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domingo, 12 de dezembro de 2010

Forma da ausência

XII



Este quarto tornou-se um poço profundo.

O candeeiro é uma estrela pregada na água.

A cama infantil no seu lugar; os lençóis, por agora

lançam reflexos circulares

enquanto à superfície da toalha

as horas lentas, imponderáveis, caem como fetos

de palha,

nela traçando círculos invisíveis. Ninguém fala

no interior - e se falasse ninguém ouviria. Quando

um copo

tomba, cai sem fazer ruído na palma do silêncio.

Não se quebra.

Sozinho, dissolvido da na água, o antigo grito da

separação

torna o poço mais sombrio e mais profundo.

Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.36
Também possuo uma vida e devo vivê-la. Nada


de vinganças;

que poderia, mais uma morte, arrancar à morte,

sobretudo uma morte violenta? E que poderia

acrescentar à vida? Os anos

passaram. Não sinto ódio; esqueci, talvez?, estou

cansado? Não sei.

Até sinto uma relativa simpatia pela criminosa;

ela mediu abismos imensos,

um grande crescimento fez crescer-lhe os olhos

na obscuridade

e ela vê - vê o inesgotável, o irrealizável, o imu-

tável. Ela vê-me.

Também eu quero ver o assassínio de meu pai na

totalidade apaziguadora da morte,

esquecê-lo na morte completa

que também nos espera. Esta noite revelou-me

a inocência de todos os usurpadores. E todos somos,

de um modo ou outro, usurpadores - estes dos

povos, dos tronos,

aqueles do amor ou da morte; minha irmã

usurpadora da minha única vida; e eu da tua.


Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.66
Esta noite de espera deixa-me uma aberta para


o exterior

e o interior. Não distingo claramente. Talvez

grandes máscaras deterioradas, agrafes metálicos;

as sandálias dos mortos torcem-se na humidade,

movem-se sozinhas como se caminhassem sem pés

- não caminham;

e essa grande rede do banho, quem a teceu?

nó a nó - não se desfaz -, negra - não é a mãe.



Uma sombra imensa alonga-se por cima das ar-

cadas;

uma pedra destaca-se e cai na ravina - no entanto

ninguém caminhou -

e depois nada; e subitamente um ramo quebrado

pelo peso ligeiro do céu. As rãs

saltam, ágeis e mudas, na erva húmida. Silêncio.

No poço caem ratos cor de cinza, afogam-se;

constelações espessas movem-se lentamente; dei-

tam-se fora

coisas que os banquetes abandonam, ânforas, taças,

espelhos e cadeiras.

ossos de animais, liras e diálogos inteligentes. Os

poços nunca enchem.

Dir-se-ia que dedos de fogo, dedos de orvalho

passam sucessivamente pelo nosso peito,

descrevendo círculos inquiridores em torno dos

nossos mamilos

e também nós flutuamos de círculo em círculo,

em torno dum centro

desconhecido, indefinido e no entanto definido;

círculos infindáveis

em torno dum grito mudo, em torno duma facada;

e a faca

mergulha, creio, no nosso coração e este torna-se

o centro

como o poste no meio da eira, na colina,



e em torno os cavalos, as espigas, os malhadores,

os condutores

e as ceifeiras entre as medas, com a cabeça da

lua nos ombros,

ouvindo o relincho dos cavalos até ao extremo

do seu sono,

ouvindo os touros urinar nos salgueiros e nas

silvas

e os pés inumeráveis da centopeia e do cântaro,

o rastejar da serpente tranquila nos olivais

e o crepitar da pedra ardente que se contrai ao

arrefecer.


Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.72/3
Por fim calou-se, a infeliz. Creio ouvir no silêncio


a sua razão,

tão vulnerável no seu furor, tão injustamente

tratada,

com os seus amargos cabelos lançados para os

ombros como a erva dos túmulos,

emparedada na sua acanhada visão da justiça.

Adormeceu talvez,

sonha possivelmente com um lugar inocente, com

animais simples,

casas caiadas de branco cheias com os belos aromas

do pão fresco e das rosas.



Recordo agora - não sei porquê - aquela vaca

que vimos no crepúsculo, num campo da Ática -

lembras-te?

Estava ali, separada da charrua, olhava para o

longe

e com os vapores das narinas embaciadas

o pôr do Sol, púrpura, violeta, dourado; muda e

ferida

nos flancos e no dorso, sob o peso do jugo,

tinha conhecido talvez a negação, a submissão,

a intransigência e a hostilidade, tudo junto.



Sustentava entre os dois cornos

a mais pesada parte do céu, como uma coroa.

Depois

baixou a testa, bebeu a água do regato

lambendo com a língua sangrenta essa outra

língua

fresca da sua imagem de água, como se lambesse

longa e serenamente, maternalmente, inevitavel-

mente,

do exterior a sua ferida interna, como se lambesse

a silenciosa, a grande, a redonda ferida do mundo;

- mata talvez a sede -

só talvez o nosso sangue nos mata a sede - quem

sabe?



Depois ergueu a cabeça da água sem tocar em

nada,

ela própria intacta e calma como um santo;

apenas

entre as suas duas patas enraizadas na ribeira

um pequeno lago de sangue caído dos lábios, man-

tinha-se, mudava de forma,

um lago vermelho que se assemelhava a um postal

e pouco a pouco se alargava e dissolvia; desa-

parecia

como se todo o sangue passasse para uma veia

invisível do mundo,

muito longe, liberto, fácil; por isso

se mantinha calma; como se tivesse sabido

que o nosso sangue não se perde,

nada, nada se perde neste grande nada,

este inconsolável, este impiedoso, este incompa-

rável,

tão doce, tão consolador, tão nada.



Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.74/75/76

As mulheres

As mulheres estão muito distantes. As suas rou-

pas, o cheiro de «Boa Noite».

Pousam o pão na mesa para que não se sinta

como estão ausentes.

É então que nos sentimos culpados. Levantamo-nos

da cadeira e dizemos:

«Estás muito cansada hoje » ou então «Deixa, eu

acendo o candeeiro».

Quando pegamos no fósforo ela volta-se lenta-

mente

e dirige-se para a cozinha com uma aplicação

inexplicável. As costas

são uma pequena colina de amargura carregada

de mortos sem fim,

os mortos da família, os mortos dela e a nossa

morte.

Ouvem-se-lhe os passos a afastar latas velhas,

ouvem-se as travessas a chorar na banca, depois

ouve-se

o comboio que transporta os soldados para a

frente.





Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.85

História

Aconteça o que acontecer, aqui fico - murmurou


ele.

A margem é imensa, as pedras

alteram a sua cor à passagem da hora.

Se contemplas a água, logo após o crepúsculo,

verás o último filho de Tiestes

sem espada, sem coroa, apenas

no flanco direito a cicatriz duma estrela.

Quanto ao resto dir-se-á que estava escrito

o amor, o massacre e o regresso,

o poder efémero, a ausência de descendentes,

e a minúscula cruz de ferro

pendurada num fio, nessa mesma noite,

e pisada no solo pelos cascos dos cavalos.




Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.99