quinta-feira, 31 de outubro de 2013
"In order to
educate man to a new longing, everyday familiar objects must be shown to him
with totally unexpected perspectives and in unexpected situations. New objects
should be depicted from different sides in order to provide a complete
impression of the object."
— Aleksandr Rodchenko
(1891-1956)
The sense of your
bidding is unclear:
to pray, to curse, is
it, to fight
you bid me, inscrutable
genius?
The spring slackens,
niggard, meager,
and Benozzo Gozzoli’s
courier
dozes in the drowsy
thickets.
Hills are dark with
honeyed cloud.
Look: I do not touch
lithe strings.
Your gaze, prophetically
flying,
is clenched, gushes no
winged streams,
and beckons by no May
road, trying
to outstrip Hermes in
his flight.
Hobbled horses do not
neigh,
Aging warriors sprawl
in disarray…
Hold your palms open
wide!
Risen spring is bright,
but groves of darkness
are not given
to leap for joy having
leapt from dreams.
The groom names not the
hour,
be not guiled to tarry,
hark through ice the
clarion voice,
your flax is drenched
with chrism,
and, bidding goodbye to
numb laze,
free, in love, you will
rise.
"
— Mikhail Kuzmin
(1872-1936)
"Out of frayed
sackcloth - breasts of filthy cataracts,
Like raw potatoes,
branched with rooted blue veins.
What shall we trade?
Salt? How much do you want?
There’s a dead child’s
hat still here.
In the marketplace, a
surveyor dozes like a white skull-
A homeless dog sniffs
him as he would an old cadaver.
What shall we trade?
Bread? How much do you bid?
A pack of dogs in the
street tears a heap of rusted brains into bits.
And birds in the air
flap like scattered black hats-
A disheveled tuft of
wind keeps trying them on-
Is there a deal? Wind?
What do you bid for a windmill?
There, across the
foothills, they aimlessly quarrel over eagles’ wings.
Making a trade? Wind?
What do you bid?"
— Peretz Markish
(1895-1952)
"O efeito de um
livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita
coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o
lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para
quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte
reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no
molhado".
Antonio Candido
"São precisamente as realizações mais frágeis da arte
aquelas que se referem ao sentimento imediato da vida, ao passo que as mais
poderosas, de acordo com sua verdade, referem-se a uma esfera aparentada ao
mítico: "o poetificado". A vida é, em geral, o
"poetificado" dos poemas - assim se poderia dizer; no entanto, quanto
mais diretamente o poeta procura converter a unidade da vida em unidade
artística sem transformá-la, mais ele se revela inepto. Estamos acostumados a
ver a inépcia defendida, e mesmo reivindicada, como "sentimento imediato
da vida", "calor humano', "sensibilidade"."
Walter Benjamin
*Procura da Poesia
Carlos Drummond de Andrade
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não
contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à
efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das
casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto
à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
*Escritos sobre mito e linguagem (Editora 34, 2011).
Poetas
seresteiros e
prostitutas tem algo incomum
todos
durante a execução de suas ‘obras’
suportam
comedidamente
a dor
ainda que esta
seja
lancinante
Jeronimo
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
Ferreira Gullar
Memórias do Cárcere
"Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer
com ele o que faço quando emendo um período — riscar, engrossar os riscos e
transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de
idéias obliteradas."
- Graciliano Ramos, em "Memórias do Cárcere", cap.
5, 1953
Geografia da Fome
“Não é somente agindo sobre o corpo dos flagelados,
roendo-lhes as vísceras e abrindo chagas e buracos na sua pele, que a fome
aniquila a vida dos sertanejos, mas também atuando sobre o seu espírito, sobre
sua estrutura mental, sobre sua conduta social. Nenhuma calamidade é capaz de
desagregar tão profundamente e num sentido tão nocivo a personalidade humana
como a fome quando alcança os limites da verdadeira inanição. Fustigados pela
imperiosa necessidade de alimentar-se, os instintos primários se exaltam, e o
homem, como qualquer animal esfomeado, apresenta uma conduta mental que pode
parecer a mais desconcertante.”
- Josué de Castro, In Geografia da Fome.
Memorial de Maria Moura
“O homem feliz é o que não tem passado. O maior dos
castigos, para o qual só há pior no inferno, é a gente recordar. Lembranças que
vem de repente e ataca como uma pontada debaixo das costelas, ali onde se diz que
fica o coração. Alguém pode ter tudo, mocidade, dinheiro no bolso, um bom
cavalo debaixo das pernas, o mundo todo ao seu dispor. Mas não pode usufruir
nada disso por quê? Porque tem as lembranças perturbando. O passado te
persegue, como um cão perverso nos teus calcanhares. Não há dia claro, nem céu
azul, nem esperança de futuro, que resista ao assalto das lembranças.”
- Rachel de Queiroz, in "Memorial de Maria Moura".
Reflexões sobre o Romance-rio
"Todo mundo tem pressa. A vida se tornou tão múltipla,
tão estonteamente tentacular, que o homem, no afan de tudo gozar, de tudo
aprender, de tudo penetrar - procura a síntese, sofre da mania do comprimido,
vive assombrado pelo relógio, a procurar o máximo de prazer e de experiência no
mínimo de tempo. No meio de toda essa balbúrdia a que já nos vamos habituando,
há um fenômeno muito curioso que desafia o nosso espírito de análise. É o que o
século da pressa, da síntese, da falta de repouso para a leitura - o
romance-rio, o romance caudaloso, o romance camalhaço ressurge a melhor
maneira."
- Erico Verissimo, em “Reflexões sobre o Romance-rio”.
Revista do Globo, 213, 1937. p 17.
Livre
Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava.
Livre da humana, da terrestre bava
dos corações daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Infâmia bifronte que deprava.
Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justiças.
Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.
- Cruz e Sousa, do livro Últimos Sonetos, 1905.
Dom Casmurro
"- A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o
barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando
não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo
baixo e dos mesmos comprimários." in Dom Casmurro - Machado de Assis
"Catei os próprios vermes dos livros, para que me
dissessem o que havia nos textos roídos por eles.- Meu senhor, respondeu-me um
longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos:
nós roemos.Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem
passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio
sobre os textos roídos, fosse ainda um modo de roer o roído."
- Machado de Assis, in: "Dom Casmurro", 26ª ed.
São Paulo: Ática, 1992. p. 117.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Nikolái Bujarin
Político, economista y
filósofo marxista revolucionario ruso. Fue apresado varias veces y participó
activamente en la Revolución de Octubre (1917). Además, se opuso a la
colectivización agrícola forzada.
Fue detenido y ejecutado por su oposición a la política de
Stalin, acusado durante la Gran Purga de una supuesta conspiración para
ejecutar un golpe de Estado armado contra el gobierno de Stalin.
Nuestro sol matutino de cada día
Bei Dao (Beijing, 1949)
Los frágiles brazos de la hierba sostienen el Sol
Gente de diferente color de piel se encamina hacia ti
Convergen en rayos de luz; tu voz de campana
Sacude la nieve acumulada en la cúspide hasta derramarla
Profundo es el temblor del miedo y el pesar de las arrugas
El espíritu no puede otra vez ocultarse tras una pantalla
El libro abre ventanas; da libertad a las parvadas para
volar en círculos
El viejo árbol ha dejado de roncar, ya no echa nuevos brotes
Atar las ágiles pantorrillas del hijo
Pocas mujeres vuelven desde una ducha lejana
Bajar las estrellas y la interminable luz de la Luna
Cada persona tiene la libertad de su nombre
Cada quien su propia voz, su amor, su deseo
Ponerse de pie en la pesadilla del témpano
Al amanecer se derrite, permanece en la oscuridad
Cada persona lleva su propia sombra
Se vuelve pesado el recuerdo bajo sus pies
Al irse poco a poco desaparece
Todos los brazos se unen en el horizonte
Cada historia tiene un nuevo principio
Pues entonces comencemos
Versiones del chino de Alejandro Pescador
domingo, 27 de outubro de 2013
Exercícios de fé | Dominical
i.
Preciso que Deus me guie até o seu paiol
e que do alto dos ocasos
brilhe a pedra fundamental
onde me lavo
em fogo, estrela
bruta e ampla -
crer que meus pés caminham
até a próxima explosão.
ii.
Todo domingo. Uma confissão
de que todo domingo
é uma fraude
sem missais.
iii.
Preciso que o deus venha
áspero, desesperançado
nuns olhos de Clarice.
iv.
Que se redescubra o fogo.
Roberta Tostes Daniel
Вечерняя песня (Слушай Ленинград)
Музыка: В.Соловьев-Седой
Слова: А.Чуркин
Город над вольной Невой,
Город нашей славы трудовой
Слушай, Ленинград,
Я тебе спою
Задушевную песню мою
Здесь проходила, друзья,
Юность комсомольская моя.
За родимый край
С песни молодой
Шли ровесники рядом со мной
С этой поры огневой
Где-бы вы не встретились со мной,
Старые друзья,
В вас я узнаю
Беспокойную юность свою
Песня летит над Невой,
Засыпает город дорогой,
В парках и садах
Липы шелестят,
Доброй ночи, родной Ленинград.
Песни о городах
Lavoura arcaica
"O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o
tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um tempo
só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros; era um tempo
também de sobressaltos, me embaralhando ruídos, confundindo minhas antenas, me
levando a ouvir claramente acenos imaginários, me despertando com a gravidade
de um julgamento mais áspero, eu estou louco!"
- Raduan Nassar, in: Lavoura arcaica, 1975.
Pastores da Noite
“E, se não fôssemos nós, pontais ao
crepúsculo, vagarosos caminhantes dos prados do luar, como iria a noite – suas
estrelas acendidas, suas esgarçadas nuvens, seu manto de negrume – como iria
ela, perdida e solitária, acertar os caminhos tortuosos dessa cidade de becos e
ladeiras? Em cada ladeira um ebó, em cada esquina um mistério, em cada coração
noturno grito de súplica, uma pena de amor, gosto de fome nas bocas de
silêncio, e Exu solto na perigosa hora das encruzilhadas.”
- Jorge Amado
- Jorge Amado
sábado, 26 de outubro de 2013
De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça de camurça com que pisas.
De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.
A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.
De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.
(José Saramago)
O vinho
As redondezas do vinho. As asperezas do vinho.
As veleidades do vinho. As veludezas do vinho.
As calorias do vinho. Os labirintos do vinho.
As branquidades do vinho. As verdolências do vinho.
As rosaledas do vinho. As inverdades do vinho.
As bordalesas do vinho. As borgonhesas do vinho.
As fluidezas do vinho. As espessuras do vinho.
Os jaguardentes do vinho. As águas duras do vinho.
As florisbelas do vinho. As florisfeias do vinho.
Os operários do vinho. As excelências do vinho .
As sonolências do vinho. Os maremotos do vinho.
- Murilo Mendes, em "Convergência". São Paulo:
Duas Cidades, 1970.
A HISTÓRIA MUDA, O INIMIGO MUDA - CINEMA:
A propaganda política e ideológica entendida como fenômeno
da sociedade e da cultura de massas, consolidou-se nas décadas de 1920-1940,
com o avanço tecnológico dos meios de comunicação. A primeira metade do século
XX foi marcada pela ascensão e consolidação dos regimes que utilizaram os meios
de comunicação de massas como instrumentos de propaganda política... e de
controle da opinião pública. Ficando evidente antes, durante e depois da
segunda guerra.
As ameaças feitas por Kim Jong-il, 30, á Coréia do Sul e aos
Estados Unidos fazem da republica norte coreana o novo inimigo histórico nas
telas de cinema americano.
Na sexta-feira dia 05 de abril estreou nos cinemas do Brasil
o filme “Invasão à Casa Branca”. Nele mostra um terrorista norte-coreano
tomando de assalto a Casa Branca, lá ele mantém o presidente americano (Aaron
Eckhart) como refém.
NAZISTAS – 1938 até hoje:
Filmes: “Casablanca”(1942), “Os Doze Condenados” (1967), “Os
Caçadores da Arca Perdida”(1981), “A lista de Schindler” (1993)
Mesmo com a derrota de Hitler, os nazistas nunca saíram das
telas do cinema, apenas foi adaptado a novas ondas estéticas.
SOVIÉTICOS – 1940-70 e 1980 até hoje:
Filmes: “Moscou Contra 007” (1963), “Caçada ao Outubro
Vermelho” (1990), “Rocky IV” (1985), “Duro de Matar: Um Bom Dia para Morrer”
(2013)
Misteriosos e capazes de ameaçar o poderio militar e
cientifico dos americanos. Após a dissolução da URSS, viraram terroristas.
TRAFICANTES – 1985 - 1990:
Filmes: “Máquina Mortífera”(1987), “Tango & Cash”
(1989), “Os Bons Companheiros” (1990)
O então Presidente Ronald Reagan declarou guerra as drogas,
Hollywood foi atrás de vilões interessados em lucrar com psicoativos.
TRAÍDORES DA PÁTRIA – 1990 – 2000:
Filmes: “Duro de Matar 2” (1990), “A Rocha” (1996), “O
Suspeito da Rua Arlington” (1999)
Terroristas como “Unabomber” e o ataque a Oklahoma City, em
1995, mostram que o inimigo não tem sotaque estrangeiro e não mora em outro
território.
ÁRABES – 1992 – 2012:
Filmes: “True Lies” (1994), “Nova York Sitiada” (1998),
“Syriana” (2005), “A Hora mais Escura” (2012)
Antes de 2001, eram os inimigos bidimensionais. Após o 11 de
setembro, evitou estereótipos que causassem fúria nos radicais islâmicos.
NORTE-COREANOS – 2010 – hoje:
Filmes: “Salt” (2010), “Amanhecer Violento” (2012), “G.I.
Joe – Retalição” (2013), “Invasão a Casa Branca” (2013)
Os dois últimos lideres fazem ameaças constantes a Coréia do
Sul, Japão e aos EUA.
Kacá Patricio – Equipe História Agora
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Fonte: Questões & Debates, Curitiba, n. 38, p. 101-131,
2003. Editora UFPR, Jornal Folha de São Paulo.
MODO DE PRODUÇÃO ASIÁTICO
“O papel de Engels na elaboração do conceito de ‘modo de
produção asiático’ foi bem menor do que o de Marx. No Anti-Dühring (1878),
Engels reafirmou a necessidade de organização das obras de irrigação no Oriente
como elemento que explica o surgimento dos Estados despóticos. Ele via no
despotismo oriental a mais primitiva forma de Estado, por basear-se na mais
elementar das formas de renda: a renda em trabalho. O livro mencionava também
que as comunidades aldeãs da Índia haviam evoluído da propriedade comunal
tribal ao parcelamento da terra e ao surgimento de diferenças de riqueza entre
os indivíduos, devido à distribuição desigual do produto das trocas
intercomunitárias. [...] Engels sugeria a existência de dois caminhos
históricos para o surgimento do Estado: o que conduz ao despotismo oriental, no
qual se mantêm a existência das comunidades tribais e pela evolução das forças
produtivas, levando ao desenvolvimento do escravismo.”
CARDOSO, Ciro Flamarion S. in: Sociedades do Antigo Oriente
próximo, p. 15, 16.
Robson Bertasso,
Administração História Agora.
CARDOSO, Ciro Flamarion S. Sociedades do antigo Oriente
próximo. São Paulo: Ática, 1986. 93 p.
PARA O MAURÍCIO TRAGTENBERG
mineiro era meu avô
o mouro morreu de silicose
meu pai, andaluz carpinteiro
de pulmonar enfisema
aló irma, cambiei, pois ligo não
agora sei, juro ema, sobre o rancor
então vamos tragar afeto, doçuras
mamãe diz tergüel, ouçam o fonema
administrando bem a auto sugestão
podemos tomar lcd brasileiro
sem susto, talvez plasma
aí o buraco menor é que abala
dá vontade
mas e a impotência
diante dos lábios cínicos
e do can ivete?
em extrema dieta
os abduzidos sussurram
tem muito mau
há lito no espaço
LUIZ FERNANDO VENEGAS
(trecho do Aeronave Chega Birutas Tremulam - 2014)
Ironia sentimental
Coaxar dos sapos, quando a noite é calma,
sem jardins simbolistas, nem repuxos cantantes,
nem rosas místicas na sombra, nem dor em verso...
Coaxar dos sapos, longamente,
quando o céu palpita na moldura da janela,
num mistério doce, num mistério infinito,
e em cada estrela há um lábio, um lábio puro que treme,
e um segredo na luz que palpita, palpita...
- Augusto Meyer, em “Coração verde”, Porto Alegre: Globo,
1926.
Sinto a vida calefar
pelos poros. Não posso conter o apelo de minha anatomia.
Sou o veículo frágil das
hipóteses desconexas, das crenças céticas, dos hermetismos confessos.
Sou corpo que não cabe em
recipientes.
Sou o títere das
articulações engessadas.
Sou eu mesmo o meu
próprio simulacro.
Autor: Ézio Deda
terça-feira, 22 de outubro de 2013
A FONTE
Adoro essa música do Echo and the Bunnymen, e acabei
traduzindo a letra. Dedico ela aos meus amigos, homens-coelhos...
A FONTE
Adormeci ao pé do Monte.
Dos rios que atravessamos,
Eu sonhei com a fonte
E a moeda que atiramos.
Agora só estou contando
Os sonhos perdidos na curva
Uma moeda na fonte
É só isso que custa?
Só isso mesmo que custa?
Eu vou como os oceanos vão
Engoli marés em alto-mar
Enterrei aquela emoção
Que não consegui libertar
Bebi cada uma das poções
De A até a mim
E isso foi devoção
Será que aquele era eu?
Eu mesmo, no fim?
Que jeito de desperdiçar seus desejos
Trocando “alguma coisa” por “de alguma forma”
O que eu não daria pra provar seus beijos,
Ah, sim
Aqui e agora, aqui e agora,
Aqui e agora, você está me ouvindo agora?
Será que haverá trovão?
O raio fará jus?
Vou me ajoelhar em admiração
Num túnel de luz?
Será que vou me abater?
E desistir da luta onde fosse
Quando for a minha vez
De ser chamado de noite
Chame de
noite...
Chorei até a fonte secar
Escalei a montanha mais alta
Aleluia... Aleluia...
Até te encontrar
Letra: Ian McCulloch
Gravada por
Echo and the Bunnymen no Cd “The Fountain”
Tradução/versão brasileira: Fernando Koproski
“A poesia, como a
litteratura em geral, está muito acyma dessas seitas ou dessas receitas. Quando
eu adopto o soneto como molde e a orthographia etymologica como opção esthetica
e politica, não o faço por me achar dono da verdade, e sim por me achar investido
no direito de escolha, essencial ao livre arbitrio e ao intellecto humano e
humanista.”
Glauco Mattoso no 'Inquérito': http://rascunho.gazetadopovo.com.br/poesia-a-prova-de-tracas/
"Estamos no plano radical da utopia social, tendo em
vista que não existem – nem de longe – possibilidades de um bloco de poder
popular no Brasil. O que significa que, na perspectiva do realismo político, a
sustentação e a governabilidade 'hic et nunc' de uma frente política com
pretensões de reforma social, implicaria irremediavelmente, num primeiro
momento, articulação – mesmo que contraditória – com determinadas camadas,
frações e categoriais do bloco de poder burguês. Eis a questão..."
Giovanni Alves em sua coluna de outubro no Blog da Boitempo.
sábado, 19 de outubro de 2013
Dolências
Oh! Lua morta de minha vida,
Os sonhos meus
Em vão te buscam, andas perdida
E eu ando em busca dos rastos teus...
Vago sem crenças, vagas sem norte,
Cheia de brumas e enegrecida,
Ah! Se morreste pra minha vida!
Vive, consolo de minha morte!
Baixa, portanto, coração ermo
De lua fria
À plaga triste, plaga sombria
Dessa dor lenta que não tem termo.
Tu que tombaste no caos extremo
Da Noite imensa do meu Passado,
Sabes da angústia do torturado...
Ah! Tu bem sabes por que é que eu gemo!
Instilo mágoas saudoso, e enquanto
Planto saudades num campo morto,
Ninguém ao menos dá-me um conforto,
Um só ao menos! E no entretanto
Ninguém me chora! Ah! Se eu tombar
Cedo na lida...
Oh! Lua fria vem me chorar
Oh! Lua morta da minha vida!
- Augusto dos Anjos, in "Eu e outras poesias". 42ª
ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.
["Ao longo do primeiro ano em que o Sr. Wordsworth e eu
fomos vizinhos, nossas conversas com frequência se voltaram para os dois pontos
cardeais da poesia, o poder de excitar a empatia do leitor, através de uma
aderência fiel à verdade da natureza, e o poder de conceder o interesse da
novidade através das cores modificadoras da imaginação. O encanto súbito, cujos
acidentes de luz e sombra, cujo luar ou arrebol difusos sobre uma paisagem
conhecida e familiar, parecia representar a praticalidade de se combinar a
ambos. Tal é a poesia da natureza."]
samuel taylor coleridge por Ade Scndlr, no escamandro.
sobre a recepção crítica de sua poesia.
"Só vejo vantagens nessa 'confusão' [entre música
popular e poesia]. Ela foi desvantajosa, a certa altura, para a carreira
literária do Vinicius, que foi muito esnobado pela universidade, pela crítica.
Eu sou professor da UFRJ e até quatro, cinco anos atrás não existia uma única
tese sobre Vinicius. Isso não corresponde ao seu tamanho como poeta nem à sua
popularidade. Só que exatamente porque ele era um poeta popular demais, ainda
que isso nunca tivesse sido dito, está na cara de que a questão é: “Se é tão
popular, não pode ser bom”. Então, a idéia da poesia como uma coisa para
poucos, como luxo, não combinava com esse negócio de um poeta de que todo mundo
fala. Ao mesmo tempo, foi essa popularidade do Vinicius, essa junção
cantor-sambista, que fez com que ele se mantivesse como poeta na memória das
pessoas. Elas podem até não saber os sonetos inteiros, mas sabem meia dúzia de
poemas ou de versos soltos. E mesmo que não conheçam os livros, conhecem o
nome, há um carinho por Vinicius, os livros são lidos, as escolas adotam, estão
nas coletâneas. Então, ele se manteve como autor mesmo com todo o desprezo que
a universidade lhe deu. (...) para ele foi desvantajoso. Mas para nós é só
vantagem. É só vantagem que uma dona de casa semi-alfabetizada possa cantar
Dolores Duran e Vinicius."
Eucanaã Ferraz, coordenador da coleção de Vinicius de Moraes
na Companhia das Letras, sobre a recepção crítica de sua poesia.
Pneumotórax
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão
direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Autor: Manuel Bandeira
O sertanejo falando
A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.
2.
Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-la na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.
- João Cabral de Melo Neto, in “Melhores Poemas de João
Cabral de Melo Neto". [Seleção Antônio Carlos Secchin], São Paulo: Global
Editora, 8ª ed., 2001, pag. 184.
“Todas as coisas que me rodeiam são raízes. A jabuticabeira
que deve ter quase cem anos, a caramboleira, os baús, os móveis e todos os
objetos antigos não são uma forma triste de memória mas uma afirmação de que,
num crescimento espiritual, num crescimento humano não podemos jogar nada pela
janela ou no lixo. Não podemos jogar fora as raízes - elas nos preservam e elas
se preservam conosco, na memória ou dentro da terra, seja onde for, mas elas
também nos projetam porque, à medida que elas se preservam na terra, elas
crescem fazem a gente crescer, como uma árvore. O homem é uma árvore que abriga
amores, lembranças, outros seres, uma árvore que dá sombra e luz, e é para isso
que a gente nasceu, fundamentalmente. Isso eu aprendi, é claro convivendo com
meus pais e também com os vizinhos, que tinham maneiras semelhantes de viver e
conviver, maneiras simples mas definitivas.”
- Lindolf Bell, em “entrevista” à Fundação Catarinense de
Cultura. Publicado: em “Lindolf Bell: estudo biobibliográfico: antologia”.
(Escritores catarinenses - Série hoje nº 2). Florianópolis: FCC, 1990.
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
The Logic of Scientific Discovery
“For myself, I am
interested in science and in philosophy only because I want to learn something
about the riddle of the world in which we live, and the riddle of man's
knowledge of that world. And I believe that only a revival of interest in these
riddles can save the sciences and philosophy from narrow specialization and
from an obscurantist faith in the expert's special skill, and in his personal
knowledge and authority; a faith that so well fits our 'post-rationalist' and
'post-critical' age, proudly dedicated to the destruction of the tradition of
rational philosophy, and of rational thought itself.”
Karl Popper
Karl Popper
Negro incendio
La noche está conmigo.
Después de un día revuelto y agujereado
he mirado de pronto a la ventana
y he visto el negro incendio.
Qué irreal, qué sorprendente es a veces lo conocido.
De qué extraña manera
de pronto estamos vivos.
De qué manera solapada y plácida
de pronto estamos muertos.
Alguien que me delate en esta sombra,
alguien que me defienda en esta noche,
alguien que salga fiador por mí,
alguien que me sujete a su impotencia,
alguien, un rostro, pero agora.
Francisca Aguirre | Triste Asombro
O Brasil como problema
"...Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando,
lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas demais: a
salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o
socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade somei mais
fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria
ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas."
- Darcy Ribeiro, em "O Brasil como problema",
1995.
O Tempo e Eu
"Creio na bondade sem a garantia prévia da gratidão.
Sem que se assegure da memória devedora. Sem que se estabeleça, pelo ato
generoso, uma servidão vitalícia no beneficiado. Bondade paga-se no puro e
simples ato de sua realização. Como um fruto justifica a existência útil da
árvore. Bondade antevendo a recompensa é apólice de sociedade mutualista
rendendo do capital intocável do favor inicial. Os pássaros não são devedores
dos frutos e da água da fonte. Eles testificam, perante a natureza, a
continuidade da missão cultural."
- Câmara Cascudo, em "O Tempo e Eu", Natal:
UFRN/Imprensa Universitária, 1968.
"A educação corrente e formal, simplificadora das
realidades do mundo, subordinada à lógica dos negócios, subserviente às noções
de sucesso, ensina um humanismo sem coragem, mais destinado a ser um corpo de
doutrina independente do mundo real que nos cerca, condenado a ser um humanismo
silente, ultrapassado, incapaz de atingir uma visão sintética das coisas que
existem, quando o humanismo verdadeiro tem de ser constantemente renovado, para
não ser conformista e poder dar resposta às aspirações efetivas da sociedade,
necessárias ao trabalho permanente de recomposição do homem livre, para que ele
se ponha à altura do seu tempo histórico."
- Milton Santos
O ESTADO E A VIOLÊNCIA
“O Estado precisa reprimir e criminalizar toda e qualquer
dissidência pelo simples motivo de que por qualquer pequena rachadura da ordem
pode brotar a imensa torrente que nos unirá contra a ordem que o Estado
garante.”
Mauro Iasi no Blog da Boitempo
a educação entre a sala de aula e a rua
“'A aprendizagem é a nossa própria vida', como Paracelso
afirmou há cinco séculos, e também muitos outros que seguiram seu caminho, mas
que talvez nunca tenham sequer ouvido seu nome. Mas para tornar essa verdade
algo óbvio, como deveria ser, temos de reivindicar uma educação plena para toda
a vida, para que seja possível colocar em perspectiva a sua parte formal, a fim
de instituir, também aí, uma reforma radical. Isso não pode ser feito sem
desafiar as formas atualmente dominantes de internalização, fortemente
consolidadas a favor do capital pelo próprio sistema educacional formal. De
fato, da maneira como estão as coisas hoje, a principal função da educação
formal é agir como um cão-de-guarda 'ex-officio' e autoritário para induzir um
conformismo generalizado em determinados modos de internalização, de forma a
subordiná-los às exigências da ordem estabelecida. O fato de a educação formal
não poder ter êxito na criação de uma conformidade universal não altera o fato
de, no seu todo, ela estar orientada para aquele fim. Os professores e alunos
que se rebelam contra tal desígnio fazem-no com a munição que adquiriram tanto
dos seus companheiros rebeldes, dentro do domínio formal, quanto a partir da
área mais ampla da experiência educacional ‘desde a juventude até a velhice’.”
—István Mészáros, “A educação para além do capital” ( http://bit.ly/H4Dikw )
Leia também "Educação: desenvolvimento contínuo da
existência socialista", de István Mészáros, no Blog da Boitempo:
http://bit.ly/18mBDkU
"Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os
criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as
coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status
quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a
única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas.
Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos,
nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar
que podem mudar o mundo, são as que o mudam." Jack Kerouac
Recital de Facundo Cabral
Yo tenía ojos y no veía.
Yo tenía boca y no hablaba.
Yo tenía manos y no tocaba.
Yo tenía pies y no caminaba.
Pero un día llegaste vos...
Y por tu amor comencé a ver
a oír, a tocar, a caminar.
¡Jamás te perdonaré que me hayas arrancado de mi valle de
paz!"
Facundo Cabral
domingo, 13 de outubro de 2013
PRISIONEIRO NA PEDRA
Na pedra,
ele espreita:
peixe, pássaro, lua.
Seu olho-flecha
nunca fere a presa.
Pois que tudo se move;
rio, céu, satélite
e até mesmo a pedra.
Não se move o homem,
cego à teia
que à sua volta cresce.
Donizete Galvão (do livro As faces do rio)
trecho do poema “Uma Arte”
"A arte de perder não é nenhum mistério.
Tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes."
- Elizabeth Bishop (1956).
Lições
Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.
Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.
Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.
Trêmula, a haste
me pede
o adiar da noite.
Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.
Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.
Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?
- Mia Couto, no livro "Idades Cidades Divindades",
Lisboa, Caminho, 2007.
da solidão
"A maior solidão é a do ser que não ama. A maior
solidão é a do ser que ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a
participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo,
no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor,
de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem
medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo.
Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em
torno. Ele é a angústia do mundo que
o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da
emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio,
semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre."
- Vinicius de Moraes, da solidão.
Sapato Florido
Epílogo
Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma.
Tudo agora está suspenso. Nada aguenta mais nada. E sabe Deus o que é que desencadeia
as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe... Umas
vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca... Outras vezes senta uma mosca
e desaba uma cidade.
- Mario Quintana, in: Sapato Florido, 1948.,
Vindima
Vamos colher as uvas molhadas pelo orvalho
e tapetar de folhas o ingênuo samburá.
Em cada cacho maduro há uma pupila.
Quem será que ensina a estas aranhas
a tecer o fio frágil do aranhol,
e movimenta à sombra escura da parreira
a dança loura do sol?
Vamos colher as uvas.
Vamos cortar os cachos de efêmero sabor.
As tuas mãos morenas são ágeis como aranhas
e têm carícias gulosas para os frutos.
Prova o sumo sanguíneo.
Tinge os teus lábios no sangue da videira.
No teu cabelo o sol floresce uma coroa.
mergulhando os braços na folhagem,
és uma árvore moça,
és uma vinha selvagem que oferece
cachos de beijos para a minha fome!
- Augusto Meyer, em “Giraluz”, Porto Alegre: Globo, 1928.
El Aromo
(Romildo Risso/Atahualpa Yupanqui)
Hay un aromo nacido
en la grieta de una piedra.
Parece que la rompió
pa’ salir de adentro de ella.
Está en un alto pela’o,
no tiene ni un yuyo cerca,
Viéndolo solo y florido
Tuito el monte lo envidea.
Lo miran a la distancia
árboles y enredaderas,
diciéndose con rencor:
“¡Pa uno solo, cuánta tierra!”
En oro le ofrece al sol
pagar la luz que le presta.
Y como tiene de más,
puña’os por el suelo siembra.
Salud, plata y alegría,
tuito al aromo, la suebra
Asegún ven los demás
dende el lugar que lo observan.
Pero hay que dir y fijarse
como lo estruja la piedra.
Fijarse que es un martirio
la vida que le envidean.
Que en ese rajón, el árbol nació
por su mala estrella.
y en vez de morirse triste
se hace flores de sus penas…
Como no tiene reparo,
todos los vientos le pegan.
Las heladas lo castigan
L’agua pasa y no se queda.
Ansina vive el aromo
sin que ninguno lo sepa.
Con su poquito de orgullo
porque es justo que lo tenga.
Pero con l’alma tan linda
que no le brota una queja.
Que en vez de morirse triste
se hace flores de sus penas.
¡Eso habrían de envidiarle
los otros, si lo supieran!
sábado, 12 de outubro de 2013
Clarissa
"Fora, o luar cresce, tênue, inundando a paisagem.
Clarissa infla as narinas. Parece-lhe que o luar tem um
perfume todo especial. Se ela pudesse pegar o luar, fechá-lo na palma da mão,
guardá-lo numa caixinha ou no fundo de uma gaveta para soltá-lo nas noites
escuras…"
- Erico Verissimo,
Octubre 12 - Día del Descubrimiento
En 1492, los nativos descubrieron que eran indios,descubrieron que vivían en América,descubrieron que estaban desnudos,descubrieron que existía el pecado,descubrieron que debían obediencia a un rey y a una reina de
otro mundo y a un dios de otro cielo,y que ese dios había inventado la culpa y el vestido
y había mandado que fuera quemado vivo quien adorara al sol
y a la luna y a la tierra y a la lluvia que la moja.
[Don Eduardo Galeano, 'Los hijos de los días
"Quando encontrares um homem
Que transforme cada partícula tua em poesia,
Que faça de cada um dos teus cabelos, um poema,
Quando encontrares um homem
Capaz, como eu, de te lavar e adornar, com poesia,
Hei de implorar-te, que o sigas sem hesitação.
Pois o que importa, não é que sejas minha ou dele,
mas sim da poesia...".
~ Nizar Qabbani (poeta sírio)
Leia Mais: http://
Tu nel mio cuore
Oggi nel cuore non esiste
dolore quella ferita
che aveva perforato a lungo
si è rimarginata.
Un lungo silenzio ha fatto
si
che un vuoto facesse dimenticare
i lunghi lamenti,
ero in guerra con me stesso.
Mentre i ricordi mi trascinavo
appesi
a una lunga catena e,
il dolore privava i sentimenti
mentre il soccorso tardava,
il cervello vagava.
Potevo fare qualsiasi cosa,
anche se mi rivolgevo
alle stelle e chiedevo
un attimo di pace,
chi mai poteva ascoltarmi.
Quando nacque la speranza
i ricordi del passato svanirono,
i momenti d’affetto che
t r a s c o r r e v o
tra le braccia di una donna
anche se amorosa mi facevano
e s s e r e in pace
ma non ero me stesso.
Oggi nella mia anima
una ferita sta rimarginando,
nella mente anche se porto
ancora i ricordi mi sento
diverso.
@ Giuseppe Buro
Dialogo com Guimarães Rosa
"... nós, os homens do sertão, somos fabulistas por
natureza. Está no nosso sangue narrar estórias; já no berço recebemos esse dom
para toda a vida. Desde pequenos, estamos constantemente escutando as
narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos
em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel. Deste modo a
gente se habitua, e narra estórias que corre por nossas veias e penetra em
nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens (...) Eu
trazia sempre os ouvidos atentos, escutava todo o que podia e comecei a
transformar em lenda o ambiente que me rodeava, porque este, em sua essência,
era e continua sendo uma lenda."
- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz -
"Dialogo com Guimarães Rosa".
Elegia de Taormina
A dupla profundidade do azul
Sonda o limite dos jardins
E descendo até à terra o transpõe.
Ao horizonte da mão ter o Etna
Considerado das ruínas do templo grego,
Descansa.
Ninguém recebe conscientemente
O carisma do azul.
Ninguém esgota o azul e seus enigmas.
Armados pela história, pelo século,
Aguardando o desenlace do azul, o desfecho da bomba,
Nunca mais distinguiremos
Beleza e morte limítrofes.
Nem mesmo debruçados sobre o mar de Taormina.
Ó intolerável beleza,
Ó pérfido diamante,
Ninguém, depois da iniciação, dura
No teu centro de luzes contrárias.
Sob o signo trágico vivemos,
Mesmo quando na alegria
O pão e o vinho se levantam.
Ó intolerável beleza
Que sem a morte se oculta.
- Murilo Mendes, em "Poesias, 1925/1955". Rio de
Janeiro: José Olympio, 1959.
/
Monólogo de uma sombra
"Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca...
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de uma esfera opaca.
Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!"
- Augusto dos Anjos, do poema "Monólogo de uma
sombra".
Educação e Mudança
"Quando o homem compreende a sua realidade, pode
levantar hipóteses sobre o desafio dessa realidade e procurar soluções. Assim,
pode transformá-la e o seu trabalho pode criar um mundo próprio, seu Eu e as
suas circunstâncias."
O nome da Rosa
"Pode-se pecar por excesso de loquacidade e por excesso
de reticência. Eu não queria dizer que é necessário esconder as fontes da
ciência. Isso me parece antes um grande mal. Queria dizer que, em se tratando
de arcanos dos quais pode nascer tanto o bem como o mal, o sábio tem o direito
e o dever de usar uma linguagem obscura, compreensível somente a seus pares. O
caminho da ciência é difícil e é difícil distinguir nele o bem do mal. E
freqüentemente os sábios dos novos tempos são apenas anões em cima dos ombros
de anões. O limite entre o veneno e o remédio é bastante tênue, os gregos
chamavam a ambos de Pharmacon."
- Umberto Eco, in "O nome da Rosa"
Americanos
Cuenta la historia oficial que Vasco Núñez de Balboa fue el
primer hombre que vio, desde una cumbre de Panamá, los dos océanos. Los que
allí vivían, ¿eran ciegos?
¿Quiénes pusieron sus primeros nombres al maíz y a la papa y
al tomate y al chocolate y a las montañas y a los ríos de América? ¿Hernán
Cortés, Francisco Pizarro? Los que allí vivían, ¿eran mudos? Lo escucharon los
peregrinos del Mayflower: Dios decía que América era la Tierra Prometida. Los
que allí vivían, ¿eran sordos? Después, los nietos de aquellos peregrinos del
norte se apoderaron del nombre y de todo lo demás. Ahora, americanos son ellos.
Los que vivimos en las otras Américas, ¿qué somos?
Eduardo Galeano - Espejos. Una Historia casi universal.
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