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terça-feira, 26 de setembro de 2017

O sangue das horas



Queixei-me de não ter pão
e a noite me disse não.
Mostrei-lhe a varanda nua
e a noite me trouxe a lua...
Você tem sede, não é ?
E a Noite me deu café.

São verdes como a esperança
as horas em que sou triste:
bem que existe não se alcança,
só cansa;
procuro o que não existe.

Se a dúvida me procura,
pondo a cerração do tédio
em minha existência obscura,
bebo esperança, remédio
para as feridas sem cura...

Que dúbio alvor de camélia
anda lá fora a flutuar ?
É noite que, de tão velha,
tão velha,
criou cabelos de luar...

A insônia do meu relógio
durante a noite passada
crivou-me o corpo, já enfermo,
de punhaladas sonoras...
Meus olhos são duas feridas
por onde escorre o sangue das horas.

Entre o passado e o porvir
aqueles peixes prata
não me deixaram dormir.
Tomei café sem parar.
Bebi treva em goles mudos...
Criei cabelo de luar.

in Poesia Brasileira do Século XX, Dos Modernistas à Actualidade, Dircção, Introdução e Notas de Jorge Henrique Bastos, Edições Antígona


Cassiano Ricardo Leite (n. em São José dos Campos (SP) a 26 de Jul de 1895; m. em 14 de Jan 1974 no Rio de Janeiro)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A rua

Bem sei que, muitas vezes,

O único remédio

É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,

A dívida, o divertimento,

O pedido de emprego, ou a própria alegria.

A esperança é também uma forma

De contínuo adiamento.

Sei que é preciso prestigiar a esperança,

Numa sala de espera.

Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,

Esperança sentada.

Não abdicação diante da vida.



A esperança

Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.

Nunca é figura de mulher

Do quadro antigo.

Sentada, dando milho aos pombos.

Cassiano Ricardo

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Amor imperfeito

A perfeição

é um momento,

por demais claro.

Como repeti-la,

sem enfaro?



A perfeição,

se possuída

a todo instante

se faz rainha

suicida.



Quem já mediu

o perfeito,

rosa de prata,

mas em sua

medida exata?



Nada existe

sem o defeito

que lhe dá graça.

Só amo a graça

do imperfeito.



O perfeito

quando existe

tem o defeito

de ser triste.

(Lácrima Cristi)


Cassiano Ricardo