sexta-feira, 14 de junho de 2013

O Espelho


Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

- Mia Couto, no livro "Idades Cidades Divindades",

Lisboa, Caminho, 2007.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Enquanto brincam no gramado as moças chiques
Eu quero chuvas pra estragar o piquenique
Eu não provei aquele tipo de xarope
Que está por cima nas pesquisas do IBOPE
Eu estou remando rio acima por prazer
Não há nada a desculpar, foi por querer
Me passe o sal pra botar na sobremesa
O Grande Público cansou minha beleza

( aldir blanc / joão bosco )

I. O POEMA



Um poema como um gole d’água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.

Mario Quintana in "O Aprendiz de Feiticeiro".

ESTILO



estilo é a resposta para tudo –
um novo jeito de encarar algo estúpido ou
perigoso.
é preferível fazer algo estúpido com estilo
do que fazer algo perigoso
sem estilo.

fazer algo perigoso com estilo
isso é o que eu chamo de arte.

a tourada pode ser uma arte
boxe pode ser uma arte
amar pode ser uma arte
abrir uma lata de sardinhas pode ser uma arte.

nem todos têm estilo.
nem todos conseguem manter o estilo.
já vi cães com mais estilo do que homens
embora nem todo cão tenha estilo.
isso os gatos têm de sobra.

quando Hemingway estourou seus miolos na parede
com um tiro
aquilo foi estilo.

ou às vezes as pessoas te oferecem estilo.

Joana d’Arc tinha estilo
João Batista
Cristo
Sócrates
César,
García Lorca.

conheci homens na cadeia com estilo.
conheci mais homens na cadeia com estilo
do que os que conheci fora da cadeia.

estilo é o que faz a diferença,
um jeito de realizar,
um jeito de estar realizado.

6 garças paradas numa lagoa
ou você saindo nua do banheiro
sem me
ver.

Poema: Charles Bukowski
Tradução: Fernando Koproski
do livro :
A MOR É TUDO QUE NÓS DISSEMOS QUE NÃO ERA (7 Letras)

domingo, 9 de junho de 2013

Uma árvore, um parque




A praça Taksim e a história de Istambul

ORHAN PAMUK
RESUMO

O Prêmio Nobel de Literatura manifesta apoio aos recentes protestos na praça Taksim, em Istambul, cujo estopim foi a decisão governamental de arrasar o parque Gezi. A partir de vigília realizada por sua família, em 1957, contra o corte de uma castanheira, ele evoca momentos afetivos e políticos ligados à praça e à cidade.

-
Para compreender os acontecimentos em Istambul e entender essas pessoas corajosas que estão nas ruas, combatendo a polícia e sufocando com a fumaça venenosa do gás lacrimogêneo, quero começar com uma história pessoal.

Em meu livro de memórias "Istambul" (Companhia das Letras, 2007), escrevi sobre como minha família inteira vivia nos apartamentos que compunham o prédio Pamuk, em Ni?anta??. Em frente a esse prédio havia uma castanheira de 50 anos de idade, que, felizmente, continua ali. Mas, certo dia, em 1957, o prefeitura decidiu derrubar essa árvore para alargar a rua. Os burocratas presunçosos e governadores autoritários ignoraram a oposição do bairro.

Assim, no dia em que a árvore seria cortada, meu tio, meu pai e a família toda passaram dia e noite na rua, revezando-se para montar guarda. Dessa maneira protegemos nossa árvore; mas também criamos uma memória compartilhada que a família toda ainda recorda com prazer e que nos une.

Hoje a praça Taksim é a castanheira de Istambul e deve continuar a sê-lo. Vivo em Istambul há quase 60 anos e não posso imaginar que haja um único morador da cidade que não tenha pelo menos uma recordação vinculada de algum modo à praça.

Nos anos 1930, o velho quartel de artilharia que agora querem converter num shopping center continha um pequeno estádio de futebol onde eram promovidas partidas oficiais. O famoso "Taksim Gazino", que ocupava o centro da vida noturna de Istambul nas décadas de 1940 e 1950, ficava numa esquina do parque Gezi.

Mais tarde todas essas construções foram demolidas, árvores foram cortadas, novas árvores foram plantadas, e uma fileira de lojas e a galeria de arte mais famosa de Istambul foram instaladas em uma lateral do parque. Nos anos 1960 eu sonhava em ser pintor e expor meus trabalhos nessa galeria.

Nos anos 1970, a praça foi palco de comemorações entusiásticas do Dia do Trabalho promovidas por sindicatos e ONGs de esquerda e, durante algum tempo, eu mesmo participei dessas comemorações. (Em 1977, 42 pessoas foram mortas numa explosão de violência provocada e no caos que a seguiu.) Durante minha juventude, assisti com curiosidade e prazer a toda espécie de partidos políticos --partidos da direita e da esquerda, nacionalistas, conservadores, socialistas, social-democratas-- promovendo comícios em Taksim.

Neste ano o governo proibiu a celebração do Dia do Trabalho na praça. Quanto ao quartel, que supostamente seria reconstruído, todos em Istambul sabem que ele acabaria como mais um shopping ocupando o último espaço verde que resta no centro da cidade.

O fato de que mudanças tão significativas na praça e no parque que abrigam as memórias de milhões de pessoas tenham sido planejadas e realizadas até a etapa da derrubada de árvores sem que a população de Istambul tenha sido consultada antes foi um erro grave do governo de Erdogan.

Fica claro que essa atitude insensível nasce do desvio crescente do governo rumo ao autoritarismo. (O relatório de direitos humanos da Turquia é hoje o pior de uma década.) Mas me enche de esperança e confiança ver que o povo de Istambul não vai abrir mão nem de seu direito de promover manifestações políticas na praça nem de suas memórias sem lutar.


tradução CLARA ALLAIN

O Erotismo

"A atividade sexual de reprodução é comum aos animais sexuados e aos homens, mas,
aparentemente, só os homens fizeram de sua atividade sexual uma atividade erótica, e o
que diferencia o erotismo da atividade sexual simples é uma procura psicológica
independente do fim natural encontrado na reprodução e na preocupação das crianças.
Abandonando essa definição elementar, voltarei imediatamente à fórmula que propus
inicialmente, segundo a qual o erotismo é a aprovação da vida até na morte. Com efeito,
se bem que a atividade erótica seja inicialmente uma exuberância da vida, o objeto dessa
procura psicológica, independente, como eu o disse, da preocupação de reprodução da
vida, não é estranho à morte. Existe aí um paradoxo tão grande que, sem mais demora,
tentarei dar uma aparência de razão de ser à minha afirmação através de duas citações de
Sade:

"Infelizmente, não há nada mais seguro que o secreto, e não há um libertino
que esteja um pouco dentro do vício que não saiba quanto o assassínio tem
de poder sobre os sentidos..."

Numa outra frase mais singular ele diz:

"Não há melhor meio para se familiarizar com a morte do que associá-la a
uma idéia libertina"." (Bataille, "O Erotismo", introdução, p.10)


La inocencia robada

"La enseñanza y el aprendizaje son prácticas profundamente políticas. Son políticas en todos los momentos del circuito: en las condiciones de producción (¿quién produce el saber?, ¿para quién?), en los saberes y en las formas mismas del saber (¿saber de acuerdo con qué plan?, ¿útil para qué?),en su publicación, circulación y accesibilidad, en sus usos profesionales y populares y en sus impactos en la vida cotidiana.
Sin embargo, el discurso al uso sobre la educación no sólo prescinde de la naturaleza ideológica de la enseñanza y el aprendizaje, sino que excluye también del ámbito político la cultura, reduciéndola a un discurso puramente estético o a una llamada cuasi religiosa para celebrar los "grandes libros" y las
"grandes tradiciones" de la llamada "civilización occidental"".


Henry Giroux

sábado, 8 de junho de 2013

ESTA GENTE



Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSON

Notas Sobre o Anarquismo

'As autoridades que são ilegítimas, e que, portanto, não podem se justificar, são aquelas que não estão fundadas no direito e na razão. A autoridade que cria opressão de qualquer tipo - seja ela econômica, política, de gênero, de raça, ou qualquer outro tipo de discriminação - é uma autoridade ilegítima. Partimos de uma premissa que os homens e as mulheres são livres e que por inúmeras razões, tornaram-se escravos - situação em nos encontramos hoje. Somos escravos do Capital, escravos do Estado, escravos dos preconceitos, enfim, escravos pelos mais diferentes motivos. Qualquer ato de autoridade que contribua para que esses laços de escravidão se apertem ou para que eles sejam estendidos, é um ato de autoridade ilegítima. Deve ser denunciado e combatido portanto.

A priori, a utilização da autoridade é sempre ilegítima, até que se prove o contrário. “Então, o ônus da prova está sempre sobre aquele que alega que alguma relação autoritária e hierárquica é legítima. Se não puderem provar, ela [a autoridade] deverá ser desmantelada.”


Noam Chomsky

terça-feira, 4 de junho de 2013

« Mieux vaut une amère vérité qu’un doux mensonge. »

Proverbe russe
 

Leon Tolstóy e Maksim Górky

en Yasnaya Poliana 1900

O apanhador no campo de centeio

Não é nada engraçado ser covarde. Talvez eu não seja totalmente covarde. Sei lá. Acho que talvez eu seja apenas em parte covarde, e em parte o tipo de sujeito que está pouco ligando se perder as luvas. Um de meus problemas é que nunca me importo quando perco alguma coisa – quando eu era pequeno minha mãe ficava danada comigo por causa disso. Tem gente que passa dias procurando o que perdeu. Eu acho que nunca tive nada que me importaria muito de perder. Talvez por isso eu seja em parte covarde. Mas isso não é desculpa. Sei que não é. O negócio é não ser nenhum um pouquinho covarde. Se é hora de dar um soco na cara de alguém, e dá vontade de fazer isso mesmo, a gente não devia nem conversar. Mas não consigo ser assim. (JD Salinger. O apanhador no campo de centeio, 18ª ed., Editora do Autor, p.91)

sábado, 1 de junho de 2013

A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça.
E promete incendiar o país.

Ferreira Gullar

"Vivemos hoje novas formas de vida, novos regimes precisam criar identidades que se adaptem a eles. Daí que é comum hoje governos e meios de comunicação inventarem um passado. Como dizia George Orwell, estamos em uma idade em que o presente controla o passado. Altera-se a História para servir aos interesses de alguns poucos grupos [...] É vital o historiador lutar contra a mentira. O historiador não pode inventar nada, e sim revelar o passado que controla o presente ás ocultas".

ERIC. J. HOBSBAWM.


Robson Bertasso - Equipe História Agora.

“Reflexões sobre o Romance-rio”

"Todo mundo tem pressa. A vida se tornou tão múltipla, tão estonteamente tentacular, que o homem, no afan de tudo gozar, de tudo aprender, de tudo penetrar - procura a síntese, sofre da mania do comprimido, vive assombrado pelo relógio, a procurar o máximo de prazer e de experiência no mínimo de tempo. No meio de toda essa balbúrdia a que já nos vamos habituando, há um fenômeno muito curioso que desafia o nosso espírito de análise. É o que o século da pressa, da síntese, da falta de repouso para a leitura - o romance-rio, o romance caudaloso, o romance camalhaço ressurge a melhor maneira."

- Erico Verissimo, em “Reflexões sobre o Romance-rio”. Revista do Globo, 213, 1937. p 17.

AO IDEAL

AO IDEAL
A quem como a ti amei eu, ó sombra amada!
Atraí-te a mim, para dentro de mim-- e desde então
quase me fiz eu sombra, e corpo tu.
Todavia os meus olhos não aprendem,
afeitos a ver as coisas fora de si:
pra eles és sempre o eterno "fora de mim".
Ah, estes olhos põem-me fora de mim!"

(F. Nietzsche, "POEMAS", antologia, versão portuguesa e notas de Paulo Quintela, 2ªed revista, Centelha, Coimbra 1981, p.191. )
“Inútil reter
a ignóbil mão suja
posta sobre a mesa.
Depressa, cortá-la,
fazê-la em pedaços
e jogá-la ao mar!
Com o tempo, a esperança
e seus maquinismos,
outra mão virá
pura – transparente –
colar-se a meu braço.”

Carlos Drummond de Andrade

roberto piva - entrevista a claudio r. da silva, 1994


Antonin Artaud, que era um poeta xamânico, dizia: "- O sexo tem que ser frio,
mercurial como o éter". E Ferenczi, denominado enfant terrible da psicanálise,
afirma que não existe a fase anal, genital, mas que a libido é flutuante. Nesse
sentido, a questão da identidade é inexistente: o gay não existe para a libido.

fonte : Rubens Zárate


Coisas da Gramática Polaca


Przyimki – preposições
Dopełniacz – genitivo
Bez (sem), blisko (perto),dla (para), do (para), koło (ao redor), niedaleko (próximo), obok (ao lado), od (a partir de), z (de), u (de), oprócz (além).
Miejscownik - locativo
Na (na), o (sobre), przy (ante), w (em), po (pós, depois)
Biernik – acusativo
Wśród (entre), podczas (durante), z powodu (em razão de), na (na), nad (sobre), o (sobre), po (depois), pod (sob), przed (antes), przez (ao longo, por), za (atrás)
Narzędnik – instrumental
Między (entre), nad(sobre, pod (sob), przed (antes), z (de), za (atrás, pós)

Preposições comuns a dois casos de declinação:
Na = locativo, acusativo
O = locativo, acusativo
Po = locativo, acusativo
Nad = instrumental, acusativo
Pod = instrumental, acusativo
Przed = instrumental, acusativo
Za = instrumental, acusativo

Z = instrumental, genitivo

O que é a vida?

''O motivo pelo qual nosso ego sensível, perceptivo e pensante não se encontra em nenhum lugar dentro de nossa imagem científica do mundo, pode ser facilmente exposto em oito palavras: porque ele próprio é essa imagem do mundo.É idêntico ao todo e portanto não pode estar contido nele como sua parte.''
-Erwin Schrödinger


[ ''O que é a vida?'' O Paradoxo aritmético: A unicidade da Mente]

quarta-feira, 29 de maio de 2013

"Quero uma poesia que mate"
LeRoi Jones

Estamos a dormir e a sonhar que acordámos
com os nervos ligados
a uma bateria de imagens coléricas,
pólvora enrolada na língua
e dedos recriminadores apontando tudo,
dedos enfiados bem fundo na garganta, nessa ferida absurda.

Já tive oportunidade de dizer-te que sou um animal obcecado,
que faço o olhar descer como a noite pelas costuras
no vestido de senhoras sentadas a uma hora destas,
lendo bestsellers nos cafés mais demorados
de Lisboa. Posso agora acrescentar que perdi toda a esperança
de vir a ser recolhido nas suas mãos e de ser acarinhado
nesses regaços, a não ser
que sejam elas a mudar de ideias,
que lhes suba ao espírito um fervor demencial
e rasgando o ventre dêem à luz um eloquente suicida.

Estamos eu, tu, estamos todos à espera
de uma criança em chamas que venha fazer letra morta
dos discursos que nos afogam, de todos os poetas já nacionalizados
e da exausta metafísica que nos gela o sangue.
Essa criança tarda em vir, se calhar calou-se à nascença,
seja como for
não nos resta outra coisa senão chamar mais alto.
Enquanto não vem
vamos nós saindo de chinelos para o cosmos,
em busca desse electro-choque experimental, o texto-motor
que nos vai servindo de exercício e passatempo.

À noite deixo a luz do corredor acesa e a porta do quarto
entreaberta,
não por medo do escuro, mas para conduzir
os demónios aos meus sonhos.
Quero acordar inspirado, há que erguer uma obra
nem que seja só para depois vê-la arder.
Morrer para ela – ainda que vivas –,
ainda que depois de estar escrita a última linha,
permaneças à margem e não te deixes convencer.



Diogo Vaz Pinto


Nevralgias
Blogue "O Melhor Amigo"

Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

Cartas a Lucílio

"Quando vires alguém com um estilo rebuscado e cheio de adornos podes ter a certeza de que a sua alma apenas se ocupa igualmente de bagatelas. Uma alma verdadeiramente grande é mais tranquila e senhora de si a falar, e em tudo quanto diz há mais firmeza do que preocupação estilística. Tu conheces bem os nossos jovens elegantes, com a barba e o cabelo todo aparado, que parecem acabadinhos de sair da fábrica! De tais criaturas nada terás a esperar de firme ou sólido. O estilo é o adorno da alma: se for demasiado penteado, maquilhado, artificial, em suma, só provará que a alma carece de sinceridade e tem em si algo que soa a falso."


Sêneca

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Notas de Petersburgo de 1836

de Nikolai Gogol

“Petersburgo é um rapazinho cheio de expediente, nunca fica em casa, sempre se veste com capricho e, todo enfeitado diante da Europa, faz uma reverência para as pessoas de além-mar. (...) Moscou é um grande bazar; Petersburgo é uma loja iluminada. Moscou é necessária para a Rússia; para Petersburgo, a Rússia é necessária.”

“Em suma, Petersburgo, todo o mês de abril, parece preparar-se para alçar vôo. Desprezar com alegria a vida sedentária e sonhar o tempo todo com estradas distantes, sob outros céus, nos bosques verdejantes do sul, em terras de ar novo e fresco. Com alegria para aquele a quem, no fim de uma rua de Petersburgo, se delineiam as montanhas do Cáucaso cobertas de nuvens, ou os lagos da Suíça, ou a Itália coroada de anêmonas e loureiros, ou a linda Grécia e suas vastidões desertas... Mas basta, meu pensamento: em ambos os lados à minha volta, ainda se erguem as casas de Petersburgo...”

O Chicago! O Widerspruch!

 Volker Braun


Oh Chicago! Oh discrepância! / Brecht, teu charuto acabou se apagando? / Durante os terremotos que provocamos / Nos Estados construídos sobre a areia. / O socialismo vai-se, lá vem Johnny Walker. / Não consigo fixá-lo nos pensamentos / Que aliás estão caindo. As ruas quentes / De outubro são as trilhas frias / Da economia, Horácio. Enfio o chiclete / na bochecha / Eis que é chegado o nada significante.

Koktebel

Para meus versos, escritos num repente
Quando eu nem sabia que era poeta,
Jorrando como pingos de nascente,
Como cintilas de um foguete,

Irrompendo como pequenos diabos,
No santuário, onde há sono e incenso,
Para meus versos de mocidade e morte,
— Versos que ler ninguém pensa! –

Jogados em sebos poeirentos
Onde ninguém os pega ou pegará)
Para meus versos, como os vinhos raros,
Chegará seu tempo.

Maio de 1913 - Koktebel
Marina Tsvetaeva

*em russo*

Моим стихам, написанным так рано,
Что и не знала я, что я — поэт,
Сорвавшимся, как брызги из фонтана,
Как искры из ракет,

Ворвавшимся, как маленькие черти,
В святилище, где сон и фимиам,
Моим стихам о юности и смерти,
— Нечитанным стихам!

Разбросанным в пыли по магазинам,
Где их никто не брал и не берёт,
Моим стихам, как драгоценным винам,
Настанет свой черёд.

Коктебель, 13 мая 1913
Цветаева
.



Paraíso perdido


Aryia

De extremo a extremo
O céu está pegando fogo
E nele desaparecem
Todas as esperanças e sonhos.

Mas você está dormindo
E um anjo voa na sua direção
Limpa suas lágrimas,
E no sono você ri!

Adormeça,
Nos meus braços adormeça,
Adormeça
Sob a melodia da chuva...
Lá longe
Lá onde termina a borda do céu
Você encontrará
O paraíso perdido.

No sono um demônio astuto
Pode atravessar paredes
E o fôlego dos adormecidos
Ele sabe raptar.

Não é preciso ter medo,
Minha alma estará por perto,
Para os teus sonhos
Velar até o amanhecer.

Estendo minhas mãos -
Para você encher com sua dor,
Encha-as com a tristeza
Com o medo das trevas que ecoam,

E você nem perceberá
Que o céu está pegando fogo
E a vida desmantelando
Todas as esperanças e sonhos.

Adormeça,
Nos meus braços adormeça,
Adormeça
Sob a melodia da chuva...
Lá longe
Lá onde termina a borda do céu
Você encontrará
O paraíso perdido.

*em russo*

~Потерянный рай~
Группа Ария

От края до края
Hебо в огне сгорает,
И в нем исчезают
Все надежды и мечты.

Hо ты засыпаешь,
И ангел к тебе слетает,
Смахнет твои слезы,
И во сне смеешься ты!

Засыпай,
Hа руках у меня засыпай,
Засыпай
Под пенье дождя...
Далеко,
Там, где неба кончается край,
Ты найдешь
Потерянный рай.

Во сне хитрый демон
Может пройти сквозь стены,
Дыханье у спящих
Он умеет похищать.

Бояться не надо,
Душа моя будет рядом,
Твои сновиденья
До рассвета охранять.

Подставлю ладони -
Их болью своей наполни,
Hаполни печалью,
Страхом гулкой темноты,

И ты не узнаешь,
Как небо в огне сгорает,
И жизнь разбивает
Все надежды и мечты.

Засыпай,
Hа руках у меня засыпай,
Засыпай
Под пенье дождя...
Далеко,
Там, где неба кончается край,
Ты найдешь
Потерянный рай.


domingo, 26 de maio de 2013

fragmento

me declaro cavalo e pecador
temporais de um corpo inexistente.
em dezembro me caso por amor."

romério rômulo

fragmento

me declaro cavalo e pecador
temporais de um corpo inexistente.

em dezembro me caso por amor."

 romério rômulo
"Para quem vive numa jaula, afogar-se é o melhor que lhe pode suceder.".

 (Por MIA COUTO)
Roberta Tostes Daniel

Poesia feita escápula,
acesa em Ícaro
(desvelo de seus remos),
praias abertas em que nadam
antigos desastres.

Ou sob o eixo da lua, sangrenta,
enchendo o mar para o que bebe,
águas singradas de sono
tangendo a pureza, até o leite.

Porque sucumbem, suas imagens
trazem o retrato potencial:
o exame das formas inexistentes.

E ilhargas, calos, tendões;
anatomia alada;
escreve-se para rompê-la.

Chegar onde saúdam -
o sol do breve entendimento.



Destino em minhas mãos

Não quero sentir o fio da navalha em meu pescoço tão pouco a lamina de uma
espada.
Mas se o destino que tenho não for possível ser mudado .
Não me resta nada esperar.
A cigana leu o meu destino,torço para ela ter errado.
Minhas mãos não ficam mais a mostras,tenho receio de uma outra cigana traçar o mesmo destino.
Olho para as ruas !
cada canto vejo se encontro um beco para eu me esconder da morte que está a caminho.
Procuro no nada, para ver se encontro o tudo.
O tudo não existe.
Que tolo sou eu!
Apesar de estar vivo não enxergo nada .
Fecho os olhos e faço um ensaio para a morte.
Sinto a sensação de alegria,descubro que a vida é uma ilusão,e que a morte por certa é a única razão.
Razão por eu ter nascido,ter crescido,ter amado,ter sido amado,ter odiado,sendo também odiado,ter sido triste,alegre,feliz,infeliz.
Momentos de harmonia sutis fizeram com que eu me sentisse preso neste mundo.
Volto para a realidade.
Frente ao espelho de meu banheiro com a navalha nas mãos,olho a lamina reluzente e me pergunto:
Como posso ter medo do fio da navalha?
Será que vou me suicidar?
A cigana se enganou.
Rio com um sorriso de satisfação ,por ter a certeza que a cigana não conhece as linhas de minhas mãos.
O destino a mim pertence e sendo assim ,pego uma espada para cortar o corpo da mulher que me enganou.
Encontro a arma cheia de poder naquele momento.
Sim,ela decidira se a cigana continuara a viver.
Espada na cinta saio á procura da velha adivinha.
Encontro uma esquina.
Lá está ela sentada em uma pedra a me esperar,me aproximo sem nada falar.
Ela me olha sem medo e sem nada dizer.
Empunho a espada ao alto e falo:
Esta é a arma da justiça,pagará com a vida por ter me enganado.
Falou-me que estava escrito em minhas mãos.
que a morte estava a me rondar e que o suicídio estava a caminho.
Como pode ver agora, nada me aconteceu.já esta para escurecer e não deixarei passar impune a sua mentira.
Desço o braço com toda força que tenho ,para atingir o meu alvo.
A lamina bate ao lado da cigana,atingindo a pedra em que ela se encontra sentada.
Perco o equilíbrio e bato com a cabeça na pedra.
O ensaio de antes torna-se realidade.
Um filete de sangue escorre de minha cabeça a céu aberto e a espada ao meu lado
Faz se cumprir o destino que a cigana havia previsto.
Agora vivo no mundo da razão ,quem sabe um dia voltarei ao mundo da ilusão.



Ubirajara Souza


 Casi fuera del cielo ancla entre dos montañas 
la mitad de la luna. 
Girante, errante noche, la cavadora de ojos. 
A ver cuántas estrellas trizadas en la charca. 

Hace una cruz de luto entre mis cejas, huye. 
Fragua de metales azules, noches de las calladas luchas, 
mi corazón da vueltas como un volante loco. 
Niña venida de tan lejos, traída de tan lejos, 
a veces fulgurece su mirada debajo del cielo. 
Quejumbre, tempestad, remolino de furia, 
cruza encima de mi corazón, sin detenerte. 
Viento de los sepulcros acarrea, destroza, dispersa tu raíz soñolienta. 
Desarraiga los grandes árboles al otro lado de ella. 
Pero tú, clara niña, pregunta de humo, espiga. 
Era la que iba formando el viento con hojas iluminadas. 
Detrás de las montañas nocturnas, blanco lirio de incendio, 
ah nada puedo decir! Era hecha de todas las cosas. 

Ansiedad que partiste mi pecho a cuchillazos, 
es hora de seguir otro camino, donde ella no sonría. 
Tempestad que enterró las campanas, turbio revuelo de tormentas 
para qué tocarla ahora, para qué entristecerla. 

Ay seguir el camino que se aleja de todo, 
donde no esté atajando la angustia, la muerte, el invierno, 
con sus ojos abiertos entre el rocío
PABLO NERUDA
 [Nada de revolta: honremos as idades nas suas quedas sucessivas e o tempo na sua voracidade.]
 Victor Segalen

[Descansa do som no silêncio, e do silêncio digna-te tornar ao som. Sozinho, se souberes estar só, deixa-te ir por vezes até à multidão.] 
Victor Segalen

Fallece Calderón de la Barca



25 de mayo de 1681

El 25 de mayo de 1681 falleció el dramaturgo español Pedro Calderón de la Barca. Estudió en Alcalá de Henares, Salamanca y viajó por Italia y Flandes donde empezó a escribir sus primeras obras Amor, honor y poder y El mayor encanto, el amor.

Fue ordenado sacerdote en 1561 y llegó a ser el dramaturgo más exitoso de la corte. En 1663 el rey lo designó capellán de honor y se trasladó definitivamente a Madrid.

Su producción artística consta de ciento diez comedias y ochenta autos sacramentales, loas, entremeses y otras obras menores. Calderón partió de las pautas dramáticas establecidas por Lope de Vega y entre sus obras destacan: El príncipe constante y El mágico prodigioso, El alcalde de Zalamea, La vida es sueño, una de las obras de la literatura española de valor universal. Con Calderón de la Barca adquirieron especial relevancia la escenografía (maneras de apariencia) y la música.

Meu amorzinho



Meu amorzinho
Leve-me com você
Lá na terra distante
serei tua esposa

Minha querida,
Eu te levaria
Mas lá na terra distante
eu já tenho esposa.

Meu amorzinho
Leve-me com você
Lá na terra distante
serei tua irmã.

Minha querida,
Eu te levaria
Mas lá na terra distante
eu já tenho irmã.

Meu amorzinho
Leve-me com você
Lá na terra distante
serei uma estranha pra ti.

Minha querida,
Eu te levaria
Mas lá na terra distante
eu não preciso de uma estranha.

*em russo*

~Миленький ты мой

Миленький ты мой
Возьми меня с собой
Там в краю далёком
буду тебе женой

Милая моя,
Взял бы я тебя
Но там в краю далёком
есть у меня жена.

Миленький ты мой
Возьми меня с собой
Там в краю далёком
буду тебе сестрой

Милая моя,
Взял бы я тебя
Но там в краю далёком
есть у меня сестра.

Миленький ты мой
Возьми меня с собой
Там в краю далёком
буду тебе чужой

Милая моя,
Взял бы я тебя
Но там в краю далёком
чужая ты мне не нужна.

(Bem-feito... hehehe)


.
Se não morre aquele que escreve um livro
ou planta uma árvore,
com mais razão não morre o educador
que semeia a vida e escreve na alma.

(Bertold Brecht)

BRIONI


à Annie

Os cervos são borboletas
as borboletas são peixes
os peixes são claridade
a claridade é morte
a morte é laranja
a laranja é vulcão
o vulcão é feno
o feno é elefante
o elefante é afogamento
o afogamento é riso
o riso é montanha
a montanha é anel
o anel é solidão
a solidão é areia
a areia é roda
a roda é terremoto
o terremoto é cílios
os cílios são cascata
a cascata é bigorna
a bigorna é lembranças
as lembranças são vermelho
o vermelho é chicote
o chicote é fim
o fim é mel
o mel é nuvem
a nuvem é o infinito
o infinito é infinito
( 22 de junho de 2001)

BRIONI
à Annie

Les cerfs sont papillons
les papillons sont poissons
les poissons sont clarté
la clarté est mort
la mort est orange
l’orange est volcan
le volcan est foin
le foin est éléphant
l’éléphant est noyade
la noyade est rire
le rire est montagne
la montagne est anneau
l’anneau est solitude
la solitude est sable
le sable est roue
la roue est tremblement de terre
le tremblement de terre est cils
les cils sont cascade
la cascade est enclume
l’enclume est souvenirs
les souvenirs sont rouge
le rouge est fouet
le fouet est fin
la fin est miel
le miel est nuage
le nuage est l’infini
l’infini est infini

IVSIC, Radovan. "BRIONI". In:Poesia Reunida. Tradução de Eclair Antonio Almeida Filho.1. Ed.,Lumme Editor, São Paulo, 2013, p.p. 304. 305.

Fonte : Vidraguas


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Na Gare




Selma Baptista :Estou aqui pensando nesta pequena estação de trem da minha cidade natal há muito e muitos anos... quando talvez eu ainda nem existisse! Que linda metáfora da vida... partir, voltar, esperar... movimentos que nós fazemos ao longo da vida e na maioria das vezes nem percebemos! Acho lindo isso. Já andei olhando várias fotos de pequenas estações de trem, perdidas no tempo! Lírico.

Olinto Simões- Prefiro pensar sobre a vida no local onde desembarquei do trem que me trouxe, e aproveitar muito bem o tempo que tenho antes que precise eu, na mesma estação, embarcar no trem que me levará.
De onde ele saiu, pra me trazer, não faço a menor ideia, pra onde me levará..., idem. Portanto, cumpre-me aqui onde estou, fazer o meu melhor. Pelo menos, tento, se consigo, é outra história.