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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

El corazón roto



John Donne

Demente está quien afirma
haber estado una hora enamorado,
mas no es que el amor así se desvanezca,
sino que, de hecho, en menos tiempo puede devorar.
¿Quién osará creerme si juro
haber sufrido un año de esta plaga?
¿Quién no se reiría de mí si yo dijera
que vi arder todo un día la pólvora de un frasco?

¡Ay, qué insignificante el corazón,
si llega a caer en manos del amor!
Cualquier otro pesar deja sitio
a otros pesares, y para sí reclama solo una parte.
Vienen hasta nosotros, pero a nosotros el Amor arrastra,
y, sin masticar, nos absorbe.
Por él, como por el infame hierro, tropas enteras caen.
Él es el esturión tirano; nuestros corazones, la morralla.

Si así no fue, ¿qué le sucedió
a mi corazón cuando te vi?
A la alcoba traje un corazón,
pero de ella emergí vacío, desolado.
Si contigo hubiera ido, sé
que a tu corazón el mío le habría enseñado
la compasión.
Pero, ¡ay!, Amor, de una herida lacerante la felicidad
se ha quebrado.

Más la Nada en Nada puede convertirse,
ni sitio alguno puede del todo vaciarse,
así, pues, pienso que aún posee mi pecho todos
esos fragmentos, aunque no estén reunidos.
Y ahora, como los espejos rotos muestran
cientos de rostros más menudos, así
los añicos de mi corazón pueden sentir agrado,
deseo y adoración,
pero después de tal Amor, jamás volverán a amar.

“The Broken Heart”, 1633

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Elegia

ELEGY

TO HIS MISTRESS GOING TO BED.

John Donne, 1616

COME, madam, come, all rest my powers defy ;
Until I labour, I in labour lie.
The foe ofttimes, having the foe in sight,
Is tired with standing, though he never fight.
Off with that girdle, like heaven’s zone glittering,
But a far fairer world encompassing.
Unpin that spangled breast-plate, which you wear,
That th’ eyes of busy fools may be stopp’d there.
Unlace yourself, for that harmonious chime
Tells me from you that now it is bed-time.
Off with that happy busk, which I envy,
That still can be, and still can stand so nigh.
Your gown going off such beauteous state reveals,
As when from flowery meads th’ hill’s shadow steals.
Off with your wiry coronet, and show
The hairy diadems which on you do grow.
Off with your hose and shoes ; then softly tread
In this love’s hallow’d temple, this soft bed.
In such white robes heaven’s angels used to be
Revealed to men ; thou, angel, bring’st with thee
A heaven-like Mahomet’s paradise ; and though
Ill spirits walk in white, we easily know
By this these angels from an evil sprite ;
Those set our hairs, but these our flesh upright.
Licence my roving hands, and let them go
Before, behind, between, above, below.
O, my America, my Newfoundland,
My kingdom, safest when with one man mann’d,
My mine of precious stones, my empery ;
How am I blest in thus discovering thee !
To enter in these bonds, is to be free ;
Then, where my hand is set, my soul shall be.
Full nakedness ! All joys are due to thee ;
As souls unbodied, bodies unclothed must be
To taste whole joys. Gems which you women use
Are like Atlanta’s ball cast in men’s views ;
That, when a fool’s eye lighteth on a gem,
His earthly soul might court that, not them.
Like pictures, or like books’ gay coverings made
For laymen, are all women thus array’d.
Themselves are only mystic books, which we
—Whom their imputed grace will dignify—
Must see reveal’d. Then, since that I may know,
As liberally as to thy midwife show
Thyself ; cast all, yea, this white linen hence ;
There is no penance due to innocence :
To teach thee, I am naked first ; why then,
What needst thou have more covering than a man?

(John Donne)

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ELEGIA: INDO PARA O LEITO

Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

(Tradução: Augusto de Campos)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Elegia IX - Outonal

Nenhuma beleza de Primavera ou Verão em tal graça

Como a que descobri numa face Outonal.

As jovens Belezas forçam-nos ao amor: isso é Violação;

Esta apenas aconselha, e não lhe podemos escapar.

Se fosse vergonha amar, não seria vergonha aqui

Onde a Afeição toma o nome de Reverência.

Foram-lhe os primeiros anos a Idade de Ouro? É verdade,

Mas ela agora é ouro bem martelado e sempre novo.

Aquele foi o seu tempo tórrido e inflamador,

Este é o seu temperado clima Tropical.

Olhos belos, quem vos pedir mais fogo que o emanado,

É porque, febril, deseja a pestilência.

Não chamem campas a estas rugas; se campas fossem

Seriam as do amor, porque ele não está noutro lugar.

Porém o amor não jaz aqui morto, mas aqui se senta

Consagrado a esta trincheira, como um Anacoreta;

E aqui até que a morte dela, que será a dele, chegue

Não cavará uma Campa, mas erigirá um Túmulo.

Aqui habita; e apesar de viajar por todo o lado

Com Estadão, é ainda aqui a sua residência fixa:

Aqui onde está calma a Tarde, não o meio-dia ou a noite,

Sem voluptuosidades, porém toda deleite.

Todas as palavras dela, próprias a todos os ouvintes

Seja no Folgar, seja em Conselho, podemos seguir.

Este é o madeiro do amor, a juventude os seus arbustos;

Ali ele, como vinho em Junho, faz ferver o sangue,

Que depois se tempera, quando o nosso gosto

E apetite de outras coisas é passado.

O estranho amor Lídio de Xerxes, o Plátano,

Foi amado pela idade, e porque nenhum era maior,

Ou então porque, sendo jovem, a natureza lhe abençoou

A juventude com a glória da idade, a Esterilidade.

Se amamos as coisas há muito procuradas, a Idade é algo

Que levamos cinquenta anos a conquistar.

Se as coisas são transitórias, e cedo se corrompem,

A Idade será mais amável nos seus últimos dias.

Mas não nomeiam Faces Invernais, de pele flácida,

Descarnadas como um saco vazio, antes a bolsa da alma;

Cujos Olhos buscam luz de dentro, pois tudo aqui é sombra;

Cujas bocas são buracos, mais gastos do que feitos;

Em que um a um cada dente partiu para vários lugares

A fim de lhes humilhar as almas na Ressurreição:

Não me nomeiem essas Cabeças mortas viventes,

Porque estas não são Anciãs, mas Antigas.

Odeio extremos; porém antes preferia ficar

Com Tumbas do que Berços;para passar um dia.

Dado que tal é o movimento natural do amor, possa ainda

O meu amor abrandar, e viajar monte abaixo

Nunca a suspirar atrás de belezas em crescimento. Assim,

Irei definhando no fluxo dos que se dirigem para casa.







John Donne in Elegias Amorosas. Edição bilingue. Trad. Helena Barbas. Assírio & Alvim, 1997.,pp49/51

Elegia I - CIÚME

Mulher carinhosa, que verteu marido morto desejas

E de seus grandes ciúmes ainda te queixas.

Se inchado de veneno jazesse no seu último leito,

O corpo coberto por uma crosta cauterizada,

Aspirando o ar, tão rouco e rápido, como pode

Cravejar o mais ágil músico;

Com repugnante vomitado, pronto a expelir

A alma para fora de um Inferno, adentro de novo,

Feito surdo pelos urros uivantes dos parentes pobres

A implorar, com poucas e falsas lágrimas, grandes legados,

Não chorarias, mas alegre e prazenteira estarias

Como um escravo, que amanhã fosse libertado.

Porém tu choras, quando o vês engolir avidamente

A sua própria morte, o ciúme que envenena o coração.

Oh, agradece-lhe muito, ele é bem-educado,

Pois suspeitando, amavelmente nos avisou

Que não devemos, como usávamos, troçar abertamente

Da sua deformidade com enigmas de escárnio;

Nem estando juntos à sua mesa sentados,

Com palavras, toques, ou olhares de viés, adulterar;

Nem quando ele, inchado e satisfeito pela comezaina

Se senta, e ressona, enjaulando-se na cadeira de verga,

Deveremos nós outra vez usurpar-lhe a cama,

Nem beijarmo-nos e brincar na casa dele, como dantes.

Agora vejo grandes perigos; porque aquele é

O seu reino, o seu castelo, a sua diocese.

Mas - como os homens invejosos que insultariam

O seu Príncipe, ou lhe cunhariam o ouro, para outro país

A si próprios se exilam, e aí o fazem - ,

Se brincarmos noutra casa, que teremos a temer?

Ali zombaremos dos comportamentos caseiros,

Das suas intrigas cegas, e espiões a soldo,

Como o fazem os habitantes da margem direita do Tamisa

Ao Mayor de Londres, ou os alemães ao orgulho do Papa.





John Donne in Elegias Amorosas. Edição Bilingue. Trad. Helena Barbas, Assírio & Alvim, 1997