sábado, 15 de junho de 2013

Acrobata da Dor



Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! reteza os músculos, reteza
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.


- Cruz e Sousa, do livro “Broquéis”, 1893.
Sempre vieni dal mare
e ne hai la voce roca,
sempre hai occhi segreti
d'acqua viva tra i rovi,
e fronte bassa, come
cielo basso di nubi.
Ogni volta rivivi
come una cosa antica
e selvaggia, che il cuore
già sapeva e si serra.

Cesare Pavese

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A Escravidão de Nosso Tempo

''Muitas constituições foram criadas - a começar pela inglesa e a estadunidense, terminando com a japonesa e a turca - de modo a fazer com que as pessoas acreditassem que todas as leis estabelecidas atendiam a desejos expressos pelo povo. Mas a verdade é que não só nos países autocráticos, como naqueles supostamente mais livres - como a Inglaterra, os EUA, a França e outros - as leis não foram feitas para atender a vontade da maioria, mas sim a vontade daqueles que detêm o poder. Portanto elas serão sempre, e em toda parte, aqueles que mas vantagens possam trazer à classe dominante e aos poderosos. Em toda a parte e sempre, as leis são impostas utilizando os únicos meios capazes de fazer com que algumas pessoas se submetam à vontade de outras, isto é, pancadas, perda da liberdade e assassinato. Não há outro meio.

Nem poderia ser de outro modo, já que as leis são uma forma de exigir que determinadas regras sejam cumpridas e de obrigar determinadas pessoas a cumpri-las (ou seja, fazer o que outras pessoas querem que elas façam) e isso só pode ser obtido com pancadas, com a perda da liberdade e com a morte. Se as leis existem, é necessário que haja uma força capaz de fazer com que alguns seres se submetam à vontade de outros e esta força é a violência. Não a violência simples, que alguns homens usam contra seus semelhantes em momento de paixão, mas uma violência organizada, usada por aqueles que têm o poder nas mãos para fazer com que os outros obedeçam à sua vontade.

Assim, a essência da Legislação não está no Sujeito, no Objeto, no Direito, na idéia do domínio da vontade coletiva do povo ou em qualquer outra condição tão confusa e indefinida, mas sim no fato de que aqueles que controlam a violência organizada dispõe de poderes para forçar os outros a obedecê-los, fazendo aquilo que eles querem que seja feito

Assim, uma definição exata e irrefutável para legislação, que pode ser entendida por todos, é esta: "As leis são regras feitas por pessoas que governam por meio da violência organizada que, quando não acatamos, podem fazer com que aqueles que se recusam a obedecê-las sofram pancadas, a perda da liberdade e até mesmo a morte".


[Liev Tolstoi; A Escravidão de Nosso Tempo]

A Correspondência de Fradique Mendes

"A alma modela a face, como o sopro do antigo oleiro modelava o vaso fino."


- Eça de Queirós

Claridade



A minha claridade é noite escura,
sol negro desviado por um muro
branco de cal, clarão que apaga o sol,
luz que me ofusca, sendo treva e luz.

Às estrelas reclamo que iluminem
o papel branco do meu longo dia,
o grafito que suja o alvo muro
do sol que, sendo noite, me alumia.

Quanto mais luz procuro, mais obscuro
me torno em pleno dia, e mais me assombram
as sombras que se juntam no arrebol.

Recorro à noite se quero mostrar
as frutas expostas do meu ser.
E se quero esconder-me, busco o sol.

- Lêdo Ivo, in "Crepúsculo Civil", 1990.


Não nascemos prontos

"A internet, dentre as mídias contemporâneas, é a mais fantástica e estupenda ferramenta para acesso à informação; no entanto, transformar informação em conhecimento exige, dado que o conhecimento (ao contrário da informação) não é acumulativo, mas seletivo."


- Mario Sergio Cortella 

Os imaginários dos protestos para:


Extrema direita - Finalmente pensa ter uma base social oposicionista jovem para tentar derrubar o governo federal do PT e as prefeituras da base situacionista. Percebem nos movimentos o "cansei" rejuvenescido e com base social, que finalmente vai dar certo, tal como o Comício da Central do Brasil e as rebeliões de marinheiros e sargentos foram para o começo de 1964. Quanto mais "baderna" melhor para combater a corrupção com o retorno da ordem da ultradireita.

Extrema esquerda - Finalmente pensa em ter uma base social oposicionista para tentar derrubar o governo federal do PT e as prefeituras da base situacionista junto com os governos estaduais do PSDB e aliados. Percebem nos movimentos algo como outubro de 1917, ou pelo menos algo como o que aconteceu no Egito/Tunísia e que com a direção correta finalmente vai dar certo e levará à revolução ultra socialista.

Radicais chic da classe média/alta - Depois de anos de aumentos salariais e de rendas não tão altos como deveria ser e "apertos econômicos" para necessidades crescentes, como pagar outra viagem ao exterior, e aeroportos cheios, e infra-estrutura inadequada, etc. Órfãos ideológicos depois de anos de falta de opção eleitoral e convicção nos "plebiscitos" entre o real poder "sequestrado" somente entre o PT X PSDB, afinal nenhuma terceira via deles se criou, desde o voto de protesto no Enéas, Heloísa Helena, Marina, talvez possa haver algo considerado com um cheiro de Paris-tipo-maio-de-1968 para romper a "corrupa" e o spleen local. Quanta intrepidez e estética pós-moderna nos movimentos jovens. E como as suas últimas candidaturas eleitorais alternativas municipais e estaduais naufragaram, não se realizaram para tentar tirar ou o PT, ou o PSDB do poder e, nem os votos nulos ou brancos também parecem não ter levado à lugar nenhum mesmo, vamos ver o que pode acontecer de bom.

Jovens de classe média para cima - Alguns estão entediados, alguns sempre foram mimados consumidores e em alguns casos educados sem muitos limites, revoltado com o aumento recente do estacionamento? Vítimas temerosas das concretas contradições e ameaças da violência urbana, não aguentando mais os pais sempre reclamando do Lula-Dilma e sempre perdendo nas eleições. Querem fazer um movimento via facebook e IPhone-IPad, sem líderes, sem qualquer líder que tenha ou possa vir a ter uma cara ou nome conhecido no futuro, um movimento sem partidos políticos organizados, passeatas sem lugar para discursos e palavras-de-ordem, será que dava para usar o twitter e resumir logo tudo, ao invés de um comício com gente falando conceitos e com discursos demorados ?

Jovens de classe média para baixo - Lutadores econômicos da nova classe trabalhadora, batalhadores econômicos, percebem um primeiro movimento de rua importante nas suas vidas políticas, querem derrubar o aumento das passagens e que realmente os prejudica financeiramente. Vítimas da violência urbana constante. Misturam e confundem os projetos políticos e ideológicos de poder reais e a história dos partidos políticos nos últimos 30-20 anos, conjunturas que não viveram (a conjuntura anterior dos anos 1980). Os pais e familiares tendem mais a serem denominados como os novos "emergentes" da "classe C" ou mesmo "D" dos últimos 10 anos de poder do PT, com alguma melhoria desde o período do Sarney na presidência (não o último que assumiu como presidente do Senado, mas o anterior ao Collor) mas sentem ainda que tudo isto ainda é muito pouco e a coxinha aumentou na cantina.

PSDB - Quer derrotar e colocar toda a culpa e responsabilidade no PT.

PT - Quer derrotar e colocar toda a culpa e responsabilidade no PSDB.

Lumpesinato político (alguns). Onde é que vai ter a próxima briga e o próximo pancadão mesmo ?

Tropas (alguns) - Onde está o gatilho mesmo ?

Dois lados não brigam fisicamente para valer se houver uma maioria disposta a impedir a briga. Sem uma maioria de direita moderada, centro e esquerda moderada - o pau-vai-comer e não se sabe para que lado vai cair!

Salve-se quem puder se isso acontecer !

Ricardo Costa de Oliveira

FAZ MUITO TEMPO QUE ESTAMOS TRISTES ASSIM

texto do Mário Bortolotto sobre os protestos.

...

FAZ MUITO TEMPO QUE ESTAMOS TRISTES ASSIM

(sobre ontem à noite. Mas não começou ontem à noite)


Existe um santo que é o São Wolfgang que tenta convencer o diabo com palavras desafiando o capeta a construir uma igreja. Este é o santo que ainda acredita no poder do convencimento a partir de argumentos. Ontem eu tava em casa escrevendo. Como sempre, com todas as cortinas fechadas, completamente isolado do mundo. É preciso ficar fora do mundo, pra tentar entender com clareza o que tá acontecendo, assim como você tem que dirigir uma peça de teatro de fora, pra poder entender a cena e ver o que realmente está acontecendo. Então essa atitude de isolamento não é como muitos podem pensar uma atitude alienada. E não é preciso estar sempre no olho do furacão pra sacar o tamanho da encrenca. Então eu tava escrevendo em casa e ouvi o barulho lá fora. E abri a janela e olhei. Tinham jogado um monte de lixo na rua dificultando o tráfego. Algumas pessoas corriam com medo, outras mais curiosas paravam pra olhar. Aí liguei a tv e vi as notícias. Li o que meus amigos estavam escrevendo. O Batata me ligou do teatro e disse que a coisa tava feia. Que teve que fechar o teatro e tiveram que cancelar a peça da Michelle pq uma rapaziada passou tocando o terror e inclusive quebraram os vidros do carro do Batata. Como eu fiz na noite do PCC (e inclusive escrevi um texto pra Folha de São Paulo), simplesmente vesti minha roupa e fui pra rua ver na real o que tava acontecendo. Subi a Frei Caneca quase deserta e totalmente atulhada de lixo. O único bar que ficou aberto foi o da esquina da Paim (ninguém ia ter a manha de tentar depredar aquele bar com a rapaziada que frequenta ali, sabe como é que é). Cheguei no teatro, bati na porta, o Batata abriu e eu entrei. Mó clima de funeral. As pessoas discursavam a favor e contra a manifestação. E também a favor e contra a repressão. Fico imaginando se é assim mesmo, tão simples. Ou se como em 64, vamos todos marchar com as senhoras na luta com a família com Deus pela Liberdade acreditando que estamos mesmo do lado certo e rezando pelo Deus verdadeiro. A história é simples. É um direito do cidadão se manifestar. O que eu pergunto é se esse cidadão bem intencionado não está sendo apenas e tão somente usado por um interesse politico muito maior e que ele não está se dando conta. Sempre há interesses políticos por trás de tudo. E são esses interesses é que valem no final. O cara morrendo no Vietnã com o retrato da namorada e acreditando que estava morrendo pelo seu país, ou no Iraque ou em qualquer merda de guerra que for. Marighela costumava doar 94% de seu salário para o partido e viver com míseros 6%. Ele acreditava na causa. E acreditava também quando roubava bancos na época da ditadura. Marighela morreu acreditando na sua causa. Isso o transforma num herói? Se ele matou pessoas por isso, eu acredito que não. Nunca vou transformar em herói alguém que em nome do que quer que seja se acha no direito de tirar a vida de outro. Mas Marighela tinha convicções, e isso eu admiro. As pessoas que foram pra rua (a maioria delas) também acreditam que tem convicções, e isso é bacana. Acreditar é o primeiro passo. Se não fosse o aumento de 20 centavos (é claro que esses 20 centavos são só um pretexto. É absurdo alguém ficar indignado pq pessoas estão lutando contra um aumento de 20 centavos. Acho que todo mundo já entendeu que não são pelos 20 centavos. Se eu tivesse um cachorro aqui em casa, ele estaria mordendo o meu pé por eu perder tempo explicando isso) seria outro motivo qualquer. Alguém com interesses muito maiores chegou a conclusão que esse é o momento de fazer uma manifestação contra atitudes do governo. E essas pessoas apenas querem estar no governo num futuro próximo e nada vai mudar. E vamos ficar nos lamentando pq em algum momento nós acreditamos nela. E a idéia é essa mesma. Jogar a população contra o governo. E o governo tá mais sujo que banheiro de rodoviária, né? Então é alvo fácil. Os caras fazem por merecer. Bom, eu não votei no Haddad. Eu não votei em ninguém. Podem me chamar de alienado, mas enquanto não aparecer alguém que eu confie, eu não vou mais votar. Eu não voto em partidos. Voto em pessoas. E há muito tempo nenhum político consegue me convencer. É até muito simplista falar isso, mas o que eu posso fazer? Glauber Rocha já dizia que “política e poesia é muito pra uma pessoa só”. Eu fico com a poesia, é claro. Eu acredito em poetas, mesmo quando eles mentem. Eu não acredito em políticos, mesmo quando eles falam a “verdade”. Então não tem nada a ver com polícia. A polícia é só um instrumento muito mal utilizado pelas forças repressoras, é só isso. Mas de qualquer maneira, sou sempre a favor de qualquer manifestação. Mas é claro que mandaram fechar justamente a Paulista e assim prejudicar a vida de muita gente que não tinha nada a ver com isso. Foder o transito de uma cidade como São Paulo na hora do rush, vai atrair atenção internacional. Não é pouco. Mas é o preço que se paga, né? E não é pelos 20 centavos. Alguém tá ganhando muito mais com isso e com as boas intenções de quem estava participando da manifestação e podem ter certeza que não é o estudante ou o trabalhador que vai pagar 20 centavos a menos na sua passagem de ônibus. No fim, nós estamos sempre trabalhando pra eles. Seja se manifestando ou indo contra a manifestação. No final, não somos nós que vamos sair ganhando. Lembram das manifestações pelas eleições diretas? Foi bacana. Aparentemente o povo conseguiu o que queria. E aí o Collor foi eleito. E foi o povo que colocou ele lá. Mas será que foi o povo mesmo? Que eu saiba, a máquina é bem mais poderosa que a vontade popular (que não tem muita noção de qual é o alvo real) e atira sempre armado de boas intenções. Aí a manifestação acontece, muito legítima, é claro. E o tumulto está armado. A reação estúpida da polícia agredindo pessoas. As imagens são chocantes. Alguns policiais mais sádicos devem ter se divertido com aquilo. Outros que estavam apenas trabalhando, deviam estar bem constrangidos por fazer parte disso. Mas agora a população toda vai odiar a polícia. E quem é que pode tirar a razão da população quando vc sabe que um filho seu foi agredido covardemente? Quem vai tirar a razão de ficar revoltado do fotógrafo Sergio Silva que foi atingido por uma bala de borracha e vai perder a visão? E no meio disso tudo, pessoas se ferrando de ambos os lados. Enquanto os verdadeiros responsáveis por tudo estão muito longe daqui. E podem ter certeza que eles não vão dar a cara pra bater. Nós nem sabemos com exatidão quem são os nossos verdadeiros inimigos. Então saímos atirando apenas. Seja bolas de borracha, vinagre ou quebrando carros. Nos sentimos bem fazendo parte de algo, estando do lado que nós achamos certo. Aquelas senhoras da marcha com a família em 64 achavam que estavam certas. Os caras pintadas também achavam que estavam certo. E na verdade eles estavam apoiados em suas convicções. E um homem sem convicções não é porra nenhuma. Muitos aproveitam esse tipo de situação pra provocar baderna e sair depredando tudo como aconteceu ontem. Mas esses “baderneiros” não são teletransportados da Enterprise. Eles não aparecem por acaso, eles fazem parte do elenco contratado, não se iludam. E isso, é claro, só tira a legitimidade de quem estava apenas (e coberto de boas intenções, repito) querendo se manifestar contra algo muito maior do que os benditos 20 centavos a mais. Talvez já não seja mais o tempo de São Wolfgang, infelizmente. Ninguém mais presta atenção em argumentos e no poder da palavra. As pessoas querem ação e agem indiscriminadamente e quem age indiscriminadamente costuma “errar no alvo”. Voltei pra casa com essa imagem triste na minha cabeça. De uma sombra enorme pairando sobre a Avenida Paulista. E essa sombra enorme tinha uma imagem disforme, mas era possível ver os dentes brancos aparecendo no rosto dela. Eu sei que ela tava sorrindo. Nós aqui embaixo, estamos todos muito tristes. Mas já faz muito tempo que estamos assim. Mas alguém tá rindo disso tudo. Eles sempre ganham. E no final eles vão se abraçar e sorrir pras fotos. Eles sabiam que iam vencer. 

( Mario Bortolottodois)

Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio.

"O texto age como se não soubéssemos de mais nada e não nos esquecessemos de nada. Irritamos a palavra comum até que ela, literalmente, perca a paciência e ofereça aquilo que supera o seu conteúdo."
Pág. 136
Herta Muller, Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio.



O Espelho


Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

- Mia Couto, no livro "Idades Cidades Divindades",

Lisboa, Caminho, 2007.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Enquanto brincam no gramado as moças chiques
Eu quero chuvas pra estragar o piquenique
Eu não provei aquele tipo de xarope
Que está por cima nas pesquisas do IBOPE
Eu estou remando rio acima por prazer
Não há nada a desculpar, foi por querer
Me passe o sal pra botar na sobremesa
O Grande Público cansou minha beleza

( aldir blanc / joão bosco )

I. O POEMA



Um poema como um gole d’água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.

Mario Quintana in "O Aprendiz de Feiticeiro".

ESTILO



estilo é a resposta para tudo –
um novo jeito de encarar algo estúpido ou
perigoso.
é preferível fazer algo estúpido com estilo
do que fazer algo perigoso
sem estilo.

fazer algo perigoso com estilo
isso é o que eu chamo de arte.

a tourada pode ser uma arte
boxe pode ser uma arte
amar pode ser uma arte
abrir uma lata de sardinhas pode ser uma arte.

nem todos têm estilo.
nem todos conseguem manter o estilo.
já vi cães com mais estilo do que homens
embora nem todo cão tenha estilo.
isso os gatos têm de sobra.

quando Hemingway estourou seus miolos na parede
com um tiro
aquilo foi estilo.

ou às vezes as pessoas te oferecem estilo.

Joana d’Arc tinha estilo
João Batista
Cristo
Sócrates
César,
García Lorca.

conheci homens na cadeia com estilo.
conheci mais homens na cadeia com estilo
do que os que conheci fora da cadeia.

estilo é o que faz a diferença,
um jeito de realizar,
um jeito de estar realizado.

6 garças paradas numa lagoa
ou você saindo nua do banheiro
sem me
ver.

Poema: Charles Bukowski
Tradução: Fernando Koproski
do livro :
A MOR É TUDO QUE NÓS DISSEMOS QUE NÃO ERA (7 Letras)

domingo, 9 de junho de 2013

Uma árvore, um parque




A praça Taksim e a história de Istambul

ORHAN PAMUK
RESUMO

O Prêmio Nobel de Literatura manifesta apoio aos recentes protestos na praça Taksim, em Istambul, cujo estopim foi a decisão governamental de arrasar o parque Gezi. A partir de vigília realizada por sua família, em 1957, contra o corte de uma castanheira, ele evoca momentos afetivos e políticos ligados à praça e à cidade.

-
Para compreender os acontecimentos em Istambul e entender essas pessoas corajosas que estão nas ruas, combatendo a polícia e sufocando com a fumaça venenosa do gás lacrimogêneo, quero começar com uma história pessoal.

Em meu livro de memórias "Istambul" (Companhia das Letras, 2007), escrevi sobre como minha família inteira vivia nos apartamentos que compunham o prédio Pamuk, em Ni?anta??. Em frente a esse prédio havia uma castanheira de 50 anos de idade, que, felizmente, continua ali. Mas, certo dia, em 1957, o prefeitura decidiu derrubar essa árvore para alargar a rua. Os burocratas presunçosos e governadores autoritários ignoraram a oposição do bairro.

Assim, no dia em que a árvore seria cortada, meu tio, meu pai e a família toda passaram dia e noite na rua, revezando-se para montar guarda. Dessa maneira protegemos nossa árvore; mas também criamos uma memória compartilhada que a família toda ainda recorda com prazer e que nos une.

Hoje a praça Taksim é a castanheira de Istambul e deve continuar a sê-lo. Vivo em Istambul há quase 60 anos e não posso imaginar que haja um único morador da cidade que não tenha pelo menos uma recordação vinculada de algum modo à praça.

Nos anos 1930, o velho quartel de artilharia que agora querem converter num shopping center continha um pequeno estádio de futebol onde eram promovidas partidas oficiais. O famoso "Taksim Gazino", que ocupava o centro da vida noturna de Istambul nas décadas de 1940 e 1950, ficava numa esquina do parque Gezi.

Mais tarde todas essas construções foram demolidas, árvores foram cortadas, novas árvores foram plantadas, e uma fileira de lojas e a galeria de arte mais famosa de Istambul foram instaladas em uma lateral do parque. Nos anos 1960 eu sonhava em ser pintor e expor meus trabalhos nessa galeria.

Nos anos 1970, a praça foi palco de comemorações entusiásticas do Dia do Trabalho promovidas por sindicatos e ONGs de esquerda e, durante algum tempo, eu mesmo participei dessas comemorações. (Em 1977, 42 pessoas foram mortas numa explosão de violência provocada e no caos que a seguiu.) Durante minha juventude, assisti com curiosidade e prazer a toda espécie de partidos políticos --partidos da direita e da esquerda, nacionalistas, conservadores, socialistas, social-democratas-- promovendo comícios em Taksim.

Neste ano o governo proibiu a celebração do Dia do Trabalho na praça. Quanto ao quartel, que supostamente seria reconstruído, todos em Istambul sabem que ele acabaria como mais um shopping ocupando o último espaço verde que resta no centro da cidade.

O fato de que mudanças tão significativas na praça e no parque que abrigam as memórias de milhões de pessoas tenham sido planejadas e realizadas até a etapa da derrubada de árvores sem que a população de Istambul tenha sido consultada antes foi um erro grave do governo de Erdogan.

Fica claro que essa atitude insensível nasce do desvio crescente do governo rumo ao autoritarismo. (O relatório de direitos humanos da Turquia é hoje o pior de uma década.) Mas me enche de esperança e confiança ver que o povo de Istambul não vai abrir mão nem de seu direito de promover manifestações políticas na praça nem de suas memórias sem lutar.


tradução CLARA ALLAIN

O Erotismo

"A atividade sexual de reprodução é comum aos animais sexuados e aos homens, mas,
aparentemente, só os homens fizeram de sua atividade sexual uma atividade erótica, e o
que diferencia o erotismo da atividade sexual simples é uma procura psicológica
independente do fim natural encontrado na reprodução e na preocupação das crianças.
Abandonando essa definição elementar, voltarei imediatamente à fórmula que propus
inicialmente, segundo a qual o erotismo é a aprovação da vida até na morte. Com efeito,
se bem que a atividade erótica seja inicialmente uma exuberância da vida, o objeto dessa
procura psicológica, independente, como eu o disse, da preocupação de reprodução da
vida, não é estranho à morte. Existe aí um paradoxo tão grande que, sem mais demora,
tentarei dar uma aparência de razão de ser à minha afirmação através de duas citações de
Sade:

"Infelizmente, não há nada mais seguro que o secreto, e não há um libertino
que esteja um pouco dentro do vício que não saiba quanto o assassínio tem
de poder sobre os sentidos..."

Numa outra frase mais singular ele diz:

"Não há melhor meio para se familiarizar com a morte do que associá-la a
uma idéia libertina"." (Bataille, "O Erotismo", introdução, p.10)


La inocencia robada

"La enseñanza y el aprendizaje son prácticas profundamente políticas. Son políticas en todos los momentos del circuito: en las condiciones de producción (¿quién produce el saber?, ¿para quién?), en los saberes y en las formas mismas del saber (¿saber de acuerdo con qué plan?, ¿útil para qué?),en su publicación, circulación y accesibilidad, en sus usos profesionales y populares y en sus impactos en la vida cotidiana.
Sin embargo, el discurso al uso sobre la educación no sólo prescinde de la naturaleza ideológica de la enseñanza y el aprendizaje, sino que excluye también del ámbito político la cultura, reduciéndola a un discurso puramente estético o a una llamada cuasi religiosa para celebrar los "grandes libros" y las
"grandes tradiciones" de la llamada "civilización occidental"".


Henry Giroux

sábado, 8 de junho de 2013

ESTA GENTE



Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSON

Notas Sobre o Anarquismo

'As autoridades que são ilegítimas, e que, portanto, não podem se justificar, são aquelas que não estão fundadas no direito e na razão. A autoridade que cria opressão de qualquer tipo - seja ela econômica, política, de gênero, de raça, ou qualquer outro tipo de discriminação - é uma autoridade ilegítima. Partimos de uma premissa que os homens e as mulheres são livres e que por inúmeras razões, tornaram-se escravos - situação em nos encontramos hoje. Somos escravos do Capital, escravos do Estado, escravos dos preconceitos, enfim, escravos pelos mais diferentes motivos. Qualquer ato de autoridade que contribua para que esses laços de escravidão se apertem ou para que eles sejam estendidos, é um ato de autoridade ilegítima. Deve ser denunciado e combatido portanto.

A priori, a utilização da autoridade é sempre ilegítima, até que se prove o contrário. “Então, o ônus da prova está sempre sobre aquele que alega que alguma relação autoritária e hierárquica é legítima. Se não puderem provar, ela [a autoridade] deverá ser desmantelada.”


Noam Chomsky

terça-feira, 4 de junho de 2013

« Mieux vaut une amère vérité qu’un doux mensonge. »

Proverbe russe
 

Leon Tolstóy e Maksim Górky

en Yasnaya Poliana 1900

O apanhador no campo de centeio

Não é nada engraçado ser covarde. Talvez eu não seja totalmente covarde. Sei lá. Acho que talvez eu seja apenas em parte covarde, e em parte o tipo de sujeito que está pouco ligando se perder as luvas. Um de meus problemas é que nunca me importo quando perco alguma coisa – quando eu era pequeno minha mãe ficava danada comigo por causa disso. Tem gente que passa dias procurando o que perdeu. Eu acho que nunca tive nada que me importaria muito de perder. Talvez por isso eu seja em parte covarde. Mas isso não é desculpa. Sei que não é. O negócio é não ser nenhum um pouquinho covarde. Se é hora de dar um soco na cara de alguém, e dá vontade de fazer isso mesmo, a gente não devia nem conversar. Mas não consigo ser assim. (JD Salinger. O apanhador no campo de centeio, 18ª ed., Editora do Autor, p.91)

sábado, 1 de junho de 2013

A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça.
E promete incendiar o país.

Ferreira Gullar

"Vivemos hoje novas formas de vida, novos regimes precisam criar identidades que se adaptem a eles. Daí que é comum hoje governos e meios de comunicação inventarem um passado. Como dizia George Orwell, estamos em uma idade em que o presente controla o passado. Altera-se a História para servir aos interesses de alguns poucos grupos [...] É vital o historiador lutar contra a mentira. O historiador não pode inventar nada, e sim revelar o passado que controla o presente ás ocultas".

ERIC. J. HOBSBAWM.


Robson Bertasso - Equipe História Agora.

“Reflexões sobre o Romance-rio”

"Todo mundo tem pressa. A vida se tornou tão múltipla, tão estonteamente tentacular, que o homem, no afan de tudo gozar, de tudo aprender, de tudo penetrar - procura a síntese, sofre da mania do comprimido, vive assombrado pelo relógio, a procurar o máximo de prazer e de experiência no mínimo de tempo. No meio de toda essa balbúrdia a que já nos vamos habituando, há um fenômeno muito curioso que desafia o nosso espírito de análise. É o que o século da pressa, da síntese, da falta de repouso para a leitura - o romance-rio, o romance caudaloso, o romance camalhaço ressurge a melhor maneira."

- Erico Verissimo, em “Reflexões sobre o Romance-rio”. Revista do Globo, 213, 1937. p 17.

AO IDEAL

AO IDEAL
A quem como a ti amei eu, ó sombra amada!
Atraí-te a mim, para dentro de mim-- e desde então
quase me fiz eu sombra, e corpo tu.
Todavia os meus olhos não aprendem,
afeitos a ver as coisas fora de si:
pra eles és sempre o eterno "fora de mim".
Ah, estes olhos põem-me fora de mim!"

(F. Nietzsche, "POEMAS", antologia, versão portuguesa e notas de Paulo Quintela, 2ªed revista, Centelha, Coimbra 1981, p.191. )
“Inútil reter
a ignóbil mão suja
posta sobre a mesa.
Depressa, cortá-la,
fazê-la em pedaços
e jogá-la ao mar!
Com o tempo, a esperança
e seus maquinismos,
outra mão virá
pura – transparente –
colar-se a meu braço.”

Carlos Drummond de Andrade

roberto piva - entrevista a claudio r. da silva, 1994


Antonin Artaud, que era um poeta xamânico, dizia: "- O sexo tem que ser frio,
mercurial como o éter". E Ferenczi, denominado enfant terrible da psicanálise,
afirma que não existe a fase anal, genital, mas que a libido é flutuante. Nesse
sentido, a questão da identidade é inexistente: o gay não existe para a libido.

fonte : Rubens Zárate


Coisas da Gramática Polaca


Przyimki – preposições
Dopełniacz – genitivo
Bez (sem), blisko (perto),dla (para), do (para), koło (ao redor), niedaleko (próximo), obok (ao lado), od (a partir de), z (de), u (de), oprócz (além).
Miejscownik - locativo
Na (na), o (sobre), przy (ante), w (em), po (pós, depois)
Biernik – acusativo
Wśród (entre), podczas (durante), z powodu (em razão de), na (na), nad (sobre), o (sobre), po (depois), pod (sob), przed (antes), przez (ao longo, por), za (atrás)
Narzędnik – instrumental
Między (entre), nad(sobre, pod (sob), przed (antes), z (de), za (atrás, pós)

Preposições comuns a dois casos de declinação:
Na = locativo, acusativo
O = locativo, acusativo
Po = locativo, acusativo
Nad = instrumental, acusativo
Pod = instrumental, acusativo
Przed = instrumental, acusativo
Za = instrumental, acusativo

Z = instrumental, genitivo

O que é a vida?

''O motivo pelo qual nosso ego sensível, perceptivo e pensante não se encontra em nenhum lugar dentro de nossa imagem científica do mundo, pode ser facilmente exposto em oito palavras: porque ele próprio é essa imagem do mundo.É idêntico ao todo e portanto não pode estar contido nele como sua parte.''
-Erwin Schrödinger


[ ''O que é a vida?'' O Paradoxo aritmético: A unicidade da Mente]

quarta-feira, 29 de maio de 2013

"Quero uma poesia que mate"
LeRoi Jones

Estamos a dormir e a sonhar que acordámos
com os nervos ligados
a uma bateria de imagens coléricas,
pólvora enrolada na língua
e dedos recriminadores apontando tudo,
dedos enfiados bem fundo na garganta, nessa ferida absurda.

Já tive oportunidade de dizer-te que sou um animal obcecado,
que faço o olhar descer como a noite pelas costuras
no vestido de senhoras sentadas a uma hora destas,
lendo bestsellers nos cafés mais demorados
de Lisboa. Posso agora acrescentar que perdi toda a esperança
de vir a ser recolhido nas suas mãos e de ser acarinhado
nesses regaços, a não ser
que sejam elas a mudar de ideias,
que lhes suba ao espírito um fervor demencial
e rasgando o ventre dêem à luz um eloquente suicida.

Estamos eu, tu, estamos todos à espera
de uma criança em chamas que venha fazer letra morta
dos discursos que nos afogam, de todos os poetas já nacionalizados
e da exausta metafísica que nos gela o sangue.
Essa criança tarda em vir, se calhar calou-se à nascença,
seja como for
não nos resta outra coisa senão chamar mais alto.
Enquanto não vem
vamos nós saindo de chinelos para o cosmos,
em busca desse electro-choque experimental, o texto-motor
que nos vai servindo de exercício e passatempo.

À noite deixo a luz do corredor acesa e a porta do quarto
entreaberta,
não por medo do escuro, mas para conduzir
os demónios aos meus sonhos.
Quero acordar inspirado, há que erguer uma obra
nem que seja só para depois vê-la arder.
Morrer para ela – ainda que vivas –,
ainda que depois de estar escrita a última linha,
permaneças à margem e não te deixes convencer.



Diogo Vaz Pinto


Nevralgias
Blogue "O Melhor Amigo"

Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

Cartas a Lucílio

"Quando vires alguém com um estilo rebuscado e cheio de adornos podes ter a certeza de que a sua alma apenas se ocupa igualmente de bagatelas. Uma alma verdadeiramente grande é mais tranquila e senhora de si a falar, e em tudo quanto diz há mais firmeza do que preocupação estilística. Tu conheces bem os nossos jovens elegantes, com a barba e o cabelo todo aparado, que parecem acabadinhos de sair da fábrica! De tais criaturas nada terás a esperar de firme ou sólido. O estilo é o adorno da alma: se for demasiado penteado, maquilhado, artificial, em suma, só provará que a alma carece de sinceridade e tem em si algo que soa a falso."


Sêneca

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Notas de Petersburgo de 1836

de Nikolai Gogol

“Petersburgo é um rapazinho cheio de expediente, nunca fica em casa, sempre se veste com capricho e, todo enfeitado diante da Europa, faz uma reverência para as pessoas de além-mar. (...) Moscou é um grande bazar; Petersburgo é uma loja iluminada. Moscou é necessária para a Rússia; para Petersburgo, a Rússia é necessária.”

“Em suma, Petersburgo, todo o mês de abril, parece preparar-se para alçar vôo. Desprezar com alegria a vida sedentária e sonhar o tempo todo com estradas distantes, sob outros céus, nos bosques verdejantes do sul, em terras de ar novo e fresco. Com alegria para aquele a quem, no fim de uma rua de Petersburgo, se delineiam as montanhas do Cáucaso cobertas de nuvens, ou os lagos da Suíça, ou a Itália coroada de anêmonas e loureiros, ou a linda Grécia e suas vastidões desertas... Mas basta, meu pensamento: em ambos os lados à minha volta, ainda se erguem as casas de Petersburgo...”

O Chicago! O Widerspruch!

 Volker Braun


Oh Chicago! Oh discrepância! / Brecht, teu charuto acabou se apagando? / Durante os terremotos que provocamos / Nos Estados construídos sobre a areia. / O socialismo vai-se, lá vem Johnny Walker. / Não consigo fixá-lo nos pensamentos / Que aliás estão caindo. As ruas quentes / De outubro são as trilhas frias / Da economia, Horácio. Enfio o chiclete / na bochecha / Eis que é chegado o nada significante.

Koktebel

Para meus versos, escritos num repente
Quando eu nem sabia que era poeta,
Jorrando como pingos de nascente,
Como cintilas de um foguete,

Irrompendo como pequenos diabos,
No santuário, onde há sono e incenso,
Para meus versos de mocidade e morte,
— Versos que ler ninguém pensa! –

Jogados em sebos poeirentos
Onde ninguém os pega ou pegará)
Para meus versos, como os vinhos raros,
Chegará seu tempo.

Maio de 1913 - Koktebel
Marina Tsvetaeva

*em russo*

Моим стихам, написанным так рано,
Что и не знала я, что я — поэт,
Сорвавшимся, как брызги из фонтана,
Как искры из ракет,

Ворвавшимся, как маленькие черти,
В святилище, где сон и фимиам,
Моим стихам о юности и смерти,
— Нечитанным стихам!

Разбросанным в пыли по магазинам,
Где их никто не брал и не берёт,
Моим стихам, как драгоценным винам,
Настанет свой черёд.

Коктебель, 13 мая 1913
Цветаева
.



Paraíso perdido


Aryia

De extremo a extremo
O céu está pegando fogo
E nele desaparecem
Todas as esperanças e sonhos.

Mas você está dormindo
E um anjo voa na sua direção
Limpa suas lágrimas,
E no sono você ri!

Adormeça,
Nos meus braços adormeça,
Adormeça
Sob a melodia da chuva...
Lá longe
Lá onde termina a borda do céu
Você encontrará
O paraíso perdido.

No sono um demônio astuto
Pode atravessar paredes
E o fôlego dos adormecidos
Ele sabe raptar.

Não é preciso ter medo,
Minha alma estará por perto,
Para os teus sonhos
Velar até o amanhecer.

Estendo minhas mãos -
Para você encher com sua dor,
Encha-as com a tristeza
Com o medo das trevas que ecoam,

E você nem perceberá
Que o céu está pegando fogo
E a vida desmantelando
Todas as esperanças e sonhos.

Adormeça,
Nos meus braços adormeça,
Adormeça
Sob a melodia da chuva...
Lá longe
Lá onde termina a borda do céu
Você encontrará
O paraíso perdido.

*em russo*

~Потерянный рай~
Группа Ария

От края до края
Hебо в огне сгорает,
И в нем исчезают
Все надежды и мечты.

Hо ты засыпаешь,
И ангел к тебе слетает,
Смахнет твои слезы,
И во сне смеешься ты!

Засыпай,
Hа руках у меня засыпай,
Засыпай
Под пенье дождя...
Далеко,
Там, где неба кончается край,
Ты найдешь
Потерянный рай.

Во сне хитрый демон
Может пройти сквозь стены,
Дыханье у спящих
Он умеет похищать.

Бояться не надо,
Душа моя будет рядом,
Твои сновиденья
До рассвета охранять.

Подставлю ладони -
Их болью своей наполни,
Hаполни печалью,
Страхом гулкой темноты,

И ты не узнаешь,
Как небо в огне сгорает,
И жизнь разбивает
Все надежды и мечты.

Засыпай,
Hа руках у меня засыпай,
Засыпай
Под пенье дождя...
Далеко,
Там, где неба кончается край,
Ты найдешь
Потерянный рай.