, agrafes metálicos;

as sandálias dos mortos torcem-se na humidade,

movem-se sozinhas como se caminhassem sem pés

- não caminham;

e essa grande rede do banho, quem a teceu?

nó a nó - não se desfaz -, negra - não é a mãe.



Uma sombra imensa alonga-se por cima das ar-

cadas;

uma pedra destaca-se e cai na ravina - no entanto

ninguém caminhou -

e depois nada; e subitamente um ramo quebrado

pelo peso ligeiro do céu. As rãs

saltam, ágeis e mudas, na erva húmida. Silêncio.

No poço caem ratos cor de cinza, afogam-se;

constelações espessas movem-se lentamente; dei-

tam-se fora

coisas que os banquetes abandonam, ânforas, taças,

espelhos e cadeiras.

ossos de animais, liras e diálogos inteligentes. Os

poços nunca enchem.

Dir-se-ia que dedos de fogo, dedos de orvalho

passam sucessivamente pelo nosso peito,

descrevendo círculos inquiridores em torno dos

nossos mamilos

e também nós flutuamos de círculo em círculo,

em torno dum centro

desconhecido, indefinido e no entanto definido;

círculos infindáveis

em torno dum grito mudo, em torno duma facada;

e a faca

mergulha, creio, no nosso coração e este torna-se

o centro

como o poste no meio da eira, na colina,



e em torno os cavalos, as espigas, os malhadores,

os condutores

e as ceifeiras entre as medas, com a cabeça da

lua nos ombros,

ouvindo o relincho dos cavalos até ao extremo

do seu sono,

ouvindo os touros urinar nos salgueiros e nas

silvas

e os pés inumeráveis da centopeia e do cântaro,

o rastejar da serpente tranquila nos olivais

e o crepitar da pedra ardente que se contrai ao

arrefecer.


Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.72/3
Por fim calou-se, a infeliz. Creio ouvir no silêncio


a sua razão,

tão vulnerável no seu furor, tão injustamente

tratada,

com os seus amargos cabelos lançados para os

ombros como a erva dos túmulos,

emparedada na sua acanhada visão da justiça.

Adormeceu talvez,

sonha possivelmente com um lugar inocente, com

animais simples,

casas caiadas de branco cheias com os belos aromas

do pão fresco e das rosas.



Recordo agora - não sei porquê - aquela vaca

que vimos no crepúsculo, num campo da Ática -

lembras-te?

Estava ali, separada da charrua, olhava para o

longe

e com os vapores das narinas embaciadas

o pôr do Sol, púrpura, violeta, dourado; muda e

ferida

nos flancos e no dorso, sob o peso do jugo,

tinha conhecido talvez a negação, a submissão,

a intransigência e a hostilidade, tudo junto.



Sustentava entre os dois cornos

a mais pesada parte do céu, como uma coroa.

Depois

baixou a testa, bebeu a água do regato

lambendo com a língua sangrenta essa outra

língua

fresca da sua imagem de água, como se lambesse

longa e serenamente, maternalmente, inevitavel-

mente,

do exterior a sua ferida interna, como se lambesse

a silenciosa, a grande, a redonda ferida do mundo;

- mata talvez a sede -

só talvez o nosso sangue nos mata a sede - quem

sabe?



Depois ergueu a cabeça da água sem tocar em

nada,

ela própria intacta e calma como um santo;

apenas

entre as suas duas patas enraizadas na ribeira

um pequeno lago de sangue caído dos lábios, man-

tinha-se, mudava de forma,

um lago vermelho que se assemelhava a um postal

e pouco a pouco se alargava e dissolvia; desa-

parecia

como se todo o sangue passasse para uma veia

invisível do mundo,

muito longe, liberto, fácil; por isso

se mantinha calma; como se tivesse sabido

que o nosso sangue não se perde,

nada, nada se perde neste grande nada,

este inconsolável, este impiedoso, este incompa-

rável,

tão doce, tão consolador, tão nada.



Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.74/75/76
[...]vós que dormis, 'stais-me acordados cá dentro do peito,


Na alma parente repousa a vossa imagem que foge.

E mais vivos viveis vós ali, onde a alegria do espírito

Divino a todos os que envelhecem, a todos os mortos rejuvenesce.



Friedrich Hölderlin. Poemas. Prefácio, Selecção e trad. Paulo Quintela. Relógio D' Água, Lisboa, 1991.
Hölderlin



Detença, mesmo com as coisas mais íntimas,

não nos é dada; das imagens

cumpridas o espírito arroja-se repentino de mais para as que se



[querem cumprir; lagos

há-os só no eterno. Aqui, é a queda

o mais próprio. Do sentimento sabido

precipitar-nos para baixo para o pressentido, mais além.



A ti, ó magnífico Invocador, a ti toda uma vida

te foi dada a instante imagem, e, quando a exprimias,

o verso fechava-se como um destino, havia uma morte

mesmo no mais suave, e tu entravas nela; mas o deus

que ia à tua frente guiava-te para lá, pra fora dela.



Ó tu espírito errante, o mais errante! Como elas todas

moram no poema quente, agasalhadas, e ficam

longamente na comparação estreita. Partícipes. Só tu

vagueias como a Lua. E em baixo aclara-se e escurece

a tua paisagem nocturna, santamente assustada,

que tu sentes em despedidas. Ninguém

a deu mais sublimemente, a restituiu ao Todo

mais inteira, menos pobre. Assim também

brincaste teu jogo santo por anos já não contados

com a infinita ventura, como se ela não fosse interior, mas jazesse

por aí, pertença de ninguém, na macia

relva da Terra, abandonada por crianças divinas.

Ai, o por que os Altíssimos anseiam, puseste-o tu, sem desejo,

pedra sobre pedra: e ficou. Mas mesmo a sua queda

te não perturbaria.



Se um tal, eterno, houve um dia, porque é que nós

desconfiamos ainda do terrestre? em vez de no transitório

seriamente aprender os sentimentos de qualquer

inclinação, futura no espaço?



(Irschenhausen, Setembro de 1914)





Rainer Maria Rilke





in Friedrich Hölderlin. Poemas. Prefácio, Selecção e trad. Paulo Quintela. Relógio D' Água, Lisboa, 1991, p. 9

As mulheres

As mulheres estão muito distantes. As suas rou-

pas, o cheiro de «Boa Noite».

Pousam o pão na mesa para que não se sinta

como estão ausentes.

É então que nos sentimos culpados. Levantamo-nos

da cadeira e dizemos:

«Estás muito cansada hoje » ou então «Deixa, eu

acendo o candeeiro».

Quando pegamos no fósforo ela volta-se lenta-

mente

e dirige-se para a cozinha com uma aplicação

inexplicável. As costas

são uma pequena colina de amargura carregada

de mortos sem fim,

os mortos da família, os mortos dela e a nossa

morte.

Ouvem-se-lhe os passos a afastar latas velhas,

ouvem-se as travessas a chorar na banca, depois

ouve-se

o comboio que transporta os soldados para a

frente.





Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.85

História

Aconteça o que acontecer, aqui fico - murmurou


ele.

A margem é imensa, as pedras

alteram a sua cor à passagem da hora.

Se contemplas a água, logo após o crepúsculo,

verás o último filho de Tiestes

sem espada, sem coroa, apenas

no flanco direito a cicatriz duma estrela.

Quanto ao resto dir-se-á que estava escrito

o amor, o massacre e o regresso,

o poder efémero, a ausência de descendentes,

e a minúscula cruz de ferro

pendurada num fio, nessa mesma noite,

e pisada no solo pelos cascos dos cavalos.




Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.99
«(...) Não ganharias nada em deixar o teu círculo e na verdade o que perderias em permanecer dentro dele? A isto limito-me a responder: também preferia deixar-me moer com pancadas no círculo a ser aquele que bate no exterior, mas onde diabo está o círculo? Houve um tempo em que eu o via no solo como traçado por salpicos de cal, mas presentemente apenas flutua em torno de mim, que digo, nem flutua sequer»






Franz Kafka. Antologia De Páginas Íntimas. Selecção, prefácio e tradução de Alfredo Margarido, 3ª ed. Guimarães Editores, Lisboa, 2002, p. 27
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Domingo, 19 de Julho de 1910



«Durmo, acordo, readormeço, reacordo, miserável vida.

Quando penso nisso, é-me necessário confessar que a minha educação me prejudicou muito por várias razões.»


Franz Kafka. Antologia De Páginas Íntimas. Selecção, prefácio e tradução de Alfredo Margarido, 3ª ed. Guimarães Editores, Lisboa, 2002, p. 28
Princípios de Novembro de 1910



«Mas esquecer não é a palavra que convém aqui...A memória deste homem não sofreu mais do que a sua força de imaginação. Quanto a remover montanhas, nem a sua memória nem a sua imaginação o podem; este homem, é necessário reconhecê-lo, mantém-se fora do nosso povo, fora da nossa humanidade, não cessa de ser esfomeado, só o instante lhe pertence, o instante ininterrupto de calamidade, instante que não é seguido de nenhuma faísca, de nenhum momento de reconforto; há sempre uma mesma coisa: as suas dores, mas no mundo inteiro nenhuma outra coisa que se possa fazer passar por remédio, não há mais solo do que aquele que podem cobrir as suas mãos (....)»


Franz Kafka. Antologia De Páginas Íntimas. Selecção, prefácio e tradução de Alfredo Margarido, 3ª ed. Guimarães Editores, Lisboa, 2002, p. 29
«- Como podes tu, meu imbecil, comparar-te a Varlamov.

-Não sou tão imbecil que me compare com Varlamov -respondeu Salomão, examinando os seus interlocutores com olhar irónico. - Varlamov bem quer ser russo, mas, no fundo do seu coração, é um porco judeu. A vida dele é o dinheiro e os benefícios que ele lhe traz, enquanto eu queimei todo o meu dinheiro na lareira. Nem tenho necessidade de dinheiro, nem de terras, nem de carneiros e também não tenho necessidade de que tenham medo de mim, nem que se descubram à minha passagem. Então eu sou mais inteligente que o vosso Varlamov e pareço-me mais com um ser humano do que ele.»



Anton Tchekoff. A Estepe. Livros de Bolso/ Europa-América. 2ª ed.Trad. Maria do Carmo Santos, 2003., p. 40
« - À noite não dorme, só pensa, pensa, pensa; mas em quê só Deus é que o sabe. Se nos aproximamos dele, enfurece-se e ri. Nem de mim gosta...Não deseja nada. Quando morreu o nosso pai, deixou-nos seis mil rublos a cada um. Eu comprei esta estalagem, casei e agora tenho filhos. Ele queimou o dinheiro todo na lareira. Que dó! Porque é que o queimou? Se não o queria, desse-mo, mas agora queimá-lo...»


Anton Tchekoff. A Estepe. Livros de Bolso/ Europa-América. 2ª ed.Trad. Maria do Carmo Santos, 2003., p. 42

A estepe

«Durante as tardes e as noites de Julho já não se ouvem as codornizes, nem as galinholas, nem o rouxinol, nas ravinas da floresta; as flores já não embalsamam o ar. No entanto, a estepe continua ainda muito bela e cheia de vida. Basta que o Sol se ponha e a terra mergulhe na sombra para que a tristeza do dia seja esquecida e tudo seja perdoado; a estepe suspira suavemente pelo seu grande peito. A obscuridade da noite esconde o seu estigma, a erva anima-se numa alegre confusão juvenil que durante o dia ela nunca consegue ter; os estalidos, os assobios, as arranhadelas, os baixos, os tenores e os sopranos da estepe, tudo se funde num zumbido contínuo que convida à saudade e à melancolia. Esta ressonância adormece como uma canção de embalar; rola-se através da estepe e sente-se que vai adormecer, mas de repente é o grito inquieto e sacudido dum pássaro que ainda não adormeceu, ou num barulho indefinível semelhante a uma voz humana, como um «aaah» de espanto, e lá se vai o sono das pálpebras.»


Anton Tchekoff. A Estepe. Livros de Bolso/ Europa-América. 2ª ed.Trad. Maria do Carmo Santos, 2003., p. 46/47
«Feriu-me singularmente a atenção o verdadeiro modo de ser do público de uma grande cidade. Vive numa constante vertigem do lucro e do gozo, e aquilo a que nós chamamos atmosfera (Stimmung) não se pode criar nem comunicar; todos os prazeres, mesmo o teatro, devem apenas distrair, e a grande inclinação do público ledor de jornais e romances provém de que aqueles, sempre, e estes muitas vezes, trazem distracção à distracção. - Suponho mesmo ter notado uma espécie de timidez em face das produções poéticas, pelo menos enquanto poéticas, timidez que, por essas mesmas razões, me parece muito natural. A poesia requer, exige mesmo, concentração; isola o homem contra a sua vontade, torna-se por vezes molesta e importuna nas suas exigências e é no largo mundo (para não dizer no grande mundo) tão incómoda como uma amante fiel.»



Goethe, carta a 9 de Agosto de 1797

in Friedrich Hölderlin. Poemas. Prefácio, Selecção e trad. Paulo Quintela. Relógio D' Água, Lisboa, 1991, p. 19
«Tive uma infância muito dura, muito difícil. Uma família que se desintegrou muito facilmente num lugar que foi totalmente destruído. Desde o meu pai e a minha mãe, inclusive todos os irmãos de meu pai foram assassinados. Vivi, portanto, numa zona devastada. Não apenas de devassidão humana, mas devassidão geográfica. Nunca encontrei até à data uma lógica que explique tudo isto. Não se pode atribuir à Revolução. Foi mais uma coisa atávica, uma coisa de destino, uma coisa ilógica. Até hoje ainda não encontrei um ponto de apoio que me mostre porque nesta minha família sucederam nessa forma, e tão sistematicamente, essa série de assassinatos e de crueldades.»






in Los muertos no tienen ni tiempo ni espacio, diálogo com Juan Rulfo

As flores

«Há escritores que se servem delas pelo simples prestígio dos seus nomes, sem prestarem muita atenção ao facto de corresponderem, ou não, ao lugar e à estação do ano. De modo que não é raro encontrar bons livros onde florescem gerânios na praia e túlipas na neve. Em Pedro Páramo, onde é impossível estabelecer de uma forma definitiva onde está a linha de demarcação entre os mortos e os vivos, as exactidões são ainda mais quiméricas. Ninguém pode saber, na realidade, quanto duram os anos da morte.»



Gabriel García Márquez in Juan Rulfo, Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 14

Pavese

Terra vermelha, terra negra

tu vens do mar,

do verde requeimado

onde há palavras

antigas e fadiga sanguínea

e gerânios entre as pedras -

não sabes o que em ti

trazes de mar palavras e fadiga,

tu rica como uma lembrança,

como o campo despido,

tu áspera e dulcíssima

palavra, antiga como o sangue

recolhido nos olhos;

jovem, como um fruto

que é lembrança e estação -

a respiração repousa

sob o céu de agosto,

as azeitonas do teu

olhar suavizam

o mar e tu vives revives

sem surpresa, certa

como a terra, escura

como a terra, moinho

de estações e de sonhos

que ao luar se revela

antiquíssimo, como

as mãos de tua mãe,

a concha da braseira.

Tu és terra e a morte.

A tua estação é a sombra

e o silêncio. Nada

vive mais distante

da aurora que tu.

Quando pareces despertar

és dor apenas,

tem-la nos olhos e no sangue

mas tu não sentes. Vives

como vive uma pedra,

como a terra dura.

Vestem-te sonhos

movimentos soluços

que tu ignoras. Como a água

de um lago a dor

tremula e envolve-te.

Há círculos sobre a água.

Tu deixa-los desvanecer.

Tu és a terra e a morte.

Virá a morte e terá os teus olhos

- esta morte que nos acompanha

de manhã à noite, insone,

surda, como um velho remorso

ou um vício absurdo. Os teus olhos

serão uma palavra vã,

um grito mudo, um silêncio.

Assim os vês todas as manhãs

quando sobre ti mesma no espelho

te inclinas. Ó minha cara esperança,

nesse dia saberemos nós também

que tu és vida e és o nada.

Para todos a morte tem um olhar.

Virá a morte e terá os teus olhos.

Será como abandonar um vício,

como ver surgir no espelho

em rosto morto, como

escutar uns lábios fechados.

Mudos, desceremos no abismo.

Cesare Pavese


Cesare Pavese in Dez Poetas Italianos Contemporâneos em selecção, tradução e notas de Albano Martins

You Are Welcome to Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente

entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos tirar

do mais fundo de nós o mais útil segredo

entre nós e as palavras há perfis ardentes

espaços cheios de gente de costas

altas flores venenosas portas por abrir

e escadas e ponteiros e crianças sentadas

à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos

há palavras de vida há palavras de morte

há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar

há palavras acesas como barcos

e há palavras homens, palavras que guardam

o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente

as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos

palavras que nos sobem ilegíveis à boca

palavras diamantes palavras nunca escritas

palavras impossíveis de escrever

por não termos connosco cordas de violinos

nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar

e os braços dos amantes escrevem muito alto

muito além do azul onde oxidados morrem

palavras maternais só sombra só soluço

só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados

e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

Mário Cesariny



Mário Cesariny in Pena Capital

Fonte Clepsidra

http://luz-clepsidra.blogspot.com/

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

“Quantas vezes


esfregou

os dedos nas unhas

o sol caindo atrás

das paredes

quantas vezes revezou-se

consigo mesmo em silêncio

quantas vezes esteve

no justo oriente de qualquer limo

quantas vezes quis

ser Rimbaud e traficou

aspirina

os dias passaram, severos,

como o vazio

hoje?, ontem?, quantas vezes

as grimpas não giraram

o amor era das palavras, entre elas

fria estrela que irrompe

(Canção 4. De Remorso do Cosmos, 2003)

ATÉ AGORA

Autor: Régis Bonvicino. Editora: Imprensa Oficial
“Me


transformo,

outra janela–

outro

que se afasta e não se

reaproxima

nas desobjetivações e

reativações,

nas linhas e realinhamentos

outros

me atravessam

morto de ser

coisas perdem sentido

expressões figuradas como

ossos de borboleta

me transformo

na observação

de uma pétala

*

Me destransformo

a mesma janela –

outro

que não se afasta

Nas objetivações,

alinhamentos

e linhas inexistentes

iguais me repassam

Retrato desativado,

taxidermista de mim mesmo

Régis Bonvicino

(Me Transformo. Ossos de Borboleta, 1999)
“O que matou com disparos


na cabeça

O que eletrocutou o

estuprador

- fio puxado do bico de luz

da cela -

e pediu perdão a Deus

O que decepou um dos seus

O que trocava de nome & de sexo

a cada morte

O que ouvia vozes

O que estuprou a filha

(meses)

O que atraía garotos

com revistas de mulheres nuas

“Papillon” traficava cocaína

e crack

Narque espancou o cara

até abrir sua carne

(O Que. Outros Poemas, 1993)

Régis Bonvicino

Le juriste 1566

“O lobo-guará é manso


foge diante de

qualquer ameaça

é solitário

avesso ao dia, tímido

detesta as cidades

para fugir do ataque

cada vez mais inevitável

dos cachorros

atravessa estradas

onde quase sempre é

atropelado

onívoro, com mandíbulas

fracas

come pássaros, ratos, ovos,

frutas

às vezes, quando está perdido,

vasculha latas de lixo nas ruas

engasga ao mastigar garrafas

de plástico ou isopores

se corta e ou morre ao morder

lâmpadas fluorescentes

ou engolir fios elétricos

morre ao lamber inseticidas

ou restos de tinta

ou ao engolir remédios

vencidos

ou seringas e agulhas

descartáveis

dócil, sem astúcia,

é facilmente capturado e morto

por traficantes de pele

quando então uiva

(Extinção. Página Órfã, 2007)

Pena Capital

Mário Cesariny

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando

a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto tão perto tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

num corpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco.

Mário Cesariny


Pena Capital I. Assírio & Alvim, 2ª ed., 1999

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Gnossienne nº 1

Eu acreditei que podia amar

o teu corpo, o teu modo de insinuar o coração

nas palavras. Mas era apenas a forma como a noite

sublinhava as superfícies, eu nunca pude atravessar

essa espessura. Estavas ali para te dispores aos meus sentidos

mas crescias fora de alcance no teu próprio

pensamento. Uma distância que só serviria

aos lobos, um mau caminho arrancado às fragas.

Já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio

em que me mantinhas era mais urgente

que o sangue. Sem dúvida que vinhas pelo meu desejo

mas eu perdia sempre alguma coisa

quando te ganhava. Às vezes era só

a minha vontade, outras vezes era toda a frase

do meu nome.

Rui Pires Cabral

Alma

Reflexos

Olho-te pelo reflexo

Do vidro

E o coração da noite



E o meu desejo de ti

São lágrimas por dentro,

Tão doídas e fundas

Que se não fosse:



o tempo de viver;

e a gente em social desencontrado;

e se tivesse a força;

e a janela ao meu lado

fosse alta e oportuna,



invadia de amor o teu reflexo

e em estilhaços de vidro

mergulhava em ti


Ana Luísa Amaral

João de todo o Rio

Mais atual do que nunca, o jornalista e escritor que encantou e chocou o Brasil do início do século XX ganha nova versão de sua biografia e filme


Há casos em que o biógrafo pode virar uma espécie de parteiro do renascimento de seu personagem. Foi o que aconteceu com o jornalista e pesquisador João Carlos Rodrigues, que, na quarta-feira, lança na livraria DaConde “João do Rio: vida, paixão e obra” (Civilização Brasileira), nova versão do revelador livro “João do Rio: uma biografia”, que publicou em 1996 pela Topbooks. Na época, Rodrigues já tinha feito bastante pela recuperação da obra do jornalista, escritor, tradutor e dramaturgo

então quase esquecido, mas que, entre integrantes da sociedade carioca letrada do início do século XX, flanava com status de popstar.

— No fim dos anos 70, o jornal “Lampião”, de Aguinaldo Silva e João Silvério Trevisan, queria fazer uma editora e propus uma antologia de João do Rio, autor que eu era um dos poucos de minha geração a conhecer, e sabia sensacional — explica Rodrigues, de 61 anos, que, não tendo visto o projeto do “Lampião” avançar, resolveu aproveitar o centenário de nascimento de seu personagem, em 1981, e sondar outras opções. — Botei tudo num envelope e mandei pelo correio para três editoras importantes. Menos de uma semana depois, Ivan Cavalcanti Proença, então na José Olympio, me ligou. Fui lá, assinei o contrato, e o livro saiu com o título “Histórias da gente alegre”. Fácil assim. No entanto, despertou a ira de Josué Montello, mas recebi uma boa crítica de Silviano Santiago, e segui pesquisando.

No início dos anos 90, Rodrigues frequentou por dois anos, quase que diariamente, a Biblioteca Nacional atrás de textos inéditos de João do Rio para um novo trabalho. A coleta foi tão frutífera que rendeu um Catálogo Bibliográfico, editado pelo Arquivo da Cidade, hoje raríssimo. — Localizei cerca de 2.500 artigos e reportagens de jornal sobre variados assuntos, da crônica da cidade à política internacional. Poucos sabem, mas ele cobriu a Conferência de Versalhes, que definiu os rumos do mundo após a Primeira Guerra Mundial — relata Rodrigues, que também descobriu textos nos quais ele foi ghost writer, como as memórias do marinheiro João Cândido, ou o delicioso “Memórias de um rato de hotel”, ditado por um preso na cadeia. — Com tanta novidade, vi que havia material para uma biografia mais completa do que a existente, de Raimundo Magalhães Junior.

Com esse material nas mãos, Rodrigues concorreu à Bolsa Vitae, em 1993, e ganhou: — O livro foi editado em 1996 e despertou ódios e amores muito exacerbados, o que me espantou, pois se trata de um autor do tempo da Velha República! Uma famosa revista dedicou quatro páginas a falar mal de mim e dele. Um resenhista sugeriu que eu queimasse a edição.

Ou seja, foi a consagração. E assim virou uma espécie de clássico de referência, pois fala do autor, da obra e da época. Desde então, a redescoberta vem crescendo: o próprio Rodrigues preparou três reedições de textos de João do Rio, enquanto não param de surgir estudos acadêmicos — na Unicamp, na PUCRJ, na UFRJ, na Casa de Rui Barbosa.

No momento, o ator Marcus Alvisi tem lotado o Espaço Sesc, em Copacabana, com o monólogo “Dentro da noite”, que idealizou e montou pela primeira vez em 2002, a partir de dois contos de João do Rio. Agora com direção do cantor Ney Matogrosso, outro apaixonado pelo autor, a temporada vai até 19 de dezembro. Há também um filme em andamento, “Muitos homens num homem só”, coprodução da Conspiração com Flávio Tambellini, que será dirigido por Mini Kerti. — O roteiro é livremente inspirado em “Memórias de um rato de hotel”, mas tem personagens famosos e de outros livros dele, como o Barão Belford e Eva — diz a cineasta. — Além disso, eu e o roteirista Leandro Assis inserimos o Felix Pacheco, que sai no encalço do personagem principal, Dr. Antônio. O Dr. Antônio, aliás, é um personagem verídico, inclusive com fotos em jornal ilustrando o artigo do João do Rio sobre ele. Lemos vários livros dele para trazer o clima da época para o roteiro, que se passa no início do século passado, durante as renovações de Pereira Passos e as vacinas de Oswaldo Cruz.

Pioneiro nesse movimento, Rodrigues comemora e quer mais: — João do Rio é tão complexo que dá para todos. Mulato, gordo, homossexual — um dândi, que escandalizava a sociedade da época com seu vestuário extravagante e suas falas e posturas afetadas —, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto veio de família pobre e, ainda adolescente, mostrou seus dotes literários. Talento que o levaria à Academia Brasileira de Letras, em 1910, aos 29 anos, na sua terceira tentativa,

sendo o primeiro a tomar posse usando o “fardão dos imortais”. Reconhecido em Portugal, que visitou pela primeira vez em 1908, quando também conheceu a França, cicerone e amigo de Isadora Duncan na passagem da bailarina pelo Rio, ele estava em todas. Mas, da mesma forma como rapidamente ascendeu socialmente, João do Rio (um de seus muitos pseudônimos, o mais famoso, criado em 1903) foi logo esquecido após sua morte precoce, vítima de um ataque cardíaco, em junho de 1921, a menos de dois meses de seus 40 anos. Além dos livros fora de catálogo, era apenas o nome da Rua Paulo Barreto, em Botafogo.

No mundo do início do século XX, homossexualidade, mais do que tabu, era crime. Daí, como Rodrigues comenta, João do Rio não assumir a sua orientação sexual: — Ele se aborrecia quando alguém tocava no assunto. Mas, por outro lado, provocava. Raspou a cara quando todo homem que se prezava, fora os padres, usava barba ou

bigode. Vestia um fraque todo branco, outro todo verde, e os homens respeitáveis só vestiam preto, marrom ou cinza. Falava de forma muito afetada, e Gilberto Amado conta que juntavam curiosos na porta dos jornais onde trabalhava apenas para vê-lo falar, cheio de caras e bocas. Isso provocou uma reação homofóbica dos jacobinos, como era conhecida a extrema direita da época. João do Rio foi espancado num restaurante do Largo da Carioca por oficiais da Marinha. Enquanto Humberto de Campos e Antonio Torres encabeçaram uma das campanhas mais sórdidas já feitas contra um jornalista por seus colegas de profissão. Típico bullying.

Apesar desses incidentes, Rodrigues não acredita que a homossexualidade tenha contribuído para o esquecimento de João do Rio. Em contrapartida, influiu decisivamente

nesse redescobrimento dos últimos anos. Detalhe pessoal que o aproximaria do escritor inglês Oscar Wilde, num paralelo que também é possível ao analisar sua obra literária. — A comparação é pertinente porque realmente há mais do que simples coincidências. O estilo camp, a ironia, as frases de efeito, os adornos de estilo que quase escondem a preocupação social e as simpatias libertárias. E ele traduziu Wilde, “Intenções”, “O retrato de Dorian Gray” e “Salomé” — lista Rodrigues.

— Susan Sontag afirmou serem o camp e o art nouveau formas de expressão da sensibilidade homossexual. Certíssima. Mas o paralelo com Wilde pode também ser redutor porque João do Rio foi bem mais que um pastiche da cultura estrangeira. É o cronista carioca por excelência, ao lado de Machado de Assis, Lima Barreto, Noel Rosa, Nelson Rodrigues. Boa parte da mitologia da cidade foi criada por ele. Se não tivesse existido, teria de ser inventado.

João do Rio era tão enfronhado na vida carioca que, ainda segundo Rodrigues, teria antecipado a ideia da “cidade partida” cunhada por Zuenir Ventura nos anos 90. Daí a permanência de sua obra, um século depois: — Bem, vivemos na “lesma lerda”, e a mesma maravilha. Injustiça social num belo cenário natural. Seres humanos interessantes e imprevisíveis na sua mistura de raças e cores e religiões. Bela cultura popular, interessante cultura decadente das elites. Em 1908, ele já acenava com o conceito de “uma cidade dentro da outra cidade”, falando de uma favela no morro de Santo Antonio.

Em seus textos, João do Rio também, de alguma forma, antecipa o novo jornalismo: — Na verdade, o jornalismo moderno nasceu em Paris e Londres no fim do século XIX e daí influenciou o mundo inteiro. Surgiram as manchetes, as fotografias, as charges, o lead, o subtexto, e principalmente a crônica e a reportagem. João do Rio foi um mestre nas duas. Visitou in loco centros de candomblé, subiu morros e favelas, frequentou casas de tias baianas na Saúde, fez crônica social entre grã-finos, entrou em todos os ambientes, escrevendo quase sempre na primeira pessoa. Ou seja, João de todo o Rio

Fonte – O GLOBO

Cuento de horror

La señora Smithson, de Londres (estas historias siempre ocurren entre ingleses) resolvió matar a su marido, no por nada sino porque estaba harta de él después de cincuenta años de matrimonio. Se lo dijo:



-Thaddeus, voy a matarte.



-Bromeas, Euphemia -se rió el infeliz.



-¿Cuándo he bromeado yo?



-Nunca, es verdad.



-¿Por qué habría de bromear ahora y justamente en un asunto tan serio?



-¿Y cómo me matarás? -siguió riendo Thaddeus Smithson.



-Todavía no lo sé. Quizá poniéndote todos los días una pequeña dosis de arsénico en la comida. Quizás aflojando una pieza en el motor del automóvil. O te haré rodar por la escalera, aprovecharé cuando estés dormido para aplastarte el cráneo con un candelabro de plata, conectaré a la bañera un cable de electricidad. Ya veremos.



El señor Smithson comprendió que su mujer no bromeaba. Perdió el sueño y el apetito. Enfermó del corazón, del sisema nervioso y de la cabeza. Seis meses después falleció. Euphemia Smithson, que era una mujer piadosa, le agradeció a Dios haberla librado de ser una asesina.

FIN


Fonte : Ciudad Seva


domingo, 5 de dezembro de 2010

A morte épica do leão

Em seu bonito poema sobre a morte de Tolstoi, Mario Quintana errou por dois anos a idade do defunto (que já tinha 82), mas acertou no fundamental: o “grande Velho” talvez tenha morrido feliz, por haver concretizado, enfim, um sonho de infância: fugir de casa. O Conde Leão Tolstoi apagou de vez sob o teto do chefe da estação de trem da modesta Astapovo, que há 90 anos leva o nome de quem a tornou mundialmente conhecida. Fugia de casa, da mulher, dos adulões, em busca de uma reclusão monacal, mas não viajou nem morreu sozinho, abandonado num dos “bancos lustrosos” da gare, aludidos por Quintana. Com ele estavam seu médico particular e Sasha, a filha caçula.

Seria impossível ao mais célebre e cultuado russo daquele tempo desaparecer discreta e solitariamente. Muito menos em meio a uma fuga que, tão logo iniciada, dez dias antes, transformara-se numa épica caçada internacional, com a participação de jornalistas de toda a Europa. Tolstoi sucumbiu às consequências de uma pneumonia, ao raiar o dia 20 de novembro de 1910, às 6h05, hora que para sempre ficou congelada nos relógios da gare de Astapovo. Uma multidão acompanhou o velório, o cortejo, o enterro e, antes disso, a tumultuosa chegada de Sofia, a esposa abandonada, a quem só permitiram ver de perto o marido quando ele já estava inconsciente.

A morte de Tolstoi foi o primeiro grande evento midiático da Rússia acompanhado por câmeras fotográficas e cinematográficas, relatado por telegramas e imagens de cinejornais, as primeiras das quais chegaram a Paris em apenas 48 horas, com o selo da Pathé Films. Até hoje o circo que se armou em Astapovo é motivo de curiosidade e inspiração para historiadores (vide The Death of Tolstoy, de William Nickell, lançado em maio) e até ficcionistas, que o consideram o marco divisório entre a Rússia czarista que então definhava e a Rússia moderna que sete anos depois surgiria no rastro da revolução bolchevique.

Em 1917, o correspondente em Moscou do New York Times atribuiu a sublevação comunista aos “tolstoístas”, fanáticos seguidores das ideias vagamente “de esquerda” do escritor, tolice só em parte desculpável pelo pouco que se conhecia dos bolcheviques, ainda vistos por observadores de fora como uma malta de mujiques ripongas. O czar Nicolau pôs o escritor sob a vigilância de seus secretas, tentou censurar seus escritos e boicotar seu funeral, Lenin viu em sua obra um reflexo dos ideais revolucionários comunistas, mas a influência de Tolstoi e sua morte sobre os acontecimentos que culminaram com a tomada do poder pelos bolcheviques foi sobretudo (ou apenas) simbólica.

Em sua notável estreia na ficção, The Comisariat of Enlightment: A Novel (O Comissariado das Luzes: Um Romance), Ken Kalfus reconstitui a Revolução de Outubro e a posterior doutrinação em massa do povo russo por Lenin e Stalin a partir do frenesi jornalístico que sacudiu a mansidão de Astapovo, na terceira semana de novembro de 1910. No mesmo vagão de um trem, Kalfus alojou um cinegrafista russo, Kolya Gribshin, subordinado a Georges Meyer, o verdadeiro cameraman encarregado pela Pathé de cobrir a chegada de Sofia a Astapovo, o correspondente de um jornal britânico e o anatomista Vladimir Vorobev, a quem mais tarde caberia embalsamar Lenin e Stalin.

O romance, lançado em 2004, é uma tragicomédia com personagens reais e imaginários, na qual Sofia, rompendo com o clichê, não é reduzida a uma mulher impossível, a uma louca insuportável que Tolstoi já deixou tarde. São grandes as suspeitas de que ela, sra. Tolstoi durante 48 anos, tenha sido injustiçada pelos que se ocuparam de manter o escritor, imaculado, num pedestal messiânico. Ambos tinham defeitos, mas por que tanta intransigência com uma mulher que afinal pariu 13 filhos do conde, serviu-lhe de copista e resignou-se a aturar o isolamento rural, o estilo de vida espartano e o vegetarianismo por ele impostos ao casal, mais as hostilidades de Chertkov, assistente e xodó do escritor, e as constantes romarias de tietes até o retiro de Iasia Poliana?

Os diários de Sofia, só há pouco divulgados, e as recentes biografias escritas por Rosamund Bartlett (sobre Tolstoi) e Alexandra Popoff (sobre Sofia), nos revelam uma mulher bem diferente daquela a quem até já acusaram de haver envenenado o marido. Em outro expressivo début literário, The Possessed: Adventures with Russian Books (Os Possuídos: Aventuras com Romances Russos), publicado no início deste ano, a americana de origem turca Elif Batuman levanta a tese de que Tolstoi teria sido assassinado, mas não incrimina Sofia. Os “possessed” do título são uma referência aos “demônios” de Dostoievski, que na canônica tradução de Constance Garnett para o inglês viraram “possuídos”.

Batuman concentra suas suspeitas nas ameaças por carta que Tolstoi recebeu, em 1897, por haver defendido os religiosos de uma seita camponesa. Mas, a despeito das perseguições que a Igreja Ortodoxa e o czar lhe moveram, a tese de assassinato não se sustenta sob o peso da idade e do histórico cardíaco do escritor. Se não morreu feliz, tranquilo desta Tolstoi se foi, pois já se sabia imortal. Um mês depois, segundo Virginia Woolf, “o ser humano” mudou e o modernismo nasceu. Tolstoi desdenhava os modernistas, que no entanto muito lhe devem. Seus monólogos interiores anteciparam o fluxo de consciência de Joyce. Também em suas obras brotou o distanciamento crítico de Brecht. O leão do realismo literário fechou um passado e abriu um futuro.

Sergio Augusto

Prosa de Sábado-O Estado de S.Paulo

O elogio puro da beleza fugaz

Baudelaire vê o artista ”em meio à multidão”


Se a crítica fosse apenas uma atividade de frustrados que procuram defeitos nos outros, o maior poeta francês do século 19 não teria sido também o maior crítico. E Charles Baudelaire (1821-1867) foi ambos. Além de ter sido o primeiro a dar o devido valor a Edgar Allan Poe, o poeta, contista e crítico que os EUA ainda não sabiam valorizar, Baudelaire foi fundamental na crítica de arte. Fundamental, no sentido puro: ele foi aos fundamentos da atividade, de seu papel na interpretação da arte e, por extensão, na interpretação da vida, que a arte recria, critica e enriquece. “Por sorte”, escreve Baudelaire, “surge de tempos em tempos quem coloque as coisas no devido lugar: críticos, amantes da arte, espíritos inquisitivos.”

A frase está no livro O Pintor da Vida Moderna, escrito por ele em 1863 e só agora digno de uma bela edição brasileira, da editora Autêntica, por iniciativa da dupla Tomaz Tadeu (tradução e organização) e Jérôme Dufilho (posfácio e organização). O Homem na Multidão, o célebre texto de Poe, foi sabiamente acrescido ao volume, que é todo ilustrado a cores, tem capa dura e papel cuchê. Curiosamente, depois de tanto tempo ignorada, esse é o terceiro livro produzido nos últimos três anos no Brasil com a crítica de arte de Baudelaire. Em 2008, um trabalho de 1992 de Plínio Augusto Coelho, a tradução dos Escritos Sobre Arte, foi relançado pela editora Hedra. Em 2010, graças a Daniela Kern, a Sulina publicou Paisagem Moderna, com as resenhas dos salões de arte por Baudelaire, acompanhadas de outro material inédito em português, os ensaios de John Ruskin sobre Turner e outros artistas.

E quem era o pintor da vida moderna referido no título? Era Constantin Guys (1802-1892), aquarelista e ilustrador, cronista visual do Segundo Império francês, que provavelmente estaria esquecido hoje se não fosse pelo ensaio de Baudelaire. O autor de As Flores do Mal (1857), porém, não estranharia o fato: ele mesmo se encarrega de dizer que Guys não era um gênio, um Rafael a falar com toda a posteridade, mas um grande talento voltado a seu tempo. “O prazer que extraímos da representação do presente”, diz Baudelaire logo no começo, “deve-se não apenas à beleza de que pode estar revestido, mas também à sua qualidade essencial de presente.” E então ele se põe a analisar as maneiras como Guys captou a essência do presente que vivenciou.

Baudelaire fala das “gravuras de moda” como vinhetas de época animadas pela sensibilidade poética de Guys, que encontrava nessas roupas um “imortal apetite pelo belo” em constante metamorfose e, mais importante, um pretexto para o artista manifestar sua curiosidade sobre o mundo, com suas variáveis morais, políticas e estéticas, com sua diversidade de hábitos, gostos e semblantes. “Imaginem um artista que estivesse sempre, espiritualmente, em estado de convalescença”, continua, “e terão a chave do caráter do Sr. G.” Como uma criança, estava sempre alerta para as novidades, sem preconceito de gênero ou classe, e isso se expressa em linhas ágeis, tintas coloridas, registros sem acabamento, urgentes, de poucos mas significativos detalhes.

Olhando os desenhos e aquarelas reproduzidos no livro, vemos justamente essa vitalidade de Guys, que, como um Daumier mais lírico e menos satírico, prenuncia o impressionismo de Degas ou Lautrec. Na Mulher com Lenço Amarelo, ele ignora as demais cores e não se detém em definir os limites do amarelo a uma peça de roupa; por isso mesmo, nos sugere todo o movimento, a graça, o caráter transeunte e transitivo da cena. Baudelaire defende o gosto feminino por moda, para “pairar acima da natureza”, não para “rivalizar com a juventude”, e Guys como seu cronista civilizado. Ele parece “inebriado”, quase “anárquico”, mas essa velocidade é seu trunfo, porque associada ao dom da contemplação – tanto que suas cenas de guerra ou de sua viagem à Turquia refletem a mesma preocupação com a explosão de luzes e a riqueza de detalhes. No Brasil, intelectuais diriam que isso tudo não passa de frivolidade; não espanta que não vejam o talento gráfico de um Millôr Fernandes.

Quando escreveu sobre um pintor maior, Delacroix (que foi para ele o que Turner foi para Ruskin: a síntese pictórica de todas suas inquietações estéticas), Baudelaire destacou também essa qualidade “mundana”, lembrando a frase dele de que um artista deveria ser hábil o bastante para “fazer um croquis de um homem que se atira pela janela durante o tempo que ele leva para cair do quarto andar ao solo”. Ou seja: a rapidez da percepção, a aptidão gráfica, não faria de um pintor um grande artista, mas seria necessária para um artista moderno, urbano, interessado em renovar as linguagens. Não existe apenas a beleza clássica, das formas gerais; existe também a beleza passageira, das formas particulares – e a modernidade é indissociável dessa atenção ao que é fugaz e móvel.

Não por acaso a centena de poemas de As Flores do Mal é o que é: um mosaico clássico composto de pastilhas modernas – ou, como disse João Cabral de Melo Neto, “está tudo ali”. Não por acaso foi em Baudelaire que Walter Benjamin examinou a figura do flâneur, do observador que caminha pela metrópole e se relaciona com o mercado de consumo, em meio à multidão, e como o homem de Poe passa a ver “com particular interesse as inumeráveis variedades de acessório, roupa, aparência, andar, rosto e expressão facial”. E não por acaso, em 1895, um famoso dândi se baseou em Baudelaire para elogiar Guys numa comparação com Whistler, ainda que este hoje seja reconhecido como melhor pintor – e esse dândi se chamava Robert de Montesquiou, modelo para o Barão de Charlus de outro escritor e crítico de arte, Marcel Proust, admirador e tradutor de Ruskin. Os grandes artistas modernos, enfim, não são nada senão críticos, amantes da arte, espíritos inquisitivos

Daniel Piza
Fonte : O Estado de S.Paulo

Ana de Amsterdam

Composição: Chico Buarque/Ruy Guerra

Sou Ana do dique e das docas

Da compra, da venda, das trocas de pernas

Dos braços, das bocas, do lixo, dos bichos, das fichas

Sou Ana das loucas

Até amanhã

Sou Ana

Da cama, da cana, fulana, sacana

Sou Ana de Amsterdam

Eu cruzei um oceano

Na esperança de casar

Fiz mil bocas pra Solano

Fui beijada por Gaspar

Sou Ana de cabo a tenente

Sou Ana de toda patente, das Índias

Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada

Sou Ana, obrigada

Até amanhã, sou Ana

Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos

Sou Ana de Amsterdam

Arrisquei muita braçada

Na esperança de outro mar

Hoje sou carta marcada

Hoje sou jogo de azar

Sou Ana de vinte minutos

Sou Ana da brasa dos brutos na coxa

Que apaga charutos

Sou Ana dos dentes rangendo

E dos olhos enxutos

Até amanhã, sou Ana

Das marcas, das macas, da vacas, das pratas

Sou Ana de Amsterdam

O Tango

Onde estarão? Pergunta a elegia

Sobre os que já não são, como se houvesse

Uma região onde o Ontem pudesse

Ser o Hoje, o Ainda, o Todavia.

Onde estará (repito) esse selvagem

Que ergueu, em tortuosas azinhagas

De terra ou em perdidas plagas,

A seita do punhal e da coragem?

Onde estarão aqueles que passaram,

Deixando à epopeia um episódio,

Uma fábula ao tempo, e que sem ódio,

Lucro ou paixão de amor se esfaquearam?

Procuro-os na lenda, na apagada

Brasa que, como uma indecisa rosa,

Conserva dessa chusma valorosa

De Corrales e Balvanera um nada.

Que escuras azinhagas ou que ermo

Do outro mundo habitará a dura

Sombra daquele que era sombra escura,

Muranã, essa faca de Palermo?

E esse Iberra (tenham dele piedade

Os santos) que na ponte duma via,

Matou o irmão, Ñato, que devia

Mais mortes que ele, ficando em igualdade?

Uma mitologia de punhais

No esquecimento aos poucos se desgasta.

E dispersou-se uma canção de gesta

Em sórdidas notícias policiais.

Há outra brasa, outra candente rosa

Dos seus restos totais conservadores;

Aí estão os soberbos matadores

E o peso da adaga silenciosa.

Embora a adaga hostil ou essa adaga,

O tempo, os dispersassem pelos lodos,

Hoje, p’ra além do tempo e da aziaga

Morte, no tango vivem eles todos.

Na música prosseguem, na mensagem

Das cordas da viola trabalhosa,

Que tece na toada venturosa

A festa, a inocência da coragem.

Vejo a roda amarela circular

Com leões e cavalos, oiço o eco

Desses tangos de Arolas e de Greco

Que vi bailar no meio da vereda,

Num instante que emerge hoje isolado,

Sem antes nem depois, contra o olvido,

E que tem o sabor do que, perdido,

Perdido está mas foi recuperado.

Os acordes conservam velhas cousas:

Ou a parreira ou o pátio ancestral.

(E por trás das paredes receosas

O Sul tem uma viola, um punhal.)

O tango, essa rajada, diabrura,

Os trabalhosos anos desafia;

Feito de pó e tempo, o homem dura

Menos que a leviana melodia,

Que é tempo somente. O tango cria

Um passado irreal, real embora.

Recordação que não pôde ir-se embora

Morta na luta, algures na periferia.



Jorge Luis Borges



Jorge Luis Borges in Poemas Escolhidos. Edição bilingue. Selecção e Trad. Ruy Belo.

Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp.43-47

sábado, 4 de dezembro de 2010

Soneto

Se, para possuir o que me é dado,

Tudo perdi e eu própio andei perdido,

Se, para ver o que hoje é realizado,

Cheguei a ser negado e combatido.

Se, para estar agora apaixonado,

Foi necessário andar desiludido,

Alegra-me sentir que fui odiado

Na certeza imortal de ter vencido!

Porque, depois de tantas cicatrizes,

Só se encontra sabor apetecido

Àquilo que nos fez ser infelizes!

E assim cheguei à luz de um pensamento

De que afinal um roseiral florido

Vive de um triste e oculto movimento.


António Botto

António Boto

Aves de Um Parque Real

As Canções de António Botto

Editorial Presença

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Amorosa antecipação

Ni la intimidad de tu frente clara como una fiesta

ni la costumbre de tu cuerpo, aún misterioso y tácito y de niña,

ni la sucesión de tu vida asumiendo palabras o silencios

serán favor tan misterioso

como el mirar tu sueño implicado

en la vigilia de mis brazos.

Virgen milagrosamente otra vez por la virtud absolutoria del sueño,

quieta y resplandeciente como una dicha que la memoria elige,

me darás esa orilla de tu vida que tú misma no tienes,

Arrojado a quietud

divisaré esa playa última de tu ser

y te veré por vez primera, quizá,

como Dios ha de verte,

desbaratada la ficción del Tiempo

sin el amor, sin mí.



Jorge Luis Borges in Luna de enfrente(1925) -Versión transcripta por José Ignacio Márquez.,pp 9.



Amorosa antecipação

Nem a intimidade da tua fronte clara como uma festa,

nem o hábito do teu corpo, ainda de menina e misterioso e tácito,

nem a sucessão da tua vida assumindo palavras ou silêncios

serão favor tão misterioso

como olhar o teu sono envolvido

na vigília dos meus braços:

Virgem milagrosamente outra vez, pela virtude absolutória do sono,

serena e resplandecente como a alegria que a memória escolhe,

dar-me-ás essa margem da tua vida que tu própria não tens.

Entregue à serenidade,

divisirei essa praia última do teu ser

e ver-te-ei acaso pla primeira vez

como Deus te verá,

já dissipada a ficção do Tempo,

sem o amor, sem mim.

Una furtiva Lacrima

Una furtiva lagrima


Una furtiva lagrima

negli occhi suoi spuntò

quelle festose giovani

invidiar sembrò

Che più cercando io vo?

Che più cercando io vo?

M’ama, si m’ama lo vedo;

lo vedo.

Un solo istante i palpiti

del suo bel cor sentir!

I miei sospir confondere

per poco ai suoi sospir!

I palpiti, i palpiti sentir

confondere i miei coi suoi sospir!

Cielo, si può morir;

di più non chiedo.

non chedo!

Cielo si può, si può morir!

di non chiedo

non chiedo!

Si può morir!

Si può morir!

d’amor.



Une larme furtive

A jailli dans ses yeux…

Elle paraissait envier

Ces joyeuses jeunes filles…

Que puis-je désirer de plus ?

Que puis-je désirer de plus ?

Elle m’aime, je le vois.

Un seul instant sentir

Les palpitations de son beau coeur

Confondre un moment

Mes soupirs avec les siens

Ciel, on peut mourir, je n’en demande pas plus.

Je ne demande rien de plus.

Ciel, si je peux mourir, si je peux mourir, je n’en demande pas plus.

Je ne demande pas d’amour si je peux mourir, ah oui !



[Ciel, on peut mourir... d'amour !

Vivre sa vie

Victoria (1930)

Saraca, Victoria;

Planté de la noria,

Se fue mi mujer!



Si me parece mentira…

¡Después de seis años

volver a vivir!

Volver a ver mis amigos…

Vivir con mama otra vez…

¡Victoria,

cantemos victoria,

yo estoy en la gloria,

se fue mi mujer!



Me saltaron los tapones

Cuando tuve esta mañana

La alegría de no verla más;

Y es que, al ver que no la tengo,

Corro, salto, voy y vengo

Desatentao. ¡Gracias a Dios,

Que me salvé de andar

Toda la vida atao

Llevando el bacalao

De la emulsión de Scott!

Si no nace el marinero

Que me tire de esa piolita

Para hacerme resollar,

Yo ya estaba condenao

A morir crucificao

Como el último infeliz…



¡Victoria,

saraca, Victoria;

pianté de la noria,

se fue mi mujer!



Me da mucha tristeza el panete

Chicato inocente

Que se la llevó…

¡Cuando desate el paquete

y manye que se ensartó…!



¡Victoria,

cantemos victoria;

yo estoy en la gloria

se fue mi mujer !

João e Maria

Agora eu era o herói

E o meu cavalo só falava inglês

A noiva do cowboy

Era você

Além das outras três

Eu enfrentava os batalhões

Os alemães e seus canhões

Guardava o meu bodoque

E ensaiava um rock

Para as matinês



Agora eu era o rei

Era o bedel e era também juiz

E pela minha lei

A gente era obrigado a ser feliz

E você era a princesa

Que eu fiz coroar

E era tão linda de se admirar

Que andava nua pelo meu país



Não, não fuja não

Finja que agora eu era o seu brinquedo

Eu era o seu pião

O seu bicho preferido

Vem, me dê a mão

A gente agora já não tinha medo

No tempo da maldade

Acho que a gente nem tinha nascido



Agora era fatal

Que o faz-de-conta terminasse assim

Pra lá deste quintal

Era uma noite que não tem mais fim

Pois você sumiu no mundo

Sem me avisar

E agora eu era um louco a perguntar

O que é que a vida vai fazer de mim

SOCIALISME (2010) trailer with English subtitles (Jean-Luc Godard)