"E de novo o povoado ficou quase deserto de homens. E
outra vez as mulheres se puseram a esperar. E em certas noites, sentada junto
do fogo ou à mesa, após o jantar, Ana Terra lembrava-se de coisas de sua vida
passada. E quando um novo inverno chegou e o minuano começou a soprar, ela o
recebeu como a um velho amigo resmungão que gemendo cruzava por seu rancho sem
parar e seguia campo afora. Ana Terra estava de tal maneira habituada ao vento
que até parecia entender o que ele dizia, nas noites de ventania ela pensava
principalmente em sepulturas e naqueles que tinham ido para o outro mundo. Era
como se eles chegassem um por um e ficassem ao redor dela, contando casos e
perguntando pelos vivos. Era por isso que muito mais tarde, sendo já mulher
feita, Bibiana ouvia a avó dizer quando ventava: "Noite de vento, noite
dos mortos..."
Érico Veríssimo
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domingo, 13 de abril de 2014
terça-feira, 24 de setembro de 2013
“Carrego sempre comigo uma boa provisão do sal da malícia e
da dúvida para temperar muitas coisas que digo, escrevo, penso ou faço. É
possível que muitas vezes a mão se me escape e eu carregue o sal, causando uma
impressão de falsa modéstia ou masoquismo. (Não sei o que será pior.) Seja como
for, acho muito perigoso um homem levar-se demasiadamente a sério. Tenho plena
consciência de que quase sempre tento escapar de situações desagradáveis e
dramáticas pela porta do humor – como deve ter ficado bastante claro nas
páginas deste livro de memórias. Seja como for, acho isso mil vezes preferível
a assumir ares de herói ou mártir.”
- Erico Verissimo, 1976.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Clarissa
"Fora, o luar cresce, tênue, inundando a
paisagem.
Clarissa infla as narinas. Parece-lhe que o luar tem um
perfume todo especial. Se ela pudesse pegar o luar, fechá-lo na palma da mão,
guardá-lo numa caixinha ou no fundo de uma gaveta para soltá-lo nas noites
escuras…"
- Érico Verissimo
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