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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Roteiro de Lisboa



Maria Teresa Horta

Vejam meus senhores
é uma cidade
com suas crianças
homens sem idade

É uma cidade
cercada colhida
é uma cidade
uma rapariga

Casas de ocultar
os homens lá dentro
mulheres que se mostram
envoltas no vento

Vejam meus senhores
é uma cidade
com seus monumentos
histórias de braçado

Histórias de braçado
que ensinam na escola
um castelo um rei
mais uma glória
vejam meus senhores
é uma cidade
com suas crianças
homens sem idade

Lá em baixo o Tejo
que é nome do rio
a lamber as armas
com suas colunas

Com seus prédios velhos
um rio lá em baixo
a lamber as pedras
as pernas-guindastes

De onde o seus bateis
partiam diurnos
vejam meus senhores
é uma cidade
de mãos empurradas
no fundo sem idade
com suas crianças
homens dos olhos

De bruços o céu
com seus girassóis
Lisboa é cidade
com heróis de luto

O nosso amargo cancioneiro, Livraria Paisagem, 1973 - Porto, Portugal

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Poema sobre a recusa



Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.


Maria Teresa Horta

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013



"...A pele conta
e seduz
a pele invoca

Com o seu
febril odor
de pérola acesa

Tendo da camélia
a maciez do sexo
amêndoa fendida na beleza..."

Maria Teresa Horta

domingo, 21 de outubro de 2012



que tenhas de mim
o contorno incerto,
acertado, nas linhas do
teu corpo
os dentes nos lóbulos e no pescoço,
os lábios, a língua,
a cobrirem os ombros 

__ Maria Teresa Horta

domingo, 17 de julho de 2011

Poema antigo

O homem que percorro

com as mãos

e a lua que concebo

na altitude

do tédio

Só

o oceano

penso paralelo – ventre

à praia intata

das janelas brancas

com silêncio

ciclamens-astros

entre as vozes que

calaram para sempre

o verbo – bússola

com raiz – grito de relevo

O homem que percorro

com as mãos

a estátua que consinto

a lua que concebo.

Maria Tereza Horta

sábado, 25 de setembro de 2010

Noite

De noite só quero vestido

o tecido dos teus dedos

e sobre os ombros a franja

do final dos cabelos

Sobre os seios quero

a marca

do sinal dos teus dentes

e a vergasta dos teus

lábios

a doer-me sobre o ventre

Nas pernas e no pescoço

quero a pressão mais

ardente

e da saliva o chicote

da tua língua dormente.

Maria Teresa Horta

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O corpo, dois corpos

o corpo da poesia



Os ombros

os seios

o ventre que sequestra



entre as pernas fechadas

a vagina

com a sua longa boca entreaberta



Pensar do corpo

o corpo da poesia



Mais os dedos do que as mãos

sobre as arestas

Mais as fendas do que o liso



Mais a ruga

Mais a ruga das coxas

e das pernas



Depois vêm os dentes e a língua

a descer no trilho brando do umbigo

bebendo o sal do suor da pele

e o fermento de um doce que não digo



Escrever do corpo

o corpo da poesia



Os pulsos tão febris

a nuca

e a garganta



O silêncio de uns olhos

que por certo queriam

ver bem mais longe do que o pubis

deixa

Maria Teresa Horta

domingo, 22 de agosto de 2010

Um Toque azul

Eis o centro do corpo

o nosso centro
onde os dedos escorregam devagar
e logo tornam onde nesse
centro
os dedos esfregam – correm
e voltam sem cessar


e então são os meus
já os teus dedos


e são meus dedos
já a tua boca


que vai sorvendo os lábios
dessa boca
que manipulo – conduzo
pensando em tua boca



Ardencia funda
planta em movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde


E todo o corpo
é esse movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
alando o grito nos pulmões da tarde



E todo o corpo
é esse movimento
em torno
em volta
no centro desses lábios


que a febre toma
engrossa
e vai cedendo a pouco e pouco
nos dedos e na palma
desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

é rede a tua língua
em sua teia
é vicio as palavras
com que falas



a trégua
a entrega
o disfarce

e lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes


desperta-me de noite
com teu corpo tiras-me do sono
onde resvalo


e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vai descoblindo vales

Maria Tereza Horta