Mostrando postagens com marcador RUY CASTRO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador RUY CASTRO. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

O meio já era a mensagem




RIO DE JANEIRO - Marshall McLuhan teria feito 100 anos outro dia. Voltou subitamente às folhas, e seu livro "The Medium is the Massage" está saindo numa nova tradução brasileira. Ótimo. Resta ver se provocará nos garotos de hoje a impressão que nos causou quando o abrimos pela primeira vez, em 1968, poucos meses depois que ele foi lançado em Nova York.
Na época, foi um choque. Aquele não era bem um livro, mas um objeto do futuro -um show de imagens, palavras e recursos gráficos, para veicular as ideias mais provocativas, sobre o conhecimento e a comunicação. Tanto que McLuhan não era o único autor. Seu editor de arte, Quentin Fiore, o coassinava.
Se tivéssemos que buscar referências para defini-lo, teríamos de ir a filmes de Godard, como "Pierrot le Fou" e "Alphaville", à revista "Esquire", ao jazz, à pop art, às histórias em quadrinhos. Ou ao concretismo -não por coincidência, Décio Pignatari era um de seus campeões no Brasil.
Quando se anunciou que, à falta de McLuhan, Quentin Fiore estava vindo ao Rio, o frisson foi o mesmo. O ano era 1969. Fiore deu uma palestra na Esdi (Escola Superior de Desenho Industrial), na Lapa, para um auditório abarrotado. Na noite seguinte, levado por Pignatari, foi o centro de uma reunião no apartamento de Ecila e José Lino Grünewald, em Copacabana.
Fiore tinha 50 anos e estava esperto. Encantou-se por uma bela menina da Esdi, de 20 anos. Ela também gostou dele. Entusiasmado, Fiore contou sobre como o livro tinha sido feito -ele, em seu estúdio em New Hampshire; McLuhan, em Toronto. Não precisavam se encontrar. Os dois trocavam textos, desenhos, fotos e layouts por um aparelho recém-criado, que transmitia tudo. Algo chamado "fac simile". Ou seja, "The Medium is the Massage" foi feito por intermédio do avô do fax. Não sabíamos, mas o meio já era a mensagem.



RUY CASTRO - 08 Aug 2011 

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Muito de tudo




RIO DE JANEIRO - Os menores de 30 podem não acreditar, mas houve um tempo no Brasil -anos 70, por aí- em que cada família só dispunha de um carro. O qual ficava com o chefe da dita, que o usava para ir trabalhar e o trazia de volta à noitinha. No fim de semana, os filhos disputavam o carango, e o pai podia cedê-lo ou não -Rita Lee fez uma música sobre isso, "Papai, Me Empresta o Carro". Claro que de há muito já não é assim.
Com o telefone, idem. Até fins dos anos 80 (juro!), raras as famílias que tinham mais de um. Não de mais um número, mas de mais um aparelho. Por circunstâncias da época, era mais complicado comprar um telefone do que ir a Adis Abeba. Tínhamos de apelar para pistolões, contratar despachantes, subornar autoridades. Numa disputa de herança, os herdeiros se pegavam por causa do aparelho. E, para se ter uma ideia, telefone era investimento. Hoje, meu vendedor de coco na praia tem três ou quatro celulares pendurados na sunga, e ainda acha pouco.
O mesmo com os televisores. Não que fosse proibido ter mais de um -ao contrário. É que não se usava. Nas décadas de 60 e 70, por exemplo, tanto fazia ter como não ter TV em casa -eu próprio, às vezes, passava anos sem, e sem sentir a menor falta. E então começou a história de um aparelho na sala e outro no quarto.
Hoje, como sabemos, em casa ou na rua, onde quer que você esteja -salas de espera, táxis, aviões, elevadores-, há uma tela ligada.
Com o computador foi diferente. Do trambolho exclusivo das grandes empresas, que ocupava um andar inteiro e ao qual só os técnicos tinham acesso, passamos direto para o computador individual, o PC, que até eu e menores de cinco anos conseguem manobrar.
Mas ainda é cedo para dizer se isso nos fará tão neuróticos e estressados quanto o excesso de carros, telefones e aparelhos de TV.

RUY CASTRO -  07 Sep 2011

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Álbum de figurinhas




RIO DE JANEIRO - Meu neto João Ruy, que é português e mora em Lisboa, fez seis anos outro dia e recebeu do Brasil seu presente favorito: um álbum de figurinhas -no caso, o do Campeonato Brasileiro- e centenas de pacotinhos com as respectivas. É um brinquedo solitário, porque ele não tem com quem trocar duplicatas ou disputar no bafo-bafo. E, claro, só consegue identificar os jogadores do Flamengo, por quem torce ardentemente quando vem ao Rio, ou algum outro que atue pela seleção.
Mas João Ruy não se importa, e passa dias colando cromos de clubes e jogadores para ele desconhecidos. O prazer de completar uma página supera o fato de que muitos daqueles times e indivíduos continuarão a ser rostos e camisas no vazio, e que ele nunca os verá jogar.
Diante da informação de que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) concedeu registro ao PSD (Partido Social Democrático), fundado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e que este é o 28º partido na fosca constelação política brasileira, coloquei-me no lugar de João Ruy. Imaginei como seria um álbum de figurinhas sobre os partidos.
Cada página dupla seria dedicada a um deles. Traria informações como data de fundação, número de filiados, colocação nas últimas eleições, e mostraria suas cores, mascote, seus 20 principais nomes, o recordista em mandatos etc. -cada qual numa figurinha, como no álbum do Brasileirão.
A exemplo de João Ruy, eu e milhões de brasileiros colaríamos figurinhas de gente que, em grande maioria, nunca vimos e, no caso, é melhor mesmo não ver. Um bando de ninguéns sem representatividade, homiziados em partidos de cujas siglas só se ouve falar quando discutem com o governo ou com a oposição sobre quem dá mais pelos seus miseráveis votos.


RUY CASTRO -  30 Sep 2011 

Placa para Tenório




RIO DE JANEIRO - No dia 18 de março de 1976, o pianista brasileiro Francisco Tenório Jr., 33, estava em Buenos Aires para uma temporada no Teatro Rex com seus patrícios Vinicius de Moraes e Toquinho. Naquela noite, saiu do hotel Normandie, onde estavam hospedados, e deixou um bilhete: "Vou comprar cigarros e um remédio. Volto já". Não voltou -nunca mais.

Fora confundido com um militante procurado pela ditadura argentina e levado preso. Por falar bem espanhol e com sotaque portenho, não acreditaram que fosse brasileiro, músico e inocente. Passaram a torturá-lo, com a colaboração, a partir do quinto dia, de agentes brasileiros da Operação Condor, braço internacional das ditaduras argentina, brasileira, chilena e uruguaia.

Nove dias depois, seus algozes se convenceram de que tinham se enganado. Mas, já então, Tenório estava cruelmente machucado. Pior: vira o rosto deles. Não podiam devolvê-lo à rua. O jeito era matá-lo, o que fizeram com um tiro, no dia 27. Dali Tenório foi dado como "desaparecido", e o Brasil nunca se empenhou em elucidar o fim de um de seus filhos mais talentosos -autor, em 1964, aos 21 anos, do grande disco instrumental "Embalo".

Os detalhes gravíssimos sobre a morte de Tenório só começaram a aparecer dez anos depois, em 1986, e mesmo assim porque um membro da inteligência argentina resolveu contar. Pois, agora, os argentinos, que não estão varrendo a sua ditadura para debaixo do tapete, nos darão em breve nova lição.

No dia 16 de novembro, às 14 h, a cidade de Buenos Aires, por iniciativa do deputado portenho Raul Puy, homenageará Tenório com uma placa na fachada do hotel Normandie, na rua Rodríguez Peña, 320, de onde ele saiu para morrer. Ela dirá: "Aqui se hospedou este brilhante músico brasileiro, vítima da ditadura militar argentina".

RUY CASTRO - 22 Oct 2011