quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O Tempo e Eu

"Creio na bondade sem a garantia prévia da gratidão. Sem que se assegure da memória devedora. Sem que se estabeleça, pelo ato generoso, uma servidão vitalícia no beneficiado. Bondade paga-se no puro e simples ato de sua realização. Como um fruto justifica a existência útil da árvore. Bondade antevendo a recompensa é apólice de sociedade mutualista rendendo do capital intocável do favor inicial. Os pássaros não são devedores dos frutos e da água da fonte. Eles testificam, perante a natureza, a continuidade da missão cultural."


- Câmara Cascudo, em "O Tempo e Eu", Natal: UFRN/Imprensa Universitária, 1968.
"A educação corrente e formal, simplificadora das realidades do mundo, subordinada à lógica dos negócios, subserviente às noções de sucesso, ensina um humanismo sem coragem, mais destinado a ser um corpo de doutrina independente do mundo real que nos cerca, condenado a ser um humanismo silente, ultrapassado, incapaz de atingir uma visão sintética das coisas que existem, quando o humanismo verdadeiro tem de ser constantemente renovado, para não ser conformista e poder dar resposta às aspirações efetivas da sociedade, necessárias ao trabalho permanente de recomposição do homem livre, para que ele se ponha à altura do seu tempo histórico."


- Milton Santos

O ESTADO E A VIOLÊNCIA



“O Estado precisa reprimir e criminalizar toda e qualquer dissidência pelo simples motivo de que por qualquer pequena rachadura da ordem pode brotar a imensa torrente que nos unirá contra a ordem que o Estado garante.”


Mauro Iasi no Blog da Boitempo

a educação entre a sala de aula e a rua



“'A aprendizagem é a nossa própria vida', como Paracelso afirmou há cinco séculos, e também muitos outros que seguiram seu caminho, mas que talvez nunca tenham sequer ouvido seu nome. Mas para tornar essa verdade algo óbvio, como deveria ser, temos de reivindicar uma educação plena para toda a vida, para que seja possível colocar em perspectiva a sua parte formal, a fim de instituir, também aí, uma reforma radical. Isso não pode ser feito sem desafiar as formas atualmente dominantes de internalização, fortemente consolidadas a favor do capital pelo próprio sistema educacional formal. De fato, da maneira como estão as coisas hoje, a principal função da educação formal é agir como um cão-de-guarda 'ex-officio' e autoritário para induzir um conformismo generalizado em determinados modos de internalização, de forma a subordiná-los às exigências da ordem estabelecida. O fato de a educação formal não poder ter êxito na criação de uma conformidade universal não altera o fato de, no seu todo, ela estar orientada para aquele fim. Os professores e alunos que se rebelam contra tal desígnio fazem-no com a munição que adquiriram tanto dos seus companheiros rebeldes, dentro do domínio formal, quanto a partir da área mais ampla da experiência educacional ‘desde a juventude até a velhice’.”

—István Mészáros, “A educação para além do capital” ( http://bit.ly/H4Dikw )



Leia também "Educação: desenvolvimento contínuo da existência socialista", de István Mészáros, no Blog da Boitempo: http://bit.ly/18mBDkU

"Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam." Jack Kerouac

Recital de Facundo Cabral

Yo tenía ojos y no veía.
Yo tenía boca y no hablaba.
Yo tenía manos y no tocaba.
Yo tenía pies y no caminaba.

Pero un día llegaste vos...

Y por tu amor comencé a ver
a oír, a tocar, a caminar.

¡Jamás te perdonaré que me hayas arrancado de mi valle de paz!"


 Facundo Cabral

domingo, 13 de outubro de 2013

PRISIONEIRO NA PEDRA



Na pedra,
ele espreita:
peixe, pássaro, lua.
Seu olho-flecha
nunca fere a presa.
Pois que tudo se move;
rio, céu, satélite
e até mesmo a pedra.
Não se move o homem,
cego à teia
que à sua volta cresce.


Donizete Galvão (do livro As faces do rio)

trecho do poema “Uma Arte”

"A arte de perder não é nenhum mistério.
Tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes."


- Elizabeth Bishop (1956).

Lições


Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trêmula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?

- Mia Couto, no livro "Idades Cidades Divindades",

Lisboa, Caminho, 2007.

da solidão

"A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que
o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre."


- Vinicius de Moraes, da solidão.

Sapato Florido

Epílogo
Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. Nada aguenta mais nada. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe... Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca... Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade.

- Mario Quintana, in: Sapato Florido, 1948., 

Vindima


Vamos colher as uvas molhadas pelo orvalho
e tapetar de folhas o ingênuo samburá.

Em cada cacho maduro há uma pupila.

Quem será que ensina a estas aranhas
a tecer o fio frágil do aranhol,
e movimenta à sombra escura da parreira
a dança loura do sol?

Vamos colher as uvas.

Vamos cortar os cachos de efêmero sabor.

As tuas mãos morenas são ágeis como aranhas
e têm carícias gulosas para os frutos.

Prova o sumo sanguíneo.
Tinge os teus lábios no sangue da videira.

No teu cabelo o sol floresce uma coroa.
mergulhando os braços na folhagem,
és uma árvore moça,
és uma vinha selvagem que oferece
cachos de beijos para a minha fome!


- Augusto Meyer, em “Giraluz”, Porto Alegre: Globo, 1928.

El Aromo

 (Romildo Risso/Atahualpa Yupanqui)

Hay un aromo nacido
en la grieta de una piedra.
Parece que la rompió
pa’ salir de adentro de ella.

Está en un alto pela’o,
no tiene ni un yuyo cerca,
Viéndolo solo y florido
Tuito el monte lo envidea.

Lo miran a la distancia
árboles y enredaderas,
diciéndose con rencor:
“¡Pa uno solo, cuánta tierra!”

En oro le ofrece al sol
pagar la luz que le presta.
Y como tiene de más,
puña’os por el suelo siembra.

Salud, plata y alegría,
tuito al aromo, la suebra
Asegún ven los demás
dende el lugar que lo observan.

Pero hay que dir y fijarse
como lo estruja la piedra.
Fijarse que es un martirio
la vida que le envidean.
Que en ese rajón, el árbol nació
por su mala estrella.
y en vez de morirse triste
se hace flores de sus penas…

Como no tiene reparo,
todos los vientos le pegan.
Las heladas lo castigan
L’agua pasa y no se queda.

Ansina vive el aromo
sin que ninguno lo sepa.
Con su poquito de orgullo
porque es justo que lo tenga.

Pero con l’alma tan linda
que no le brota una queja.
Que en vez de morirse triste
se hace flores de sus penas.

¡Eso habrían de envidiarle

los otros, si lo supieran!

sábado, 12 de outubro de 2013

Hiroíto


Clarissa

"Fora, o luar cresce, tênue, inundando a paisagem.
Clarissa infla as narinas. Parece-lhe que o luar tem um perfume todo especial. Se ela pudesse pegar o luar, fechá-lo na palma da mão, guardá-lo numa caixinha ou no fundo de uma gaveta para soltá-lo nas noites escuras…"


- Erico Verissimo, 

Octubre 12 - Día del Descubrimiento


En 1492, los nativos descubrieron que eran indios,descubrieron que vivían en América,descubrieron que estaban desnudos,descubrieron que existía el pecado,descubrieron que debían obediencia a un rey y a una reina de otro mundo y a un dios de otro cielo,y que ese dios había inventado la culpa y el vestido
y había mandado que fuera quemado vivo quien adorara al sol y a la luna y a la tierra y a la lluvia que la moja.



[Don Eduardo Galeano, 'Los hijos de los días 

"Quando encontrares um homem
Que transforme cada partícula tua em poesia,
Que faça de cada um dos teus cabelos, um poema,
Quando encontrares um homem
Capaz, como eu, de te lavar e adornar, com poesia,
Hei de implorar-te, que o sigas sem hesitação.
Pois o que importa, não é que sejas minha ou dele, 
mas sim da poesia...".
~ Nizar Qabbani (poeta sírio)


Leia Mais: http://www.gazetadebeirute.com/2013/08/o-grande-poeta-arabe.html#ixzz2hVV236wB

Tu nel mio cuore



Oggi nel cuore non esiste
dolore quella ferita
che aveva perforato a lungo
si è rimarginata.
Un lungo silenzio ha fatto
si
che un vuoto facesse dimenticare
i lunghi lamenti,
ero in guerra con me stesso.
Mentre i ricordi mi trascinavo
appesi
a una lunga catena e,
il dolore privava i sentimenti
mentre il soccorso tardava,
il cervello vagava.
Potevo fare qualsiasi cosa,
anche se mi rivolgevo
alle stelle e chiedevo
un attimo di pace,
chi mai poteva ascoltarmi.
Quando nacque la speranza
i ricordi del passato svanirono,
i momenti d’affetto che
t r a s c o r r e v o
tra le braccia di una donna
anche se amorosa mi facevano
e s s e r e in pace
ma non ero me stesso.
Oggi nella mia anima
una ferita sta rimarginando,
nella mente anche se porto
ancora i ricordi mi sento
diverso.


@ Giuseppe Buro

Dialogo com Guimarães Rosa

"... nós, os homens do sertão, somos fabulistas por natureza. Está no nosso sangue narrar estórias; já no berço recebemos esse dom para toda a vida. Desde pequenos, estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel. Deste modo a gente se habitua, e narra estórias que corre por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens (...) Eu trazia sempre os ouvidos atentos, escutava todo o que podia e comecei a transformar em lenda o ambiente que me rodeava, porque este, em sua essência, era e continua sendo uma lenda."

- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".


Elegia de Taormina


A dupla profundidade do azul
Sonda o limite dos jardins
E descendo até à terra o transpõe.
Ao horizonte da mão ter o Etna
Considerado das ruínas do templo grego,
Descansa.

Ninguém recebe conscientemente
O carisma do azul.
Ninguém esgota o azul e seus enigmas.

Armados pela história, pelo século,
Aguardando o desenlace do azul, o desfecho da bomba,

Nunca mais distinguiremos
Beleza e morte limítrofes.
Nem mesmo debruçados sobre o mar de Taormina.

Ó intolerável beleza,
Ó pérfido diamante,
Ninguém, depois da iniciação, dura
No teu centro de luzes contrárias.

Sob o signo trágico vivemos,
Mesmo quando na alegria
O pão e o vinho se levantam.
Ó intolerável beleza
Que sem a morte se oculta.

- Murilo Mendes, em "Poesias, 1925/1955". Rio de Janeiro: José Olympio, 1959.

/

Monólogo de uma sombra

"Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca...
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de uma esfera opaca.
Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água

Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!"


- Augusto dos Anjos, do poema "Monólogo de uma sombra".

Educação e Mudança

"Quando o homem compreende a sua realidade, pode levantar hipóteses sobre o desafio dessa realidade e procurar soluções. Assim, pode transformá-la e o seu trabalho pode criar um mundo próprio, seu Eu e as suas circunstâncias."

- Paulo Freire, em "Educação e Mudança". Rio de Janeiro: Paz e Terra.

O nome da Rosa

"Pode-se pecar por excesso de loquacidade e por excesso de reticência. Eu não queria dizer que é necessário esconder as fontes da ciência. Isso me parece antes um grande mal. Queria dizer que, em se tratando de arcanos dos quais pode nascer tanto o bem como o mal, o sábio tem o direito e o dever de usar uma linguagem obscura, compreensível somente a seus pares. O caminho da ciência é difícil e é difícil distinguir nele o bem do mal. E freqüentemente os sábios dos novos tempos são apenas anões em cima dos ombros de anões. O limite entre o veneno e o remédio é bastante tênue, os gregos chamavam a ambos de Pharmacon."


- Umberto Eco, in "O nome da Rosa"

Americanos


Cuenta la historia oficial que Vasco Núñez de Balboa fue el primer hombre que vio, desde una cumbre de Panamá, los dos océanos. Los que allí vivían, ¿eran ciegos?
¿Quiénes pusieron sus primeros nombres al maíz y a la papa y al tomate y al chocolate y a las montañas y a los ríos de América? ¿Hernán Cortés, Francisco Pizarro? Los que allí vivían, ¿eran mudos? Lo escucharon los peregrinos del Mayflower: Dios decía que América era la Tierra Prometida. Los que allí vivían, ¿eran sordos? Después, los nietos de aquellos peregrinos del norte se apoderaron del nombre y de todo lo demás. Ahora, americanos son ellos. Los que vivimos en las otras Américas, ¿qué somos?


Eduardo Galeano - Espejos. Una Historia casi universal.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

“Democracia sem educação e educação sem liberdade são antinomias em teoria, que desfecham, na prática, em fracassos inevitáveis.”


- Anísio Teixeira, citação consta no livro Anísio Teixeira: educador singular, de Hermano Gouveia Neto, p. 82.
Pasión del movimiento,
la tierra es tu caballo.
Cabálgala. Domínala.
Y brotará en su casco
su piel de vida y muerte,
de sombra y luz, piafando.
Asciende. Rueda. Vuela,
creador de alba y mayo.
Galopa.

MIGUEL HERNANDEZ

O povo Latino-Americano

"Nunca, em nossa história, nos faltaram tanto a lucidez e a clarividência indispensáveis para equacionar os nossos problemas. Nunca foi tão escasso o sentido de bem comum, a noção de interesse público, que é o ponto de vista do povo inteiro. O que nos sobra, nesses tristes dias, são as vozes de irresponsáveis só sensíveis aos interesses minoritários, às razões do lucro. É a consciência culposa do colonizado, querendo reiterar o velho projeto do Brasil servil."


- Darcy Ribeiro, “O povo Latino-Americano”, (p. 22). Brasília, nº 2, 1991, pp. 15-29.
"O Mundo é um livro imenso, que Deus desdobra aos olhos do Poeta! Pela criação visível, fala o Divino invisível sua Linguagem simbólica. A Poesia, além de ser vocação, é a segunda das sete Artes e é tão sublime quanto suas irmãs gêmeas, a Música e a Pintura! Vem da Divindade a sua essência musical. Mas, meus Senhores, ninguém queira tomar como Poesia qualquer estrofe, pois há muitas Poesias sem estrofes e muitíssimas estrofes sem Poesia... Ser Poeta, não é somente escrever estrofes! Ser Poeta, é ser um “geníaco”, um “filho assinalado das Musas”, um homem capaz de se alçar à umbela de ouro do Sol, de onde Deus fala ao Poeta! Deus fala através das pedras, sim, das pedras que revestem de concreto o trajo particular da Idéia! Mas a Divindade só fala ao Poeta que sabe alçar seus pensamentos, primando pela grandeza, pela bondade, pela glória do Eterno, pelo respeito, pela moral e pelos bons costumes, na sociedade e na família! Existe o Poeta de loas e folhetos, e existe o Cantador de repente. Existe o Poeta de estro, cavalgação e reinaço, que é capaz de escrever os romances de amor e putaria. Existe o Poeta de sangue, que escreve romances cangaceiros e cavalarianos. Existe o Poeta de ciência, que escreve os romances de exemplo. Existe o Poeta de pacto e estrada, que escreve os romances de espertezas e quengadas. Existe o Poeta de memória, que escreve os romances jornaleiros e passadistas. E finalmente, existe o Poeta de planeta, que escreve os romances de visagens, profecias, e assombrações."


- João Melchíades (personagem), de Ariano Suassuna, em "Romance d'A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta". 8ª ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 2006, p. 239.
Alexandre O'Neill

Congresso de gaivotas neste céu 
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo. 
Querela de aves, pios, escarcéu. 
Ainda palpitante voa um beijo. 

Donde teria vindo! (Não é meu...) 
De algum quarto perdido no desejo? 
De algum jovem amor que recebeu 
Mandado de captura ou de despejo? 

Ler mais:
http://www.portaldaliteratura.com/poemas.php?id=967

domingo, 6 de outubro de 2013

Não há literatura sem memória

"Não há literatura sem memória. A pátria de todo escritor é a infância. Acho que o momento da infância e da juventude é privilegiado para quem quer escrever. É onde a memória sedimenta coisas importantes: as grandes felicidades, os traumas, as alegrias e também as decepções. Certamente não estou falando da lembrança pontual e nítida. O que interessa é a memória desfalcada, a memória não lembrada. Isso é bom para a literatura porque aí é que se instala o espaço da invenção."

- Milton Hatoum - in: “Não há literatura sem memória”. [Entrevista concedida a Luiz Henrique Gurgel]. Na ponta do Lápis. Ano IV, n. 8. AGWM Editora e Produções editoriais, p. 2-4, Junho/2008, p. 4.




quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Lavoura arcaica

“... rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando aberto para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é.”


- Raduan Nassar,  1975.
trying to manage piskojisi society that corrupt minds, but it s not aware of is the start of parasites
"Quando se confundem cidadão e consumidor, a educação, a moradia, a saúde, o lazer aparecem como conquistas pessoais e não como direitos sociais. Até mesmo a política passa a ser uma função do consumo. Essa segunda natureza vai tomando lugar sempre maior em cada indivíduo, o lugar do cidadão vai ficando menor, e até mesmo a vontade de se tornar cidadão por inteiro se reduz."


- Milton Santos
 “Creio que as condições da história atual permitem ver que outra realidade é possível. Essa outra realidade é boa para a maior parte da sociedade. Nesse sentido, a gente é otimista. A gente é pessimista quanto ao que está aí. Mas é otimista quanto ao que pode chegar.”


- Milton Santos

sábado, 28 de setembro de 2013

Idealismo


Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isso que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor quea Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?!

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
-- Alavanca desviada do seu futuro --

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!


- Augusto dos Anjos, in "Eu e outras poesias". 42ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

O Eichmann do Boa Vista



Dia destes fui assistir o filme “Hanna Arendt”, que entre outras coisas retrata o processo de escrita do livro “O julgamento de Eichmann em Jerusalém”. Filme bacana, mesmo para quem, como eu, não se sente lá muito convencido da teoria do Totalitarismo da filósofa alemã. Mas não se pode negar que a ideia da banalidade do mal é um viés explicativo interessante: para Arendt o funcionário da SS nazista Eichmann era um medíocre membro da engrenagem do mal, sem plena consciência do que fazia, era apenas uma pequena expressão da banalidade do mal.

É possível encontrar pequenos “Eichmanns” por ai. Dos seus lugares de poder, por mais diminutos que sejam, colocam toda sua medíocre capacidade com vigor e energia em favor das engrenagens do mal. É possível encontrá-los por ai no serviço público também. Negar um direito, enganar um cidadão, defender com unhas e dentes o chefe de turno, são as características da vez destes pequenos “Eichmanns”. Claro que nada como comandar a saída de vagões de judeus para a morte, porque a exigência do momento não é essa. Mas defender com orgulho a política de saúde do governo, na mesma toada em que informa ao paciente que a consulta com o especialista só vai ser marcada para dali a um ano, ou explicar as grandes ações do governo na educação, com a mesma desenvoltura e alegria com a qual nega uma vaga na creche para uma mãe.

Claro que não estou falando da maioria. A maioria trabalha em troca do seu salário, e sofre também com o funcionamento destas engrenagens que negam direitos aos cidadãos. Mas esta minoria não. Não consigo avançar muito em especulações sobre suas motivações, mas podem passar pela vontade de acender de posto, obter privilégios, se livrar do trabalho considerado por eles mais penoso, como o contato direto com a população, com os pacientes, com os alunos, não sei. Talvez a ideia de que estejam apenas cumprindo o seu dever, pois medíocres que são, não possuem capacidade de questionar, de levantar impeditivos éticos de qualquer natureza para a tarefa que lhes foi confiada.


Anos atrás topei com um pequeno “Eichmann” destes. Ontem a reencontrei. Lembro bem da convicção com que me explicava as maravilhas feitas pelo governo de plantão, enquanto negava um direito meu. Simples assim. Servil e convicta. Em outro tempo poderia estar fechando os ferrolhos dos vagões em uma estação de trem, certa de estar cumprindo o seu dever.

Pastores da Noite

“E, se não fôssemos nós, pontais ao crepúsculo, vagarosos caminhantes dos prados do luar, como iria a noite – suas estrelas acendidas, suas esgarçadas nuvens, seu manto de negrume – como iria ela, perdida e solitária, acertar os caminhos tortuosos dessa cidade de becos e ladeiras? Em cada ladeira um ebó, em cada esquina um mistério, em cada coração noturno grito de súplica, uma pena de amor, gosto de fome nas bocas de silêncio, e Exu solto na perigosa hora das encruzilhadas.”


- Jorge Amado

Farewell of Slavianka.

 

This is an inspiring song
Recalling the aggressor pressing the border
Soldiers leave their homes to the train
Setting off with this song to the front
Singing it to defend Moscow in 1941
Singing it to take Berlin in 1945
Russia firmly erect and unite as one
Even with decades of difficulties and hardship
(Chorus)
If one day
Enemy dare
For our motherland
Rise up and commit into this holy war!

The wheat fields rolling
Motherland is big step moving forward
Overcoming the hardship
Praising the hardworking
Defending the happiness and peace
Overcoming the hardship
Praising the working party
Defending the happiness and peace

(Chorus)

[Chinese Sub]
这是一首振奋人心的歌曲
忆起当年侵略者压过边境
们告别了家园 登上火
这首歌伴随他们出征
四一年唱着它保卫莫斯科
四五年唱着它进柏林
罗斯站起来 万众一心
多少年经风霜 历艰辛
(副歌)
假如有一天
敌人来侵犯
们为祖国
奋起投入神圣的战争!

田野麦浪滚滚
祖国大跨步向前进
战胜那灾难
赞美那劳动
卫住幸福与安宁
战胜那灾难
赞美那劳动
卫住幸福与安宁

(副歌)

[Russian Sub]
Этот марш не смолкал на перронах
когда враг заслонял горизонт.
С ним отцов наших в дымных вагонах
Поезда увозили на фронт.
Он Москву отстоял в сорок первом,
В сорок пятом шагал на Берлин,
Он солдатом прошел до Победы
По дорогам нелегких годин.
Припев:
И если в поход
Страна позовет
За край наш родной
Мы все пойдем в священный бой! (2 раза)
Шумят в полях хлеба.
Шагает Отчизна моя
К высотам счастья,
Сквозь все ненастья —
Дорогой мира и труда.
Припев:
И если в поход
Страна позовет
За край наш родной

Мы все пойдем в священный бой!

Прощание славянки - Proshchanye Slavyanki


Вальс юнкеров (Белый вальс) - Жанна Бичевская
Val's junkerov (Belyj val's) - Zhanna Bichevskaja

Вальс юнкеров, или белый вальс

Под громкое троекратное раскатистое "Ура!"
Присягу императору давали юнкера.
Каникулы весенние, в собраньях вечера.
Этот вальс вас убаюкивал, опьянял вас, юнкера.

Этот вальс, этот вальс, этот вальс,
Струится вощеный паркет.
Этот вальс, этот вальс, этот вальс,
В семнадцать мальчишеских лет.

Этот вальс, этот вальс, этот вальс,
Все было, как будто вчера,
Этот вальс не забыт, этот вальс помнит вас,
Юнкера, юнкера, юнкера.

А после под воем шрапнели мальчишки по Дону прошли.
Зашитые в полы шинели частицы российской земли.
В бензиновом асфальтовом, в парижском ряду
Этот вальс вас успокаивал, отводил от вас беду.

Этот вальс, этот вальс, этот вальс,
Наивный, как весна,
Этот вальс, этот вальс, этот вальс,
Тогда юнкерам не до сна.

Этот вальс, этот вальс, этот вальс,
Струится вощеный паркет.
Этот вальс не забыт, этот вальс помнит вас,
В семнадцать мальчишеских лет.

Этот вальс, этот вальс, этот вальс,
Оркестра военного медь.
Этот вальс, этот вальс, этот вальс,
До сих пор продолжает звенеть.

Этот вальс, этот вальс, этот вальс,
Все было,как будто вчера.
Этот вальс не забыт, этот вальс помнит вас,

Юнкера, юнкера, юнкера.
Sólo quien ama vuela. Pero, ¿quién ama tanto
que sea como el pájaro más leve y fugitivo?
Hundiendo va este odio reinante todo cuanto
quisiera remontarse directamente vivo.

MIGUEL HERNANDEZ

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O PRIMEIRO CZAR DA DINASTIA ROMANOV


O ano é 1613, Mikhail Czernichovscki Fyodorovich Romanov, 16 anos esta em uma pequena vila chamada Domino, fora de Kostroma. os Romanov foram exilados pelo czar Boris Godunov, mas ainda eram considerados parte dos boiardos, ou seja, da antiga aristocracia russa. A dinastia Rurik terminara com a morte do Czar Fiodor e Boris Godunov, temendo perder o trono, decidiu acabar com a familia Romanov. as inumeras perseguiçoes obrigaram os pais de Mikhail a refugiarem-se em conventos, adotando a vida monástica. O Czar Fiodor, que morrera, descendia do Czar Ivan IV,chamado o terrível. Ivan encomendara a construção da catedral de São Basílio em Moscou e gostou tanto do resultado do trabalho que mandou cegar o arquiteto para que ele nunca mais pudesse construir outra obra prima como aquela. A catedral de São Basílio, seguramente um dos edifícios mais belos do mundo, ainda hoje ornamenta a Praça Vermelha, encantando a todos com suas cúpulas coloridas em forma de cebola.
Os poloneses queriam acabar com Mikhail, por temer que ascendesse ao trono, mas o garoto foi salvo por Ivan Susanin que mesmo preso pelos poloneses, submetido a torturas, das quais acabou por morrer, não indicou o paradeiro do futuro soberano da Rússia , Mikhail quando czar doou aos descendentes de Susanin metade da aldeia de Domnino, situada a 80 quilômetros de Moscou. Além disso, a sua família, da mesma maneira que todas as gerações posteriores de herdeiros do herói, ficou isenta do pagamento de impostos ao Estado .
Mãe e filho se mudaram, então, para o Mosteiro Ipatiev, por motivo de segurança.
Mikhail foi eleito por unanimidade czar da Rússia por uma assembleia nacional em 21 de fevereiro de 1613, mas somente em 24 de março que os representantes da assembleia encontraram o Czar, junto à sua mãe no Monastério de Ipatiev, próximo à Kostroma. Marta protestou, alegando que seu filho era muito jovem para tal responsabilidade em tempos tão conturbados.Mikhail acabou por aceitar o trono após as súplica dos boiardos, que declararam que se continuasse a negá-lo, seria responsabilizado pela destruição da Rússia.Mikhail, tornou-se então o primeiro czar Romanov.
A capital estava em um estado tão calamitoso que Mikhail precisou esperar por algumas semanas no Mosteiro da Santíssima Trindade de São Sérgio, antes que finalmente pudesse se acomodar em Moscou. Foi coroado em 22 de julho. A primeira tarefa do novo Czar foi livrar a nação do alto nível de roubos. Teve que lidar depois com a Suécia (tratado de Stolbova, 17 de fevereiro de 1617) e a Polônia, resultando na trégua de Deulino (1 de dezembro de 1618). Um resultado importante de tal trégua foi o retorno do pai do czar, que estava no exílio. A partir de então, seu pai passou a dirigir o governo até a sua morte, enquanto que Mikhail ficou em uma posição de subordinado.


Hejus Ben Hur - Colaborador História Agora

Os anjos de Sodoma



Eu vi os anjos de Sodoma escalando
um monte até o céu
E suas asas destruídas pelo fogo
abanavam o ar da tarde
Eu vi os anjos de Sodoma semeando
prodígios para a criação não
perder seu ritmo de harpas
Eu vi os anjos de Sodoma lambendo
as feridas dos que morreram sem
alarde, dos suplicantes, dos suicidas
e dos jovens mortos
Eu vi os anjos de Sodoma crescendo
com o fogo e de suas bocas saltavam
medusas cegas
Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e
violentos aniquilando os mercadores,
roubando o sono das virgens,
criando palavras turbulentas
Eu vi os anjos de Sodoma inventando a

loucura e o arrependimento de Deus

Plínio Marcos

Noite

A noite sacudia as árvores dormidas
e afagava a plumagem dos pássaros nos galhos.
Lembro que o vento espertava o silêncio no ar
e na quilha dos barcos afogados.
Noite que chamava os mortos
e fazia chegar a mim o seu chamado
do ermo em que jazia.
Noite em que do céu caiu o fruto da vida e não colhemos.
Noite despojada de todos os artifícios.
Despregada da grande árvore do nada
e carregada de tudo
em viagem para um tempo sem fim.


- Paulo Plínio Abreu, em "Poesia". 2ª ed., Belém: EDUFPA, 2008.
Inferno, eterno inverno, quero dar
Inferno, eterno inverno, quero dar
Teu nome à dor sem nome deste dia
Sem sol, céu sem furor, praia sem mar,
Escuma de alma à beira da agonia.
Inferno, eterno inverno, quero olhar
De frente a gorja em fogo da elegia,
Outono e purgatório, clima e lar
De silente quimera, quieta e fria.
Inverno, teu inferno a mim não traz
Mais do que a dura imagem do juízo
Final com que me aturde essa falaz
Beleza de teus verbos de granizo;
Carátula celeste, onde o fugaz
Estio de teu riso – paraíso?

Mário Faustino


Carpe diem


Que faço deste dia, que me adora?
Pega-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou grava-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guarda-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas já se sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar – tão nobre.
Já nele a luz da lua – a morte – mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)


- Mário Faustino, em "Poesia completa e traduzida". (Organização, introdução e notas de Benedito Nunes). São Paulo: Editora Max Limonad, 1985.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

História e Utopia

'Agarrado a idéias momentâneas e a simulacros de sonhos, reflito por acidente ou por histeria e não por prurido de rigor, e me vejo, no meio dos civilizados, como um intruso, um troglodita apaixonado pela caducidade, mergulhado em preces subversivas, vítima de um pânico que
não emana de uma visão de mundo, mas das crispações da carne e das trevas do sangue.''

- Emil Cioran
“Carrego sempre comigo uma boa provisão do sal da malícia e da dúvida para temperar muitas coisas que digo, escrevo, penso ou faço. É possível que muitas vezes a mão se me escape e eu carregue o sal, causando uma impressão de falsa modéstia ou masoquismo. (Não sei o que será pior.) Seja como for, acho muito perigoso um homem levar-se demasiadamente a sério. Tenho plena consciência de que quase sempre tento escapar de situações desagradáveis e dramáticas pela porta do humor – como deve ter ficado bastante claro nas páginas deste livro de memórias. Seja como for, acho isso mil vezes preferível a assumir ares de herói ou mártir.”


- Erico Verissimo, 1976.

Lavoura arcaica

“O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; se medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza; não tem começo, não tem fim; [...]”

- Raduan Nassar, in: Lavoura arcaica. 2ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982 p. 45.



Introducción a la crítica de la economía política

"En la producción social de su existencia, los hombres establecen determinadas relaciones, necesarias e independientes de su voluntad, relaciones de producción que corresponden a un determinado estadio evolutivo de sus fuerzas productivas materiales. La totalidad de esas relaciones de producción constituye la estructura económica de la sociedad, la base real sobre la cual se alza un edificio jurídico y político, y a la cual corresponden determinadas formas de conciencia social. El modo de producción de la vida material determina el proceso social, político e intelectual de la vida en general. No es la conciencia de los hombres lo que determina su ser, sino por el contrario, es su existencia social lo que determina su conciencia".


Karl Marx, "Introducción a la crítica de la economía política", México, Sigo XXI Editors, 1989, pp. 66-67.
There is a spell in autumn early,
One all too brief, of an enchantment rare:
The nights are radiant and pearly,
The days, pellucid, crystal-clear.

Where played the sickle and fell the corn, a mellow,
A warm and breathless stillness reigns supreme;
Spanning the brown and idle furrow,
A dainty thread of cobweb gleams.

The birds have flown, we hear no more their clamour,
But winter's angry winds not soon will start to blow -
Upon the empty fields there pours the azure glow
Of skies that have not lost the warmth of summer.


Fyodor Tyutchev (1803-1873)

domingo, 22 de setembro de 2013

Prima: Ciebie już tutaj nie ma. To, co widzę,
z twojego ciała, z ciebie, jest złudzeniem.
Dusza twoja odeszła
tam, dokąd sama też odejdziesz jutro.
Jeszcze ten wieczór zdaje się mi dawać
złudną porękę, mglisty cień uśmiechu,
leniwe pozy, pozory miłości
już jakby roztargnionej.
A jednak twoje zamiary odejścia
wzięły cię, dokąd chciałaś,
daleko stąd, gdzie jesteś
mówiąc do mnie:
"O, jestem z tobą, popatrz!"

I pokazujesz mi swą nieobecność.

Prima: Você já está aqui. O que eu vejo do seu corpo, você é uma ilusão. Sua alma deixou lá, onde ela também deixar amanhã. Ainda esta noite parece-me delirar porękę dar sorriso nebuloso sombra, atitudes preguiçosas, um arremedo de amor roztargnionej. Mas suas intenções tirou licença você onde você queria longe onde você está me dizendo: "Oh, eu estou com você, olha!" E você me mostrar sua ausência.

Ulisses Iarochinski

COMO A NÉVOA NÃO DEIXA CICATRIZ



Como a névoa não deixa cicatriz
Nas colinas onde o verde mora,
Assim meu corpo não deixará cicatriz
No seu, nem nunca nem agora.

Quando vento e falcão se encontram,
O que conter depois que comece?
Assim como a gente se encontra,
E depois que se solta, adormece.

Como tantas noites a acontecer
Sem lua, com as estrelas por um triz,
Assim a gente irá acontecer
Quando um de nós não mais se diz.

Poema: Leonard Cohen /

Tradução: Fernando Koproski /
Uma Arte
Não é tão difícil dominar a arte de perder;
tanta coisa parece preenchida pela intenção de ser perdida
que sua perda não é nenhum desastre.

Perca alguma coisa todo dia. Aceite a novela das chaves perdidas,
a hora desperdiçada, aprender a arte de perder não é nada.

Exercite-se perdendo mais, mais rápido:
lugares, e nomes e... para onde mesmo você ia viajar?
Nenhum desastre...

Perdi o relógio de minha mãe. E olha, minha última e
minha penúltima casas ficaram para trás.
Não é difícil dominar a arte de perder.

Perdi duas cidades, adoráveis. E, mais ainda, alguns domínios,
propriedades, dois rios, um continente.
Sinto sua falta, mas não foi um desastre.

- Até mesmo perder você (a voz gozada, o gesto que
eu amava) eu não posso mentir. É claro que não é tão difícil dominar
a arte de perder apesar de parecer (pode Escrever!) desastre.
Elisabeth John Bishop - Luis Antonio G. Tagle
(Nizar Qabbani)


Quando encontrares um homem
Que transforme
Cada partícula tua
Em poesia,
Que faça de cada um dos teus cabelos
Um poema,
Quando encontrares um homem
Capaz,
Como eu,
De te lavar e adornar
Com poesia,
Hei-de implorar-te
Que o sigas sem hesitação
Pois o que importa
Não é que sejas minha ou dele
Mas sim da poesia.


a plus belle victoire
sur le temps et la pesanteur
c'est peut-être de passer
sans laisser de trace
de passer sans laisser d'ombre.


Marina Tsvetaeva -

a mais bela vitória
sobre o tempo e a gravidade
Pode ser a
sem deixar qualquer vestígio.
para passar sem sombra.

Marina Tsvetaeva-

Lyube



O mar azul, somente o mar além da popa
O mar azul, e longe o caminho de casa
Lá além das névoas eternas e bêbadas
Lá além das névoas está a nossa costa pátria

Cochicham as ondas e suspiram e rugem
Mas elas são estranhas, então não entendem, não entendem
Lá além das névoas eternas e bêbadas
Lá além das névoas nos amam e esperam

Espera Sebastopol, espera Kamtchatka, espera Kronstadt
Acredita e espera a terra em seus filhos da pátria
Lá além das névoas eternas e bêbadas
Lá além das névoas as esposas deles não dormem

E nós voltaremos, nós, é claro, chegaremos nadando
E sorriremos, e os filhos aconchegaremos ao peito
Lá além das névoas eternas e bêbadas
Lá além das névoas uma canção cantaremos até o fim

~em russo~

Там, За Туманами
~Любэ

Синее море, только море за кормой
Синее море и далек он путь домой
Там за туманами вечными пьяными
Там за туманами берег наш родной

Шепчутся волны и вздыхают и ревут
Но не поймут они чудные, не поймут
Там за туманами вечными пьяными
Там за туманами любят нас и ждут

Ждет севастополь, ждет Камчатка, ждет Кронштадт
Верит и ждет земля родных своих ребят
Там за туманами вечными пьяными
Там за туманами жены их не спят

И мы вернемся, мы, конечно, доплывем
И улыбнемся, и детей к груди прижмем
Там за туманами вечными пьяными
Там за туманами песню допоем

p.s.: Segundo informações de um amigo meu, essa canção foi composta em homenagem às vítimas no submarino Kursk, que naufragou em 12 de agosto de 2000


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

ENTRE SONO E SONHOS

Entre mim e o que em mim 
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais além, 
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.
Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.
E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre
 — Esse rio sem fim.

 Fernando Pessoa



O RIO DE MINHA ALDEIA


O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.


Fernando Pessoa, por: Alberto Caeiro

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Corpo a corpo com a linguagem

"A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não tem voz."


- Ferreira Gullar, em artigo "Corpo a corpo com a linguagem", publicado em 1999.

Un populu
mittitilu a catina
spughiatilu
attuppatici a vucca
è ancora libiru.

Livatici u travagghiu
u passaportu
a tavula unni mancia
u lettu unni dormi,
è ancora riccu.

Un populu
diventa poviru e servu
quannu ci arrubbanu a lingua
addutata di patri:
è persu pi sempri.

Diventa poviru e servu
quannu i paroli non figghianu paroli
e si mancianu tra d’iddi.
Mi nn’addugnu ora,
mentri accordu la chitarra du dialettu
ca perdi na corda lu jornu.

Mentre arripezzu
a tila camuluta
ca tissiru i nostri avi
cu lana di pecuri siciliani.

E sugnu poviru:
haiu i dinari
e non li pozzu spènniri;
i giuelli
e non li pozzu rigalari;
u cantu
nta gaggia
cu l’ali tagghiati.

Un poviru
c’addatta nte minni strippi
da matri putativa,
chi u chiama figghiu
pi nciuria.

Nuàtri l’avevamu a matri,
nni l’arrubbaru;
aveva i minni a funtana di latti
e ci vìppiru tutti,
ora ci sputanu.

Nni ristò a vuci d’idda,
a cadenza,
a nota vascia
du sonu e du lamentu:
chissi non nni ponnu rubari.

Non nni ponnu rubari,
ma ristamu poviri
e orfani u stissu.
______________

Un popolo
Mettetegli la catena
Spogliatelo
Chiudetegli la bocca
È ancora libero.

Levategli il lavoro
Il passaporto
Il tavolo dove mangia
Il letto dove dorme
È ancora ricco.

Un popolo
Diventa povero e servo
Quando gli rubano la lingua
Datagli dal padre
È perso per sempre

Diventa povero e servo
Quando le parole non creano parole
E si mangiano tra loro
Me ne accorgo ora
Mentre accorgo la chitarra del dialetto
Che perde una corda al giorno

Mentre rammendo
la tela rovinata
che hanno tessuto i nostri avi
con lana di pecore siciliane

E sono povero:
ho i soldi
e non li posso spendere;
i gioielli
e non li posso regalare;
il canto
in gabbia
con le ali tagliate

Un povero
Che ciuccia nel seno vuoto
Di madre putativa
Che lo chiama figlio
Per soprannome.

Noi ce l’abbiamo la madre
non ce l’hanno rubata;
aveva il seno pieno di latte come una fontana
e ci hanno bevuto tutti
ora ci sputano.

C’è rimasta la sua voce
la cadenza
una nota bassa
del suono del lamento:
questi non ce li possono rubare

Non ve li possono rubare
ma restiamo poveri

e orfani lo stesso.


Ignazio Buttitta__________________
(Bagheria, 19 settembre 1899 – Bagheria, 5 aprile 1997)

Pasión del movimiento,
la tierra es tu caballo.
Cabálgala. Domínala.
Y brotará en su casco
su piel de vida y muerte,
de sombra y luz, piafando.
Asciende. Rueda. Vuela,
creador de alba y mayo.
Galopa.
MIGUEL HERNANDEZ
The latter days of fall are often cursed,
But as for me, kind reader, she is precious
In all her quiet beauty, mellow glow.
Thus might a child, disfavored in its family,
Draw my regard. To tell you honestly,
Of all the times of year, I cherish her alone.
She's full of worth; and I, a humble lover,
Have found in her peculiar charms.


Alexander Pushkin (1799-1837)

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A escritora recita poemas




Semana literária SESC e feira do livro 


Lavoura arcaica

“... rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando aberto para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é.”
 

- Raduan Nassar, in: Lavoura arcaica, 1975.






Um outro Poema de Amor


No fundo, as relações entre mim e ti
cabem na palma da mão:
onde o teu corpo se esconde e
de onde,
quando sopro por entre os dedos,
foge como fumo
um pequeno pássaro,
ou um simples segredo
que guardávamos para a noite.

Nuno Júdice, in "O Movimento do Mundo"







Amor como em Casa


Regresso devagar ao teu 
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que 
não é nada comigo. Distraído percorro 
o caminho familiar da saudade, 
pequeninas coisas me prendem, 
uma tarde num café, um livro. Devagar 
te amo e às vezes depressa, 
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, 
regresso devagar a tua casa, 
compro um livro, entro no 
amor como em casa. 

Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"