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quarta-feira, 28 de agosto de 2019


"...sabia que tinha alguma coisa fora do lugar em mim. Eu era uma soma de todos os erros: bebia, era preguiçoso, não tinha um deus, idéias, ideais, nem me preocupava com política. Eu estava ancorado no nada, uma espécie de não-ser. E aceitava isso. Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante, dava muito trabalho. Eu queria mesmo um espaço sossegado e obscuro pra viver a minha solidão. Por outro lado, de porre, eu abria o berreiro, pirava, queria tudo e não conseguia nada. Um tipo de comportamento não se casava com o outro. Pouco me importava."

Charles Bukowski

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O amor é um cão dos diabos




(o pior e o melhor)

o pior e o melhor
nos hospitais e nas cadeias
está o pior
nos hospícios
está o pior
nas coberturas
está o pior
nas leituras de poesia
nos concertos de rock
nos shows beneficentes para os inválidos
está o pior
nos funerais
nos casamentos
está o pior
nas paradas
nos rinques de patinação
nas orgias sexuais
está o pior
à meia-noite
às 3 da manhã
às 5h45 da tarde
está o pior

pelotões de fuzilamento
rasgando o céu
isto é o melhor

pensar na Índia
olhando para as carrocinhas de pipoca
assistindo ao touro pegar o matador
isto é o melhor

lâmpadas encaixotadas
um velho cão se coçando
amendoins em um saquinho
isto é o melhor

jogar inseticida nas baratas
um par de meias limpas
coragem natural vencendo o talento natural
isto é o melhor

de frente para pelotões de fuzilamento
lançar pedaços de pão às gaivotas
fatiar tomates
isto é o melhor
tapetes com marcas de cigarro
fendas nas calçadas
garçonetes que mantém a sanidade
isto é o melhor

minhas mãos mortas
meu coração morto
silêncio
adágio de pedras
o mundo em chamas isto é o melhor
para mim.




quinta-feira, 30 de novembro de 2017

poema nos meus 43 anos

( Charles Bukowski)

terminar sozinho

no túmulo de um quarto

sem cigarros

nem bebida-

careca como uma lâmpada,

barrigudo,

grisalho,

e feliz por ter um quarto.

...de manhã

eles estão lá fora

ganhando dinheiro:

juízes, carpinteiros,

encanadores , médicos,

jornaleiros, guardas,

barbeiros, lavadores de carro,

dentistas, floristas,

garçonetes, cozinheiros,

motoristas de táxi...

e você se vira

para o lado pra pegar o sol

nas costas e não

direto nos olhos.




domingo, 20 de agosto de 2017

"Beber é uma coisa emotiva. É um ato que cria uma quebra na mesmice da rotina. Tira você do seu corpo e da sua mente e te joga contra a parede. Sinto que beber é como uma forma de suicídio em que você pode voltar à vida e começar tudo de novo no dia seguinte. É como se matar, e nascer outra vez. Acho que eu vivi umas dez ou quinze mil vidas até agora."

Bukowski

quarta-feira, 1 de março de 2017

confissão

confissão
esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo
talvez
sacudi-lo de novo:
hank!
e hank não vai
responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir
todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora
ser ditas:
eu te
amo.
.
confession
waiting for death
like a cat
that will jump on the
bed
I am so very sorry for
my wife
she will see this
stiff
white
body
shake it once, then
maybe
again
“Hank!”
Hank won’t
answer.
it’s not my death that
worries me, it’s my wife
left with this
pile of
nothing.
I want to
let her know
though
that all the nights
sleeping
beside her
even the useless
arguments
were things
ever splendid
and the hard
words
I ever feared to
say
can now be
said:
I love
you.
– Charles Bukowski, em “Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski”. [tradução Jorge Wanderley]. Edição Bilíngüe, 2ªed., Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 2003.

.revistaprosaversoearte.com

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

LEITODEMORTE BLUES



Charles Bukowski 

Se não aguenta o calor, diz ele, saia da
cozinha. sabe quem disse isso?
Harry Truman.

Não 'tou na cozinha, digo eu, eu 'tou no
forno.

meu editor é um cara difícil
às vezes ligo pra ele em momentos de dúvida.

olha, responde ele, você vai acender charutos com notas de dez,
vai pegar uma ruiva num braço e uma loira
no outro.

outras vezes, ele vai dizer: veja bem, acho que vamos contratar o VK
como editor associado. temos que garimpar uns cinco poetas
nalgum canto. (VK é um poeta bem criativo, que acha que eu
apunhalei ele pelas costas de Nova Iorque até a costa norte do Havaí)

Olha aqui, meu garoto, respondo pro meu editor: você fala alemão?
Não, diz ele

Bom, de qualquer modo, digo eu, 'tou precisando duns bons pneus novos,
então, sabe onde consigo um jogo de pneus novos, baratos?
Eu te ligo em meia hora, diz ele, vai estar em casa
daqui a meia hora?
Não tenho um centavo pra sair, digo eu.
E ele: me disseram que você 'tava bebaco na leitura
de poesia no Oregon.
Fofoquinhas, respondo eu. -- ´tava ou não ´tava? -- Não lembro.

Um dia ele me liga: Você não 'tá mais acertando a bola. só entornando
o caneco, e briga com todas essas mulheres...
Sabe que tem um garoto no banco de reservas, não sabe? ele ´tá louco
pra entrar, ele bate de direita e de esquerda, cata todas,
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele consegue rimar, sabe? conhece imagens, símiles, metáforas,
retórica, chistes, assonâncias,
aliterações, métrica, é sim, métrica,
tipo, você sabe --
iambos, troqueus, anapestos, espondeus,
ele domina cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, paradoxo, voz, tom e coalescência...
Putaquepariu, digo eu, desligo e mando uma golada de
uísque escocês. Charlie ainda está vivo,
dizem os jornais. mas decido que em vez de
um jogo de pneus novos preciso de mais
luz nos retrovisores.

trad: Ivan Justen Santana
Nós devemos

Nós devemos trazer
nossa própria luz
para a
escuridão.

Ninguém irá fazer
isso por nós.

Como os jovens garotos
que esquiam montanha
abaixo.

Como o cozinheiro
que recebe o seu
pagamento.

Como o cão
que persegue
outro cão.

Nós devemos trazer
nossa pŕopria luz
para a
escuridão.

Ninguém irá fazer
isso por nós.

Como o solitário telefone
de alguém
em algum lugar

Como a grande fera
que estremece com
os próprios pesadelos.

Como a estação final
que entra no foco

Ninguém irá fazer
isso por nós.

(Charles Bukowski - Tradução: f. Koproski)


terça-feira, 11 de junho de 2013

ESTILO



estilo é a resposta para tudo –
um novo jeito de encarar algo estúpido ou
perigoso.
é preferível fazer algo estúpido com estilo
do que fazer algo perigoso
sem estilo.

fazer algo perigoso com estilo
isso é o que eu chamo de arte.

a tourada pode ser uma arte
boxe pode ser uma arte
amar pode ser uma arte
abrir uma lata de sardinhas pode ser uma arte.

nem todos têm estilo.
nem todos conseguem manter o estilo.
já vi cães com mais estilo do que homens
embora nem todo cão tenha estilo.
isso os gatos têm de sobra.

quando Hemingway estourou seus miolos na parede
com um tiro
aquilo foi estilo.

ou às vezes as pessoas te oferecem estilo.

Joana d’Arc tinha estilo
João Batista
Cristo
Sócrates
César,
García Lorca.

conheci homens na cadeia com estilo.
conheci mais homens na cadeia com estilo
do que os que conheci fora da cadeia.

estilo é o que faz a diferença,
um jeito de realizar,
um jeito de estar realizado.

6 garças paradas numa lagoa
ou você saindo nua do banheiro
sem me
ver.

Poema: Charles Bukowski
Tradução: Fernando Koproski
do livro :
A MOR É TUDO QUE NÓS DISSEMOS QUE NÃO ERA (7 Letras)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Sem Chance de Ajuda



há um lugar no coração que

nunca será preenchido

um espaço

e mesmo nos

melhores momentos

e

nos melhores

tempos

nós saberemos

nós saberemos

mais que

nunca

há um lugar no coração que

nunca será preenchido

e

nós iremos esperar

e

esperar

nesse

lugar.

poema: Charles Bukowski

tradução: Fernando Koproski

do livro

ESSA LOUCURA ROUBADA QUE NÃO DESEJO A NINGUÉM A NÃO SER A MIM MESMO AMÉM (7 LETRAS)

SEM CHANCE DE AJUDA




há um lugar no coração que
nunca será preenchido

um espaço

e mesmo nos
melhores momentos
e
nos melhores
tempos

nós saberemos

nós saberemos
mais que
nunca

há um lugar no coração que
nunca será preenchido

e

nós iremos esperar
e
esperar

nesse
lugar.

poema: Charles Bukowski
tradução: Fernando Koproski

do livro
ESSA LOUCURA ROUBADA QUE NÃO DESEJO A NINGUÉM A NÃO SER A MIM MESMO AMÉM (7 LETRAS)

sábado, 13 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE UM FILHO DA PUTA DURÃO



uma noite ele apareceu na porta molhado magro espancado e
aterrorizado
um gato branco vesgo e sem rabo
pus ele pra dentro e o alimentei e ele ficou
cresceu até pegar confiança em mim até que um amigo
entrando na garagem passou com o carro por cima dele
levei o que sobrou para o veterinário que disse, “sem muita
esperança... dê essas pílulas para ele... sua coluna
está esmagada, mas já foi esmagada antes e de alguma maneira
emendou, se ele viver nunca mais andará, veja
essas radiografias, ele foi baleado, olhe aqui, as balas
ainda estão lá... e mais, ele já teve um rabo um dia, alguém
o cortou fora...”

levei o gato de volta, era um verão bem quente, um dos mais
quentes das últimas décadas, pus ele no piso do
banheiro, dei água e pílulas para ele, ele não comia, ele
não tocava na água, mergulhei meu dedo nela
e molhei sua boca e falei com ele, eu não saí
dali, investi um bom tempo no banheiro e conversava com
ele e tocava nele com cuidado ao que ele me olhava
com aqueles olhos azul-claros vesgos e conforme os dias
passavam ele fez seu primeiro movimento
se arrastou com as patas dianteiras
(as traseiras não funcionavam)
ele conseguiu chegar à caixa de areia
se arrastou pra dentro,
foi como se o clarim de uma possível vitória
soprasse naquele banheiro e pela cidade afora, eu
me identifiquei com aquele gato – eu me dei mal, não tão
mal assim mas mal o bastante...

uma manhã ele se levantou, ficou de pé, caiu pra trás e
apenas olhou pra mim.

“você consegue,” eu disse pra ele.

ele continuou tentando, se levantando e caindo, finalmente
deu alguns passos, ele parecia um bêbado, as
patas traseiras não queriam funcionar mesmo e ele caiu de novo, descansou,

aí se levantou.

o resto você sabe: hoje ele está melhor do que nunca, vesgo,
quase sem dente, mas o encanto está de volta, e aquele olhar
nunca abandonou seus olhos...

e hoje às vezes sou entrevistado, eles querem saber sobre
a vida e a literatura e eu fico bêbado e levanto meu gato vesgo,
baleado, atropelado, de rabo arrancado e falo, “olha, olha
isso!”

mas eles não entendem, eles dizem algo do tipo, “você
disse que foi influenciado por Céline?”

“não,” eu levanto o gato, “pelo que acontece, por
coisas como essa, por isso, por isso!”

eu chacoalho o gato, levanto ele sob
a luz esfumaçada e bêbada, ele está tranquilo ele sabe...

é aí que as entrevistas acabam
embora eu fique com orgulho às vezes quando vejo as fotos
depois e lá estou eu e lá está o gato e nós somos
fotografados juntos.

ele também sabe que isso é besteira mas ajuda de alguma maneira.

poema: Charles Bukowski
tradução: Fernando Koproski
da antologia poética AMOR É TUDO QUE NÓS DISSEMOS QUE NÃO ERA (7 Letras)
http://www.livrariascuritiba.com.br/amor-e-tudo-que-nos-dissemos-que-nao-era-autores,product,LV314864,3406.aspx

quarta-feira, 10 de abril de 2013



"Eu as aceitava como elas eram e era difícil e raro o meu amor sair da toca. Quando saía era quase sempre um equívoco. Acontecia que eu me cansava de prender o amor e acabava deixando ele sair; ele precisava ir para algum lugar. Daí, como de costume, começavam as encrencas."

— Charles Bukowski