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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Raça e Obama






O presidente Obama recebeu, recentemente, críticas muito severas do professor Cornel West, da Universidade Princeton. Professor de religião e estudos afro-americanos, ele apoiou Obama em sua campanha presidencial e discursou em defesa de sua candidatura no Apollo Theater, no Harlem, em Nova York.
Mas, em abril, alegou que Obama se havia transformado em "um mascote negro dos oligarcas de Wall Street e um títere negro dos plutocratas corporativos, e agora se tornou comandante da máquina de matança norte-americana, e se orgulha disso".
West, conhecido filósofo, ativista e palestrante negro, decerto não representa a opinião da maioria dos negros norte-americanos. Melissa Harris-Perry, sua colega em Princeton, diz que West está desconsiderando a indicação, por Obama, de duas mulheres para a Corte Suprema, e que o apoio dos negros ao presidente continua esmagador.
Mas West é uma voz significativa entre os negros. Ele diz que Obama, o primeiro presidente negro do país, tem "medo dos negros livres" e "predileção por brancos e judeus".
Os comentários de West sobre Obama lembram sua famosa disputa com o ex-reitor da Universidade Harvard, Lawrence Summers. West acusou Summers de ser o "Ariel Sharon do ensino superior". Summers aparentemente convocou o professor para uma conversa pessoal na qual o criticou por sua atividade acadêmica insuficiente como professor de Harvard.
O professor West, que não está acostumado a esse tipo de admoestação, subsequentemente deixou Harvard e voltou a Princeton. Suas críticas públicas a Summers, no entanto, foram demais para muitos de seus novos colegas em Princeton, que posteriormente reprovaram as "insinuações e implicações" de West.
Mas ele está certo sobre uma coisa. A eleição de Obama não tornou a vida mais fácil para a maioria dos negros nos EUA. Os de classe média continuam singularmente otimistas quanto ao futuro, mas 40% das crianças negras do país vivem na pobreza.
Ainda que os negros representem 12,9% da população, só 1,9% da cobertura noticiosa os têm por foco, e a maior parte dessa atenção se dirigiu ao confronto entre Henry Louis Gates, diretor do departamento de estudos afro-americanos de Harvard e amigo de Obama, e o sargento Crowley, da polícia de Cambridge.
Como diz Richard Carter no "Amsterdam News", o maior jornal negro de Nova York, "o sargento Crowley desconfiou do professor Gates por motivos raciais? Provavelmente. O professor Gates se comportou mal? Certamente. O presidente Obama reagiu de maneira desastrada ao incidente? Definitivamente. Argh!"

KENNETH MAXWELL -  FSP . 01 Sep 2011 



Tradução de PAULO MIGLIACCI


quinta-feira, 22 de agosto de 2019

99%




Joseph Stiglitz, economista ganhador do Nobel, recebeu o crédito pelo título "99%", que foi assumido pelo Ocupe Wall Street e que faz referência à sua afirmação de que 1% dos cidadãos dos EUA controlam 40% da riqueza do país.
Faz apenas um mês que mil manifestantes se instalaram em Wall Street para expressar sua indignação diante da cobiça das grandes empresas e da desigualdade social. Montaram acampamento no Zuccotti Park, no centro financeiro de Manhattan.
O protesto se espalhou para 900 cidades de todo o planeta no final de semana passado. Muitas das manifestações foram inspiradas e coordenadas pela campanha do Ocupe Wall Street.
Em Londres, um acampamento foi montado pelos manifestantes no pátio diante da catedral de St. Paul, cujo grande domo domina o panorama da cidade desde que o edifício foi construído, depois do grande incêndio londrino de 1675.
Os manifestantes foram impedidos pela polícia de ocupar a praça Paternoster, ao lado da catedral, onde há um empreendimento imobiliário controlado pela Mitsubishi Estate Co. e que abriga a Bolsa de Valores de Londres e a sede britânica do banco Goldman Sachs. Mas as autoridades eclesiásticas intercederam e anunciaram que os manifestantes estavam autorizados a se acomodar nos terrenos da igreja, que abarcam boa parte da praça diante da catedral.
Os atos em Londres vêm sendo, em geral, pacíficos, o que contrasta fortemente com os violentos tumultos de agosto. O presidente da Federação Alemã dos Bancos disse ao jornal "Financial Times" que os protestos "desviam a atenção do problema fundamental: o fato de que já não temos como bancar nossos Estados de Bem-Estar Social".
Não foi exatamente uma declaração conciliadora. Nova York e Londres estão longe de ser as primeiras cidades a abrigar protestos contra a cobiça das grandes empresas e bancos, tampouco podem ser consideradas como exemplos desse tipo de manifestação.
Na Grécia, violentos confrontos de rua vêm ocorrendo há meses. Em Madri, os "indignados" estão acampados na praça Porta do Sol desde maio, e suas manifestações inspiraram protestos em outros lugares da Espanha.
Em Santiago (Chile), milhares de estudantes secundaristas e universitários vêm exigindo uma grande reforma no sistema educacional, entrando em choque com a polícia repetidamente. Em Roma, 200 mil pessoas se manifestaram, com violência generalizada.
Mesmo em Chicago, 175 pessoas foram detidas no Grant Park, local de notórios confrontos entre manifestantes e policiais na infame convenção presidencial do Partido Democrata em 1968. Não é uma lembrança auspiciosa.

KENNETH MAXWELL.


Tradução de PAULO MIGLIACCI

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Shakespeare?



Os moradores de Stratford-upon-Avon estão em pé de guerra. Cobriram a estátua de William Shakespeare (1564-1616), o mais famoso filho da cidade, com lençóis.

Objetam vigorosamente ao novo filme produzido pela Sony em Hollywood, segundo o qual Shakespeare, na verdade, era uma fraude e não escreveu as famosas peças, sonetos e versos cuja autoria lhe é atribuída. O verdadeiro autor, alega o filme, foi Edward de Vere, conde de Oxford, um homem viajado e poliglota.
Nessa interpretação, Shakespeare é um beberrão analfabeto e sem educação formal, incapaz do conhecimento detalhado necessário à composição dessas obras.

Edward de Vere, por outro lado, era um aristocrata, amante da rainha Elizabeth 1ª. Não pôde assumir a autoria dos textos porque escrever para o teatro, no século 16, não era profissão para um aristocrata, o que explica sua necessidade de permanecer anônimo -como no título do filme: "Anonymous".

A teoria é velha. Circula pelo menos desde a era vitoriana. Os vitorianos, como os norte-americanos modernos, adoravam teorias da conspiração e não conseguiam acreditar que um homem de origens humildes como Shakespeare pudesse ter escrito as grandes peças que portam seu nome.

Vanessa Redgrave interpreta a rainha Elizabeth 1ª (na velhice), enquanto sua filha, Joely Richardson, interpreta a rainha jovem. Joely Richardson nasceu em 1965, quando Vanessa Redgrave era casada com Tony Richardson. O casamento, que durou de 1962 a 1967, terminou em divórcio depois que Richardson traiu a mulher com a atriz francesa Jeanne Moreau.

Richardson foi um famoso diretor da "new wave" do cinema britânico. "Tom Jones", filme que ele dirigiu em 1963, baseia-se no romance de Henry Fielding (que está sepultado no cemitério inglês de Lisboa), e o roteiro foi escrito pelo dramaturgo John Osborne.

É a exuberante história do filho adotivo de um membro da pequena nobreza rural inglesa, saltando de cama em cama através da Inglaterra, estrelado por Albert Finney, Susannah York e Edith Evans. O filme foi parcialmente rodado em Crowcombe Court, uma casa de campo do começo do século 18 em West Somerset, perto de onde passei a infância.

Vanessa é filha de sir Michael Redgrave. Os Redgrave, apesar de seu radicalismo político, são a aristocracia do teatro britânico. Contudo a Sony parece ter hesitado, no momento do lançamento, e por isso o filme será exibido em apenas 250 salas.

A produtora espera que a reação dos espectadores e, sem dúvida, também a dos moradores de Stratford-upon-Avon sirva como publicidade para o filme.

KENNETH MAXWELL - FSP. 27 Oct 2011 



Isolacionismo





O German Marshall Fund dos EUA (GMF) foi criado para celebrar o papel do Plano Marshall na reconstrução da Europa após a Segunda Guerra. Em um discurso na Universidade Harvard em 1947, o general George Marshall, então secretário de Estado americano, lançou o plano que proveria assistência crucial à reconstrução europeia.

Também em Harvard, 25 anos mais tarde, o chanceler alemão Willy Brandt anunciou o estabelecimento do GMF, com uma generosa dotação orçamentária alemã, para servir como organização de pesquisa e de fomento à educação nos EUA. Sediado em Washington, o instituto visa promover o bom relacionamento entre os EUA e a Europa.

Trabalhei como consultor informal para o presidente do GMF no final dos anos 1970, depois da Revolução dos Cravos (1974), quando ajudei a organizar duas grandes conferências internacionais em Lisboa sobre a economia de Portugal. Era um período difícil. Portugal estava tentando enfrentar as consequências de um longo período de ditadura de direita, seguido por anos de conflitos entre militares de esquerda e políticos civis.

O projeto era instigante. Do lado americano, conseguimos o envolvimento de alguns jovens e brilhantes economistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Muitos deles, a exemplo de Paul Krugman, hoje professor da Universidade Princeton, colunista do "New York Times" e da Folha e laureado com o Nobel de Economia de 2008, viriam a construir carreiras brilhantes posteriormente.

Bruce Stokes  se tornou pesquisador sênior no GMF. Acompanho seu trabalho já há anos. Ele era um dos meus colegas mais brilhantes no Conselho de Relações Exteriores de Nova York. Trabalhou por muitos anos no "National Journal", de Washington, publicando artigos sempre interessantes, com observações bastante aguçadas sobre a opinião pública e a política externa americanas.

Por isso, venho lendo com especial atenção os seus textos mais recentes. Em uma análise da mais recente pesquisa do GMF sobre a opinião pública dos dois lados do Atlântico, combinada a dados das pesquisas de opinião do instituto Pew, Stokes conclui que os jovens republicanos dos EUA perderam o interesse pela Europa, opõem-se cada vez mais a aventuras internacionais e veem a China como potencial inimigo.

Stokes acredita que isso represente a retomada de uma tradição muito antiga na política americana. Caso os republicanos reconquistem a Casa Branca e o controle do Senado no ano que vem, alerta Stokes, estejamos preparados para um retorno ao antigo isolacionismo dos EUA.



KENNETH MAXWELL . FSP.29 Sep 2011 

Tradução de PAULO MIGLIACCI