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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A Criança e a Relva

 Walt Whitman - Tradução de Geir Campos

Uma criança disse:O que é a relva? - trazendo um tufo em suas mãos;
O que dizer a ela?... sei tanto quanto ela o que é a relva.
Vai ver é a bandeira do meu estado de espírito,
tecida de uma substância de esperança verde.
Vai ver é o lenço do Senhor,
Um presente perfumado e o lembrete derrubado por querer,
Com o nome do dono bordado num canto,
pra que possamos ver e examinar, e dizer:

- É seu?

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

I

Celebro-me e canto-me,


E aquilo que assumo tu deves assumir,

Pois cada átomo que a mim pertence a ti pertence também.



Vagueio e convido a minha alma,

À vontade vagueio e inclino-me a observar a erva do Verão.

A minha língua, cada átomo do meu sangue, composto deste solo, deste ar,

Aqui nascido de pais aqui nascido de outros pais aqui nascido, e dos seus

pais também

Eu, aos trinta e sete anos, de perfeita saúde começo,

Esperando que só a morte me faça parar.



Suspensos os credos e as escolas,

Retiro-me por certo tempo, deles saturado mas não esquecido,

Sou o porto do bem e do mal, e seja como for falo,

Natureza sem obstáculos com a sua energia original.





Walt Whitman

in Canto de Mim Mesmo

Assírio & Alvim, 1999
XXVI







Agora só me resta ouvir,

Para juntar o que oiço a este canto, para deixar que os sons contribuam para

ele.



Oiço bravuras de pássaros, o rumor do trigo que cresce, o crepitar das

chamas, o crepitar da lenha com que cozinho,

Oiço o som que amo, o som da voz humana,

Oiço todos os sons, juntos, combinados, fundidos ou seguindo-se,

Sons da cidade e sons fora da cidade, sons do dia e da noite,

Jovens conversando com quem gostam, o alto risco dos trabalhadores quando

almoçam,

Os irados sons da amizade quebrada, a voz débil dos doentes,

O juiz com as mãos agarradas à secretária, com os lábios pálidos ditando uma

sentença de morte,

As elevadas vozes dos estivadores descarregando os navios junto ao molhe,

o refrão dos que levantam a âncora,

As sirenes de alarme que tocam, o grito de fogo, o zumbido imediato dos

motores de dos carros dos bombeiros com as sirenes e as luzes de

cores,

O silvo do vapor, o sólido rodar da caravana de carroças que se aproximam,

A marcha lenta tocada à cabeça do grupo que avança aos pares,

(Vão a algum funeral, as bandeiras estão cobertas de musselina negra).



Oiço o violoncelo, (é o lamento de um coração jovem),

Oiço a corneta de chaves penetrando velozmente nos meus ouvidos,

Fazendo estremecer o meu ventre e o meu peito num doce espasmo.



Oiço o coro da ópera,

Ah, isto sim, é música - isto está em harmonia comigo.



Grandiosa e fresca como a criação enche-me a voz do tenor,

A órbita flexível da sua boca derrama-se e sacia-me.



Oiço a perfeita soprano (que vale o meu canto comparado com o seu?)

A orquestra conduz-me em círculos mais largos que os de Urano,

Desperta-me ardores de que nunca suspeitara,

Faz-me navegar, tocar águas com os pés nus, as ondas que os lambem

indolentemente,

O granizo bate-me com toda a fúria, perco o ânimo,

Mergulho na doce morfina, estrangulam-me os falsos sinais da morte,

Por fim, de novo me ergo para sentir o enigma dos enigmas,

Isso a que chamamos Ser.





Walt Whitman

in Canto de Mim Mesmo

Assírio & Alvim, 1999
Etiquetas: fotografia, Fotogrfia DAVID HILLIARD


XX



Quem vem lá, ansioso, rude, místico, nu?

Como retiro forças da carne que me alimenta?



Em todo o caso, o que é um homem? Quem sou eu? Quem és tu?



Tudo o que assinalo meu chamarás teu,

Ou então perderias tempo a escutar-me.



Não lamento o que o mundo lamenta,

Que os meses são vazios e a terra apenas lodoçal e imundície.



O queixume e a humilhação juntam-se aos remédios para os inválidos, o

conformismo vai até à quarta geração,

Eu uso o chapéu como me apetece, dentro ou fora de casa.



Porque é que devia rezar? E venerar e ser cerimonioso?



Tendo examinado os estratos, analisando-os ao pormenor, consultando os

mestres, calculando com rigor,

Não encontro gordura mais agradável do que a que tenho agarrada aos meus

próprios ossos.



Em toda a gente vejo-me a mim mesmo, ninguém é mais do que eu, nem um

grão de cereal menos,

E o bem e o mal que digo de mim digo deles.



Sei que sou sólido e são,

Os objectos do universo convergem eternamente para mim,

Tudo foi escrito para mim e devo decifrar o seu sentido.

Sei que sou imortal,

Sei que esta minha órbita não pode ser traçada pelo compasso de um

carpinteiro,

Sei que não me apagarei como o fogo do archote que uma criança leva pela noite.



Sei que sou majestoso,

Não atormento o espírito para quem se defenda ou explique,

Sei que as leis elementares nunca se desculpam,

(No fim de contas, reconheço que o meu orgulho não é mais alto que o nível

onde edifico a minha casa).



Existo como sou, e isso basta,

Se mais ninguém no mundo o sabe fico satisfeito,

E se todos e cada um o sabem fico satisfeito.



Há um mundo que o sabe e é sem dúvida o mais vasto para mim, e esse sou

eu próprio,

E se o reconheço hoje ou dentro de dez mil ou dez milhões de anos,

Alegremente o posso aceitar agora, ou alegremente posso esperar.



O apoio do meu pé é entalhado em granito,

Rio-me daquilo que chamas dissolução,

E conheço a amplitude do tempo.



Walt Whitman

in Canto de Mim Mesmo

Assírio & Alvim, 1999

sábado, 13 de novembro de 2010

Quando ouvi pelo fim do dia

Quando ouvi, pelo fim do dia, como o meu nome havia sido

recebido com aplausos no Capitólio, ainda assim não foi

feliz para mim, a noite que se seguiu;

E, quando festejei, ou, quando os meus planos foram atingidos,

assim mesmo não me senti feliz;

Mas, no dia em que cedo me levantei, de perfeita saúde,

renovado, cantando, inalando o maduro fôlego outonal,

Quando vi a lua cheia, a oeste, ficando pálida e a desaparecer

na luz da manhã,

Quando vagueei sozinho sobre a praia e, despindo-me, me banhei,

rindo com as águas frias, e vi o sol nascer,

E quando pensei em como o meu querido amigo, o meu amante, estava a

caminho, Oh, então senti-me feliz;

Então, cada fôlego me foi mais doce – e todo o dia, meu alimento

me nutriu mais – e o belo dia passou bem,

E o seguinte chegou com igual alegria – e com o próximo, pelo fim da tarde,

chegou o meu amigo;

Naquela noite, quanto tudo estava calmo, ouvi as águas rolar

continuamente, lentas sobre as margens,

Ouvi o assobio sussurrado do líquido e das areias, como que dirigindo-se a

mim, cochichando, felicitando-me,

Porque aquele que amo dormia comigo sob a mesma coberta

na noite fria,

No sossego, nos outonais raios de luar, seu rosto inclinado

sobre mim,

Seu braço em redor do meu peito, suavemente – e naquela noite

fui feliz.



When I heard at the close of the day



When I heard at the close of the day how my name had been

receiv’d with plaudits in the capitol, still it was not a

happy night for me that follow’d;

And else, when I carous’d, or when my plans were accomplish’d,

still I was not happy;

But the day when I rose at dawn from the bed of perfect health,

refresh’d, singing, inhaling the ripe breath of autumn,

When I saw the full moon in the west grow pale and disappear

in the morning light,

When I wander’d alone over the beach, and undressing, bathed,

laughing with the cool waters, and saw the sun rise,

And when I thought how my dear friend, my lover, was on his

way coming, O then I was happy;

O then each breath tasted sweeter – and all that day my food

nourish’d me more – and the beautiful day pass’d well,

And the next came with equal joy – and with the next, at evening,

came my friend;

And that night, while all was still, I heard the waters roll

slowly continually up the shores,

I heard the hissing rustle of the liquid and sands, as directed to

me, whispering, to congratulate me,

For the one I love most lay sleeping by me under the same cover

in the cool night,

In the stillness, in the autumn moonbeams, his face was inclined

toward me,

And his arm lay lightly around my breast – and that night I

was happy.



Walt Whitman