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sábado, 10 de janeiro de 2015

O ofício de viver


Vou sempre além de mim mesmo
em teu dorso, ó verso.
O que não sou nasce em mim
e, máscara mais verdadeira
do que o rosto, toma conta
de meus símbolos terrestres.
Imaginação! teu véu
envolve humildes objetos
que na sombra resplandecem.
Vestíbulo do informulável,
poesia, és como a carne,
atrás de ti é que existes.
E as palavras são moedas.
Com elas, tudo compramos,
a árvore que nasce no espaço
e o mar que não escutamos,
formas tangíveis de um corpo
e a terra em que pisamos.
Se inventar é o meu destino,
invento e invento-me. Canto.

- Lêdo Ivo, in "Poesia Completa", 2004.


http://www.elfikurten.com.br/…/ledo-ivo-uma-aventura-poetic…

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O ofício de viver


Vou sempre além de mim mesmo
em teu dorso, ó verso.
O que não sou nasce em mim
e, máscara mais verdadeira
do que o rosto, toma conta
de meus símbolos terrestres.
Imaginação! teu véu
envolve humildes objetos
que na sombra resplandecem.
Vestíbulo do informulável,
poesia, és como a carne,
atrás de ti é que existes.
E as palavras são moedas.
Com elas, tudo compramos,
a árvore que nasce no espaço
e o mar que não escutamos,
formas tangíveis de um corpo
e a terra em que pisamos.
Se inventar é o meu destino,
invento e invento-me. Canto.

- Lêdo Ivo, in "Poesia Completa", 2004.

As Iluminações


Desabo em ti como um bando de pássaros.
E tudo é amor, é magia, é cabala.
Teu corpo é belo como a luz da terra
na divisão perfeita do equinócio.
Soma do céu gasto entre dois hangares,
és a altura de tudo e serpenteias
no fabuloso chão esponsálício.
Muda-se a noite em dia porque existes,
feminina e total entre os meus braços,
como dois mundos gêmeos num só astro.

- Lêdo Ivo, in "Um Brasileiro em Paris e O Rei da Europa", 1955.



terça-feira, 4 de março de 2014

Canto


A beleza não aprende a ser bela
e vive de ignorar
que o tempo a espreita sem a ver.

Antigamente nossos pais nos levavam para ver no campo
a madureza da fruta.
E no seixo que jogávamos no meio do rio,
cristal de impiedade, se espelhava a vida.

A beleza nada aprende
e ser é o seu segredo
— se você acender a lâmpada da sala,
até a varanda ficará clareada.

A beleza não aprende a morrer.

Não nos comunicamos com os corpos,
nossa parada é jogada com as almas.

As cortinas esvoaçam, nutrindo-se de noroeste
e as formigas preferem jantar os mortos.

A beleza quer sempre ficar acordada.

Sempre evitamos o conforto dos abismos.
Por isso são brancas as mortalhas
com que nos cobrimos na hora de dormir.

A beleza não concorda em morrer
e morre
como os antigos deuses, Ágata, que exaltaram a vida,
como os modernos deuses que insistem em apregoar a conveniência da morte.


- Lêdo Ivo, in "Poesia Completa", 2004.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

MINHA PÁTRIA


Minha pátria não é a língua portuguesa.
Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
São os caranguejos que correm na lama dos mangues
e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando sonho.
Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas carcomidas,
os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar,
e o céu encurvado pelas constelações.
Minha pátria são os apitos dos navios
e o farol no alto da colina.
Minha pátria é a mão do mendigo na manhã radiosa.
São os estaleiros apodrecidos
e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos
[e impaludados não param de tossir e tremer nas noites frias
e o cheiro de açúcar nos armazéns portuários
e as tainhas que se debatem nas redes dos pescadores
e as résteas de cebola enrodilhadas na treva
e a chuva que cai sobre os currais de peixe.
A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria.
Nenhuma língua enganosa é a pátria.
Ela serve apenas para que eu celebre a minha grande e pobre pátria muda,
minha pátria disentérica e desdentada, sem gramática e sem dicionário,
minha pátria sem língua e sem palavras.


LÊDO IVO

sábado, 30 de novembro de 2013

O ofício de viver

O ofício de viver
Vou sempre além de mim mesmo
em teu dorso, ó verso.
O que não sou nasce em mim
e, máscara mais verdadeira
do que o rosto, toma conta
de meus símbolos terrestres.
Imaginação! teu véu
envolve humildes objetos
que na sombra resplandecem.
Vestíbulo do informulável,
poesia, és como a carne,
atrás de ti é que existes.
E as palavras são moedas.
Com elas, tudo compramos,
a árvore que nasce no espaço
e o mar que não escutamos,
formas tangíveis de um corpo
e a terra em que pisamos.

Se inventar é o meu destino,
invento e invento-me. Canto.

- Lêdo Ivo, in "Poesia Completa", 2004.
http://www.elfikurten.com.br/2013/04/ledo-ivo-uma-aventura-poetica.html

sábado, 23 de novembro de 2013

Quem é Lêdo Ivo?


"- É muito difícil saber isso. Você é você e você é aquilo que você pensa que é. E você é o que os outros pensam que você é. Então, você se faz com esta dupla imagem: uma real e outra imaginária. Embora ninguém saiba onde começa a realidade ou termina o imaginário. O filósofo alemão Schopenhauer (1788-1860) diz que o mundo é a representação que a pessoa tem dele. Este é o problema. Vivemos hoje numa época de incertezas. Guerras absurdas. Fome. Crises terríveis. Retrocessos. Um mundo cada vez mais kafkaniano como se a própria vida real -a vida acordada- fosse o pesadelo para milhões de pessoas. Talvez o próprio mundo em que vivamos seja hoje um mundo virtual no qual a gente não tem como sair. Esta é a minha visão. E dentro deste mundo eu não sei o que sou, nem quem sou."

- Lêdo Ivo, em 'entrevista' a Jairo Máximo/EuroLantinNews.
http://www.elfikurten.com.br/2013/04/ledo-ivo-uma-aventura-poetica.html

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A NEVE E O AMOR

Neste dia de calor ardente, estou esperando a neve.
Sempre estive à sua espera.
Quando menino, li Recordações da Casa dos Mortos
e vi a neve caindo na estepe siberiana
e no casaco roto de Fiódor Dostoiévski.
Amo a neve porque ela não separa o dia da noite
nem afasta o céu das aflições da terra.
Une o que está separado:
os passos dos homens condenados ao gelo escurecido
e os suspiros de amor que se perdem no ar.
É necessário ter um ouvido muito afiado
para ouvir a música da neve caindo, algo quase silencioso
como o roçar da asa de um anjo, caso os anjos existissem,
ou o estertor de um pássaro.
Não se deve esperar a neve como se espera o amor.
São coisas diferentes. Basta abrirmos os olhos para ver a neve
cair no campo desolado. E ela cai em nós, a neve branca e fria
que não queima como o fogo do amor.
Para ver o amor os nossos olhos não bastam,
nem os ouvidos, nem aboca, nem mesmo os nossos corações
que batem na escuridão com o mesmo rumor
da neve caindo nas estepes
e nos telhados das cabanas escuras
e no casaco roto de Fiódor Dostoiévski.
Para ver o amor, nada basta. E tanto o frio do inverno como
[o calor escaldante
o afastam de nós, de nossos braços abertos
e de nossos corações atormentados.
Fiel à minha infância, prefiro ver a neve
que une o céu e a terra, a noite e o dia,
a ser a presa indefesa do amor,
o amor que não é branco nem puro nem frio como a neve.

Lêdo Ivo | Mormaço

sábado, 20 de julho de 2013

O coração da liberdade


Estive, estou e estarei
no coração da realidade,
perto da mulher que dorme,
junto do homem que morre,
próximo à criança que chora.

Para que eu cante, os dias são momentâneos
e o céu é o anúncio de um pássaro.
Não me afastarei daqui,
da vida que é minha pátria,
e passa como as águias no sul
e permanece como os vulcões extintos
que um dia vomitam sono e primavera.

Minha canção é como a veia aberta
ou uma raiz central dentro da terra.
Não me afastarei daqui, não trairei jamais
o centro maduro de todos os meus dias.
Somente aqui os minutos mudam como praias
e o dia é um lugar de encontro, como as praças,
e o cristal pesa como a beleza
no chão que cheira à criação do mundo.
Adeus, hermetismo, país de mortes fingidas.
Bebo a hora que é água; refugio-me na estância
quando a aurora é mistura de orvalho e de esterco,
e estou livre, sinto-me final, definitivo
como o tempo dentro do tempo, e a luz dentro da luz
e todas as coisas que são o centro, o coração
da realidade que escorre como lágrimas.

- Lêdo Ivo, in "Linguagem", 1951.


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Claridade



A minha claridade é noite escura,
sol negro desviado por um muro
branco de cal, clarão que apaga o sol,
luz que me ofusca, sendo treva e luz.

Às estrelas reclamo que iluminem
o papel branco do meu longo dia,
o grafito que suja o alvo muro
do sol que, sendo noite, me alumia.

Quanto mais luz procuro, mais obscuro
me torno em pleno dia, e mais me assombram
as sombras que se juntam no arrebol.

Recorro à noite se quero mostrar
as frutas expostas do meu ser.
E se quero esconder-me, busco o sol.

- Lêdo Ivo, in "Crepúsculo Civil", 1990.


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Soneto de Abril



Agora que é abril, e o mar se ausenta,
secando-se em si mesmo como um pranto,
vejo que o amor que te dedico aumenta
seguindo a trilha de meu próprio espanto.
Em mim, o teu espírito apresenta
todas as sugestões de um doce encanto
que em minha fonte não se dessedenta
por não ser fonte d'água, mas de canto.
Agora que é abril, e vão morrer
as formosas canções dos outros meses,
assim te quero, mesmo que te escondas:
amar-te uma só vez todas as vezes
em que sou carne e gesto, e fenecer
como uma voz chamada pelas ondas.

- Lêdo Ivo, in "Acontecimento do Soneto",1948.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O BARULHO DO MAR

Na tarde de domingo, volto ao cemitério velho de Maceió

onde os meus mortos jamais terminam de morrer

de suas mortes tuberculosas e cancerosas

que atravessam a maresia e as constelações

com as suas tosses e gemidos e imprecações

e escarros escuros

e em silêncio os intimo a voltar a esta vida

em que desde a infância eles viviam lentamente

com a amargura dos dias longos colada às suas existências monótonas

e o medo de morrer dos que assistem ao cair da tarde

quando, após a chuva, as tanajuras se espalham

no chão maternal de Alagoas e não podem mais voar.

Digo aos meus mortos: Levantai-vos, voltai a este dia inacabado

que precisa de vós, de vossa tosse persistente e de vossos gestos

enfadados e de vossos passos nas ruas tortas de Maceió. Retornai aos sonhos insípidos

e às janelas abertas sobre o mormaço.



Na tarde de domingo, entre os mausoléus

que parecem suspensos pelo vento

no ar azul

o silêncio dos mortos me diz que eles não voltarão.

Não adianta chamá-los. No lugar em que estão, não há retorno.

Apenas nomes em lápides. Apenas nomes. E o barulho do mar.



© 2009, Lêdo Ivo

From: La Aldea de Sal

Publisher: Calambur, Madrid, 2009