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quarta-feira, 9 de outubro de 2019
domingo, 21 de maio de 2017
Antes que llamara
Antes que llamara y la carne me abriese,
que mis líquidas manos golpearan en el vientre,
yo, que era entonces informe como el agua
que formaba el Jordán junto a mi casa
era hermano de la hija de Mnetha
y hermana del gusano que gestaba la vida.
Yo que era sordo ante la primavera y el verano,
que no sabía los nombres de la luna y el sol,
ya sentía el latido bajo la armadura de mi carne,
aunque existía solo en forma de infusorio,
veía las plomizas estrellas, el martillo lluvioso
que mi padre balanceaba en su cúpula.
Conocía el mensaje del invierno,
los dardos del granizo y la nieve pueril
y el viento era mi hermana pretendiente;
en mí saltaba el viento, el rocío infernal;
y mis venas fluían con los climas de oriente;
antes que me engendraran supe el día y la noche.
Antes que me engendraran ya por cierto sufría;
el potro de tortura de los sueños
enroscaba mi osamenta de lirio
en una cifra viva,
la carne era cortada para cruzar los bordes
de las horcas en cruces sobre el hígado
y las zarzas de los cerebros estrujados.
Mi garganta conocía la sed antes de la estructura
de vena y piel alrededor del pozo
donde palabras y agua se entremezclan
sin pausa alguna, hasta pudrir la sangre,
mi corazón conocía el amor, mi vientre el hambre;
al gusano yo olía entre mis propias heces.
Después el tiempo envió a mi mortal criatura
a derivar o ahogarse en los océanos
habituados a la aventura de la sal
en las mareas que jamás tocan las orillas.
Yo que era rico, me hice más rico aún
sorbiendo poco a poco el vino de los días.
Nacido del espectro y la carne, no era espectro
ni hombre, sino espectro mortal.
Y luego me abatió la pluma de la muerte.
Fui mortal hasta el último suspiro prolongado
que llevó hacia mi padre
el mensaje de su agónico cristo.
Tú que te inclinas en la cruz y el altar
acuérdate de mí y apiádate de Aquel
que mi carne y mi sangre tomó por armadura
y llegó a traicionar el vientre de mi madre.
DYLAN THOMAS
Biblioteca Digital Ciudad Seva
domingo, 9 de abril de 2017
UMA MUDANÇA NO TEMPO DO CORAÇÃO
Uma mudança no tempo do coração
Resseca-lhe a umidade; um estampido dourado
Ecoa na tumba glacial.
Uma mudança no território das veias
Transforma a noite em dia; o reflexo solar do sangue
Ilumina os vermes ainda vivos.
Uma mudança nos olhos dissimula
Os ossos da cegueira; e o ventre
Mergulha na morte como a transpiração da vida.
A escuridão no tempo dos olhos
É a metade de sua luz; o mar profundo
Irrompe numa terra sem peixes.
A semente que dos flancos engrendra uma floresta
Divide ao meio seu fruto, e a metade
Goteja devagar no vento adormecido.
O tempo da carne e dos ossos
Torna-se úmido e seco; o vivo e o morto
Se movem como dois espectros diante dos olhos.
Uma mudança no tempo do mundo
Transforma um espectro no outro; cada criança
No útero da mãe repousa em sua dupla sombra.
Uma mudança arrasta a lua para o sol,
Caem da pele as cortinas em farrapos;
E o coração renuncia aos próprios mortos.
Dylan Thomas
Trad. Ivan Junqueira.
domingo, 8 de dezembro de 2013
Não vás tão docilmente
(Dylan Thomas / Augusto de Campos)
Não vás tão docilmente nessa noite linda;
Que a velhice arda e brade ao término do dia;
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.
Embora o sábio entenda que a treva é bem-vinda
Quando a palavra já perdeu toda a magia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.
O justo, à última onda, ao entrever, ainda,
Seus débeis dons dançando ao verde da baía,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.
O louco que, a sorrir, sofreia o sol e brinda,
Sem saber que o feriu com a sua ousadia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.
O grave, quase cego, ao vislumbrar o fim da
Aurora astral que o seu olhar incendiaria,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.
Assim, meu pai, do alto que nos deslinda
Me abençoa ou maldiz. Rogo-te todavia:
Não vás tão docilmente nessa noite linda.
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.
terça-feira, 30 de abril de 2013
"Nessa noite e em cada noite desde a estrela
cadente em que nasceste,
Sempre e sempre ele encontra um caminho, quando cai
a neve.
Quando a chuva cai, granizo sobre o velocino,
quando a névoa flutua no vale
Através dos estábulos dourados de feno, quando cai
o orvalho
Sobre o pó macerado das macieiras e as ilhas
açoitadas
Das folhas matinais, quando cai a estrela, quando
as aladas
Sementes da maçã deslizam,
E caem, e florescem na chaga que boceja junto à
nossa ilharga,
Quando cai o mundo silencioso como o ciclone do
silêncio."
Dylan Thomas (No sono campestre / trad. Ivan
Junqueira)
sábado, 13 de outubro de 2012
ENTRE OS MORTOS NUM BOMBARDEIO AO AMANHECER
HAVIA UM HOMEM DE CEM ANOS
Quando a manhã despertava sobre a guerra
Ele vestiu as calças e caminhou para a morte,
Suas madeixas bocejaram soltas e uma rajada de vento as
dispersou,
Tombou onde amava, sobre as pedras arrancadas à calçada
E as fúnebres sementes do solo massacrado.
Dizei à sua rua lá no fundo que ele deteve um sol
E que da cratera de seus olhos brotaram fogos e balaços
Quando todas as chaves saltaram das fechaduras e retiram.
E não mais escaveis em defesa das algemas de seu grisalho
coração.
A ambulância celeste arrancada por uma constelação de chagas
Aguarda o tinir da espada na gaiola.
Oh retirai seus ossos desse veículo banal,
a manhã está voando com as asas de sua idade
E uma centena de cegonhas pousa na mão direita do sol.
(Dylan Thomas)
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