sexta-feira, 14 de abril de 2017

Comentários soltos ao Relatório Parcial da Comissão Especial da Reforma Política na Câmara dos Deputados


BRUNO P. W. REIS·SEXTA, 7 DE ABRIL DE 2017

Recortes do relatório em pílulas, seguidos de minhas impressões em itálico.
 
Dois eixos essenciais e imediatos:
1) o estabelecimento do financiamento público de campanhas combinado com doações de pessoas físicas
A criminalização das doações privadas, alcançando agora até as doações legais, tornam efetivamente inviável, pelo menos por algum tempo, a existência de doações privadas volumosas. Mas isso não é um bem em si. Não é uma conquista. É um preço que pagaremos pela aberração que foi a adoção de tetos proporcionais à renda dos doadores (só o Brasil tem isso). Se as fontes forem devidamente pulverizadas por tetos nominais da ordem de uns 5 mil reais para pessoas físicas (aí incluídas as autodoações) e 50 mil para pessoas jurídicas por ciclo eleitoral (valores altos o bastante para viabilizar uma campanha por esforço próprio de arrecadação, mas baixos o bastante para impedir que um doador exerça patronato exclusivo sobre uma campanha), então a existência de um mercado pujante de financiamento privado será um sintoma de saúde da democracia, baixando as barreiras à entrada e viabilizando desejável arejamento do sistema partidário, sem necessariamente desestabilizá-lo. O financiamento público é necessário, mas não deveria ser exclusivo – ou tão esmagadoramente dominante.
2) a instituição de listas partidárias preordenadas para as eleições proporcionais.
Sou até suspeito pra falar. Sou o mais enfático defensor da lista preordenada que eu conheço. Já escrevi rios de bytes sobre isso aqui no Facebook, e pelo menos dois artigos um pouco mais extensos: este aqui (http://interessenacional.com/index.php/edicoes-revista/tirando-os-partidos-do-armario/), de 2010, e este outro, talvez mais amadurecido (http://www.fpabramo.org.br/publicacoesfpa/wp-content/uploads/2015/06/Reforma-política-BAIXA.pdf, pp. 121-141), de 2015.
Entre várias reações contrárias às listas e, sobretudo, uma óbvia hostilidade da imprensa, tem sido possível detectar certa hostilidade por jovens militantes em início de carreira, preocupados com suas perspectivas eleitorais sob a lista. Como me disse um amigo, estes jovens, atraídos pela possibilidade de se elegerem, “rejeitam veementemente a possibilidade de ter de entrar na fila, pra quem sabe um dia se elegerem”. Isto me parece uma claríssima ilusão. Vão ter de se submeter muito mais duramente ao tacão de algum chefe eterno, inamovível, para terem chance sob a lista aberta. Em convenções, basta a exigência de voto secreto para o controle dos dirigentes sobre os resultados ser gravemente erodido.

Outras mudanças, para complementar os dois eixos.
a) o aprimoramento dos instrumentos de democracia direta
Campo minado, a ser explorado com extremo cuidado. A tentação nessa direção é grande numa conjuntura como a nossa. Mas tudo o que menos precisamos nesse momento é que penosos acordos políticos nessa quadra difícil venham a ser desautorizados por plebiscitos explorados taticamente por demagogos para fins estratégicos pessoais. Estão aí o Brexit e, principalmente, o acordo de paz na Colômbia, para nos advertir da gravidade dos riscos implicados. Mesmo no que toca à vida partidária, na forma da exigência de prévias, eu iria com cuidado. Um diretório regional orgânico, constituído por facções de longa militância, com convivência arduamente construída sobre compromissos políticos longamente decantados, pode se ver atropelado numa prévia por um esforço de filiações por aventureiros bem financiados com precário vínculo partidário. É preciso lembrar: alargar a abrangência de uma disputa é aumentar o peso do dinheiro no seu resultado.
b) a alternância de gênero na composição de listas partidárias,
A viabilização de quotas variadas (gêneros, raças etc.) é um dos principais trunfos da lista preordenada. Eu não correria direto para uma quota 50/50 de gêneros, porém. Pois esta é a melhor maneira de se neutralizar politicamente um tema muito relevante e que deveria ser melhor explorado. Se todos os partidos são obrigados a intercalar homens e mulheres pela metade, imediatamente todos os partidos atendem a quota, e vai ser difícil explorar nas campanhas a eventual diferença entre uma lista repleta de mulheres com histórica militância partidária de uma lista repleta de esposas e filhas de caciques. Já se a quota é um piso de, digamos, no mínimo uma mulher a cada três nomes, o partido que quiser emitir um recado mais claro nessa matéria terá a oportunidade de, ao superar o piso, emitir um recado, tematizar o assunto agressivamente na campanha e tentar capitalizar o debate.
c) ajustes no processo de registro de candidaturas
Brevíssimo comentário adiante.
d) mais rigor na fiscalização da divulgação de pesquisas eleitorais.
O melhor antídoto contra a existência de más pesquisas eleitorais é a existência de muitas pesquisas eleitorais. Ainda mais com a viabilização contemporânea de mecanismos de identificação de tendências pela agregação quase instantânea dos resultados de todas as pesquisas que quisermos, em busca das médias perceptíveis por debaixo do ruído produzido pela inevitável variação de cada uma. Por isso é contraproducente a introdução de mecanismos que podem inibir a divulgação de pesquisas. Quanto menos pesquisas houver, maior a chance de manipulação das expectativas pela divulgação de um resultado "fora da curva". E, não importa o rigor adotado, sempre é possível um resultado anômalo. O Brasil já é um país que impõe exigências consideráveis para a divulgação de pesquisas. Criar dificuldades ainda maiores é um tiro no pé. O simples blecaute ao final da campanha proposto deixa o eleitorado no escuro enquanto a elite política, sozinha, consome suas “internas” e decide se vale a pena propalar boataria. Não, obrigado: quero ser bem informado até o dia da eleição, e entendo que eu tenho o mesmo direito que os candidatos quanto a isso.
As mudanças propostas para o sistema eleitoral devem valer apenas para as eleições de 2018 a 2022. A partir de então, caso aprovada Proposta de Emenda à Constituição também aqui incluída para análise, passaria a vigorar o sistema distrital misto.
É meritória a tentativa de, ao propor algo que pareça viável aqui e agora, não se perder de vista algum objetivo de longo prazo, que se exprima numa proposta eventualmente considerada ideal mas de adoção impraticável para já. Pessoalmente, considero os sistemas mistos arranjos engenhosos e defensáveis, em que pese as dificuldades imediatas em sua operacionalização. Contudo, os legisladores devem ter em mente que, uma vez introduzida qualquer mudança, ela produz efeitos imediatos no alinhamento dos interesses atuantes no sistema, mudando a configuração de forças. Ou seja, na ausência de um aprofundamento contínuo da crise, é provável que os vencedores em 2018 e 2022 venham a se mostrar interessados na manutenção das regras eventualmente adotadas agora e passem a obstruir a mudança prevista para 2026. E se por acaso a crise continuar a se agravar, de todo modo a mudança produzida agora será fragilizada e todo o processo poderá ser abortado, revertido, ou receber nova direção. Ou seja, é bastante improvável que a trajetória imaginada aqui agora se viabilize até 2026. Nada disso impede a proposição de um plano, claro. Acredito que os legisladores tenham clareza quanto a isto.
70% dos recursos provenientes do FFD em pleitos para cargos do Poder Executivo e 30% em pleitos para cargos do Poder Legislativo.
Por que não deixar os partidos decidirem quanto a isso? A única razão que consegui imaginar foi evitar possível "predação financeira" das campanhas ao legislativo pela voracidade da chapa para o executivo. Nesse caso, deveria ser fixado um piso de 30% como o mínimo a ser gasto nas campanhas para o legislativo.
Extinção das coligações proporcionais.
Até que enfim! Já vem tarde... A sugestão das federações partidárias, no entanto, previstas no relatório Caiado em 2003, é engenhosa, e pode se constituir em oportuna bóia de sobrevivência para partidos menores. Poderia ser usada para negociação no Congresso. Ela é bem superior às coligações porque os partidos federados na campanha terão de continuar a atuar como um único partido durante a legislatura. Por isso eu sugeriria que sua duração mínima fosse de quatro anos (o relatório de 2003 sugeriu três anos).
Exigir que a formação das listas seja precedida de convenções, prévias ou primárias para a escolha de seus candidatos.
Convenções, claro que sim. O relatório de 2003 determinava também que, nelas, o voto fosse secreto. Quanto a prévias ou primárias, esse é um terreno onde eu só avançaria com extremo cuidado. Como eu disse antes, tipicamente elas favorecem o poder econômico – mais do que as convenções.
Vedar o repasse de financiamento público para partidos que mantenham para além de um período razoável a provisoriedade de seus órgãos dirigentes.
Excelente medida. É preciso fazer disseminar os diretórios regionais e municipais, e coibir a eternização das comissões provisórias.
Proporção de pelo menos um gênero distinto para cada 3 colocações.
Agora vi que o piso é de pelo menos 1/3. Apoio a proporção, pelo motivo que já expus acima.
Regulamentação do “Recall”
Como regular de maneira justa o "recall" sob sistema proporcional em distritos com magnitudes altas como as nossas? Ninguém vai sobreviver, e a ameaça pelos adversários vai servir para a intimidação de parlamentares em sua atuação política.

Apresentação de projetos de Decreto Legislativo destinados a convocar plebiscitos e referendos,
I. apresentados por qualquer membro ou comissão do parlamento, sem  necessidade de apoiamento de um terço dos pares exigido pela lei atual
Relativamente inócuo. De todo modo, o projeto tem de ser votado e aprovado por maioria qualificada, não? O único efeito que imagino é seu eventual uso pela minoria como eventual integrante de arsenal obstrucionista, com parlamentares da oposição propondo plebiscitos a toda hora para botar maiorias governistas na defensiva. Não sei se gosto do cenário...
II. tramitar a partir de solicitação específica do Presidente da República
Acho altamente problemático e indesejável. Será uma excelente maneira de presidentes tentarem pressionar e eventualmente intimidar o Congresso, ameaçando-o com a convocação de plebiscitos toda vez que tiverem dificuldades com sua agenda no Congresso.
III.  tramitar a partir de solicitação específica dos cidadãos, desde que observados os  mesmos requisitos de subscrição da iniciativa popular de leis
Só se o Congresso puder emendar o projeto proposto, caso aprovado no plebiscito. É preciso notar que, na iniciativa popular de leis, o povo propõe, mas depois o projeto tramita normalmente no Congresso. Se for possível substituir a tramitação por um plebiscito, o debate parlamentar e a necessária barganha entre os interesses afetados ficarão prejudicados.

Explicitar a possibilidade da realização de plebiscitos e referendos concomitantemente com eleições gerais e municipais.
Boa ideia.
Subscrição eletrônica de projetos de iniciativa popular
Ok. Entendo que seria oportuno viabilizar também sugestões de emendamento popular de projetos em tramitação, a partir de plataformas wiki. Naturalmente, tais sugestões poderão ser acatadas ou não pelos relatores dos projetos. Além de poder fornecer desejável massa crítica às discussões, essa iniciativa também viabilizaria a vocalização de interesses por grupos menos organizados, num esforço de contrabalançar a influência desproporcional de alguns lobbies mais poderosos.

AJUSTES NA LEGISLAÇÃO
É a parte que contempla, digamos, as mudanças mais gratuitas. Poderão vir ou não a produzir melhorias, é difícil dizer, em alguns casos. Podem também servir para negociação posterior durante a tramitação da reforma, mas poderão também vir a onerar a proposta, desviando o foco de discussões bem mais importantes.
Fim dos vices.
É a proposta mais inesperada, mas talvez não seja má ideia... É uma função frequentemente ociosa, e ocasionalmente desestabilizadora. Provavelmente seria melhor que não existisse mesmo.
Fim da reeleição, com mandatos únicos de cinco anos.
Mais controvertido. A experiência sob FHC e Lula foi positiva, e mesmo no âmbito municipal há alguma pesquisa que sugere bons resultados da continuidade administrativa, embora haja queixas também sobre esquemas de poder relativamente invulneráveis que teriam sido criados. Mas não acho interessante a troca por mandatos de cinco anos. Isso não apenas produzirá desencaixe entre as eleições para o executivo e o legislativo, mas fará com que cada mandato no executivo tenha um encaixe específico com as eleições legislativas. Ok, em princípio, que haja eleições parlamentares a meio mandato do governante. Mas é mais problemático que isso se dê de maneira ora coincidente, ora no meio, ora no último ou no primeiro ano de mandato do governante. Cada mandato executivo terá um encaixe diferente com o calendário legislativo, e receio que isso dificulte sobremaneira o estabelecimento de alguma rotina associada à articulação e à composição de maiorias parlamentares. Levaríamos décadas para experimentar e tentar entender como se dá a dinâmica esperável em cada tipo de encaixe.
Proibição de que parlamentares ocupem postos no Poder Executivo.
Discordo. Isso enfraquece ainda mais o Congresso numa relação que já é assimétrica e desfavorável com o Poder Executivo. Ministério é função política, não técnica. Idealmente, ministros devem ser políticos, assessorados por técnicos, que deveriam se restringir ao segundo escalão. Que eles tenham inserção parlamentar é uma consequência natural da participação dos partidos na formulação das plataformas e prioridades dos governos, bem como na negociação das maiorias no parlamento. Impedir parlamentares de participarem de ministérios diminui o peso dos partidos na formação dos governos e diminui a importância das plataformas partidárias nas eleições legislativas. Vai na contramão daquilo que se espera ganhar com as listas preordenadas.
Mudanças nas regras para suplência de mandatos de Senador.
Um suplente apenas (hoje são dois), e eleição de senador na eleição seguinte em caso de substituição definitiva. Ok, melhora.
Mandatos de membros de tribunais.
Dada a deterioração do decoro na conduta pública dos atuais ocupantes de cadeiras em tribunais superiores, a introdução de mandato fixo é imperiosa. Dez anos me parecem adequados, para se começar. Medida muito bem-vinda.
Registro prévio de candidaturas.
Sim, a Justiça Eleitoral se ressente hoje dos prazos exíguos com que tem sido cada vez mais confrontada. Outra coisa que se poderia cogitar é a antecipação das eleições ou o adiamento das posses, buscando assegurar que todo recurso contra resultados eleitorais possa ser julgado de modo terminante antes da diplomação dos eleitos. É grave a possibilidade de que um político possa ter sua eleição contestada quando já exerce o mandato. Isso poderá ser (e de fato tem sido) utilizado de maneira estratégica por seus adversários, desestabilizando o exercício do poder democrático pelos eleitos.
Tornar mais rígido o processo de contratação e divulgação de pesquisas eleitorais.
Discordo enfaticamente, dei minhas razões no início.

Íntegra do relatório aqui: http://www.camara.gov.br/proposicoe...


Viva a sociedade alternativa, mais uma metamorfose ambulante, como diria Raul Seixas ! Manoel Correia Defreitas (Paranaguá, 1851- Curitiba, 1932) foi um dos mais importantes republicanos históricos do Paraná e de Santa Catarina. O resgate existencial, familiar, social, cultural e político deste importante personagem, praticamente "esquecido" pela memória oficial, foi o tema da tese de doutorado em sociologia brilhantemente defendida ontem por Ana Vanali. A tese avançou nas relações entre biografia e teoria sociológica, as origens sociais das velhas famílias da "nobreza da terra" do Litoral entre Paranaguá e São Francisco do Sul, o fim da escravidão, as mudanças sociais no fim do Império, os ideais da República. Manoel estava no Rio de Janeiro no dia 15 de novembro de 1889 e presenciou os acontecimentos da Proclamação da República. As intensas lutas pela institucionalização republicana, as exclusões e a Revolta Federalista. Os cargos e o impedimento no Senado. A oligarquização familiar e as estruturas políticas elitizadas das primeiras décadas republicanas. A morte de Vicente Machado e Manoel Correia Defreitas como parlamentar estadual e federal, depois da Coligação Repúblicana de 1908. As novidades na virada do século e associações como o Clube Curitibano, a maçonaria, o espiritismo, os círculos católicos. As lutas populares, a Revolta do Contestado. A oligarquia Camargo-Munhoz da Rocha, o afastamento e ostracismo final de Manoel Correia Defreitas. A vida cultural e intelectual do ativista. Os cadernos pessoais de recortes, os panfletos, textos, os materiais políticos e culturais preservados. A família de Manoel redescoberta pela tese e os descendentes ocultos pelos biógrafos do passado. Ainda no final da vida um encontro com o quiromante Sana Khan e a previsão de poder com Getúlio Vargas ! A República que ainda não "aconteceu" de Manoel Correia Defreitas pela falta de cidadania e de justiça no Paraná e Brasil. Uma tese e um futuro livro a serem estudados por todos os interessados nestas temáticas. Agradecemos a participação e presença de todos colegas na banca, acadêmicos e amigos no processo coletivo de todos e novamente parabéns à nova Doutora Ana Vanali !

RCO

O temido dia seguinte após a liberação do Listão da Odebrecht mostra que a montanha pariu o rato. A maior consequência imediata deveria ser o afastamento sob suspeição, até para que possam se defender, dos 8 ministros do governo golpista de Temer denunciados, o que inviabilizaria as reformas golpistas em crise no executivo. Eliseu Padilha, Moreira Franco, Kassab, Aloysio Nunes, Bruno Araújo, Blairo Maggi, Barbalho e Marcos Antonio Pereira deveriam sair se o protocolo mínimo democrático fosse aplicado, o que não é o caso de um governo golpista, impopular e ilegítimo. Para a manipulação da grande mídia oligárquico-familiar o ataque principal é contra Lula e depois Dilma. Um dos telejornais abriu com a "imensa" quantia de 15 mil Reais supostamente aplicados no tal sitiozinho popular, que nem está no nome ou pertence a Lula, o que mais uma vez torna ridículas as acusações sem provas e a notória e abjeta perseguição dos marajás do judiciário e mp contra o maior líder popular brasileiro. As denúncias no legislativo misturam propinas abertas, como a de Serra e muitos no PSDB, com outras doações legalizadas oficialmente em campanhas. O Presidente do Senado Eunício Índio e o da Câmara, Rodrigo Botafogo, membros de oligarquias familiares, também deveriam ser afastados das presidências pelo protocolo não cumprido. Para os parlamentares que não são petistas o caminho será a morosidade intencional do sistema judicial e a prescrição, como sempre acontece nesses casos. Somente quadros do PT são presos e o partido é o grande alvo da seletividade judicial, como praxe do partidarismo dessas operações. O impacto prático do listão tende a ser muito menor do que se imaginava e para os interesses de muitos na classe dominante, cada vez mais desmoralizada, os golpes dentro do golpe estão chegando nos seus limites finais já bastante confrontados pelas novas lutas populares, como a greve geral marcada no dia 28 de abril. As denúncias da Odebrecht apenas revelaram as entranhas do sistema político e a cultura da impunidade nas atuais instituições políticas. Sem eleições diretas a credibilidade, o crescimento e a legitimidade política não voltarão ao Brasil

RCO
Marcelo Odebrecht disse o óbvio: "Não existe ninguém no Brasil eleito sem caixa dois". Não é o partido x ou y, mas o sistema político que condiciona a vitória eleitoral ao recebimento de todo tipo de doação irregular, muitas das quais baseadas no "toma lá, dá cá". Podem crucificar este ou aquele, para fingir que houve justiça, mas, sem a mudança do modelo como os partidos e os candidatos financiam suas campanhas, as eleições continuarão sendo definidas pelo Caixa 2 e a relação público/privado será movida à propina. Não é razoável que seja imposto ao candidato uma barreira econômica, transponível apenas quando aceita estas regras do jogo. Hoje, por uma decisão do STF, de fato, os candidatos não podem mais receber doações de empresas e há um teto para os valores de campanha. Isso é positivo. Mas, se esses recursos empresariais chegam por meios ilícitos e representam a maior parte das receitas das campanhas, então a norma torna-se inócua. Penso que o sistema eleitoral, bem como o funcionamento das instituições políticas, precisam de mudanças radicais para superarmos esse modelo degenerado, permitindo uma fiscalização efetiva e uma disputa mais programática. Todavia, cada dia fica mais claro que não serão os atuais deputados federais, eleitos por esse atual modelo, nem os próximos, caso a estrutura seja a mesma, que o farão. Seria necessário uma constituinte soberana, com deputados eleitos por listas e com financiamento exclusivamente público, para promover essas transformações. Em 2014, mais de 7,4 milhões de brasileiros já disseram querer essa alternativa. Agora, diante ao desmonte da Constituição e dos direitos sociais por esse Congresso de ladrões, é necessário reabrirmos esse debate.

ACBM

1863: Estados Unidos abolem a escravidão


Em 1° de janeiro de 1863, entrava em vigor o Ato de Emancipação assinado pelo presidente Abraham Lincoln. O ponto central da lei era a libertação de cerca de 4 milhões de escravos negros.


A abolição visava também acabar com os maus-tratos impostos aos negros nos EUA

"Não haverá tranquilidade nem sossego na América enquanto o negro não tiver garantidos os seus direitos de cidadão… Enquanto não chegar o radiante dia da justiça… A luta dos negros por liberdade e igualdade de direitos ainda está longe do fim", declarou Martin Luther King na lendária marcha pelos direitos civis rumo a Washington em 1963.

Essa era a situação nos Estados Unidos cem anos após a abolição da escravatura através da chamada Emancipation Proclamation, promulgada a 1° de janeiro de 1863 pelo presidente Abraham Lincoln.
Desde o início da colonização, em 1619, quando os primeiros escravos chegaram a Jamestown, os problemas da escravidão e a luta pela libertação dos negros marcaram a história dos EUA e, muitas vezes, dividiram a nação.

Às vésperas da Guerra da Secessão (1861–1865), 8 milhões de brancos e 4 milhões de negros (cerca de 500 mil livres) viviam no Sul dos EUA. A estrutura agrária servia de argumento para se afirmar a necessidade da escravidão na região. A discriminação racial era justificada pela crença na suposta desigualdade entre os seres humanos.

Estopim do conflito

Quando o Congresso proibiu oficialmente a importação de escravos em 1808, ninguém imaginava que as divergências entre o Norte industrializado e o Sul agrícola fossem se agravar tanto, a ponto de culminar numa guerra civil. A escravidão foi o estopim do conflito, mas suas causas foram um complexo emaranhado de fatores socioeconômicos e político-culturais.

Na primeira fase do conflito, o Norte lutou pela unidade da nação e não pela abolição da escravatura. Tanto que o presidente Abraham Lincoln escreveu a um jornalista: "Se eu pudesse salvar a união sem libertar um único escravo, eu o faria".

Ao ver que os nortistas não conquistavam vitórias decisivas, Lincoln aderiu às reivindicações dos republicanos radicais e abolicionistas, e transformou a guerra contra os "Estados rebeldes" numa luta contra a escravidão.

Proibição tardia

Os Estados do Norte vincularam ao Ato de Emancipação de 1° de janeiro de 1863 uma reestruturação do sistema social do Sul. Os negros passaram a ser recrutados pelo exército nortista, mas a proclamação de Lincoln não significou uma abolição institucionalizada da escravatura.

Os 4 milhões de negros ainda tiveram de esperar até dezembro de 1865, quando o Congresso proibiu oficialmente a escravidão nos Estados Unidos através da 13ª Emenda Constitucional.

Pelo artigo suplementar 14, os negros obtiveram direitos iguais aos brancos em 1868. Dois anos mais tarde, o artigo 15 garantiu-lhes a igualdade de direito eleitoral. Estados como Carolina do Sul, Mississippi e Louisiana, porém, deram um jeito de burlar os direitos dos escravos libertados, mantendo restrições legais, os chamados black codes.

Alguns Estados e municípios, não só no Sul dos EUA, encontram ainda hoje meios e caminhos para "manter o negro em seu lugar". Vinculam, por exemplo, o direito de votar a complicadas provas ou inatingíveis patamares de renda mínima.

Igualdade não concretizada

Uma situação que persiste até a atualidade, segundo Martin Luther King 3º, filho do líder negro assassinado: "Naturalmente, hoje temos liberdade de opinião, imprensa e religião. Mas algumas outras liberdades faltam. Basta pensar, por exemplo, nos altos escalões empresariais, claramente dominados por homens brancos. Por isso, temos de nos esforçar para sermos a nação que pretendemos ser".

A Declaração de Emancipação de Lincoln não conseguiu acabar, de repente, com a humilhação da raça negra. Ela também não impediu a violência contra os negros. Ao contrário, motivou até mesmo a criação de sociedades secretas, como a Ku Klux Klan, que estabeleceram como objetivo manter a hegemonia branca no Sul do país. Uma prova do êxito desse tipo de organização é que somente em 1967 foram anuladas as últimas leis de proibição de casamentos mistos.

Autoria Michael Kleff (gh)


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1865: Abraham Lincoln é assassinado


Em 14 de abril de 1865, Abraham Lincoln foi assassinado num teatro. O 16º presidente dos EUA impediu a divisão do país em norte e sul e entrou para a história como abolicionista.


Maior trunfo de Lincoln foi manter país unido

Às 22h15 de 14 de abril de 1865, no Teatro Ford, pouco antes do último ato da peça Our American Cousin ("Nosso primo americano") a porta do camarote onde estavam o presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, e sua esposa abriu-se de repente e o chefe de Estado foi baleado na nuca pelo ex-ator John Wilkes Booth. Assim morria o 16º presidente dos EUA, que impedira a divisão do país em norte e sul, entrando para a história como abolicionista.

Cinco dias antes, em 9 de abril, o general dos estados do sul, Robert Lee, havia admitido sua derrota. Um público entusiástico presenciou, nas escadarias da Casa Branca, em Washington, o anúncio do fim da guerra civil. Ao ouvir as palavras do presidente, principalmente a promessa de conceder o direito ao voto aos ex-escravos, o ex-ator – um sulista fanático – decidiu assassinar Lincoln.

Em meio à guerra civil, no verão de 1864, Booth já havia tentado, sem sucesso, sequestrar o odiado presidente e usá-lo como refém para exigir a libertação de prisioneiros de guerra dos confederados. Diante da derrota dos estados do sul, abandonou a ideia do sequestro e passou a planejar o assassinato.
Foi o primeiro de uma série de atentados contra os presidentes dos EUA. Lincoln faleceu na manhã de 15 de abril, deixando como herança de governo um país que procurava se reconciliar, após quatro anos de sangrenta guerra civil.

Biografia

Abraham Lincoln nasceu em Hodgenville, Kentucky, em 12 de fevereiro de 1809. Filho de lavradores, teve que interromper várias vezes sua formação escolar para trabalhar, seja na roça, numa serraria ou em barcos dos rios Ohio e Mississipi. Em 1836, formou-se em direito e passou a exercer a advocacia. No ano seguinte, mudou-se para Springfield, Illinois, à procura de melhores oportunidades profissionais.

Filiado ao partido Whig (que deu origem ao partido Republicano), elegeu-se quatro vezes para a assembleia estadual, entre 1834 e 1840. No início de sua carreira política, era um abolicionista reservado. Embora considerasse a escravatura uma injustiça social, temia que a abolição dificultasse a administração do país. Entre 1847 e 1849, foi representante de Illinois no Congresso, onde propôs a emancipação gradativa dos escravos, desagradando tanto aos abolicionistas quanto aos escravistas. Opôs-se à guerra no México, o que lhe custou a reeleição.

Depois de cinco anos afastado da política, candidatou-se ao Senado, em 1858. Foi derrotado pelo democrata Stephen Douglas, mas tornou-se líder dos republicanos, sendo eleito presidente dos EUA em 1860. Ao iniciar seu governo, em 4 de março de 1861, Lincoln teve que enfrentar o separatismo de sete estados escravocratas do sul, que formaram os Estados Confederados da América.

O presidente foi firme e prudente: não reconheceu a secessão, ratificou a soberania nacional sobre os estados rebeldes e conclamou-os à conciliação, assegurando-lhes que nunca partiria dele a iniciativa da guerra.

Os confederados, porém, tomaram o Forte Sumter, na Virgínia Ocidental, em 12 de abril de 1861, desencadeando um conflito que só terminou em 1865, com a vitória do norte e um saldo de 618 mil mortos em batalhas e vítimas de epidemias.

Histórica batalha de Gettysburg

Lincoln encontrara o governo sem recursos, sem Forças Armadas e com uma opinião pública pouco favorável. Armou rapidamente um Exército para enfrentar os confederados que, apoiados por 11 estados sublevados, chegaram à Pensilvânia e ameaçaram Washington. Em 3 de julho de 1863, travou-se a histórica batalha de Gettysburg, vencida pelos unionistas do norte.

Alguns meses depois, ao inaugurar o cemitério nacional de Gettysburg, Lincoln pronunciou o célebre discurso em que definiu o significado democrático do governo do povo e para o povo, que alcançou repercussão mundial. Reeleito presidente em 1864, anunciou um programa de educação dos escravos libertados e a concessão imediata do direito de voto a determinados negros.

Cedeu também à exigência dos radicais que pediram uma ocupação militar provisória de alguns estados do sul, para implantar uma política de reforma agrária. Seu grande mérito, no entanto, foi ter mantido a unidade do país.

Autoria Jens Teschke (gh)


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terça-feira, 11 de abril de 2017

En el país llamado Más o Menos





Vivo en el país llamado Más o Menos,
donde,
muy extrañamente,
no hay ningún partido oficial llamado “Masomenosista”…
donde ellos
leen a nuestros escritores clásicos… más o menos.

Donde a veces,
hasta los distinguidos ciudadanos
se enamoran (más o menos),
pero a veces,
después de algunos meses
ya no hay besos,
los unen solo los pesos.
Entonces no son ajenos,
más o menos.

“¿Es verdad, señor, que todos beben en su país Más o Menos?”
Hay algunas personas que no beben nada…
Más o menos…”
“Difícil de creer, señor,”
Ni siquiera algo así como…
una gota. Más o menos.”

“¿Qué tipo de gente es aquella, la de su amado pueblo
del país llamado Más o Menos?”
Son más o menos agradables…
Más o menos honestos…
Unas veces menos, otras veces más…

“¿Está Usted, señor, orgulloso de su gran país,
llamado Más o Menos?”
Hmmm…
Más o menos…
Por lo general, somos generosos más o menos..
suficientemente amistosos… menos o más…

Por supuesto, todos estamos por la paz…
un tanto más, un tanto menos..
Por supuesto, tenemos algunas pequeñitas,
pero más o menos
desagradables guerras.

En cada esquina,
en cada cocina de cada casa
cuando las esposas y los esposos están algo
así como peleando discretamente,
tenemos nuestra propia Chechenia doméstica,
y un Irak privado,
ondeando un trapo húmedo de cocina
como una bandera nacional,
cuando las sandalias y las planchas
a veces vuelan por encima de las cabezas
como ovnis…
sin embargo, apreciamos nuestros valores de familia…
Más o menos…

En nuestras cortes de justicia  tenemos
más o menos incorruptibles jueces,
en nuestros centros de investigación
hay pensadores, más o menos insobornables.

Una más o menos bella mujer me susurró:
“Estoy más o menos enamorada de Ud.
Más o menos para siempre…”

Me gustaría pararme frente a Dios,
así como soy,
no algo así como más o menos.

No estar  más o menos feliz
En esta más o menos vida…
En esta más o menos libertad.

2004


YEVGUENI YEVTUSHENKO

Provérbios alemães

Dummheit und Stolz wachsen auf einem Holz
Na tradução literal, significa "Estupidez e orgulho crescem da mesma madeira". Explicando: pessoas arrogantes, que acreditam ser mais que outras, desconhecendo os próprios limites, cometem uma estupidez. O falso orgulho e a burrice são, no fundo, a mesma coisa. E, pelo fato de rimar, a expressão tem um sentido especial em alemão.

Wer schön sein will, muss leiden"
Em tradução literal, o ditado alemão significa "quem quer ser belo tem que sofrer". Muitas vezes não se está contente com o que se tem, e tanto homens quanto mulheres se submetem a situações desconfortáveis, seja fisicamente ou financeiramente, para atingir seus ideais de beleza.

Der Ton macht die Musik
Em tradução literal, "O tom é que faz a música". Não importa o que você tem a dizer, diga-o com respeito. Se, por exemplo, o novo perfume de uma amiga não lhe agrada, não diga a ela que ele fede. O resultado da conversa será muito mais positivo se você disser de forma amistosa que para seu gosto ele é muito intenso.

Die Ratten verlassen das sinkende Schiff
Já nos tempos dos grandes navegadores, sabia-se que, "quando um navio está afundando, os ratos são os primeiros a pular fora". Isso levou à conclusão de que os ratos podem prever desgraças. Hoje em dia, pessoas que só se preocupam com elas mesmas são as primeiras a deixar a empresa ou uma equipe quando as coisas começam a ficar ruins.

Ist die Katze aus dem Haus, tanzen die Mäuse auf dem Tisch
Os provérbios muitas vezes servem para ensinar crianças. Este, não! Quando pais ou professores não estão próximos, as crianças aproveitam para fazer travessuras. Claro que isso acontece também com adultos. Este provérbio é tão conhecido, que existe em vários idiomas, inclusive no Brasil: "Quando o gato está fora, os ratos dançam sobre a mesa".

Der Fisch stinkt vom Kopf her
Quando um peixe morre, a cabeça dele é a primeira parte a se decompor, e a primeira a cheirar mal. O provérbio "o peixe começa a feder pela cabeça" geralmente é associado a empresas e partidos. Quando o chefe faz um mau trabalho, é de se esperar que seus funcionários ou correligionários não sejam melhores.

Man sägt nicht den Ast ab, auf dem man sitzt
Oh, nós, humanos! Se damos um tiro no próprio pé, cuspimos na mão que nos alimenta e afundamos o próprio barco, por que não também serrar o galho em que estamos sentados? Ou seja, há muitas maneiras de prejudicar os próprios interesses. Esse provérbio serve de advertência. Literalmente, ele diz "não se corta o galho em que se está sentado".

Reden ist Silber, Schweigen ist Gold
Já na Bíblia, no Talmude e no Corão há lições sobre esta sabedoria. "Atenue sua voz, pois a mais repulsiva das vozes é a do burro." "Se as palavras são de prata, o silêncio é de ouro". Ou seja, é melhor se calar do que falar besteira.

Mit Speck fängt man Mäuse
Literalmente, o provérbio significa: "Com toucinho se pegam camundongos." A ideia é que, se você quer que alguém faça algo por você, ofereça o incentivo adequado. Mas cuidado com armadilhas, como a do toucinho para atrair para a ratoeira. Este provérbio costuma ser usado no ambiente empresarial, onde empregadores tentam aumentar a produtividade ao oferecer "iscas" aos funcionários.

Eine Hand wäscht die andere
Uma mão lava a outra. Ou seja, claro que posso ajudar você, mas quando eu precisar, espero o mesmo de você. Um ditado muito conhecido no Brasil, e que ganha atualidade com os escândalos de corrupção. Em português, este provérbio tem até um complemento: "E as duas juntas lavam o rosto."

Lieber den Spatz in der Hand, als die Taube auf dem Dach
"Melhor um pardal na mão do que um pombo no telhado." As pessoas comeram pombos por milênios, mas em caso de necessidade, um pardal também servia. Com isso em mente, este provérbio alemão alerta contra a ganância. O ditado vem da expressão em latim "um pássaro capturado é melhor do que mil no gramado". Hoje, os falantes do português diriam: "melhor um pássaro na mão que dois voando".

Wer den Pfennig nicht ehrt, ist des Talers nicht wert
"Quem não preza o Pfennig não merece o táler." Na Idade Média, 360 Pfennig valia um táler. Essa antiga moeda alemã é considerada a "mãe" do dólar. Para dar valor ao o táler, era preciso antes aprender o valor do Pfennig, diz o provérbio. Em português, pode-se dizer que "quem nasceu para tostão nunca chega a dez réis" lembra o dito popular alemão.

In der Not frisst der Teufel Fliegen
"Em necessidade, o diabo come até mosca." De acordo com esse provérbio alemão do século 19, o diabo comeria esses insetos como último recurso para sobreviver. Mas o ditado tem um significado mais profundo. Belzebu, um dos nomes de satã, quer dizer "senhor das moscas", ou seja, em caso de emergência, lúcifer não comeria somente moscas, mas também seus semelhantes.

Ein gutes Gewissen ist ein sanftes Ruhekissen
"Uma consciência livre é um travesseiro macio" concorre entre os ditos populares mais simpáticos da Alemanha. Não faça o mal, ele sugere, e você dormirá em paz. Palavras realmente sábias – embora sejam um fraco consolo para quem sofre de insônia crônica.

Wer im Glashaus sitzt, soll nicht mit Steinen werfen
Consta que "Quem tem telhado de vidro não atira pedras no do vizinho" tem origem na Alemanha, embora não se saibam mais detalhes. O ditado evoca a frase bíblica "Aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra", pois sugere que, da mesma forma como, no fundo, ninguém é sem pecado, de uma maneira ou de outra todos vivemos em casas com telhado de vidro.

Viele Köche verderben den Brei
"Cozinheiros demais estragam o mingau" é a tradução literal deste provérbio. A ideia é que, quando há gente demais dando opiniões ou ordens, e ninguém para concentrar e filtrar os esforços, o resultado é um fiasco. Enfim, uma apologia do trabalho organizado e da hierarquia, como no brasileiro "Muito cacique para pouco índio".

Kleider machen Leute
Assim como "O hábito faz o monge", trata-se de uma variante do velho ditado latino "Vestis virus reddit" (As roupas fazem o homem). Até hoje, a ideia é martelada em outdoors e revistas de moda para justificar a importância – e o preço – da aparência exterior. Uma variação genial é atribuída ao espirituoso autor americano Mark Twain: "Gente nua tem pouca ou nenhuma influência na sociedade".

Lügen haben kurze Beine
A advertência de que "A mentira tem pernas curtas" e, portanto, nunca vai muito longe, parece ser quase universal. Uma variante africana reza: "Você pode comer uma vez com uma mentira, mas não duas". Também sábia é a inversão de perspectiva contida no dito popular inglês "Engana-me uma vez, vergonha para ti; engana-me duas, vergonha para mim".

Auch ein blindes Huhn findet mal ein Korn
Datado de, no mínimo, 400 anos atrás, o dito "Até uma galinha cega acaba achando um grão de milho" tem sentido ambivalente – e também é empregado dessa forma. Pode significar que até o ser mais incapaz pode obter um sucesso – por sorte ou por pura teimosia, porém sem mérito real. Ou ser entendido como um incentivo aos menos capacitados, para que não percam a esperança e continuem persistindo.

Jeder ist sein Glückes Schmied
"Cada um é o forjador da própria sorte" é um estímulo à autodeterminação que lembra a noção do "self-made man" americano. O provérbio é uma variação de "Quisque faber suae fortunae", registrado pelo cônsul romano Ápio Cláudio Cego, por volta do ano 300 a.C.. Numa ironia histórica, o biógrafo Lívio atribuiu a cegueira de Ápio a uma praga – rogada por outra pessoa, naturalmente.

Gelegenheit macht Diebe
"A ocasião faz o ladrão" – também na Alemanha. Senão, e o escândalo da Volks? E o da DFB? Outra versão dessa noção é a famigerada "lei de Gérson" (o jogador): "O importante é levar vantagem". O provérbio resume uma tendência humana tão lamentável como incorrigível, por isso nunca perde a atualidade. E, como "Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão", a enxurrada de escândalos nunca terá fim.

Der Apfel fällt nicht weit vom Stamm
Semelhante a "Filho de peixe, peixinho é", "A maçã não cai longe do tronco" é outro desses provérbios que convidam a um uso ambivalente ou irônico. A ideia é que qualidades – boas ou más – são herdadas das gerações anteriores. Portanto, atenção: se for dito como elogio, ótimo. Se for insulto, é extensivo ao pai, à mãe e a sabe-se lá quantas gerações.

Wie man in den Wald hineinruft, so schallt es heraus
"Como se grita na floresta, assim virá o eco" seria a tradução quase literal desse ditado. Ou seja: o que se coloca no mundo retorna da mesma forma, para o bem ou para o mal. Se o input for negativo, portanto, é bom ter em mente que "Quem semeia vento, colhe tempestade".

Morgenstund hat Gold im Mund
Os alemães e suas rimas, desta vez para dar uma má notícia aos dorminhocos: "A manhã tem ouro na boca". Trata-se de um ditado latino, também difundido na variante "Aurora musis amica" – A aurora é a amiga das musas. De forma menos poética, "Deus ajuda quem cedo madruga" igualmente encoraja a diligência matinal. Ou, menos apetitoso: "O pássaro madrugador é que pega a minhoca".

Fonte : Deutsche Welle

segunda-feira, 10 de abril de 2017

1.
Avanço
a mortalha me alcança.
2.
Ando na trilha
que liga Deus a soltas cortinas
trocá-lo talvez eu consiga.
3.
Como num jogo
correm nas minhas juntas
os ventos do cansaço.
Sentem medo do meu fogo?
se refugiaram na minha pluma
se esconderam nos meus livros.
4.
Hora não sabida na mudez do tormento
isto são agulhas costurando minha pele
meu caminho está escuro:
onde o rosto do horizonte, para ler para mim meu livro?
5.
Para dizer a verdade
mude seus passos, esteja pronto
para incendiar-se.
6,
Um pouco de tédio
e cubro a todo instante
poças de esperança.
7.
Levo um guia nas asas
que me leva ao caminho
e no caminho há cinzas
que apagam, fogo que arde.
8.
Sou a casa da luz que não se acende:
minha inquietude arde no monte da soberba
meu amor é uma almenara verde.
9.
Repousa nas minhas veias a aquiescência do sonho
chora a cítara das coisas:
o que custa para a aurora lembrar meu passo
o que custa para o sol andar atrás de mim?
10.
Vêm dançar nas minhas pálpebras
a noite cadáver a cidade camaleoa
me revisto de triste Artarte
desenho a tempestade.
11.
Rosto do possível ó rosto do horizonte
mude seu sol ou queime-se.
12.
Virei meu trono do avesso:
quando brinco ou me alegro
preparo em segredo a mortalha
e caminho quando me canso.
13.
Por ser todo eco o horizonte
retorno do que vem, exaltamento
não envelhecem os ventos.
14.
Quem vê como ele a morte e a vida
escreve com os olhos a noite e o dia
e as folhas apagam o que as apagaria.
15.
Vela adivinha do futuro
que tenho que temo o caminho curto?
16.
Confuso disse o depois:
"saltando o canto
do bico do pássaro
o galho não se
encanta".
17.
Ele é isto, se recusa a subir
a não ser abrasado
tem um fogo que não se apaga
tem um coração.
18.
Brilhe, escreva um poema, ande:
amplie ainda mais a terra.

Adonis | Folhas ao vento

Salmo


Avança desarmado como o bosque e sem ser detido como
a nuvem, ontem carregou um continente e mudou o mar de lugar.
Traça o avesso do dia. Dos pés produz um dia e da noite
empresta um calçado e espera pelo que não virá. Ele é a
física das coisas. Conhece-as, chama-as por nomes que não
revela. Ele é o real e seu contrário, a vida e a não vida.
Ali onde a pedra vira lago e a sombra cidade, ele vive - e
faz errar o desespero, apaga o chão da esperança, dança
para o pó até que este boceje e dança para as árvores até que elas durmam.
Ei-lo a anunciar o cruzamento das pontas, a imprimir o
signo da magia na fronte da nossa era.
Enche a vida sem que seja visto. Faz da vida espuma e
mergulha nela. Transforma o amanhã em caça, corre
atrás dela em desespero. Inscritas, suas palavras seguem
rumo: à perdição à perdição.
A confusão é a sua pátria, mas tem os olhos cheios.
Assusta e conforta
exala terror transborda ironia
descasca os homens como cebola.
Ele e o vento que não volta atrás, a água que não retorna
à fonte. Cria sua espécie a partir dele mesmo. Não tem
ascendentes, suas raízes estão em seus passos.
Caminha no abismo e tem o porte do vento.

Adonis | O cavaleiro das palavras estranhas

domingo, 9 de abril de 2017


"Desde 2011, a Síria é invadida por mercenários estrangeiros pagos por Estados Unidos, Reino Unido, França, Israel, Turquia, Arábia Saudita e Qatar. Nunca um conflito foi tão distorcido em sua natureza real com uso massivo de propaganda de guerra para manipular SENTIMENTOS e fazer pessoas se comoverem. As imagens de crianças feridas e mortas, de pessoas morrendo por ataques de armas químicas e de fanáticos muçulmanos degolando indefesos jornalistas são reais. Mas a narrativa, o momento de publicação e o que oferecem como solução é friamente calculado. Muitas dessas imagens são distorcidas com as chamadas operações de 'falsa bandeira" e os fatos são invertidos em favor dos invasores. Nessa guerra, o presidente Bashar al Assad, com apoio da Rússia, do Irã e do Hezbollah enfrenta dia a dia o terrorismo dos mercenários estrangeiros e a campanha de difamação internacional daqueles que pretendem partilhar o país em três pedaços. A guerra da Síria nunca foi uma guerra civil muito menos uma luta de "democratas" contra um ditador: ela é uma resistência contra o colonialismo e estão aí os exemplos do Iraque e da Líbia para mostrar que essa conversa de que ditador estadunidense vai implantar democracia já não engana mais ninguém. Se Bush e Obama mentiram, qual o sentido de acreditar na mesma mentira agora contada por Trump?"

Thomas de Toledo


"Paraná, paraíso da impunidade", o que sempre foi apontado por qualquer pessoa crítica bem informada ! Há vários anos que classificamos a Lava Jato como Farsa a Jato por causa da imensa impunidade existente na "República de Curitiba". A verdade sempre será reconhecida e agora até mesmo um dos operadores da força-tarefa reconhece apenas alguns dos principais escândalos de corrupção regionais, casos nunca tratados efetivamente pelos justiceiros locais. Faltou reconhecer e mencionar as Contas CC5, o mega fracasso do Banestado, a "mãe" de todas as corrupções recentes na classe dominante paranaense e com muitos dos mesmos operadores seletivos da Lava a Jato, o outro caso do "primo" de Beto Richa, Luiz Abi Antoun, o escândalo da Receita Estadual, agora o escândalo do Porto de Paranaguá e muitos outros casos de corrupção sendo semanalmente descobertos e denunciados: Pelo Gaeco e pelos integrantes justos no sistema judicial sério e não partidarizado, pelos verdadeiros jornalistas profissionais no campo midiático crítico, pelos policiais honestos nas instituições policiais sérias aqui existentes. Basta de farsas no Paraná !

Ricardo Costa de Oliveira



Guerras começam pela política e só terminam pela política como reitera Clausewitz. A guerra na Síria poderia terminar com a vitória militar total de um lado, o que parece difícil porque sempre que um grupo se aproxima de desmantelar os outros ocorrem ainda mais intervenções externas. Outra possibilidade poderia ser a iugoslavização na quebra do Estado Sírio e a formação de outras unidades aprofundando dimensões etnonacionais. Ainda restam possibilidades de formas autônomas e federativas entre os grupos alauítas, de Assad, xiítas, os apoios do Irã e do Hezbollah, os sunitas na base do ISIS e outros grupos com apoios da Arábia Saudita, wahabismo, minorias como os drusos, turcomanos, assírios, curdos e outros grupos étnicos e religiosos. Todo Estado Nacional mais estável se assenta em um núcleo duro etnonacional, o que hoje não é o caso da Síria. Os interesses do complexo industrial-militar dos Estados Unidos com Trump enfrentando derrotas na política interna, como na saúde da Obamacare, forçam os Republicanos a procurarem as tradicionais guerras externas para disfarçarem sua mediocridade e crescente falta de apoio doméstico, afinal Trump tem todos os defeitos de Obama e muitos mais, além do que para o capitalismo as guerras sempre são os melhores e mais lucrativos negócios. O cenário muito provável é a guerra continuar delimitada entre os aliados da Rússia e dos EUA, com as grandes potências nucleares evitando confrontos militares diretos entre si. Guerras devem ser travadas até o seu fim político, o que ainda está muito longe na Síria.

Ricardo Costa de Oliveira

Notas Estéticas

"A obra de Lukács, em matéria estética, acolhe como princípio fundamental a ideia de que aquilo que é social na obra de arte é a forma.

As implicações imediatas dessa posição indicam com grande clareza que as relações entre obras de arte e sociedade são concebidas de modo analógico-estrutural e não pela presença, na obra, de 'elementos' ou 'conteúdos' sociais.

Por exemplo: o romance é definido, ou melhor, situado, como gênero literário expressivo da burguesia não porque tantos romances contenham tão numerosos personagens, situações e acontecimentos facilmente encontráveis na sociedade burguesa - mas sim porque a estrutura básica da forma literária 'romance' possui linhas substancialmente homólogas (segundo Goldmann) ou análogas (pela nossa opinião) às diretrizes da sociedade burguesa.

O entendimento da relação arte/sociedade como uma função baseada na analogia de estruturas retira à velha dualidade forma/conteúdo qualquer valor lógico.

O 'conteúdo' se dissolve. Arte é campo de formas significativas, cuja significação vem da força com que se referem a formas sociais, não porque a arte tenha de ser explicada 'de fora', mas, simplesmente, porque sua função é ser linguagem, isto é, transposição ao nível do domínio, da clarificação e da consciência - daquelas formas sociais que constituem a bruta experiência do cotidiano. A arte, e especialmente a arte literária, realiza nessa condição um trabalho filosófico: por ela, a sociedade se conhece a si mesma.

O 'conteúdo' da obra de arte é uma ilusão elementarista, que não resiste a uma visão estrutural. Consiste no engano de querer perceber a obra em fragmentos, quando ela é antes de tudo uma unidade; e também em outro engano, o de querer captar uma 'mensagem' dentro de um estilo e das palavras, quando toda mensagem é a linguagem mesma: a ideia não está na palavra, não se vestiu com ela; a ideia, a significação, a mensagem, é a linguagem.

Se Croce não tivesse esquecido tantas coisas, seria possível dizer com ele (mas a terminologia já revela o que ele esqueceu) que toda intuição é expressão. Que todo 'conteúdo' é linguagem - e portanto, que separá-lo (tentar separá-lo) da sua linguagem, é apenas mutilação, apenas perda, apenas dano."


- José Guilherme Merquior, "Notas Estéticas", em "A Razão do Poema: ensaios de crítica e de estética" (1965). São Paulo: É Realizações, 2013. pp. 222-223. Da página do Fabricio Gonçalves
Ainda antes da abertura dos portões do cemitério, alguém já acende uma nova vela para a Missa de Sétimo Dia do jornal impresso. Se ontem foi o maior jornal do Paraná, mudando de formato e apostando no digital, no mês passado o jornal da cidade em que moro deixou de circular duas vezes na semana para investir em apenas uma edição semanal de “mais fôlego”. Nos últimos dez anos, ao menos oito grandes esfinges do jornalismo impresso morreram, da Gazeta Mercantil ao Jornal do Brasil. No ínterim, muitos amigos jornalistas foram demitidos, estão desempregados ou sobrevivendo de freelancers. Outros estão em segunda faculdade ou especializando-se em carreiras acadêmicas. O mundo muda, as profissões mudam e a redação parece destinada a ser o museu do futuro, onde crianças, acompanhadas dos professores, serão informadas sobre estranhas práticas em espaço restrito. O cenário realmente não é animador. Os dados do IVC apontam para uma queda progressiva da base de assinantes das principais revistas em circulação do País. Mesmo quem muda ainda está longe da calmaria. Os anunciantes estão evadindo-se para novas experiências de contato com seus consumidores. A base de produção, sem receita, corta custos para a máquina não emperrar. As ferramentas digitais não cobrem o antigo modelo. A conta não fecha.

E onde está o RelevO neste processo? Somos um jornal de papel, logo sentimos os efeitos da crise econômica, do aumento de custos operacionais – dos Correios ao combustível –, da instabilidade de ser contemporâneo em um segmento revirado e de nossa própria infraestrutura, modesta. Ainda assim, a cada mês aumentamos um pouco a nossa base de assinantes e não sentimos intensamente a fuga de anunciantes, até porque são poucos e fieis a um certo propósito, que retratarei mais à frente. Podia ser pior, mas confortável não é.
Para não fecharmos as portas, montamos um jornal sem fins lucrativos. O que isso significa? Exatamente: ninguém na estrutura ganha dinheiro com o jornal. (Prestamos contas públicas de nossos ganhos e gastos.) Naturalmente, não é o ideal. Eu mesmo gostaria muito de me remunerar com o jornal e pensar calmamente em estratégias de aprofundar as relações entre leitores e a literatura, estudar melhor o mundo complexo em que acordamos. Mas não: passo boa parte do mês fazendo malotes dos assinantes, distribuindo jornal no Brasil, cobrando assinantes e pagando boletos. Desgosto? Também não. Sinto um orgulho discreto de, em sete anos de turbulências, não abrirmos mão de alguns valores. Não ganhamos dinheiro porque nunca batemos na porta do poder público. Não ganhamos dinheiro porque não vendemos espaço editorial para empresas que acreditam que conteúdo e publicidade são o mesmo saco. Fechamos alguns meses no prejuízo porque não damos assinaturas para YouTubers, que se travestem de interesse público para inocular ações de marketing. Em suma, somos um case pronto de fracasso para os novos tempos.

O que, portanto, será de nós se o cemitério já tem uma lápide com o nosso nome e nos convoca para o descanso em paz? Bem, acredito, talvez de uma forma racionalista-mística, que o impresso ainda significará algo para determinados grupos, sejam eles pequenos, sejam eles à margem, sejam ele eu + cinco. Aos solavancos, encontramos um público cativo. E digo isso no sentido que o termo carrega de necessidade/apreço de se relacionar com o papel. Eu reconheço que sou da geração anterior, escrava do papel. Formei-me leitor nos jornais de papel, comecei minha carreira na comunicação entregando jornal de papel, aprendi a diagramar pensando no RelevO em páginas, entrego jornal até hoje. Talvez seja a minha moira. O que vai acontecer se o RelevO tiver que fechar? Não sei. Só sei de meu desconforto com os novos tempos, mas não quero ser um velho nostálgico.

Por isso, quando encontro pessoas que se comprometem com a reflexão sobre os rumos da Comunicação e da Cultura, digo que se trata da construção de circuitos. Um jornal de literatura de papel ainda é importante no processo de disseminação de um conjunto de ideias e de trabalhos. Representa, ao seu modo, um recorte temporal, nem melhor ou pior do que qualquer outro, apenas mais um – aquele que escolhemos. Não precisamos anular outras plataformas para construir o nosso circuito.

Quando encontro pessoas que são meus amigos e se comprometem com a reflexão sobre os rumos da Comunicação e Cultura, sou ainda mais franco. Se trata, sobretudo, daqueles que gostam de cultura, principalmente amigos, de investirem um pouco de seu tempo e dinheiro em projetos que não existirão sem algum engajamento. Porque assistir a morte anunciada de grandes conglomerados de comunicação é quase excitante. Contudo, logo um novo rei assume o lugar, se duvidar com a mesma música. Agora, quando morrem iniciativas culturais fora da curva, a próxima iniciativa precisará sair dos escombros para se erigir.
Portanto, não se trata de apelo, nem de defesa extrema de causa própria. Se você gosta de cultura, pense com mais carinho nos jornais impressos do setor, aqueles que você acha legal. O Brasil está cheio de periódicos muito bons e que movimentam ao seu modo determinados circuitos. Assine, divulgue, colabore, sugira. Se somos impessoais com a morte dos jornalões, não custa ser menos duro com projetos de identidade mais clara. Até custa, mas não muito.

Daniel Zanella


UMA MUDANÇA NO TEMPO DO CORAÇÃO



Uma mudança no tempo do coração
Resseca-lhe a umidade; um estampido dourado
Ecoa na tumba glacial.
Uma mudança no território das veias
Transforma a noite em dia; o reflexo solar do sangue
Ilumina os vermes ainda vivos.

Uma mudança nos olhos dissimula
Os ossos da cegueira; e o ventre
Mergulha na morte como a transpiração da vida.

A escuridão no tempo dos olhos
É a metade de sua luz; o mar profundo
Irrompe numa terra sem peixes.
A semente que dos flancos engrendra uma floresta
Divide ao meio seu fruto, e a metade
Goteja devagar no vento adormecido.

O tempo da carne e dos ossos
Torna-se úmido e seco; o vivo e o morto
Se movem como dois espectros diante dos olhos.
Uma mudança no tempo do mundo
Transforma um espectro no outro; cada criança
No útero da mãe repousa em sua dupla sombra.
Uma mudança arrasta a lua para o sol,
Caem da pele as cortinas em farrapos;
E o coração renuncia aos próprios mortos.

Dylan Thomas

Trad. Ivan Junqueira.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

"Então, a Reforma Protestante foi um caso de "muito barulho por nada"? Fruto de um equívoco? Devemos responder com firmeza: não! As revoluções, no entanto, não surgem pelas ideias ou pelas teorias abstratas, mas por situações históricas concretas, e a situação da Igreja, há tempo, não refletia realmente aquelas convicções. A vida, a catequese, a piedade cristã, a direção espiritual, por não falar depois da pregação popular: tudo parecia afirmar o contrário, ou seja, que o que conta são as obras, o esforço humano".

 Frei Raniero Cantalamessa. 
O principal problema do pseudo intelectual da tecnociência é a sua baixa capacidade interpretativa, toda informação é tomada por ele por um único viés interpretativo e definida como um conceito prático e fechado adequado ao seu interesse - muitas vezes a sua vaidade - ou nível de conhecimento de causa. O segundo passo é vestir seu conceito de termos técnicos precisos, pola isto confere a autoridade ao argumento.

Pronto, eis uma definição simplória de ocasião, que será tachada de "complexa" - palavra da moda, pouco compreendida - com sua vestimenta técnica, científica, burocrática, adicione um rebanho ruidoso ávido por verdades fáceis e pronto.

Henrique Veber
O fim da Gazeta do Povo como jornal diário foi mais uma consequência do apoio ao golpe de 2016. Ocorreu uma grande separação e mesmo um divórcio com a maior parcela da intelligentsia regional. A grande maioria do professorado passou a abominar o veículo pelas suas ideias de extrema direita, como intelectuais críticos são formadores de opinião o impacto comercial foi devastador. Além das mudanças tecnológicas as mudanças políticas foram determinantes para o destino do jornal. O golpe de 2016 ainda vai causar muitas sérias derrotas para as oportunistas forças conservadoras e burguesas que o apoiaram. Partidos políticos e empresários golpistas de direita vão pagar o pato pelo desequilíbrio, pela instabilidade e pelas crises que o golpe de 2016 trouxe para o Brasil.

RCO
O que aconteceu na Hebraica, tanto em São Paulo (onde a palestra do fascistão foi cancelada) como no Rio (onde ocorreu sob protestos) tem um nome- luta de classes, e um sobrenome- a incapacidade (que pode ser corrigida) dos setores democráticos das várias comunidades de se descartarem de suas velhas organizações.
OK, a Hebraica é apenas um clube e aqueles que protestaram não são a classe operária. Porém, a luta de classes se desdobra em mil facetas e expõe o tenebroso drama do atual momento.
Os judeus pagam um altíssimo preço pela existência do estado de Israel, na verdade um Forte Apache implantado no Oriente Médio para atender os interesses imperialistas, massacrar os palestinos, negando-lhes qualquer existência independente, e ajudar na manutenção das monarquias árabes feudais, que garantem o fluxo do petróleo.
Os protestos dos judeus, no Brasil contra Bolsonaro, em Israel e no mundo contra a guerra sem quartel aos palestinos, expõem a incompatibilidade dos anseios democráticos com a “ordem” (na verdade, uma desordem sanguinária) reinante no Oriente Médio, estado de coisas que encontra apoio nos dirigentes das Hebraicas.
Por isso, nada de racismo, que não é senão uma das manifestações mais pútridas dessa mesma “ordem”.


Roberto Elias Salomão