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sábado, 12 de setembro de 2015

A partilha dos mitos

"Setembro
A poesia dá-se bem com este mês,
cuja medida se assemelha à do verso - dias
partidos ao meio, deixando a alma indecisa
numa evocação de gastos sentimentos. Mas é
no campo, ao poente, saboreando o cheiro doce
dos frutos que apodrecem na terra, como algas
mortas, que uma voz insistente me chama - poe -
sai? Quem, por detrás do seu rosto sonoro e
abstracto? Memória que a noite depressa apaga..."



Nuno Júdice, in. A partilha dos mitos (1982)

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Um outro Poema de Amor


No fundo, as relações entre mim e ti
cabem na palma da mão:
onde o teu corpo se esconde e
de onde,
quando sopro por entre os dedos,
foge como fumo
um pequeno pássaro,
ou um simples segredo
que guardávamos para a noite.

Nuno Júdice, in "O Movimento do Mundo"


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013



É apenas a forma que tens de me olhar,
sem que eu dê por isso, como se entre mim
e ti o espaço não contasse; ou é
o risco no cabelo, antes de chegar à trança,
indicando o caminho para o sonho
em que nos abraçamos; ou é o teu sorriso,
num esboço de algo que se perdeu
entre um e outro café, por entre
perguntas e conversas; ou é o fundo
dos teus olhos em que adivinho
a noite, e tu me dizes que
o dia está para nascer; ou
são as tuas pálpebras, em que me
escondes a inquietação com que
fechas os olhos, quando as certezas
do coração te ferem; ou és tu,
no puro instante em que te vejo,
e só tu existes.

Nuno Júdice

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Epigrama gastronômico

Há mil e cem anos

de poesia num só dia,

mil e cem palavras

numa só sílaba,

mil e cem páginas

numa linha

- quando abro o livro

do teu corpo, e provo mil

e cem receitas num só

amor.

Há mil e cem anos

de poesia num só dia,

mil e cem palavras

numa só sílaba,

mil e cem páginas

numa linha

- quando abro o livro

do teu corpo, e provo mil

e cem receitas num só

amor.

Nuno Júdice

terça-feira, 15 de junho de 2010

A Matéria do Poema

Quero que o meu poema fale de barcos e de azul, fale


do mar e do corpo que o procura, fale de pássaros e

do céu em que habitam.

Quero um poema puro, limpo

do lixo das coisas banais, das contaminações de quem

só olha para o chão; um poema onde o sublime nos

toque, e o poético seja a palavra plena.

Nuno Júdice