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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A secção dos congelados

Truncadas, indefinidas, passam

na memória como filmes mudos

pequenas histórias de amor

carnal. Os grandes caudais da noite

sempre desaguam na tarde salobra

e rasa: Janeiro amolece a tinta

das paredes, levamos à rua uma cara

mais fechada, e depois, na secção

dos congelados, não sabemos distinguir

o que sentimos além do frio que represa

as coisas todas: caminhamos sós



num privado bosque, convocamos

sombras que foram perdendo o nome,

sinais que não transportam já

um sentido automático de desejo

ou sofrimento. E contudo, à revelia

das certezas que não quiséramos ter,

acabamos sempre por tornar

às mesmas ruas, à noite insone

e imensa, onde nos dói descobrir,

na companhia dos outros,

o quanto nos reclama a solidão.

Rui Pires Cabral

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Gnossienne nº 1

Eu acreditei que podia amar

o teu corpo, o teu modo de insinuar o coração

nas palavras. Mas era apenas a forma como a noite

sublinhava as superfícies, eu nunca pude atravessar

essa espessura. Estavas ali para te dispores aos meus sentidos

mas crescias fora de alcance no teu próprio

pensamento. Uma distância que só serviria

aos lobos, um mau caminho arrancado às fragas.

Já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio

em que me mantinhas era mais urgente

que o sangue. Sem dúvida que vinhas pelo meu desejo

mas eu perdia sempre alguma coisa

quando te ganhava. Às vezes era só

a minha vontade, outras vezes era toda a frase

do meu nome.

Rui Pires Cabral