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terça-feira, 11 de junho de 2019

Orhan Pamuk e a criação do romance



Trecho da entrevista do escritor turco Orhan Pamuk - vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2006 - concedida ao "El País", do Uruguai (link): o processo de criação de um romance. Tradução livre.



E: Quais passos segue para escrever um romance?

O. P.: A melhor parte é quando aparece a ideia para um romance, coisa que me acontece sempre. Mas, depois, há muito trabalho pela frente. Vou anotando apontamentos num caderno, embaralhando a possibilidade de que tudo se torne um romance. Durante anos, sigo nesse processo, e uma parte da minha mente está sempre pendente nisso. Penso em muitos romances, enquanto estou escrevendo um. Até que, por fim, aquela ideia amadurece, entre tantas outras. E aí surge um desejo enorme de escrever esse romance. Sonhar com um livro que ainda não foi escrito é como sonhar com outro planeta. Há um desejo muito forte por querer ir até lá, a felicidade está nesse outro planeta. Eu escrevo porque não sou muito feliz na vida cotidiana. E é um sentimento muito forte, a necessidade de escrever esse novo romance: um desejo de identificar-se com seu personagem, e ver como as coisas vão mudando à medida em que alguém as escreve.


sábado, 6 de abril de 2019

Ler um romance





Acompanhamos essas histórias como se observássemos uma paisagem e, transformando-a em pintura com os olhos da mente, deixamos que ela nos influencie

Um romance é uma segunda vida. Como os sonhos de que fala o poeta francês Gérard de Nerval, os romances revelam cores e complexidades de nossa vida e são cheios de pessoas, rostos e objetos que julgamos reconhecer. Assim como no sonho, quando lemos um romance, às vezes ficamos tão impressionados com a natureza extraordinária das coisas que nele encontramos que esquecemos onde estamos e nos vemos no meio dos acontecimentos e das pessoas imaginárias que contemplamos. Em tais ocasiões, achamos o mundo fictício que descobrimose apreciamos mais real que o mundo real. O fato de essa segunda vida nos parecer mais real que a realidade muitas vezes indica que substituímos a realidade pelo romance. Ou no mínimo o confundimos com a vida real. Mas nunca lamentamos essa ilusão, essa ingenuidade. Ao contrário, assim como em alguns sonhos, queremos que o romance que estamos lendo prossiga e esperamos que essa segunda vida continue evocando em nós uma sensação consistente de realidade e autenticidade. Apesar do que sabemos sobre a ficção, ficamos irritados e aborrecidos se um romance deixa de sustentar a ilusão de que é, na verdade, a vida real.

Sonhamos supondo que o sonho é real; essa é a definição de sonho. Do mesmo modo, lemos um romance supondo que ele é real – mas no fundo sabemos muito bem que não é assim. Esse paradoxo se deve à natureza do romance. Comecemos por enfatizar que a arte do romance conta com nossa capacidade de acreditar ao mesmo tempo em estados contraditórios.

Leio romances há quarenta anos. Sei que podemos adotar muitas posturas em relação ao romance, que existem muitas maneiras de engajar alma e mente nele, tratando-o com leviandade ou seriamente. Da mesma forma, aprendi pela experiência que há muitos modos de ler um romance. Às vezes, lemos logicamente; às vezes, com os olhos; às vezes, com a imaginação; às vezes, com uma pequena parte do cérebro; às vezes, como queremos; às vezes, como o livro quer; e, às vezes, com todas as fibras de nosso ser. Houve uma época, em minha juventude, na qual me dediquei por completo aos romances, lendo-os com atenção – até com êxtase. Naquele tempo, dos 18 aos 30 anos (1970 a1982), eu queria descrever o que me passava pela cabeça e pela alma da mesma forma como um pintor retrata com precisão e clareza uma paisagem vívida, complexa, animada, cheia de montanhas, planícies, rochedos, bosques e rios.

O que ocorre em nossa cabeça, e em nossa alma, quando lemos um romance? Em que essas sensações interiores diferem do que sentimos quando vemos um filme, contemplamos um quadro ou escutamos um poema, mesmo um poema épico? De quando em quando, um romance pode proporcionar os mesmos prazeres que uma biografia, um filme, um poema, um quadro ou um conto de fadas. No entanto, o efeito singular e verdadeiro dessa arte é fundamentalmente diferente do de outros gêneros literários, do filme e do quadro. E talvez eu possa começar a mostrar essa diferença falando sobre as coisas que eu fazia e as complexas imagens que surgiam dentro de mim quando eu lia romances apaixonadamente em minha juventude.


 *O texto abaixo, escrito por Orhan Pamuk, foi publicado na edição número 62 da revista Piauí.
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domingo, 9 de junho de 2013

Uma árvore, um parque




A praça Taksim e a história de Istambul

ORHAN PAMUK
RESUMO

O Prêmio Nobel de Literatura manifesta apoio aos recentes protestos na praça Taksim, em Istambul, cujo estopim foi a decisão governamental de arrasar o parque Gezi. A partir de vigília realizada por sua família, em 1957, contra o corte de uma castanheira, ele evoca momentos afetivos e políticos ligados à praça e à cidade.

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Para compreender os acontecimentos em Istambul e entender essas pessoas corajosas que estão nas ruas, combatendo a polícia e sufocando com a fumaça venenosa do gás lacrimogêneo, quero começar com uma história pessoal.

Em meu livro de memórias "Istambul" (Companhia das Letras, 2007), escrevi sobre como minha família inteira vivia nos apartamentos que compunham o prédio Pamuk, em Ni?anta??. Em frente a esse prédio havia uma castanheira de 50 anos de idade, que, felizmente, continua ali. Mas, certo dia, em 1957, o prefeitura decidiu derrubar essa árvore para alargar a rua. Os burocratas presunçosos e governadores autoritários ignoraram a oposição do bairro.

Assim, no dia em que a árvore seria cortada, meu tio, meu pai e a família toda passaram dia e noite na rua, revezando-se para montar guarda. Dessa maneira protegemos nossa árvore; mas também criamos uma memória compartilhada que a família toda ainda recorda com prazer e que nos une.

Hoje a praça Taksim é a castanheira de Istambul e deve continuar a sê-lo. Vivo em Istambul há quase 60 anos e não posso imaginar que haja um único morador da cidade que não tenha pelo menos uma recordação vinculada de algum modo à praça.

Nos anos 1930, o velho quartel de artilharia que agora querem converter num shopping center continha um pequeno estádio de futebol onde eram promovidas partidas oficiais. O famoso "Taksim Gazino", que ocupava o centro da vida noturna de Istambul nas décadas de 1940 e 1950, ficava numa esquina do parque Gezi.

Mais tarde todas essas construções foram demolidas, árvores foram cortadas, novas árvores foram plantadas, e uma fileira de lojas e a galeria de arte mais famosa de Istambul foram instaladas em uma lateral do parque. Nos anos 1960 eu sonhava em ser pintor e expor meus trabalhos nessa galeria.

Nos anos 1970, a praça foi palco de comemorações entusiásticas do Dia do Trabalho promovidas por sindicatos e ONGs de esquerda e, durante algum tempo, eu mesmo participei dessas comemorações. (Em 1977, 42 pessoas foram mortas numa explosão de violência provocada e no caos que a seguiu.) Durante minha juventude, assisti com curiosidade e prazer a toda espécie de partidos políticos --partidos da direita e da esquerda, nacionalistas, conservadores, socialistas, social-democratas-- promovendo comícios em Taksim.

Neste ano o governo proibiu a celebração do Dia do Trabalho na praça. Quanto ao quartel, que supostamente seria reconstruído, todos em Istambul sabem que ele acabaria como mais um shopping ocupando o último espaço verde que resta no centro da cidade.

O fato de que mudanças tão significativas na praça e no parque que abrigam as memórias de milhões de pessoas tenham sido planejadas e realizadas até a etapa da derrubada de árvores sem que a população de Istambul tenha sido consultada antes foi um erro grave do governo de Erdogan.

Fica claro que essa atitude insensível nasce do desvio crescente do governo rumo ao autoritarismo. (O relatório de direitos humanos da Turquia é hoje o pior de uma década.) Mas me enche de esperança e confiança ver que o povo de Istambul não vai abrir mão nem de seu direito de promover manifestações políticas na praça nem de suas memórias sem lutar.


tradução CLARA ALLAIN