quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Eles sabem o que fazem




Um dos mantras preferidos daqueles que chegam aos 40 anos é: os jovens de hoje não têm grandes ideais, eles não sabem o que fazem.
Há algo cômico em comentários dessa natureza, pois os que tinham 18 anos no início dos anos 90 sabem muito bem como nossas maiores preocupações eram: encontrar uma boa rave em Maresias (SP), aprender a comer sushi e empregar-se em uma agência de publicidade. Ou seja, esses que falam dos jovens atuais foram, na maioria das vezes, jovens que não tiveram muito o que colocar na balança.
Por isso, devemos olhar com admiração o que jovens de todo o mundo fizeram em 2011.
Em Túnis, Cairo, Tel Aviv, Santiago, Madri, Roma, Atenas, Londres e, agora, Nova York, eles foram às ruas levantar pautas extremamente precisas e conscientes: o esgotamento da democracia parlamentar e a necessidade de criar uma democracia real, a deterioração dos serviços públicos e a exigência de um Estado com forte poder de luta contra a fratura social, a submissão do sistema financeiro a um profundo controle capaz de nos tirar desse nosso "capitalismo de espoliação".
Mas, mesmo assim, boa parte da imprensa mundial gosta de transformá-los em caricaturas, em sonhadores vazios sem a dimensão concreta dos problemas. Como se esses arautos da ordem tivessem alguma ideia realmente sensata de como sair da crise atual.
Na verdade, eles nem sequer têm ideia de quais são os verdadeiros problemas, já que preferem, por exemplo, nos levar a crer que a crise grega não seria o resultado da desregulamentação do sistema financeiro e de seus ataques especulativos, mas da corrupção e da "gastança" pública.
Nesse sentido, nada mais inteligente do que uma das pautas-chave do movimento "Ocupe Wall Street". Ao serem questionado sobre o que querem, muito jovens respondem: "Queremos discutir".
Pois trata-se de dizer que, após décadas da repetição compulsiva de esquemas liberais de análise socioeconômica, não sabemos mais pensar e usar a radicalidade do pensamento para questionar pressupostos, reconstruir problemas, recolocar hipóteses na mesa. O que esses jovens entenderam é: para encontrar uma verdadeira saída, devemos primeiro destruir as pseudocertezas que limitam a produtividade do pensamento. Quem não pensa contra si nunca ultrapassará os problemas nos quais se enredou.
Isso é o que alguns realmente temem: que os jovens aprendam a força da crítica. Quando perguntam "Afinal, o que vocês querem?", é só para dizer, após ouvir a resposta: "Mas vocês estão loucos".
Porém toda grande ideia apareceu, aos que temem o futuro, como loucura. Por isso, deixemos os jovens pensarem. Eles sabem o que fazem.


VLADIMIR SAFATLE - 25 Oct 2011 

"Tendo encarado a besta do passado olho no olho, tendo pedido e recebido perdão e tendo feito correções, viremos agora a página - não para esquecê-lo, mas para não deixá-lo aprisionar-nos para sempre."
Desmond Tutu

Sacoleiros do divórcio





Eram separados recentes. Mariana e Renato já tinham atravessado o apocalipse do primeiro mês, momento crítico em que se torce deslavadamente para a tragédia do ex. (Torcer é um eufemismo, rezava-se para que o divórcio logo se transformasse em viuvez. Quem passou pela fossa sabe do que estou falando: o desejo 24 horas por dia para que o outro morra, desapareça da face da Terra, evapore da humanidade.

E que seja uma morte retumbante, com ampla repercussão nas redes sociais, esmagado pelo Arco da Redenção, ou atropelado por uma bicicleta na ciclovia do Gasômetro).

Os dois curtiam a segunda fase da separação: a curiosidade do ódio, aquele período fundamental em que se paga por informações para descobrir como o nosso antigo par está reagindo ao luto. Mariana e Renato queriam porque queriam notícias, adoeciam de ansiedade para desvendar se o ex engatou um novo relacionamento e esqueceu o passado, mas não poderiam se telefonar.

Soaria suspeito ligar para os amigos perguntando, ficaria muito na cara o interesse, representaria uma recaída. (Ansiedade não é o nome certo, talvez seja medo de que o ex seja feliz primeiro. Existe uma competição oculta entre os separados: quem sai mais nas baladas, quem emagrece mais, quem tem mais amigos no Facebook, mais seguidores no Twitter).

Ambos psicanalistas, lacanianos assumidos, Mariana e Renato não se sentiam à vontade usando a filha Marisa, de três anos, como garota de recados. Viviam criticando essa atitude, quando a criança é intermediária da crise, uma espécie de mula do tráfico amoroso, levando ofensas e indiretas entre os lares.

Mas Mariana e Renato encontraram um modo inteligente de se comunicar: as sacolas das lojas. A filhota chegou para dormir na casa do pai com os pertences numa sacolinha de caríssima loja feminina de sapatos, onde cada par não custava menos de R$ 500.

Aquilo irritou o homem: “Eu sofrendo para pagar a pensão e ela gastando os olhos da cara”. Para quê? Não deu outra: a filha voltou para a mãe com sacolinha de grife masculina. Mariana reparou na marca Armani e se enfureceu: “Comigo, ele vivia de abrigo molambento, velho, agora torra tudo o que não tem com terno, deve estar apaixonado por alguma piranha”.

A reação veio no final de semana seguinte. Providenciou que a filha visitasse o pai com uma sacola de free shop. Renato bufou: “Agora a cretina viaja ao Exterior! Ao meu lado, só íamos almoçar na sogra em Cachoeirinha”. Preparou a vingança mais do que perfeita, apareceu numa rede de lingerie para pedir uma sacola emprestada na maior cara de pau, comportou as coisinhas da filha lá dentro e teve sucesso.

Sua desafeta predileta babou, esperneou e ralhou que não aguentava a provocação: “Ele nunca comprou um sutiã para mim, sequer conhece o número do meu peito, agora o pilantra distribui peças íntimas para suas namoradas”. Após sete dias, apelou de vez e pôs as roupinhas da menina numa bolsa plástica prateada e fosca, própria de sex shop.

Foi um golpe baixo. Renato perdeu a educação dos símbolos, pegou o telefone e rompeu o silêncio:

– Da próxima vez, pode mandar os objetos da nossa filha numa sacola que não seja de sacanagem?

– Por quê? Está com ciúme? – pergunta Mariana.

– Não, imagina, deixa pra lá...

E começava a terceira e última fase da separação: a hipocrisia, fingir que nada mais é importante.


FABRÍCIO CARPINEJAR -25 Oct 2011

Metáforas, Brasil e futebol






O título parece complicado, mas não é. Metáforas são figuras de linguagem que substituem uma coisa por outra. São indispensáveis na expressão da vida. Por exemplo: o coração, que é um órgão do corpo humano passível de cirurgia, palpitação e substituição, é uma metáfora do amor - essa "coisa" também cheia de truques que escapa dos procedimentos objetivos e tem regras que, como dizia o grande Pascal (e o cada vez mais atual Freud), ele não suspeita. Há, li outro dia no "The New York Times", um debate se as carruagens devem ser mantidas ou não em Manhattan. Como toda metáfora, elas são um contrassenso. Pois quem colocaria a "mão no fogo pelo governo" que recebeu, mas não se livra, dessa onda de pobreza intelectual, de ausência de percepção institucional e sociológica que abunda hoje no Brasil? E quem seria capaz de defender carruagens neste mundo contemporâneo onde existe um índice (e logo um marco regulatório) para a felicidade e para a atividade sexual?

Carruagens num mundo de trens, aviões e automóveis são algo tão anacrônico, tanto quanto as "liturgias", como diz Sarney, que, no Brasil, gastamos para manter certos cargos e estruturas governamentais configuradas pela nossa vocação aristocrática. Mas - como toda metáfora - as carruagens não são meios para fins, são - como os salários e as sinecuras dos nossos governantes - fins para meios. Elas ritualizam, tal como fazem os exageros e as anedotas, o modo de viajar não dando a mínima para o elo direto ou racional entre meios e fins. Por isso você pega um carro quando está com pressa e entra numa carruagem em Manhattan quando quer criar um clima romântico e viver um gozo que lhe confirma o sofrimento no qual você estava engolfado.

Vamos de bonde?

Não, vamos a pé...

Eu, esse vosso cronista confuso, misto de acadêmico marginal e escritor bastardo, produzi exatamente essa resposta em algum dia de 1951, em Juiz de Fora, quando fui buscar a Zelinha no ensaio do teatro do colégio em que ela estudava. Era um dia chuvoso e nós andamos da Rua Halfeld até o Alto dos Passos debaixo de um mesmo guarda-chuva, o que me permitia ficar fisicamente próximo do ser idolatrado.

Preferi o caminhar (que é velho e lento) ao bonde (que, naqueles tempos antigos, era veloz e confortável). Mas, em compensação o "passeio" sinônimo do andar sem rumo - metáfora do andar lado a lado -, essa raridade, esse caminhar junto (metafórico do peregrinar, do pertencer e do estar com o outro), subvertia os meios e os fins como a melhor prova de que estava apaixonado, tal como eu hoje enxergo que são essas substituições que nos tornam humanos. Só nós podemos realizá-las. Nem os anjos (que são perfeitos, mas não se reproduzem) nem animais (que são imperfeitos e se reproduzem além da conta) sabem o que é esse pertencer sofrido que vem de dentro para fora - como exprime o coração humano que está dentro e, ao mesmo tempo fora de nós.

Entendem-se, então, as carruagens e as liturgias de Sarney. Elas não estão ali para transportar ou ajudar a servir melhor o povo e a sociedade, mas para criar um clima romântico e para garantir uma opulência que beira ao desperdício - esse mal do Brasil. Num caso, a lentidão que faz da disciplina amorosa e romântica; no outro, a transformação do republicano num reino de Jambon onde poucos comem muito sem fazer nada e muitos comem pouco fazendo tudo.

Eu estou convencido que o futebol, inventado à revelia pelos brilhantes e reprimidos ingleses do período vitoriano, é uma das mais recorrentes metáforas da vida (e dos seus dilemas) tal como ela é idealizada entre nós. Nele, queremos o futebol "arte", o estilo dionisíaco de Gilberto Freyre e malandro - cheio de jogo de cintura, como mostrei faz tempo, mas exigimos "resultados" e "objetividade": no caso, muitos gols. Eis o dilema: como conciliar o belo com o técnico. Como ajudar o povo sem impedir que uma centralização neostalinista voltada para permanecer no poder produza fraudes, corrupção e impunidade? Como misturar um estilo de jogo personalístico, baseado na superexcelência de alguns craques que reinventam uma aristocracia no campo, com o jogo com e pelo time, que, como enfatizam os nossos teóricos do futebol, levam a uma identidade social especifica - essa marca das grandes seleções?

Em outras palavras, como submeter todos a regra da lei e da coletividade (o time) se não dispensamos os salvadores da pátria, os messias do futebol - os que salvam os jogos dando a vitória ao nosso Brasil, gente como Ademir, Zizinho, Rivelino, Zico e tantos outros, para não mencionar a realeza do Príncipe Didi e do Rei Pelé ou o "fenômeno" que era o nosso Ronaldo?

Eu me pergunto se essa busca da arte com (e não contra) a técnica; da justiça que vale para todos e leva à punição dos faltosos com a compaixão que distingue e perdoa; da lei universal que iguala com as amizades singulares que distinguem, não seriam as conjugações que implícita ou inconscientemente temos tentado declinar no Brasil. E se não é tempo de não tomar partido e saber de que lado nos situamos. Mas o que é que não cabe dentro de um sonho? E o futebol, como a poesia, é ótimo para sonhar e para revelar essa busca pelas causas perdidas. Ou para voltar ao começo, esse querer andar de carruagem em Manhattan.

 - ROBERTO DaMATTA. 19 Oct 2011

Minha vida com Sartre




Era Sartre mesmo. Nem precisava resmungar que o inferno são os outros

Foi breve, porém inesquecível, e sobretudo enriquecedor, o meu convívio com Jean-Paul Sartre. Pode ser contado em dois capítulos,ambientados ambos em Paris.

O primeiro data de um remoto dia de primavera em que eu batia pernas pela calçada do cemitério de Montparnasse, perto de onde morava – quando à frente distingui um vulto recurvo que avançava a passos titubeantes. Acelerei a marcha e,emparelhados, tirei a dúvida: ele mesmo!Para prová-lo, nem precisaria resmungar que o inferno são os outros.

Comonos romances, girei nos calcanhares e, senhor ainda de algum pique juvenil, dei a volta ao cemitério em que, anos mais tarde, Jean-Paul e Simone haveriam de pela primeira (e definitiva) vez coabitar.

Agora estávamos frente a frente,e Sartre me olhava torto, mas não com antipatia ou náusea (ao menos assim me pareceu), uma das mãos segurando o cachimboque lhe tornara a boca igualmente torta. Era a chance, talvez única, de travar um diálogo com o filósofo da minha admiração. Àquela altura da vida, tinha eu falado com tanta gente – mas com Jean-Paul Sartre ainda não trocara uma só palavra!

Sobre o queiríamos dialogar? Existencialismo? Não, tema batido demais, ele provavelmente enjoara de tanto ser solicitado a discorrer a respeito. A recusa do prêmio Nobel em 1964? Não, talvez não gostasse de falar do gesto não só inédito como desastroso,pois lhe custara um cheque de centenas de milhares de dólares. Sobre o que, então? Faltaram- me as palavras e a imaginação.

Há no que vou dizer uma ponta de vulgar deslumbramento, admito, mas o fato é que,como se fora tiete, senti vontade de puxar papo, qualquer papo,com Jean-Paul Sartre.Tenho às vezes dessas coisas. Mais tarde, pela vida afora (neste momento, por exemplo), eu estaria habilitado a enfiar algo assim entre os gomos de minha conversação:
– Certa vez, flanando com Jean-Paul em Paris, eu dizia a ele que...
– Jean-Paul? – cortaria uma das antas presentes. – Quem é Jean-Paul?
– Ora, ora – reagiria eu, coma escassa paciência que tenho para os ignaros. – Jean-Paul Sartre, pô.

Diria o quê a Jean-Paul em nossa caminhada peripatética? Assunto é que não me faltava:
–Com licença, o senhor tem fogo?
– Sim – responderia Sartre, emergindo de seus enovelados pensamentos, e, com aqueles dedos nodosos de tanto escrever e amarelados de tanto fumar Gauloises, estenderia um isqueirinho de plástico com que não teria sonhado minha vã filosofia, comprado talvez no mesmo tabac fuleiro de que eu era freguês.
–Ah,obrigado,senhor–diriaeu,acendendo com chama sartreana o meu repulsivo Bouled’Or de estudantedes monetarizado.

Poderia, sim, tem tido um diálogo completo – pergunta, resposta – com o notável filósofo. Optei, porém, por não turvar o seu recolhimento,em cujo âmago poderia estar sendo gestada alguma reflexão seminal, ditada quem sabe pela ideia da finitude humana (não bordejávamos um cemitério?), a ser mais tarde destilada em livro. Num gesto de desprendimento, deixei-o ir.

Não foi muito diferente a segunda oportunidade que o destino me proporcionou. Era uma noite de sábado e eu caminhava rumo ao cinema quando um toró de verão despencou sobre o Quartier Latin. Busquei abrigo numa soleira de porta, e ali estava a meditar sobre o falecimento da bezerra quando vi que alguém tivera a mesma ideia. Sim, de novo ele, dessa vez sem cachimbo, os cabelos meio sebosos grudados no privilegiado coco pela água da chuva. Em filosofia, nem sempre,mas em logística Sartre e eu estávamos afinados.

Apenas palmo e meio nos separavam, mas em lugar de me prevalecer da contiguidade para cutucá-lo com digressões filosóficas, cujos meandros me fariam perder o cinema, recorri ao silêncio – não qualquer um, silêncio prenhe de sutis significados que não terão escapado às antenas de meu mudo interlocutor. Esperando o temporal passar, nos irmanamos na mesma tempestade cerebral.

Tudo bem, manifestou-se então meu lado mundano (sim,também eu tenho um!),mas se ao menos passasse alguém e registrasse em foto o nosso colóquio sem palavras... A legenda, pinçada na capa de um livro de meu companheiro de abrigo, já estava pronta:O Ser e o Nada.

Humberto Werneck. 23 de Outubro de 2011

A liberdade de expressão




Não saberia discutir o caso Rafael Bastos, pela mera razão de que nunca vi o humorista. Mas o debate sobre afirmações agressivas e até desrespeitosas - refiram-se a mulheres feias, refiram-se a homossexuais -, indo do deputado Bolsonaro aos humoristas, é de grande importância política. Porque está em jogo o alcance da liberdade de expressão.

Ora, o que tenho lido a respeito e constitui um quase consenso entre os jornalistas, mas não tanto fora de seu meio, se resume assim: é inaceitável qualquer censura. É preferível que, no mais livre debate, se possa expressar o que há de mais odioso, porque poderá ser contestado, do que coibir sua veiculação. Primeiro, porque se alguém tiver o poder de definir o que é decente e indecente, o que é "do bem" ou "do mal", esse alguém terá um poder ilimitado, que inevitavelmente empregará para proteger e promover o seu lado e reprimir seus opositores. Segundo, porque estamos lidando com adultos. Eles não podem ter restringido seu direito de acesso a toda forma de opinião até porque, só pelo acesso, pelo debate, pela exposição de ideias opostas, poderão superar o preconceito.

Creio que meu resumo é bastante fiel. Aliás, concordo com tudo isso. Só acho que esse discurso deixa de lado dois problemas sérios. O primeiro é que nenhuma liberdade é absoluta, nem mesmo a de expressão. Na Alemanha, por razões óbvias, a apologia do nazismo é proibida. Na França, negar a realidade histórica do Holocausto constitui crime. Os dois países entendem que a expressão de ideias fascistas não deve ser tolerada, pelos males que já causaram. Considera-se que os indivíduos não dispõem necessariamente de antivírus contra esses perigos.

Deixam a Alemanha e a França de ser países democráticos, porque proíbem a pregação do ódio? No Brasil, a Constituição que veda a censura manda respeitar o nome, a reputação e a família. Qual o equilíbrio entre o direito de se expressar livremente e a obrigação de respeitar o outro? Esse ponto tem de ser definido. Não havendo lei de imprensa, ficam indefinidas as fronteiras entre o direito de se expressar e o de se proteger da calúnia. Esse limbo deixa tudo ao arbítrio do juiz.

Mas há um segundo problema - e esse me entristece. Trinta anos atrás, vivíamos sob a ditadura mais longa de nossa história. Defender a liberdade de expressão significava, então, lutar para que riquezas enormes viessem à tona. Pudera: de 1964 até 1985, passamos por três fases de suspensão até das garantias constitucionais mínimas - seis meses do Ato Institucional, em 1964, ano e meio do AI-2, entre 1965 e 1967, mais de dez anos do AI-5, começando em 1968. Na outra metade da ditadura, mesmo sem atos institucionais, as leis vigentes limitavam muito a liberdade. A esperança era então que a liberdade nos trouxesse ar, vida, sensibilidade, inteligência. Quando um livro, filme ou peça era proibido, víamos nisso um selo de qualidade. E quase sempre tínhamos razão.

Então por que hoje, quando se fala em liberdade de expressão, é para defender o direito a dizer e fazer o pior, não para o melhor? Repito: não me julgo capacitado a dizer o que é bom ou mau, nem quero para mim o poder legal de distingui-los. Mas, nos tempos que evoco, a liberdade era vista como criativa, produtiva de melhores relações humanas. Hoje, porém, quando ela é invocada pelos jornalistas a que aludi, é para autorizar a expressão do que há de pior no ser humano. Mais grave que Bolsonaro, aliás, foi o deputado paulista que acusou os negros de descenderem do filho maldito de Noé. Aqui, saímos dos limites democráticos e entramos no âmbito do que uma sociedade decente pode e deve castigar. Não defendo a censura. Censurar e punir são coisas bem diferentes. A censura se faz antes. Já a punição se aplica depois. A censura impede que se cometa um ato julgado errado. Curiosamente, ela torna o censurado inocente e impune, porque não pôde fazer a coisa errada (supondo que fosse mesmo errada). Mais adequada é a punição, que não impede ninguém de dizer o que quiser, mas castiga com o rigor da lei, após processo justo, quem agiu criminosamente de qualquer forma, inclusive com a palavra.

Mas hoje a liberdade de expressão deixou de ser selo de qualidade para se tornar sinal de desesperança. A maior parte dos que defenderam Rafael Bastos e outros humoristas que avançaram o sinal, pelo menos, do bom gosto alega que qualquer limite à liberdade de expressão pode levar ao controle dos adultos por um governo que imporá cada vez mais controles e censuras. Eu concordo, contra a censura. Contudo, não é um triste sinal dos tempos que hoje, quando se elogia a liberdade de expressão, seja para tolerar o discurso vulgar, preconceituoso, que rebaixa o nível do convívio social - e não mais para criticar o que existe de errado, apresentar utopias, fazer a razão sonhar?

Nos tempos em que a América Latina padecia sob as ditaduras de direita e a Europa Oriental sob as de esquerda, dizia-se que nas gavetas havia inúmeras obras de qualidade, proibidas pela censura - e que, caindo o regime autoritário, cem flores floresceriam. Mas isso não sucedeu. Havia menos obras-primas proibidas do que se imaginava. Parece que, em geral, uma obra-prima precisa de liberdade, não só para ser publicada, mas até mesmo para ser escrita. Mas o que me entristece é ver que hoje se valoriza cada vez mais o vulgar, o reles. Anos atrás, esperávamos que a liberdade gerasse o bom e o ótimo. Agora, parece que o reles é a essência da liberdade, seu produto mais constante, talvez mais importante. Só posso dizer que lastimo esse estado de coisas.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

  24 Oct 2011 

Leitores assassinos




São do renomado intelectual José Castello as seguintes considerações: “Em que medida somos nós, leitores, que destruímos a reputação de um livro? De que maneira leituras apressadas, indiferentes, superficiais, acabam por matar grandes livros?

Sempre achei que o leitor não é só leitor, é coautor dos livros que lê. Coautor, mas também pode ser o assassino dos mesmos livros. Isso sem importar que sejam grande livros, ou pequenos livros”.

Está coberto de razões. Corremos o risco de perdermos o encanto da leitura e o prazer do texto sob a alegação de que não temos tempo para nada e, de modo especial, para a leitura.

O tempo, ou a pseudofalta dele, acabam por gerar pensamentos que são repetidos sem nenhuma espécie de crítica. Alguns desses: ninguém lê mais do que as primeiras páginas de um livro; os capítulos devem ser curtíssimos; o romance está destinado ao desaparecimento; então: ler romances, para quê?; a crônica, porque curta e leve, é o gênero preferido pelo povo etc.

Será mesmo verdade que não temos tempo?

Como explicar, então, o exercício de paciência exigido para as complexas criações do espírito humano, que vão desde as pesquisas para a cura do câncer ao estabelecimento de uma nova teoria a respeito do surgimento do Universo ou, ainda, à elaboração de um consistente pensamento filosófico ou estético?

E agora, mais concretamente: como explicar as seis horas por dia que um jovem dedica à internet, operando jogos sofisticadíssimos? Nada disso seria possível com pressa ou impaciência.

Não nos falta tempo; faltam, sim, interesse e disposição.

O fenômeno trazido à luz por José Castello acaba levando a ações patéticas, como o abandono de uma obra magistral nas primeiras cinco páginas, isso porque ela não nos deu, nessas páginas iniciais, motivos para divertimento fácil e pouco uso da imaginação.

O agente literário nova-iorquino Noah Lukeman, em obra ainda não traduzida no Brasil, The First Five Pages, elabora algumas proposições interessantes. Diz, por exemplo, que as primeiras cinco páginas não terão um fim em si mesmo, mas elas anunciam o quanto um livro pode render. Logo: ler as primeiras cinco páginas como finalidade em si mesma é uma das formas de trucidar o texto.

Quer-se dizer, de maneira sintética: para a conquista de um avanço emocional, cultural ou artístico, é, sim, necessária alguma dose de trabalho e de concentração.

Assim: em vez de assassiná-lo, demos oportunidade ao livro.


LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL - 24 Oct 2011 

Dois ditadores




No aeroporto, há um cartaz orgulhoso dos taxistas no ponto de táxi: “Tarifa de táxi especial igual à dos táxis comuns”.

Da mesma forma, na rodoviária, tinha de ter um cartaz no ponto de táxi: “Tarifa de táxi comum ao mesmo preço dos táxis especiais do aeroporto”.

O que é visto como atrativo no aeroporto, na rodoviária passaria a ser um anúncio autopejorativo.

Previdente é aquele passageiro de avião e de ônibus intermunicipal ou interestadual que nunca marca retorno à sua cidade em domingos e feriados, com o fim de não pagar bandeira 2 de táxi.

O ministro dos Esportes, Orlando Silva, só não foi demitido até agora, debaixo de alvo insistente de denúncias, porque é negro.

É um fenômeno parecido com o do presidente norte-americano Barack Obama, ele só não despenca fragorosamente nas pesquisas de aferição da intenção de voto e não faz perigar sua estabilidade na presidência, depois de sucessivos erros administrativos e de conduta política confusa, porque é negro.

Negro tem mais resistência para cair, fruto da simpatia que a raça adquiriu sendo oprimida durante séculos.

Eu acho estranho que estes ministros da Dilma, que foram herdados e talvez impostos pelo Lula, tenham caído ou cambaleado somente agora, não foram atingidos pela degola no governo Lula.

Por isso é que Lula declarou estes dias que os ministros agora de Dilma tinham de se tornar mais resistentes e enérgicos às denúncias.

Não passa também despercebido que quem vem derrubando os ministros atingidos por denúncia de corrupção não é propriamente a presidente, e sim a revista Veja.

É democraticamente sublime que uma revista adquira o poder de demitir ministros, realçando a importância da imprensa junto às instituições.

Se Dilma foi obrigada a manter o ministério de Lula, deve estar sendo para ela saudável que possa contar com a revista Veja para substituir ministros e assim partir para um ministério da sua escolha, expungindo os que lhe foram impostos por seu antecessor.

Na marcha que vai, se a Veja continuar profícua em suas matérias investigativas, Dilma poderá renovar a quase totalidade do seu ministério, livrando-se assim da herança política e partidária que não contou com a soberania de escolha da presidente.

É curiosíssimo que tanto Saddam Hussein quanto Muamar Kadafi, no fim de suas vidas, tenham sido encontrados em um porão subterrâneo e num tubo de concreto que servia de esgoto.

Ou seja, foram capturados como ratos.

E é tanto mais significativo que tanto os iraquianos quanto os líbios nunca tiveram força interna suficiente para derrubar os dois ditadores, tiveram de se valer da ajuda decisiva das tropas de nações ocidentais.

É instigante que os Estados Unidos e diversos países europeus tomem a decisão de derrubar ditadores árabes. Isso determina uma total submissão da política dessas nações árabes ao poder ocidental.

Imaginem se os EUA da América influenciassem para derrubar um governo brasileiro, se é que isso já não tenha ocorrido na derrubada dos ex-presidentes João Goulart e Salvador Allende.

A única diferença é que Iraque e Líbia são dois dos maiores produtores de petróleo do mundo, o que naturalmente os faz agora reféns econômicos dos países que os ajudaram na queda de seus dois ditadores.

Por trás desses emaranhados complicadores, sem qualquer sombra de dúvida, estão os interesses financeiros.

Mas será que Kadafi merecia ser executado com dois tiros? Ainda falta esclarecer se Kadafi foi mesmo um ditador sangrento.

Sobre Saddam não havia qualquer dúvida a respeito.


PAULO SANT’ANA - 24 Oct 2011 

Mais aula não resolve





Com a abolição gradual do sistema conteudista, pensar hoje em aumentar as horas de aula é quase criminoso

Está todo o mundo tonto. Esse negócio de educação deficiente deu pano para todas as mangas. No redemoinho dos perdidos, o simplismo é "afundante".
O Pisa e testes que tais -que não parecem com o Enem, em vários sentidos, superior a eles- passaram a ser o padrão-ouro para se medir a escola. Aqui e mundo afora.
Falei por algum tempo com o ministro da Educação da Dinamarca, no ano passado, e fiquei perplexo ao descobrir que a sua meta era subir no ranking do Pisa. Não bastava ter obtido um dos melhores resultados do mundo -ele era cobrado pela sociedade dinamarquesa para melhorar a posição na listagem.
O Brasil, há poucos anos, passou a se medir assim também. Como consequência, todos perguntam como fazer para subir no ranking (estamos na 53ª posição). Ora, descobrindo o que fazem as melhores escolas do mundo serem um sucesso.
Viramos súditos das respostas simplórias. Todos fazem estudos que demonstram que professores melhores e mais tempo em sala de aula dão resultado melhor. Como a questão de professores melhores é subjetiva, de uma "ululância" vexante, e que leva tempo (uma ou duas décadas) para se consertar, parte-se para o segundo item.
Assim, começa a grita pela escola integral e por mais tempo na sala de aula. Como se torturar a meninada com mais horas monótonas e mal pensadas fosse resultar em aprendizado duradouro. Que bobagem!
Isso não passa de um clichê, que serve para dar aos pais e aos políticos a sensação, idealizada, de que algo está sendo feito. O custo é altíssimo, e esse percentual a mais de PIB que iria custear um aumento de jornada deveria ser usado na reforma curricular.

Gilberto Dimenstein falou de uma escola na Califórnia, a Summit, que concede aos alunos dois meses, além das férias, para que escapem do tal do currículo. Com isso, essa escola pública é muito superior -em notas- às daquelas que aumentaram suas jornadas. Claro.

No mundo que está por vir, com currículos baseados na web e abolição gradual do sistema conteudista, acrescentar horas de aula é quase um ato criminoso.

Essa dinheirama precisa ser redirecionada a fim de preparar as escolas para a revolução digital. Que, aliás, permitirá aos alunos surfarem questões em casa, em vez de acorrentá-los às carteiras.
Todo esforço tem de ser no sentido de alforriar a meninada, em lugar de achar maneiras de aumentar o "Febem-ismo". Com que mais tempo em sala, mais decoreba e mais tortura, nosso pequenos "guantanamistas" aparentarão melhorar.

Mas terão apenas se rendido, catatonicamente -como fazem os coreanos que se suicidam depois- à pobre conclusão dos que "pensam" o ramo: "se está ruim assim, vamos dobrar o mal e ver se melhora". Quanta preguiça macunaímica!

RICARDO SEMLER, 52, é empresário. Foi scholar da Harvard Law School e professor no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Escreveu dois livros ("Virando a Própria Mesa" e "Você Está Louco") que venderam juntos 2 milhões de cópias em 34 línguas.


 24 Oct 2011 

Um pecado que serve a um objetivo maior






A inveja parece ser o mais inútil dos pecados mortais: terrível de experimentar, vergonhosa de admitir, desprovida de prazer imediato ou benefícios em longo prazo. Para um psicólogo evolucionista, existe uma certa lógica em seduzir a mulher do vizinho ou roubar seus bens, mas de que adianta apenas cobiçá-los?
Experimentos da Universidade Cristã do Texas em Fort Worth e na Universidade do Texas em Austin revelam um lado positivo.

A inveja envolve um desejo por algo que você não tem; o ciúme nasce da perda de algo para outra pessoa. Se você deseja uma mulher como Angelina Jolie, você inveja Brad Pitt; se você teme perder sua mulher para ele, o que você sente é ciúme.

Em um experimento, pediu-se a estudantes que escrevessem sobre ocasiões em que eles invejaram um amigo. Então, juntamente com um grupo de controle que não foi solicitado a lembrar experiências de inveja, eles leram entrevistas com duas pessoas supostamente matriculadas em sua escola. Nessas entrevistas fictícias, os participantes responderam a perguntas sobre seus estudos e objetivos, mas não disseram nada que provocasse inveja.

Comparados com o grupo de controle, os estudantes passaram mais tempo estudando as entrevistas e foram melhor em lembrar detalhes dessas duas pessoas. O simples fato de lembrar sua inveja de antigos rivais aparentemente os fazia prestar mais atenção nos atuais pares, mesmo que não houvesse nada ameaçador neles.

Os pesquisadores Sarah E. Hill e Danielle J. DelPriore, da Cristã do Texas, e Phillip W. Vaughan, da Universidade do Texas, então mostraram aos estudantes seis entrevistas de jornal falsas e fotografias de outros supostos estudantes. As mulheres viram fotos de mulheres, enquanto os homens viram fotos de homens. Nas fotos, alguns estudantes fictícios eram atraentes, outros não. Um mencionou que tinha uma nova BMW; outro dirigia um calhambeque. Um tinha um pai no conselho diretor da escola; outro recebia ajuda financeira para estudar.

Os pesquisadores perguntaram aos estudantes sobre suas emoções e mediram quanto tempo eles estudavam o perfil do outro. Eles passavam mais tempo contemplando aqueles pelos quais manifestavam inveja: os estudantes bonitos e ricos. E mais tarde puderam lembrar melhor os nomes e detalhes dos "alvos de muita inveja".

Os resultados mostram que a inveja pode "evocar uma cascata funcionalmente coordenada de processos cognitivos", como dizem os pesquisadores na edição de outubro do "The Journal of Personality and Social Psychology".

As mulheres apresentavam maior probabilidade que os homens de sentir inveja de uma colega fisicamente atraente, resultado coerente com as teorias dos psicólogos evolucionistas sobre a beleza importar mais às mulheres para o sucesso reprodutivo.

A riqueza importa mais para o sucesso reprodutivo dos homens, mas neste experimento não houve diferença entre os gêneros.

Isso poderia demonstrar, como notam os pesquisadores, que a "natureza intercambiável do dinheiro" o torna valioso para o sucesso reprodutivo de ambos os sexos. "Os homens não ficariam tão preocupados com a aquisição de recursos se as mulheres não gostassem tanto de recursos", disse o doutor Hill.
A nova evidência é importante porque demonstra claramente que a memória e a atenção estão ligadas à inveja, disse Richard H. Smith, editor de "Envy" (Inveja), um compêndio de pesquisas de 2008. O estudo também sustenta uma antiga ideia sobre esse vício.

"Tradicionalmente, a inveja está ligada aos olhos", ele disse. A palavra vem do latim "invidere", que significa olhar com malícia, ou projetar um "mau-olhado".

Mas outros, como o psicólogo holandês Niels Van de Ven, definem a inveja de duas maneiras. Existe a "inveja benigna", em que você presta atenção nos superiores para imitá-los; e a "inveja maliciosa", em que você presta atenção para encontrar fraquezas que os rebaixem ao seu nível.
A inveja exige esforço mental. Em um experimento, após contemplar um colega rico e atraente, os estudantes trabalharam em quebra-cabeças. Comparados com um grupo de controle, eles desistiram do desafio mais cedo.

Foram vítimas do "esgotamento do ego", um estado de fadiga mental. A inveja pode aguçar seu olhar e melhorar sua memória, mas cobiçar é um trabalho duro.

 JOHN TIERNEY .24 Oct 2011

A literatura brasileira pede passagem



Um dos assuntos em evidência durante a recente Feira do Livro de Frankfurt foi a preocupação de editores e autoridades governamentais com a necessidade de abrir espaço para a literatura brasileira no exterior. Maravilha! Mas, agora que está todo mundo de volta à realidade de nosso mercado editorial, que tal dedicar alguma atenção também à necessidade de abrir espaço para a literatura brasileira aqui mesmo, entre o Oiapoque e o Chuí? É um tema que certamente será discutido no Congresso Brasileiro de Escritores, promovido pela União Brasileira de Escritores (UBE), que será realizado em Ribeirão Preto de 12 a 15 de novembro.

Literatura brasileira vende pouco, muito pouco, não apenas mundo afora, como lamentam grandes publishers patrícios, mas aqui mesmo, onde o big business editorial torra centenas de milhares de dólares no pagamento de advance para adquirir os direitos de um best-seller estrangeiro; aqui mesmo, onde é impossível encontrar romances nacionais em listas de mais vendidos.

É a lógica do mercado, diriam os fundamentalistas da relação custo-benefício, aqueles para quem a indústria editorial trabalha com um produto "como qualquer outro" e quem não entende isso é um desprezível "conteudista". São esses adoradores do lucro a qualquer custo que decidem hoje o que o grande negócio do livro publica ou deixa de publicar. São eles que não prestam a menor atenção a quem faz literatura aqui, no Brasil, mas estão empenhadíssimos em vender literatura brasileira lá fora. Uma maneira patriótica de garantir um troco extra.

Os escritores brasileiros - refiro-me a quem faz literatura entendida como "a articulação livre dos sentimentos e pensamentos dos seres humanos, transcendendo essencialmente a utilidade prática", na definição contida em brilhante texto de Gao Xingjian, Nobel de Literatura de 2000, publicado no suplemento Sabático deste jornal (8/8/11) -, os autores que se dedicam a investigar e interpretar a alma do povo brasileiro e a contribuir com sua arte para a nossa formação e o nosso enriquecimento cultural, esses escritores são relegados a um papel absolutamente secundário no mercado editorial brasileiro. Literatura adulta, incluindo as obras traduzidas, é responsável por pouco mais de 5% do total de vendas de livros no País, segundo pesquisa da Fipe feita periodicamente para as entidades livreiras.

Pode-se argumentar que livros que se enquadram na categoria "literatura adulta" - e aí se incluem todos os grandes clássicos da literatura universal - vendem pouco em qualquer lugar do mundo. É uma verdade muito relativa, que deve ser considerada à luz de um fenômeno universal relativamente recente: o predomínio da razão de mercado também na indústria editorial. Fenômeno que se manifesta de maneira mais perversa ainda em países culturalmente frágeis, como é o nosso caso.

Ensina a teoria literária que para se configurar plenamente como sistema articulado, na expressão de Antonio Candido, a literatura depende da interação dinâmica de três elementos: autor, obra e público. Em outras palavras, não existe literatura sem leitor. Quem faz a mediação física entre o autor e o leitor, por intermédio da obra, é a intervenção conjunta editora-livraria. Mas tanto uma quanto a outra tendem a ignorar a obra literária porque prevalece no mercado editorial um falso silogismo: o que não vende bem não se publica; literatura brasileira não vende bem; logo, literatura brasileira não se publica.

É falsa a premissa maior de que livro que não vende bem não pode ser publicado. Ela traduz apenas a ganância de quem acha que livro só serve para fazer dinheiro. E é falaciosa a premissa menor, a de que literatura brasileira não vende. Não vende, na verdade, na medida em que a ganância do mercado desvia para promessas mais atraentes e imediatas de lucro investimentos editoriais que poderiam, pelo menos em parte, ser destinados a ampliar o mercado da literatura. Porque a função principal do editor é exatamente esta (e vale, é claro, para tudo, não apenas para literatura): prospectar bons conteúdos e depois contar com os marqueteiros para resolver o problema de como transformá-los em livros vendáveis. Os marqueteiros existem exatamente para isso, essa é a importante e difícil atividade-meio que lhes cabe, não a de decidir o que deve ou não ser publicado.

É mais comum do que se imagina uma grande editora torrar mais de US$ 100 mil na aquisição dos direitos de publicação de best-sellers estrangeiros. No mercado internacional é conhecida a voracidade com que editores brasileiros disputam entre si qualquer título que tenha passagem pelas listas de mais vendidos do jornal The New York Times. Esse título no qual se investe, logo de saída, um mínimo de cerca de R$ 170 mil de adiantamento e, logo depois, o custo de uma primeira tiragem de 20 mil, 30 mil exemplares vai exigir ainda pesadas despesas de propaganda e divulgação comercial, além de extremamente dispendiosos acordos com as livrarias para garantir uma primeira venda ou consignação que satisfaça a necessidade de uma boa exposição de pilhas do livro. Às vezes dá certo.

É assim que funciona a produção de best-sellers. É assim que as grandes editoras comerciais fazem dinheiro. É a lógica do mercado do livro impresso e seria ingênuo imaginar que algo possa mudar, até onde a vista alcança. Mas essa realidade demonstra claramente o seguinte: dinheiro não falta. O que falta é a vontade de investir também em conteúdos que enriqueçam qualitativamente o acervo bibliográfico nacional. Por exemplo, abrindo espaço para a literatura brasileira. Uma reivindicação justa, considerando que o negócio do livro é isento de impostos a partir do pressuposto de que trabalha com um produto diferenciado essencial para a nossa formação cultural.

A. P. Quartim de Moraes, jornalista e editor. - O Estado de S.Paulo. 24 Oct 2011 


Insidiosa moléstia



 SÃO PAULO - Nas últimas décadas, fomos convencidos pelos médicos de que a melhor forma de evitar um câncer fatal era, além de hábitos de vida saudáveis, a detecção precoce. E não é que agora aparecem estudos, como o publicado ontem em Saúde, que questionam o conceito.
A questão é complexa e polêmica. Em nossas mentes essencialistas, a "insidiosa moléstia", como se dizia antigamente (evitávamos até chamá-la pelo nome), ainda é sinônimo de doença mortal. Em nível celular, porém, o câncer é um processo biológico com ampla variedade de desfechos naturais. Há desde tumores agressivos até os inertes, passando pelos de evolução lenta, cujos portadores morrem de outras causas antes de a doença manifestar-se. Como o significado mais letal é o que prevalece, ao menor sinal de malignidade, já se recomenda a remoção do tecido e o tratamento.
A estratégia inegavelmente salva vidas, mas há um preço a pagar, como explica H. Gilbert Welch, autor de vários livros e artigos a respeito do sobrediagnóstico de câncer.
Nas contas de Welch, para cada vida que salvamos submetendo mulheres de 50 anos a mamografia, produzimos os seguintes efeitos adversos: de 2 a 10 recebem tratamento sem necessidade; de 5 a 15 sabem da doença antecipadamente, mas o prognóstico não muda; de 200 a 500 experimentam "alarme falso".
Com o aumento dos "check-ups" e exames, altas taxas de sobrediagnóstico são encontradas para câncer de mama, pulmão, próstata, tireoide e melanoma. Para Welch, o sobrediagnóstico transforma gente saudável em pacientes que passam por intervenções agressivas (e pagam por elas) sem motivo.
Para complicar mais, no instante do resultado positivo, é impossível dizer se o paciente é aquele que se salvará graças ao diagnóstico precoce ou o que se submeterá a tratamento ocioso. Apesar dos avanços, a medicina ainda exige que façamos apostas, nem sempre explícitas.

HÉLIO SCHWARTSMAN -  26 Oct 2011

Considerações

Embora as postagens sejam ultrapassadas na cronologia não o são em sua atualidade, as discussões continuam válidas e pertinentes até nossos dias.

"A união não faz mais a força" -



Hoje, os europeus, chamados com urgência a Bruxelas, pretendem salvar o euro. E provavelmente conseguirão. Eles já se habituaram a tirar da beira do abismo esta triste moeda, e sabem bem como fazê-lo. São profissionais: palavras, promessas, imprecações, créditos, austeridade e lirismos pérfidos. O euro poderá sair do hospital.

Mas em que condições? Num carro pequeno, com tubos no nariz, nas veias e nos rins, um pulmão artificial e um coração transplantado.

E retomará seu curso, se podemos dizer assim, até a próxima síncope.

Na espera, remédios tentarão fazer o possível: curas de austeridade ferozes, abandonos dos créditos pelos bancos que emprestaram para os países enfermos (Grécia), aumento do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Feef), o "corpo de bombeiros" acionado para apagar, na Grécia e em outros lugares, os incêndios da dívida.

A multidão de médicos em volta do euro faz suas avaliações, preconiza remédios. E esses remédios são tantos que é impossível enumerá-los, tanto mais que já são bem conhecidos. Mas o martírio do euro é antigo, tão grave e sistêmico que, ao lado dos políticos, homens de finanças, banqueiros e especialistas, desta vez vozes mais raras, a dos intelectuais e filósofos, se erguem, tentando ler a crise nos eventos da história, da civilização.

O polonês Zygmund Baumant não se consola em ver o "sonho europeu" se transformar num "pesadelo". Ele não dá à Europa um atestado de óbito, mas um "atestado de vida a crédito".

São os alemães, "mestres da filosofia desde o século 18", que discorrem mais brilhantemente sobre a crise. Peter Sloterdjik analisa o uso deletério, demoníaco, do crédito: "Entramos num período em que capacidade do crédito de abrir um futuro sólido está bloqueada, porque hoje tomamos crédito para pagar outros créditos. O "creditismo" entrou numa crise financeira.

O ensaísta alemão Hans Magnus Eizenberger escreve ironicamente que "a união não faz mais a força, mas a coerção e o absurdo. Basta olhar para o Tratado de Lisboa, essa pseudo Constituição que serve de base para a União Europeia; ela coloca o cidadão europeu diante de dificuldades insuperáveis de leitura. (Poderíamos dizer uma barragem de arame farpado.)

O euro foi concebido nos bastidores como uma abstração.

Mas foi o maior dos filósofos alemães, Jurgen Habermas, da Escola de Frankfurt, que investe com mais violência: "A Europa entrou numa era pós-democrática". Ele teme que Nicolas Sarkozy e Angela Merkel concluam uma espécie de pacto entre "o estatismo francês e o liberalismo econômico alemão, em detrimento da legitimidade democrática". De que maneira? Habermas responde: "Governos de diferentes Estados, e não os representantes dos cidadãos europeus, decidiriam no lugar destes últimos a alocação das verbas orçamentárias nacionais pelo Conselho da Europa. O risco de um curto-circuito da democracia é grande."

E ele troveja. "Os chefes de governo transformarão o projeto europeu no seu contrário: a maior comunidade supranacional democrática legalizada se tornará o órgão da dominação pós-democrática".

GILLES LAPOUGE-_: 26 Oct 2011 

 TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO


A sociabilidade dos clubes -



Nos clubes acontece uma forma de estar (e de ser) adequada às associação voluntárias - essas organizações nas quais entramos (e saímos) não por nascimento ou morte, mas por gosto, interesse e escolha. Num país como o Brasil, onde tudo que é escuso ocorre justamente nos espaços situados entre amizades, parentescos e, hoje, partidos e o "governo" que deveria ser impessoal e servir a todos, vale a pena falar um pouco de clubes e de sua sociabilidade. Ao fazer isso, inspiram-me os notáveis 190 anos da Sociedade Germania. Um clube fundado por alemães no Rio de Janeiro dos 1821, em pleno reinado de Pedro II.

Existe pouca reflexão sobre essas organizações. Uma rara exceção é o livro de Robert H. Lowie, Primitive Society (Sociedade Primitiva), publicado em 1921. Lowie, nascido em Viena e filho de mãe austríaca e pai húngaro, foi um daqueles imigrantes cujo estranhamento foi responsável por aquele atraente cosmopolitismo americano talvez por sua associação ser de um imigrante com os Estados Unidos. Imigrantes e expatriados são como sócios de um clube, muitas vezes, sócios sem carteirinha. Talvez por isso, ele tenha revelado que as chamadas sociedades "primitivas" também possuíam estruturas que congregavam pessoas por meio de critérios fora do parentesco e da família. Como especialista em sociedades indígenas da América do Norte, Lowie estudou esses "clubes" tribais sem escrita e lista de sócios, que uniam pessoas vinculadas por ensejos semelhantes, tal como fazem os nossos sindicatos, clubes, associações e partidos políticos. Em 1921, isso rompia com o evolucionismo de Morgan e de Engels, o qual estabelecia que todas as formas de sociabilidade humana tinham como origem a família e o clã.

* * * *

O destino levou-me ao Germania onde Margret Möller, sua presidente, chamou minha atenção para uma orgulhosa continuidade de quase dois séculos. Pertencer a duas sociedades simultaneamente é experimentar o humano de um modo radical, pois trata-se de construir uma ponte entre o "ser" e o "estar" - esses verbos misteriosos. Eles se entrelaçam (como ocorre em inglês) e se separam. Quem nasce num lugar é desse lugar. Os poetas (que podem dizer tudo) adornam os "naturais" do Brasil ou da Rússia com um elo fixo com a floresta, os índios, o sol, o calor tropical ou as estepes e o frio intenso. Mas, como mostram as viagens e os clubes, o humano vai além do "ser"; ele surge também no "estar". Somos de algum lugar, temos uma casa, mas estamos também nos clubes e nas relações que nos unem a outros mundos.

* * * *

O duplo ou o múltiplo pertencer nos torna mais humanamente contraditórios nas nossas desconcertantes identidades. Assim, Lowie foi um vienense-americano tal como os alemães que fundaram o Germania puderam continuar sendo alemães num Rio de Janeiro de monarcas, barões e escravos - uma cidade fechada para sociabilidades alternativas.

* * * *

Em São João Nepomuceno, Minas Gerais, vivi um intenso clubismo. Os clubes aos quais pertenci - o Mangueira e os Democráticos - eram brasileiros, mas a sua sociabilidade era tão gratificante quanto a que experimentei no Germania, quando fui gentilmente recebido por Margret Möller e alguns amigos do coração; ou a algum clube inglês numa Inglaterra que, dizem os ingleses, os inventou.

Qual o segredo dos clubes? Ora, seu ponto de atração está na alternativa que eles oferecem às nossas casas e famílias. Em casa somos determinados e não temos escolhas (nem piscina ou restaurante). Nos clubes ocorre justamente o oposto. Temos a escolha dos amigos e, em seguida, as facilidades que as pessoas comuns só podem ter quando se congregam em grupo - esse traço do igualitarismo que marca muitos sistemas tribais, mas que até hoje não é aceito no Brasil. Esse associacionismo "voluntário", descoberto por Alexis de Tocqueville no seu A Democracia na América, quando ele discerne como a igualdade política radical predispunha os americanos à congregação e a uma vida partidária que os compensava pela ausência do nome de família e de fortuna pessoal. Na França, isso não ocorria porque cada "estamento" ou "casa aristocrática" era uma miniatura da própria sociedade e todos sabiam com quem estavam falando, tal como até hoje ocorre no Brasil. Para Tocqueville, o clubismo e o partidarismo compensavam a igualdade e o individualismo da vida democrática.

* * * *

Nos clubes, experimentamos uma convivência marcada por uma ética da igualdade que nos obriga a relativizar a família com a sua sociabilidade hierarquizada, carimbada por sexo e idade. Neles, é complicado misturar parentesco (que não dá carteira nem ordena mensalidade) com um relacionamento que exige carteira, mas exclui o favor (com o seu dar e receber) - esse mestre dos sistemas com dois pesos e medidas. Em trabalhos acadêmicos, acentuei como o Brasil resiste a essas sociabilidades igualitárias, impessoais, baseadas em escolhas e compromissos sempre públicos - esse relacionamento clubístico e partidário, mais universalista do que particularista, íntimo e pessoalizado.

Viva, pois, um clube com quase dois séculos num Brasil em que a vida associativa fora da família tende a mudar de acordo com o messias ou, para não entrarmos na escuridão de nosso sistema político, a cada negócio.


ROBERTO DAMATTA_ 26 Oct 2011  

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Poemas de Olavo Bilac




Olavo Bilac (Rio de Janeiro RJ, 1865-1918) começou os cursos de Medicina, no Rio, e Direito, em São Paulo, mas não chegou a concluir nenhuma das faculdades. Em 1884 seu soneto Nero foi publicado na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. Em 1887 iniciou carreira de jornalista literário e, em 1888, teve publicado seu primeiro livro, Poesias. Nos anos seguintes, publicaria crônicas, conferências literárias, discursos, livros infantis e didáticos, entre outros. Republicano e nacionalista, escreveu a letra do Hino à Bandeira e fez oposição ao governo de Floriano Peixoto. Foi membro-fundador da Academia Brasileira de Letras, em 1896. Em 1907, foi o primeiro a ser eleito “príncipe dos poetas brasileiros”, pela revista Fon-Fon. De 1915 a 1917, fez campanha cívica nacional pelo serviço militar obrigatório e pela instrução primária. Destaca-se em sua obra poética o livro póstumo Tarde (1919). Parte das crônicas que escreveu em mais de 20 anos de jornalismo está reunida em livros, entre os quais Vossa Insolência (1996). Bilac, autor de alguns dos mais populares poemas brasileiros, é considerado o mais importante de nossos poetas parnasianos. (Fonte)

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Poemas:

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A velhice

O neto:

Vovó, por que não tem dentes?

Por que anda rezando só.

E treme, como os doentes

Quando têm febre, vovó?

Por que é branco o seu cabelo?

Por que se apóia a um bordão?

Vovó, porque, como o gelo,

É tão fria a sua mão?

Por que é tão triste o seu rosto?

Tão trêmula a sua voz?

Vovó, qual é seu desgosto?

Por que não ri como nós?

A Avó:

Meu neto, que és meu encanto,

Tu acabas de nascer...

E eu, tenho vivido tanto

Que estou farta de viver!

Os anos, que vão passando,

Vão nos matando sem dó:

Só tu consegues, falando,

Dar-me alegria, tu só!

O teu sorriso, criança,

Cai sobre os martírios meus,

Como um clarão de esperança,

Como uma benção de Deus!

.

Língua portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

.

Deixa o olhar do mundo
.
Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
Teu grande amor que é teu maior segredo!
Que terias perdido, se, mais cedo,
Todo o afeto que sentes se mostrasse?

Basta de enganos! Mostra-me sem medo
Aos homens, afrontando-os face a face:
Quero que os homens todos, quando eu passe,
Invejosos, apontem-me com o dedo.

Olha: não posso mais! Ando tão cheio
Deste amor, que minh'alma se consome
De te exaltar aos olhos do universo...

Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
E, fatigado de calar teu nome,
Quase o revelo no final de um verso.

.

Longe de ti

Longe de ti, se escuto, porventura,
Teu nome, que uma boca indiferente
Entre outros nomes de mulher murmura,
Sobe-me o pranto aos olhos, de repente...

Tal aquele, que, mísero, a tortura
Sofre de amargo exílio, e tristemente
A linguagem natal, maviosa e pura,
Ouve falada por estranha gente...

Porque teu nome é para mim o nome
De uma pátria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome:

E ouvi-lo é ver a eterna primavera
E a eterna luz da terra abençoada,
Onde, entre flores, teu amor me espera.

.

O tempo

Sou o Tempo que passa, que passa,
Sem princípio, sem fim, sem medida!
Vou levando a Ventura e a Desgraça,
Vou levando as vaidades da Vida!

A correr, de segundo em segundo,
Vou formando os minutos que correm . . .
Formo as horas que passam no mundo,
Formo os anos que nascem e morrem.

Ninguém pode evitar os meus danos . . .
Vou correndo sereno e constante:
Desse modo, de cem em cem anos
Formo um século, e passo adiante.

Trabalhai, porque a vida é pequena,
E não há para o Tempo demoras!
Não gasteis os minutos sem pena!
Não façais pouco caso das horas!

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Fonte : revista macondo


Saiu da casa e olhou o céu. Choviam estrelas. Lamentou aquilo, porque teria gostado de ver um céu quieto. Ouviu o canto dos galos. Sentiu a envoltura da noite cobrindo a terra. A terra, “este vale de lágrimas”.

Juan Rulfo

(in "Pedro Páramo")

Arte é forma



A arte não tem moralidade nem senso de justiça, muito menos bula ou modo de usar
 Há pouco tempo, Vargas Llosa publicou um artigo excelente no “El País” em defesa da obra de Louis-Ferdinand Céline, nome artístico do doutor Auguste Destouches, médico francês antissemita que, segundo consta, na época da França ocupada pelos alemães, entregou à Gestapo algumas famílias judias.
Seu texto é uma manifestação de repúdio à decisão do ministro da Cultura da França de, cedendo à pressão de oganizações humanitárias e associações de filhos de judeus deportados, não celebrar o cinquentenário da morte do escritor. Não acho uma atitude digna da tradição judaica banir este portentoso artista do calendário de comemorações francesas, da mesma forma que acho absurda a proibição de se tocar Wagner em Israel.

Sou judia por conversão, o que, na prática, significa que sou judia pela simples razão de ter optado pelo judaísmo. Ao contrário de quase todas as outras culturas religiosas, o judaísmo não é catequista. Resiste à voracidade de “conversíveis” em potencial. É preciso que se tenha razões convincentes para que um rabino sério aceite colocar alguém no processo de conversão.

Admiro o judaísmo sobretudo por sua crença no homem e na bondade humana. É sempre mais difícil acreditarmos no homem do que em Deus. Deus é caleidoscópico, e pode-se acreditar em muitas formas de sua existência: amor, razão, mistério, fé ou natureza. Mas a humanidade é uma só e sua face é geralmente assustadora.

No entanto, todo o pensamento religioso judaico repousa neste crédito aos mortais, e de sua estruturação na “Torá” surgiram as bases do que chamamos de civilização.

Meu marido nasceu judeu. Sua família foi expulsa da Áustria da forma mais traumática possível, e até hoje John, diferentemente de mim, jamais conseguiu ler Céline. Com meu incentivo, tentou por diversas vezes passar das primeiras 50 páginas da obra-prima “Viagem ao Fundo da Noite”, mas desistiu em todas elas. “Está além das minhas forças”, ele diz.

“Viagem ao Fundo da Noite” é, desde sempre, um livro que não sai de meu alcance. Descobri-o adulta, e desde então devoto à obra deste autor o mesmo respeito e admiração que tenho por autores da mesma grandeza: Joyce, Dostoievsky, Fernando Pessoa e Shakespeare. Quando digo isso, estou falando, evidentemente, de Céline, o artista e não o homem. Consigo perfeitamente separar as duas figuras. Auguste Destouches é abominável e não está no meu mundo. Mas Céline é o James Joyce da França. Ele fez pela ficção francesa o mesmo que Joyce fez pelo romance moderno inglês. Em poucas palavras, Céline abocanhou e vomitou a modernidade, dinamizou a narrativa e criou um mundo estético inteiramente novo.

Vargas Llosa nos chama a atenção para o perigo que representa a mensagem desta decisão do ministro francês. Vetar Céline das comemorações vale o endosso à ideia de que a literatura deve ser instrutiva.

É fácil seguir adiante na sua premissa. É possível, segundo a mesma lógica, que se cobre dos artistas e de sua produção uma moralidade e senso de justiça condizentes ao que se chama hoje de “politicamente correto”. Sendo assim, poderemos, no futuro, retirar da vida literária personagens que agem de forma condenável ou que fumam. E até – por que não? – autores que fumam? Afinal, se arte é moralidade, se arte é senso de justiça, deve ser também modelo de bem viver e de virtudes.

Mas arte, não custa repetir, é forma. O conteúdo é apenas e tão somente seu subproduto. Arte, portanto, não tem moralidade nem senso de justiça, muito menos bula ou modo de usar.

Arte não serve para nada (e muito menos nós, os artistas). Arte é arte. E a razão de se fazer arte é a própria arte, da mesma forma que a razão da vida é a própria vida ou o mistério que ela emana.

É triste e desesperador ver a França que moldou os ideais iluministas no passado agindo da mesma forma que a Alemanha hitlerista: apontando e segregando a arte “degenerada” e elegendo a arte pura e edificante como arte oficial.

Patrícia Melo


Fonte: IstoÉ Independente


     

Barthes amordaçado



A morte anula todos os medos, porque os ultrapassa. O luto nunca é o que se pensa que seja

Só um tema amordaça um grande escritor como o francês Roland Barthes (1915-1980): a morte. Em particular, a morte da mãe, que é, também, a morte da origem. Em “Diário de luto” (Martins Fontes, tradução de Leyla Perrone- Moisés), conjunto de 330 notas que o filósofo começou a escrever em 26 de outubro de 1977, dia seguinte ao da morte de sua mãe, e encerrou em 15 de setembro de 1979, as palavras estão sempre a lhe escapar. Elas o desprezam. Elas lhe fogem.

Barthes balbucia. Escreve seu diário apesar da sensação crescente de que a escrita sôfrega não dá conta de seu tema. Trata-se de luta destinada ao fracasso. Mas é justamente da escrita do fracasso que se trata. É dessa derrota anterior que ele, o escritor, precisa partir. Que nome dar à morte? Palavra vazia, que fala de uma ausência, não permite sínteses, tampouco suporta pensamentos. Ao contrário, ela os massacra. Ela os amordaça.

A primeira anotação traz só duas frases e uma dúvida: “Primeira noite de núpcias. Mas primeira noite de luto?” As núpcias falam de um encontro, mas a morte é um desencontro. Noite, portanto, aniquilada, a partir da qual Barthes se impõe — como um menino agarrado à saia inexistente — a tarefa de escrever. Não para pegar, ou para “chegar a”; mas para consolar e, talvez mais ainda, aceitar a inexistência de um consolo. A isso, aliás, chamamos luto. Não algo que se pega, mas que se atravessa.

Afirma Barthes: “Todos calculam — eu o sinto — o grau de intensidade do luto. Mas é impossível (sinais irrisórios, contraditórios) medir quando alguém está atingido”. Certo: a morte aponta para o impossível, coloca- o em cena. Mas uma pergunta ainda pode ser feita: o que é possível fazer do impossível? Que papel atuar? Em qual script confiar? Que máscaras vestir?

A mãe morta: ainda ousamos falar dela. Mas será dela mesma que falamos? Reflete Barthes: “Na frase ‘Ela não sofre mais’, a que, a quem remete o ela?” A escrita esbarra em seu limite quando, na morte, tem como objeto o que já não existe. Não há objeto algum. Só palavras, e mais palavras, que Barthes espreme em fichas metódicas. Isso é um livro? Responde Barthes: “Tomando estas notas, confiome à banalidade que há em mim”.

Sim, porque a morte conduz ao banal. Mortos, nos tornamos todos iguais: não passamos de restos. Dizem, solenemente: “restos mortais”. O que fomos — as diferenças, as “personalidades”, os estilos, os vícios, as manias — nada mais está ali. Não é da mãe que se trata, mas de um resto da mãe, atrás do qual Roland Barthes, outra vez como um menino em desespero, insiste em procurá-la.

A morte coloca a literatura sob suspeita. Aponta sua fragilidade, sua incapacidade. Diante da morte, a literatura é impotente. “Não quero falar disso por medo de fazer literatura”, ele admite. Mas acrescenta: “embora, de fato, a literatura se origine dessas verdades”. De fato, a literatura surge de uma falta, caso contrário ninguém teria paciência de escrever. Ficções, poemas, para que servem? Diz Barthes: “O espantoso destas notas é o sujeito devastado submetido à presença de espírito”. Não o espírito religioso que sobrevive  à carne, mas o espírito humano — sensibilidade, inteligência, altivez — que só existe nos vivos.

Da mãe, restam as últimas palavras. “Meu R, meu R”, ela murmura. “Estou aqui”. E ainda, a um passo de abandonar a vida, mas sem largar o papel de mãe: “Você está mal, está mal sentado”. As palavras como últimos sinais (fronteira) de uma presença. Sem as palavras, a dolorosa verdade: nada há. Ao lembrar do corpo que sustentou estas palavras de despedida, ele anota: “Cada vez menos coisas a escrever, a dizer, exceto isto (mas não posso dizê-lo a ninguém)”. Não pode e, no entanto, diz. Admite Barthes a falência de uma língua separada de seu corpo. O silêncio, a repugnância.

Há, porém, uma vantagem no luto: a perda terrível já aconteceu. Assinala Barthes — “luto: região atroz onde não tenho mais medo”. A morte anula todos os medos, porque os ultrapassa. O luto nunca é o que se pensa que seja. Diz: “Assusta-me absolutamente o caráter descontínuo do luto”. Também o teatro da morte (o preto, o choro, o desespero) fracassa. Tudo, na morte, é fracasso. O pior: na vida, quase tudo também. Que se observem as palavras com seu gaguejar. Barthes luta (luto) para escapar de qualquer tipo de teatro — para ter “a morte em si”. Repreende- se: “Não dizer Luto. É psicanalítico demais. Não estou de luto. Estou triste”.

Luto: “mal-estar, situação sem chantagem possível”. Trata-se do irremediável. Não existe anestésico. Nada. Os bons sentimentos tornamse inúteis. “Todos são ‘muito gentis’ — e, no entanto, sinto-me só”. As próprias palavras se tornam traiçoeiras. Por exemplo, a palavra desespero, quase sempre associada à morte. Escreve: “Desespero: a palavra é demasiadamente teatral, faz parte da linguagem. Uma pedra”. Isso porque as palavras, ditas em referência ao inexistente, nada sustentam, limitam-se a pesar.

A morte embaralha o Tempo. Mais ainda: ela o destrói. Onde está o presente? “Sofro com o medo do que aconteceu”, Barthes anota. Dá-se conta, então, que repete um pensamento de Donald Winnicott: “medo de um desmoronamento que já aconteceu”. Mas se o que está para vir “já aconteceu”, onde está o futuro? Eis o que a morte faz: impede a visão do futuro. Veda-o. Lembra Barthes que Marcel Proust falava de “chagrin” (“desgosto”) e não de “deuil” (“luto”). A morte ensina: é preciso ter cuidado com as palavras.

Tenta pensar, enfim, no desgosto que atravessa e nas coisas do mundo que se afastam. Encontra algo: “O que me parece mais afastado de meu desgosto, de mais antipático a ele: a leitura do jornal ‘Le Monde’ e suas maneiras ácidas e informadas”. A morte não é ácida — ela não é. Não carrega qualquer informação, ao contrário, é a ausência absoluta de informação. O que se sabe de um morto? Nada. Mesmo os necrológicos dos jornais, o que fazem, senão embalsamar os que partiram? Sugere Barthes: talvez a morte não passe de uma “espécie de epopeia sem atitude heroica”. Eis o buraco (cova): devemos prestar atenção no “sem”.



- José Castello. O Globo. 26 Oct 2011 

Shakespeare?



Os moradores de Stratford-upon-Avon estão em pé de guerra. Cobriram a estátua de William Shakespeare (1564-1616), o mais famoso filho da cidade, com lençóis.

Objetam vigorosamente ao novo filme produzido pela Sony em Hollywood, segundo o qual Shakespeare, na verdade, era uma fraude e não escreveu as famosas peças, sonetos e versos cuja autoria lhe é atribuída. O verdadeiro autor, alega o filme, foi Edward de Vere, conde de Oxford, um homem viajado e poliglota.
Nessa interpretação, Shakespeare é um beberrão analfabeto e sem educação formal, incapaz do conhecimento detalhado necessário à composição dessas obras.

Edward de Vere, por outro lado, era um aristocrata, amante da rainha Elizabeth 1ª. Não pôde assumir a autoria dos textos porque escrever para o teatro, no século 16, não era profissão para um aristocrata, o que explica sua necessidade de permanecer anônimo -como no título do filme: "Anonymous".

A teoria é velha. Circula pelo menos desde a era vitoriana. Os vitorianos, como os norte-americanos modernos, adoravam teorias da conspiração e não conseguiam acreditar que um homem de origens humildes como Shakespeare pudesse ter escrito as grandes peças que portam seu nome.

Vanessa Redgrave interpreta a rainha Elizabeth 1ª (na velhice), enquanto sua filha, Joely Richardson, interpreta a rainha jovem. Joely Richardson nasceu em 1965, quando Vanessa Redgrave era casada com Tony Richardson. O casamento, que durou de 1962 a 1967, terminou em divórcio depois que Richardson traiu a mulher com a atriz francesa Jeanne Moreau.

Richardson foi um famoso diretor da "new wave" do cinema britânico. "Tom Jones", filme que ele dirigiu em 1963, baseia-se no romance de Henry Fielding (que está sepultado no cemitério inglês de Lisboa), e o roteiro foi escrito pelo dramaturgo John Osborne.

É a exuberante história do filho adotivo de um membro da pequena nobreza rural inglesa, saltando de cama em cama através da Inglaterra, estrelado por Albert Finney, Susannah York e Edith Evans. O filme foi parcialmente rodado em Crowcombe Court, uma casa de campo do começo do século 18 em West Somerset, perto de onde passei a infância.

Vanessa é filha de sir Michael Redgrave. Os Redgrave, apesar de seu radicalismo político, são a aristocracia do teatro britânico. Contudo a Sony parece ter hesitado, no momento do lançamento, e por isso o filme será exibido em apenas 250 salas.

A produtora espera que a reação dos espectadores e, sem dúvida, também a dos moradores de Stratford-upon-Avon sirva como publicidade para o filme.

KENNETH MAXWELL - FSP. 27 Oct 2011