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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Acordo Sykes-Picot na origem do caos no Oriente Médio


Divisão entre franceses e britânicos de territórios do antigo Império Otomano firmada há cem anos, durante a Primeira Guerra Mundial, gerou tensões e conflitos que só se agravaram com a passagem das décadas.

Os cem anos do acordo Sykes-Picot

Há exatos cem anos, em 16 de maio de 1916, em plena Primeira Guerra Mundial, a França e o Reino Unido partilharam entre si vastas áreas do Império Otomano, já antecipando a própria vitória e sem qualquer consulta aos habitantes da região. O tratado secreto dessa partilha ficou conhecido como Sykes-Picot, em alusão aos diplomatas que o negociaram, o inglês Mark Sykes e o francês François Georges-Picot.

Aos franceses caberia um território do sudeste da atual Turquia até o Líbano, passando pelo norte do Iraque e pela Síria. Os britânicos regeriam o sul e o centro do Iraque. As terras contidas entre esses dois territórios – englobando a atual Síria, a Jordânia, o Iraque ocidental e o nordeste da Península Árabe – seriam um reino árabe sob mandato anglo-francês.

Também a Alemanha desempenhou um papel pouco louvável nessa negociata. Aliada do Império Otomano, ela queria enfraquecer por meios militares os seus inimigos na Primeira Guerra. Juntamente com o califa de Istambul, autoridade religiosa suprema dos sunitas, os alemães conclamaram os árabes à jihad, a "guerra santa" contra os britânicos.

Estes, em contrapartida, selaram uma aliança com o xarife Hussein bin Ali, segunda maior autoridade religiosa depois do califa, na qualidade de guardião das cidades sagradas de Meca e Medina, na atual Arábia Saudita.

Domínio anglo-francês sob fachada árabe

Em outubro de 1915, Henry McMahon, alto comissário da Grã-Bretanha no Egito, fez uma oferta sedutora ao xarife Hussein: se os árabes apoiassem seu país, este os ajudaria a fundar seu próprio reino. "A Grã-Bretanha está pronta a reconhecer e apoiar a independência dos árabes dentro dos territórios nos limites e fronteiras propostos pelo xarife de Meca", declarava McMahon numa carta.

A aliança foi firmada. O líder dos árabes era o filho do xarife, Faiçal bin Hussein. Apoiado pelo agente britânico Thomas Edward Lawrence – conhecido como "Lawrence da Arábia" – ele conseguiu forçar a retirada dos otomanos.

Após o fim da Primeira Guerra, a nova ordem geopolítica no Oriente Médio foi negociada na Conferência de Paz de Paris, em 1919. Engajado pela causa árabe, Faiçal comentaria: "Estou confiante de que as grandes potências colocarão o bem-estar do povo árabe acima de seus próprios interesses materiais."
No entanto, ele se enganava. A França e a Grã-Bretanha se aferraram à divisão territorial já acordada: deveria haver Estados árabes, sim, mas sob influência anglo-francesa.

Como comentou o então ministro do Exterior britânico, George Curzon, a questão era ocultar os interesses econômicos de seu país atrás de uma "fachada árabe", "governada e administrada sob direção britânica, controlada por um maometano nato e, se possível, por uma equipe árabe".


 Mapa original do acordo secreto Sykes-Picot


Novos Estados, futuros conflitos

A importância dos pactos firmados durante a Conferência de Paris foi abrangente e de longo alcance. Além de resultar na fundação da Síria e do Iraque, um mandato da Liga das Nações ratificado em 1923 confirmava a criação de um novo Estado, o Líbano.
Outro mandato previa "o estabelecimento de um Lar Nacional para o povo judaico na Palestina", base para o futuro Estado de Israel. Em Paris, Faiçal declarara: "Eu asseguro que nós, árabes, não guardamos qualquer ressentimento étnico ou religioso contra os judeus, como o que infelizmente predomina em outras partes do mundo." Contudo, essa boa vontade logo fracassaria diante de uma realidade cruel.

Também em 1923, a Grã-Bretanha separou a Transjordânia da Palestina, criando as bases para a atual Jordânia. Já em 1899 os ingleses haviam transformado o Kuwait em seu protetorado. Após o fim da Primeira Guerra, o declararam "emirado independente sob proteção britânica".

Reflexos atuais

O resultado final de tais reviravoltas geopolíticas na região foi a série de guerras e conflitos que perdura até hoje: a crescente tensão entre israelenses e palestinos, ocasionalmente explodindo em guerras; a guerra civil libanesa de 1975 a 1990; a Guerra do Golfo; os choques, igualmente com características bélicas, nos territórios curdos da Turquia e do Iraque, mais tarde também na Síria.

Tudo isso culminou na fatal invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003. A má gestão que se seguiu endureceu os fronts de caráter religioso, redundando no nascimento da organização terrorista "Estado Islâmico" (EI). Além de ocupar territórios iraquianos, o EI se alastrou para a Síria, dilacerada pela guerra civil.

A rigor, nem todos esses desdobramentos remontam exclusivamente à divisão do Oriente Médio no início da década de 1920. No entanto, nessa época foi lançado o fundamento de uma nova ordem regional que se mostrou solo fértil para tensões geopolíticas, revoltas e guerras.



terça-feira, 24 de outubro de 2017

1956: Rebelião popular na Hungria


Em 23 de outubro de 1956 irrompeu na Hungria a rebelião popular contra o regime stalinista. O reformista Imre Nagy tornou-se primeiro-ministro, iniciou mudanças no país e anunciou a retirada do Pacto de Varsóvia.

 Integrantes do protesto que levou à rebelião na Hungria (d.) passam por tanque soviético no centro de Budapeste

A rebelião na Hungria em 1956

No início de 1956, o presidente soviético Nikita Khruchov havia condenado os métodos da era Stalin, reaquecendo as esperanças de mais autonomia nos países-satélites. Em solidariedade aos trabalhadores poloneses que protestavam nas ruas, os universitários húngaros derrubaram uma estátua de Josef Stalin, numa manifestação em 23 de outubro. O protesto estudantil culminou em rebelião popular contra o domínio soviético.

Até partes das Forças Armadas e da polícia húngara participaram dos violentos protestos. Cem mil manifestantes invadiram a central do Partido Comunista, exigindo eleições livres e o fim do stalinismo. Até aí, as tropas soviéticas estacionadas em Budapeste apenas observavam os acontecimentos.

Retorno do reformista Imre Nagy

Por simbolizar "um novo rumo" do socialismo em Budapeste, o reformista Imre Nagy – que já fora primeiro-ministro de 1953 a 1955 – foi pouco a pouco conquistando o controle da população rebelada, assumindo novamente a chefia do governo.

No começo de novembro, Nagy abriu as fronteiras, introduziu o pluripartidarismo, extinguiu a censura e anunciou a retirada da Hungria do Pacto de Varsóvia, a aliança militar dos comunistas durante a Guerra Fria. Nesse momento, as tropas da repressão soviética já estavam a caminho de Budapeste. Moscou de forma nenhuma toleraria a escapada de um de seus satélites.

Resistência dentro do próprio governo

János Kádár, primeiro-secretário do Partido Comunista e membro do gabinete de Nagy, revogou os poderes do primeiro-ministro e começou a negociar com Moscou. A resistência contra o Exército Vermelho durou dois dias e custou a vida de 3 mil pessoas. Em vão, Nagy invocou o apoio das Nações Unidas, mas a comunidade internacional estava então voltada para a crise no Canal de Suez.
No dia 7 de novembro, Kádár retornou a Budapeste como novo chefe de governo. Nagy e alguns assessores e ministros refugiaram-se na embaixada da então Iugoslávia, onde passaram três semanas cercados por tanques soviéticos. Eles só deixaram a embaixada porque Kádár lhes prometeu impunidade. Promessa falsa, porque Nagy foi preso pelo KGB e deportado para a Romênia por negar-se a renunciar ao cargo que ocupava em Budapeste.

Reabilitação tardia de Nagy

Num processo sumário, ele e alguns ministros foram condenados e executados em 16 de junho de 1958. Para que ninguém o venerasse na sepultura, ele e outras 2 mil pessoas foram enterrados em vala comum. Imre Nagy só foi reabilitado e sepultado numa cerimônia oficial em 1989, após o fim do regime Kádár.

O longo governo de Kádár trouxe estabilidade e crescimento à Hungria. A liberalização da economia a tornou precursora da Perestroika, o programa de reformas adotado em meados dos anos 1980 pelo presidente soviético Mikhail Gorbatchov. (rw)



1958: Execução do então primeiro-ministro húngaro Imre Nagy
No dia 16 de junho de 1958, foi executado o ex-primeiro-ministro da Hungria, Imre Nagy. 

Autoria
Assuntos relacionados Zsa Zsa Gabor, Puskas, Massacre em Manaus

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sábado, 16 de setembro de 2017

"No 150º aniversário de 'O Capital', ainda vale a pena ler Marx"


Principal obra do filósofo alemão é possivelmente uma das mais citadas mundo afora – mas não necessariamente a mais lida. Em entrevista à DW, jornalista econômico aponta os prós e contras do livro na era da globalização.

 Karl Marx

Karl Marx nasceu em Trier, na Alemanha, em 1818

Há exatos 150 anos era lançado O capital, de Karl Marx (1818-1883), um obra que hoje tem um status quase mítico. Com base em seu conteúdo – ou pelo menos em seu nome – travaram-se revoluções e ergueram-se sistemas político-sociais. Ainda hoje, o gigantesco retrato de Marx ocupa lugar de honra na principal praça de Pequim, ao lado de outros pensadores do comunismo. Mas que relevância ainda podem ter as ideias marxistas no mundo contemporâneo?

O jornalista alemão Bernd Ziesemer, autor do livro Karl Marx für jedermann (Karl Marx para todo o mundo), publicado em 2012, defende a tese que Marx pode ser visto como teórico pioneiro da globalização.
Em entrevista à DW, Ziesemer, que foi editor-chefe do jornal econômico Handelsblatt, considera, porém, que O capital se baseia num erro de raciocínio e não é necessariamente a obra marxista de leitura obrigatória.

DW: Em 2012 o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) publicou uma série com o fim de aproximar grandes economistas do cidadão comum. Quem ficou encarregado de Karl Marx foi justamente o senhor, um defensor do livre-mercado. Como isso ocorreu?

Bernd Ziesemer: "Há trechos em 'O Capital' em que Marx diz que vitória mundial do capitalismo fará desaparecer velhas tradições e resquícios feudalistas"

Bernd Ziesemer: Há dois motivos: na minha juventude eu não era liberal econômico, mas sim comunista, e na época lia Karl Marx com os óculos ideológicos de um esquerdista. Mais tarde, de fato, me desenvolvi como liberal e conservador e sempre tive a intenção de me ocupar dos livros que havia lido na juventude. E foi o que eu fiz. Na época, disse ao FAZ: "Provavelmente sou a única pessoa na Alemanha que leu as principais obras de Marx duas vezes."

Na China, aprendi na disciplina escolar Economia Política que o operário vende sua força de trabalho ao capitalista e recebe um salário em troca. A diferença entre o valor que ele gerou e o seu ordenado é a mais-valia. O capitalista tenta manter o salário tão baixo quanto possível, a fim de maximizar a mais-valia. Em algum momento, essa exploração fica tão insuportável que os operários se rebelam e derrubam o capitalismo. Isso vale como um resumo aproximado de O capital?

Pode-se dizer que sim, embora O capital seja uma obra incrivelmente ramificada. Mas a tese central é, de fato, que os trabalhadores são explorados, que a única saída é a revolução. Quando Karl Marx escreveu O capital, ele tinha duas metas: queria contradizer a economia clássica num ponto central, e queria dar ao movimento operário uma base teórica para a derrubada do capitalismo.

Durante toda a vida, Marx de fato esperou o colapso do capitalismo e profetizou a vitória do comunismo. Nenhum dos dois ocorreu. Qual foi seu erro de raciocínio?

Acho que toda a teoria dele se baseia num erro de raciocínio. Ele viu na mão de obra como a única fonte de valia, deixando de perceber que o capitalismo não funciona através da exploração dos trabalhadores, mas sim de um constante avanço tecnológico. No cerne de sua teoria, ele subestimou as outras fontes de riqueza, ou seja, a inovação, a iniciativa empresarial e o progresso tecnológico.


É interessante que há trechos em O Capital, ou também no Manifesto comunista, em que ele diz que a vitória mundial do capitalismo fará desaparecer todas as velhas tradições e resquícios feudalistas. Por isso avancei a tese que podemos entender Karl Marx como primeiro verdadeiro teórico da globalização.
Karl Marx teria sido melhor economista se não se visse um revolucionário praticante?

Ele praticamente viveu três vidas. A mais importante delas era, para ele, a de revolucionário. Em segundo lugar, foi economista, e em terceiro, filósofo. Durante o trabalho em O capital, que se prolongou por mais de dez anos, em algum momento ele notou que chegara a um beco sem saída, que não conseguia dar o grande lance. Não se deve esquecer que O capital foi planejado em três volumes, mas só o primeiro foi publicado durante a vida do autor. O segundo volume, Friedrich Engels conseguiu até certo ponto concluir, com base nos esboços preliminares. O terceiro é, na verdade, só um aglomerado de pensamentos formulados pela metade. Nesse sentido, não existe uma obra econômica conclusa de Karl Marx.

É verdade que Marx não tinha nem o dinheiro para enviar a primeira parte de O Capital ao editor pelo correio?

Correto. Em cartas a Engels, ele escreveu diversas vezes: o açougueiro está à porta e quer que as contas sejam pagas, e nós não temos um só shilling em casa. E se não me enviares dinheiro imediatamente, vou ter que ir para a prisão. Também ao escrever O capital, ele tinha bem pouco dinheiro à disposição. Sua situação econômica só mudou mais tarde, quando Engels recebeu a herança da família e praticamente concedeu uma espécie de pensão a Marx. Nos últimos anos de vida, Marx podia contar com um rendimento relativamente garantido, mas no meio tempo houve essas fases da mais amarga pobreza.


Primeira edição de "O capital", escrito numa época de penúria na vida de Marx

Ele certamente não poderia imaginar que, 150 anos depois da publicação de O capital, ainda seria reverenciado num país bem distante. O retrato de Marx continua pendurado na Praça da Paz Celestial de Pequim. Como o senhor vê o papel dele na China?

Acho que o marxismo chinês se desenvolveu, em grande parte, sem conhecimento preciso da obra de Karl Marx. A meu ver, nos primórdios do Partido Comunista da China, muitas das ideias marxistas não tiveram a menor influência; parte de suas obras nem havia sido traduzida. Minha impressão é que existe uma veneração a Karl Marx na China, mas que ela não se baseia num conhecimento difundido da obra dele.
Estudantes de economia devem ler O capital? Quão atual é Karl Marx?


Não é preciso ler Marx para ser um bom economista. A maioria de suas teorias ou ficou superada com o passar do tempo ou já era equivocada desde o início. No entanto ainda vale a pena ler Karl Marx, pois há um grande número de pensamentos interessantes. Se tem necessariamente que ser O capital, não sei, pois, sobretudo nos primeiros capítulos, é uma leitura bem árida e maçante. Na verdade, eu sempre recomendaria que se leia o Manifesto comunista, que é muito bem escrito e faz parte do cânon da literatura na Alemanha. Portanto eu o recomendaria mais do que O capital.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

1942: Resistência antinazista "Rosa Branca" distribui panfletos




A partir de 27 de junho de 1942, nas caixas de correio de grandes cidades do sul da Alemanha e da Áustria, começaram a ser distribuídos panfletos contra o regime nazista pelo movimento de resistência "Rosa Branca".

 Os irmãos Hans e Sophie Scholl fundaram o movimento de resistência Rosa Branca
Hans e Sophie Scholl, fundadores do movimento de resistência Rosa Branca
O Rosa Branca (Weisse Rose), atuante em Munique e em Hamburgo, foi o movimento de resistência de jovens alemães mais conhecido durante o Terceiro Reich. Seu núcleo era formado por universitários de 21 a 25 anos de idade, entre ele os irmãos Hans e Sophie Scholl, Alexander Schmorell, Willi Graf e Christoph Probst.
Os panfletos, que começaram a ser distribuídos nas caixas de correio de intelectuais dos grandes centros na Baviera e na Áustria, condenavam a resistência passiva contra a guerra e a opressão intelectual pelos nazistas. Os textos revelavam o alto nível cultural de seus redatores e apelavam a valores religiosos.

Nos quatro primeiros panfletos, distribuídos entre 27 de junho e 12 de julho de 1942, foram usados em profusão trechos apocalípticos da Bíblia. Os dois últimos folhetos, entretanto, tiveram um estilo completamente adverso. Em linguagem direta, apresentavam planos concretos para a Alemanha pós-guerra, dirigindo-se a todas as camadas da população.

Primeira derrota chocou a população alemã

A morte de 300 mil alemães na batalha de Stalingrado, em fevereiro de 1943, representou uma reviravolta na Segunda Guerra Mundial. A primeira derrota alemã alimentou a resistência em todas as cidades europeias ocupadas pelos nazistas e ao mesmo tempo chocou a população do país.

Willi Graf, Alexander Schmorell e Hans Scholl passaram a noite pichando Abaixo Hitler e Liberdade nas paredes da universidade e de prédios vizinhos. O grupo Rosa Branca aproveitou a ocasião, publicando um novo panfleto. A estratégia era redigir os textos em máquinas de escrever, copiá-los e enviá-los pelo correio a partir de cidades diferentes.

Descobertos enquanto depositavam suas mensagens nos corredores do prédio principal da Universidade de Munique, os irmãos Hans e Sophie Scholl foram presos pela Gestapo, a polícia política de Hitler.

Junto com Christoph Probst, foram julgados no dia 22 do mesmo mês. Em pouco mais de três horas de julgamento, foram condenados à morte e executados no mesmo dia. Os demais membros do grupo de resistência Rosa Branca de Munique foram executados após julgamentos sumários, entre abril e outubro de 1943.

Mais indignação que ideologia

O objetivo dos panfletos era abalar a confiança dos alemães no Führer, despertar ao menos um mínimo de dúvidas sobre a veracidade da propaganda feita pelo regime e alimentar eventuais células de resistência no próprio povo alemão. O movimento surgiu menos de uma ideologia política e mais da indignação com a forma como os alemães aceitavam o nazismo e a guerra feita em seu nome.

A coragem dos membros do Rosa Branca ficou conhecida em toda a Alemanha ainda no decorrer da Segunda Guerra. O escritor Thomas Mann reconheceu seus méritos publicamente, num pronunciamento transmitido pela BBC no dia 27 de junho de 1943. Reproduções do último panfleto da resistência estudantil, feitas na Inglaterra, foram jogadas pelos aviões britânicos sobre território alemão.

Durante o segundo semestre de 1943, a Gestapo descobriu em Hamburgo um grupo de resistência que divulgava os panfletos do movimento de Munique. Dos 50 participantes, oito universitários foram condenados à morte: Hans Konrad Leipelt, Greta Rothe, Reinhold Meyer, Frederick Gaussenheimer, Käte Leipelt, Elisabeth Lange, Curt Ledien e Margarete Mrosek.


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quinta-feira, 27 de abril de 2017

China ignora 50 anos da Revolução Cultural


Há meio século, tinha início em Pequim o período marcado por levantes estudantis e violenta perseguição política. Governo chinês negligencia data histórica e aperta cerco a discussões sobre o evento nas redes sociais.


A revolução que a China quer esquecer

Nesta segunda-feira (16/05), a mídia chinesa ignorou em grande parte um importante aniversário na história do país, o de 50 anos da Revolução Cultural. Ao mesmo tempo, as autoridades abafavam discussões nas redes sociais sobre um dos capítulos mais violentos da história recente da China.
Já no fim de semana, os censores apertaram o cerco a menções ao aniversário histórico na internet. Nesta segunda-feira, houve apenas algumas poucas referências ao evento.

A Phoenix TV, uma das poucas emissoras particulares com permissão para operar no território chinês, entrevistou pessoas jovens para conhecer suas opiniões sobre a Revolução Cultural, obtendo respostas como "idealismo" e "confusão".

"Grande salto adiante"

Em 16 de maio de 1966, políticos de alto escalão do Partido Comunista se reuniram em Pequim para banir funcionários que haviam caído em desgraça junto ao então líder Mao Tsé-tung e lançar o que ficaria conhecido como Revolução Cultural.

A cúpula produziu um documento que delineava o novo curso do "Grande salto adiante", tomado pelo Partido. Tal curso englobava a mobilização em massa de cidadãos em coletivos dedicados a uma única indústria ou cultivo, como também um rompimento com os costumes tradicionais chineses por meio da destruição dos chamados Quatros Velhos: velhas ideias, velhos costumes, velhos hábitos e velha cultura.

Catástrofe

Essa política durou uma década, até a morte de Mao, em 1976. Devido às violentas perseguições, à fome e ao deslocamento de jovens bem qualificados para regiões rurais, o período da Revolução Cultural foi classificado posteriormente como uma "catástrofe".

Na sequência de citações do Pequeno livro vermelho de Mao, facções rivais de grupos paramilitares estudantis, conhecidos como Guardas Vermelhos, começaram a lutar entre si em torno da pureza ideológica, criando um clima de tal medo que muitos se recusaram a se opor a eles.

O Partido Comunista reconheceu a natureza desastrosa da Revolução Cultural, mas tentou minimizar o máximo possível a responsabilidade de Mao, cujo retrato em grande formato ainda se encontra pendurado na célebre Praça da Paz Celestial, em Pequim.





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terça-feira, 11 de abril de 2017

Provérbios alemães

Dummheit und Stolz wachsen auf einem Holz
Na tradução literal, significa "Estupidez e orgulho crescem da mesma madeira". Explicando: pessoas arrogantes, que acreditam ser mais que outras, desconhecendo os próprios limites, cometem uma estupidez. O falso orgulho e a burrice são, no fundo, a mesma coisa. E, pelo fato de rimar, a expressão tem um sentido especial em alemão.

Wer schön sein will, muss leiden"
Em tradução literal, o ditado alemão significa "quem quer ser belo tem que sofrer". Muitas vezes não se está contente com o que se tem, e tanto homens quanto mulheres se submetem a situações desconfortáveis, seja fisicamente ou financeiramente, para atingir seus ideais de beleza.

Der Ton macht die Musik
Em tradução literal, "O tom é que faz a música". Não importa o que você tem a dizer, diga-o com respeito. Se, por exemplo, o novo perfume de uma amiga não lhe agrada, não diga a ela que ele fede. O resultado da conversa será muito mais positivo se você disser de forma amistosa que para seu gosto ele é muito intenso.

Die Ratten verlassen das sinkende Schiff
Já nos tempos dos grandes navegadores, sabia-se que, "quando um navio está afundando, os ratos são os primeiros a pular fora". Isso levou à conclusão de que os ratos podem prever desgraças. Hoje em dia, pessoas que só se preocupam com elas mesmas são as primeiras a deixar a empresa ou uma equipe quando as coisas começam a ficar ruins.

Ist die Katze aus dem Haus, tanzen die Mäuse auf dem Tisch
Os provérbios muitas vezes servem para ensinar crianças. Este, não! Quando pais ou professores não estão próximos, as crianças aproveitam para fazer travessuras. Claro que isso acontece também com adultos. Este provérbio é tão conhecido, que existe em vários idiomas, inclusive no Brasil: "Quando o gato está fora, os ratos dançam sobre a mesa".

Der Fisch stinkt vom Kopf her
Quando um peixe morre, a cabeça dele é a primeira parte a se decompor, e a primeira a cheirar mal. O provérbio "o peixe começa a feder pela cabeça" geralmente é associado a empresas e partidos. Quando o chefe faz um mau trabalho, é de se esperar que seus funcionários ou correligionários não sejam melhores.

Man sägt nicht den Ast ab, auf dem man sitzt
Oh, nós, humanos! Se damos um tiro no próprio pé, cuspimos na mão que nos alimenta e afundamos o próprio barco, por que não também serrar o galho em que estamos sentados? Ou seja, há muitas maneiras de prejudicar os próprios interesses. Esse provérbio serve de advertência. Literalmente, ele diz "não se corta o galho em que se está sentado".

Reden ist Silber, Schweigen ist Gold
Já na Bíblia, no Talmude e no Corão há lições sobre esta sabedoria. "Atenue sua voz, pois a mais repulsiva das vozes é a do burro." "Se as palavras são de prata, o silêncio é de ouro". Ou seja, é melhor se calar do que falar besteira.

Mit Speck fängt man Mäuse
Literalmente, o provérbio significa: "Com toucinho se pegam camundongos." A ideia é que, se você quer que alguém faça algo por você, ofereça o incentivo adequado. Mas cuidado com armadilhas, como a do toucinho para atrair para a ratoeira. Este provérbio costuma ser usado no ambiente empresarial, onde empregadores tentam aumentar a produtividade ao oferecer "iscas" aos funcionários.

Eine Hand wäscht die andere
Uma mão lava a outra. Ou seja, claro que posso ajudar você, mas quando eu precisar, espero o mesmo de você. Um ditado muito conhecido no Brasil, e que ganha atualidade com os escândalos de corrupção. Em português, este provérbio tem até um complemento: "E as duas juntas lavam o rosto."

Lieber den Spatz in der Hand, als die Taube auf dem Dach
"Melhor um pardal na mão do que um pombo no telhado." As pessoas comeram pombos por milênios, mas em caso de necessidade, um pardal também servia. Com isso em mente, este provérbio alemão alerta contra a ganância. O ditado vem da expressão em latim "um pássaro capturado é melhor do que mil no gramado". Hoje, os falantes do português diriam: "melhor um pássaro na mão que dois voando".

Wer den Pfennig nicht ehrt, ist des Talers nicht wert
"Quem não preza o Pfennig não merece o táler." Na Idade Média, 360 Pfennig valia um táler. Essa antiga moeda alemã é considerada a "mãe" do dólar. Para dar valor ao o táler, era preciso antes aprender o valor do Pfennig, diz o provérbio. Em português, pode-se dizer que "quem nasceu para tostão nunca chega a dez réis" lembra o dito popular alemão.

In der Not frisst der Teufel Fliegen
"Em necessidade, o diabo come até mosca." De acordo com esse provérbio alemão do século 19, o diabo comeria esses insetos como último recurso para sobreviver. Mas o ditado tem um significado mais profundo. Belzebu, um dos nomes de satã, quer dizer "senhor das moscas", ou seja, em caso de emergência, lúcifer não comeria somente moscas, mas também seus semelhantes.

Ein gutes Gewissen ist ein sanftes Ruhekissen
"Uma consciência livre é um travesseiro macio" concorre entre os ditos populares mais simpáticos da Alemanha. Não faça o mal, ele sugere, e você dormirá em paz. Palavras realmente sábias – embora sejam um fraco consolo para quem sofre de insônia crônica.

Wer im Glashaus sitzt, soll nicht mit Steinen werfen
Consta que "Quem tem telhado de vidro não atira pedras no do vizinho" tem origem na Alemanha, embora não se saibam mais detalhes. O ditado evoca a frase bíblica "Aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra", pois sugere que, da mesma forma como, no fundo, ninguém é sem pecado, de uma maneira ou de outra todos vivemos em casas com telhado de vidro.

Viele Köche verderben den Brei
"Cozinheiros demais estragam o mingau" é a tradução literal deste provérbio. A ideia é que, quando há gente demais dando opiniões ou ordens, e ninguém para concentrar e filtrar os esforços, o resultado é um fiasco. Enfim, uma apologia do trabalho organizado e da hierarquia, como no brasileiro "Muito cacique para pouco índio".

Kleider machen Leute
Assim como "O hábito faz o monge", trata-se de uma variante do velho ditado latino "Vestis virus reddit" (As roupas fazem o homem). Até hoje, a ideia é martelada em outdoors e revistas de moda para justificar a importância – e o preço – da aparência exterior. Uma variação genial é atribuída ao espirituoso autor americano Mark Twain: "Gente nua tem pouca ou nenhuma influência na sociedade".

Lügen haben kurze Beine
A advertência de que "A mentira tem pernas curtas" e, portanto, nunca vai muito longe, parece ser quase universal. Uma variante africana reza: "Você pode comer uma vez com uma mentira, mas não duas". Também sábia é a inversão de perspectiva contida no dito popular inglês "Engana-me uma vez, vergonha para ti; engana-me duas, vergonha para mim".

Auch ein blindes Huhn findet mal ein Korn
Datado de, no mínimo, 400 anos atrás, o dito "Até uma galinha cega acaba achando um grão de milho" tem sentido ambivalente – e também é empregado dessa forma. Pode significar que até o ser mais incapaz pode obter um sucesso – por sorte ou por pura teimosia, porém sem mérito real. Ou ser entendido como um incentivo aos menos capacitados, para que não percam a esperança e continuem persistindo.

Jeder ist sein Glückes Schmied
"Cada um é o forjador da própria sorte" é um estímulo à autodeterminação que lembra a noção do "self-made man" americano. O provérbio é uma variação de "Quisque faber suae fortunae", registrado pelo cônsul romano Ápio Cláudio Cego, por volta do ano 300 a.C.. Numa ironia histórica, o biógrafo Lívio atribuiu a cegueira de Ápio a uma praga – rogada por outra pessoa, naturalmente.

Gelegenheit macht Diebe
"A ocasião faz o ladrão" – também na Alemanha. Senão, e o escândalo da Volks? E o da DFB? Outra versão dessa noção é a famigerada "lei de Gérson" (o jogador): "O importante é levar vantagem". O provérbio resume uma tendência humana tão lamentável como incorrigível, por isso nunca perde a atualidade. E, como "Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão", a enxurrada de escândalos nunca terá fim.

Der Apfel fällt nicht weit vom Stamm
Semelhante a "Filho de peixe, peixinho é", "A maçã não cai longe do tronco" é outro desses provérbios que convidam a um uso ambivalente ou irônico. A ideia é que qualidades – boas ou más – são herdadas das gerações anteriores. Portanto, atenção: se for dito como elogio, ótimo. Se for insulto, é extensivo ao pai, à mãe e a sabe-se lá quantas gerações.

Wie man in den Wald hineinruft, so schallt es heraus
"Como se grita na floresta, assim virá o eco" seria a tradução quase literal desse ditado. Ou seja: o que se coloca no mundo retorna da mesma forma, para o bem ou para o mal. Se o input for negativo, portanto, é bom ter em mente que "Quem semeia vento, colhe tempestade".

Morgenstund hat Gold im Mund
Os alemães e suas rimas, desta vez para dar uma má notícia aos dorminhocos: "A manhã tem ouro na boca". Trata-se de um ditado latino, também difundido na variante "Aurora musis amica" – A aurora é a amiga das musas. De forma menos poética, "Deus ajuda quem cedo madruga" igualmente encoraja a diligência matinal. Ou, menos apetitoso: "O pássaro madrugador é que pega a minhoca".

Fonte : Deutsche Welle

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

"É preciso ler 'Minha luta', de Hitler", diz sociólogo


Leilão fracassado de exemplares autografados traz à tona na Alemanha debate sobre proibição do panfleto-biografia do ditador nazista. DW entrevista especialista sobre a suposta fascinação de um texto pouco conhecido.

 Minha luta (Mein Kampf) de Adolf Hitler é o livro tabu por definição. Banido na Alemanha desde o fim da Segunda Guerra Mundial, no último dia de 2015 ele cai em domínio público na Europa. Assim, estaria aberto o caminho para sua reedição, comentada ou não.

No entanto, órgãos governamentais querem manter a proibição, alegando tratar-se de um panfleto de incitação racista. Apenas recentemente o Instituto de História Contemporânea (IfZ, na sigla em alemão) conseguiu impor definitivamente sua intenção de lançar uma edição histórico-crítica.

O misto de panfleto e autobiografia que o futuro ditador nazista lançou em dois volumes, em 1925 e 1926, voltou agora às manchetes. Juntamente com outros itens hitleristas, uma casa de leilões de Los Angeles anunciava para esta quinta-feira (26/03) a venda online de dois volumes da primeira edição, assinados por Hitler e presenteados a um dos primeiros seguidores de seu Partido Nacional-Socialista Alemão dos Trabalhadores.

A casa de leilões classificava o lance inicial de 35 mil dólares como "um pouco cauteloso", considerando-se que um comprador pagou 64.850 dólares por um conjunto semelhante em 2014. No entanto, a transação não se concretizou, pois a "pechincha" não encontrou nenhum comprador.

A Deutsche Welle entrevistou o sociólogo Horst Pöttker, ex-docente de jornalismo da Universidade de Dortmund e professor emérito da Universidade de Hamburgo. Para o projeto Zeitungszeugen 1933-1945, de reprodução de matérias jornalísticas da era nazista, ele comentou trechos de Mein Kampf, mas sua publicação, planejada para janeiro de 2012, foi sustada.

DW: Uma edição autografada do Minha luta foi leiloada em Los Angeles, com lance inicial de 35 mil dólares. O que o senhor acha de leilões desse tipo?

Horst Pöttker: Isso é um comércio de relíquias obsceno. Sou totalmente contra, mas também sei, claro, que no contexto da livre economia é impossível proibir algo assim.

O que aparentemente se pode proibir é a publicação na Alemanha do panfleto agitador de Hitler. A partir de 1º de janeiro de 2016, caem os seus direitos autorais. Ainda assim, em meados do ano passado, as secretarias estaduais de Justiça alemãs decidiram seguir interditando a divulgação do livro. O que o senhor pensa dessa decisão?

É preciso tomar cuidado com a palavra "proibir". Não é proibido ler esse livro: pode-se vê-lo em bibliotecas. Tampouco existe uma lei penal proibindo sua reedição. Mas há direitos autorais, e eles ficam no nome do autor da obra por 70 anos [após sua morte].

Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, os Aliados transferiram os direitos de Mein Kampf da Editora Eher para o estado da Baviera. Dentro de uns nove meses, o livro entra em domínio público. Se os secretários de Justiça deliberaram proibir a reedição em alemão e na Alemanha, eles precisam fazer uma lei que proíba a difusão. Até agora, não vi isso acontecer.

Os secretários da Justiça dizem que o crime de incitação popular basta para impedir uma publicação. O senhor concorda que o livro contém incitação?

Não concordo, pois, na minha opinião, esse livro é um documento histórico. Não é um texto político atual. Podem-se declarar anticonstitucionais textos redigidos após a entrada em vigor da Constituição: o que foi feito antes são documentos históricos.

De resto, não considero inteiramente procedente o termo "panfleto de incitação popular", pois, em parte, ele não é tão incitador assim. Conhecer esse livro é útil para entender por que tanta gente seguiu o nazismo nos anos 1930 e também 1920.

O então presidente Theodor Heuss já dizia na década de 50 que se devia publicá-lo, para que os alemães soubessem como os nazistas pensavam e de que crimes eram capazes.

Qual é o conteúdo de Minha luta?

A argumentação que permeia o livro é a ideologia racial. Em primeira linha, trata-se da luta entre as "raças" germânica e judaica. A "raça judia" é, para Hitler, o principal inimigo, que cabe combater e exterminar, em nome da autopreservação.

Portanto, já em 1925, quando ele foi lançado, se podia saber que os nazistas planejavam exterminar a "raça judia". Até o fim da guerra, foram impressos 13 milhões de exemplares. O argumento de muitos alemães, depois de 1945, de que as pessoas não sabiam de nada, é, assim, improcedente.

O Instituto de História Contemporânea de Munique trabalha há anos numa edição comentada, que, depois de muito vaivém, possivelmente vai sair no início de 2016. Não seria esta a solução certa, impedir edições não comentadas, mas permitir as comentadas?

Não precisamos de uma edição histórico-crítica – muito menos de uma que custa tanta verba pública –, porque não temos necessidade de saber o que o autor Adolf Hitler queria dizer exatamente. "Histórico-crítico" também significa, afinal, compreender diferentes camadas do desenvolvimento do texto. Será que filologia textual é realmente importante, aqui? Na minha opinião, é importante um público amplo finalmente ficar conhecendo o conteúdo desse livro e desenvolver uma avaliação realista, criticamente fundamentada.
O senhor mesmo trabalhou há alguns anos num comentário de Mein Kampf para o projeto Zeitungszeugen, antes que ele fosse sustado pela secretaria de Finanças da Baviera. Qual era a intenção do Zeitungszeugen, ao publicar o panfleto do ditador e genocida?

 Deutschland Presse Zeitungszeugen Hitlers Mein Kampf am Zeitungskiosk
Anúncio de "Zeitungszeugen": "Em breve: o livro que ninguém deve ler. Leia-o"
Nós havíamos planejado três brochuras com excertos de Minha luta, comentados por mim. Minha meta era esclarecer a respeito desse livro e responder à pergunta: por que tantos alemães o compraram e leram. E por que seguiram o que constava dele. Eu queria examinar os argumentos aparentemente atraentes de Hitler, buscando sua pertinência, e mostrar, justamente, que eles não são pertinentes, por só serem plausíveis no contexto de uma ideologia brutalmente racista.

Eu temo que, no momento em que esse livro seja lançado, ele adquira uma certa atratividade, por todos estarem munidos da falsa noção de que se trata exclusivamente de um panfleto grosseiro, onde o mal se anuncia imediatamente, por toda parte. Não se devia tê-lo mantido tabu por tanto tempo. Eu queria combater isso com a publicação dos trechos e das explicações.

Em outros países, a difusão de Mein Kampf não é, em absoluto, problemática – veja-se o leilão de uma edição autografada nos Estados Unidos. Por que os alemães têm tantos problemas com o livro de Hitler?
Impedir que esse livro seja lido por muitos na Alemanha, fazendo justamente uso do direito autoral, é um absurdo. Isso quase lança a tese de que os alemães são mais seduzíveis do que outras nações. Eu, realmente, torço para que os nossos políticos não sejam dessa opinião, mas sim que – 70 anos após o fim desse terrível regime – confiem que os alemães possuem maturidade suficiente.

Pode-se comprar o livro por todo o mundo em traduções; com as tecnologias digitais é até bem fácil ter acesso a elas. Não percebo o que se pretende com a planejada proibição. Quem vem da [extrema] direita, consegue o livro, de qualquer jeito.


Autoria Sarah Judith Hoffmann (av)
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domingo, 12 de fevereiro de 2017

1945: Conferência de Ialta sela ordem do pós-Guerra na Europa


Quando a vitória já parecia certa, os Aliados se reuniram de 4 a 11 de fevereiro de 1945 na Crimeia. Aceitação de imposições de Stalin selou fronteiras da futura Cortina de Ferro.

 Konferenz von Jalta 1945 (gemeinfrei)
Churchill, Roosevelt e Stalin decidiram as fronteiras pós-guerra

Os três grandes líderes reuniram-se de 4 a 11 de fevereiro de 1945 em Ialta, na Crimeia, após mais de cinco anos de guerra e milhões de mortos. Praticamente já ocupada, a Alemanha não estava mais em condições de resistir por muitas semanas. A Itália estava rendida, mas o Japão ainda resistia no Oceano Pacífico.

Embora a Segunda Guerra Mundial ainda não estivesse oficialmente encerrada, Franklin D. Roosevelt, Josef Stalin e Winston Churchill, considerando-se vencedores sobre os nazistas e fascistas, iniciaram a discussão sobre a ordem internacional no pós-Guerra.

A Conferência de Ialta, às margens do Mar Negro, foi uma das três grandes conferências que determinaram o futuro da Europa e do mundo no pós-Guerra (além da de Teerã, em 1943, e a de Potsdam, em meados de 1945). Mesmo que a divisão do mundo não estivesse nos planos das lideranças aliadas neste momento, a Guerra Fria acabou sendo uma das consequências do encontro.

Para o historiador Jost Dülffer, da Universidade de Colônia, Ialta tinha boas chances de estipular uma nova ordem de paz no pós-Guerra: "Foi aprovada uma declaração sobre a Europa libertada e discutiram-se várias questões, cuja solução era apenas parcial. Por fim, eles tiveram que se curvar aos fatos: os russos estavam às margens do rio Oder, no Leste, e os norte-americanos na fronteira oeste da Alemanha".

Polônia, o tema mais controverso

Com relação à Organização das Nações Unidas, que estava por ser criada, decidiu-se a composição de um conselho de segurança com direito de veto. Quanto à Alemanha, as potências aliadas resolveram exigir a "capitulação incondicional" e decidiram dividir o país em três zonas de ocupação.

Os detalhes seriam resolvidos por uma comissão constituída para este fim. Por pressão dos soviéticos, a única decisão tomada foi em relação a reparações e o desmonte de instalações industriais.

A capital polonesa, Varsóvia, estava em ruínas em 1945

A Polônia foi o tema mais controverso da conferência na Crimeia, em fevereiro de 1945. Temendo o avanço soviético na Europa Central, o premiê britânico, Winston Churchill, e o presidente norte-americano, Franklin D. Roosevelt, planejavam para Varsóvia um governo com legitimação democrática, escolhido através de eleições livres. Enquanto Stalin ressaltava o poder democrático do governo por ele constituído na Polônia, os britânicos salientavam a legitimidade do governo polonês no exílio, estabelecido em Londres.

Churchill e Roosevelt cederam a Stalin

As duas frentes optaram por uma solução consensual: o governo constituído pelos soviéticos foi ampliado em alguns membros apontados pelos aliados. A partir de junho de 1945, entretanto, o governo polonês passou a ser dominado por membros pró-soviéticos.

Stalin ainda conseguiu impor o deslocamento da fronteira soviética para o oeste. Afinal, o aliados ocidentais precisavam do apoio de Moscou contra os japoneses no Oceano Pacífico. A fronteira leste da Alemanha ao longo dos rios Oder e Neisse foi sugestão do secretário-geral do partido comunista soviético. A nova linha divisória viria a delimitar o que mais tarde ficou conhecido como Cortina de Ferro, dividindo o mundo durante quase 50 anos de Guerra Fria.

Em 1946, o próprio Churchill reconheceria: "De Sczecin, no Mar Báltico, até Trieste, no Mar Adriático, transcorre uma cortina de ferro pelo continente. Por trás desta linha estão todas as capitais da Europa Central e do Leste Europeu. Todas as cidades e suas populações estão sob influência soviética. Os acertos feitos em Ialta foram vantajosos demais para os soviéticos.

Mas estas decisões foram tomadas numa época em que ainda não se sabia que a guerra não duraria nem até o fim de 1945, num momento em que achávamos que o conflito com o Japão persistiria pelo menos 18 meses após o final da guerra com a Alemanha".



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sábado, 8 de outubro de 2016

Expressões idiomáticas alemãs

Weichei (Ei = ovo; weich = mole) ninguém gosta. Ovo mole na linguagem coloquial significa uma pessoa medrosa, que não tem opinião própria e evita situações perigosas ou desagradáveis.

Schlusslicht ninguém quer! Em seu sentido original, a palavra Schlusslicht (Licht = luz, Schluss = final) significa "luz traseira, lanterna traseira". Mas, usada ironicamente, significa "último colocado", “lanterninha”.

Helikoptermutter (Mutter = mãe, Helikopter = helicóptero). A "mãe helicóptero" quase não tem vida própria. Seu cotidiano gira única e exclusivamente em torno do pimpolho.

Seemannsgarn (Garn = fio, Seemann = marinheiro). E ainda completa com o ditado "quem tece com fio de marinheiro tem sempre muito o que contar".

Prügelknabe (Knabe = garoto; Prügel =surra) tenha surgido na Europa do século 17. As crianças brincavam juntas, nobres e plebeus. Porém, se acontecesse alguma coisa errada, um vaso partido, um brinquedo quebrado, uma roupa estragada, quem era castigado, quem levava a surra? O garoto plebeu! Prügelknabe significa “bode expiatório”, aquele que leva a culpa pelo mal feito.

O Bürohengst (Hengst = garanhão; Büro = escritório) por exemplo, ganhou este apelido de "garanhão do escritório" justamente por sua dedicação exagerada ao trabalho.

Patentrezept! Uma receita que seja infalível para resolver problemas. Mas, como já sabemos, na maioria dos casos isso é pura ilusão.

Antigamente na Alemanha, quem não podia pagar os gastos de um processo tinha que apresentar um atestado que comprovasse sua pobreza. Hoje, o "Armutszeugnis" (Zeugnis = atestado, certificado; Armut = pobreza) não é mais usado, mas a expressão ficou e é empregada para definir fraqueza de caráter ou incapacidade de fazer algo.

1992: Morre o ex-chanceler alemão Willy Brandt

ALEMANHA 60 ANOS: ACONTECIMENTOS QUE MARCARAM A HISTÓRIA DO PAÍS1949: 

Toma posse o primeiro presidente alemão1949: Promulgada a Lei Fundamental Alemã1949: Primeira Feira do Livro de Frankfurt1954: Alemanha ganha a Copa do Mundo1957: Equiparação dos direitos da mulher na Alemanha1957: Inauguração da Interbau em Berlim1961: Construção do Muro de Berlim1962: Fundação da Schaubühne de Berlim1963: Tratado da amizade franco-alemã1963: Começa "Julgamento de Auschwitz"1968: Atentado contra Rudi Dutschke1968: Atentados incendiários em Frankfurt1969: Willy Brandt vence as eleições federais1971: Cineastas alemães criam cooperativa do filme1971: Tratado das Quatro Potências sobre Berlim1972: Beuys demitido da Academia de Belas Artes1972: Atentado na vila olímpica em Munique1974: Helmut Schmidt torna-se chanceler federal1975: Começa julgamento de líderes da RAF1976: Ulrike Meinhof é encontrada morta na prisão1977: Terroristas alemães se suicidam na prisão1982: Morre o cineasta alemão Fassbinder1983: Stern publica os "Diários de Hitler"1984: Suborno derruba presidente do Parlamento alemão1988: Daimler-Benz indeniza trabalhadores forçados sob o regime nazista1989: Bomba da RAF mata banqueiro Alfred Herrhausen1989: A queda do Muro de Berlim1990: Kohl e Gorbatchov se reúnem no Cáucaso1990: Eleições livres para o Parlamento da Alemanha Oriental1991: Direitos iguais de sobrenome na Alemanha1992: Morre o ex-chanceler alemão Willy Brandt1993: Atentado incendiário xenófobo em Solingen1993: Restrições na lei de asilo político1994: Christo pode empacotar o Reichstag1994: Condenado espião alemão-oriental1998: Grupo terrorista alemão RAF anuncia dissolução2002: Morre primeiro ídolo do futebol alemão2007: Morre o fotógrafo Bernd Becher2008: Ano de grandes decisões e surpresas para cultura na Alemanha

O primeiro chanceler federal social-democrata pós-guerra morreu em Bonn, no dia 8 de outubro de 1992. Willy Brandt, Nobel da Paz de 1971, destacou-se pela aproximação com o Leste Europeu durante a Guerra Fria.


Herbert Ernst Karl Frahm nasceu a 18 de dezembro de 1913 em Lübeck, no norte da Alemanha. Com 18 anos, filiou-se ao Partido Socialista Trabalhista (SAP). Após a ascensão dos nazistas ao poder, em 1933, emigrou para a Noruega e, por razões de segurança, adotou o codinome Willy Brandt, que assumiu oficialmente em 1949.

Em Oslo, trabalhou como jornalista e estudou História. De 1936 até ser descoberto e expatriado, dois anos depois, viveu clandestinamente em Berlim, como universitário norueguês, participando da reorganização de seu antigo partido. Esteve na Guerra Civil Espanhola em 1937 como observador político e jornalista.
Quando obteve a cidadania norueguesa, no ano de 1940, a invasão da Noruega pelas tropas alemãs o obrigou a fugir para a Suécia. Depois do final da Segunda Guerra Mundial, retornou à Alemanha para escrever reportagens sobre os julgamentos de Nurembergue. A partir de 1947, trabalhou como adido de imprensa na representação da Noruega em Berlim.

Após receber de volta a cidadania alemã, em 1948, retomou a carreira política no Partido Social-Democrata (SPD), cuja vice-presidência assumiu na cidade de Berlim Ocidental. Entre 1949 e 1957, Willy Brandt esteve no Bundestag, o Parlamento alemão. Ainda em 1957, assumiu a prefeitura de Berlim, cargo que ocupou até 1966. Entre 1964 e 1987, foi presidente do SPD e, depois, presidente de honra do partido.
Confrontado com o ultimato soviético a Berlim Ocidental em 1958 e a construção do Muro, em 1961, Brandt começou a se projetar no cenário político internacional.

Em 1966 foi ministro das Relações Exteriores no governo de coalizão com os democrata-cristãos, chefiado por Kurt Georg Kiesinger (1966-1969). A meta de Brandt foi melhorar as relações com os vizinhos do Leste Europeu, isolados atrás da Cortina de Ferro.

Aproximação com o Leste

Em 1969 foi eleito chanceler federal, tornando-se o quarto chefe de governo da Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial. Com o apoio de seu ministro do Exterior, Walter Scheel, prosseguiu com a "política da mudança através da aproximação". Ao ficar de joelhos no Gueto de Varsóvia, em 1970, e fazer uma visita a Israel em 1973, comoveu o mundo.
Nos meses de março e maio de 1970, participou de dois encontros interalemães, que serviram de base para a normalização das relações entre a República Federal da Alemanha (RFA) e a República Democrática Alemã (RDA).

Em agosto e dezembro do mesmo ano, seguiram as assinaturas dos tratados de Moscou e de Varsóvia, precursores dos acordos entre as quatro potências, em 1971; do acordo-base de relacionamento entre os dois Estados alemães (1972); e do acordo teuto-checo, de 1973. Esta política conciliadora lhe valeu o Prêmio Nobel da Paz em 1971.

Em 1974, Willy Brandt renunciou ao cargo em consequência de um caso de espionagem. Mas continuou ativo na política internacional: entre 1979 e 1983, foi membro do Parlamento Europeu; de 1976 a 1992, presidente da Internacional Socialista e, entre 1977 e 1989, da Comissão Norte-Sul. Ele faleceu em 8 de outubro de 1992 em Unkel, ao sul de Bonn. (rw)

1973: Willy Brandt em Israel
No dia 7 de junho de 1973, o então chanceler federal alemão Willy Brandt chegou a Israel para sua primeira visita oficial ao país. 
1971: Willy Brandt ganha Prêmio Nobel da Paz
A 20 de outubro de 1971, foi anunciada a escolha do então chefe de governo alemão para o Nobel, pela reconciliação entre as duas Alemanhas. 
1970: Brandt de joelhos em Varsóvia
No dia 7 de dezembro de 1970, o chanceler federal Willy Brandt e seu ministro do Exterior, Walter Scheel, assinaram na capital da Polônia o acordo de normalização das relações teuto-polonesas, o Acordo de Varsóvia. 
1970: Willy Brandt visita a Alemanha Oriental
No dia 19 de março de 1970, o então chefe do governo da Alemanha Ocidental, Willy Brandt, visitou a Alemanha Oriental. 
1969: Willy Brandt vence as eleições federais
No dia 28 de setembro de 1969, Willy Brandt foi eleito o primeiro chanceler federal social-democrata da Alemanha do pós-guerra. 
Autoria
1973: Termina a guerra do Vietnã 27.01.2016
Em 27 de janeiro de 1973, representantes do Vietnã do Norte e do Sul, bem como dos Estados Unidos, assinaram em Paris um difícil acordo que pôs fim à guerra do Vietnã.
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1971: Willy Brandt ganha o Prêmio Nobel da Paz 20.10.2014
Em 20 de outubro de 1971, o Comitê Norueguês do Nobel anunciou a escolha do então chanceler federal alemão, Willy Brandt, para o Nobel da Paz, pela sua política de reconciliação com o Leste Europeu.

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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A trégua de Natal



Véspera de Natal de 1914. A Europa estava em plena Primeira Guerra Mundial, mas soldados alemães e britânicos organizaram um cessar-fogo não oficial ao longo de toda a frente ocidental. O início da "Trégua de Natal" foi na região de Ypres, na Bélgica, onde as tropas adversárias decoraram as trincheiras, trocaram presentes e jogaram uma partida de futebol.

sábado, 23 de julho de 2016

expressões alemãs

Prügelknabe significa “bode expiatório”
O Bürohengst (Hengst = garanhão; Büro = escritório)  de "garanhão do escritório"  por sua dedicação exagerada ao trabalho.
"Armutszeugnis" (Zeugnis = atestado, certificado; Armut = pobreza)  é empregada para definir fraqueza de caráter ou incapacidade de fazer algo.

Futterneid (Neid = inveja, Futter = ração), ou "inveja da comida alheia".

domingo, 19 de junho de 2016

1815: Napoleão perde a batalha de Waterloo


Em 18 de junho de 1815, Napoleão Bonaparte perdeu a batalha de Waterloo contra a Inglaterra e a Prússia. As potências europeias encerraram o império de Napoleão 1º e o deportaram para Santa Helena.

Napoleão 1º dominou a política europeia de 1799 a 1815

Napoleão 1º deixou o seu exílio na ilha de Elba, em 26 de fevereiro de 1815, para retornar à pátria, no sul da França. Em 20 de março, ele foi recebido com triunfo em Paris. Pouco tempo depois, a Inglaterra, Prússia, Áustria e Rússia decidiram recomeçar a guerra contra Napoleão. O imperador francês aproveitou o entusiasmo na França para organizar um novo exército e, em seguida, marchou com 125 mil homens e 25 mil cavalos para a Bélgica, a fim de impedir a coalizão dos exércitos inglês e prussiano.

Em 26 de junho de 1815, as tropas francesas alcançaram Charleroi. Atrás da cidade, numa encruzilhada, o exército de Napoleão dividiu-se em duas colunas: uma marchou em direção a Bruxelas contra as tropas de Wellington, e outra, sob o comando do próprio Napoleão, em direção a Fleuru, contra o exército prussiano de Blücher.

No cerco das linhas inimigas, Blücher aquartelou-se no moinho de vento de Brye, sem saber que, igualmente a partir de um moinho, Napoleão podia observar, com telescópio, o movimento das tropas inimigas. Às 15 horas do mesmo dia, os franceses começaram a atacar.

Prússia perde batalha de Ligny

O exército da Prússia dispunha de mais de 84 mil homens e 216 canhões, enquanto os franceses tinham 67.800 homens e 164 canhões. Mas os prussianos cometeram um erro grave. Eles confiaram na chegada do exército de Wellington, na parte da tarde, a fim de apoiá-los no combate contra os franceses. Por isso, se entrincheiraram no lugarejo de Ligny para aguardar a chegada dos ingleses.

Os franceses atacaram o lugar com canhões. A esperança que os prussianos depositaram em Wellington foi em vão. Os franceses ganharam a batalha. Na mesma noite, Blücher ordenou a retirada para o norte. Os prussianos foram vencidos, deixando 20 mil mortos para trás, mas ainda não haviam sido derrotados definitivamente.

Chuvas retardam batalha de Waterloo

Wellington e sua tropa alcançaram o planalto de Mont Saint Jean, situado na estrada de Bruxelas para Charleroi, em 17 de junho de 1815. Até então, ele ainda não tinha se confrontado com as tropas francesas, porque Napoleão não havia feito novos ataques, depois da vitória de Ligny. Wellington se aquartelou na cavalariça de Waterloo. As fortes chuvas que haviam começado cair à tarde transformaram rapidamente o solo num charco, dificultando o movimento e o posicionamento dos canhões.

Blücher, general da Prússia

Ao cair da tarde, os soldados franceses também alcançaram a fazenda Belle Alliance, na estrada de Bruxelas para Charleroi. Napoleão se aquartelou na fazenda La Caillou e passou a observar como os ingleses se entrincheiravam no planalto. No café da manhã seguinte (18 de junho de 1815), o imperador francês expôs o seu plano de batalha. Ele queria primeiro conquistar a posição ocupada pelos ingleses. Os canhões deveriam atacar o inimigo com fogo cerrado. Napoleão estava seguro da vitória e que derrotaria as tropas de Wellington antes da chegada dos prussianos.

Primeiras armas de destruição em massa

O ataque estava previsto para as nove da manhã, mas sofreu um atraso de duas horas e meia por causa do aguaceiro. Primeiro, os franceses tentaram conquistar o morgadio Hougoumont, mas os ingleses estavam bem posicionados e usaram uma arma nova poderosa contra as fileiras compactas das tropas atacantes.
A arma eram granadas, espécie de balas de chumbo dentro de um invólucro de aço, que podiam ser disparadas a longas distâncias. Os franceses tentaram várias vezes, em vão, tomar Hougoumont, até desistirem às 17 horas. Diante dos muros de Hougoumont ficaram mais de 3 mil mortos.

Enquanto isso, Napoleão dava a ordem de avançar sobre La Haie Sainte, para poder atacar os ingleses entrincheirados no planalto. Neste momento, ele já sabia que os prussianos se aproximavam. E a partir daí, a saída para Waterloo era uma questão de tempo. A nova arma de destruição em massa causou baixas terríveis no ataque a La Haie Sainte, mas os franceses conseguiram conquistar a fazenda. O front de Wellington cambaleou. Seus generais exigiram que ele enviasse suas reservas, mas ele não as tinha mais.
Chegada das tropas prussianas

O comando avançado prussiano chegou, finalmente, ao campo de batalha depois das 19 horas. Para Napoleão, era evidente que tinha de tomar uma decisão e ordenou a sua combativa Guarda Imperial a atacar. A nova arma de destruição em massa atingiu os franceses em cheio. Para piorar a situação das tropas napoleônicas, as prussianas chegaram pouco depois das 20 horas.

O exército francês ainda tentou fugir, mas a batalha de Waterloo estava decidida. Às 21h30, o prussiano Blücher abraçou o inglês Wellington diante da fazenda Belle Alliance, selando a vitória. (ef)


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sábado, 14 de maio de 2016

Bismarck e o 2º Império


A Revolução Francesa contribuiu para a queda do Sacro Império em 1806. Uma nova unificação política só foi possível em 1871, graças ao progresso econômico registrado a partir de meados do século 19.
O impacto da Revolução Francesa – que em 1789 proclamou Liberté, Egalité, Fraternité na França, eliminando a ordem social feudal e promovendo a separação de poderes – foi o que faltava para fazer desmoronar o Sacro Império Romano de Nação Germânica. Os ideais revolucionários ouvidos na França não chegaram a se alastrar na Alemanha devido à estrutura federalista do império. Mas as ofensivas militares desencadeadas pela revolução tiveram amplo efeito sobre a região.
A Prússia e a Áustria resolveram intervir nos acontecimentos do país vizinho e acabaram provocando uma contraofensiva das tropas revolucionárias. Atacado pelo exército de Napoleão Bonaparte, que se considerava herdeiro da Revolução Francesa, o Sacro Império sucumbiu definitivamente, e a França anexou a margem esquerda do rio Reno.
Essa reorganização territorial deu-se às custas dos principados menores e dos religiosos. Os estados de porte médio foram os grandes beneficiados, unindo-se em 1806 na Liga Renana (ou Confederação do Reno), sob o protetorado francês. No mesmo ano, o imperador Francisco 2º abdicou da coroa, pondo fim ao Sacro Império Romano de Nação Germânica. A necessidade de expulsar os invasores franceses acabou dando asas ao espírito nacional, e um novo movimento nacional culminou nas Guerras de Libertação.
A Alemanha, contudo, não ficou imune às grandes transformações sociais vindas da França e acabou instituindo a sociedade burguesa. Reformas, como a abolição da vassalagem, a liberdade profissional, a autonomia municipal, a igualdade perante a lei e o serviço militar obrigatório, foram implementadas inicialmente nos estados da Liga Renana e mais tarde também na Prússia, dando continuidade à reforma judicial e outras obras avançadas realizadas no século anterior por Frederico, o Grande (1740–1786), um legítimo representante do despotismo esclarecido.
A Liga Alemã
Seguro-saúde para trabalhadores
Após a derrota de Napoleão, o Congresso de Viena (1814–1815) estabeleceu uma nova ordem na Europa. Porém, as aspirações de muitos alemães a um Estado nacional livre e homogêneo não se concretizaram. A Liga Alemã, que substituiu o antigo império, era uma união de estados soberanos pouco coesos. O único órgão, a Dieta de Frankfurt, não era um parlamento eleito, e sim um congresso de delegados. A Liga Alemã só podia agir com o beneplácito das duas grandes potências Prússia e Áustria. Nas décadas seguintes, a Liga reprimiu todas as tentativas de unificação e liberdade.
O desenvolvimento econômico incipiente trazia modernidade, contrariando essas tendências retrógradas. Em 1834, foi fundada a União Alfandegária Alemã, que implantou um mercado nacional uniforme. Em 1835, foi inaugurada a primeira estrada de ferro. Começava a industrialização. Com as fábricas, formou-se uma nova classe operária fabril. No entanto, o forte crescimento demográfico levou a um excedente de mão de obra. Como não havia legislação previdenciária ou trabalhista, a massa dos operários vivia na miséria.
A Revolução de 1848
A revolução de fevereiro de 1848 na França teve eco imediato na Alemanha, ao contrário do que acontecera com a Revolução Francesa. Em março, insurreições populares em todos os estados da federação obrigaram os amedrontados príncipes a fazerem grandes concessões. Em maio, reuniu-se a Assembleia Nacional em Frankfurt. O arquiduque austríaco João foi eleito regente do império.
O centro liberal, que visava a uma monarquia constitucional com direito eleitoral limitado, era a força dominante na Assembleia. Contudo, a excessiva fragmentação partidária dificultava o trabalho legislativo. A classe política estava dividida entre a chamada "grande solução" e a "pequena solução", ou seja, um império alemão com ou sem a Áustria.
Afinal, foi aprovada uma Constituição democrática, na qual se tentava conjugar o velho com o novo. Ela previa que o governo prestasse contas ao Parlamento. Como a Áustria insistisse em incorporar ao futuro império todo o seu território, composto de mais de uma dúzia de povos, venceu a tese da pequena solução.
A Assembleia Nacional ofereceu ao rei da Prússia, Frederico Guilherme 4º, a coroa hereditária do Império Alemão. Mas o soberano não aceitou a dignidade de imperador concedida por uma revolução. Em maio, fracassaram os levantes populares que pretendiam impor a Constituição "de baixo para cima". Selada a derrota da revolução alemã, a maioria das conquistas foram anuladas e em 1850 foi restabelecida a Liga Alemã.
A ascensão de Bismarck
O grande progresso econômico registrado em meados do século 19 trabalhou a favor da unificação, tornando a Alemanha um país industrial, com destaque para a indústria pesada e a construção de máquinas. Na vanguarda desse desenvolvimento estava a Prússia.
A riqueza econômica, por sua vez, fortalecia a consciência política da burguesia liberal. O Partido Progressista Alemão, fundado em 1861, tornou-se a principal força no Parlamento da Prússia, opondo-se muitas vezes ao governo.
Empossado em 1862 como chanceler, Otto von Bismarck aceitou o desafio de governar contra o Parlamento e sem um orçamento por ele aprovado. Para impor a cobrança de novas taxas, e assim financiar a reforma militar que pretendia fazer, recorreu a medidas repressivas, como a censura da imprensa e a restrição ao direito de reunião.
Os êxitos na política exterior compensaram a fraca posição de Bismarck na política nacional. Ao vencer a guerra contra a Dinamarca (1864), a Alemanha obteve os territórios de Schleswig e Holstein, no norte, passando a administrá-los conjuntamente com a Áustria. O objetivo de Bismarck, contudo, era anexar os dois ducados.
O conflito acabou levando a uma guerra contra a Áustria, que saiu derrotada (1866). A Liga Alemã foi dissolvida e substituída pela Liga Setentrional Alemã, que reunia todos os estados germânicos ao norte do rio Meno, tendo Otto von Bismarck como chanceler (primeiro-ministro).
O 2º Império
 Proclamação em Versalhes em 1871
Completando a unificação da Alemanha no sentido da "pequena solução", Bismarck conquistou a Alsácia e a Lorena, numa guerra contra a França (1870–1871) deflagrada por um conflito diplomático. Imbuídos de patriotismo, os estados do sul da Alemanha uniram-se à Liga Setentrional Alemã, constituindo o 2º Império Alemão ou Reich. Em Versalhes, o rei Guilherme 1º da Prússia foi proclamado imperador da Alemanha, no dia 18 de janeiro de 1871.
A unidade alemã, portanto, não resultou da vontade do povo, "de baixo para cima", mas de um pacto entre os príncipes, isto é, "de cima para baixo" e com a supremacia esmagadora da Prússia. O Parlamento do Império, o Reichstag, era eleito por sufrágio igualitário e tinha apenas uma influência indireta no governo. O chanceler do Império, embora só devesse prestar contas ao imperador, era obrigado a procurar apoio para a sua política no Parlamento.
Não eram uniformes as leis eleitorais relativas às representações populares dos diferentes estados no Reichstag. Em 11 estados, existia o sistema eleitoral por classes, dependente dos impostos pagos pelo eleitor e, em outros quatro, mantinha-se a representação por corporações. Com maior tradição parlamentar, os estados do sul da Alemanha reformaram seu direito eleitoral, adaptando sua legislação eleitoral à do Império.
Bismarck governou o Império por 19 anos, fortalecendo sua posição na nova constelação de forças na Europa através de uma política de paz e de alianças. Sua política nacional, porém, estava distante dessa sabedoria. Bismarck combateu tendências democráticas por considerá-las inimigas do Império.

Lutou contra a ala esquerda da burguesia liberal, contra os políticos católicos e, principalmente, contra o movimento operário organizado, que reprimiu durante 12 anos. Bismarck, de certa forma, terminou sendo vítima do seu próprio sistema. A política personalista do jovem imperador Guilherme 2º forçou-o à demissão em 1890.

Deutsche Welle

domingo, 6 de março de 2016

1951: Revisado Estatuto de Ocupação da Alemanha


No dia 6 de março de 1951, foi revisado o Estatuto de Ocupação, imposto à República Federal da Alemanha pelos três Aliados ocidentais.

Posse de Adenauer em 1949

Depois do final da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha derrotada foi ocupada pelos Aliados. Enquanto o Leste alemão passou ao controle da então União Soviética, a parte ocidental foi dividida pela Grã-Bretanha, França e Estados Unidos. Depois de 1945, aconteceu nestas zonas de ocupação ocidentais um renascimento em todos os setores da vida alemã, principalmente o político e econômico.

Os principais líderes políticos eram Konrad Adenauer, da União Democrata Cristã, e Kurt Schumacher, do Partido Social Democrata. Konrad Adenauer havia sido prefeito de Colônia entre 1917 e 1933, quando foi deposto pelos nazistas. Depois da guerra, as forças de ocupação lhe devolveram o cargo.

Acordo de paz

Em 1945, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a União Soviética promoveram uma conferência em Potsdam, em que acertaram a composição de um conselho (com a participação também da França e da China), para preparar o acordo de paz com os aliados da Alemanha na Segunda Guerra.

Este conselho foi incumbido de resolver problemas territoriais e a questão alemã, além da desmilitarização no território alemão, a desnazificação e o julgamento dos criminosos de guerra. Apesar da divisão em zonas, do ponto de vista econômico a Alemanha deveria ser vista como um todo.

Entre as tarefas do conselho, estavam o pagamento das reparações por danos à União Soviética e as medidas para trazer ao país os alemães que viviam na Polônia, na então Tchecoslováquia e na Hungria.
Passo a passo, a busca pela soberania

Adenauer tomou posse como o primeiro chefe de governo da Alemanha Ocidental em 1949. Em outubro do mesmo ano, foi fundada a República Democrática Alemã, de regime comunista. O temor do chefe de governo alemão-ocidental era uma aproximação entre a França e a União Soviética.

Por isso, suas primeiras medidas concentraram-se na busca de uma sólida aliança com as nações ocidentais, a fim de reconquistar a confiança dos Aliados e assim, passo a passo, a soberania alemã.

Em setembro de 1949, havia entrado em vigor o Estatuto da Ocupação. Nele, as potências aliadas ocidentais regulamentaram a nova situação no país. Os Estados Unidos, Grã-Bretanha e França concediam soberania limitada à Alemanha Ocidental, mas continuavam controlando os armamentos, o comércio exterior e a segurança das forças de ocupação.

Os aliados ocidentais se reservaram o direito de retomar o poder em caso de não-cumprimento dos compromissos internacionais e de ameaças à ordem democrática e à segurança da Alemanha Ocidental. Numa carta dirigida aos altos comissários dos Aliados em 1º de março de 1951, Adenauer abriu caminho para a concessão de mais soberania à jovem república.

Criação do Ministério do Exterior

Na carta aprovada pelo gabinete de governo e pelo Parlamento (Bundestag), o chefe de governo reconheceu a dívida externa alemã. Seguiu-se então a revisão do Estatuto de Ocupação, que havia entrado em vigor em setembro de 1949.

Na revisão, os Aliados admitiram plenos poderes à Alemanha em questões de comércio exterior e economia monetária e uma autonomia limitada na política externa. Em consequência, foram permitidas a recriação do Ministério do Exterior e a retomada das relações diplomáticas com países não-comunistas.

Em março de 1951, o chanceler Konrad Adenauer assumiu o cargo de Ministro do Exterior. O Estatuto de Ocupação foi cancelado pelos Aliados em 1955, depois da assinatura dos Tratados de Paris, em que a Alemanha Ocidental tornou-se um país soberano. Em junho de 1955, Adenauer transmitiria a pasta do Exterior a Heinrich von Brentano.

 (rw)



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

14 provérbios alemães


Morgenstund hat Gold im Mund
Os alemães e suas rimas, desta vez para dar uma má notícia aos dorminhocos: "A manhã tem ouro na boca". Trata-se de um ditado latino, também difundido na variante "Aurora musis amica" – A aurora é a amiga das musas. De forma menos poética, "Deus ajuda quem cedo madruga" igualmente encoraja a diligência matinal. Ou, menos apetitoso: "O pássaro madrugador é que pega a minhoca".
Wie man in den Wald hineinruft, so schallt es heraus
"Como se grita na floresta, assim virá o eco" seria a tradução quase literal desse ditado. Ou seja: o que se coloca no mundo retorna da mesma forma, para o bem ou para o mal. Se o input for negativo, portanto, é bom ter em mente que "Quem semeia vento, colhe tempestade".
Der Apfel fällt nicht weit vom Stamm
Semelhante a "Filho de peixe, peixinho é", "A maçã não cai longe do tronco" é outro desses provérbios que convidam a um uso ambivalente ou irônico. A ideia é que qualidades – boas ou más – são herdadas das gerações anteriores. Portanto, atenção: se for dito como elogio, ótimo. Se for insulto, é extensivo ao pai, à mãe e a sabe-se lá quantas gerações.
Gelegenheit macht Diebe
"A ocasião faz o ladrão" – também na Alemanha. Senão, e o escândalo da Volks? E o da DFB? Outra versão dessa noção é a famigerada "lei de Gérson" (o jogador): "O importante é levar vantagem". O provérbio resume uma tendência humana tão lamentável como incorrigível, por isso nunca perde a atualidade. E, como "Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão", a enxurrada de escândalos nunca terá fim.
Aller guten Dinge sind drei
Na vida e nas máquinas caça-níqueis, "Todas as coisas boas vêm em três". A atração desse número em praticamente todas as civilizações dispensa comentários: Três Parcas, Santíssima Trindade, as Três Joias do budismo. Na China antiga, vencia em votação não a opinião da maioria, mas a que alcançasse três votos exatos – o número da perfeição. Uma exceção: "Um é pouco, dois é bom, três é demais".
Jeder ist sein Glückes Schmied
"Cada um é o forjador da própria sorte" é um estímulo à autodeterminação que lembra a noção do "self-made man" americano. O provérbio é uma variação de "Quisque faber suae fortunae", registrado pelo cônsul romano Ápio Cláudio Cego, por volta do ano 300 a.C.. Numa ironia histórica, o biógrafo Lívio atribuiu a cegueira de Ápio a uma praga – rogada por outra pessoa, naturalmente.
Auch ein blindes Huhn findet mal ein Korn
Datado de, no mínimo, 400 anos atrás, o dito "Até uma galinha cega acaba achando um grão de milho" tem sentido ambivalente – e também é empregado dessa forma. Pode significar que até o ser mais incapaz pode obter um sucesso – por sorte ou por pura teimosia, porém sem mérito real. Ou ser entendido como um incentivo aos menos capacitados, para que não percam a esperança e continuem persistindo.
Lügen haben kurze Beine
A advertência de que "A mentira tem pernas curtas" e, portanto, nunca vai muito longe, parece ser quase universal. Uma variante africana reza: "Você pode comer uma vez com uma mentira, mas não duas". Também sábia é a inversão de perspectiva contida no dito popular inglês "Engana-me uma vez, vergonha para ti; engana-me duas, vergonha para mim".
Einem geschenkten Gaul schaut man nicht ins Maul
Precisamente "A cavalo dado não se olha os dentes", só que rimando e com "boca" no lugar de "dentes". Obviamente data de um tempo em que cavalos eram considerados uma excelente prenda, e era má educação dar uma de dentista na presença do presenteador. Pois o exame revelaria a idade e condição da montaria – e, portanto, seu preço. Algo como, hoje, ir direto conferir no Google o valor do presente.
Scherben bringen Glück
"Cacos trazem felicidade" lembra a tradição judaica de quebrar copos de vidro no matrimônio, para simbolizar a destruição do Templo de Jerusalém e desejar boa sorte ao casal. Na Alemanha, um costume ligeiramente diferente é mantido até hoje: na "Polterabend", a noite anterior ao casório, quebra-se tudo o que seja de louça: pratos, xícaras, travessas – até mesmo um sanitário ou outro.
Kleider machen Leute
Assim como "O hábito faz o monge", trata-se de uma variante do velho ditado latino "Vestis virus reddit" (As roupas fazem o homem). Até hoje, a ideia é martelada em outdoors e revistas de moda para justificar a importância – e o preço – da aparência exterior. Uma variação genial é atribuída ao espirituoso autor americano Mark Twain: "Gente nua tem pouca ou nenhuma influência na sociedade".
Viele Köche verderben den Brei
"Cozinheiros demais estragam o mingau" é a tradução literal deste provérbio. A ideia é que, quando há gente demais dando opiniões ou ordens, e ninguém para concentrar e filtrar os esforços, o resultado é um fiasco. Enfim, uma apologia do trabalho organizado e da hierarquia, como no brasileiro "Muito cacique para pouco índio".
Wer im Glashaus sitzt, soll nicht mit Steinen werfen
Consta que "Quem tem telhado de vidro não atira pedras no do vizinho" tem origem na Alemanha, embora não se saibam mais detalhes. O ditado evoca a frase bíblica "Aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra", pois sugere que, da mesma forma como, no fundo, ninguém é sem pecado, de uma maneira ou de outra todos vivemos em casas com telhado de vidro.
Ein gutes Gewissen ist ein sanftes Ruhekissen
"Uma consciência livre é um travesseiro macio" concorre entre os ditos populares mais simpáticos da Alemanha. Não faça o mal, ele sugere, e você dormirá em paz. Palavras realmente sábias – embora sejam um fraco consolo para quem sofre de insônia crônica.
Fonte : Deutsche Welle


sábado, 10 de janeiro de 2015

1905: Domingo sangrento em São Petersburgo




Em 9 de janeiro de 1905, uma petição em tom desesperado era dirigida ao czar Nicolau 2º. A Rússia enfrentava uma crise profunda, as pessoas passavam fome, todas as camadas da população estavam insatisfeitas.

No dia 9 de janeiro de 1905, o czar Nicolau 2º recebeu uma petição em tom desesperado: "Estamos em situação miserável, somos oprimidos, sobrecarregados com excesso de trabalho, insultados, não nos reconhecem como seres humanos, somos tratados como escravos. Para nós, chegou aquele momento terrível em que a morte é melhor do que a continuidade do sofrimento insuportável".
O país estava afundado numa enorme crise, as pessoas passavam fome, em todas as classes da sociedade havia insatisfação. Os nobres não queriam aceitar a industrialização da Rússia, por acreditar que isso os empobreceria. Os camponeses sentiam-se oprimidos e enganados: apesar da abolição do regime feudal em 1856, toda a terra continuava pertencendo exclusivamente aos nobres. E não havia perspectiva de mudança.
De sua parte, os intelectuais exigiam uma participação na vida política. O czar Nicolau 2º, absolutista, ainda podia administrar e agir no seu imenso reino como bem entendesse. Às vésperas da primeira revolução russa, o soberano ainda não tomava conhecimento dos problemas dos trabalhadores, da fome, da miséria e das arbitrariedades dos proprietários de fábricas.

Numa situação tão tensa, um fato insignificante transformou-se, de repente, numa catástrofe. Quatro operários da maior fábrica de São Petersburgo foram demitidos, narra Jutta Petersdorf, historiadora do Instituto da Europa Oriental na Universidade Livre de Berlim. "Eles foram demitidos porque exigiram a punição de um feitor que era injusto e tratava mal os operários."
Início da revolta

Os quatro revoltosos estavam dispostos a lutar. O protesto foi apoiado pelos sindicatos fiéis ao regime, os chamados "sindicatos amarelos", criados pelas autoridades estatais nas regiões industriais russas, no início do século, para canalizar e controlar a crescente insatisfação popular. Tais associações sindicais eram dirigidas e administradas pela polícia local. O sindicato de São Petersburgo, que contava 11 mil filiados em janeiro de 1905, tentou manter a paz social, procurando fazer com que o diretor da fábrica anulasse a demissão dos quatro operários. Em vão. O industrial permaneceu irredutível.

Em 2 de janeiro, foi realizada uma assembleia do sindicato. Discutiu-se de maneira extremamente emocional o que se podia fazer em tal situação. E surgiu então a conclamação à greve. Pouco a pouco, mas de maneira inexorável, a situação começava a fugir ao controle das autoridades estatais. Outras fábricas de São Petersburgo aderiram à greve. Foi nesse clima de revolta que se decidiu a realização da marcha de protesto do dia 9 de janeiro, que dirigiria uma petição ao czar, reivindicando uma melhoria das condições de vida dos trabalhadores.

Marcha de protesto

Na manhã gelada do domingo, 9 de janeiro, uma multidão de 100 mil pessoas dirigiu-se então para a residência do czar, o Palácio de Inverno de São Petersburgo. A residência estava protegida pelos militares, com o apoio da cavalaria dos cossacos. Mas a multidão era pacífica. Não eram os aspectos revolucionários que predominavam na marcha, mas sim os ícones de santos da Igreja Ortodoxa, os estandartes eclesiásticos, as ladainhas rezadas. Por onde passava o cortejo, nas ruas de São Petersburgo, as pessoas faziam o sinal da cruz, e muitas se juntavam a ele.

Quando a multidão aproximou-se do palácio, ouviram-se os primeiros disparos. Sobre o massacre que se seguiu, existem divergências de interpretação. Algumas fontes falam de um ato espontâneo e inconsequente. Jutta Petersdorf e muitos outros historiadores acreditam, porém, que o banho de sangue foi premeditado.
Duzentas pessoas foram assassinadas e cerca de 800 ficaram gravemente feridas. A sangrenta repressão da marcha de protesto diante do palácio do czar em São Petersburgo foi o ponto de partida para as rebeliões que se seguiram. Poucos dias mais tarde, a população de Varsóvia – na época, administrada pela Rússia – saiu às ruas para protestar. Novamente, o regime czarista mandou abrir fogo contra os manifestantes.
Fim da primeira revolução russa

Mas o povo, insatisfeito, não podia mais ser contido. Os protestos eclodiram em toda a Rússia. Em outubro do turbulento ano de 1905, após uma greve geral, o czar Nicolau 2º assinou um decreto conhecido como Manifesto de Outubro. Ele abriu caminho para as primeiras eleições parlamentares livres. Isso marcou, ao mesmo tempo, o fim da primeira revolução russa, que começara de maneira sangrenta em São Petersburgo.


Segundo Jutta Petersdorf, "por um lado, a classe política foi pacificada através da formação de partidos e a possibilidade de concretizar eventualmente as suas esperanças através do trabalho parlamentar. De outro lado estava o movimento socialista, com a sua conclamação a uma rebelião armada, a qual fracassou então estrondosamente".