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domingo, 17 de janeiro de 2016

TRIBULAÇÕES DE UM METECO


De onde venho, não saberia dizê-lo: nos templos, permaneço sem crença; nas cidades, sem ardor; junto a meus semelhantes, sem curiosidade; sobre a terra, sem certezas. Dê-me um desejo preciso e destruirei o mundo. Livre-me desta vergonha dos atos que me faz interpretar, cada manhã, a comédia da ressurreição e cada tarde a do enterro; no intervalo, nada além deste suplício no sudário do tédio... Sonho com querer e tudo o que quero me parece sem valor. Como um vândalo corroído pela melancolia, dirijo-me sem fim, eu sem eu, na direção de já não sei que canto... para descobrir um deus abandonado, um deus que fosse ele próprio ateu, e adormecer à sombra de suas últimas dúvidas e de seus últimos milagres.

(Emil Cioran, "Breviário de Decomposição")

terça-feira, 28 de julho de 2015

*Estava sozinho num cemitério que dominava a aldeia, quando uma mulher grávida entrou nele. Saí de lá imediatamente, para não ter de olhar de perto aquela portadora de cadáver, nem de ruminar acerca do contraste entre um ventre agressivo e túmulos apagados, entre uma falsa promessa e o fim de todas as promessas.

─ Emil M. Cioran

• in: Do inconveniente de ter nascido, p. 135. Tradução: Manuel de Freitas. Lisboa: Letra Livre, 2010 •

domingo, 22 de junho de 2014

"A insônia é uma lucidez vertiginosa que poderia converter o paraíso num centro de tortura. Qualquer coisa é preferível à vigília permanente, essa ausência criminosa do esquecimento." Emil Cioran

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

( Senhor, dá-me a faculdade de jamais rezar, poupa-me a insanidade de toda adoração, afasta de mim essa tentação de amor que me entregaria para sempre a Ti. Que o vazio se estenda entre o meu coração e o céu! Não desejo ver meus desertos povoados com Tua presença, minhas noites tiranizadas por Tua luz, minhas Sibérias fundidas sob Teu sol. Mais solitário do que Tu, quero minhas mãos puras, ao contrário das Tuas que sujaram-se para sempre ao modelar a terra e ao misturar-se nos assuntos do mundo. Só peço à Tua estúpida onipotência respeito para minha solidão e meus tormentos. Não tenho nada a fazer com Tuas palavras. Conceda-me o milagre recolhido antes do primeiro instante, a paz que Tu não pudeste tolerar e que Te incitou a abrir uma brecha no nada para inaugurar esta feira dos tempos, e para condenar-me assim ao universo, à humilhação e à vergonha de existir.)


Cioran

terça-feira, 24 de setembro de 2013

História e Utopia

'Agarrado a idéias momentâneas e a simulacros de sonhos, reflito por acidente ou por histeria e não por prurido de rigor, e me vejo, no meio dos civilizados, como um intruso, um troglodita apaixonado pela caducidade, mergulhado em preces subversivas, vítima de um pânico que
não emana de uma visão de mundo, mas das crispações da carne e das trevas do sangue.''

- Emil Cioran

terça-feira, 30 de abril de 2013

Do inconveniente de ter nascido


''Alguns têm infelicidade, outros obsessões. Quais deles deveríamos lamentar mais?

O que é uma crucificação única quando comparada com aquela,cotidiana, que os insones tem de suportar?''

-Cioran;

domingo, 14 de abril de 2013


"A insônia é uma lucidez vertiginosa que poderia converter o paraíso num centro de tortura. Qualquer coisa é preferível à vigília permanente, essa ausência criminosa do esquecimento."

 Emil Cioran

quinta-feira, 28 de março de 2013

História e Utopia



Ao divinizar a história para desacreditar Deus, o marxismo só conseguiu tornar Deus mais estranho e mais obsedante. Pode-se sufocar tudo no homem, salvo a necessidade de absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, e mesmo ao desaparecimento da religião sobre a terra.

[Emil Cioran - História e Utopia]

quarta-feira, 13 de março de 2013

"Demasiado humilde para rezar, demasiado inerte para transpor o limiar de uma igreja, resigno-me à minha sombra e não quero uma capitulação de Deus ante minhas orações." 
-Emil Cioran.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013



''Como todo iconoclasta, destrocei meus ídolos para consagrar−me a seus restos.''
-Cioran


''Só enlouquecem os tagarelas e os taciturnos: os que se esvaziam de todo mistério e os que o acumulam demasiado.''

-Cioran

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Tripla Aporia


Emil Cioran

O espírito descobre a Identidade; a alma, o Tédio; o corpo, a Preguiça.É um mesmo princípio de invariabilidade, exprimindo diferentemente sob as três formas de bocejo universal.
A monotonia da existência justifica a tese racionalista; revela-nos um universo legal, onde tudo está previsto e ajustado; a barbárie de nenhuma surpresa vem perturbar sua harmonia.
Se o mesmo espírito descobre a Contradição, a mesma alma, o Delírio, o mesmo corpo, o Frenesi, é para engendrar novas irrealidades, para escapar a um universo demasiado manifestamente invariável; e é a tese antirracionalista que triunfa. A eflorescência de absurdos revela uma existência ante a qual toda visão mostra-se de uma indigência irrisória. E a agressão perpétua do Imprevisível.
Entre essas duas tendências, o homem desenvolve seu equivoco: ao não encontrar seu lugar na vida, nem na Ideia, julga-se predestinado ao Arbitrário; no entanto, a embriaguez de sua liberdade não passa de uma agitação no interior de uma fatalidade, pois a forma de seu destino não está menos determinada que a de um soneto ou a de um astro.
(Breviário de Decomposição)

A Vida Sem Objeto


Emil Cioran


Idéias neutras como olhos secos; olhares lúgubres que roubam das coisas todo relevo: auto-auscultações que reduzem os sentimentos a fenômenos de atenção; vida vaporosa- sem prantos nem risos- , como inculcar-lhe uma seiva, uma vulgaridade primaveril? E como suportar esse coração demissionário e esse tempo demasiado embotado para transmitir ainda a suas próprias estações o fermento do crescimento e da dissolução?
Quando viste em toda convicção uma desonra e em todo apego uma profanação, já não tens direito a esperar, nem neste mundo nem no outro, uma sorte modificada pela esperança. Deves escolher um promontório ideal, ridiculamente solitário, ou uma estrela farsante, rebelde às constelações. Irresponsável por tristeza, tua vida ridicularizou seus instantes; mas a vida é a piedade da duração, o sentimento de uma eternidade dançarina, o tempo que se supera e rivaliza com o sol...

(Breviário de Decomposição)