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terça-feira, 27 de agosto de 2019

A saga do casamento




O casamento é também um ardil que a civilização arranjou para manter presos à união conjugal o marido e a mulher.

Pelo casamento, como por um milagre jurídico e existencial, os casais se mantêm juntos mesmo após ter cessado o amor e se extinguido o desejo.

Foi uma forma que a sociedade moderna encontrou para que marido e mulher não se separassem, embora não tenham sobrevivido, durante a constância conjugal, os mesmos valores que existiam quando das núpcias.

Por isso é que se arrastam os casamentos em cima das ruínas do amor e do desejo, alicerçados muitas vezes pela amizade, outras vezes pelos filhos, que acabam sendo fortes motivos para que os casais não se separem.

O amor e o desejo são por demais fugazes para que possam ser administrados pela perenidade do casamento.

É quase fatal a fadiga dos metais entre os casais, que se veem assim assaltados pelo fastio e pelo tédio conjugal como uma pressão demolidora. Mas, de outra parte, trombam esses casais com a indissolubilidade do vínculo conjugal, que só pode ser desfeito pelo divórcio perante a lei humana e que é inquebrantável e eterno mediante a lei religiosa.

O casamento é, pois, uma coisa muito séria. Daí que multidões de jovens hoje o evitam, munidos da sabedoria de que cedo cessarão o amor e o desejo e, sem ligação pelo casamento, eles podem partir para outras uniões sem os embaraços de serem considerados amarrados ao matrimônio original.

Por isso é que muitos casais enfrentam o desgaste direto do casamento driblando-o com técnicas diversionistas. Dormindo em camas separadas, em quartos separados ou até em casas separadas, atenuando, assim, o absurdo dessa condenação de solidão a dois.

Há até alguns casais que se permitem, ao marido e à mulher, aventuras extraconjugais que os libertam do vínculo matrimonial, distraindo-se assim em incursões libidinosas fora do eixo do casamento em si, o que os faz suportar com estoicismo promíscuo as amarras do compromisso central.

Esses são os que mantêm o casamento com uma dança farsesca e perigosa, que cedo ou tarde poderá acarretar danos morais e materiais consideráveis.

Ao contrário dos outros, mais sinceros, que resolvem encarar de frente a fatalidade da separação.

Eu já escrevi certa vez que, pior que o casamento, só a separação. Há muitas separações bem-sucedidas, mas a maioria delas guarda marcas doloridas, cicatrizes que acabam por atingir não raramente os filhos da união conjugal fracassada.

Muitos casamentos iniciam-se sob o ritmo da amizade, da compreensão, da cordialidade apaixonada e terminam nas Varas de Família em discussões tão violentas e agressivas, que acirram ainda mais o ódio superveniente nas relações.

Restam, no entanto, alguns raros mas expressivos exemplos de casais que se separam e continuam amigos, até visitando-se, como fosse normal o que lhes aconteceu. São sábios dignos de admiração. Afinal, chegaram à conclusão de que tudo na vida tem um fim e não seria o casamento que iria se constituir em exceção.

Da minha parte, fico extasiado quando assisto, num restaurante ou num bar, a um ex-marido e uma ex-mulher em conversa amigável e civilizada.

São uns heróis.


PAULO SANT’ANA -  23 Aug 2011 

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Poema na madrugada



O fotógrafo Tiago Trindade, dono de um estúdio e credenciado por diversas associações jornalísticas, me escreve, reclamando de que quer fotografar eventos no interior da Igreja São José, em Porto Alegre, mas o pároco não lhe concede licença. Lá só podem atuar fotógrafos credenciados pela igreja, que já são muitos, não havendo mais lugar para outros.

Escreveu-me para quê? Que posso fazer por ele? A não ser talvez dar este destaque que estou dando neste canhão que é esta coluna.

Mas eu escrevi isso porque quero concluir o seguinte. Noto fotógrafos brigando por fotografar casamentos em igrejas, fazendo de tudo para fotografar casamentos nas igrejas.

São ansiosos por fotografar casamentos, mas não vejo nenhum fotógrafo vir até mim para fotografar o meu celibato.

Fotografariam cada cena do meu celibato!

Essa inspiração me surgiu agora,

De madrugada:

Eu já sei o caminho.

Por isso não tenho surpresas.

Já sofri ingratidões,

Já fui traído, igualmente traí.

Agora mesmo estou passando por grande infortúnio.

E nem sei como reuni forças para enfrentá-lo.

Outra vez, me aprisionaram

Numa camisa de força

De que ainda não pude me livrar.

Tristeza, poxa, se fosse só tristeza

Que eu tivera!

Bati contra coisas mais graves

Povoando a minha mente.

Tive agonias. Quase tombei

Em face de calúnias e mentiras

Que inventaram sobre mim.

Mas ainda nos lábios das gentes

Afloram muitas verdades a meu respeito.

Fui vaiado mas também

Tive aclamações.

Dividi o palco, como intruso bem-vindo,

Com grandes artistas.

Quase não posso sair às ruas,

Todos querem me saudar.

Valeu a pena, aqui estou ainda

A colher os frutos e os castigos

Dessa longa caminhada.

Quantas vezes ouvi dela: “Não me deixa

Nunca, pelo amor de Deus!”.

E quantas vezes eu disse a ela:

“Não me deixa nunca, pelo amor de Deus”.

Nos deixamos.

Vivi, sofri, tive filhos, tenho netos

Que vão me suceder nas esperanças.

Vim e ainda não fui.

Será que resta algo mais a ser vivido?


PAULO SANT’ANA -  22 Oct 2011