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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Elegia de Taormina


A dupla profundidade do azul
Sonda o limite dos jardins
E descendo até à terra o transpõe.
Ao horizonte da mão ter o Etna
Considerado das ruínas do templo grego,
Descansa.
Ninguém recebe conscientemente
O carisma do azul.
Ninguém esgota o azul e seus enigmas.
Armados pela história, pelo século,
Aguardando o desenlace do azul, o desfecho da bomba,
Nunca mais distinguiremos
Beleza e morte limítrofes.
Nem mesmo debruçados sobre o mar de Taormina.
Ó intolerável beleza,
Ó pérfido diamante,
Ninguém, depois da iniciação, dura
No teu centro de luzes contrárias.
Sob o signo trágico vivemos,
Mesmo quando na alegria
O pão e o vinho se levantam.
Ó intolerável beleza
Que sem a morte se oculta.

- Murilo Mendes, em "Poesias, 1925/1955". Rio de Janeiro: José Olympio, 1959.


http://www.cultura.ma.gov.br/portal/sgc/modulos/sgc_bpbl/acervo_digital/arq_ad/201408272319011409192341_51221409192341_5122.pdf

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

"Desde muitos anos insisto em que a poesia é uma chave do conhecimento, com a ciência, a arte ou a religião: sendo por tanto óbvio que lhe atribuo um significado muito superior ao de simples confidência ou de jogo literário. Diversas são as faces da poesia, tal como se tem esta revelado através dos séculos. Que o instrumento básico da poesia é a linguagem, não há a menor dúvida."

(Trecho do ensaio "A poesia e o nosso tempo", Murilo Mendes, publicado no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, de 25/07/1959.)

A poesia e o nosso tempo

"Nossa época, nascida sob o signo do relativismo, se distingue em boa parte pela flutuação e instabilidade das ideias. Hoje é difícil, senão impossível, fixar um critério seguro no que se refere à validez de escolas e estilos literários. O que agora parece moderníssimo torna-se "superado", datado, em pouco tempo. Nenhum de nós viverá quinhentos anos para saber o que vai ficar da imensa produção literária de nossa época."
(Trecho do ensaio "A poesia e o nosso tempo", Murilo Mendes, publicado no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, de 25/07/1959.)
Noitefazes
Ou disfazes?
Noite redonda
Cararredonda
Ar voando:
Sono da palavra
Coisa-feita.
Dia quadrado
Caraquadrada
Ar parando:
Insônia da palavra.
Coisa-fazes.
Diafazes.

Texto de informação, fragmento. MENDES, Murilo. Antologia Poética. São Paulo: Cosac Naify, 2014.
Quem
Quem um dia dançou os pés de outro?
Todos os que dançam, todos
Apenas dançam os próprios pés.
Quem pensa na imortalidade do outro
E durante seu próprio sonho
Sonha com o sonho do outro?
Quem, no nascimento do menino humilde,
Pede sua coroação pelos reis?
Quem manda violetas ao pobre encarcerado?
Quem se sente poeta pelo que o não é?
______

MENDES, Murilo. Antologia Poética. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

sábado, 26 de outubro de 2013

O vinho



As redondezas do vinho. As asperezas do vinho.
As veleidades do vinho. As veludezas do vinho.
As calorias do vinho. Os labirintos do vinho.
As branquidades do vinho. As verdolências do vinho.
As rosaledas do vinho. As inverdades do vinho.
As bordalesas do vinho. As borgonhesas do vinho.
As fluidezas do vinho. As espessuras do vinho.
Os jaguardentes do vinho. As águas duras do vinho.
As florisbelas do vinho. As florisfeias do vinho.

Os operários do vinho. As excelências do vinho .
As sonolências do vinho. Os maremotos do vinho.

- Murilo Mendes, em "Convergência". São Paulo: Duas Cidades, 1970.

http://www.elfikurten.com.br/2013/08/murilo-mendes-colecionador-de-tempos-e.html

sábado, 12 de outubro de 2013

Elegia de Taormina


A dupla profundidade do azul
Sonda o limite dos jardins
E descendo até à terra o transpõe.
Ao horizonte da mão ter o Etna
Considerado das ruínas do templo grego,
Descansa.

Ninguém recebe conscientemente
O carisma do azul.
Ninguém esgota o azul e seus enigmas.

Armados pela história, pelo século,
Aguardando o desenlace do azul, o desfecho da bomba,

Nunca mais distinguiremos
Beleza e morte limítrofes.
Nem mesmo debruçados sobre o mar de Taormina.

Ó intolerável beleza,
Ó pérfido diamante,
Ninguém, depois da iniciação, dura
No teu centro de luzes contrárias.

Sob o signo trágico vivemos,
Mesmo quando na alegria
O pão e o vinho se levantam.
Ó intolerável beleza
Que sem a morte se oculta.

- Murilo Mendes, em "Poesias, 1925/1955". Rio de Janeiro: José Olympio, 1959.

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sábado, 20 de julho de 2013

GRAFITO NUM MURO DE ROMA




Um verme rói
––
enorme roer
––
Um verme rói minuciosamente
Desde que o tempo sentou-se sôbre siA trombeta ovóide .
Um verme ecumênicoTeólogo teleológico
Rói a priori
––
único tóteme
––
O filme da história total .
Um verme enorme rói
Um verme inerme rói
Qualquer julgamento
Presente futuro
Pessoal universal
Miguelangelesco ou não .
Um verme irreversível rói a tiara
Suspensa de palácios terrosos .


A eternidade criou tantos dédalos
Que já perde a noção de espaço .
Procurando homem por homem
Urbi et orbi
Procura-se a si mesma sem sua túnica :
Mínima . Finita . Ex .


A eternidade acaba desconhecendo
As próprias catacumbas escâncaras
Os próprios arcos de triunfo do tempo
Idos calendas calêndulas
Os leões alados & seus espaços monumentais
Os falos suspensos em obelisco
Os essedários & os éssedos
Os imperadores de pedra
Levantando irrespondidos braços .
A eternidade anoitece
A cavalo sôbre seus palácios
Ocre .


Um verme roerá a morte
Favila fasula .
Ex .

Murilo Mendes

Roma 1964

.

domingo, 14 de abril de 2013

ENIGMA DO AMOR




Olho-te fixamente para que permaneças em mim.
Toda esta ternura é feita de elementos opostos
Que eu concilio na síntese da poesia.

O conhecimento que tenho de ti
É um dos meus complexos castigos.
Adivinho através do véu que te cobre
O canto de amor sufocado,
O choque ante a palavra divina, a antecipação da morte.

Minha nostalgia do infinito cresce
Na razão direta do afastamento em que estou do teu corpo.

 MURILO MENDES 

A MUSA


Tu és a relação entre o poeta e Deus.
Tu prefiguras uma imagem do Eterno
Porque a todo o instante organizas o mundo.
Sem ti minha poesia extinguirá,
Sem ti eu ficaria mirando as construções do tempo.
Tu assistes aos movimentos da minha alma,
E aumentas minha sede do ilimitado.
Um dia, quando o Eterno me der a grande força,
Prenderei tua cabeça entre as constelações
A fim de orientar os poetas futuros.


MURILO MENDES 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A manhã





Ninguém sabe se a manhã
Traz promessa de prazer.
Anônimas sanfoninas
Alternam como sábias.

Transformou-se o vento de ontem,
Agora sopra sereno.

Sai um homem para o trabalho,
Saem dois, saem três, saem mil
Pensando na volta.
Ontem não havia
Aquela roseira em pé,
E a carícia d'agora
Desapareceu no ar.

Os braços espantam
Os restos da noite.

  Murilo Mendes

domingo, 2 de setembro de 2012

"Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido."

(Murilo Mendes)