sábado, 27 de novembro de 2010

Para pintar o retrato de um pássaro

Para pintar o retrato de um pássaro



Jacques Prévert

Para Elsa Henriquez



Primeiro pintar uma gaiola

com a porta aberta

pintar depois

algo de lindo

algo de simples

algo de belo

algo de útil

para o pássaro

depois dependurar a tela numa árvore

num jardim

num bosque

ou numa floresta

esconder-se atrás da árvore

sem nada dizer

sem se mexer…

Às vezes o pássaro chega logo

mas pode ser também que leve muitos anos

para se decidir

Não perder a esperança

esperar

esperar se preciso durante anos

a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro

nada tendo a ver

com o sucesso do quadro

Quando o pássaro chegar

se chegar

guardar o mais profundo silêncio

esperar que o pássaro entre na gaiola

e quando já estiver lá dentro

fechar lentamente a porta com o pincel

depois

apagar uma a uma todas as grades

tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro

Fazer depois o desenho da árvore

escolhendo o mais belo galho

para o pássaro

pintar também a folhagem verde e a frescura do vento

a poeira do sol

e o barulho dos insectos pelo capim no calor do verão

e depois esperar que o pássaro queira cantar

Se o pássaro não cantar

mau sinal

sinal de que o quadro é ruim

mas se cantar bom sinal

sinal de que pode assiná-lo

Então você arranca delicadamente

uma das penas do pássaro

e escreve seu nome num canto do quadro.



POUR FAIRE LE PORTAIT D’UN OISEAU



A Elsa Henriquez



Peindre d’abord une cage

avec une porte ouverte

pendre ensuite

quelque chose de joli

quelque chose de simple

quelque chose de beau

quelque chose d’utile

pour l’oiseau

placer ensuite la toile contre une arbre

dans un jardin

dans un bois

ou dans une forêt

se cacher derrière l’arbre

sans rien dire

sans bouger…

Parfois l’oiseau arrive vite

mais il peut aussi bien mettre de longues années

avant de se décider

Ne pás le décourager

attendre

attendre s’il le faut pendant des années

n’ayant accun rapport

avec la réussite du tableau

Quand l’oiseau arrive

s’il arrive

observer le plus profond silence

attrendre que l’oiseau entre dans la cage

et quand il est entré

fermer doucement la porte avec le pinceau

puis

effacer un a un tous les barreaux

en ayant soin de ne toucher aucune des plumes

de l’oiseau

Faire ensuite le portrait de l’arbre

en choisissant la plus belle de ses branches

pour l’oiseau

peindre aussi

le vert feuillage et la fraîcher du vent

la poussière du soleil

et le bruit des bêttes de l’herbe dans la chaleur de l’été

et puis attendre que l’oiseau se decide à chanter

Si l’oiseau ne chate pás

c’est mauvais signe

signe que le tableau est mauvais

mais s’il chante c’est bon signe

signe que vous pouvez signer

Alors vous arrachez tout doucement

une des plumes de l’oiseau

et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau



de “Paroles” (1945)

B. de S. (1499 - 1590)

«O vaticínio

Dez anos antes da vinda dos Espanhóis,

o primeiro sinal. Era como uma língua de fogo

no céu, como uma chama, como qualquer coisa faiscando

no crepúsculo. Ardia, largo, e disparava afunilando

para as alturas. Foi visto durante um ano, de noite.

E sempre que se iluminava ouviam-se gritos,

todos gritavam, todos batiam com a palma da mão

na boca, todos tinham medo,

se assustavam, esperavam, ficavam apavorados.





(...)



O monte

É uma coisa alta, pontiaguda; afilada em cima,

no cume, em bico, eleva-se e sobressai;

torna-se cómico, redondo; um monte redondo, baixo;

com muitos rochedos, rochoso; escarpado, fendido, rochoso;

feito de terra; com árvores; pastagens; com ervas; com água;

seco; recortado; com gargantas; com cavernas;

e lá dentro há gargantas, blocos de pedra.

Eu subo, escalo o monte. Vivo

no monte. Nasci no monte. Ninguém

se pode tornar monte. Ninguém se transforma

num monte. Por fim, também o monte se desfaz.



(...)



A caverna

Ali estende-se, ali torna-se longa e funda,

abre-se, estreita. É um lugar apertado,

um lugar de angústia. Ali é intransitável, áspera.

É um lugar terrível, um lugar de morte,

um lugar de trevas. Ali é sombria,

escura. A sua boca está escancarada, fauces abertas.

Fauces, largas, fauces estreitas.

Eu vou ficar na caverna.

Entro. Estou aqui. Estou na caverna.»



Hans Magnus Enzensberger. Mausoléu. Trad. e prefácio de João Barrento. Edições Cotovia, Lisboa, 2004., p.43/45/47

C. v. L. (1707 -1778)

Uma loucura diferente da nossa: a loucura de um clássico.

Claro, seco e lacónico. Naquele tempo era tudo mais pequeno.

Era quase um anão, nervoso, impaciente, rodopiante,

mas o olhar cor de âmbar sob a pesada cabeleira

era penetrante e frio: é preciso rejeitar tudo o que sejam

características acidentais. Coleccionar, definir, classificar.

Todas as parecenças obscuras foram apenas inventadas para

vergonha da ciência. Lâminas terminiológicas para extrair

o imutável da carne e de um mundo cego e trémulo.





Inventários, nomenclaturas, reportórios. A natureza,

um quadrado intemporal, uma quadrícula imóvel.

Gravuras coloridas à mão, árvores genealógicas, tabelas.

Na espuma dos fenómenos, esta linguagem não se mexe.

Uma gramática do mensurável: da espessura de um cabelo,

da fundura de um umbigo, com a forma de uma vulva,

espiralada como a concha de uma orelha. Classificando,

minuciosamente e «com sentido». Trabalhando dia e noite,

para não perder um minuto enquanto permanecesse em Upsala.





Num país pobre, no mais miserável dixhuitième:

juventude pedregosa, sem dinheiro para meias-solas, comendo

do prato alheio, uma cama sempre fria, subterfúgios

para obter títulos e táleres. Finalmente, a fuga para o inóspito.

Lá, onde quase nada mais vive, ele quase revive.





Lapónia, 1745: vi verão e inverno num só dia,

atravessei nuvens, busquei o fim do mundo,

os asilos nocturnos do Sol. No frio, floresce o seu

coração seco. Líquenes rangíferos, tundra, liberdade do Ártico.





Depois, regresso aos cortesãos, aos jardins e gabinetes.

Sonhos infernais, meditações, trevas «cheias de sentido».

Nos olhos âmbar o brilho da loucura. Estático.

Finalmente, professor, médico pessoal da rainha (a mão certa

para curar as doenças do peito), presidente da academia.

Condecorado: Estrela Polar com fita preta. Tudo tarde de mais.

Azedume, desconfiança, noites sombrias em estufas,

depois a apoplexia. Os últimos quatro anos com

paralisia parcial, numa triste fraqueza de corpo e espírito.





Ninguém sabia que ele, que tinha encontrado tantas provas

da providência divina entre as coisas naturais, há muitos anos

vinha coleccionando exemplos semelhantes nos destinos humanos;

e que também os milagres, os pecados, obedecem à taxonomia.

Mania das perseguições, alucinações. Paralelamente à histoire admirable

des plantes, a história natural de doenças e vícios:

Nemesis divina, o noctário, guardado num estojo,

cheio de premonições, augúrios, intuições, leitura para Strindberg.

Teologia empírica. O investigador como espião de Deus.





Tudo tem a sua ordem: fogo posto luxúria infanticídio traição

manha e envenenamento. Melander, professor de teologia,

tece intrigas no consistório, até que, às seis da tarde, a sua cabeça

se volta para as costas. Caí, é levado para casa, nunca mais

verá o dia da cura. Deus é um rectângulo intemporal,

a Sua retaliação uma quadrícula, imóvel: execução, fogo

defenestração cabeça cortada. A senhora Psilanderhjelm, leviana

deita-se com um cortesão em Estocolmo. Apanha uma doença do ventre,

morre em breve. Abrem-na, encontram uma pedra no lugar da criança.





E assim tudo se revela. O pecador apodrece em vida.

Um modo de vida bastante monótono. Os castigos

são coleccionados, definidos e classificados. Minuciosamente e «com sentido»,

como o mecanismo da reprodução: estame seco e pólen,

semente estilete e estigma. Systema sexualis: uma obsessão fatal.

A vida não existe; só existem seres vivos.

Cada vez mais pequeno, o grande ancião medita, imóvel,

sobre uma vingança divina que fosse lógica. «Com sentido».

Sem sentido. «Com sentido». «Nós» não fazemos parte da sua loucura.





A flor que traz o seu nome, linnaea borealis L.,

é insignificante, minúscula, e quase toda branca.







Hans Magnus Enzensberger. Mausoléu. Trad. e prefácio de João Barrento. Edições Cotovia, Lisboa, 2004., p. 73-77

Micenas

Dá-me as tuas mãos, dá-me as tuas mãos,

dá-me as tuas mãos.



Vi dentro da noite

o cimo agudo do monte

vi além a planície inundada

com a luz de uma lua por aparecer

vi, ao voltar a cabeça

as pedras negras contraídas

e a minha vida tensa como corda

princípio e fim

o último momento;

as minhas mãos.



Afunda-se quem levanta as grandes pedras;

estas pedras levantei-as enquanto suportei

estas pedras amei-as enquanto suportei

estas pedras, o meu destino.

Ferido pelo meu solo

tiranizado pela minha túnica

condenado pelos meus próprios deuses,

estas pedras.



Sei que não sabem, porém eu

que segui tantas vezes

o caminho do assassino ao assassinado

do assassinado à paga

da paga ao outro assassínio,

a púrpura inesgotável

aquela tarde do regresso

quando as Solenes começaram a silvar

na erva escassa -

vi as serpentes em cruz com as víboras

entretecidas sobre a linguagem má

o nosso destino.



Vozes de pedra e do sono

mais fundas aqui onde o mundo escurece,

memória da fadiga enraizada no ritmo

que bateu na terra com pés

esquecidos.

Corpos afundados nos alicerces

do outro tempo, nus. Olhos

fixos fixos, num sinal

que por mais que queiras não distingues;

a alma

que luta por tornar-se tua alma.



Nem já sequer o silêncio é teu

aqui onde as mós pararam.



Outubro 1935


Yorgos Seferis. Poemas Escolhidos. Trad. de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratisinis. Relógio D'Água, Lisboa, 1993., p.49/51

An Indian Washing the Baby (1906)

Poesia

I



por caminhos de lavanda e urze: raso,

o sangue sob a plaina dos dedos,



enquanto a mão aprende

toda a beatitude do mundo



a mão alçada sobre a lua dos olhos,

o gesto é conciso

como uma imagem impossível



II



depois, ameias entre os venenos,

os versos:



carótida, laringe, fuligem, falange



os versos: um secreto combate, os versos



tantas vezes não mais que sombras



entre a luz nocturna da lâmina

e a doçura da pálpebra



III



em verdade falo apenas do que há

dentro dos nomes



o que há dentro de um nome?



em verdade falo apenas de um imóvel caminho



um lentíssimo modo de rumar

ao silêncio.

Luís Felício




Fonte Clepsidra
http://luz-clepsidra.blogspot.com/

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Jean Genet : un poète méconnu

Poésie universelle:
 "Patricia" : poesieuniverselle@yahoogroupes.fr
Suite à un message de notre ami Orlando sur son groupe de poésie, je vous propose de (re)découvrir ce poète "rebelle" doté d'une sensibilité magnifique.




Le condamné à mort (extrait)

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SUR MON COU sans armure et sans haine, mon cou

Que ma main plus légère et grave qu'une veuve

Effleure sous mon col, sans que ton cœur s'émeuve,

Laisse tes dents poser leur sourire de loup.



Ô viens mon beau soleil, ô viens ma nuit d'Espagne,

Arrive dans mes yeux qui seront morts demain.

Arrive, ouvre ma porte, apporte-moi ta main,

Mène-moi loin d'ici battre notre campagne.



Le ciel peut s'éveiller, les étoiles fleurir,

Ni les fleurs soupirer, et des prés l'herbe noire

Accueillir la rosée où le matin va boire,

Le clocher peut sonner : moi seul je vais mourir.



Ô viens mon ciel de rose, ô ma corbeille blonde !

Visite dans sa nuit ton condamné à mort.

Arrache-toi la chair, tue, escalade, mords,

Mais viens ! Pose ta joue contre ma tête ronde.



Nous n'avions pas fini de nous parler d'amour.

Nous n'avions pas fini de fumer nos gitanes.

On peut se demander pourquoi les Cours condamnent

Un assassin si beau qu'il fait pâlir le jour.



Amour viens sur ma bouche ! Amour ouvre tes portes !

Traverse les couloirs, descends, marche léger,

Vole dans l'escalier plus souple qu'un berger,

Plus soutenu par l'air qu'un vol de feuilles mortes.



Ô traverse les murs ; s'il le faut marche au bord

Des toits, des océans ; couvre-toi de lumière,

Use de la menace, use de la prière,

Mais viens, ô ma frégate, une heure avant la mort.



PARDONNEZ-MOI mon Dieu parce que j'ai péché !

Les larmes de ma voix, ma fièvre, ma souffrance,

Le mal de m'envoler du beau pays de France,

N'est-ce pas assez, mon Seigneur, pour aller me coucher.

Trébuchant d'espérance



Dans vos bras embaumés, dans vos châteaux de neige !

Seigneur des lieux obscurs, je sais encore prier.

C'est moi, mon père, un jour, qui me suis écrié :

Gloire au plus haut du ciel au Dieu qui me protège,

Hermès au tendre pied !



Je demande à la mort la paix, les longs sommeils,

Le chant des séraphins, leurs parfums, leurs guirlandes,

Les angelots de laine en chaudes houppelandes,

Et j'espère des nuits sans lunes ni soleils

Sur d'immobiles landes.



Ce n'est pas ce matin que l'on me guillotine.

Je peux dormir tranquille. À l'étage au-dessus

Mon mignon paresseux, ma perle, mon Jésus

S'éveille. Il va cogner de sa dure bottine

À mon crâne tondu.



POMPES FUNEBRES JEAN GENET P.267 L'imaginaire/ Gallimard (1953)

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Je sors d'un rêve que je ne puis rapporter.



Un rêve ne peut être fixé. Il s'écoule et chacune de ses images constamment se transforme puisqu'il n'existe que dans le temps et non dans l'espace. Puis l'oubli, la confusion... mais ce que je peux dire, c'est l'impression qu'il m'a fait.



A mon réveil, je savais que je sortais d'un rêve où j'avais commis le mal (je ne sais par quelle action : meurtre, vol ?) mais j'avais commis le mal, et j'éprouvais le sentiment de connaître la profondeur de la vie. Quelque chose comme si le monde avait une surface sur laquelle nous glissons (le bien) et une épaisseur où l'on ne s'enfonce que rarement, plus rarement qu'on ne croit (je note tout de suite qu'il s'agissait ainsi en rêve d'un séjour en prison).



Je crois que ce rejet du monde par le monde peut donner une humilité ou un orgueil, ou vous obliger à rechercher de nouvelles règles de vie, que ce nouvel univers vous permette de voir l'autre monde.



Il serait difficile d'expliquer pourquoi dans la cour de cette prison passait le cortège funèbre de tous les rois de la Terre. Ce n'est pourtant pas l'instant d'être imprécis. En réalité chaque roi, chaque reine, chaque prince royal, vêtu d'un manteau de cour de velours noir à traîne et coiffé de la couronne d'or fermée, voilée de crèpe le plus souvent, menait le deuil de tous les autres rois. Déjà étaient passés devant elle presque tous les rois du monde---ce qui veut dire d'Europe, quand la bonne vit s'avancer un carosse doré traîné par des chevaux blancs vêtus de deuil. Une reine y était assise, le sceptre au poing et le poing aux genoux. Elle était morte. A pied, une autre reine suivait, dont le visage était voilé. On ne pouvait les reconnaître. On savait que c'était des rois, des reines et des princes à leur couronne et à la raideur un peu timide de leur marche.



Malgré la dignité et l'éloignement forcé auxquels les oblige la vie, ces monarques parurent très près de la boniche qui les regardait défiler, avec étonnement, mais sans plus de crainte ni d'émerveillement qu'elle n'eût regardé passer une bande d'oies conduites par le jars. Ce cortège donnait vraiment l'impression de la richesse, les bijoux de deuil y étaient avec profusion, sauf qu'il n'y avait pas une fleur, un feuillage, si ce n'est brodés d'argent sur noir. La reine d'Espagne, reconnue grâce à son éventail, pleura beaucoup. Le roi de Roumanie était maigre, presque sans chair, et blanc. Tous les princes allemands le suivaient.



Et chacun, dans ce cortège, était seul, pris, capturé dans un bloc de solitude d'où il ne pouvait rien voir que lui-même et l'exceptionnelle magnificence- non d'un destin - mais de la trace de ce destin qu'il continuait. Leur solitude enfin, et leur indifférence permettaient à la bonne d'être maîtresse d'elle-même en face de ces personnages hautains. Elle les regarda comme sa patronne regardait le samedi de son balcon passer les noces.



Je suis soudain seul parce que le ciel est bleu, les arbres verts, la rue calme, et qu'un chien marche aussi seul que moi, devant moi. J'avance lentement, mais fortement. Je crois qu'il fait nuit. Ces paysages que je découvre, ces maisons avec leurs réclames, les affiches, les vitrines au milieu de quoi je passe en souverain sont de la même substance que les personnages de ce livre, que les visions que je découvre quand ma bouche et ma langue sont occupées dans les poils d'un oeil de bronze où je crois reconnaître un rappel des goûts de mon enfance pour les tunnels. J'encule le monde...



Pour finir,

le dossier de France Culture pour le centenaire de sa naissance

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regorge de trésors avec des émissions passionnantes.

http://www.franceculture.com/

sábado, 20 de novembro de 2010

A Revolução Mexicana

Como eu não possuo

Olho em volta de mim. Todos possuem

Um afecto, um sorriso ou um abraço.

Só para mim as ânsias se diluem

E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria

Dos espasmos golfados ruivamente;

São êxtases da cor que eu fremiria,

Mas a minh’alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei… perco-me todo…

Não posso afeiçoar-me nem ser eu:

Falta-me egoísmo para ascender ao céu,

Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser

Forçoso me era antes possuir

Quem eu estimasse – ou homem ou mulher,

E eu não logro nunca possuir!…

Castrado d’alma e sem saber fixar-me,

Tarde a tarde na minha dor me afundo…

– Serei um emigrado doutro mundo

Que nem na minha dor posso encontrar-me?

***

Como eu desejo a que ali vai na rua,

Tão ágil, tão agreste, tão de amor…

Como eu quisera emaranhá-la nua,

Bebê-la em espasmos d’harmonia e cor!…

Desejo errado… Se a tivera um dia,

Toda sem véus, a carne estilizada

Sob o meu corpo arfando transbordada,

Nem mesmo assim – ó ânsia! – eu a teria…

Eu vibraria só agonizante

Sobre o seu corpo d’êxtases dourados,

Se fosse aqueles seios transtornados,

Se fosse aquele sexo aglutinante…

De embate ao meu amor todo me ruo,

E vejo-me em destroço até vencendo:

É que eu teria só, sentindo e sendo

Aquilo que estrebucho e não possuo.

Paris 1913 – Maio


Mário de Sá-Carneiro



Mário de Sá-Carneiro. Dispersão. Lisboa, 1914

Pancho Villa

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Abraço EMBRACE

You know the parlor trick.

Wrap your arms around your own body

and from the back it looks like

someone is embracing you,

her hands grasping your shirt,

her fingernails teasing your neck.

From the front it is another story.

You never looked so alone,

your crossed elbows and screwy grin.

You could be waiting for a tailor

to fit you for a straitjacket,

one that would hold you really tight.

ABRAÇO

Conheces o truque do gabinete.

Enrola os braços à volta do teu próprio corpo

e de trás parece que

alguém te está a abraçar,

as mãos dela agarrando a tua camisa,

suas unhas cardando o teu pescoço.

Já de frente é outra história.

Tu nunca pareceste tão só,

de cotovelos cruzados e esgar contorcido.

Podias estar à espera do alfaiate

para provar uma camisa de forças,

uma que te agarrasse muito junto.


Billy Collins
Fonte Poesia & Ltda

Abd al malik .La vie au conditionnel

Abd Al Malik - Fleurs de Lune Feat.Aïssa & Souad Massi

Fleurs de Lune

Mon Oeil pleure, mon oeil pleure, Ma patrie me manque tellement,

ma patrie c’est l’amour, ma patrie c’est le coeur,

ma patrie c’est le respect de chacun, même s’il est différent,

le souvenir perpétue l’éclat de ce lieu ou j’ai tant aimé,

de ce lieux ou j’ai tant donné, j’ai vu la tendresse prendre forme humaine,

un arc-en-ciel me dire je t’aime,

une pluie de perles me parler pour me dire jamais je pourrais te quitter,

mon esprit prit possession de mon corps, je suis devenu plume,

depuis que je suis sorti de la brume, je cueille des fleurs de lune,

au dela des cimes, au dela des cieux, au dela des cils qui se plissent,

mes mots, ce sont les feuilles de mon coeur qui bruissent,

douce réminicence, je veux retourner en enfance,

retrouver l’innoncence pour que plus rien ne m’offense,

a travers toi mon beau pays, tous les esprits s’unifient,

a travers toi mon beau pays, les morts reviennent à la vie,

les coeurs se sont orientés vers toi à travers les ages,

laisse moi saisir par le gout le soleil de ce breuvage,

je suis nostalgique de tes vallons et de tes plaines,

quand le souvenir de l’air de tes montagnes à mon sang se mèle,

je me suis fait argile pour boire de ton eau,

je suis devenu fragile, fleurs de lune au bord d’un ruisseau,



Ce lieu en nous est gravé, comment a-t-on pu faire pour oublier d’où l’on venait,

qui sais, je le sais, ma vie entière à changé,

tout un pan de mon existence, ma mémoire émergé, le voile s’est levé,

fontaine de la vie, ou toute les sources convergent,

ou le lait se mèle au miel, ou jaillisse des diamants de sagesse,

se perdent les intelligences ici n’ont plus pieds,

le fond subsiste au dela de la forme se trouve la réalité,

Il y a des cieux dans ce royaume de l’ame,

qui gouvernent notre monde que l’on trouve quelque fois infame,

l’apparence est le masque du secret,

l’apparence assassine trop souvent ce que l’on crée,

Maintenant que je sais d’ou je viens, je veux retrouver ma terre,

mon coeur est une boussole pour que je ne perde pas mes repères,

quete initiatique je voyage comme Chihiro,

pour que je m’éteigne a moi-même et que disparaisse mon égo



Nostalgique, pas avec la tête mais avec le coeur,

je n’ai pas d’images, ni son, ni odeur,

le souvenir d’une époque ou le corps est frontière,

seul l’esprit à sa place a part entière,

ma tete amnésique mais dans le coeur y’a une trace,

cette marque a vie, souvenir d’avant c’est l’amour,

il n’y avait pas de profondeur, hauteur que l’amour,

nous sommes nostalgiques des choses qui ne sont plus,

non l’endroit est bien la, moi je suis voilé,

avec mes deux pieds sur terre je peux que me souvenir,

l’actualité du monde pousse mon esprit à aller ver le haut,

la ou toi, moi noyés dans l’océan comme avant,

je suis tellement loin et proche en même temps,

le coeur un disque dur, j’oublie jamais,

se souvenir c’est déjà un pas pour revenir …

Marc Lavoine & Souad Massi - Paris

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

 Digo do corpo digno inteligente activo


Digo do corpo digno inteligente activo,

ou adorativo aqui sob este sol demente

Digo do corpo digo o que indigente gente

declarou pervertido inútil indecente,

de escamotear esconder vestir e declarar

não-ter (sendo contudo algo de omnipresente).

Digo que o sexo existe apenas porque sim

como o pudera ser por exemplo um rim

ou qualquer outra víscera ou quem sabe um membro

que parece amovível quando e se preciso

porém nunca senhor deste secreto templo

vivo discreto imenso renovável todo

aqui e agora e logo e por fora e por dentro,

uno ou dispersivo, mas um corpo sempre.

Maria da Graça Varella Cid

Perfeito do Indicativo

Copacabana 20 Ag 81

& etc

Não é o coração

Não é o coração

mas esta carne

em seu rumor.

Não é o coração

mas teu silêncio

de intenso furor.

Não é o coração

mas as mãos

sem corpo, vazias.

Na grave melodia

de um instante

tu e eu

em desequilíbrio

na infame

consistência

de um absoluto

obstáculo.

Ana Marques Gastão


Nocturnos

Canções com palavras

Gótica

2002

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Piano

Suavemente, na penumbra, uma mulher canta para mim;

Fazendo-me voltar e descer o panorama dos anos, até que vejo

uma criança sentada debaixo do piano, na explosão do prurido das

cordas

E pressionando os pequenos, suspensos pés de uma mãe que sorri

enquanto ela canta.

Apesar de mim, a insidiosa mestria da canção

Atraiçoa-me fazendo-me voltar, até que o meu coração chora para

pertencer

Ao antigo entardecer dos domingos em casa, com o inverno lá fora

E hinos na aconchegada sala de visitas, o tinido do piano o nosso guia.

Por isso agora é em vão que a cantora irrompe em clamor

Com o appassionato do grandioso piano negro. A magia

Dos dias infantis está em mim, a minha masculinidade

É desencorajada no fluxo da lembrança, choro como uma criança

pelo passado.


D.H. Lawrence
Tradução de Cecília Rego Pinheiro

Rosa do Mundo

2001 Poemas para o Futuro

Assírio & Alvim

domingo, 14 de novembro de 2010

Callejero - Alberto Cortes

Os Perigos

Disse Mirtias (estudante sírio



em Alexandria, sob o reinado



de Constante Augusto e Constâncio Augusto;



em parte gentio e em parte Cristão):



“Fortalecido pela contemplação e o estudo,



não temerei, como um covarde, minhas paixões.



Entregarei meu corpo aos prazeres,



aos gozos mais sonhados,



aos mais ousados desejos eróticos,



aos impulsos lascivos de meu sangue, sem



medo algum, pois quando quiser



- e hei de querer, fortalecido



como estarei pela contemplação e o estudo -



encontrarei de novo nos momentos mais críticos



meu espirito ascético de outrora.”


KONSTANDINOS KAVAFIS
tradução de Jorge de Sena

sábado, 13 de novembro de 2010

Claude Lévi-Strauss: the Poet in the Laboratory



By Patrick Wilcken

Reviewed by Colin MacCabe - 04 November 2010

High priest of anthropology

Between his own publication of Tristes tropiques in 1955 and Jacques Derrida's publication of De la grammatologie in 1967, Claude Lévi-Strauss bestrode western humanities and social sciences as no one has before or since. Unlike philosophy or literary criticism, his discipline, anthropology, was not divided between "Anglo-Saxon" and "Continental" approaches, and the promise of a method that would analyse the fundamental processes of the human mind was initially plausible.

From the beginning, Lévi-Strauss argued two theses, logically separate but inseparably linked in his own writing. His great idea - the fruit of a close friendship with Roman Jakobson forged in wartime exile in New York - was that both myth and kinship were to be analysed by a functional relationship not to social and physical reality, but to the most elementary processes of human thought. The establishment of difference - the distinction between animals with or without cloven hooves, say - was dictated by the need to structure the world into pairs of binary oppositions. This insight built on the greatest discovery of 20th-century linguistics: rather than analyse the positive features of sound across an infinite continuum, the Russian linguist Nikolai Trubetzkoy and his successors had focused simply on the differences (between "b" and "p", for example) that produced meaning.

Lévi-Strauss claimed to have discovered the fundamental differences on which all kinship and myth were based, and produced a simple combination of differential oppositions that, he thought, underpin even the most complex and apparently dissimilar myths. Myths were privileged insights into thought, and here his second thesis came into play: "primitive" societies or, as Lévi-Strauss termed them, "societies without writing" are more authentic than societies that have succumbed to writing. Ever since Montaigne, and receiving its fullest expression in Rousseau's noble savage, there had been a current in western thought which saw in "primitive" societies a richer, less alienated relationship between men and their world than that which obtained in "civilisation".

Lévi-Strauss thus promised two things: first, a combinatory schema that would reveal the basic operations of the human mind - all kinship systems would be conceived as variations on a single theme, and all myths would operate around a set of basic differences - and second, a demonstration of the superiority of forms of thought that came before writing, before the fundamental alienation that occurred when writing intruded into an authentic idyll.

However, Lévi-Strauss's dominance of western thought evaporated after Derrida devoted a 40-page analysis to the anthropologist's foray into the world of the Nambikwara Amazonians. Derrida showed that Lévi-Strauss's position, far from breaking with a Eurocentric model, reproduced it. He demonstrated how the notion that the Nambikwara inhabited a different and better world, one before writing, reflected a long-held western prejudice that ignored the way in which any system of language had all the features of a writing system that Lévi-Strauss considered distinctively modern. The Amazonian enjoyed no more direct and unmediated a relationship with his surroundings than the western anthropologist trying to persuade little girls to break tribal taboos.

Derrida not only demolished Lévi-Strauss's sentimental valorisation of the Amazonians, but took an axe to his "scientific" project. Linguistics was based on the discovery of the phoneme, the basic element of sound difference from which all meaning in a language flowed. Yet the anthropologist's mythemes were always the result of interpretation.

Patrick Wilcken's biography barely mentions Derrida, and often seems somewhat ill at ease in dealing with Lévi-Strauss's intellectual project, but does succeed in describing the life behind the work. The picture that emerges is remarkably unengaging. Lévi-Strauss comes across as an opportunistic intellectual bureaucrat, always ready to bend the knee to power, and so uninterested in his own work except as a means of advancement that, despite building a considerable academic empire, he left behind no successors or inheritors. He was heavily dependent on close dialogue - with Jakobson, Georges Du¬mézil, Émile Benveniste and Jacques Lacan - but once his career had taken off (he was easily the most institutionally successful of all the structuralists), he seems to have communicated intellectually with no one. The idiosyncratic analyses of the four-volume Mythologiques, published between 1964 and 1971, emerged from a life that had been hermetically sealed. He made contact with the contemporary world only to denounce it: he voted against admitting women to the Académie Française in 1979.

The most interesting passages in the biography occur early in the book as Wilcken follows the young Lévi-Strauss to a government teaching job in Brazil and then on to the expedition that brought him into contact with the Nambikwara and gave rise to the most important sections in Tristes tropiques. Wilcken also writes informatively about the semi-accident that led to Lévi-Strauss writing this, his best-known work, some 20 years later when, having failed in his first attempt to be elected to the Collège de France, he contemplated an alternative career in journalism. Tristes tropiques not only made Lévi-Strauss an intellectual cele¬brity of a new type, but consolidated the "anthropological turn" that was the most significant development in the humanities in the 20th century, as every culture came to be seen as a potential bearer of meaning.

Claude Lévi-Strauss: the Poet in the Laboratory

Patrick Wilcken

Bloomsbury, 384pp, £30

Colin MacCabe is distinguished professor of English and film at the University of Pittsburgh, Pennsylvania

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Fonte: New Statesman

Quando ouvi pelo fim do dia

Quando ouvi, pelo fim do dia, como o meu nome havia sido

recebido com aplausos no Capitólio, ainda assim não foi

feliz para mim, a noite que se seguiu;

E, quando festejei, ou, quando os meus planos foram atingidos,

assim mesmo não me senti feliz;

Mas, no dia em que cedo me levantei, de perfeita saúde,

renovado, cantando, inalando o maduro fôlego outonal,

Quando vi a lua cheia, a oeste, ficando pálida e a desaparecer

na luz da manhã,

Quando vagueei sozinho sobre a praia e, despindo-me, me banhei,

rindo com as águas frias, e vi o sol nascer,

E quando pensei em como o meu querido amigo, o meu amante, estava a

caminho, Oh, então senti-me feliz;

Então, cada fôlego me foi mais doce – e todo o dia, meu alimento

me nutriu mais – e o belo dia passou bem,

E o seguinte chegou com igual alegria – e com o próximo, pelo fim da tarde,

chegou o meu amigo;

Naquela noite, quanto tudo estava calmo, ouvi as águas rolar

continuamente, lentas sobre as margens,

Ouvi o assobio sussurrado do líquido e das areias, como que dirigindo-se a

mim, cochichando, felicitando-me,

Porque aquele que amo dormia comigo sob a mesma coberta

na noite fria,

No sossego, nos outonais raios de luar, seu rosto inclinado

sobre mim,

Seu braço em redor do meu peito, suavemente – e naquela noite

fui feliz.



When I heard at the close of the day



When I heard at the close of the day how my name had been

receiv’d with plaudits in the capitol, still it was not a

happy night for me that follow’d;

And else, when I carous’d, or when my plans were accomplish’d,

still I was not happy;

But the day when I rose at dawn from the bed of perfect health,

refresh’d, singing, inhaling the ripe breath of autumn,

When I saw the full moon in the west grow pale and disappear

in the morning light,

When I wander’d alone over the beach, and undressing, bathed,

laughing with the cool waters, and saw the sun rise,

And when I thought how my dear friend, my lover, was on his

way coming, O then I was happy;

O then each breath tasted sweeter – and all that day my food

nourish’d me more – and the beautiful day pass’d well,

And the next came with equal joy – and with the next, at evening,

came my friend;

And that night, while all was still, I heard the waters roll

slowly continually up the shores,

I heard the hissing rustle of the liquid and sands, as directed to

me, whispering, to congratulate me,

For the one I love most lay sleeping by me under the same cover

in the cool night,

In the stillness, in the autumn moonbeams, his face was inclined

toward me,

And his arm lay lightly around my breast – and that night I

was happy.



Walt Whitman

Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram…

para J.G.



Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram

para o sul à sua procura, deixando um lugar vago

à mesa, um bilhete entalado na porta, as plantas,

o canário, um beijo e um livro emprestado: a memória

das suas biografias incompletas. Os amigos



desaparecem em agosto. Consomem-nos as labaredas do sol

e os amantes que chegam ao fim da tarde

jantam e de manhã ajudam a regar as raízes das avencas

que os amigos confiaram até setembro, quando regressam



trazem saudades e um romance novo debaixo da língua.

Levam um beijo, os vasos, as gaiolas e os amantes

deixam um lugar vago na memória, cabelos na almofada,

uma carta, desculpas, e um livro de cabeceira que os

amigos lêem, pacientes, ocupando o seu lugar à mesa.


Maria do Rosário Pedreira

Guernica

Adônis, revolução do verso árabe

O famoso poeta sírio, sempre candidato ao Nobel, também estará em Olinda



Charles McGrath THE NEW YORK TIMES ANN ARBOR, Michigan – O Estado de S.Paulo

Todo ano, o nome do poeta sírio Adonis aparece nos jornais e nas casas de apostas. Adonis, pseudônimo que Ali Ahmad Said Esber adotou ainda adolescente, é um eterno favorito ao Nobel de Literatura. Este ano, para a empresa de apostas britânica Ladbrokes as chances eram de oito para um de que ele ganharia o Nobel, uma aposta mais segura do que Mario Vargas Llosa, que acabou levando o prêmio.



Uma das razões dessa aposta dos especialistas é o fato de Adonis ser um poeta e ultimamente os poetas não têm tido quase representação entre os agraciados com o Nobel. E um outra é que ele escreve em árabe, língua de um único ganhador de um Nobel, Naguib Mahfouz; e uma terceira razão tem a ver com o fato de que, como ocorreu com tantos ganhadores do prêmio, muitos americanos nunca ouviram falar dele.



No mundo árabe, contudo, Adonis é famoso, mesmo não sendo apreciado em todos os lugares. Defensor do laicismo, coloca suas ideias de modo franco e direto; é também um crítico do Oriente e do Ocidente, um poeta revolucionário que se junta àqueles que tentaram libertar o verso árabe das suas formas e temas tradicionais. Alguns dos seus poemas são longos e difíceis, lembrando os Cantos de Ezra Pound na sua fase mais impenetrável.



Outros expressam a alegria de um Paul Muldoonish, a fascinação e a amplitude de um Jorie Graham. Seus poemas são tão inclinados a citar Jim Morrisson quanto os místicos Sufi, e o seu livro, lançado em 2003, Prophesy, O Blind One, inclui longos versos sobre uma viagem, que poderiam ter sido escritos por Whitman, se ele tivesse passado mais tempo em aeroportos. “Segundo os livros didáticos na Síria, eu arruinei a poesia”, disse recentemente o poeta com um sorriso de satisfação.



Adonis, que hoje está com 80 anos, mudou-se para o Líbano por razões políticas nos anos 60, mas vive em Paris desde a década de 80 (ele é cidadão francês). A Editora da Universidade de Yale lançou no mês passado um volume de poemas selecionados do poeta, com tradução de Khaled Mattawa. Adonis esteve na Universidade de Michigan, onde leu alguns dos seus poemas e proferiu conferências. Pequeno e animado, uma nuvem de cabelos grisalhos, Adonis posou para fotos ao lado de fãs femininas que provavelmente queriam guardar uma lembrança dele, caso a Academia Sueca lhe conceda o próximo prêmio. Mas, em conversas, Adonis recusou-se a falar a respeito. “Não penso nisso. E não quero falar a respeito.”



Seu desinteresse por prêmios em parte tem a ver com a sua modéstia e em parte, a julgar por uma conferencia que proferiu, de uma concepção de poesia que transcende não só a política literária, mas a política no geral. Para ele, a poesia não é apenas um gênero ou uma forma de arte, mas uma maneira de pensar, quase uma revelação mística. “Poesia não pode ser feita de modo a se adequar à religião ou uma ideologia”, disse ele. “Ela proporciona um conhecimento que é explosivo e surpreendente.”



Em seguida, lamentou o que chama de “atraso” da poesia árabe contemporânea, que, na sua opinião, tornou-se instrumento retórico para celebrar e explicar o “status quo” político e religioso. No sistema islâmico não há muito lugar para a poesia, porque o Islã pressupõe que o conhecimento do Alcorão é completo e não existe mais nada a acrescentar.



Ele observa que a situação da poesia no Ocidente não é muito melhor, marginalizada não tanto pela religião ou ideologia, mas pela cultura pop e pela mídia. Mas seu entusiasmo pelos versos continua vigoroso. A poesia árabe tradicional, explicou, normalmente é arranjada em 16 métricas básicas, os versos divididos por uma única rima final que se mantém no poema inteiro. A partir dos anos 60, Adonis procurou inovar, introduzindo versos livres sem rima e até mesmo poesia em prosa, usando métricas mistas.



“Quis utilizar a mitologia e a tradição árabes sem ter de me ater a elas”, diz ele, acrescentando: “Quis quebrar a linearidade do texto poético. O poema tem que ser mais uma trama do que um único fio de pensamento.” Para alguns críticos, a poesia de Adonis é uma obra de exílio, mas isso não o preocupa. “Todo artista está num exílio dentro da própria linguagem. O Outro é parte do meu ser interior.”



Mais recentemente, seu trabalho conta com novo elemento erótico; num dos poemas, a amada é a própria poesia, imaginada como a amante que chega à noite num vestido negro. “Felicidade e tristeza são duas gotas de orvalho caindo sobre a sua cabeça.”

Charles McGrath THE NEW YORK TIMES ANN ARBOR, Michigan – O Estado de S.Paulo

Tradução de Terezinha Martino

milicianas durante um treino na Guerra Civil Espanhola

Freud

Caos e Classicismo, (1918-1936)

A primeira metade do século 20 permanecia como a época em que as vanguardas tiveram controle e domínio sobre a produção artística europeia e mundial. Gerados a partir das vésperas da 1.ª Grande Guerra, futurismo, expressionismo, cubismo, dadaísmo e outros movimentos artísticos se afirmaram através de “manifestos” rebeldes ou anarquistas que, divulgados da Europa para as nações periféricas, se reproduziram em outros importantíssimos manifestos e movimentos artísticos de vanguarda, de que é exemplo o nosso Modernismo. Gilberto Mendonça Teles compilou os manifestos canônicos originados nas hoje chamadas vanguardas históricas e os publicou na antologia Vanguarda Europeia e Modernismo Brasileiro (Vozes, 2009).



Consumado o clima de morte e horror prevalente durante a 1.ª Grande Guerra, artistas e teóricos da arte passam a discordar do controle e do domínio exercidos pela vanguarda sobre o grosso da produção artística europeia. Jean Cocteau é um dos que mais esbravejam. Haja vista a primazia das estátuas gregas em Sangue de Um Poeta (1930), filme dedicado à memória de Paolo Uccello e Piero della Francesca. O “rappel à l”ordre” (trocadilho com o termo jurídico “a ordem do dia”), de que fala Cocteau, coloca em pauta o retorno à arte moderna das imagens harmoniosas e perfeitas do classicismo grego e renascentista. (Lembre-se que no Manifesto Futurista, de 1909, Marinetti havia assentado que o automóvel de corrida “é mais belo que a Vitória de Samotrácia”.) Paradoxalmente, o cubista Pablo Picasso é um dos mais legítimos tribunos na ordem do dia clássica e neoclássica. Considerem-se o quadro La Source (1921) e as réplicas de Ingres. Foi essa a tese desenvolvida com talento e erudição por Kenneth E. Silver em Esprit de Corps: The Art of the Parisian Avant-G arde And The First World War, 1914-1925 (Princeton, 1992), cuja edição se encontra hoje esgotada.



Em 2010, Silver energiza o fluxo da contracorrente aberta pelo livro e alvoroça os arraiais artísticos nova-iorquinos. Primeiro, amplia o campo de trabalho para a Alemanha e a Itália. Segundo, destaca o modo como a estética clássica, posterior à 1.ª Guerra, é apropriada tardiamente pelos artistas fascistas e nazistas. Nela se banham a fim de realçar o cenário pomposo e civilizado que escamoteia as atrocidades que, às vésperas da 2.ª Grande Guerra, estão sendo cometidas por Mussolini e Hitler. Como curador da exposição Chaos & Classicism (1918-1936), Silver povoa com mármore, metal e imagens cinematográficas a interminável rampa circular do Museu Guggenheim em Nova York e recobre suas paredes com tons vermelhos e pastel.



A exposição se abre com Guerra, 15 gravuras de Otto Dix, combatente e artista pacifista alemão. Através da lembrança de corpos mutilados a conviverem com cadáveres em decomposição, vermes, lama e armas letais, Dix expressa o lamento de testemunha raivosa e involuntária do conflito bélico. Perversamente, Chaos & Classicism se fecha com o Prólogo ao filme Olympia (1936), dirigido por Leni Riefenstahl. Ao final dos minutos iniciais, hoje com trilha sonora tomada a Vangelis (youtube.com/watch?v=x6-0Cz73wwQ), a montagem sobrepõe à escultura Discóbolo, do grego Míron, imagens replicantes de atletas alemães contemporâneos. À porta do forno crematório, o 3.º Reich e as ruínas espetaculares do Partenon se harmonizam no elogio da performance desportiva. Já à venda nas boas livrarias brasileiras, o catálogo editado pelo Museu reproduz os trabalhos expostos. Estes se fazem acompanhar de ensaio recente de Silver e de estudos por três colegas seus.



Os artistas que pregam o retorno ao ideal clássico se definem como detratores da vanguarda futurista e expressionista. Retorno ao Ofício (Ritorno al Mestiere), ensaio de Giorgio De Chirico de 1919, tem grande repercussão na própria Itália e na Alemanha. Nele, aconselha o principiante a ter como modelo as estátuas clássicas. Ao reproduzi-las no papel, o jovem “aprende a nobreza e a religião do desenho”. Se por acaso não tiver a oportunidade de ir a museu, aconselha o pintor doublé de ensaísta, “compre uma reprodução em gesso e, no quarto, copie-a dez, vinte, cem vezes”. A teoria se faz prática no quadro Autoritratto (1922), no qual De Chirico exerce dupla e notável maestria sobre a tela bidimensional e a perspectiva. Pintado à esquerda, o busto esculpido de De Chirico olha à direita o rosto do artista também pintado, realisticamente. Este não tira os olhos do espectador. A significativa troca de olhares leva por título Se Ipsum (O Próprio, em latim). Ensaio e quadro servem para Silver assinalar o modo como a escultura se torna forma nobre nas artes entre as duas guerras. Em pleno domínio do espírito de vanguarda, a opção pelo ideal clássico se expressa na pintura por figuras humanas escultóricas (analisem-se as telas de Fernand Léger e Balthus), e tem o final aterrador nas imagens modelares e plácidas do filme Olympia.



Se Otto Dix é testemunha involuntária do caos bélico e De Chirico, crítico demolidor do vale-tudo vanguardista, é o pintor francês Amédée Ozenfant (1886-1966) quem dá os primeiros passos em direção a uma cultura pós-bélica que, por repelir a lembrança, se afirma conscientemente a favor do esquecimento. Em companhia do futuro Le Corbusier (então Charles-Edouard Jeanneret), Ozenfant baliza a reviravolta em Depois do Cubismo (1918). Ali se lê: “A guerra termina, tudo se organiza. Agora, só a ordem e a pureza iluminam e orientam a vida.” Criava-se o movimento purista e, em 1920, fundava-se a revista L”Esprit Nouveau, que repercutiu positivamente no Brasil.



Mário de Andrade é leitor apaixonado da revista, como atestam os sucessivos cotejos analisados por Maria Helena Grembecki em Mário de Andrade e L”Esprit Nouveau (IEB/USP, 1969). No prefácio ao livro, Antonio Candido reitera o papel exercido pela revista francesa na formação das ideias estéticas de Mário. Abrem-se outros caminhos na pesquisa sobre os primórdios da vanguarda brasileira.


Silviano Santiago – O Estado de S.Paulo

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Considerar alguém como culpado, porque pertence a uma coletividade á qual ele não "escolheu " pertencer , não é característica própria só do racismo.Todo nacionalismo mais intenso, e até mesmo qualquer bairrismo, consideram sempre os outros ( certos outros ) como culpados por serem o que são, por não pertencerem a uma coletividade à qual não escolheram pertencer.(...)

Cornelius Castoriadis
Toda proclamação contra o fascismo que se abstenha de tocar as relações sociais de que ele resulta como uma necessidade natural, é desprovida de sinceridade.
Bertolt Brecht

A crônica como espelho do mundo

A crônica sempre foi definida como uma forma brasileira de aparentemente jogar conversa fora, só que – dependendo de quem a escreve – resulta em algo de boa qualidade literária. É o caso de Antonio Prata, que reuniu um punhado delas para formar o livro Meio Intelectual, Meio de Esquerda (Editora 34), que será lançado hoje à noite, no Centro Cultural Rio Verde.

Boa parte do material foi publicado pelo Estado entre 2004 e este ano – primeiro no Guia, depois no caderno Metrópole. Uma constância que poderia levá-lo a acionar o piloto automático, ou seja, fisgar um assunto palpitante no noticiário de hoje para digeri-lo até transformá-lo na crônica de amanhã. Ou, pior: usar o já velho e rasteiro recurso de escrever sobre a falta de assunto quando a inspiração lhe falta. Prata, no entanto, é como Vinicius de Morais para quem escrever prosa é uma arte ingrata: ambos acreditam na crônica como um texto limpo, simples e com graça, sem prejuízo do interesse humano ou informativo.

Basta tomar o texto que inspira o título do livro, Bar Ruim É Lindo, Bicho. Ao se definir como meio intelectual, meio de esquerda, Prata aproveita para traçar o perfil da interessante dualidade da qual muitos se orgulham por acreditarem capazes de falar com desenvoltura tanto do cinema de Tarkovski como do golaço do corintiano Bruno César.

“Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos sobre literatura”, escreve ele, cujo faro para os bons assuntos é sempre temperado por um bom humor, como conta na seguinte entrevista.

Que tipo de assunto mais o interessa ao escrever crônicas?

Assuntos do cotidiano, aparentemente pequenos e desprezíveis. A partir deles, tento chegar a temas maiores. É pela beirada que se come a sopa da crônica.

Boa parte das crônicas reunidas em Meio Intelectual, Meio de Esquerda foi publicada no Estado. Seu interesse, portanto, é o de não confrontar com o noticiário, ou seja, focar em assuntos que não eram estavam nas páginas do jornal?

A crônica é um respiro. É o lugar onde o leitor, cansado de fichas limpas e arrastões, pode encontrar outro tema. Agora, dizer que os assuntos não são “jornalísticos” não significa que não sejam pertinentes e atuais. Ninguém vai escrever uma matéria sobre como os domingos são tristes, mas esse é um tema real, sobre o qual o cronista pode falar.

Que tipo de esboços você faz antes de escrever?

Até a hora que eu mando a crônica, ela é um grande esboço. Alguém já disse que escrever é reescrever: demoro muito tempo trabalhando e retrabalhando cada texto.

Você acredita que a literatura dá conta da realidade de hoje, que é tão complexa e acelerada?

Não sei se está dando conta da realidade, mas é nos momentos em que a realidade se torna complexa que surge a melhor literatura. Veja as tragédias gregas, quando aquelas pessoas passavam de um pensamento mítico e religioso para o racional e filosófico, veja Cervantes, no início do século 17, época em que o parafuso do pensamento dava uma segunda grande volta e surgia a ciência moderna, mandando os gigantes, a bruxaria, o geocentrismo e outras fábulas pra cucuia. Comparado a esses momentos, o mundo atual até parece bem simplezinho!

A solidão é fundamental para o escritor?

Fundamental. E hoje, com redes sociais, BlackBerries e outros cacarecos da comunicação, ficar sozinho é cada vez mais difícil. Cada texto terminado é uma vitória triunfal do Word contra o Twitter, o Facebook, o Outlook…

Você tem o hábito de mostrar o que escreve a outros escritores antes de publicar?

Crônicas, muito raramente. Como escrevo cerca de duas por semana, há muitos anos, já ia ter exaurido a paciência dos meus amigos faz tempo. Agora, quando estou escrevendo um conto ou romance e preciso de alguma ajuda, mostro trechos para amigos escritores e eles me ajudam bastante.



MEIO INTELECTUAL, MEIO DE ESQUERDA

Autor: Antonio Prata (Editora 34, 176 págs., R$ 30)

 Fonte : O Estado de S.Paulo

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

E DEUS EXPULSOU ADÃO…

E Deus expulsou Adão com golpes de cana-de-açúcar

E assim fabricou o primeiro rum na terra

E Adão e Eva cambalearam

pelos vinhedos do Senhor

a Santíssima Trindade os encurralava

mesmo assim continuaram cantando

com voz infantil de tabuada

Deus e Deus quatro

Deus e Deus quatro

E a Santíssima Trindade chorava…

Por cima do triângulo isóscele e sagrado

um biângulo isopicante brilhava

e eclipsava o outro.

de “Histoires” (1963)


Jacques Prévert

domingo, 7 de novembro de 2010

The Rain, Vadim Klokov, Jivelox

Duduk - Vadim Klokov - The memories

Grito

Cedros, abetos,

pinheiros novos.

O que há no tecto

do céu deserto,

além do grito?

Tudo que e’ nosso.

São os teus olhos

desmesurados,

lagos enormes,

mas concentrados

nos meus sentidos.

Tudo o que é nosso

é excessivo.

E a minha boca,

de tão rasgada,

corre-te o corpo

de pólo a pólo,

desfaz-te o colo

de espádua a espádua,

são os teus olhos,

depois o grito.

Cedros, abetos,

pinheiros novos.

É o regresso.

É no silêncio

de outro extremo

desta cidade

a tua casa.

É no teu quarto

de novo o grito.

E mais nocturna

do que nunca

a envergadura

das nossas asas.

Punhal de vento,

rosa de espuma:

morre o desejo,

nasce a ternura.

Mas que silêncio

na tua casa.

David Mourão Ferreira

sábado, 6 de novembro de 2010

Quem morre?


Pablo Neruda

Morre lentamente

quem se transforma em escravo do hábito,

repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca

Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente

quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente

quem evita uma paixão,

quem prefere o preto no branco

e os pingos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções,

justamente as que resgatam o brilho dos olhos,

sorrisos dos bocejos,

corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente

quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,

quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,

quem não se permite pelo menos uma vez na vida,

fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente

quem não viaja,

quem não lê,

quem não ouve música,

quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente

quem destrói o seu amor-próprio,

quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente,

quem passa os dias queixando-se da sua má sorte

ou da chuva incessante.

Morre lentamente,

quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,

não pergunta sobre um assunto que desconhece

ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,

recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior

que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos

um estágio esplêndido de felicidade.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Devolva-me



Marize Castro

Devolva-me a cólera, a lanterna mágica,

que transportei comigo enquanto te amei.

Devolva-me a morte, a doença, a saúde,

o caos, o cais, as âncoras, o segredo,

teus ataques me deixaram forte

teus gozos me atingiram a alma

me fizeram odiar o amor.

Devolva-me a fantasia, as árvores sólidas

plantadas à margem de um delicado homem

que caminhava certo para a sabedoria dos pássaros.

Devolva-me o néctar, o túmulo dos milagres

a liberdade dos escândalos, os bosques, a lei da botânica,

a letargia da não-paixão,

o doce repouso nas águas da noite



do livro Lábios-espelhos, de Marize Castro. editora uno













Give me back



Marize Castro





Give me back my rage, the magic lantern,

that I carried with me while I loved you.

Give me back death, illness, health,

chaos,cays, anchors, secrets,

your attacks left me strong,

when you came it reached my soul,

it made me hate love.

Give me back fantasy, the soilid trees

planted along the edges of a polite man

who would walk straight toward the wisdom of birds.

Give me back the nectar, the tomb of miracles,

the freedom of scandals, the woods, the law of botany, the lethargy of non-passion,

the sweet repose in the waters of night.



(translates by Steven White)



Primórdios



Marize Castro

Rumor de asas.



Resíduos de países distantes em meu coração.



do livro Lábios-espelhos, de Marize Castro – editora Uno


Fino zelo







FINO ZELO – Marize Castro



Palavras quando caen sobre a gente

surpreendem, adoçam, cortam.



Pessoas quando tremem sobre a gente

cavalgam, encharcam, empoçam.



Fome quando só é fome -e nada mais-

destroça, cega, corrói.



Amor quando saliva

mesmo depois de muito, muito tempo,

é terra fértil, dança, paraíso, fino zelo.



Água descendo das estrelas.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

William Christie - Haydn, The Creation

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos,

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,

não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

a vida presente

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 2 de novembro de 2010

No fim, sua vida era um livro aberto de páginas em branco,rezou sempre na mesma cartilha.
Flávio Falcão

sábado, 30 de outubro de 2010

Magie Noire

despedida do povo argentino ao seu líder Nestor Kirchener.Buenos Aires .novembro de 2010

AS SEM-RAZÕES DO AMOR

Eu te amo porque te amo,

Não precisas ser amante,

e nem sempre sabes sê-lo.

Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça

e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,

é semeado no vento,

na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários

e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo

bastante ou demais a mim.

Porque amor não se troca,

não se conjuga nem se ama.

Porque amor é amor a nada,

feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,

e da morte vencedor,

por mais que o matem (e matam)

a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

O HOMEM E A MORTE

O homem já estava deitado

Dentro da noite sem cor.

Ia adormecendo, e nisto

À porta um golpe soou.

Não era pancada forte.

Contudo, ele se assustou,

Pois nela uma qualquer coisa

De pressago adivinhou.

Levantou-se e junto à porta

- Quem bate? Ele perguntou.

- Sou eu, alguém lhe responde.

- Eu quem? Torna. – A Morte sou.

Um vulto que bem sabia

Pela mente lhe passou:

Esqueleto armado de foice

Que a mãe lhe um dia levou.

Guardou-se de abrir a porta,

Antes ao leito voltou,

E nele os membros gelados

Cobriu, hirto de pavor.

Mas a porta, manso, manso,

Se foi abrindo e deixou

Ver – uma mulher ou anjo?

Figura toda banhada

De suave luz interior.

A luz de quem nesta vida

Tudo viu, tudo perdoou.

Olhar inefável como

De quem ao peito o criou.

Sorriso igual ao da amada

Que amara com mais amor.

- Tu és a Morte? Pergunta.

E o Anjo torna: – A Morte sou!

Venho trazer-te descanso

Do viver que te humilhou.

-Imaginava-te feia,

Pensava em ti com terror…

És mesmo a Morte? Ele insiste.

- Sim, torna o Anjo, a Morte sou,

Mestra que jamais engana,

A tua amiga melhor.

E o Anjo foi-se aproximando,

A fronte do homem tocou,

Com infinita doçura

As magras mãos lhe cerrou…

Era o carinho inefável

De quem ao peito o criou.

Era a doçura da amada

Que amara com mais amor.

Manuel Bandeira

Repouso

Adalgisa Nery

Dá-me tua mão

E eu te levarei aos campos musicados pela

canção das colheitas

Cheguemos antes que os pássaros nos disputem

os frutos,

Antes que os insetos se alimentem das folhas

entreabertas.

Dá-me tua mão

E eu te levarei a gozar a alegria do solo

agradecido,

Te darei por leito a terra amiga

E repousarei tua cabeça envelhecida

Na relva silenciosa dos campos.

Nada te perguntarei,

Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes

E as palavras do meu olhar sobre tua face muito

amada.

Adalgisa Nery



De As Fronteiras da Quarta Dimensão (1951)

Passamento de Néstor Kirchener -Plaza de Mayo.Novembro de 2010

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Poema amoroso

Este é um poema de amor

tão meigo, tão terno, tão teu…

É uma oferenda aos teus momentos

de luta e de brisa e de céu…

E eu,

quero te servir a poesia

numa concha azul do mar

ou numa cesta de flores do campo.

Talvez tu possas entender o meu amor.

Mas se isso não acontecer,

não importa.

Já está declarado e estampado

nas linhas e entrelinhas

deste pequeno poema,

o verso;

te deixará pasmo, surpreso, perplexo…

eu te amo, perdoa-me, eu te amo…

Cora Coralina

Giuseppe Di Stefano E lucean le stelle

sábado, 23 de outubro de 2010

As várias faces da (web) poesia


O uso da internet pelos novos poetas entra na reflexão sobre o gênero

Raquel Cozer – O Estado de S. Paulo

Questão inimaginável para gerações anteriores da poesia, o arquivamento da produção espalhada por sites, blogs e redes sociais hoje merece reflexão. Afinal, na década em que os diários virtuais se popularizaram no Brasil, boa parte dos versos disponibilizados online nunca chegou ao papel – um dos motivos pelos quais é tão pouco estudada a poesia feita na última década. “Torna-se difícil mapear a produção ciberpoética se não tivermos uma estratégia de preservação para arquivar o material que existe na internet”, diz o cearense Aquiles Alencar Brayner, curador do acervo latino-americano da British Library, no Reino Unido. Prestes a concluir mestrado sobre arquivos digitais, Brayner dará palestra a respeito na terceira edição do Simpoesia, encontro internacional que acontece do próximo dia 5 ao 7 na Casa das Rosas, em São Paulo.



Divulgação – Poema de Marcelo Sahea

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O evento é apenas um dos sinais da atenção para este cenário num momento em que os e-readers começam a chegar a País, trazendo possibilidades de experimentação – assim como a literatura infantil, a poesia é um dos gêneros que mais têm a se beneficiar com as novas tecnologias. Nos dias 13 e 14, o festival literário Artimanhas Poéticas, no Rio – que incluirá apresentações de videopoesia e performances – levantará o debate A Poesia Escrita em Outras Esferas, com a estudiosa Heloísa Buarque de Holanda, organizadora da Enter Antologia Digital, e os poetas Gabriela Marcondes e André Vallias.

O encontro com a tecnologia é um fenômeno muito anterior à internet, embora tenha encontrado nela seu meio mais propício. O recém-lançado Poesia Digital – Teoria, História, Antologias (Fapesp/Navegar, R$ 30, 80 págs. + DVD), fruto de mapeamento realizado por Jorge Luiz Antonio, pós-doutorando no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, volta mais de 50 anos no tempo para encontrar as origens da poesia eletrônica. A primeira experiência do gênero, segundo o autor, foi publicada em 1959 pelo alemão Theo Lutz. Chamada Stochastische Texte, pegava as cem primeiras palavras de O Castelo, de Kafka, e criava novos textos a partir delas, usando um programa de computador que produzia frases na estrutura do idioma alemão. “Estava ali a origem dessa produção que tem forte relação com a arte, com o design e com a tecnologia, e que é um desdobramento das poesias de vanguarda, visual, concreta, experimental”, diz Antonio.

A poesia que se encontra na internet hoje divide-se em pelo menos dois grandes grupos, embora eles não raro se confundam. “De um lado estão os herdeiros do concretismo, que ampliaram propostas idealizadas pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e por Décio Pignatari”, diz Antônio Vicente Pietroforte, professor de letras, semiótica e linguística da USP (Augusto de Campos, por sinal, teve o primeiro contato com um Macintosh em 1984). “Outra vertente, que usa a rede mais como ambiente de difusão, tende a uma abordagem mais coloquial, influenciada pela música pop, pelos beats, pelos poetas marginais e pela literatura periférica.”

É nesse segundo grupo que está a maior parte da atual produção de poesia online no País – que, mesmo sendo tão ampla, permite o reconhecimento de alguns poetas, em especial ligados aos eventos literários. Caso da curadora do Simpoesia, Virna Teixeira, que estreou em 2004 o blog Papel de Rascunho (papelderascunho.net). Embora já tivesse sido publicada, foi depois da investida virtual que ficou mais conhecida pelo empenho em difundir a poesia e a tradução – ela comanda hoje um selo artesanal, o Arqueria Editorial. No blog, que recebe média de 200 visitas por dia, publica poemas próprios, mas também trabalhos de outros autores, imagens, frases e áudios, “como se fossem recortes”. “Hoje é mais fácil ter um livro editado, mas as casas tradicionais ainda resistem a lançar poesia. Quem faz isso são as pequenas, que têm distribuição limitada. A internet revelou um número de leitores muito maior do que se podia supor.”

A paulistana Adriana Zapparoli estreou o blog zênite (zeniteblog.zip.net), em 2004, três anos antes de publicar o primeiro livro, A Flor-da-Abissínia (Lumme). “Coloco lá textos referenciais de intenções líricas. Muitas das minhas publicações em revistas literárias impressas ou online são sugestões vindas da leitura do conteúdo do blog”, diz. O uso da tecnologia como linguagem, afirma, não lhe interessa. “Já me aventurei em recursos do gênero, mas prefiro a sensação perene da impressão, a coisa do papel. Gosto da textura, das cores, quase que um quadro”, diz. Vantagem maior da internet, para ela, é conhecer de perto o trabalho de poetas de outros países, algo hoje muito mais fácil do que foi para gerações passadas – a paulistana Ana Rusche, por exemplo, que organiza em São Paulo o evento literário Flap! e edita o blog Contrabandistas de Peluche (www.anarusche.com), chegou a ter livro publicado no México por conta de contatos feitos online. Experiência similar, mas dentro mesmo do País, viveu o poeta e tradutor Cláudio Daniel, editor da revista Zunái (www.revistazunai.com), uma das principais referências de poesia na internet. “Tenho 48 anos, mas só fui conhecer poetas da minha geração, como Frederico Barbosa e Arnaldo Antunes, pela rede. Foi só então que nossa geração passou a conversar e organizar revistas.”

Recursos. Jorge Luiz Antonio lembra que mesmo a poesia focada no verbal sofre interferência dos meios tecnológicos. “Até a temática acaba influenciada pelas tecnologias, numa espécie de metalinguagem”, argumenta. Mas é entre os herdeiros dos concretistas que isso se destaca mais – em seu primeiro livro, Movimento Perpétuo, de 2002, o carioca Márcio André (www.marcioandre.com) chegou a usar códigos de HTML, com suas barras e tags, em meio aos versos, como conteúdo do texto.

André Vallias, editor da Errática (www.erratica.com), foi um dos pioneiros no Brasil no uso de computador em poesia – no início dos anos 90, quando os PCs ainda eram peça rara no Brasil, o jovem formado em direito teve contato, na Alemanha, com tecnologias que não existiam por aqui. “Nunca quis fazer poesia simplesmente escrita”, diz. Naquele momento, a divulgação era feita apenas por CD-ROM, limitação superada com a internet.

O interesse em explorar as possibilidades da web – em 1995, já produzia trabalhos em flash, com animação e áudio – o levou também a questionar o formato de revistas literárias online. “Muita gente fazia revista de poesia na internet, mas com o mesmo padrão da revista impressa. Ou seja, acumula uma série de trabalhos e faz por edição, a cada dois meses. Achava que essa limitação era inadequada”, conta. Fez da Errática uma espécie de blog com visual de site, tomando como base a revista Artéria – criada em 1975, com diferentes formatos a cada edição, chegou até a sair no formato de uma sacola, com os poemas de diferentes proporções dentro. “Aquela década foi muito fértil, com publicações impressas que superavam dificuldades. A Errática aplicou esse mesmo princípio na internet, sem obrigar cada trabalho a ter o mesmo padrão”, conta. Na última quarta-feira, entrou no ar a 101ª colaboração, um videopoema da carioca Gabriela Marcondes feito a partir de fragmentos de poesias de nomes como Cruz e Sousa, Florbela Espanca e Machado de Assis.

Performance. Assim como Vallias, o carioca Marcelo Sahea (www.sahea.net) dedica boa parte de seu trabalho à performance – uma espécie de caminho natural para o poeta que antecipa tendências e engloba gêneros. Autor de um e-book lançado em 2001, quando nem se falava no assunto, e que teve à época 15 mil downloads (no formato tradicional de PDF), hoje ele prefere apresentar sua poesia sonora ao vivo. Na avaliação de Vallias, essa tendência deriva das possibilidades virtuais – ler um poema ao mesmo tempo em que se ouve a voz do poeta, por exemplo. “A rede liberou a poesia da literatura. Há uma falsa impressão de que a poesia pertence à literatura, mas, na maior parte das culturas, a poesia oral é a fonte de perpetuação de mitos”, diz.

Uma entre os poucos estudiosos da poesia digital no Brasil, Heloisa Buarque de Holanda avalia que a crítica faz “pouco caso” das novas linguagens. “Como se vê mais quantidade que qualidade, imagina-se que não tem profundidade”, diz. Em 1998, o poeta e antropólogo Antônio Risério fez um estudo pioneiro desse trabalho, o Ensaio Sobre o Texto Poético em Tempo Digital. Doze anos depois, ele admite ter conhecido muito pouco “realmente digno de interesse”. “A maioria se senta diante do computador como se estivesse diante do papel e da velha máquina de escrever. Não se entrega ao novo meio. Os que fazem isso, como Arnaldo Antunes e André Vallias, vêm de antes da existência de blogs e revistas eletrônicas”, diz.

Intercâmbio e tradução para entender a poesia

Em sua terceira edição, o Simpoesia – que acontece de 5 a 7/11 na Casa das Rosas – terá como destaques a tradução, o intercâmbio entre poetas estrangeiros e de vários Estados do Brasil, a discussão sobre a poesia na universidade e a produção digital. O escritor Wilson Bueno, morto em maio deste ano, será homenageado com a presença da premiada poeta e tradutora canadense Erin Moure – o maior nome do evento -, responsável por verter para o inglês textos em portunhol (misto de português, espanhol e guarani) do paranaense. Outros convidados estrangeiros são Bruce Andrews, fundador e coeditor do jornal de vanguarda L=A=N=G=U=A=G=E, e o holandês Arjen Duinker – que, assim como Erin, tem ligação com a língua portuguesa. “Quisemos manter a proposta de encontro internacional, que já havíamos testado no ano passado, mas o foco varia de ano a ano, Neste, quis chamar mais mulheres. Haverá, por exemplo, um recital com cinco tradutoras, o que também aproxima a universidade”, diz Virna Teixeira, curadora do Simpoesia. De outros Estados, participarão nomes como o paraense Nilson Oliveira, da revista Polichinello, e a editora, jornalista e poeta Marize Castro, do Rio Grande do Norte.
Meramente ser


OF MERE BEING

The palm at the end of the mind,

Beyond the last thought, rises

In the bronze decor*.

A golf-feathered bird

Sings in the palm, without human meaning,

Without human feeling, a foreign song.

You know then that it is not the reason

That makes us happy or unhappy.

The bird sings. Its feathers shine.

The palm stands on the edge of space.

The wind moves slowly in the branches.

The bird’s fire-fangled feathers dangle down.

* Existem versões para este verso em que a última palavra é distance



MERAMENTE SER

A palmeira no final da mente,

Além do pensamento último, se eleva

Na brônzea distância,

Um pássaro de penas de ouro

Canta na palmeira, sem sentido humano,

Nem sentimento humano, um canto estrangeiro.

Então compreende-se que não é a razão

Que traz tristeza ou alegria.

O pássaro canta. As penas brilham.

A palmeira paira no limiar do espaço.

O vento roça devagar seus galhos.

As penas de fogo do pássaro pendem frouxas.

Fonte :  Estado de São Paulo

“Of Mere Being”, poema de Wallace Stevens, incluído no livro Till I End My Song — A Gathering of Last Poems, organizado por Harold Bloom (Harper Collins, importado; 379 páginas, R$ 56,73); a tradução utilizada é a de Paulo Henriques Britto e faz parte da antologia Poema , de Wallace Stevens (Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 44)

Quando eu tiver setenta anos

quando eu tiver setenta anos

então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca

e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer

começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja

aproveitar as oportunidades

de virar um pilar da sociedade

e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência

quando acabar esta adolescência

Paulo Leminski
Serenata

by Ludwig Rellstab (1799-1860)


Leise flehen meine Lieder

Durch die Nacht zu dir;

In den stillen Hain hernieder,

Liebchen, komm zu mir!

Flüsternd schlanke Wipfel rauschen

In des Mondes Licht;

Des Verräters feindlich Lauschen

Fürchte, Holde, nicht.

Hörst die Nachtigallen schlagen?

Ach! sie flehen dich,

Mit der Töne süßen Klagen

Flehen sie für mich.

Sie verstehn des Busens Sehnen,

Kennen Liebesschmerz,

Rühren mit den Silbertönen

Jedes weiche Herz.

Laß auch dir die Brust bewegen,

Liebchen, höre mich!

Bebend harr’ ich dir entgegen!

Komm, beglücke mich!

Serenade

My songs beckon softly

through the night to you;

below in the quiet grove,

Come to me, beloved!

The rustle of slender leaf tips whispers

in the moonlight;

Do not fear the evil spying

of the betrayer, my dear.

Do you hear the nightingales call?

Ah, they beckon to you,

With the sweet sound of their singing

they beckon to you for me.

They understand the heart’s longing,

know the pain of love,

They calm each tender heart

with their silver tones.

Let them also stir within your breast,

beloved, hear me!

Trembling I wait for you,

Come, please me!

Translation from German by Michael P. Rosewall

Objeto de amor

De tal ordem é e tão precioso

o que devo dizer-lhes

que não posso guardá-lo

sem que me oprima a sensação de um roubo:

cu é lindo!

Fazei o que puderdes com esta dádiva.

Quanto a mim dou graças

pelo que agora sei

e, mais que perdôo, eu amo.

Adélia Prado

A Serenata

Uma noite de lua pálida e gerânios

ele viria com boca e mão incríveis

tocar flauta no jardim.

Estou no começo do meu desespero

e só vejo dois caminhos:

ou viro doida ou santa.

Eu que rejeito e exprobo

o que não for natural como sangue e veias

descubro que estou chorando todo dia,

os cabelos entristecidos,

a pele assaltada de indecisão.

Quando ele vier, porque é certo que ele vem,

de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?

A lua, os gerânios e ele serão os mesmos

- só a mulher entre as coisas envelhece.

De que modo vou abrir a janela, se não for doida?

Como a fecharei, se não for santa?

Adélia Prado

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A rua

Bem sei que, muitas vezes,

O único remédio

É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,

A dívida, o divertimento,

O pedido de emprego, ou a própria alegria.

A esperança é também uma forma

De contínuo adiamento.

Sei que é preciso prestigiar a esperança,

Numa sala de espera.

Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,

Esperança sentada.

Não abdicação diante da vida.



A esperança

Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.

Nunca é figura de mulher

Do quadro antigo.

Sentada, dando milho aos pombos.

Cassiano Ricardo

Erótica é a alma

Pernas entrelaçadas

as minhas, as tuas

sem saber de quem são.

as mãos!



língua aventureira

desvenda meus sonhos

molha minha pele

Tesão!



jogado na cama

passeio em teu corpo

como tua carne

em ritual

Oração!



Eros nos move

Baco nos guia

ao prazer sem pressa

até que eu morra em teus braços

renasça em tua boca.

Para que morras em meu corpo

e renasças

dentro de mim.



Adélia Prado,

em Poesia reunida. São Paulo. Editora Siciliano

domingo, 17 de outubro de 2010

Pudesse eu

Pudesse eu não ter laços nem limites

Ó vida de mil faces transbordantes

Para poder responder aos teus convites

Suspensos na surpresa dos instantes!

Sophia de Mello Breyner