terça-feira, 4 de março de 2014

1453: Constantinopla é tomada pelos turcos


No dia 29 de maio de 1453, as tropas do sultão Mehmed, o Conquistador, tomaram Constantinopla. Ele pretendia transformar a cidade na capital de um império otomano. Mehmed rebatizou o antigo centro da cristandade ortodoxa para Istambul. O cristianismo não foi proibido, mas a religião oficial passou a ser o islamismo.
No ano 395, o império romano se dividiu, e a sua parte oriental tornou-se o centro do poder. Sua capital era Bizâncio, um centro comercial da Antiguidade localizado no estreito de Bósforo, que foi rebatizada posteriormente como Constantinopla pelo imperador Constantino, o Grande. O círculo cultural do império bizantino era greco-romano e a religião era a cristã por imposição do imperador, convertido ao cristianismo. Isso durou mais de um milênio. Até que, em 1453, tribos turcas das estepes da Ásia Menor tomaram a cidade.
Paz enganadora
"Os osmanlis eram inicialmente bastante pacíficos e não chamaram a atenção dos bizantinos. Segundo mostram as pesquisas mais recentes, os osmanlis eram até muito úteis aos bizantinos, pois se dedicavam à pecuária e contribuíam para o abastecimento de Constantinopla", afirma o professor Peter Schreiner, professor e especialista do assunto na Universidade de Colônia.

A paz temporária era enganadora. Para uma cidade medieval, Constantinopla era gigantesca, chegando a ter 300 mil habitantes. Mas a megalópole enfraqueceu-se ao longo dos séculos e sua população caiu para apenas 30 mil habitantes. O império começava a se esfacelar.
Segundo Schreiner, "essas fragilidades foram consequência da tomada de Constantinopla pelos cruzados em 1204: o império bizantino se desfez em inúmeros pequenos impérios, cuja fraqueza militar foi notada pelos osmanlis".

Em 1453, o sultão Mehmed 2° invadiu Constantinopla. Ele sonhava com um império otomano mundial e Constantinopla deveria ser a sua capital. Mehmed logrou executar duas ações surpreendentes. Em primeiro lugar, mandou fundir um novo tipo de canhão, os maiores do mundo na época. Com eles, a muralha da cidade foi destruída.

Depois, postou 70 navios de guerra diante do porto. Numa ação noturna, praticamente "pela porta dos fundos", suas tropas levaram os navios, do mar para o porto, através de uma estreita faixa de terra. O imperador Constantino, um descendente do lendário primeiro imperador cristão, viu então sua cidade cair nas mãos dos turcos.
Kritobulos de Imbros descreveu a reação do imperador: "Quando viu que os inimigos o acuavam e entravam gloriosamente na cidade, através das brechas na muralha, ele teria dito suas últimas palavras – 'A cidade está sendo conquistada e eu ainda vivo?' E pulou no meio dos inimigos, sendo massacrado".
Islamismo torna-se religião oficial
Das metrópoles européias da época – Roma, Veneza e Gênova – não veio qualquer ajuda. Elas estavam inteiramente concentradas em suas próprias querelas, e há muito, o império bizantino tinha deixado de ser interessante. O sultão Mehmed rebatizou o antigo centro dos cristãos ortodoxos: o que inicialmente era Bizâncio, depois Constantinopla, passou a se chamar Istambul.
A religião cristã não foi proibida, mas o islamismo tornou-se a religião oficial. Logo, os símbolos cristãos nas igrejas foram substituídos por símbolos islâmicos. E é nas igrejas que se pode, ainda hoje, buscar os resquícios daquela época.
O professor Peter Schreiner afirma: "É na Hagia Sophia que se pode encontrar a maioria desses resquícios, pois foi a primeira a ser transformada em mesquita, logo depois da conquista pelos turcos. Nessa igreja existe ainda grande parte da ornamentação da época bizantina" .
O império otomano teve um apogeu que durou um século. E depois, durante cem anos, ele esfacelou-se paulatinamente. Com a Primeira Guerra Mundial, deixou de existir. Foi criada a moderna República da Turquia. O que permaneceu foi sua capital, cuja história registra os três nomes: Bizâncio, Constantinopla, Istambul.

Autoria Catrin Möderler (am)

1928: Protesto contra leilão de obras russas em Berlim


No dia 6 de novembro de 1928 houve fortes protestos dos exilados russos em Berlim contra a casa de leilões Lempe, que estava oferecendo obras de arte de museus de Leningrado e de castelos da Rússia.
 Muitas obras confiscadas pelo regime comunista foram parar no Museu Hermitage, de São Petersburgo
Muitas obras confiscadas pelo regime comunista foram parar no Museu Hermitage, de São Petersburgo
Quando o proletariado comandado por Lênin tomou o poder em Moscou em 1917, os nobres e ricos saíram do país às pressas, deixando bens, joias e obras de arte. Em pouco tempo, as riquezas confiscadas pelo Estado começaram a ser oferecidas nos catálogos de casas de leilões.
Os antigos proprietários protestaram quando as obras de arte começaram a ser oferecidas em Berlim. Segundo a historiadora Katia Terlau, provar a origem dos bens era muito complicado, pois os russos exilados na Alemanha não haviam trazido documentos que comprovassem a propriedade dos objetos.
Na década de 20, aconteceu em Berlim uma verdadeira "colonização" russa. Entre os emigrados famosos estavam escritores como Boris Pasternak, autor do romance Doutor Jivago. Quase 2 milhões de pessoas fugiram do bolchevismo. E não só aqueles provenientes da nobreza e realeza, mas também pessoas que simplesmente tinham outra convicção política.

Berlim, um dos principais destinos

O êxodo prosseguiu até a década de 40, não só para outros países da Europa, como também para a América. A França e a Alemanha, principalmente Berlim, eram os principais destinos dos russos emigrados. Em Paris, a situação chegou a ser responsável por um ditado, segundo o qual a metade dos motoristas de táxi eram príncipes russos.
Grande parte das obras confiscadas pelo regime comunista foram parar no famoso museu Hermitage, de São Petersburgo, que hoje tem 2,7 milhões de peças em seus 400 salões, distribuídos em 46 mil metros quadrados.
Mas, ainda segundo Terlau, enquanto alguns conseguiram realmente recuperar objetos de sua propriedade, outras peças acabaram mesmo sendo leiloadas.
Para evitar a repetição deste e de outros fatos, tais como o confisco de bens de judeus pelos nazistas e o do butim de guerra pelos soviéticos (que levaram obras da Alemanha a título de compensação pelas perdas durante a Segunda Guerra), uma conferência em Washington em 1998 instituiu as bases para a investigação de obras de arte de propriedade não esclarecida.

Autoria Catrin Möderler (rw)

1917: Lênin retorna à Rússia


Em 16 de abril de 1917, Lênin chega de trem à Rússia, depois de obter licença para atravessar o território alemão. Em guerra com a Rússia, os alemães queriam desestabilizar o governo russo e apressar a assinatura da paz.
Lênin em 1918
A mobilização de cerca de 13 milhões de soldados e os gastos durante a Primeira Guerra Mundial causaram uma grave crise econômica e social na Rússia. Enquanto 1,5 milhão de soldados morriam nas frentes de batalha por falta de equipamentos, alimentos e vestuário, a fome chegava às grandes cidades e gerava greves. A paralisação dos operários de Petrogrado (atual São Petersburgo), por exemplo, mobilizou cerca de 200 mil trabalhadores.
No final de fevereiro (março, no calendário ocidental), o czar Nicolau II foi derrubado e a monarquia substituída pela república parlamentar. Nessa época, formaram-se os sovietes. Eram assembléias de operários, camponeses e soldados, influenciados pela ala radical, que mais tarde originaria o Partido Comunista.
O governo provisório, de 17 de março a 15 de maio, não conseguiu debelar a crise interna e insistiu na continuação da guerra contra a Alemanha. Enquanto isso, crescia a força de Vladimir Iliitch Ulianov, conhecido como Lênin, exilado na Suíça. Ele encarava a Primeira Guerra Mundial como uma luta entre os imperialismos rivais pela partilha do mundo e desejava fazer da guerra entre nações uma guerra entre classes.
Longa parada em Berlim
Com a permissão do governo alemão para atravessar a Alemanha de trem, Lênin voltou à Rússia em abril de 1917. No dia 11, porém, seu trem passou 20 horas estacionado em Berlim. Especula-se que para contatos e negociações de representantes do Ministério alemão do Exterior com Lênin. Registros do ministério revelam que também se falou em dinheiro: 40 milhões de goldmark, a moeda alemã utilizada na época para transações financeiras. Os revolucionários prosseguiram viagem pela Suécia e pela Finlândia, chegando a Petrogrado no dia 16 de abril de 1917.
Nas suas famosas "Teses de Abril", Lênin pregou a saída da Rússia da guerra, o fortalecimento dos sovietes e o confisco das grandes propriedades rurais, com a distribuição das terras aos camponeses. O novo governo, porém, insistia na participação da Rússia na guerra e por isso perdia apoio popular.
Avisado de que seria acusado pelo governo de ser um agente a serviço da Alemanha, Lênin fugiu para a Finlândia. Em Petrogrado, os bolcheviques enfrentavam uma imprensa hostil e a opinião pública, que os acusava de traição ao exército e de organização de um golpe de Estado. Em 20 de julho, o general Lavr Kornilov tentou implantar uma ditadura militar, através de um fracassado golpe de Estado. Da Finlândia, Lênin começou a preparar uma rebelião armada.
Revolução de Outubro
A segunda revolução russa de 1917, a de Outubro (6 a 8 de novembro), marcou o triunfo definitivo do marxismo-leninismo na Rússia. Sob o comando de Lênin e Leon Trotski (1879-1940), igualmente importante no movimento, o Partido Social Democrata da Rússia tomou o poder. Lênin foi eleito pelo partido novo chefe de governo e foi constituído um Conselho de Comissários do Povo.
Trotski fundou o Exército Vermelho, vencedor da guerra civil que assolaria o país nos quatro anos seguintes, contra os contra-revolucionários, liderados pelos czaristas. O novo governo nacionalizou bancos, minas, ferrovias, as grandes propriedades rurais e as indústrias, estabeleceu a ditadura do proletariado, transferiu a capital para Moscou (12 de março de 1918) e inaugurou a política do dito "comunismo de guerra".
Após a adoção do calendário oficial, assinou um armistício com a Alemanha, conhecido como Paz de Brest-Litovsk, em 3 de maio de 1918. O tratado trazia enormes desvantagens para a Rússia, com as perdas territoriais da Finlândia, Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia e Ucrânia, além de pagar uma pesada indenização em ouro e trigo à Alemanha.
Naquele ano, após tentativas de obter asilo em outros países, inclusive na Inglaterra, onde os soberanos eram seus primos, o último czar, Nicolau Romanov, a imperatriz Alexandra e seus filhos foram fuzilados por ordem do governo soviético.

DW.DE

1918: Desapropriação da Igreja Ortodoxa russa


No dia 23 de janeiro de 1918, Lênin publicou um decreto que encerrava todas as ligações entre a Igreja Ortodoxa e o Estado. Os bens da Igreja foram desapropriados, o ensino de religião foi proibido.

Em 23 de janeiro de 1918, menos de três meses depois da Revolução de Outubro, Lênin publicou o decreto intitulado "Sobre a separação entre a Igreja e o Estado e entre a Escola e a Igreja".
Ele foi divulgado exatamente quando se realizava o concílio nacional da Igreja Ortodoxa, com o qual ela pretendia libertar-se da tutela estatal da época czarista, restabelecendo o Patriarcado. O concílio não desejava, naturalmente, uma libertação leiga, que alijasse a Igreja da sociedade, transformando-a em instituição privada. Por isso, protestou contra o decreto de Lênin, mas sem qualquer resultado.
Assim, a Igreja Ortodoxa teve de resignar-se dali em diante com o fato de que só possuía liberdade de culto, enquanto não perturbasse a ordem pública e enquanto os fiéis não deixassem de cumprir seus deveres cívicos. O ensino de religião foi abolido nas escolas públicas; os bolcheviques queriam erigir um sistema estatal ateísta, de acordo com o materialismo dialético. Mas, sobretudo, foram desapropriados os imóveis e terrenos da Igreja, seus templos e prédios – tudo foi incluído no rol do patrimônio popular. Desta maneira, foi retirada da Igreja a base material da sua existência.
Segundo o decreto de Lênin, todas as comunidades religiosas perderam os direitos de pessoa jurídica, não podendo ter propriedades, nem receber qualquer tipo de ajuda estatal. Embora as demais Igrejas também fossem atingidas pelo decreto, elas consideraram justo o corte de privilégios dos ortodoxos que antes constituíam praticamente uma Igreja estatal. Mas, no fundo, todos os direitos da Igreja foram abolidos.
Consequências da privatização da Igreja
O arcebispo Longin, representante permanente do patriarca de Moscou na Alemanha, descreveu da seguinte maneira as consequências dessa privatização da Igreja: "Durante o domínio comunista, as pessoas não podiam demonstrar abertamente que eram integrantes da Igreja. Elas só podiam exercer a sua religiosidade em casa e iam às igrejas apenas em casos muito especiais. Quando ocupavam algum tipo de cargo público, como professor ou em outra função importante na sociedade, não podiam deixar transparecer a sua fé."
Inicialmente, a Igreja pagou também um elevado tributo de sangue: durante a guerra civil, antes que os bolcheviques pudessem constituir a União Soviética em dezembro de 1922, foram assassinados 25 bispos, quase 3 mil sacerdotes, cerca de 2 mil monges e freiras, assim como 15 mil fiéis, aproximadamente. A fim de evitar tal martírio, o Patriarcado de Moscou declarou-se, muitas vezes, leal ao Estado soviético e conclamou os fiéis a assumirem a mesma posição.
Isso provocou divisões, algumas igrejas ortodoxas russas no exterior distanciaram-se criticamente do Patriarcado de Moscou. Mas, mesmo atitudes de bajulação não livraram a Igreja de uma dura perseguição. Ela só pôde sobreviver graças à fidelidade das camadas mais simples da população russa.
Como explica o patriarca Alexis 2º de Moscou: "A lealdade à fé ortodoxa é um dos traços mais importantes do caráter nacional do povo russo. Mas a Igreja Ortodoxa jamais teve um caráter nacionalista. A Igreja só pôde respirar aliviada depois que ruiu a hegemonia soviética; desde então, desenvolve-se também um princípio de relação cooperativa entre a Igreja e o Estado na Rússia."

Autoria Hajo Goertz (am)

1918: Atentado contra Lenin


No dia 30 de agosto de 1918, Vladimir Lenin, líder do Partido Comunista da Rússia, foi gravemente ferido por duas balas, mas sobreviveu.

Desde 7 de novembro de 1917, a Rússia era um país agitado, onde reinava o caos da guerra civil. Após o bem-sucedido golpe de Estado, Vladimir Ilitch Ulianov, apelidado Lenin, estava construindo um sistema ditatorial de governo, sob a liderança dos quadros do partido bolchevista. A oposição era reprimida de maneira radical.
Mas o entusiasmo estava arrefecendo. Além disso, reinava a guerra na Europa e parecia que os alemães iriam vencê-la também no Leste. Em 9 de fevereiro de 1918, foi assinado um tratado de paz entre a Ucrânia e a Alemanha. Aumentou a pressão sobre os bolchevistas, fazendo com que Lev Trotski, como chefe da delegação russa, anunciasse oficialmente a retirada do país da guerra, e interrompesse as negociações de paz, sem fechar um acordo.
Resistência no partido a acordo com a Alemanha
O Alto Comando do Exército alemão ordenou o prosseguimento da marcha militar em direção ao Leste. O novo governo russo, ainda instável, teve que capitular e aceitar as exigências alemãs. O tratado de paz de 3 de março, entre a Rússia e o Império Alemão, foi assinado por Lenin contra uma enorme resistência dentro do partido.
Os comunistas necessitavam de paz externa, a fim de poder impor internamente a sua sangrenta revolução. No dia 17 de julho, então, a família do czar foi eliminada, com a execução, em Iecaterinburgo, de todos os membros da casa real.
Mas apenas seis semanas mais tarde veio o grande choque para a revolução. Lenin, o líder do Partido Comunista da Rússia, tinha acabado de entrar no seu carro, após uma assembleia com os operários de uma fábrica de armamentos. Antes que o motorista pudesse dar a partida, foram disparados três tiros.
Dois deles acertaram o alvo: uma bala atingiu a omoplata esquerda, a segunda alojou-se diretamente no ombro esquerdo do líder. Lenin desmaiou e a polícia revolucionária prendeu imediatamente a suposta autora do atentado: Fanya Kaplan.
Dúvidas quanto à autoria do atentado
A anarquista ucraniana, de 30 anos de idade, havia sido condenada à pena perpétua de trabalhos forçados, em 1906, pelo atentado fracassado contra o governador da província. Ela fora anistiada após a Revolução de 1917. E acusada, pouco depois, dos disparos contra Lenin.
Trecho do protocolo do interrogatório pela polícia secreta, no dia 30 de agosto de 1918, às 23h30: "Eu me chamo Fanya Efimovna Kaplan, este é o nome sob o qual fui registrada como prisioneira do campo de trabalhos forçados de Acatua. Eu disparei hoje contra Lenin. Disparei contra ele por convicção própria. Disparei várias vezes, mas não sei quantas. Não contarei nenhum pormenor em relação à arma. Disparei contra Lenin porque o considero um traidor da Revolução e a sua existência irá destruir a crença no socialismo."
Foi uma declaração misteriosa, que ainda desperta dúvidas quanto ao papel de Kaplan no atentado contra Lenin. Pois ela parece ser apenas uma vítima voluntária. São muito estranhos os indícios que procuravam transformar a revolucionária numa assassina.
Não houve nenhuma testemunha que a tivesse visto realmente fazer os disparos. No ano de 1906, ela havia perdido inteiramente a visão, recuperando-a parcialmente seis anos depois. Mas era extremamente míope e, por isto, pouco adequada como assassina.
Dossiê médico trouxe a prova
Nas investigações feitas por Yurovski – o assassino do czar – no local do atentado contra Lenin, foram encontradas quatro cápsulas de bala, apesar de todas as testemunhas terem ouvido apenas três disparos. Também suscita desconfiança o fato de que Fanya Kaplan tenha confessado tão prontamente sua suposta culpa.
Prova cabal da sua inocência parece ser um dossiê médico do ano de 1922, quando foi retirada finalmente a bala do ombro de Lênin. Com toda certeza, o projétil não foi disparado de um revólver Browning, como o que a polícia secreta teria encontrado na bolsa de Fanya Kaplan e afirmava ser a arma do crime.
Assim, um outro boato foi espalhado desde então. O verdadeiro autor do atentado de 30 de agosto de 1918 contra Lenin teria sido um homem chamado Protopopov, chefe de uma unidade da Tcheka – a organização predecessora do serviço secreto KGB – e que estaria decepcionado com a revolução. Também ele teria sido preso no local do crime e executado no mesmo dia. Kaplan deveria acobertá-lo e, não sabendo da sua prisão, teria "confessado" o crime.

A Tcheka também fez processo sumário contra Kaplan. No dia 4 de setembro, ela foi executada por Pavel Malkov numa garagem. Cumprindo ordens superiores, seus restos mortais foram eliminados sem deixar vestígios.
Posteriormente, no terror da era de Stalin, bastava alguém ter o sobrenome Kaplan para que vivesse sob constante ameaça de morte. E ouvia sempre a mesma pergunta: "É parente da Kaplan?"
De qualquer forma, o dia 30 de agosto de 1918 ofereceu ao líder dos bolchevistas um pretexto bem-vindo para radicalizar ainda mais a caça a todos os seus adversários. Começou então o "terror vermelho". As vítimas foram principalmente os integrantes do Partido Social Revolucionário, que tinha obtido nas eleições um resultado muito melhor do que o Partido Comunista.
Lev Trotski descreveu assim a situação daquele momento: "Curiosamente, a revolução não foi estabilizada através de uma curta fase de tranqüilidade, mas sim através da ameaça do atentado".
DW.DE


1921: Rebelião dos marinheiros de Kronstadt


No dia 2 de março de 1921, 300 representantes de estaleiros e marinheiros da cidade russa de Kronstadt, no Mar Báltico, elegeram um Comitê Revolucionário Provisório.

Trotski prometeu caçar revolucionários "como coelhos"

Os marinheiros da cidade portuária de Kronstadt, no Mar Báltico, haviam se rebelado no final de 1917. A frota bloqueara a foz do Rio Neva, quando o cruzador Aurora deu o sinal para começar a histórica Revolução de Outubro.
A historiadora alemã Jutta Petersdorf dedicou-se intensamente ao estudo da história russa. Ela conta que os marinheiros de Kronstadt desempenharam papel muito importante do começo ao fim da revolução. O próprio Leon Trotski reconheceu este fato.
Retrocesso na Rússia
O povo russo continuava sofrendo mesmo depois da queda dos czares. A União Soviética de então estava literalmente arrasada pela Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e pela Guerra Civil (1918-1921). Fome e epidemias grassavam por toda parte, indústria e transportes estavam profundamente debilitados. Alguns setores apresentavam índices equivalentes aos de fins do século 18.
Havia greves, a agricultura estava paralisada, à espera de definições políticas, o descontentamento agitava a população urbana e provocava revoltas no campo. Protestos públicos eram punidos com prisão sumária.
Os comunistas governavam com mão de ferro. Quem parasse de trabalhar, podia ser condenado à morte. Esta efervescência provocou a insurreição dos marinheiros de Kronstadt contra os bolcheviques. No dia 2 de março de 1921, 300 representantes dos estaleiros daquela cidade portuária elegeram um Comitê Revolucionário Provisório. Os marinheiros entendiam-se responsáveis pelo regime, criticavam a inflação de poder do partido e queriam o retorno dos sovietes às suas origens.

"Somos invencíveis!"

Os sovietes eram os conselhos integrados por operários, camponeses e soldados. Eles apareceram pela primeira vez na Rússia em 1905. Com a revolução de 1917, passaram a ser órgão deliberativo no país. Mas Vladimir Lênin e Trotski viam nos amotinados apenas contrarrevolucionários, e não os apoiaram. Em 5 de março, Trotski enviou uma advertência aos rebelados para que encerrassem seu protesto. Caso contrário, "seriam caçados como coelhos".
Como os marinheiros mantiveram suas reivindicações, dois dias mais tarde começou a invasão de Kronstadt pelo Exército Vermelho. Protegidos como numa fortaleza, os amotinados conseguiram defender-se e enviaram a seguinte mensagem a 8 de março, Dia Internacional da Mulher.
"Da Kronstadt libertada para todas as operárias do mundo: estamos aqui em meio aos estrondos dos canhões, em meio às granadas explodindo, jogadas pelos comunistas, inimigos do povo trabalhador! Mesmo assim, enviamos fraternas congratulações a vocês, operárias de todo o mundo. Saudações da Kronstadt vermelha rebelada, do império da liberdade. Que nossos inimigos se atrevam a nos destruir. Somos fortes. Somos invencíveis!"
Rápida derrota
A invencibilidade durou apenas dez dias. Com o apoio de voluntários que participavam da 10ª Convenção do Partido Comunista, as tropas russas conseguiram conquistar a fortaleza de Kronstadt em 18 de março de 1921.
Uma parte dos amotinados foi executada, outra enviada para prisões afastadas, nas temidas ilhas Solofki, no Mar Branco, ao norte da atual Federação Russa; 8 mil rebelados conseguiram fugir de Kronstadt pelas águas geladas do Mar Báltico. Estava debelado, assim, um dos primeiros movimentos políticos na União Soviética.
DW.DE


1933: Roosevelt eleito presidente dos EUA


No dia 4 de março de 1933, Franklin Delano Roosevelt tomou posse na presidência dos Estados Unidos, abalados pela Depressão. Uma de suas primeiras iniciativas foi o plano de recuperação econômica "New Deal".

No início da década de 30, a economia norte-americana ainda sofria as consequências da Grande Depressão, iniciada com o colapso da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. A estagnação econômica foi decisiva na sucessão presidencial de 1933, quando o candidato republicano à reeleição, Herbert Hoover, foi derrotado pelo democrata Franklin Delano Roosevelt.
Hoover não conseguira frear o processo de empobrecimento geral da população. A situação era crítica: 15 milhões de desempregados viviam da assistência social; milhões de agricultores se encontravam sem meios e endividados, e o sistema bancário estava arruinado. O Estado precisava urgentemente criar novos empregos.
Pacote de medidas
Assim que assumiu a presidência, em 4 de março de 1933, Roosevelt começou a implementar uma série de medidas que transformaram radicalmente o perfil social dos Estados Unidos. Pôs em prática um amplo plano de recuperação da economia chamado New Deal (Novo Acordo).
O program, proposto por políticos progressistas, administradores e assessores do presidente, previa a intervenção do Estado na economia (o que era tabu nos EUA) e foi aprovado por uma maioria esmagadora do Congresso. Em caráter emergencial, o dólar foi desvalorizado em 50% e foram aprovadas leis para aliviar as dívidas dos agricultores e proprietários de imóveis. A Lei Agrícola de março de 1933 previa acabar com a produção de excedentes por meio de subsídios.
A Lei de Recuperação da Indústria Nacional, do mesmo ano, protegia os interesses dos empresários, mas também estabeleceu limites de produção e preços, determinou a jornada máxima de trabalho e criou o salário mínimo. Em dezembro de 1933, foi abolida a Lei Seca e normalizado o funcionamento da indústria de bebidas. Uma lei de 1935 regulamentou as relações trabalhistas, estabeleceu a liberdade de organização sindical e garantiu o direito de greve.
Segundo Robert E. Sherwood, autor do livro Roosevelt e Hopkins, no primeiro trimestre do programa de garantia de trabalho, que flanqueou as medidas de proteção social mínima, foram construídos ou restaurados 400 mil quilômetros de estradas, construídas 40 mil escolas e contratados 50 mil professores.
Foram ainda erguidos mais de 500 pequenos aeroportos, assim como praças e quadras esportivas em todo o país, e instalados mais de 3,5 milhões de metros de canalização de água e esgoto. Na habitação popular, uma nova agência estatal serviu de avalista em última instância para os financiamentos imobiliários, viabilizando um grande incentivo à construção civil.
Desemprego continuou sendo desafio
O primeiro New Deal (1933–35) conseguiu estancar a crise bancária e recuperar a confiança pública. A falência das agências de fomento do governo central, porém, tornou necessário um segundo Deal (1935–38). Nesta fase, foram aprovadas, entre outras, a lei de seguridade social, de agosto de 1935, que criou os seguros desemprego, invalidez e velhice, e garantiu aos trabalhadores o acesso à casa própria.
O Novo Acordo, porém, não conseguiu recuperar de vez os EUA da Grande Depressão. Segundo Paul Kennedy, autor de Ascensão e queda das grandes potências, o desemprego ainda atingia cerca de 10 milhões de pessoas em 1939. "Os vários esquemas do New Deal não foram suficientes para estimular a economia e aproveitar essa capacidade produtiva não utilizada", afirma.
A expressão New Deal, cunhada pelo juiz Samuel Rosenman, foi usada por Roosevelt em seu discurso de 1932, quando aceitou a indicação para concorrer à presidência. A verdadeira recuperação da economia dos EUA só viria durante a Segunda Guerra Mundial, com o aumento da produção de armas.
Adolf Hitler, que igualmente chegou ao poder na Alemanha em 1933, também começou seu governo com um "programa de emergência", mas com um objetivo completamente oposto ao do Novo Acordo de Roosevelt.

Autoria: Rachel Gessat (gh)

Fonte Deutche Welle

Firma del Tratado de Brest-Litovsk

3 de marzo de 1918

Los representantes de la Rusia soviética y las Potencias centrales acuerdan una paz por separado


Tal día como hoy de 1918, en la localidad polaca de Brest-Litovsk (actualmente en Bielorrusia), los representantes de las Potencias Centrales y los del gobierno ruso surgido de la revolución de octubre de 1917 firmaron el tratado por el que Rusia abandonaba la Primera Guerra Mundial. Los bolcheviques (representados por Lev Trotski) obtuvieron la tan ansiada paz, indispensable para asegurar su permanencia en el poder, mientras cedían a cambio a Alemania y sus aliados los territorios rusos que habían conquistado y reconocían la independencia de Finlandia y Ucrania. Esto supuso la pérdida de inmensos territorios, recursos y población, además de ser el reconocimiento de la victoria de las Potencias Centrales en el Frente Oriental.

domingo, 2 de março de 2014

Um Sopro de Vida: pulsações

"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar."


Clarice Lispector, in 'Um Sopro de Vida: pulsações'
Um aceno de paz em cada flor;
Um convite de guerra em cada espinho;
E os louros do perfeito vencedor
À espera de quem passa no caminho.


Miguel Torga
Mas eu, em cuja alma se refletem
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem —
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água.


- Álvaro de Campos [Heterônimo de Fernando Pessoa], In Poesia, Assírio e Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002.

Discurso proferido e apartes

"Nenhum país do mundo conseguiu integrar-se na civilização industrial, sem alcançar, previamente, todo o seu povo ao domínio instrumental da leitura. E já estamos diante de uma nova civilização, muitíssimo mais exigente quanto aos níveis de escolaridade necessários para que uma sociedade dela participe autonomamente dominando o saber e a tecnologia em que ela se funda. Como ignorar, nessas circunstâncias, que estamos desafiados a realizar um imenso esforço, para sair da condição de atraso educacional em que nos afundamos? Como negar que isso põe em risco a própria soberania nacional."


- Darcy Ribeiro, em “BRASIL - Discurso proferido e apartes”. Diário do Congresso. Seção II, pp. 3702-3714, 21 maio 1992. p. 3704.
Não, não chore; nova esperança, novos sonhos, novos rostos,
e a alegria não vivida dos anos que estão por vir
vai mostrar que o coração pode enganar o sofrimento,
e que os olhos podem as próprias lágrimas iludir.

Não, não sofra, embora viva a escuridão de seus problemas,
o tempo não vai parar, e nem andar atrasado;
o dia de hoje que parece tão longo, tão estranho e amargo,
breve estará esquecido no passado."


- Sarojini Naidu [tradução livre - poema citado no livro: "Cruzando o Caminho do Sol", de Corban Addison]
"Somos o tempo. Somos a famosa
parábola de Heráclito o Obscuro.
Somos a água, não o diamante duro,
a que se perde, não a que repousa.
Somos o rio e somos aquele grego
que se olha no rio. Seu semblante
muda na água do espelho mutante,
no cristal que muda como o fogo.
Somos o vão rio prefixado,
rumo a seu mar. Pela sombra cercado.
Tudo nos disse adeus, tudo nos deixa.
A memória não cunha sua moeda.
E no entanto há algo que se queda
e no entanto há algo que se queixa."


Jorge Luis Borges

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Poema porrada



Eu estou farto de muita coisa
não me transformarei em subúrbio
não serei válvula sonora
não serei paz
eu quero a destruição de tudo que é frágil:
cristãos fábricas palácios
juízes patrões e operários
uma noite destruída cobre os dois sexos
minha alma sapateia feito louca
um tiro de máuser atravessa o tímpano de
duas centopeias
o universo é cuspido pelo cu sangrento
de um Deus-Cadela
as vísceras se comovem
eu preciso dissipar o encanto do meu velho
esqueleto
eu preciso esquecer que existo
mariposas perjuram o céu de cimento
eu me entrincheiro no Arco-Íris
Ah voltar de novo à janela
perder o olhar nos telhados como
se fossem o Universo
o girassol de Oscar Wilde entardece sobre os tetos
eu preciso partir um dia para muito longe
o mundo exterior tem pressa demais para mim
São Paulo e a Rússia não podem parar
quando eu ia ao colégio Deus tapava os ouvidos para mim?
a Morte olha-me da parede pelos olhos apodrecidos
de Modigliani
eu gostaria de incendiar os pentelhos de Modigliani
minha alma louca aponta para a Lua
vi os professores e seus cálculos discretos ocupando
o mundo do espírito
vi criancinhas vomitando nos radiadores
vi canetas dementes hortas tampas de privada
abro os olhos as nuvens tornam-se mais duras
trago o mundo na orelha como um brinco imenso
a loucura é um espelho na manhã de pássaros sem Fôlego


Roberto Piva

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

SÉTIMO DIA


Voltámos, um a um, da tua morte

para a nossa vida como quem regressa a casa
de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,
e agora é como se te tivéssemos sonhado.

A voz que, diante da escuridão, suspendemos
quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti
erguêmo-la de novo para os afazeres diurnos
e para as horas comuns.

Ainda ontem estávamos sozinhos diante do Horror
e já somos reais outra vez.
A própria dor adormeceu no nosso colo
como um animal de companhia.


MANUEL ANTÓNIO PINA

Quem controla o sistema financeiro?

"Assim, a política econômica não é mais da jurisdição dos governos democraticamente eleitos, porque existe um determinado grupo de interesses que nunca pode ser derrotado. Não é somente a questão dos detentores de riqueza poderem evitar o ônus de qualquer política da qual não gostem. É pior do que isso: eles podem arruinar a economia no processo de evitar decisões locais, causando uma crise no balanço de pagamentos." (Quem controla o sistema financeiro? - Ibase)

Strophes pour se souvenir

Vous n'avez réclamé la gloire ni les larmes
Ni l'orgue ni la prière aux agonisants
Onze ans déjà que cela passe vite onze ans
Vous vous étiez servi simplement de vos armes
La mort n'éblouit pas les yeux des partisans

Vous aviez vos portraits sur les murs de nos villes
Noirs de barbe et de nuit, hirsutes, menaçants
L'affiche qui semblait une tache de sang
Parce qu'à prononcer vos noms sont difficiles
Y cherchait un effet de peur sur les passants.

Nul ne semblait vous voir Français de préférence
Les gens allaient sans yeux pour vous le jour durant
Mais à l'heure du couvre-feu des doigts errants
Avaient écrit sous vos photos morts pour la France
Et les mornes matins en étaient différents

Tout avait la couleur uniforme du givre
À la fin février pour vos derniers moments
Et c'est alors que l'un de vous dit calmement
Bonheur à tous Bonheur à ceux qui vont survivre
Je meurs sans haine en moi pour le peuple allemand

Adieu la peine et le plaisir Adieu les roses
Adieu la vie Adieu la lumière et le vent
Marie-toi sois heureuse et pense à moi souvent
Toi qui vas demeurer dans la beauté des choses
Quand tout sera fini plus tard en Erivan

Un grand soleil d'hiver éclaire la colline
Que la nature est belle et que le cœur me fend
La justice viendra sur nos pas triomphants
Ma Mélinée ô mon amour mon orpheline
Et je te dis de vivre et d'avoir un enfant

Ils étaient vingt et trois quand les fusils fleurirent
Vingt et trois qui donnaient leur cœur avant le temps
Vingt et trois étrangers et nos frères pourtant
Vingt et trois amoureux de vivre à en mourir
Vingt et trois qui criaient la France en s'abattant

Strophes pour se souvenir. Louis Aragon


Aujourd'hui l'Humanité rend hommage aux 23 résistants du groupe Manouchian, morts pour la France il y a 70 ans jour pour jour.



Fonte L’Humanité

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"A maravilhosa alteridade do outro foi banalizada e enturvecida em uma simples troca de cortesias estabelecida como um comércio interpessoal de alfândegas." [Emmanuel Lévinas, 1906-1995]
( Senhor, dá-me a faculdade de jamais rezar, poupa-me a insanidade de toda adoração, afasta de mim essa tentação de amor que me entregaria para sempre a Ti. Que o vazio se estenda entre o meu coração e o céu! Não desejo ver meus desertos povoados com Tua presença, minhas noites tiranizadas por Tua luz, minhas Sibérias fundidas sob Teu sol. Mais solitário do que Tu, quero minhas mãos puras, ao contrário das Tuas que sujaram-se para sempre ao modelar a terra e ao misturar-se nos assuntos do mundo. Só peço à Tua estúpida onipotência respeito para minha solidão e meus tormentos. Não tenho nada a fazer com Tuas palavras. Conceda-me o milagre recolhido antes do primeiro instante, a paz que Tu não pudeste tolerar e que Te incitou a abrir uma brecha no nada para inaugurar esta feira dos tempos, e para condenar-me assim ao universo, à humilhação e à vergonha de existir.)


Cioran
"É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é vida. Ou neve, que é muda, mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve."

- Clarice Lispector, em “Onde Estivestes de Noite”, 1998.
Voz já sem eco, só
visões de mescalina;

Minha pátria, o silêncio

— imagem desfocada
ou oblívio —
no transmutar-se em água.

(Um jogo de
decapitações:

extravio dos prováveis,
sem desfibrar a
rocha.)


(Yin Hsi, exaurido após luas e sóis de inútil leitura — tarefa insana como polir pedra com pluma, mover montanhas, secar o sol — incinera o códice de nós.)

fonte: Cláudio Daniel

MINHA PÁTRIA


Minha pátria não é a língua portuguesa.
Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
São os caranguejos que correm na lama dos mangues
e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando sonho.
Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas carcomidas,
os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar,
e o céu encurvado pelas constelações.
Minha pátria são os apitos dos navios
e o farol no alto da colina.
Minha pátria é a mão do mendigo na manhã radiosa.
São os estaleiros apodrecidos
e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos
[e impaludados não param de tossir e tremer nas noites frias
e o cheiro de açúcar nos armazéns portuários
e as tainhas que se debatem nas redes dos pescadores
e as résteas de cebola enrodilhadas na treva
e a chuva que cai sobre os currais de peixe.
A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria.
Nenhuma língua enganosa é a pátria.
Ela serve apenas para que eu celebre a minha grande e pobre pátria muda,
minha pátria disentérica e desdentada, sem gramática e sem dicionário,
minha pátria sem língua e sem palavras.


LÊDO IVO

Poema sobre a recusa



Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.


Maria Teresa Horta

DEFESA DA ALEGRIA


Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas

defender a alegria como um princípio
defendê-la do pasmo e dos pesadelos
dos neutros e dos nêutrons
das doces infâmias
e dos graves diagnósticos

defender a alegria com uma bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingênuos e dos canalhas
da retórica e da parada cardíaca
das endemias e das academias

defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros
dos suicidas e dos homicidas
do descanso e do cansaço
da obrigação da alegria

defender a alegria como uma certeza
defendê-la da ferrugem e da sarna
da célebre pátina do tempo
do relento e do oportunismo
dos rufiões do riso

defender a alegria como um direito
defendê-la de deus e do inverno
das maiúsculas e da morte
dos sobrenomes e das lástimas
do acaso
e também da alegria

MARIO BENEDETTI


Tradução: Fabiano Calixto

OUTRE



Des fois, aussi,
tout irisée se
balade naïve
une bulle
en la fraîcheur
du vent,
pourquoi si beau
dehors oh
pourquoi enfermée
elle se dit
et explose
aussitôt
du plaisir
d'exploser

Un poema de Annie Salager


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A Criança e a Relva

 Walt Whitman - Tradução de Geir Campos

Uma criança disse:O que é a relva? - trazendo um tufo em suas mãos;
O que dizer a ela?... sei tanto quanto ela o que é a relva.
Vai ver é a bandeira do meu estado de espírito,
tecida de uma substância de esperança verde.
Vai ver é o lenço do Senhor,
Um presente perfumado e o lembrete derrubado por querer,
Com o nome do dono bordado num canto,
pra que possamos ver e examinar, e dizer:

- É seu?

O Louco

Gibran Khalil Gibran - Tradução de Mansour Challita.

Perguntais-me como me tornei louco.
Aconteceu assim:

Um dia, muito tempo antes
de muitos deuses terem nascido,
eu despertei de um sono profundo e notei que todas
as minhas máscaras tinham sido roubadas
- as sete máscaras que eu havia confeccionado
e usado em sete vidas -e corri sem máscara pelas
ruas cheias de gente, gritando:
"Ladrões, ladrões, malditos ladrões!"

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram
para casa, com medo de mim e quando cheguei à praça
do mercado, um garoto trepado no telhado de uma
casa gritou: "Ele é um louco!".

Olhei para cima, pra vê-lo.
E pela primeira vez, o sol beijou minha face nua, e
minha alma inflamou-se de amor pelo sol,
e eu não desejei mais as minhas máscaras. E, como num
transe, gritei:

"Benditos, benditos os ladrões
que roubaram minhas máscaras!"
E foi assim que eu me tornei louco.

E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura:
a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido,

pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós. 

Cap. III - Representar

"Com suas voltas e reviravoltas, as aventuras de Dom Quixote traçam o limite: nelas terminam os jogos antigos da semelhança e dos signos; nelas já se travam novas relações. Dom Quixote não é o homem da extravagância, mas antes o peregrino meticuloso que se detém diante de todas as marcas da similitude. Ele é o herói do Mesmo. Assim como de sua estrita província, não chega a afastar-se da planície familiar que se estende em torno do Análogo. Percorre-a indefinidamente, sem transpor jamais as fronteiras nítidas da diferença, nem alcançar o coração da identidade. Ora, ele próprio é semelhante a signos. Longo grafismo magro como uma letra, acaba de escapar diretamente da fresta dos livros. Seu ser inteiro é só linguagem, texto, folhas impressas, história já transcrita. É feito de palavras entrecruzadas; é ESCRITA ERRANTE no mundo em meio à semelhança das coisas. Não porém inteiramente: pois, em sua realidade de pobre fidalgo, só pode tornar-se cavaleiro, escutando de longe a epopéia secular que formula a Lei. O livro é menos a sua existência que se dever. Deve incessantemente consultá-lo, a fim de saber o que fazer e dizer, e quais signos dar a si próprio e aos outros para mostrar que ele é realmente da mesma natureza que o texto de onde saiu. [...]. Dom Quixote desenha o negativo do mundo do Renascimento; a escrita cessou de ser a PROSA DO MUNDO; as semelhanças e os signos romperam sua antiga aliança; as similitudes decepcionam, conduzem à visão e ao delírio.As coisas permanecem obstinadamente na sua identidade irônica: não são mais do que o que são; AS PALAVRAS ERRAM AO ACASO, sem conteúdo, sem semelhança para preenchê-las; não marcam mais as coisas; dormem entre as folhas dos livros, no meio da poeira."


(Início do Cap. III - Representar, do livro As Palavras e as Coisas, de Michel Foucault)

Desencanto


Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.

- Manuel Bandeira, em "A cinza das horas", 1917.

 ___
Manuel Bandeira no site:
http://www.elfikurten.com.br/2011/02/manuel-bandeira-estrela-da-vida-inteira.html

ESPLANADA



Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.


MANUEL ANTÓNIO PINA

La guerra desconocida, 1914-1945


11 de febrero de 2014 Yaroslav Butakov, File.rf


Hace 100 años comenzó la Primera Guerra Mundial. Para muchos sigue siendo la Guerra Desconocida, aunque en 1914 se la conocía también en Rusia como la Guerra Patria.


La guerra desconocida, 1914-1945
Fuente: RIa Novosti

En Rusia buena parte de la conciencia colectiva la considera una guerra desprovista de sentido; engendró la Revolución y supuso una pérdida de territorio. ¿Es, por tanto, necesario recordarla? Sí, lo es. Aunque solo sea porque cerca de dos millones de rusos sucumbieron en los campos de batalla de esta Primera Guerra Mundial.
“En este momento no solo tenemos la obligación de defender nuestro país, injustamente agraviado, sino que también debemos proteger el honor, la dignidad y la integridad de Rusia, así como su posición entre las grandes potencias del mundo…”, declaró el 20 de julio (2 de agosto según el calendario juliano que se utilizaba entonces en el país eslavo) de 1914 el zar Nicolás II en un manifiesto publicado al día siguiente de que Alemania declarara la guerra a Rusia.
Proteger el honor, la dignidad y la integridad. No son palabras vacías. La agresión de la Alemania imperial a Rusia fue, sin duda, un hecho histórico. El desmembramiento de Rusia fue fraguado por los pangermanistas ya en los años 80 del siglo XIX.
En 1914, el káiser Guillermo II recibió un memorándum que sugería la ‘limpieza’ de los países Bálticos, Bielorrusia y el territorio de la entonces conocida como Gran Rusia (Velíkaya Rus en ruso) desde la línea de Petrogrado-Smolensk hacia el oeste para el asentamiento de alemanes en esas tierras.
En verano de 1915, se celebró un congreso en Berlín en el que 1.347 profesores alemanes firmaron otro memorándum que sostenía que todo el territorio al oeste del Volga debía quedar bajo colonización alemana. El ejército ruso, por tanto, combatió en aquella guerra principalmente por la libertad y la independencia de su patria.
En su día, nada menos que Winston Churchill se sintió en la obligación de recordar a los ciudadanos del Imperio británico y a los estadounidenses la contribución de Rusia en la victoria de la Triple Entente. A principios de los años 30, se recopilaron varios fragmentos de toda su obra en un libro dedicado a la Primera Guerra Mundial bajo el título La guerra desconocida: el frente occidental. El nombre fue muy acertado... desconocida.
En Francia, por ejemplo, hay un monumento a los soldados de las brigadas especiales rusas. Pero en Grecia y en Macedonia, donde las brigadas especiales rusas también combatieron como parte de las fuerzas aliadas multinacionales, sigue sin haber ningún recordatorio. En general, las proezas de los soldados rusos en los Balcanes entre 1916 y 1918 no han sido inmortalizadas.
De los rusos que perdieron la vida en los campos de batallas de Francia se ha filmado alguna película y se han escrito numerosos libros; sobre las tropas rusas del Frente de Salónica no hay más que dos o tres artículos.
En Turquía, en el extremo de la península de Galípoli — a la entrada de Dardanelos—, donde tuvo lugar en 1915 una de las batallas más conocidas de la Primera Guerra Mundial, se erigió aún en tiempos de Kemal Atatürk un enorme complejo en memoria de los soldados turcos y británicos.
En uno de sus monumentos se puede leer la siguiente frase: “Descansen en paz. A todos los John y los Mehmed sin distinción; ambos yacen juntos en nuestro país”. Qué impide levantar monumentos similares en aquellos lugares donde se libraron las mayores batallas entre los ejércitos de Rusia y Turquía en la Primera Guerra Mundial: lugares como Sarighamish, Erzurum, Trebisonda o Erzincan.
Para Rusia el fin de la guerra no llegó con la firma del tratado de paz de Brest, sino que continuó posteriormente. En invierno de 1918 y 1919, las tropas soviéticas regresaron a las fronteras occidentales del antiguo Imperio ruso. De hecho, la guerra con Polonia de 1920 también cumple todos los requisitos para ser considerada como continuación de la Primera Guerra Mundial.
Si se contempla a una escala mayor, toda esta guerra se podría considerar simplemente como la primera fase de la Gran Guerra Patria de los 30 años, de 1914 a 1945 (Gran Guerra Patria es el nombre con el que se conoce comúnmente a la Segunda Guerra Mundial en Rusia).

De esos 32 años, a Rusia le corresponden 14 años de importantes guerras externas y, si a estas se le suman las guerras locales, en total fueron 22 años de contiendas. Solo en 1925 se marcharon los últimos invasores del territorio ruso (los japoneses del norte de Sajalín); en 1929, sin embargo, tuvo lugar un conflicto en la línea transmanchuriana (rama del transiberiano que une Rusia con China); y en 1937 volvieron los conflictos con Japón en el Extremo Oriente (el incidente de Blagovéshchensk). Después llegaron los acontecimientos que todos conocemos y que se prolongaron hasta el año 1945.
La denominación de Guerra Patria alude a que no se trató de una guerra librada para la conquista de tierras extranjeras, sino para la de la independencia nacional.
Yaroslav Butakov, doctorando en Historia.

Artículo publicado originalmente en ruso en File-RF.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sociedade do Espetáculo

[O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens.

Compreendido em sua totalidade, o espetáculo é tanto o resultado como a meta do modo de produção dominante. Ele não é uma mera decoração acrescentada ao mundo real. É o próprio coração do irrealismo desta sociedade real. Em todas suas manifestações particulares -- notícias, propaganda, anúncios, entretenimento -- o espetáculo representa o modelo dominante de vida. É a afirmação onipresente das escolhas que já foram feitas na esfera da produção e do consumo resultante de tal produção.]



Gui Debord 

A Palavra


Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina
e a alegria aviva-se em redonda ressonância.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.

Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.

O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano.


- António Ramos Rosa, in "Volante Verde".

psiquê do ódio

Para entender o curioso fenômeno em que Dilma se consolida como favorita e aumenta o ódio das fragmentadas oposições. Entrevisto eleitores falando que a Dilma é razoável, mas os outros candidatos são todos seguramente muito piores e por isso é que ela vai se reeleger. A forte base social e força eleitoral do voto no PT motiva reações desesperadas, violentas e desconexas. Os movimentos de protesto amanhã serão menores, muito menores porque já se formou um grande e vigoroso anticorpo político contra black blocs, anonymous e outras velhacarias em rede de 2013. Marina e Heloísa Helena não repetirão 2010 e 2006 como já se sabia naquelas eleições. Órfãos da ditadura, alguns dos mesmos que patrocinaram agosto de 54, Jânio Quadros, a Redentora de 64 e Fernando Collor imaginam inventar um neo-velho simulacro desgastado de "Salvador da Pátria" autoritário, tipo Idi Amin Dada, outra manobra fadada ao fracasso. O PSDB traz sólida rejeição nacional a quem apoiar no primeiro e no segundo turno. Para quem viveu e sobreviveu aos governos Figueiredo, Sarney, Collor, Fernando Henrique Cardoso - sabe-se que a situação hoje é muito melhor (ou bem menos pior) do que durante os períodos anteriores a 2003. Quem está individualmente pior hoje em relação a 2002, 1992, 1982 ? A grande maioria do povo brasileiro melhorou bastante de vida em relação aos últimos 10, 20, 30 anos. Para entender a curiosa psiquê do ódio. http://www.domtotal.com/noticias/detalhes.php?notId=719590&fb_action_ids=10201527525175980&fb_action_types=og.likes&fb_source=other_multiline&action_object_map=[355654764577474]&action_type_map=[%22og.likes%22]&action_ref_map=[]

Ricardo Costa de Oliveira

O impossível carinho


Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!


- Manuel Bandeira, no livro "Libertinagem e Estrela da Manhã". 14ª ed., Editora Nova Fronteira, 2000, pág. 68.

Black Bloc é uma tática e não uma organização política. Não existe, portanto, os Black Blocs.
O que há são pessoas ou pequenos grupos dispersos que se intitulam assim, numa heterogeneidade de motivações, condutas, trajetórias.
O que dá identidade para quem se diz um Black Bloc são os rostos cobertos e a ação de enfrentamento direto aos aparelhos estatais, sobretudo a polícia, em diferentes níveis.
Esse anonimato e essa forma de atuação criam um terreno fértil para a reunião de jovens inconsequentes, que agem por revolta e desorganizados, atraídos pela ousadia Black Bloc e repelidos pela inércia das instituições políticas tradicionais, principalmente os partidos políticos.
Mas também é o terreno ideal para a infiltração da polícia e de mercenários pagos para incitar conflitos, com o intuito de justificar o aumento da repressão e de afastar a massa dos protestos. Por isso, a violência policial e a ação de grupos violentos em meio às multidões, invariavelmente, são movimentos articulados e planejados para criminalizar e dissipar movimentos legítimos de contestação.

Aqueles que ainda acreditam nas transformações sociais e na força das mobilizações populares precisam dedicar seu tempo para discutir com essa juventude e apontar caminhos consequentes de luta organizada.

André Castelo Branco Machado



Visualize 2014 em Curitiba: cidade mais atrasada para a Copa e com menor volume de obras para a Copa; risco de implosão no sistema integrado de transporte público e sobra de vagas em hotéis porque os turistas não se interessaram pela cidade. Ou seja, ano em que todo o mito da capital europeia escoa rapidamente ralo da realidade. Esse é o ano da "brasileirização" de Curitiba. Cidade dos atrasos, dos superfaturamentos, da inexistência de prestação de contas do uso do dinheiro público, do transporte coletivo caro e ruim, dos coronéis na política, dos políticos mandões e dos políticos fracotes. Depois dessa, chega! Estamos no Brasil, moçada, com tudo o que isso significa. Essa ladainha da cidade evoluída não se sustenta mais. Não somos - tenho dúvidas que um dia tenhamos sido - mais avançados e organizados do que outras cidades do mesmo porte do País.
Emerson Urizzi Cervi

discussões políticas

Jose Alvaro Moises
10 de fevereiro próximo a São Paulo
Não estou seguro de que todas as pessoas responsáveis desse país - inclusive meus colegas da universidade e, especialmente, os cientistas políticos - estão se dando conta de modo completo das implicações e das consequências do retorno da violência na vida pública brasileira. Só não vê quem não quer que o clima de mal estar com o funcionamento da democracia - e em grande parte com o governo de Dilma Roussef e do PT - está dando lugar a iniciativas as mais variadas que, antes de se apoiar no diálogo, na negociação e nas instituições de representação - usam a violência como forma de protesto, de ação e de expressão. A morte de um jornalista, os ônibus queimados, os abusos das milícias, e também das polícias, o pânico da população - tudo está dando sinais de que, aos poucos, em todas as esferas da vida o conflito legítimo de sociedades complexas como a nossa está sendo tratado como se sua única solução fosse o uso da força, da violência e da depredação. Não me digam, por favor, que os governos ditos de esquerda ou seus opostos, os conservadores, estão sabendo o que fazer, nem que os partidos de qquer orientação estão conectados com a população. Não importa mais a controvérsia se o presidencialismo de coalizão funciona ou não, o que precisamos perceber é que o país está entrando em um clima e em uma atmosfera perigosa, que ameaçam a democracia, a convivência social e tranquilidade das pessoas. Acho melhor olhar isso de frente logo, com clareza e percepção, e começar a pensar em saídas para tudo isso do que esperar o caos se instalar. Desculpem-me o desabafo, mas estou sufocado pela apreensão pelo que estou vendo ocorrer no Brasil contemporâneo, sem vislumbrar saídas de lado nenhum. Queria saber aonde estão as nossas lideranças, e o que elas têm a dizer de tudo isso.
Vera Zaverucha "Que ameaçam a democracia, a convivência social e a tranquilidade das pessoas"..

Na verdade, a força, a violência e depredação são artifícios de guerra para espantarem a população. Ninguém quer mais ir às ruas pois temem serem rechaçadas. Os black blocs são uma farsa. São pessoas programadas para desfazer manifestações e causar transtornos.

.

Adilson Simonis Caro Professor, solidarizo-me com seu oportuno desabafo. Apenas tento agregar a ideia de que este lamentável episódio dos Blacs está muito parecido com o assassinato em Sarajevo do Arquiduque Império Austro-Húngaro Francisco Ferdinando pelo sérvio nacionalista Gavrillo.
Adilson Simonis Continuando: não foi a causa mas uma manifestação de muitas variáveis que levaram ao ato violento. Cabe-nos trazer a complexidade a toma. Você tem um papel merecido neste aspecto. Abraços
Jose Alvaro Moises Pois é Adilson, tem algo de muito estranho nisso, tudo a indicar que se trata de algo articulado e não espontâneo, embora não seja claro ainda com que objetivos. E a perplexidade parece ser geral, porque agora, com exceção de uma ou outra pessoa públic...Ver mais
Jose Alvaro Moises A esquerda tem medo de constatar a violência e suas consequências por que já flertou e ainda flerta com ela. A direita só vai até o pedido de repressão sem querer olhar as causas. M
Jose Alvaro Moises Mas o mais grave é que as chamadas lideranças democráticas não tenham nada a dizer, estão guardando um silêncio sepulcral como se o país não estivesse entrando - em ritmo ainda local e de pequenas proporções - em convulsão.
Jose Alvaro Moises Não acho que seja o caso de exagerar no diagnóstico, mas os sinas não são bons e pedem atenção e soluções, rápidas, eficazes, antes que se acumulem os efeitos negativos do que está ocorrendo.
Adilson Simonis Pois caro amigo, a questão econômica está pegando. A incapacidade do modelo vigente se sustentar e a falta de proposta da oposição (no máximo manter o tripé do Palocci via Rede) fazem que a pasmaceira reine. O que tah pegando como dizem os jovens eh a crise energética (dizem que o apagão derrubou FHC) . Pois bem, cade os pensadores para propor avanços sociais aos que terão que devolver o carrinho pois não conseguem pagar o Ipva (35 porcento do Pibinho em postos) significa uma barreira capitalista de acumulação que, mesmo ela, não pode gerar riquezas sem estabilidade política. Vocês sociólogos tem que se manifestarem; nos estatísticos estamos vendo a coisa feia e pode piorar. Abraço
Ernesto Heine O grande trunfo do governo é ter amarrado muitos setores da indústria ao BNDES e a empréstimos com prazos a vencer em período que precede eleições. O BNDES, empreiteiras, imprensa e etc são máquinas muito eficientes de manipulação e em um período de crise a quantidade de setores endividados é imensa. Ninguém quer abrir a boca e ser liquidado. Como as lideranças políticas tem uma corda atrelada ao setor econômico.... não restam dúvidas que está tudo muito amarrado. Esta corda precisa ser rompida através da reforma política. É o ponto alto da questão.
Adilson Simonis Caro Ernesto; defina reforma política, por favor. Voto distrital, fundo partidário diferente do de hoje ou manter o financiamento público. Onde reformaram?
Jose Alvaro Moises Adilson, ao menos penso que não podemos mais continuar com financiamento privado no volume que ocorre no Brasil. A França e a Alemanha proibiram as empresas de financiar partidos e candidatos. Pode ser um começo. E precisamos mudar o sistema político, o sistema proporcional atual retira poder dos eleitores, não é bom. E o presidencialismo de coalizão concentra poderes demais nas mãos do Executivo, enfraquece no Legislativo e estimula o Judiciário a judicializar a política. Temos de reequilibrar o balanço de poderes republicanos, e restaurar o interesse público na vida política.
Claudia N. Paiva Eu não entendo quem é chamado de direita ou esquerda nesse caso, pq o grupo no poder se diz esquerda, e os manifestantes nas ruas, anarquistas.
As manifestações começaram pacíficas e foram reprimidas violentamente até que só sobrassem black blocs nas ruas. Essa repressão foi aceita pela opinião pública, única revista a reclamar foi a isto é. Agora está formada a confusão.
Ernesto Heine Adilson Simonis, estava escrevendo, mas o Prof. Moisés respondeu de modo ainda mais completo. Restaurar o interesse público na vida política é essencial também. A juventude está muito despolitizada. Não há uma geração de pensadores e quem é mais pensante, hoje tem medo de opinar... ou então carece de liderança.
Adilson Simonis O setor privado não joga dinheiro fora. O estado deve intervir onde falta dinheiro (Monte Belo jah deveria estar pronta). Na época da UDN havia tão pouco dinheiro que chamar aquilo de financiamento privado foge ao meu entendimento histórico. De qualquer maneira, gostei da sua resposta.
Para a Claudia Paiva, chamo a atenção ao conceito que ajudou a condenar alguns no processo do mensalão; domínio do fato.
Adilson Simonis Ernesto, obrigado pela resposta. Eu não procuro lideranças (jah basta minha mulher que manda em mim) e como dizia um personagem de quadrinhos; soja tenho medo que o céu caia na minha cabeça. Boa noite a todos, sempre aprendo com os amigos da área de Humanas...
Jose Alvaro Moises A esquerda está no governo, mas não no poder, embora compartilhe partes dele. A direita está em alguns estados, tem poder econômico e dirige o capitalismo no país. Os manifestantes não são todos anarquistas, apenas alguns, a maioria pediu mais democracia. Agora, os black blocs... além de vândalos são provocadores, mas não está bem claro a serviço de quem... talvez do crime organizado, os traficantes e contrabandeadores de armas.
Jose Alvaro Moises E também expressam um fenômeno mais profundo de marginalidade, desigualdade e deslocamento social - mas nada disso justifica o uso da violência e da força. Isso é próprio da direito, como fizeram durante a ditadura, no nazismo e na fascismo; e, infelizmente, as vezes também na antiga União Soviética.

Angélica Salazar Pessôa Mesquita Prof. Jose Álvaro Moisés, como sempre o senhor foi brilhante nos seus comentários. Mas, na minha opinião a esquerda já deixou de flertar com a violência. Elas estão de braços dados, defendendo direitos para bandidos e mais deveres para os cidadãos de bem.
Claudia N. Paiva Duvido muito q black blocs estejam a serviço de quem quer q seja. Acompanhei as discussões das pag do anonymous e dos black blocs, fui as manifestações maiores. Houve um momento (está no youtube) em frente a prefeitura em q acredito q a guera começou. Um homem bombado (e talvez cheirado) q a multidão pedia à polícia p retirar e a polícia ameaçava quem pedia de cadeia. Depois a polícia usou esse homem de pretexto p iniciar a repressão. Acho q existiu uma sensação de massacre e injustiça pela polícia quando eles começaram a reprimir as manifestações sem nenhuma justificativa moral razoável, e mais revolta ainda quando ficou patente o uso de p2 pela polícia para culpar manifestantes. O caso do Bruno mostrou q a polícia pode incriminar um inocente a hora q quiser. Muitas prisões injustificadas foram flagradas por populares. Os black blocs tomaram a função de "defesa da multidão", são equivocados no seu entendimento do problema e nas suas táticas q estão longe de ser só defesa, mas não são coesos, de fato, pela própria natureza anarquista da maioria de seus integrantes.
Renato Perissinotto Penso que existem diferentes violências oriundas de diversos lugares na sociedade, mas me parece que elas se unificam a partir de um lugar: o Estado brasileiro. Seja pela presença seja pela ausência, o Estado brasileiro é fonte/incentivo à violência. Quando ausente, cria uma estrutura de oportunidades para que a violência entranhada na sociedade brasileira se manifeste, como no caso do garoto amarrado ao poste; quando se faz presente humilha a população pela ineficiência (seja ao prestar serviços, seja quando os regula) ou pela repressão. Como você disse, isso gera um ambiente perverso, em que a direita demanda mais repressão e parte da esquerda (?), ultraminoritária, aposta na violência como fim em si mesmo, como um primeiro recurso. Na minha opinião, o problema da reforma do Estado brasileiro, para além da bobagem do Estado mínimo ou da antinomia infrutífera entre empresas estatais ou privadas, é o tema ausente mais importante da agenda política. Reforma no sentido de, por um lado, recapacitá-lo a ser coordenador de ação coletiva e implementador de um projeto de longo prazo que transcenda o curto prazo das eleições e, por outro, no sentido de republicanizá-lo, de colocá-lo a serviço da população e não contra ela. Mas para isso, seria preciso um pacto entre lideranças políticas e forças socioeconômicas em nome de um projeto de longo prazo. Quem seria capaz de encaminhar isso? Não vejo ninguém à altura e isso também me preocupa muito.

Alba Zaluar Em março do ano passado fui gratuitamente ofendida e agredida por jovens, aliás com sotaque paulista, alguns com máscaras, na saída da inauguração do MAR, museu na cidade do Rio de Janeiro. Barraram a minha passagem por um corredor (polonês), depois me deixaram passar gritando que eu fedia e era uma burguesa! Portanto muito antes de qualquer manifestação de rua no Rio de Janeiro. Não havia PMs no local, apenas a segurança da presidente Dilma que nada fez. E eu saí mais cedo porque cansei de esperar pela comitiva dela para ouvir os discursos e finalmente visitar o museu. Esse movimento estava sendo gestado há muito, alimentado lamentavelmente pelas ideias de alguns professores. A partir desse momento, comecei a me perguntar o que estava acontecendo e, claro, me postei contra essa inútil forma de agredir quem não tem nada com quem manda no país.

Jose Alvaro Moises Me solidarizo inteiramente com minha querida colega Alba Zaluar. O relato dessa experiência humana horrível que a atingiu é um exemplo importante dos riscos que estão surgindo ao direito à vida, à livre expressão e à participação irrestrita na vida política e social. Quando um de nós é ameaçado, todos estamos sendo ameaçados e, nesse caso, é sinal de desconhecimento e de desprezo pela inestimável contribuição da Alba, precisamente ao nosso tema, o uso da violência na vida pública.

Evelyn Levy Me identifico com aqueles que estão perplexos e igualmente expresso minha profunda preocupação. Também acredito que não estão surgindo lideranças para interpretar e propor caminhos. Nesse sentido seria muito bom se você, Moisés - e o NUPPs- pudessem abrir o espaço para o debate. Especialmente por que acho que a situação é mais complexa do que estamos acostumados: há novos atores e novas formas de expressão se misturando a velhos interesses. Também não acredito que possamos atribuir a responsabilidade exclusivamente ao Governo Federal. Acredito que se não formos capazes de fazer uma interpretação correta dessas múltiplas influências - a economia da droga, por exemplo, como indicou ontem o Governador Anastasia -não saberemos formular propostas eficazes de ação política.

Wagner Iglecias Caro Prof. José Jose Alvaro Moises, sua preocupação é muito legítima e pertinente, ainda mais neste momento em que o ambiente político-partidário anda tão envenenado. Entendo sua mensagem como um convite a que todos aqueles da comunidade acadêmica interessados em debater de maneira franca o país e saídas para seus problemas que o façam. Apenas não creio que avançaremos se partimos da premissa de que o esgotamento da paciência da população é com o partido A ou o partido B. Parece-me que é geral, e não apenas com partidos ou com este ou aquele nível de governo. Muita gente anda farta do governo federal, dos governadores, dos prefeitos. E não só. As pessoas estão também cansadas do Congresso Nacional, dos deputados estaduais, vereadores, juízes, promotores de justiça, de certos comunicadores da midia etc. Estão ainda fartas da forma como são tratadas pelas empresas de telefonia, bancos, operadoras de cartão de crédito, companhias aéreas, TVs a cabo e tantos outros segmentos.

Jose Alvaro Moises O debate está aberto e todos podem participar dele. Por outro lado, concordo que a insatisfação é geral, atinge a todos. Mas alguns tem mais responsabilidade do que outros, especialmente, os que fizeram o seu prestígio e sucesso eleitoral em torno da ideia de que estavam reformando a política. Ao não reformarem, e pelo contrário a degradarem mais ainda, deixaram um vazio ético, moral e político que agora está deixando o país sem rumo e as pessoas sem esperança. Todos os partidos estão falhando e são deficitários, mas alguns são mais do que outros, a história registra isso sem piedade. Temos de ter clareza e cobrar isso de quem deve ser cobrado, sob pena de fraudarmos a nossa própria percepção, mas não acho mais que o momento é para isso.


Jose Alvaro Moises João, não dou brecha nenhuma, sou bem conhecido - e, aliás, criticado - por ser um crítico duro do PT, não apenas por causa da sua política nos últimos 11 anos, mas por causa do seu projeto de poder, e dos seus objetivos de longo prazo. Como fui fundador do partido, e participei dele por mais de 10 anos, sei bem do que estou falando. Quanto ao mais, respeito suas opiniões e da maior parte dos que tem participado do debate, embora não de todos.
João Weber Jose Alvaro Moises, meu ponto não é esse, e nem você especificamente. O "projeto de poder" do PT é o projeto de poder da esquerda por excelência.

Os governos Lula e Dilma representam DE FATO a esquerda - em todos os aspectos. Dissociar o "projeto de poder" petista da esquerda é problemático. Não acho possível separar uma coisa da outra, assim como não é possível dissociar a TFP da "direita".

Sei que não há mais consenso acadêmico a respeito dos termos "direita" e "esquerda", e portanto trato a dicotomia como uma questão autointitulada. É de esquerda quem se diz de esquerda.


Jose Alvaro Moises Então, aos poucos o mistério está se revelando... resta saber como o governo vai reagir, assim como os líderes da oposição - o momento exige uma tomada de posição clara das pessoas responsáveis

Ernesto Heine Isso no fundo é bom. Antes da copa e bem próximo às eleições, está se desenhando um clima de novos protestos. Desta vez com envergadura ainda maior. A mudança acontecerá.

Os pedidos dos manifestantes não foram atendidos. Nenhum... Apenas alguns elementos de agenda foram apressados. Para piorar a questão da copa está machucando demais. Pensou-se que o povo queria só futebol. Isso acabou.

Seria muito bom que estas investigações sejam concluídas rapidamente, para que o momento eleitoral seja ao gosto da população. Para que haja um clima de confraternização, de alegria democrática...
Joel Formiga Acreditar que os black blocs são um movimento popular legítimo, independente do julgamento que se faça dos seus métodos e táticas, seria um ato de fé e uma esperança na capacidade de mobilização política da população da qual não comungo. Infelizmente, são, na minha opinião, jovens alienados comoois demais brasileiros, aliciados por uma remuneração, e no máximo unidos por uma aversão à Polícia e às autoridades. Movimento legítimo seria o dos rolezinhos, interessados em fazer uma farra aqui ou ali, e indiferentes às questões sociais, raciais ou políticas que, por mais que a mídia tenha tentado, não colaram. Legitimamente apolíticos.

Me resta compartilhar das preocupações e do pessimismo do Prof. Moisés - ainda vai piorar muito antes de melhorar. O atual ambiente tem potencial explosivo e destrutivo na hipótese possível se não improvável de uma crise econômica.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

QUERO CHEGAR



Quero chegar em tudo ao cerne,
ao mais oculto.
Buscando a rota, no afazer, no
peito em tumulto.

Ao bojo dos dias de outrora,
ao próprio centro,
justo às raízes e às escoras,
medula adentro.

Sempre agarrando toda a série
de sinas, fatos,
sentir, pensar, amar, viver e
fazer achados.

E escreveria, ah, se o lograsse,
sobre os diversos
dons da paixão, de todo ou quase,
em oito versos.

Seus crimes, fugas e caçadas,
seus atropelos
acidentais, mãos espalmadas
e cotovelos.

Deduziria a essência inata
e as suas leis,
diria a inicial de cada
nome outra vez.

Dispondo cantos em canteiros,
com veias tensas,
veria as tílias: o horto inteiro
posto em seqüência.

E verteria, em verso, aromas
de rosa e menta,
prado, flor, feno e quanto assoma
numa tormenta.

Assim Chopin verteu – portento
vivo – seu mundo,
sítios, jazigos, bosques, dentro
de seus estudos.

O jogo e o suplício do afã de
vencer de fato –
a corda retesa e vibrante

do arco dobrado.

Boris Pasternak