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quinta-feira, 30 de março de 2017

"Patriotismo no Brasil é ignorância, primeiro linguisticamente. Com nosso monolinguismo, quem não tem condições de ler outras línguas pensa que o que acontece em seu país é tudo, é o máximo. Uma merda! Eu leio inglês, francês, latim, grego, russo e então posso confrontar. Não preciso ficar com Ferreira Gullar. Eu leio Maiakóvski em russo, que viveu oitenta anos antes dele. Não preciso ler Rosa, leio Joyce no original. Desconhecer o que está lá fora é a base desse nosso patriotismo, sinônimo de ignorância. Compare um conto de Dalton Trevisan com um conto de Borges. Nem dá. Você vai comparar o quê? 'A guerra conjugal' com 'O Aleph', com 'O Imortal'? Do ponto de vista de criação verbal, de criação do novo imaginário, não tem nada. Nós somos pobres, somos miseráveis em tudo. Nós só temos pra frente, pra trás não temos nada."
Paulo Leminski

Entrevista publicada no jornal Nicolau, n. 19, janeiro de 1989. (5 meses antes da morte do poeta)

terça-feira, 30 de abril de 2013

OS PERIGOS DA LITERATURA



Paulo Leminski

Literatura, isto é, escrever sem publicar, é uma espécie de vício secreto. Pequena perversão. Que nem colocar calcinhas de mulher. Seus praticantes estão sujeitos a muito mais. Olhai uns pares deles.

COMPLEXO DE CASTRO ALVES - Leva os poetas a delirar se imaginando numa tribuna em praça pública, cercado por um mar de povo, recebendo o brado do seu bardo, o verbo quente e a exortação para a ação. Os poetas afetados deste mal substituem a ação pela palavra.

COMPLEXO DE MACHADO DE ASSIS - Manifesta-se em um desejo irreprimível de entrar para o Serviço Público. Levar vida reservada e tímida. Ter atitudes ambíguas sobre os problemas da comunidade. Esperar a glória, pacientemente. Alguns casos mais graves levam os pacientes a fundar academias.

COMPLEXO DE JORGE AMADO - Leva os pacientes a escrever livros e mais livros, sofregamente, uns cada vez mais parecidos com os outros. Frequentemente, vence pelo cansaço e acorda consagrado internacionalmente. Pertence ao quadro deste complexo o sonhar com o Nobel. Alguns têm frenesis em que se imaginam traduzidos para 18 idiomas.

MAL DE ROSA - Só faz vítimas entre membros do Corpo Diplomático.
O paciente imagina que é um jagunço do sertão. Conta casos estranhos, numa linguagem meio antiga e meio sertaneja. E diz em entrevistas na Europa: - Nós, no sertão…

SÍNDROME DE BORGES - O escritor-paciente imagina-se dentro de um livro, atacado por citações, vidas de outros séculos. Para o paciente afetado desta moléstia, o céu não tem estrelas. Tem asteriscos.
Ocorre de o paciente, andando em círculos, tropeçar numa vírgula, engolir o parágrafo e bater com a cabeça num travessão.
Devem ser constantemente vigiados.
Se não melhorarem, o jeito é encaderná-los e doá-los a uma Biblioteca Pública.

MAL DE DRUMMOND - Apenas uma variante do Complexo de Machado de Assis.
O doente pode apresentar dores abdominais.
Bem na altura de Minas Gerais no mapa do Brasil.
A seguir, os delírios.
O paciente grita:
-Tirem essa pedra do meio do meu caminho!

ATAQUE A JOÃO ANTONIO- Os acometidos desse mal crêem-se jogadores de sinuca, malandros da noite e velhos boêmios. Alguns tentam se parecer com Adoniram Barbosa. Quando além disser “literatura é um corpo-a-corpo com a vida”, esteja certo: ali está alguém sofrendo do Mal de João Antonio. Vivem normalmente de uma dieta de Górki e Lima Barreto. O melhor modo de curá-los é convidá-los para uma partida de sinuca.

PARALISIA CABRALINA - Súbito enrijecimento do nervo poético, causado por leituras intensivas de João Cabral de Melo Neto. O cabra da peste acometido desse mal começa a ver tudo em quadradinhos e a só reconhecer rimas toantes. Nos casos mais graves, desenvolve pedras nos rins, na bexiga e na veia. Apresenta tendências para litogravura, a marmoraria, ou coleciona cristais. Tem coração de pedra, e só se comove com agrestes, caatingas e canaviais pernambucanos. Normalmente, leva uma vida e morte severina.

LEMINSKI, Paulo. "Ensaios e Anseios Crípticos". Curitiba, Pólo Editorial do Paraná, 1997. p. 24-25.

sábado, 23 de outubro de 2010

Quando eu tiver setenta anos

quando eu tiver setenta anos

então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca

e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer

começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja

aproveitar as oportunidades

de virar um pilar da sociedade

e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência

quando acabar esta adolescência

Paulo Leminski