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sexta-feira, 7 de abril de 2017

O que aconteceu na Hebraica, tanto em São Paulo (onde a palestra do fascistão foi cancelada) como no Rio (onde ocorreu sob protestos) tem um nome- luta de classes, e um sobrenome- a incapacidade (que pode ser corrigida) dos setores democráticos das várias comunidades de se descartarem de suas velhas organizações.
OK, a Hebraica é apenas um clube e aqueles que protestaram não são a classe operária. Porém, a luta de classes se desdobra em mil facetas e expõe o tenebroso drama do atual momento.
Os judeus pagam um altíssimo preço pela existência do estado de Israel, na verdade um Forte Apache implantado no Oriente Médio para atender os interesses imperialistas, massacrar os palestinos, negando-lhes qualquer existência independente, e ajudar na manutenção das monarquias árabes feudais, que garantem o fluxo do petróleo.
Os protestos dos judeus, no Brasil contra Bolsonaro, em Israel e no mundo contra a guerra sem quartel aos palestinos, expõem a incompatibilidade dos anseios democráticos com a “ordem” (na verdade, uma desordem sanguinária) reinante no Oriente Médio, estado de coisas que encontra apoio nos dirigentes das Hebraicas.
Por isso, nada de racismo, que não é senão uma das manifestações mais pútridas dessa mesma “ordem”.


Roberto Elias Salomão                 

domingo, 4 de setembro de 2016

Roberto Elias Salomão

Para os que, como eu, já estão há várias décadas na estrada, o golpe de Temer e companhia (e bota companhia nisso) não é uma absoluta novidade. Não vivi exatamente o golpe de 64 (tinha pouco mais de dez anos), mas convivi diariamente com o terror militar, e tentei entender o que se passava, no que fui ajudado enormemente por ter aderido a uma organização trotsquista. E vejo que os golpistas de hoje guardam uma impressionante similaridade com os de ontem. Menos num aspecto: parafraseando alguém mais inteligente do que eu, o valor dos golpistas de hoje está muito abaixo de suas más intenções.
Aécio é Carlos Lacerda. Tramou o golpe desde a derrota de 2014. Porém, cessam aí as semelhanças. Que fatuidade, que despreparo! Ah, sim, há outra semelhança: tal como Lacerda, Aécio vai ficar de fora dos despojos.
Cássio Cunha Lima, Ronaldo Caiado, Aluísio Nunes e Maria Amélia, entre outros, são a “banda de música” da UDN. Bem fraquinhos.
Lewandowski (me desculpem os que ainda tinham ilusões neste fulano) entra na história representando o judiciário. Há que se fazer justiça: desta vez, os juízes tiveram um papel de protagonistas.

E Temer? Temer não é nada. Por mais que me esforce, não consigo encontrar um paralelo. O usurpador entrou na História pela porta dos fundos e, quando sair, será pela mesma passagem.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Diante da avalanche de informações (informações manipuladas com muita arte, diga-se de passagem) e quaisquer que sejam as consequências políticas (que certamente serão graves, ou gravíssimas), só me resta dizer o seguinte: embora não tenha vivido as maquinações contra Getúlio e contra Jango, duvido que tenham atingido o grau das que há mais de dez anos atingem o PT. E que hoje atingiram o auge, ou ainda não.

Que ingenuidade achar que podemos ter amigos a torto e a direito, à esquerda e à direita, que podemos contentar a todos! Que besteira! As feras mostram sua verdadeira face a cada dia, a cada minuto. A questão é saber se vamos ser ovelhinhas aguardando o momento do sacrifício , ou se vamos optar por ser feras ainda mais terríveis, prontas para defender cada centímetro de território.

Roberto Elias Salomão

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

"Por coerência com os seus princípios e com o indicativo aprovado em encontro do Partido dos Trabalhadores de candidatura própria para 2016, ela deixa a SMTE após três anos no cargo." Trecho da nota oficial que informa a saída da vice-prefeita Miriam Gonçalves da Secretaria do Trabalho. É uma atitude pra lá de positiva, que reforça a decisão do PT de ter candidatura própria e a necessidade de romper o mais breve possível com a gestão Fruet. Há uma contradição flagrante entre a atitude da companheira Miriam e a nota do presidente do PT, que procura tirar a importância do encontro municipal petista de sábado.

Mas não nos incomodemos. A realidade vai se impor, já está se impondo. O desconforto inicial é o mesmo de assistir a um concerto de piano executado por um burocrata. Em vez de distinguir as teclas brancas e pretas e saber quando recorre a umas ou outras, o burocrata bate no teclado com a sua pasta cheia de ofícios e memorandos.

Roberto Elias Salomão

terça-feira, 8 de setembro de 2015

O menino sírio morto na praia, com sua mãe e irmão numa malfadada tentativa de fuga dos horrores da guerra e da degradação de seu país; o pai que não sai da beira do túmulo; a solidariedade de populares alemães e austríacos aos refugiados; e a generosidade do Brasil de receber os imigrantes. Este foi certamente o assunto da semana. A tragédia no Oriente Médio é, sem dúvida, a expressão mais acabada da barbárie a que o capitalismo financeiro está conduzindo a humanidade.
Todos os valores se desmancham no ar, liberdade, igualdade, fraternidade, democracia, justiça, direitos. Vale tudo na busca desenfreada do lucro. O que é uma criança morta afogada numa praia do Mediterrâneo? Nada mais do que nada.
Penso que só tendo em vista esta tragédia se pode dar a devida dimensão ao “caso” Fábio Júnior. Um acontecimento zero, junto com muitos outros zeros que fazem a alegria de jornais, sites e tevês.
Um menino.


Roberto Elias Salomão

domingo, 3 de maio de 2015

Guerra de um lado só

Roberto Elias Salomão

1 de maio às 21:29 ·

Guerra de um lado só, e Beto Richa consegue o dinheiro dos servidores

Milhares de policiais, centenas de bombas de gás lançadas contra os trabalhadores em greve, mais de 150 feridos entre os professores e demais servidores (alguns em estado grave), rumores sobre mortes, um deputado (Rasca Rodrigues) e um cinegrafista mordidos pelos cães da polícia, dentro da Assembleia: estes são apenas alguns dos fatos aterradores ocorridos nesta quarta-feira, 29 de abril de 2015, no Centro Cívico.

Foram esses acontecimentos que permitiram ao governador Beto Richa, com apoio de uma bancada supostamente leal, embora bastante diminuída em relação aos efetivos do início do ano, aprovar seu projeto de alterações nas regras da Previdência, que podem ser resumidas assim: o estado deixa de aportar R$ 142 milhões por mês (R$ 1,85 bilhão por ano). E as aposentadorias e pensões dos servidores entram no túnel escuro da incerteza, talvez da impossibilidade.

Desde o último sábado estava claro até que ponto o governo estava disposto a ir para ter acesso aos fundos da previdência dos servidores. Naquele dia, o presidente da Assembleia, Ademar Traiano (PSDB), obteve liminar para seu pedido de “garantir a votação do projeto”. O pedido, claramente inspirado pelo governador, abriu as portas para o cerco policial da Assembleia e as cenas de violência contra os trabalhadores, verificadas na madrugada e na manhã de terça-feira.

Tudo pode piorar

Na quarta-feira, já nas primeiras horas da manhã, notava-se o enorme reforço do policiamento. Calculava-se em 4 mil o número de policiais envolvidos na operação, dos quais cerca de 400 das tropas de choque (foram convidados todos os choques do estado, inclusive o do Batalhão de Fronteira de Foz do Iguaçu).
Os educadores em greve também iam chegando. A tensão foi aumentando e chegou a um ponto insuportável no momento de início da sessão. Os grevistas conseguiram derrubar uma grade da Assembleia, e aí o inferno começou.

A sessão chegou a ser interrompida por alguns minutos pelos estrondos incessantes das bombas, mas logo Traiano recomeçou os trabalhos, sob protestos dos deputados de oposição. “Aqui dentro está tudo tranquilo. Se tem confusão, é lá fora. Então, podemos continuar a sessão”.

Estava errado. O deputado Rasca voltou ao plenário, já medicado, mas com o sangue saindo pelo curativo no braço, mordido dentro das dependências da Assembleia.

A fala de Traiano continha, porém, uma verdade hedionda. Os deputados governistas pareciam estar numa redoma. A maioria sequer se dignou a ir dar uma olhada no que acontecia na praça, fazendo cara de paisagem, fato registrado pelo deputado Márcio Pauliki em sua fala: “Eu peço para acabar com esse teatro sem plateia. Não é possível que haja lá fora centenas de feridos e os deputados fiquem aqui tomando água de coco”.

O líder da Oposição, Tadeu Veneri, desmazelado e quase sem voz, a todo momento pedia a mediação da Assembleia para obter do comando policial uma possibilidade para que os feridos fossem atendidos. Foi ele que disse, dirigindo-se indiretamente a Traiano: “Para os que acham que a situação está tranquila, no momento estão jogando bombas dentro da Prefeitura”.

Era verdade. Forçados a recuar pelas bombas de gás incessantes, os manifestantes se refugiaram na Prefeitura, mas nem lá estiveram a salvo. Uma grande parte deles, porém, permanecia na praça, e as bombas não paravam. Um grito tomava conta da rua: “Fora Beto Richa! Fora Beto Richa!”. E dentro a sessão dos deputados continuava.

Veneri tomou a palavra para realçar, mais uma vez, o absurdo da situação: “Se jogassem uma dessas bombas aqui dentro, não ficava um só deputado. Mas como é o povo, ora, o povo que se lixe. Mas é esse povo que elege os senhores. Como é que vocês vão olhar na cara dos seus eleitores, amanhã?” Com a voz ainda falhando, Veneri continuou: “O governador Beto Richa está vendendo a sua alma”.

Crianças afetadas

A polícia continua disparando bombas de gás. As crianças do Cemei próximo à Prefeitura começam a passar mal. Mas a sessão dos deputados continua.

O deputado Péricles de Mello conseguiu falar pouco mais de um minuto, até que uma taquicardia o acometeu. Seu tempo foi completado pelo Professor Lemos, líder do PT: “O que o governador está promovendo hoje é desastroso. Só para tomar na mão grande e suja de sangue o dinheiro dos servidores”. Lemos disse que só em seu mandato Beto Richa promoverá a sangria do Fundo de Previdência em R$ 7,4 bilhões. “O governador não está preocupado com a corrupção em seu governo, com a quadrilha que saqueia o estado”.

O líder do PT negou que o tumulto tivesse sido provocado por infiltrados entre os professores: “Os presos são professores, os feridos são professores”. E concluiu: “O governo Beto Richa ultrapassou todos os limites”.

Deputados aprovam o projeto

As falas se sucediam, quase todas da oposição. Até que chegou o momento da votação. O parecer da CCJ sobre as emendas foi aprovado por 31 votos contra 19; o mérito do projeto foi aprovado foi aprovado por 31 votos contra 20. E a seguir foram aprovadas também as emendas.

Tanto o governador quanto a sua bancada de deputados e as forças policiais estavam plenamente vitoriosos. A que preço político, é o que verá em breve.

Naquele momento, porém, esse cálculo não era feito. O líder do governo, Romanelli, quase festejava a aprovação. Enquanto os deputados ainda votavam, o comandante de um dos choques reuniu sua tropa, deu ordem de descanso e cumprimentou-os pelo desempenho. Depois, os policiais festejaram, com gritos.

Duas sessões extraordinárias muito rápidas sacramentaram a aprovação do projeto governamental. O cheiro do gás e de algo muito pior ainda não se tinha dissipado.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

não é hora de ir para a trincheira

Roberto Elias Salomão

Há poucas semanas, houve uma correspondência curiosa entre Reinaldo Azevedo, o blogueiro da Veja e colunista da Folha, com o raivoso deputado Jair Bolsonaro. O primeiro criticava a estupidez do segundo quando da inqualificável agressão à deputada Maria do Rosário. Com firmeza, mas, com muita delicadeza. Em resumo, Azevedo (como um professor falando a um aluno estúpido, mas fiel) recomendava o uso da lei, no caso para se opor a qualquer alteração na lei de anistia, para impedir qualquer punição aos torturadores.
Bolsonaro, estranhamente, reagiu com educação à reprimenda. O político prepondera sobre o soldado, embora este seja deputado.

O que Azevedo tentava explicar ao imbecil do Bolsonaro é que não é hora de ir para a trincheira. Há meios mais seguros. É hora de dar força a Levy, Kátia Abreu, Kassab, Renan. É hora de combater por dentro. Quando for o momento, nós, os políticos, vamos chamar vocês. Por enquanto, limitem-se a esperar sua vez.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Consumismo

Tenho bronca dessa expressão "consumismo". Em minha formação, aprendi (e ainda hoje acredito) que o grande problema da humanidade é que a enorme maioria não consome o suficiente para viver dignamente. Resumir isso ao desejo de um garoto pobre de ter um tênis de grife ou um celular top é um reducionismo escroto. Negar aos despossuídos o direito de sonhar com a posse de uma pequeníssima parte das riquezas que eles produzem, vêem mas são impedidos de ter, é de um pedantismo cruel. Isso no caso de nossos companheiros, claro. Quanto aos aquinhoados, a tese do "consumismo" lhes é muito útil.



Roberto Elias Salomão