"... e em lugar de ouro, de prata e de outros bens que servem de moeda em outras regiões , aqui a moeda é feita de pessoas , que não são nem ouro, nem tecidos, mas sim, criaturas. E a nós a vergonha e a de nossos predecessores , de termos , em nossa simplicidade, aberto a porta a tantos males (...) . "
Garcia II, rei do Congo, século XVII
sexta-feira, 23 de agosto de 2019
folha de lótus e o escorregador de mosquito
"Como uma folha de lótus que não pode ser molhada,
aquele que se liberou de seus desejos não pode ser maculado pelo mal." A
capacidade de repelir água e emergir limpa de águas turvas levou os indianos a
eleger o lótus como um dos símbolos da pureza espiritual. A passagem acima,
extraída do poema Bhagavad Gita, descreve o fenômeno.
As gotas de água escorrem muito facilmente pelas folhas de
lótus. Sua superfície se apresenta sempre limpa e seca. Desde 1970, cientistas
se perguntavam o que seria responsável por esse fenômeno. Superfícies capazes
de repelir a água têm muitas aplicações tecnológicas, tanto na construção de
tubos quanto de lentes e equipamentos ópticos. Em muitos instrumentos, a adesão
de partículas e líquidos às superfícies é um problema constante.
Em 1990, examinando as folhas de lótus em um microscópio
eletrônico, os cientistas descobriram seu segredo. A superfície das folhas é
composta por micromontanhas e microcavidades. Quando uma gota de água cai sobre
a folha, a água não consegue remover o ar das microcavidades. Portanto, toca a
folha somente nos picos das micromontanhas.
Como a água interage com a folha em somente poucos pontos, a
gota mantém sua forma esférica, não se espalha e corre sobre a folha
livremente. Basta inclinar a folha levemente para que as gotas corram para a
borda e caiam no chão, deixando a folha seca e limpa.
Nos anos seguintes, o princípio da folhas de lótus foi
utilizado para construir materiais autolimpantes muito mais eficientes que o
Teflon que reveste nossas panelas. Mas esses materiais, apesar de usados em
muitas aplicações, têm seu uso limitado pela fragilidade. Basta um arranhão, um
pouco de pressão ou um pouco de detergente na água e a microtextura perde a sua
capacidade de repelir a água.
Agora, novamente inspirados pela folha de uma planta, um
grupo de cientistas desenvolveu protótipos de superfícies que repelem água e
óleos e ainda têm a capacidade de se regenerar.
Escorregador. A planta carnívora Nepenthes captura suas
vítimas usando uma espécie de escorregador de inseto. Quando um inseto pousa na
sua superfície, ela é tão lisa que o inseto escorrega e acaba caindo em uma
cavidade no centro da folha (a folha tem o formato de funil). Nessa
"boca", a planta acumula um líquido rico em enzimas capaz de matar e
digerir o pobre mosquito.
Estudando a superfície das folhas de Nepenthes, os
cientistas desvendaram o segredo desse escorregador hiperliso. A superfície da
folha não é totalmente lisa, mas apresenta ranhuras e nanocavidades. Essas
ranhuras e cavidades são preenchidas por um líquido não volátil (que não
evapora) produzido pela planta. Esse líquido repele tanto a água quanto as
gorduras. O resultado é que gotas de água e gordura não aderem à superfície.
Como as patas dos insetos são recobertas por uma finíssima camada de gordura,
eles derrapam e acabam virando o almoço da planta.
Inspirados por essa descoberta, físicos e químicos
produziram diversos materiais com propriedades semelhantes às das folhas de
Nepenthes. Superfícies feitas de nanofibras de Teflon foram recobertas com
líquidos não voláteis (Fluorinert ou Krytox) que não se misturam com água ou
com hidrocarbonetos. O resultado é uma superfície hiperlisa na qual gotas de óleo
ou água não aderem e escorrem rapidamente.
O mais interessante é que, pelo fato de as gotas interagirem
com uma camada muito fina de líquido, a superfície regenera facilmente. Se
riscamos a superfície, o microfilme líquido se redistribui, regenerando a
propriedade original. O mesmo ocorre quando se aplica pressão.
Essa descoberta abre a possibilidade de, no futuro, podermos
utilizar materiais quase impossíveis de sujar. Se eles aparecerão no vidro dos
celulares, nas lentes de câmeras fotográficas ou no fundo de nossas panelas,
ainda é cedo para prever.
É interessante observar como a ciência pode partir de um
poema indiano, passar por um escorregador de inseto e criar panelas impossíveis
de sujar.
BIÓLOGO , ,
MAIS INFORMAÇÕES: BIOINSPIRED SELF-REPAIRING SLIPPERY SURFACES WITH PRESSURE
STABLE OMNIPHOBICITY. NATURE, VOL. 477, PÁG. 443, 2011 - O Estado de
S.Paulo
quinta-feira, 22 de agosto de 2019
'...a turbulência que atravessa os EUA...'
Alguns falantes tendem a entender "os Estados
Unidos" como uma unidade, uma coisa só
Dia desses, num dos programas de uma das emissoras que
carregam o "News" no nome, ouvi a frase que dá título a esta coluna.
Na verdade, não se disse "os EUA", e sim "os Estados
Unidos".
Como se sabe, em se tratando do padrão formal da língua, a expressão
"Os Estados Unidos" (quando sujeito) exige o verbo no plural, já que
o artigo ("os") aparece flexionado no plural. Em sendo assim, são do
padrão culto construções como "Os Estados Unidos certamente nunca
imaginaram que um dia passariam pelo que estão passando" ou "Ao longo
da história, os Estados Unidos produziram mais guerras do que qualquer outra
coisa".
Na outra ponta, isto é, no uso efetivo da língua, sobretudo
na fala, constata-se que não são raras construções como "Os Estados Unidos
certamente nunca imaginou que..." ou "Ao longo da história, os
Estados Unidos produziu mais guerras do que...", em que o verbo é posto na
terceira pessoa do singular. A explicação para esse fato é simples: alguns
falantes tendem a entender "os Estados Unidos" como uma unidade, ou
seja, como uma coisa só, um país, e aí fazem a concordância com a ideia e não
com a forma. Muita gente chega a dizer "o Estados Unidos" (sim, com o
artigo no singular), o que evidencia ainda mais a ideia de que se considera o nome
próprio "Estados Unidos" como uma unidade, uma coisa só.
Como já afirmei diversas vezes neste espaço, explicações
como as que acabamos de ver dizem respeito mais à linguística do que à
gramática. Como se sabe, a linguística não diz como deve ser; diz como é (e tenta
explicar por que é como é).
Posto isso, convém dizer que, em linguagem formal, a
construção predominante é a que apresenta o verbo no plural: "Os Estados
Unidos são um dos três países que formam a América do Norte"; "Os
Estados Unidos ainda conseguem aplacar sua crise vendendo seus títulos".
Pois bem. E como fica a frase que está no título desta coluna? Quem atravessa
quem? A julgar pelo que ocorre no padrão formal da língua, diz-se que a
turbulência atravessa os Estados Unidos, varre o país, percorre-o de ponta a
ponta, mas... Mas, levando-se em conta o contexto em que a frase foi proferida,
parece que se queria dizer que são os Estados Unidos que atravessam a
turbulência, isto é, enfrentam essa turbulência, são atingidos por ela.
Em outras palavras, quando se analisa a construção em
questão sob a ótica do padrão formal da língua, só se pode entender que é a
turbulência que atravessa, atinge, varre os Estados Unidos. Para que se
entendesse que são os Estados Unidos que atravessam a tal turbulência, seria
necessário flexionar no plural a forma verbal escolhida: "...a turbulência
que atravessam os Estados Unidos". Melhor mesmo seria a ordem direta:
"...a turbulência que os Estados Unidos atravessam".
Fenômeno semelhante ao que se vê com "Estados
Unidos" se dá com a palavra "óculos", que, no português do
Brasil, há muito tempo virou substantivo que designa uma coisa só, uma unidade
("o óculos", "meu óculos"). Apesar desse uso mais do que
difundido, as edições mais recentes dos nossos mais importantes dicionários e o
"Vocabulário Ortográfico", da ABL, continuam registrando
"óculos" como "substantivo masculino plural".
O "Houaiss", por exemplo, diz que é "erro a
discordância de número (um óculos) que se tem vulgarizado no português
coloquial do Brasil (formas corretas: uns óculos, meus óculos, um par de
óculos)". O "Aulete" diz algo semelhante. É isso.
PASQUALE CIPRO NETO - 20 Oct 2011
Escravos da infantilidade
Sábado à tarde, supermercado lotado. No caixa, paciência
para os carrinhos abarrotados, mas dessa vez precisei de uma dose extra. À
minha frente, ar aparvalhado, um jovem pai de família, forte e normal, esperava
imóvel seus produtos passarem no caixa. Em pé, olhar perdido, boca entreaberta,
fitava o vazio, só faltava o fio de baba.
Lembrava aquelas crianças carregadas junto com a família
para um lugar que não lhes interessa, distraídas, alheias. Nesse supermercado
existem empacotadores prestativos, mas eles não davam conta. Não custa ajudar,
ir organizando, embalando junto.
No comportamento passivo do meu companheiro de caixa,
impossível não evocar a figura do nobre, sendo vestido, banhado, alimentado e
conduzido nos braços de seus servos ou escravos, um eterno bebê. Quanto mais
evoluídos nos tornamos, caminhamos em direção à autonomia, prescindimos de
serviçais. É assim com as crianças, que aprendem a cuidar de si cada vez
melhor. Mas será que me comporto diferente quando consigo pagar um hotel mais
estrelado?
Quem não curte café na cama macia, toalhas limpas, massagem,
chofer? O que é um restaurante, senão ficar sentado enquanto o solícito garçom
se dedica a atender nossos caprichos? São ocasiões em que voltamos no tempo,
nas quais amar é maternar, cuidar. À vezes, ser independente exaure, queremos
um mimo.
Trabalhos associados aos cuidados maternos primários, nos
quais adultos adquirem privilégios de crianças, sempre foram desvalorizados.
Mulheres, pessoas socialmente desvalorizadas, escravos, ocuparam os bastidores
da nossa vergonha.
Na verdade, aquele que abre mão da autonomia também se
abstém da liberdade que ela proporciona, da intimidade, da privacidade. Mães,
pobres e escravos tornaram-se ralé da vida pública, escondidos no armário de
nossa carência afetiva, associados ao medo de ficar sozinhos. A infantilidade é
um segredo.
Entregar-se nos braços de alguma comodidade é uma delícia,
mas como exceção, descanso de guerreiro, conquista. É gostoso, um luxo que só é
tal se não for um hábito. Mas no dia a dia, a dependência é uma forma de
alienação, uma existência empobrecida.
Que dizer de alguém, aparentemente crescido, que precisa se
fazer adotar pelo primeiro empacotador franzino que encontra pela frente? Por
favor, supermercado não é spa, há adultos na fila!
DIANA CORSO - 12 Oct 2011
Álbum de figurinhas
RIO DE JANEIRO - Meu neto João Ruy, que é português e mora
em Lisboa, fez seis anos outro dia e recebeu do Brasil seu presente favorito:
um álbum de figurinhas -no caso, o do Campeonato Brasileiro- e centenas de
pacotinhos com as respectivas. É um brinquedo solitário, porque ele não tem com
quem trocar duplicatas ou disputar no bafo-bafo. E, claro, só consegue
identificar os jogadores do Flamengo, por quem torce ardentemente quando vem ao
Rio, ou algum outro que atue pela seleção.
Mas João Ruy não se importa, e passa dias colando cromos de
clubes e jogadores para ele desconhecidos. O prazer de completar uma página
supera o fato de que muitos daqueles times e indivíduos continuarão a ser
rostos e camisas no vazio, e que ele nunca os verá jogar.
Diante da informação de que o Tribunal Superior Eleitoral
(TSE) concedeu registro ao PSD (Partido Social Democrático), fundado pelo
prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e que este é o 28º partido na fosca
constelação política brasileira, coloquei-me no lugar de João Ruy. Imaginei
como seria um álbum de figurinhas sobre os partidos.
Cada página dupla seria dedicada a um deles. Traria
informações como data de fundação, número de filiados, colocação nas últimas
eleições, e mostraria suas cores, mascote, seus 20 principais nomes, o
recordista em mandatos etc. -cada qual numa figurinha, como no álbum do
Brasileirão.
A exemplo de João Ruy, eu e milhões de brasileiros
colaríamos figurinhas de gente que, em grande maioria, nunca vimos e, no caso,
é melhor mesmo não ver. Um bando de ninguéns sem representatividade, homiziados
em partidos de cujas siglas só se ouve falar quando discutem com o governo ou
com a oposição sobre quem dá mais pelos seus miseráveis votos.
RUY CASTRO - 30 Sep 2011
Abaixo o sutiã
SÃO PAULO - "Amor, eu estourei o limite do cartão de
crédito. Do seu e do meu." Vestida e afetando culpa no tom de voz, Gisele
Bündchen dá a má notícia ao marido imaginário. Essa é a maneira errada de
abordar o assunto. A maneira certa, explica a propaganda de lingerie estrelada
pela modelo, é de calcinha e sutiã, requebrando com a mãozinha na cintura e a
fala sensual.
Se a propaganda está no ar, é porque deve ter alguma
eficácia. Mas não é preciso muito para perceber que estamos diante de mais uma
fashion-cafajestada, entre tantas outras do mercado da publicidade, basta ligar
a TV para constatá-lo.
Pior, no entanto, do que o apelo ao machismo mais vulgar é a
disposição do governo para combatê-lo recorrendo à censura. A Secretaria de
Políticas para as Mulheres acionou o Conar, o Conselho Nacional de
Autorregulamentação Publicitária, para tirar a peça do ar. É uma medida
obscurantista, além de desencadear o efeito contrário ao pretendido por essas
feministas de tesoura.
A propaganda, diz a secretaria, reforça "o estereótipo
equivocado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora os grandes
avanços alcançados para desconstruir práticas e pensamentos sexistas".
Sim, estamos de acordo -mas e daí?
Em nome de que a propaganda deve estar necessariamente em
sintonia com valores progressistas ou submetida à visão igualitária da relação
entre o homem e a mulher?
Como conciliar a defesa da emancipação e dos direitos da
mulher com a opção regressiva e autoritária pela censura? O que, afinal, é mais
nocivo e perigoso para quem aspira viver numa sociedade com menos discriminação
e mais esclarecida: a moral da história do anúncio ou a iniciativa do governo
para bani-lo da tela?
Com sua cruzada, a ministra Iriny Lopes folcloriza as
atribuições de uma pasta que tem assuntos reais para enfrentar. Só falta lançar
uma campanha de esclarecimento público: Gisele Bündchen faz mal à saúde.
FERNANDO DE BARROS E SILVA - 30 Sep 2011
O maior medo do homem
Não é a morte o que mais assusta o homem. É o acaso. Contra
o acaso, o homem constrói sistemas de pensamento, filosofias, mitologias,
religiões. Para se proteger do acaso, o homem criou Deus. Aí está: o homem se
diz criatura, quando é o criador.
Mas crentes e carolas não precisam se ouriçar, não estou
pregando o ateísmo. Porém, é preciso entender que, ainda que Deus exista, Ele
continuará sendo uma abstração. A ideia de Deus tem de ser aprendida. E, se tem
de ser aprendida, tem de ser concebida. Criada. Logo, Deus é criatura. Zeus,
Amon, Jeová, Astarte, Cibele, Alá, Tupã, seja qual for o nome do ser divino,
ele tem de ser concebido pelo homem, junto com sua mitologia.
E por que o homem teve de criar Deus? Por que existe essa
necessidade em todo lugar e em todo tempo? Exatamente para que o homem possa se
defender do acaso. O acaso é tão apavorante, que o homem criou até o diabo para
combatê-lo.
É preferível enfrentar uma legião de demônios com intenções
bem claras e regras de comportamento definidas do que simplesmente cogitar a
hipótese de que as coisas possam acontecer sem que sejam movidas por razão
alguma.
Você precisa encontrar um desígnio oculto por trás de
qualquer ocorrência da sua vida. Toda consequência teve uma causa. E, se toda
consequência tem uma causa, em tudo podem ser vistos méritos e culpas. Você faz
tudo certinho, age bem, é uma boa pessoa, não faz nada de errado?
O Todo-Poderoso o recompensará com uma vida venturosa. Você
faz coisas erradas, oprime o próximo e rouba a merenda escolar das criancinhas?
Você será punido em algum momento, você não perde por esperar as terríveis
consequências de seus atos.
É assim que deveria ser, se o acaso não existisse. Se o mundo
fosse justo. Mas o acaso existe. Mas o mundo não é justo. Coisas ruins
acontecem a todo momento com pessoas que não merecem sofrer. Coisas boas
acontecem a todo momento com pessoas que não merecem a felicidade.
Canalhas são homenageados, incompetentes ganham aumento,
oportunistas usufruem da fama, cofres caem do oitavo andar, vírus são
contraídos pelo ar, rádios tocam axé a cada minuto. A vida é cheia de perigos e
você não pode fazer nada para evitá-los. O mundo está repleto de cafajestes e
muito provavelmente a maioria deles jamais será punida. Não adianta rezar. Não
adianta cultivar superstições. Não adianta esperar pela intervenção
transcendental.
Adianta, um pouco, prevenir-se. Pessoalmente, há muitas
formas de prevenção. A principal delas é zelar pela saúde. Comunitariamente, o
Estado tem a função de fazer a prevenção. No caso de o Estado estar acometido
de alguns desses males, como a corrupção endêmica brasileira, só se pode,
mesmo, fiscalizar.
E a fiscalização só é viável quando ocorre em âmbito
municipal, quando o cidadão encontra a autoridade na farmácia, no supermercado,
na igreja, no estádio de futebol, e o olha na cara, e cobra, com o mero olhar,
o efeito de seus atos. A municipalização não tem poder divino, não evita a
corrupção, não impede a ação de cafajestes nem as tramas incompreensíveis do
acaso. Mas ajuda a preveni-los.
DAVID COIMBRA - 21 Oct 2011
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Quanto mais pobre o cidadão, mais impostos
A partir da declaração do megainvestidor americano Warren
Buffett, a terceira maior fortuna do mundo, pedindo aumento dos impostos para
os mais ricos nos Estados Unidos, vários milionários europeus também passaram a
defender essa medida naquele continente. Nesse contexto, o presidente da
França, Nicolas Sarkozy, encaminhou ao Parlamento proposta para que os ricos
que tenham renda anual acima de € 500 mil passem a pagar uma sobretaxa
provisória de 3%.
Esse fato é um bom motivo para discutirmos a carga
tributária brasileira, já que nosso país é um dos mais injustos do planeta na
cobrança da tributação. Os mais pobres são quem paga, proporcionalmente, mais
tributos no Brasil, e não os ricos.
Nesse contexto, é importante lembrar que há um projeto de
reforma tributária na Câmara dos Deputados que permanece
"adormecido", aliás, como ocorreu com todos os outros elaborados nos
últimos anos no Brasil. O debate em torno desse assunto no país acaba centrado
em grande parte no aspecto da diminuição dos impostos porque a carga tributária
é alta em relação aos serviços que o Estado oferece. Os que mais defendem a
diminuição dessa carga são os empresários, baseados no argumento de que pagando
muitos impostos seus negócios são dificultados. Fica praticamente excluída do
debate a maioria da população brasileira e, principalmente, sua camada mais
pobre - proporcionalmente a que paga mais impostos -, que não tem a menor ideia
de quanto eles pesam no seu bolso.
Estudos desenvolvidos pelo Instituto de Pesquisas Econômicas
Aplicadas (IPEA) comprovam claramente tal situação. Segundo um levantamento de
2008, pessoas cuja renda mensal familiar alcançava até dois salários mínimos
comprometiam 53,9% de seus ganhos com o pagamento de tributos, enquanto que
outras, com renda superior a 30 salários mínimos, comprometiam apenas 29%.
Outro dado de destaque nesse estudo do Ipea: um trabalhador
que recebia até dois salários mínimos precisava trabalhar 197 dias para pagar
os tributos, enquanto outro que ganhava mais de 30 precisava de três meses a
menos de trabalho, ou exatos 106 dias.
Essa situação ocorre porque cerca de 50% da nossa carga
tributária é indireta, isto é, incide sobre o consumo, atingindo
indiscriminadamente toda a população, independentemente da renda e da riqueza
de cada um. A cobrança da maioria dos tributos vem embutida no preço final das
mercadorias. Vejamos um exemplo significativo:
Um cidadão que ganha R$ 1 mil por mês e coloca R$ 100 de
gasolina no tanque do seu carro está pagando R$ 53 de impostos. Enquanto outro
que ganha R$ 30 mil e abastece o tanque pelo mesmo valor também paga os mesmos
R$ 53, levando isso à injustiça apontada.
Nos países capitalistas desenvolvidos, ao contrário daqui, a
maior parte da carga tributária é direta e recai sobre a renda, a riqueza, a
propriedade e a herança. Esses critérios são mais justos do que os existentes
no Brasil porque tributa diretamente quem ganha mais e tem melhores condições
de pagamento.
Segundo dados da Organização para Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE), nos Estados Unidos a renda é responsável por
49% da carga tributária. Se comparado com o Brasil, que é de 19%, naquele país
é 150% maior que a nossa. A média desse tributo nos países pertencentes à OCDE
é de 37%, quase 50% maior que a brasileira.
Sobre a propriedade a carga americana é 10%, cerca de três
vezes maior que a brasileira, que é de 3%. Na OCDE a média desse tributo é 6%,
o dobro da nossa. Em relação ao consumo, ocorre justamente o inverso. Enquanto
na carga tributária brasileira esse tipo de tributos representa em torno de
47%, na americana representam 16% e na OCDE ela representa na média, 37% do
total. Esses dados confirmam que nos países desenvolvidos há muito mais justiça
tributária que no Brasil.
Dois exemplos ilustram as diferenças entre aqueles países e
o Brasil. Na Inglaterra, por exemplo, o imposto sobre a herança é cobrado há
mais de 300 anos. Quando da morte da princesa Diana, em 1997, os jornais
noticiaram que o fisco inglês cobrou de sua herança o imposto de US$ 15
milhões, metade dos US$ 30 milhões deixados para seus filhos. Naquele país, a
taxação é apoiada até mesmo pelos conservadores. Segundo matéria da revista
"Veja", publicada em setembro de 2007, o primeiro-ministro inglês
Winston Churchil, que conduziu a Inglaterra na luta contra os nazistas,
costumava dizer que o imposto sobre a herança era infalível para evitar a
proliferação de "ricos indolentes". Por outro lado, no Brasil, o
Imposto Territorial Rural - ITR arrecadado em todo o ano de 2007 e em todo
território nacional, foi menor do que dois meses de arrecadação do IPTU da
cidade de São Paulo. Esses dados falam por si.
Não há dúvida que esse é um tema delicado e já causou ou foi
pretexto para inúmeras revoluções. Dois exemplos são significativos. A data
nacional da independência americana, 4 de julho, faz lembrar que uma das razões
que foram amadurecendo para o início da guerra de libertação foi a cobrança de
impostos como o Sugar Act (1764), do Stamp Act (1765) e o Tea Act (Lei do Chá,
1773). No Brasil, a Inconfidência Mineira, tentativa de libertar o Brasil de
Portugal, que resultou no enforcamento do herói Tiradentes e no desterro das
lideranças envolvidas no movimento, teve como motivo principal da revolta a
"derrama", isto é, a cobrança de impostos atrasados feita pelos
colonizadores portugueses aos moradores de Minas Gerais.
Diante dessa realidade, é necessário e urgente abrir um
espaço na mídia e na sociedade brasileira para discutir a enorme injustiça que
há entre nós e, consequentemente a necessidade de aprovação de uma reforma em
que os tributos diretos pesem mais que os tributos indiretos na composição da
carga tributária. Isso significaria uma das formas mais importantes de
redistribuir a renda entre nós.
Finalmente cabe uma pergunta: por que no Brasil os
banqueiros, grande empresários do agronegócio, das empresas nacionais e
multinacionais, não tomam a iniciativa que foi tomada pelos ricos nos EUA e na
Europa, isto é, propõem uma sobretaxa sobre seus ganhos?
Odilon Guedes é mestre em economia pela PUC/SP. Professor
universitário e membro do Conselho Regional de Economia-SP. Foi presidente do
Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo, vereador e subprefeito de São
Paulo.
21 Oct 2011
Pensamentos repetitivos
Minha geração cresceu buscando liberdade, bem diferente dos
adolescentes de hoje, que trocaram o idealismo por um notebook. Um jingle da
época dizia que liberdade era uma calça velha, azul e desbotada, mas isso era
apenas uma metáfora para uma liberdade que significava morar sozinho, trabalhar
e tomar as próprias decisões – os alicerces para a independência.
O tempo passou e nossa independência se adequou às
responsabilidades da vida adulta. Casamento, profissão, paternidade: nos
mantivemos livres, pero no mucho. A liberdade plena passou a ser exercitada
apenas em área restrita: dentro da nossa cabeça. Ainda podemos pensar o que
quisermos. Nosso poder de criatividade segue intacto. E incentivo para
exercitar o cérebro nunca faltou: livros, jornais e uma rede de informações que
cresce a cada dia.
No entanto, em vez de usar o cérebro como uma forma de
libertação, ficamos escravizados por ele. Muitos preferem segurança à
liberdade, e então criam um pacote de pensamentos repetitivos ao qual se
agarram por décadas, sem nem questionar, sem nem se dar conta de que talvez já
não pensem mais daquela maneira.
“Nunca vou conseguir fazer isso”, “Não fui feito para tal
coisa”, “Jamais financiarão essa minha ideia maluca”, “Meu pai não me
perdoaria”, “Fulana não vai mudar” são pensamentos recorrentes que impedem que
arrisquemos.
Não passa pela nossa cabeça que o pai perdoaria, sim, e que
ideias malucas podem encontrar incentivadores, e que só é impossível conseguir
aquilo que não ousamos tentar. Mas você topa pensar diferente do que pensava
antes? É esse o acordo.
Ninguém vai virar um Einstein ou um Steve Jobs por
desamarrar-se de suas crenças imutáveis. Mas há um ganho real em ser capaz de
abandonar os pensamentos de estimação, mesmo que considere estar traindo a si
mesmo. Ora, se as pessoas não conseguem nem mesmo manter suas juras de amor
eterno ao parceiro, por que precisam manter juras de amor eterno a um
pensamento estagnado?
Pode-se viajar pelo mundo, ir para um lado, para o outro,
mas quem continua pensando sempre igual, quem não reavalia suas convicções,
permanece imobilizado.
Abandonar uma postura, reposicionar-se, experimentar. Esse é
o verdadeiro espírito de liberdade que Steve Jobs deixou como herança, e esse
espírito é mais importante que a invenção de iPods, iPhones e iPads,
ferramentas modernas, mas que também são manuseadas por gente travada. Pensar
diferente não é criar ou usar tecnologia: é recriar-se e usar-se. E isso é
possível a qualquer um.
MARTHA MEDEIROS - 12 Oct 2011
O que há numa escrita?
A todos nós foi dada a capacidade de falar. E a alguns a de
escrever essa forma admirável de pensar. Nela, falamos sem produzir sons, mas
desenhando símbolos. O lado de dentro importa mais do que o de fora. É normal
escrever para si mesmo já o falar nos leva a um hospício. Na fala e na escrita
há ouvintes e leitores, mas na fala o interlocutor deve estar presente, pois as
palavras exigem o outro. Já na escrita, é preciso desenrolar o pergaminho,
abrir o livro ou a carta para ouvir o seu autor (ou autores) e descobrir o seu
espírito e as suas intenções. Ou imaginar o eventual leitor. Num caso, o som
tem parentesco com o barulho e o caos; no outro, há aquele silêncio que é a
marca maior do ato de escrever - essa nobre, essa soberana, essa orgulhosa e
altruística ação que só nós, humanos, conhecemos, pois o escrever fica, mas o
falar passa...
* * *
Nesta semana rotineira com correios e bancos em greve, fico
fascinado com a novidade de que o universo se expande - tal como o capitalismo
chinês - em alta velocidade. Os chamados astrofísicos são mitômanos levados a
sério, enquanto os do cinema e da televisão são jogados no lixão dessa nossa
"baixa-modernidade", como me ensinou o Eduardo Portella. No caso dos
astrofísicos, impressiona-me a sua obsessão com as origens do universo, algo
que eles compartilham com os modestos pensadores tribais, os quais são parte de
minha primeira vida como etnólogo, quando eu corria atrás de índios nas
fronteiras de um Brasil que ainda não tinha conseguido morder o próprio rabo.
Ouvi, transcrevi e li à exaustão mitos de origem. Aliás, a
mais celebrada teoria do mito - a do consagrado Claude Lévi-Strauss -, escrita
no início dos anos 50 e desenvolvida na sua fabulosa tetralogia intitulada
Mytologiques (publicada entre 1964 e 1971), os mitos existem para responder a
perguntas sem resposta. Por que o mundo foi inventado? De onde veio a
humanidade com a sua moral e os seus meios de sobrevivência? Como foi que os
animais se distinguiram dos homens? Por que são necessários dois seres humanos
para fazer um? De onde veio a morte se no início dos tempos a humanidade era
tão imortal quanto os membros da Academia Brasileira de Letras?
Os contadores de mitos das sociedades sem escrita, sem
constituição e sem cálculos complexos (até hoje estigmatizadas como
"selvagens" e "primitivas"), dizem que o humano foi
inventado num tempo imemorial, implantado pelas palavras de uma língua cuja
origem é, por sua vez, contada num outro mito pois, conforme aprendi com
Lévi-Strauss e, sorry..., com Thomas Mann, um mito pensa e remete a outro mito,
tal como a música, os livros, os deuses, a poesia e o amor se pensam
indefinidamente entre si. Assim, eles sabem como, mas não quando, o mundo
surgiu. Já os nossos astrofísicos são mais apaixonados pelo quando do que pelo
como.
Para qualquer ser humano, pensar em termos de nano-segundos
é impossível, do mesmo modo que é humanamente inconcebível imaginar uma unidade
temporal para além de 10 mil anos. Pois, tirando os poetas que, como diz Kundera,
dizem tudo, ninguém pode ter um sentimento de milhões de anos. Só uma fórmula
matemática traduz esse tempo intemporal. Mas entre a fórmula científica e a
fórmula que eu ouvia de Tia Amália quando iniciava suas histórias - "Isso
aconteceu no tempo que os animais falavam...", eu acho mais razoável e -
sorry novamente - até mesmo mais racional, ficar com Titia...
* * *
Fiz uma conferência e ganhei uma caneta-tinteiro. Na viagem
de volta, preso na dura solidão coletiva de um avião lotado pelo duopólio aéreo
instituído no lulo-petismo, escrevi o meu velho nome. Fui imediatamente
remetido a Juiz de Fora e a uma humilde escola do bairro dos operários, quando
a professora nos iniciou na nobre arte de escrever à tinta. Tomei contato com
as penas de metal que, na ponta de um cilindro de madeira da pior qualidade
(providenciada, é claro, pelo Ministério da Educação e Cultura), serviam como
instrumentos de escrita depois de serem mergulhados nos frascos cheios daquele
misterioso líquido azul-marinho.
A mestra explicava que escrever à tinta beirava o
"eterno". Com o lápis tudo podia ser apagado como se não tivesse
existido, exatamente como as palavras faladas a serem levadas pelo vento. Mas
com a tinta, esse material perigoso (e marcante) que agora teríamos que usar,
as coisas ficavam. Qualquer descuido, caía um pingo no papel, manchando-o e
dele tirando a pureza feita em branco; por outro lado, se a "pena"
ficasse saturada, a escrita transbordava o papel. Fomos depois apresentados a
um personagem importante: o mata-borrão que como um guardanapo à boa mesa,
acompanhava o ato de escrever à tinta.
Escrever à tinta dá asas à fantasia de imortalidade. É a
antessala do livro, do decreto, da placa de bronze e do "documento".
Pois entre nós - humanos -, a execração, o ódio, e o insulto cabem também ou
até mais no papel do que na fala. A fala, sendo curta e exigindo a
pessoalidade, tem mais limites do que a carta escrita com maldade e ódio,
vingança e ressentimento. Ademais, a "escrita", como os decretos e as
leis, pode ser anônima ou coletiva. Pois como aprendi com aquela humilde
professora, o que falamos fica na memória, mas o que foi escrito permanece.
Seja como um ato de amor ou como prova de arrogância e de transtorno mental.
Cuidado, dizia ela, com o que você escreve à tinta - com aquilo que, impresso,
não pode ser apagado.
ROBERTO DaMATTA.: 12 Oct 2011
Placa para Tenório
RIO DE JANEIRO - No dia 18 de março de 1976, o pianista
brasileiro Francisco Tenório Jr., 33, estava em Buenos Aires para uma temporada
no Teatro Rex com seus patrícios Vinicius de Moraes e Toquinho. Naquela noite,
saiu do hotel Normandie, onde estavam hospedados, e deixou um bilhete:
"Vou comprar cigarros e um remédio. Volto já". Não voltou -nunca
mais.
Fora confundido com um militante procurado pela ditadura
argentina e levado preso. Por falar bem espanhol e com sotaque portenho, não
acreditaram que fosse brasileiro, músico e inocente. Passaram a torturá-lo, com
a colaboração, a partir do quinto dia, de agentes brasileiros da Operação
Condor, braço internacional das ditaduras argentina, brasileira, chilena e
uruguaia.
Nove dias depois, seus algozes se convenceram de que tinham
se enganado. Mas, já então, Tenório estava cruelmente machucado. Pior: vira o
rosto deles. Não podiam devolvê-lo à rua. O jeito era matá-lo, o que fizeram
com um tiro, no dia 27. Dali Tenório foi dado como "desaparecido", e
o Brasil nunca se empenhou em elucidar o fim de um de seus filhos mais
talentosos -autor, em 1964, aos 21 anos, do grande disco instrumental
"Embalo".
Os detalhes gravíssimos sobre a morte de Tenório só
começaram a aparecer dez anos depois, em 1986, e mesmo assim porque um membro
da inteligência argentina resolveu contar. Pois, agora, os argentinos, que não
estão varrendo a sua ditadura para debaixo do tapete, nos darão em breve nova
lição.
No dia 16 de novembro, às 14 h, a cidade de Buenos Aires,
por iniciativa do deputado portenho Raul Puy, homenageará Tenório com uma placa
na fachada do hotel Normandie, na rua Rodríguez Peña, 320, de onde ele saiu
para morrer. Ela dirá: "Aqui se hospedou este brilhante músico brasileiro,
vítima da ditadura militar argentina".
RUY CASTRO - 22 Oct 2011
Poema na madrugada
O fotógrafo Tiago Trindade, dono de um estúdio e credenciado
por diversas associações jornalísticas, me escreve, reclamando de que quer
fotografar eventos no interior da Igreja São José, em Porto Alegre, mas o
pároco não lhe concede licença. Lá só podem atuar fotógrafos credenciados pela
igreja, que já são muitos, não havendo mais lugar para outros.
Escreveu-me para quê? Que posso fazer por ele? A não ser
talvez dar este destaque que estou dando neste canhão que é esta coluna.
Mas eu escrevi isso porque quero concluir o seguinte. Noto
fotógrafos brigando por fotografar casamentos em igrejas, fazendo de tudo para
fotografar casamentos nas igrejas.
São ansiosos por fotografar casamentos, mas não vejo nenhum
fotógrafo vir até mim para fotografar o meu celibato.
Fotografariam cada cena do meu celibato!
Essa inspiração me surgiu agora,
De madrugada:
Eu já sei o caminho.
Por isso não tenho surpresas.
Já sofri ingratidões,
Já fui traído, igualmente traí.
Agora mesmo estou passando por grande infortúnio.
E nem sei como reuni forças para enfrentá-lo.
Outra vez, me aprisionaram
Numa camisa de força
De que ainda não pude me livrar.
Tristeza, poxa, se fosse só tristeza
Que eu tivera!
Bati contra coisas mais graves
Povoando a minha mente.
Tive agonias. Quase tombei
Em face de calúnias e mentiras
Que inventaram sobre mim.
Mas ainda nos lábios das gentes
Afloram muitas verdades a meu respeito.
Fui vaiado mas também
Tive aclamações.
Dividi o palco, como intruso bem-vindo,
Com grandes artistas.
Quase não posso sair às ruas,
Todos querem me saudar.
Valeu a pena, aqui estou ainda
A colher os frutos e os castigos
Dessa longa caminhada.
Quantas vezes ouvi dela: “Não me deixa
Nunca, pelo amor de Deus!”.
E quantas vezes eu disse a ela:
“Não me deixa nunca, pelo amor de Deus”.
Nos deixamos.
Vivi, sofri, tive filhos, tenho netos
Que vão me suceder nas esperanças.
Vim e ainda não fui.
Será que resta algo mais a ser vivido?
PAULO SANT’ANA - 22 Oct 2011
Tramas da memória
DAVID COIMBRA -
Uma vez explodiu uma fábrica de fogos de artifício no
Navegantes, perto de onde morava o meu avô. Quadras inteiras foram arrasadas,
como se o bairro tivesse sido bombardeado pela Luftwaffe. Pedaços de pessoas
voaram pelos ares e aterrissaram quilômetros adiante. Os sobreviventes não identificavam
mortos; identificavam partes deles. Uma moça reconheceu o braço do pai pelo
anel que ainda levava no dedo, um rapaz sabia que aquela era a perna do amigo
pelo sapato de pele de crocodilo que lhe restara no pé. Meu irmão, que era bem
pequeno, ficou traumatizado. Repetia a toda hora:
– Bum! Bum!
Foi exatamente isso. Ou será que não foi bem assim? Juro que
tenho essa história impressa na memória como algo que realmente aconteceu, mas,
agora, passados tantos anos, duvido de mim mesmo. Tenho quase certeza de que a
explosão da fábrica ocorreu, mas será que foi tão trágica?
Pedaços de gente voaram como bem-te-vis pelo céu da cidade?
A história da mão com o anel. Estou vendo agora mesmo a mão com o anel, a filha
assistindo à cena com a boca escancarada de horror. Parece que fui testemunha.
Fui mesmo? Ou alguém inventou e me contou? Ou eu inventei?
A memória é ardilosa. Quando estava escrevendo o livro sobre
a história dos Gre-Nais, entrevistei centenas de jogadores do passado. Eles
contavam uma história da qual tinham sido protagonistas, depois eu ia falar com
outros envolvidos e esses relatavam o mesmo episódio de forma diferente.
Então eu ia aos jornais da época para descobrir quem estava
certo. E lá havia mais uma versão, que não raro pouco tinha a ver com o que me
haviam dito uns e outros personagens. Não que pretendessem mentir, nada disso.
Eles ACREDITAVAM no que contavam. Era o que estava gravado na sua memória.
Existe uma memória coletiva, também. Imagens e reputações se
constroem, versões se consagram. Difícil distinguir a realidade crua da réstia
de fantasia. Pensando bem, talvez nem exista realidade crua. Talvez tudo seja
representação da realidade. E agora, lembrando daquele naco de tempo mais ou
menos próximo de quando deve ter ocorrido (ou não) a terrível explosão da
fábrica de fogos, percebo como tudo está mesclado, superposto ou contraposto na
minha lembrança.
Vejo-me pedalando minha Calói Zero azul-escura, minha irmã
Silvia de pé na carona e meu irmão Régis sentado na barra do guidom. Estamos
indo até um silo de cereais ali pertinho para subir no morro formado pelas
sacas e lá de cima, rente ao teto, nos atirarmos na piscina de grãos abaixo,
onde ficávamos enterrados até a cintura. Anos depois li que um menino se afogou
nos grãos fazendo exatamente isso. Os perigos da infância.
Vejo Figueroa matando a bola no peito de lenhador e saindo
da área com o queixo erguido, a passada larga, a cabeleira esvoaçante, ou será
que esse é Beckenbauer, o Kaiser, o homem que não conhecia a cor da grama
porque não olhava para baixo, ou será que é Didi, o Príncipe Etíope, que se
orgulhava de jamais ter pisado na bola? Não, Didi não podia ser, nunca vi Didi
em campo, mas vi o shortinho branco da Alice,
oh, lembro bem daquele shortinho branco e das pernas
dourado-escuras da Alice, as primeiras pernas de mulher em que toquei, quase
não acreditei quando senti a textura macia da sua pele e senti também
vertigens, pensei que ia sair flutuando do Fusca verde do pai dela, que era
onde estávamos, eu e Alice e suas coxas de chocolate ao leite, e falando nisso
vem-me a imagem do Choco Preto e Branco, acho que não existe mais Choco Preto e
Branco, nem Beijo de Moça,
nem quebra-queixo, nem bala gasosa, até porque diziam que
bala gasosa matava a criança que a engolia inteira, a bala gasosa era do
tamanho de uma bola de pingue-pongue, eu que era bom no pingue-pongue, dava um
saque de revesgueio, mas não tão bom quanto o Edu Brites, que batia forte na
bolinha, o Edu Brites tinha saque forte, inhaque forte e também tinha um chute
forte,
uma espingarda na perna direita, talvez tão forte quanto o
chute do Éder, só que o Éder era canhoto, os canhotos são revoltados e uma vez
li que o Éder era revoltado porque, quando criança, uma serpente enroscou-se
nele durante uma enchente em Belo Horizonte, deve ter sido uma enchente tipo a
de 41 em Porto Alegre, o meu avô vivia me mostrando a marca da enchente na
parede da casa dele no Navegantes, uma marca alta, ele tinha de levantar a mão
para tocá-la com o dedo indicador, ah,
eu adorava ouvir as histórias do meu avô e passei a gostar
de futebol por causa dele, ele que torcia pelo Zequinha, mas admirava o Lara, o
Tesourinha e o Foguinho, meu avô falava sempre do Foguinho e um dia eu o
conheci, ao Foguinho, e o entrevistei tantas vezes que posso dizer que nos
tornamos amigos, ao ponto de o Foguinho perguntar por mim quando já estava no
fim da sua vida, doente, de cama, abatido, justo o Foguinho que prezava tanto a
saúde e a força física e provo o que digo lembrando de um dia em que fui
visitá-lo,
ele desceu para abrir a porta e me fez entrar, ele estava de
pijama e chinelos, e nós nos acomodamos no elevador e eu perguntei “está tudo
bem, seu Rolla?”, e ele me enviou um olhar triste, suspirou e respondeu “estava
tudo bem quando eu tinha a sua idade”, e aquilo me deixou sem palavras, subi
mudo até o nono andar e lá, no apartamento dele, seu Rolla tirou umas caixas de
papelão do armário e começou a me mostrar fotos e viu uma do Pinheiro Machado,
que disse ser “o maior homem” que já havia conhecido,
e finalmente tomou nas mãos uma pequena de Luiz Carvalho, o
velho Rei da Virada, centroavante que foi presidente do Grêmio nos anos 70, na
época em que talvez tenha explodido aquela fábrica de fogos de artifício no
Navegantes, o bairro do meu avô, que admirava o Foguinho, e então o Foguinho
pegou aquela foto e olhou para a imagem do seu amigo já morto e pensou por um momento
e murmurou:
– Todos os dias eu penso no Luiz Carvalho.
Para isso também serve a memória.
O eixo
MARCELO RUBENS PAIVA
Suas mãos embrulhadas em luvas de borracha limpam
obsessivamente todos os cantos do banheiro. Ele passa escova na privada numa
velocidade que deixaria qualquer observador tonto.
Na sala, esfrega panos nos vidros. São limpos, como se
tivessem acabado de sair da fábrica, e a cidade fosse a menos poluída do mundo.
Passa aspirador. Espanador nos livros. Organiza as almofadas
do sofá. Lava a louça e as enxuga com flanela.
É uma faxina completa, rito diário de quem trabalha em casa,
vive só e não consegue organizar os pensamentos se um grão de poeira estiver no
meio do caminho.
Lava as mãos gastando dez minutos e meio sabonete. E ainda
as esfrega com álcool gel antisséptico.
O interfone toca. Ele atende e manda subir. Livra-se do
avental, dá uma ajeitada no cabelo e coloca um jazzinho neutro, nada
experimental, nem bebop, nem fusion.
Toca a campainha. Ele abre. Ela entra aflita, como sempre.
"Parei na vaga de idoso que tem na frente do seu
prédio. Não tinha vagas", ela diz.
Beijam-se burocraticamente com a porta ainda aberta. Ele
tranca. Ela joga as coisas pelo caminho. Ele recolhe e as coloca num cabideiro.
Ela despeja a bolsa sobre o sofá e encontra um cigarro amassado no fundo. Ele
prontamente pega um isqueiro, acende e fica segurando o cinzeiro, para quando
ela precisar.
"Ele deu de controlar as minhas contas. Examina cada
ligação do celular e reclama se tem alguma longa demais. 'Usa o Skype.' Reclama
quando chega uma multa, critica o meu jeito de dirigir, fazer baliza, meus
caminhos. 'Esta rua é a mais congestionada. Vai pela faixa da direita'. Imagina
quando souber que voltei a fumar?"
Ela dá três tragadas rápidas. Enfim o agarra e o empurra até
o sofá. Pula em cima dele, já sentado. Apaga o cigarro. Abre a barguilha dele,
levanta a saia e se encaixa. Tira anel, pulseiras e colares. Joga-os
displicentemente na mesa de centro. E fala, enquanto transam no sofá mesmo.
"Não suporto mais aquela arrogância, me examina quando
saio, me avalia quando cozinho, testa minha inteligência, perguntando: 'Como é
mesmo o nome do presidente da ONU?' Vivo tensa, como numa aula em que o
professor faz prova oral. Ai, como é bom... Todo metódico para dormir, acordar,
é uma pedra que tem respostas para tudo, nunca chora em velórios, sente-se
superior a todos. Ai, assim eu gozo... Sempre me aparece com novidades: 'Olha
esta gravação rara de Callas. Viu o novo aplicativo que instalei? Leu o blog do
fulano?' Detesto ópera, detesto telejornais, detesto a ONU, a OEA, blogs, e ele
insiste: 'Viu o que o fulano escreveu? Você concorda com ele?' Ai, para, não
para, ai, gostoso, gostoso, gostoso, ai..."
Ela goza. Joga a cabeça sobre o ombro dele. Respira fundo.
Sussurra no ouvido dele:
"Delícia..."
"Eu estava com saudades", ele diz.
"É?"
"É."
"Eu também."
"Você também?"
"É."
"Estava nada."
"Claro que estava. Não deu pra notar?"
"É, deu."
Sorriem. Beijam-se. Ela se levanta rapidamente, ajeita a
saia e vai ao banheiro. Pergunta lá de dentro:
"Quer me ver quarta? Se não der, mande uma mensagem.
Anônima. Que a aula foi cancelada."
Volta ajeitando os cabelos. Recoloca anel e pulseiras. Checa
o celular.
"Por que você sempre tira a aliança?", ele
pergunta.
"Eu tiro, é? Não tinha reparado..."
"Você namoraria comigo?"
"Está querendo namorar agora?"
"Tenho pensado nisso."
"O que aconteceu com o solteirão mais convicto da
cidade?"
"Se cansou."
"Que nada. Você só quer se aproveitar de mim."
"Quero cuidar de você."
"Você não me aguentaria."
"Não?"
"Está falando isso só pra me agradar."
"Fica mais. Vamos passar a tarde juntos."
"Você é tão doce. Me sinto bem aqui. Me sinto
leve..."
Ela se senta de novo no colo dele. Abraça. Volta a se
excitar. Tira anel e pulseiras, joga-os na mesa de centro. Enquanto ela fala,
transam novamente:
"Mas não posso! Ele é importante pra mim, é o meu eixo.
Existem aqueles momentos em que ele se ausenta, está na minha frente, mas não
está, parece viajar pra Marte, e tudo em sua volta ganha um tom leitoso. Mas eu
gosto dele. Vejo seu olhar me atravessar. Isso dura dias, semanas, aquela
quietude dos pensamentos, e sei lá se sonha ou se tem pesadelos, o mistério do
homem que vive comigo. Eu amo ele. Ai, que gostoso... Minha vocação é tratar,
mas como se não se vê a doença? Quero desvendar ele. Quero parar o mundo para
ele respirar um pouco. Quero ele pra mim! Ai... O que eu estava dizendo? Ele é
meu! Meu homem, meu amor. Ai, tá gostoso... Ai, gostoso, gostoso,
gostoso..."
E goza novamente. Aliviada. Esgotada. Beijam-se. De repente,
fica aflita e se ergue.
"Multam aqui na sua rua?"
Recoloca anel, pulseiras. Vai para o banheiro. Ele continua
sentado.
"Você é tão gostoso. Que música é essa?"
Ele não responde. Ela volta, pega a sua bolsa, checa
novamente o celular. Dá um beijo rápido de despedida.
"Não esquece os colares", ele diz.
Ela sorri e os joga na bolsa. Abre a porta, chama o elevador
e pergunta:
"Então, quarta?"
Nunca mais se viram. Não respondeu às mensagens dele, aos
e-mails, não ligou. A palavra "namorar" contaminou a relação de anos.
Também, pedir uma mulher casada em namoro...
Amartya Sen vincula justiça à vida econômica
Ganhador do Nobel de Economia sustenta não
haver acordo social possível sobre 'sociedade justa'
MARCOS FERNANDES G. DA SILVA
Tendemos a achar que alguns conceitos são triviais. É o caso
da palavra justiça. Não é porque temos uma noção de justiça que podemos dizer
que existe uma teoria e uma visão unificadora da mesma.
Talvez a melhor forma de entender o que ela poderia
significar é buscando na vida econômica algum sentido mais universal. É o que
faz o Nobel de Economia Amartya Sen em seu último livro, "A Ideia de
Justiça". Partindo de uma síntese entre filosofia política e economia, ele
se coloca a missão de superar os debates sobre justiça no âmbito metafísico e
ideal.
Não há arranjos institucionais universais que ajudem a
resolver problemas envolvendo julgamentos de valor; teorias da justiça não são
ordenáveis (inexiste a "melhor", a "pior"), dado que elas
pressupõem a priori noções incomensuráveis de moralidade. Assim pensa Sen.
Concepções ideais do que constituiria uma sociedade justa
não teriam utilidade prática para ajudar a sociedade, por meio do voto, a
resolver problemas de políticas públicas. Erraríamos ao aceitar tacitamente uma
noção de razão. E, mormente, a aceitação de uma visão unívoca de razão vem
acompanhada de um tanto de utopias.
Esse parece ser o caso de Hobbes, Locke e Kant, que
elaboraram noções de justiça em torno de algum tipo de contrato social
abstrato.
Sen identifica dois problemas sérios com esses tipos de
argumento: não há acordo social possível sobre a natureza de uma
"sociedade justa". Adicionalmente, como é que nós realmente
reconhecemos uma "sociedade justa"?
Grande parte da crítica de Sen é dirigida ao filósofo
social-democrata John Rawls, cujo livro "Uma Teoria da Justiça"
tornou-se uma referência no debate sobre justiça baseada em utopias abstratas.
Para Sen, tal querela deveria basear-se em construções de
consenso em torno do que uma sociedade de carne e osso julga ser razoável.
É impossível deixar de lado o papel, para Sen, do
"espectador imparcial" da teoria dos sentimentos morais, de Adam
Smith.
Ao contrário dos racionalistas citados, incluindo Rawls, Sen
não crê que precisemos de uma concepção de um mundo ideal, só de uma ampla
noção de moralidade.
Para entender melhor Sen, vale a pena destacar sua crítica à
ideia de que seria possível garantir liberdade para todos sem uma visão de
mundo compartilhada que determine isso como desejável.
O chamado Paradoxo de Sen, teorema que lhe garantiu o Nobel,
é um paradoxo lógico que parte de outros dois paradoxos, o do Nobel Kenneth
Arrow e o do matemático Condorcet.
De acordo com a prova, é impossível ao mesmo tempo ter um
acordo social sobre o que é liberdade mínima e máxima eficiência econômica.
Falando português: as escolhas que envolvem políticas públicas pressupõem a
construção de consensos morais.
Pode-se criticar Sen por adotar um a priori ocidental, que a
democracia e a razoabilidade são necessárias para a construção de consensos.
Mas ele tem o mérito de iniciar o debate dos economistas com
os filósofos políticos e do direito. Grande livro.
MARCOS FERNANDES G. DA SILVA, economista da Fundação Getulio
Vargas, é autor dos livros "Economia Política da Corrupção no Brasil"
(2001) e Formação Econômica do Brasil" (2011).Folha de São Paulo.22 Oct 2011.
A IDEIA DE JUSTIÇA
AUTOR Amartya Sen
EDITORA Companhia das Letras
TRADUÇÃO Denise Bottmann e Ricardo Doninelli Mendes
Escravos da tecnologia
Estamos tendo de trabalhar de graça para os sistemas, cada
vez que tentamos nos mover na web; odeio isso
Não, não vou falar das fábricas que atraem trabalhadores honestos
e os tratam de forma desumana. Cada vez que um produto informa orgulhoso que
foi desenhado na Califórnia e fabricado na China, sinto um arrepio na espinha.
Conheço e amo essas duas partes do mundo.
Também conheço a capacidade de a tecnologia eliminar
empregos. Parece o sonho de todo patrão: muita margem de lucro e poucos
empregados. Se possível, nenhum! Tudo terceiro!
Conheço ainda como a tecnologia é capaz de criar empregos.
Vivo há 15 anos num meio que disputa engenheiros e técnicos a tapa, digo, a
dólares. O que acontece aí no Brasil, nessa área, acontece igualzinho no Vale
do Silício: empresas tentando arrancar talentos umas das outras. Aqui, muitos
decidem tentar a sorte abrindo sua própria start-up, em vez de encher o bolso
do patrão. Estou rodeada também de investidores querendo fazer apostas para...
voltar a encher os bolsos ainda mais.
Mas queria falar hoje de outro tipo de escravidão
tecnológica. Não dos que dormiram na rua sob chuva para comprar o novo iPhone
4S... Quero reclamar de quanto nós estamos tendo de trabalhar de graça para os
sistemas, cada vez que tentamos nos mover na internet. Isso é escravidão -e
odeio isso.
Outro dia, fiz aniversário e fui reservar uma mesa num
restaurante bacana da cidade. Achei o site do restaurante, lindo, e pareceu
fácil reservar on-line. Caí no OpenTable, sistema bastante usado e eficaz por
aqui. Escolhi dia, hora, informei número de pessoas e, claro, tive de dar meu
nome, e-mail e telefone.
Dois dias antes da data marcada precisei mudar o número de
participantes, pois tive confirmação de mais pessoas. Entrei no site, mas aí
nem o site nem o OpenTable podiam modificar a reserva on-line, pela proximidade
do jantar. A recomendação era... telefonar ao restaurante! Humm... Telefonei.
Secretária eletrônica. Deixei recado.
No dia seguinte um funcionário do restaurante me ligou,
confirmando ter ouvido o recado e tudo certo com o novo tamanho da mesa.
Incrível! Que felicidade ouvir um ser humano de verdade me dando a resposta que
eu queria ouvir! Hoje, tentando dar conta da leitura dos vários e-mails que
recebo, tentando arduamente não perder os relevantes, os imprescindíveis, os
dos amigos, os da família e os dos leitores, recebi um do OpenTable.
Queriam que avaliasse minha experiência no restaurante. Tudo
bem, concordo que ranking do público é coisa legal. Mas posso dizer outra
coisa?
Não tenho tempo de ficar entrando em sites e preenchendo
questionário de avaliação de cada refeição, produto e serviço que usufruo na
vida! Simples assim! Sem falar que é chato! Ainda mais agora que os crescentes
intermediários eletrônicos se metem no jogo entre o cliente e o fornecedor.
Quando o garçom ou o "maître" perguntam se a
comida está boa, você fica contente em responder, até porque eles podem
substituir o prato se você não estiver gostando. Mas quando um terceiro se mete
nessa relação sem ser chamado, pode ser excessivo e desagradável. Parece que
todas as empresas do mundo decidiram que, além de exigir informações
cadastrais, logins e senhas, e empurrar goela abaixo seus sistemas automáticos
de atendimento, tenho agora de preencher fichas pós-venda eletronicamente, de
modo que as estatísticas saiam prontas e baratinhas para eles do outro lado da
tela, à custa do meu precioso tempo!
Por que o OpenTable tem de perguntar de novo o que achei da
comida? Eu sei. Porque para o OpenTable essa informação tem um valor diferente.
Não contente em fazer reservas, quis invadir a praia do Yelp, o grande guia
local que lista e traz avaliações dos clientes para tudo quanto é tipo de
serviço, a começar pelos restaurantes.
O Yelp, por sua vez, invadiu a praia do Zagat
(recém-comprado pelo Google), tradicionalíssimo guia (em papel) de
restaurantes, que, por décadas, foi alimentado pelas avaliações dos leitores,
via correio.
As relações cliente-fornecedor estão mudando. Não faltarão
"redutores" de custos e atravessadores on-line.
MARION STRECKER é jornalista, cofundadora do UOL e sua
correspondente em San Francisco.
20 Oct 2011
99%
Joseph Stiglitz, economista ganhador do Nobel, recebeu o
crédito pelo título "99%", que foi assumido pelo Ocupe Wall Street e
que faz referência à sua afirmação de que 1% dos cidadãos dos EUA controlam 40%
da riqueza do país.
Faz apenas um mês que mil manifestantes se instalaram em
Wall Street para expressar sua indignação diante da cobiça das grandes empresas
e da desigualdade social. Montaram acampamento no Zuccotti Park, no centro
financeiro de Manhattan.
O protesto se espalhou para 900 cidades de todo o planeta no
final de semana passado. Muitas das manifestações foram inspiradas e
coordenadas pela campanha do Ocupe Wall Street.
Em Londres, um acampamento foi montado pelos manifestantes
no pátio diante da catedral de St. Paul, cujo grande domo domina o panorama da
cidade desde que o edifício foi construído, depois do grande incêndio londrino
de 1675.
Os manifestantes foram impedidos pela polícia de ocupar a
praça Paternoster, ao lado da catedral, onde há um empreendimento imobiliário
controlado pela Mitsubishi Estate Co. e que abriga a Bolsa de Valores de
Londres e a sede britânica do banco Goldman Sachs. Mas as autoridades
eclesiásticas intercederam e anunciaram que os manifestantes estavam
autorizados a se acomodar nos terrenos da igreja, que abarcam boa parte da
praça diante da catedral.
Os atos em Londres vêm sendo, em geral, pacíficos, o que
contrasta fortemente com os violentos tumultos de agosto. O presidente da
Federação Alemã dos Bancos disse ao jornal "Financial Times" que os
protestos "desviam a atenção do problema fundamental: o fato de que já não
temos como bancar nossos Estados de Bem-Estar Social".
Não foi exatamente uma declaração conciliadora. Nova York e
Londres estão longe de ser as primeiras cidades a abrigar protestos contra a
cobiça das grandes empresas e bancos, tampouco podem ser consideradas como
exemplos desse tipo de manifestação.
Na Grécia, violentos confrontos de rua vêm ocorrendo há
meses. Em Madri, os "indignados" estão acampados na praça Porta do
Sol desde maio, e suas manifestações inspiraram protestos em outros lugares da
Espanha.
Em Santiago (Chile), milhares de estudantes secundaristas e
universitários vêm exigindo uma grande reforma no sistema educacional, entrando
em choque com a polícia repetidamente. Em Roma, 200 mil pessoas se
manifestaram, com violência generalizada.
Mesmo em Chicago, 175 pessoas foram detidas no Grant Park,
local de notórios confrontos entre manifestantes e policiais na infame
convenção presidencial do Partido Democrata em 1968. Não é uma lembrança
auspiciosa.
KENNETH MAXWELL.
Tradução de PAULO MIGLIACCI
A internet não é meio de comunicação
No início do mês (dia 3 de outubro) a Suprema Corte, nos
Estados Unidos, decidiu que baixar uma música da internet não equivale a exibir
essa mesma música em público. Portanto, ao copiar o arquivo de uma canção no
seu computador, o consumidor não deve ser tratado como alguém que toca essa
mesma canção para uma grande audiência, no rádio ou num show.
Ora, dirá o leitor, nada mais óbvio. Baixar uma faixa de CD
é mais ou menos como copiar no gravador de casa uma canção que a gente
sintoniza na FM. Trata-se de um ato doméstico, que não se confunde com executar
uma obra musical para uma plateia de 5 mil espectadores. No entanto, até hoje,
o pensamento oficial sobre a internet - em especial o pensamento das Cortes de
Justiça - carrega uma tendência de equipará-la aos meios de comunicação de
massa. Um erro grosseiro e desastroso. Além de obtusa, essa visão traz
consequências perversas, como a que levou parlamentares brasileiros, há coisa
de dois anos, a tentarem aprovar uma lei que impedia os cidadãos de
manifestarem suas opiniões sobre as eleições em sites e blogs durante o período
eleitoral, como se a rede mundial de computadores fosse da mesma família que as
redes de televisão e de rádio, que funcionam sob concessão pública.
O furor censório dos parlamentares acabou não vingando, para
alívio da Nação, mas o conceito equivocado em que ele plantou seu alicerce
continua aí. Por isso a recente decisão da Suprema Corte, negando as pretensões
econômicas e intimidatórias da American Society of Composers, Authors and
Publishers (Ascap), interessa especialmente a nós, brasileiros. Ela constitui
um argumento a mais para que expliquemos aos retardatários (autoritários) que
nem tudo o que vai pela internet é comunicação de massa. Aliás, quase nada na
internet é comunicação de massa. Para as relações políticas e jurídicas entre
os seres humanos essa distinção elementar faz uma diferença gigantesca.
A internet não é televisão, não é rádio, não é jornal, nem
revista, assim como não é correio ou telefone. Ela contém tudo isso ao mesmo
tempo - mas contém muito mais que isso. Existem canais de TV e de rádio na
internet, é bem verdade. Os jornais estão quase todos online, bem como as revistas,
sem falar no correio eletrônico: as pessoas trocam mensagens, como trocavam
cartas. O Skype e outros programas vieram para baratear e melhorar os velhos
telefonemas, com a vantagem de mostrar aos interlocutores a cara um do outro.
Logo, dirá a autoridade pública, a rede mundial de computadores internet é uma
Torre de Babel em que todos os meios de comunicação se encontram e se
confundem, certo?
Errado. A humanidade comunica-se pela internet - só no
Brasil já são quase 80 milhões de usuários -, mas isso não significa que ela
seja, como gostam de dizer, uma "mídia" que promove a convergência de
todas as outras "mídias". Ela é capaz de fornecer ferramentas para
que um conteúdo atinja grandes audiências de um só golpe, ao vivo, assim como
permite que duas pessoas falem entre si, reservadamente. Acima disso, porém,
ela abre outras portas, muitas outras. Pensá-la simplesmente pelo paradigma da
comunicação é estreitá-la, amofiná-la - e, principalmente, ameaçar a liberdade
que ela encerra.
A internet também é comércio: os consumidores fazem compras
virtualmente - mas isso não nos autoriza a dizer que ela possa ser regulada
como se fosse um shopping center. Vendem-se passagens aéreas e pacotes
turísticos pela rede, mas ela não cabe na definição de agência de viagens.
Correntistas acessam suas contas bancárias e pagam contas sem sair de casa, mas
a internet não é banco, e, embora quitemos nossos impostos pelo computador,
ninguém há de afirmar que a web é uma extensão da Receita Federal. Ela é tão
ampla como são amplas as atividades humanas: aceita declarações de amor, assim
como aceita lances ousados da especulação imobiliária. Nela a vida social
alcança plenamente outro nível, que não é físico, mas é real, tão real que
afeta diretamente o mundo físico, sendo capaz de transformá-lo. Mais que meio
de comunicação, a internet é, antes, a sociedade num segundo grau de abstração.
Se quiserem comparações, ela tem mais semelhança com a rede de energia elétrica
do que com um aparelho de TV ou com o alto-falante na praça do coreto.
Para efeitos da regulamentação e da regulação, a internet
não cabe num regime. Ela é capaz de abrigar tantos regimes quanto a própria
vida em sociedade - e, assim como a vida em sociedade, é maior que o direito
positivo. Ela, sim, pode conter e processar decisões judiciais e trâmites
processuais, mas estes não podem contê-la, explicá-la ou discipliná-la por
inteiro. Pretender controlá-la, taxá-la, pretender instalar pedágios em cada nó
seria equivalente a começarmos a cobrar direitos autorais de quem empresta um
livro de papel à namorada, ou, pior ainda, seria como sujeitar as conversas de
botequim à legislação do horário eleitoral na televisão e no rádio.
A rede de computadores trouxe uma expansão sem precedentes a
uma categoria que, nos estudos de sociologia e de comunicação, ganhou o nome de
"mundo da vida". Trata-se de um conceito contíguo a outro, mais
conhecido, o de "esfera pública". Nesta se encontram os temas de
interesse geral dos cidadãos. No "mundo da vida" moram as práticas
sociais mais arraigadas, a rotina mais prosaica, os nossos modos de amar, de
velar os mortos ou, se quiserem, de conversar no botequim. Não por acaso, daí,
desse mundo da vida, é que brota a esfera pública democrática; a própria
imprensa nasceu dos saraus e das tabernas, quando aí se começou a criticar o
poder.
Por isso, enfim, as formas de livre expressão na internet
precisam estar a salvo do poder do Estado e da voracidade dos grupos
econômicos. Por isso a decisão da Suprema Corte é bem-vinda.
- EUGÊNIO BUCCI. 20 Oct 2011
O pêndulo, a centralização e a República
Seria de supor que algumas correntes liberais brasileiras,
ao menos as de "casco duro" - para se utilizar de uma expressão
jocosa introduzida pelo ex-presidente Lula em nosso vocabulário político -,
manifestassem alguma relação de empatia com a posição firmada pela Associação
dos Magistrados Brasileiros (AMB), uma vez que no cerne da controvérsia sobre
que papel deve desempenhar o Conselho Nacional de Justiça no controle do
exercício da magistratura está a antinomia centralização/descentralização, que,
desde o Império, acompanha a nossa História.
No caso, uma vetusta tradição liberal, cuja mais incisiva
formulação se tornou clássica com a publicação de A Província, em 1870, de
Tavares Bastos, uma denúncia dos males da centralização administrativa, que
ainda ecoa no não menos clássico da nossa bibliografia liberal Os Donos do
Poder (1958), de Raimundo Faoro, denúncia que, a partir de outros porta-vozes,
vai ressurgir nas lutas contra o autoritarismo político do regime militar e
encontrar tradução nas demandas municipalistas dos movimentos políticos e
sociais apresentadas ao legislador constituinte de 1988.
A Carta de 1988, redigida num tempo em que ainda se ouviam
as vozes de Tancredo Neves e de Ulysses Guimarães - "as pessoas vivem nos
municípios e não na União" -, além de fazer girar o pêndulo em favor da
descentralização, combinava a democracia representativa com a de participação e
abrigava, em nome da justiça social, postulações de direito material,
protegidas constitucionalmente por alguns instrumentos criados com essa
finalidade. A igualdade, pela primeira vez em nossa História, encontrava
estatuto próprio como um ideal coletivo a ser perseguido por políticas de
Estado.
A igualdade tem suas urgências e os recursos para atendê-las
eram e são escassos. Nada de surpreendente, portanto, que os tempos
subsequentes à promulgação da Carta de 88, que nos trouxe de volta a
descentralização, depois de décadas de vigência do princípio que lhe era
oposto, comecem a assistir, agora num cenário de democracia política
institucionalizada, ao movimento do pêndulo em direção à centralização
administrativa, diante de uma sociedade cada vez mais enredada nas agências
estatais e dependente delas.
Tais efeitos perversos da afirmação da agenda da igualdade
não são incomuns, constatados por dois dos maiores fundadores da teoria social
moderna, Tocqueville e Marx, que, malgrado a radical diferença existente entre
eles, convergiram no diagnóstico - o primeiro, em O Antigo Regime e a
Revolução, o segundo, em O 18 Brumário de Luis Bonaparte - de que a asfixiante
centralização que tomou conta da sociedade francesa após a Revolução de 1789 -
a revolução da igualdade - era um dos seus frutos negativos. Para ambos, porém,
a centralização não é filha, em linha direta, da igualdade, mas da falta de
República e da livre vida associativa que lhe é própria. Sem ela as postulações
por igualdade são interpretadas pelo Estado que as concede à sua discrição e a
partir de um cálculo em que suas conveniências são levadas em alta conta, entre
as quais a de sua política de legitimação.
A revolução democrática brasileira, que tomou forma na Carta
de 88, resultou da articulação de uma ampla coalizão política, que, em suas
lutas por liberdades civis e públicas, abriu passagem para a emergência de uma
vigorosa movimentação dos setores subalternos em torno dos seus interesses,
logo que começaram a se emancipar dos controles coercitivos a que estavam
sujeitos. Tal movimentação persistiu ao longo do processo de transição para a
democracia e da sua subsequente institucionalização, mantendo a esfera pública
sob pressão, inclusive em suas manifestações eleitorais, no sentido de reforçar
as postulações por direito material que procediam de várias regiões da vida
social.
Com a escora dos fundamentos constitucionais igualitários,
essas pressões se fizeram irresistíveis. Diante da escassez de recursos da
Federação e dos imperativos de urgência reclamados pela sociedade, mesmo que na
ausência de um plano definido, inicia-se, então, um novo giro em favor das
tendências centralizadoras. Seu carro-chefe será o das agências públicas de âmbito
nacional, como o Sistema Único de Saúde (SUS), decididamente uma política
igualitária de largo alcance, que se torna um paradigma dominante em termos de
outras políticas sociais, como no caso das políticas de educação e de
segurança, para não falar das políticas assistenciais do tipo do programa
Bolsa-Família, todas com baixa ou nenhuma participação ativa da sociedade.
De modo quase invisível à percepção imediata, tem-se
instalado uma estatolatria doce, justificada e legitimada por sua destinação social.
Nessa batida, sem sequer se mencionarem os graves problemas tributários, a
Federação cede espaços à União e a sociedade abdica de sua autonomia em favor
do Estado. A tendência à centralização torna-se universal e não poupa nenhuma
região da vida social: há problemas de segurança, chamem-se as Forças Armadas,
embora o Haiti não seja aqui; há corrupção no Judiciário, apele-se ao Conselho
Nacional de Justiça, passando por cima das Corregedorias dos tribunais, tidas
de antemão como suspicazes, e sem que sequer se esbocem tentativas de
mobilização das corporações profissionais dos operadores do Direito e de
setores da sociedade a fim de exigirem exemplar correição.
A República democrática tem seus custos sociais e políticos
e um dos mais elementares deles é o de criar e preservar as condições para a
auto-organização do social, com a sociedade e suas instituições empenhadas na
solução dos seus problemas e desafios, forma com que nem sempre se chega mais
rapidamente ao objetivo, mas, como o demonstra sobejamente a nossa já longa
experiência republicana, é muito melhor e mais segura.
LUIZ WERNECK VIANNA. 22 Oct 2011
Jogo das canções
Canções podem ser esquecidas e de repente retornarem
intactas, por algum estímulo associativo
O documentário de Eduardo Coutinho “As canções” passou no
Festival do Rio e vai passar na Mostra aqui em São Paulo na próxima semana.
Quero muito falar dele, especificamente dele, mas só quando entrar em cartaz, o
que não vai acontecer antes de dezembro. É que eu não gostaria que o público
não pudesse conferir, quando eu vier a comentá-las, as situações únicas que o
filme expõe, no modo peculiar criado pelo autor de “Jogo de cena” (filme irmão
de “As canções”). Mas não consigo deixar de adiantar o assunto, entrando desde
já no tema que ele explora e que nos faz querer explorar também: o poder do
lugar emocional profundo, vertical, em certa medida insuspeitado e quase
atemporal, que certas canções têm na vida de cada pessoa.
Não faz muito tempo vivi uma experiência paralela à do
filme. Um grupo de parentes e amigos que sabe muito bem que somos ligados por
uma rede de canções resolveu ouvir, todos juntos, uma seleção formada pelas dez
músicas que cada um considera as mais comoventes de sua vida. Éramos oito, e
ouvimos oitenta canções sem parar, sem respirar nada que não fosse elas,
durante uma noite inteira. Embora únicas e presentes ali graças à escolha de
cada um, as canções provavam, antes de mais nada, que sua vocação é a de ser
compartilhadas, fazendo parte da “velha história de um desejo que todas as
canções têm pra contar”. Pois “as canções só são canções quando não são mais
nossas”, ao mesmo tempo em queremos que os outros escutem as “nossas canções”.
O critério não era o da escolha das canções mais belas,
olhadas de um ponto de vista contemplativo e cheio de exigências melódicas,
harmônicas e poéticas. Mais refinadas ou não, o que importava é que elas fossem
ao nervo da emoção pessoal, ao centro do que na falta de outro nome chamamos de
coração, não importa se simplórias, patéticas, supostamente bizarras ou se
simplesmente simples. Canções que nos tocaram quando ainda não tínhamos formado
um gosto nem padrões estéticos, muitas vezes aprisionadores, ou então que,
qualquer que fosse a sua densidade, continuassem a nos tocar nesse lugar que
independe dos crivos avaliativos que viemos a selecionar e construir.
Os mais sensíveis à fidelidade primeira que a situação
exigia sofreram com a iminência do jogo, passaram insones as noites que antecederam
à grande noite, torturados pelas injustiças que poderiam cometer ao escolher
essas ou aquelas canções em detrimento de outras. Canções não podem ser
traídas, sob pena não se sabe de que graves perdas íntimas. Houve quem
desistisse de participar, incapaz de cometer tal violência, de arriscar-se ao
erro inevitável e insuportável.
Uma valsa na voz de Francisco Petrônio, uma cantilena
anônima, uma velha guarânia, os rocks e as baladas, a música barata e as
obras-primas do cancioneiro brasileiro e mundial, que elo misterioso faria com
que elas se tornassem canções necessárias? É claro que isso depende do momento
em que ficaram gravadas na nossa memória afetiva, e as associações que vêm
junto com elas na forma da recordação involuntária. Mas isso não basta. Simples
ou complexas, as canções eleitas têm que corresponder
com certas qualidades melódicas, certa integridade interna,
certo círculo que se abre e se fecha dentro delas, certo dom misterioso que
ninguém sabe explicar.
Posso dizer que já li todo tipo de escrito em matéria de
teoria da música. Há longos tratados de harmonia e tratados de ritmo. Luiz
Tatit nos esclarece muito sobre as relações entre letra e música. Mas nunca vi
nenhuma tentativa de explicação minimamente convincente dos efeitos e dos poderes
de uma melodia. Como o poder inigualável das melodias de Caetano, para além do
domínio que ele afirma não ter sobre a linguagem da música. E eram as melodias
que estavam em causa, junto com as palavras, no eletrizante jogo das canções.
A música fica guardada num outro lugar da memória. Canções
podem ser aparentemente esquecidas e de repente retornarem intactas, décadas
depois da última vez, movidas e comovidas por algum estímulo associativo (é o
que Proust chama de “memória involuntária”). Pois, além de recurso mnemônico
altamente delicado e resistente, a música é suporte de conteúdos não verbais,
de uma espécie de aura afetiva da experiência, como se, para além dos
significados, ela guardasse a forma e o fundo do vivido. Uma ou dez canções
escolhidas sinceramente são a expressão mais tangível possível desse
“patrimônio imaterial”, ou desse “matrimônio imaterial”, se quisermos, de que é
feito alguém. É por isso mesmo que alguns temiam perder, no nosso jogo da
escolha das canções, a própria alma. Pois só as “nossas canções”, ou o
equivalente delas em halo emocional, prova a nós mesmo que aquilo que vivemos
foi realmente vivido por nós.
Tudo isso está em “As canções” de Eduardo Coutinho, através
de pessoas das ruas do Rio de Janeiro, convidadas a cantar uma canção e a falar
sobre ela. Muitas vezes atingidas de repente, para sua própria surpresa, por um
raio emocional que as faz chorar. O filme nos faz pensar também sobre a
extração de classe dessas canções, e sobre o lugar que a canção tem no Brasil.
Sobre o que espero voltar, em dezembro.
A propósito, Felipe Hirsch fez da sua coluna aqui mesmo, às
segundas-feiras, um incrível ritual ostensivo de celebração do universo
inesgotável de suas canções. “Pop cult 65.” Às vezes eu lamento não ter ousado
fazer o mesmo. Mas é que o meu sintoma é outro, quase o contrário do dele, o de
querer falar de tudo.
- JOSÉ MIGUEL WISNIK. 22 Oct 2011
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