terça-feira, 7 de dezembro de 2010

João de todo o Rio

Mais atual do que nunca, o jornalista e escritor que encantou e chocou o Brasil do início do século XX ganha nova versão de sua biografia e filme


Há casos em que o biógrafo pode virar uma espécie de parteiro do renascimento de seu personagem. Foi o que aconteceu com o jornalista e pesquisador João Carlos Rodrigues, que, na quarta-feira, lança na livraria DaConde “João do Rio: vida, paixão e obra” (Civilização Brasileira), nova versão do revelador livro “João do Rio: uma biografia”, que publicou em 1996 pela Topbooks. Na época, Rodrigues já tinha feito bastante pela recuperação da obra do jornalista, escritor, tradutor e dramaturgo

então quase esquecido, mas que, entre integrantes da sociedade carioca letrada do início do século XX, flanava com status de popstar.

— No fim dos anos 70, o jornal “Lampião”, de Aguinaldo Silva e João Silvério Trevisan, queria fazer uma editora e propus uma antologia de João do Rio, autor que eu era um dos poucos de minha geração a conhecer, e sabia sensacional — explica Rodrigues, de 61 anos, que, não tendo visto o projeto do “Lampião” avançar, resolveu aproveitar o centenário de nascimento de seu personagem, em 1981, e sondar outras opções. — Botei tudo num envelope e mandei pelo correio para três editoras importantes. Menos de uma semana depois, Ivan Cavalcanti Proença, então na José Olympio, me ligou. Fui lá, assinei o contrato, e o livro saiu com o título “Histórias da gente alegre”. Fácil assim. No entanto, despertou a ira de Josué Montello, mas recebi uma boa crítica de Silviano Santiago, e segui pesquisando.

No início dos anos 90, Rodrigues frequentou por dois anos, quase que diariamente, a Biblioteca Nacional atrás de textos inéditos de João do Rio para um novo trabalho. A coleta foi tão frutífera que rendeu um Catálogo Bibliográfico, editado pelo Arquivo da Cidade, hoje raríssimo. — Localizei cerca de 2.500 artigos e reportagens de jornal sobre variados assuntos, da crônica da cidade à política internacional. Poucos sabem, mas ele cobriu a Conferência de Versalhes, que definiu os rumos do mundo após a Primeira Guerra Mundial — relata Rodrigues, que também descobriu textos nos quais ele foi ghost writer, como as memórias do marinheiro João Cândido, ou o delicioso “Memórias de um rato de hotel”, ditado por um preso na cadeia. — Com tanta novidade, vi que havia material para uma biografia mais completa do que a existente, de Raimundo Magalhães Junior.

Com esse material nas mãos, Rodrigues concorreu à Bolsa Vitae, em 1993, e ganhou: — O livro foi editado em 1996 e despertou ódios e amores muito exacerbados, o que me espantou, pois se trata de um autor do tempo da Velha República! Uma famosa revista dedicou quatro páginas a falar mal de mim e dele. Um resenhista sugeriu que eu queimasse a edição.

Ou seja, foi a consagração. E assim virou uma espécie de clássico de referência, pois fala do autor, da obra e da época. Desde então, a redescoberta vem crescendo: o próprio Rodrigues preparou três reedições de textos de João do Rio, enquanto não param de surgir estudos acadêmicos — na Unicamp, na PUCRJ, na UFRJ, na Casa de Rui Barbosa.

No momento, o ator Marcus Alvisi tem lotado o Espaço Sesc, em Copacabana, com o monólogo “Dentro da noite”, que idealizou e montou pela primeira vez em 2002, a partir de dois contos de João do Rio. Agora com direção do cantor Ney Matogrosso, outro apaixonado pelo autor, a temporada vai até 19 de dezembro. Há também um filme em andamento, “Muitos homens num homem só”, coprodução da Conspiração com Flávio Tambellini, que será dirigido por Mini Kerti. — O roteiro é livremente inspirado em “Memórias de um rato de hotel”, mas tem personagens famosos e de outros livros dele, como o Barão Belford e Eva — diz a cineasta. — Além disso, eu e o roteirista Leandro Assis inserimos o Felix Pacheco, que sai no encalço do personagem principal, Dr. Antônio. O Dr. Antônio, aliás, é um personagem verídico, inclusive com fotos em jornal ilustrando o artigo do João do Rio sobre ele. Lemos vários livros dele para trazer o clima da época para o roteiro, que se passa no início do século passado, durante as renovações de Pereira Passos e as vacinas de Oswaldo Cruz.

Pioneiro nesse movimento, Rodrigues comemora e quer mais: — João do Rio é tão complexo que dá para todos. Mulato, gordo, homossexual — um dândi, que escandalizava a sociedade da época com seu vestuário extravagante e suas falas e posturas afetadas —, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto veio de família pobre e, ainda adolescente, mostrou seus dotes literários. Talento que o levaria à Academia Brasileira de Letras, em 1910, aos 29 anos, na sua terceira tentativa,

sendo o primeiro a tomar posse usando o “fardão dos imortais”. Reconhecido em Portugal, que visitou pela primeira vez em 1908, quando também conheceu a França, cicerone e amigo de Isadora Duncan na passagem da bailarina pelo Rio, ele estava em todas. Mas, da mesma forma como rapidamente ascendeu socialmente, João do Rio (um de seus muitos pseudônimos, o mais famoso, criado em 1903) foi logo esquecido após sua morte precoce, vítima de um ataque cardíaco, em junho de 1921, a menos de dois meses de seus 40 anos. Além dos livros fora de catálogo, era apenas o nome da Rua Paulo Barreto, em Botafogo.

No mundo do início do século XX, homossexualidade, mais do que tabu, era crime. Daí, como Rodrigues comenta, João do Rio não assumir a sua orientação sexual: — Ele se aborrecia quando alguém tocava no assunto. Mas, por outro lado, provocava. Raspou a cara quando todo homem que se prezava, fora os padres, usava barba ou

bigode. Vestia um fraque todo branco, outro todo verde, e os homens respeitáveis só vestiam preto, marrom ou cinza. Falava de forma muito afetada, e Gilberto Amado conta que juntavam curiosos na porta dos jornais onde trabalhava apenas para vê-lo falar, cheio de caras e bocas. Isso provocou uma reação homofóbica dos jacobinos, como era conhecida a extrema direita da época. João do Rio foi espancado num restaurante do Largo da Carioca por oficiais da Marinha. Enquanto Humberto de Campos e Antonio Torres encabeçaram uma das campanhas mais sórdidas já feitas contra um jornalista por seus colegas de profissão. Típico bullying.

Apesar desses incidentes, Rodrigues não acredita que a homossexualidade tenha contribuído para o esquecimento de João do Rio. Em contrapartida, influiu decisivamente

nesse redescobrimento dos últimos anos. Detalhe pessoal que o aproximaria do escritor inglês Oscar Wilde, num paralelo que também é possível ao analisar sua obra literária. — A comparação é pertinente porque realmente há mais do que simples coincidências. O estilo camp, a ironia, as frases de efeito, os adornos de estilo que quase escondem a preocupação social e as simpatias libertárias. E ele traduziu Wilde, “Intenções”, “O retrato de Dorian Gray” e “Salomé” — lista Rodrigues.

— Susan Sontag afirmou serem o camp e o art nouveau formas de expressão da sensibilidade homossexual. Certíssima. Mas o paralelo com Wilde pode também ser redutor porque João do Rio foi bem mais que um pastiche da cultura estrangeira. É o cronista carioca por excelência, ao lado de Machado de Assis, Lima Barreto, Noel Rosa, Nelson Rodrigues. Boa parte da mitologia da cidade foi criada por ele. Se não tivesse existido, teria de ser inventado.

João do Rio era tão enfronhado na vida carioca que, ainda segundo Rodrigues, teria antecipado a ideia da “cidade partida” cunhada por Zuenir Ventura nos anos 90. Daí a permanência de sua obra, um século depois: — Bem, vivemos na “lesma lerda”, e a mesma maravilha. Injustiça social num belo cenário natural. Seres humanos interessantes e imprevisíveis na sua mistura de raças e cores e religiões. Bela cultura popular, interessante cultura decadente das elites. Em 1908, ele já acenava com o conceito de “uma cidade dentro da outra cidade”, falando de uma favela no morro de Santo Antonio.

Em seus textos, João do Rio também, de alguma forma, antecipa o novo jornalismo: — Na verdade, o jornalismo moderno nasceu em Paris e Londres no fim do século XIX e daí influenciou o mundo inteiro. Surgiram as manchetes, as fotografias, as charges, o lead, o subtexto, e principalmente a crônica e a reportagem. João do Rio foi um mestre nas duas. Visitou in loco centros de candomblé, subiu morros e favelas, frequentou casas de tias baianas na Saúde, fez crônica social entre grã-finos, entrou em todos os ambientes, escrevendo quase sempre na primeira pessoa. Ou seja, João de todo o Rio

Fonte – O GLOBO

Cuento de horror

La señora Smithson, de Londres (estas historias siempre ocurren entre ingleses) resolvió matar a su marido, no por nada sino porque estaba harta de él después de cincuenta años de matrimonio. Se lo dijo:



-Thaddeus, voy a matarte.



-Bromeas, Euphemia -se rió el infeliz.



-¿Cuándo he bromeado yo?



-Nunca, es verdad.



-¿Por qué habría de bromear ahora y justamente en un asunto tan serio?



-¿Y cómo me matarás? -siguió riendo Thaddeus Smithson.



-Todavía no lo sé. Quizá poniéndote todos los días una pequeña dosis de arsénico en la comida. Quizás aflojando una pieza en el motor del automóvil. O te haré rodar por la escalera, aprovecharé cuando estés dormido para aplastarte el cráneo con un candelabro de plata, conectaré a la bañera un cable de electricidad. Ya veremos.



El señor Smithson comprendió que su mujer no bromeaba. Perdió el sueño y el apetito. Enfermó del corazón, del sisema nervioso y de la cabeza. Seis meses después falleció. Euphemia Smithson, que era una mujer piadosa, le agradeció a Dios haberla librado de ser una asesina.

FIN


Fonte : Ciudad Seva


domingo, 5 de dezembro de 2010

A morte épica do leão

Em seu bonito poema sobre a morte de Tolstoi, Mario Quintana errou por dois anos a idade do defunto (que já tinha 82), mas acertou no fundamental: o “grande Velho” talvez tenha morrido feliz, por haver concretizado, enfim, um sonho de infância: fugir de casa. O Conde Leão Tolstoi apagou de vez sob o teto do chefe da estação de trem da modesta Astapovo, que há 90 anos leva o nome de quem a tornou mundialmente conhecida. Fugia de casa, da mulher, dos adulões, em busca de uma reclusão monacal, mas não viajou nem morreu sozinho, abandonado num dos “bancos lustrosos” da gare, aludidos por Quintana. Com ele estavam seu médico particular e Sasha, a filha caçula.

Seria impossível ao mais célebre e cultuado russo daquele tempo desaparecer discreta e solitariamente. Muito menos em meio a uma fuga que, tão logo iniciada, dez dias antes, transformara-se numa épica caçada internacional, com a participação de jornalistas de toda a Europa. Tolstoi sucumbiu às consequências de uma pneumonia, ao raiar o dia 20 de novembro de 1910, às 6h05, hora que para sempre ficou congelada nos relógios da gare de Astapovo. Uma multidão acompanhou o velório, o cortejo, o enterro e, antes disso, a tumultuosa chegada de Sofia, a esposa abandonada, a quem só permitiram ver de perto o marido quando ele já estava inconsciente.

A morte de Tolstoi foi o primeiro grande evento midiático da Rússia acompanhado por câmeras fotográficas e cinematográficas, relatado por telegramas e imagens de cinejornais, as primeiras das quais chegaram a Paris em apenas 48 horas, com o selo da Pathé Films. Até hoje o circo que se armou em Astapovo é motivo de curiosidade e inspiração para historiadores (vide The Death of Tolstoy, de William Nickell, lançado em maio) e até ficcionistas, que o consideram o marco divisório entre a Rússia czarista que então definhava e a Rússia moderna que sete anos depois surgiria no rastro da revolução bolchevique.

Em 1917, o correspondente em Moscou do New York Times atribuiu a sublevação comunista aos “tolstoístas”, fanáticos seguidores das ideias vagamente “de esquerda” do escritor, tolice só em parte desculpável pelo pouco que se conhecia dos bolcheviques, ainda vistos por observadores de fora como uma malta de mujiques ripongas. O czar Nicolau pôs o escritor sob a vigilância de seus secretas, tentou censurar seus escritos e boicotar seu funeral, Lenin viu em sua obra um reflexo dos ideais revolucionários comunistas, mas a influência de Tolstoi e sua morte sobre os acontecimentos que culminaram com a tomada do poder pelos bolcheviques foi sobretudo (ou apenas) simbólica.

Em sua notável estreia na ficção, The Comisariat of Enlightment: A Novel (O Comissariado das Luzes: Um Romance), Ken Kalfus reconstitui a Revolução de Outubro e a posterior doutrinação em massa do povo russo por Lenin e Stalin a partir do frenesi jornalístico que sacudiu a mansidão de Astapovo, na terceira semana de novembro de 1910. No mesmo vagão de um trem, Kalfus alojou um cinegrafista russo, Kolya Gribshin, subordinado a Georges Meyer, o verdadeiro cameraman encarregado pela Pathé de cobrir a chegada de Sofia a Astapovo, o correspondente de um jornal britânico e o anatomista Vladimir Vorobev, a quem mais tarde caberia embalsamar Lenin e Stalin.

O romance, lançado em 2004, é uma tragicomédia com personagens reais e imaginários, na qual Sofia, rompendo com o clichê, não é reduzida a uma mulher impossível, a uma louca insuportável que Tolstoi já deixou tarde. São grandes as suspeitas de que ela, sra. Tolstoi durante 48 anos, tenha sido injustiçada pelos que se ocuparam de manter o escritor, imaculado, num pedestal messiânico. Ambos tinham defeitos, mas por que tanta intransigência com uma mulher que afinal pariu 13 filhos do conde, serviu-lhe de copista e resignou-se a aturar o isolamento rural, o estilo de vida espartano e o vegetarianismo por ele impostos ao casal, mais as hostilidades de Chertkov, assistente e xodó do escritor, e as constantes romarias de tietes até o retiro de Iasia Poliana?

Os diários de Sofia, só há pouco divulgados, e as recentes biografias escritas por Rosamund Bartlett (sobre Tolstoi) e Alexandra Popoff (sobre Sofia), nos revelam uma mulher bem diferente daquela a quem até já acusaram de haver envenenado o marido. Em outro expressivo début literário, The Possessed: Adventures with Russian Books (Os Possuídos: Aventuras com Romances Russos), publicado no início deste ano, a americana de origem turca Elif Batuman levanta a tese de que Tolstoi teria sido assassinado, mas não incrimina Sofia. Os “possessed” do título são uma referência aos “demônios” de Dostoievski, que na canônica tradução de Constance Garnett para o inglês viraram “possuídos”.

Batuman concentra suas suspeitas nas ameaças por carta que Tolstoi recebeu, em 1897, por haver defendido os religiosos de uma seita camponesa. Mas, a despeito das perseguições que a Igreja Ortodoxa e o czar lhe moveram, a tese de assassinato não se sustenta sob o peso da idade e do histórico cardíaco do escritor. Se não morreu feliz, tranquilo desta Tolstoi se foi, pois já se sabia imortal. Um mês depois, segundo Virginia Woolf, “o ser humano” mudou e o modernismo nasceu. Tolstoi desdenhava os modernistas, que no entanto muito lhe devem. Seus monólogos interiores anteciparam o fluxo de consciência de Joyce. Também em suas obras brotou o distanciamento crítico de Brecht. O leão do realismo literário fechou um passado e abriu um futuro.

Sergio Augusto

Prosa de Sábado-O Estado de S.Paulo

O elogio puro da beleza fugaz

Baudelaire vê o artista ”em meio à multidão”


Se a crítica fosse apenas uma atividade de frustrados que procuram defeitos nos outros, o maior poeta francês do século 19 não teria sido também o maior crítico. E Charles Baudelaire (1821-1867) foi ambos. Além de ter sido o primeiro a dar o devido valor a Edgar Allan Poe, o poeta, contista e crítico que os EUA ainda não sabiam valorizar, Baudelaire foi fundamental na crítica de arte. Fundamental, no sentido puro: ele foi aos fundamentos da atividade, de seu papel na interpretação da arte e, por extensão, na interpretação da vida, que a arte recria, critica e enriquece. “Por sorte”, escreve Baudelaire, “surge de tempos em tempos quem coloque as coisas no devido lugar: críticos, amantes da arte, espíritos inquisitivos.”

A frase está no livro O Pintor da Vida Moderna, escrito por ele em 1863 e só agora digno de uma bela edição brasileira, da editora Autêntica, por iniciativa da dupla Tomaz Tadeu (tradução e organização) e Jérôme Dufilho (posfácio e organização). O Homem na Multidão, o célebre texto de Poe, foi sabiamente acrescido ao volume, que é todo ilustrado a cores, tem capa dura e papel cuchê. Curiosamente, depois de tanto tempo ignorada, esse é o terceiro livro produzido nos últimos três anos no Brasil com a crítica de arte de Baudelaire. Em 2008, um trabalho de 1992 de Plínio Augusto Coelho, a tradução dos Escritos Sobre Arte, foi relançado pela editora Hedra. Em 2010, graças a Daniela Kern, a Sulina publicou Paisagem Moderna, com as resenhas dos salões de arte por Baudelaire, acompanhadas de outro material inédito em português, os ensaios de John Ruskin sobre Turner e outros artistas.

E quem era o pintor da vida moderna referido no título? Era Constantin Guys (1802-1892), aquarelista e ilustrador, cronista visual do Segundo Império francês, que provavelmente estaria esquecido hoje se não fosse pelo ensaio de Baudelaire. O autor de As Flores do Mal (1857), porém, não estranharia o fato: ele mesmo se encarrega de dizer que Guys não era um gênio, um Rafael a falar com toda a posteridade, mas um grande talento voltado a seu tempo. “O prazer que extraímos da representação do presente”, diz Baudelaire logo no começo, “deve-se não apenas à beleza de que pode estar revestido, mas também à sua qualidade essencial de presente.” E então ele se põe a analisar as maneiras como Guys captou a essência do presente que vivenciou.

Baudelaire fala das “gravuras de moda” como vinhetas de época animadas pela sensibilidade poética de Guys, que encontrava nessas roupas um “imortal apetite pelo belo” em constante metamorfose e, mais importante, um pretexto para o artista manifestar sua curiosidade sobre o mundo, com suas variáveis morais, políticas e estéticas, com sua diversidade de hábitos, gostos e semblantes. “Imaginem um artista que estivesse sempre, espiritualmente, em estado de convalescença”, continua, “e terão a chave do caráter do Sr. G.” Como uma criança, estava sempre alerta para as novidades, sem preconceito de gênero ou classe, e isso se expressa em linhas ágeis, tintas coloridas, registros sem acabamento, urgentes, de poucos mas significativos detalhes.

Olhando os desenhos e aquarelas reproduzidos no livro, vemos justamente essa vitalidade de Guys, que, como um Daumier mais lírico e menos satírico, prenuncia o impressionismo de Degas ou Lautrec. Na Mulher com Lenço Amarelo, ele ignora as demais cores e não se detém em definir os limites do amarelo a uma peça de roupa; por isso mesmo, nos sugere todo o movimento, a graça, o caráter transeunte e transitivo da cena. Baudelaire defende o gosto feminino por moda, para “pairar acima da natureza”, não para “rivalizar com a juventude”, e Guys como seu cronista civilizado. Ele parece “inebriado”, quase “anárquico”, mas essa velocidade é seu trunfo, porque associada ao dom da contemplação – tanto que suas cenas de guerra ou de sua viagem à Turquia refletem a mesma preocupação com a explosão de luzes e a riqueza de detalhes. No Brasil, intelectuais diriam que isso tudo não passa de frivolidade; não espanta que não vejam o talento gráfico de um Millôr Fernandes.

Quando escreveu sobre um pintor maior, Delacroix (que foi para ele o que Turner foi para Ruskin: a síntese pictórica de todas suas inquietações estéticas), Baudelaire destacou também essa qualidade “mundana”, lembrando a frase dele de que um artista deveria ser hábil o bastante para “fazer um croquis de um homem que se atira pela janela durante o tempo que ele leva para cair do quarto andar ao solo”. Ou seja: a rapidez da percepção, a aptidão gráfica, não faria de um pintor um grande artista, mas seria necessária para um artista moderno, urbano, interessado em renovar as linguagens. Não existe apenas a beleza clássica, das formas gerais; existe também a beleza passageira, das formas particulares – e a modernidade é indissociável dessa atenção ao que é fugaz e móvel.

Não por acaso a centena de poemas de As Flores do Mal é o que é: um mosaico clássico composto de pastilhas modernas – ou, como disse João Cabral de Melo Neto, “está tudo ali”. Não por acaso foi em Baudelaire que Walter Benjamin examinou a figura do flâneur, do observador que caminha pela metrópole e se relaciona com o mercado de consumo, em meio à multidão, e como o homem de Poe passa a ver “com particular interesse as inumeráveis variedades de acessório, roupa, aparência, andar, rosto e expressão facial”. E não por acaso, em 1895, um famoso dândi se baseou em Baudelaire para elogiar Guys numa comparação com Whistler, ainda que este hoje seja reconhecido como melhor pintor – e esse dândi se chamava Robert de Montesquiou, modelo para o Barão de Charlus de outro escritor e crítico de arte, Marcel Proust, admirador e tradutor de Ruskin. Os grandes artistas modernos, enfim, não são nada senão críticos, amantes da arte, espíritos inquisitivos

Daniel Piza
Fonte : O Estado de S.Paulo

Ana de Amsterdam

Composição: Chico Buarque/Ruy Guerra

Sou Ana do dique e das docas

Da compra, da venda, das trocas de pernas

Dos braços, das bocas, do lixo, dos bichos, das fichas

Sou Ana das loucas

Até amanhã

Sou Ana

Da cama, da cana, fulana, sacana

Sou Ana de Amsterdam

Eu cruzei um oceano

Na esperança de casar

Fiz mil bocas pra Solano

Fui beijada por Gaspar

Sou Ana de cabo a tenente

Sou Ana de toda patente, das Índias

Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada

Sou Ana, obrigada

Até amanhã, sou Ana

Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos

Sou Ana de Amsterdam

Arrisquei muita braçada

Na esperança de outro mar

Hoje sou carta marcada

Hoje sou jogo de azar

Sou Ana de vinte minutos

Sou Ana da brasa dos brutos na coxa

Que apaga charutos

Sou Ana dos dentes rangendo

E dos olhos enxutos

Até amanhã, sou Ana

Das marcas, das macas, da vacas, das pratas

Sou Ana de Amsterdam

O Tango

Onde estarão? Pergunta a elegia

Sobre os que já não são, como se houvesse

Uma região onde o Ontem pudesse

Ser o Hoje, o Ainda, o Todavia.

Onde estará (repito) esse selvagem

Que ergueu, em tortuosas azinhagas

De terra ou em perdidas plagas,

A seita do punhal e da coragem?

Onde estarão aqueles que passaram,

Deixando à epopeia um episódio,

Uma fábula ao tempo, e que sem ódio,

Lucro ou paixão de amor se esfaquearam?

Procuro-os na lenda, na apagada

Brasa que, como uma indecisa rosa,

Conserva dessa chusma valorosa

De Corrales e Balvanera um nada.

Que escuras azinhagas ou que ermo

Do outro mundo habitará a dura

Sombra daquele que era sombra escura,

Muranã, essa faca de Palermo?

E esse Iberra (tenham dele piedade

Os santos) que na ponte duma via,

Matou o irmão, Ñato, que devia

Mais mortes que ele, ficando em igualdade?

Uma mitologia de punhais

No esquecimento aos poucos se desgasta.

E dispersou-se uma canção de gesta

Em sórdidas notícias policiais.

Há outra brasa, outra candente rosa

Dos seus restos totais conservadores;

Aí estão os soberbos matadores

E o peso da adaga silenciosa.

Embora a adaga hostil ou essa adaga,

O tempo, os dispersassem pelos lodos,

Hoje, p’ra além do tempo e da aziaga

Morte, no tango vivem eles todos.

Na música prosseguem, na mensagem

Das cordas da viola trabalhosa,

Que tece na toada venturosa

A festa, a inocência da coragem.

Vejo a roda amarela circular

Com leões e cavalos, oiço o eco

Desses tangos de Arolas e de Greco

Que vi bailar no meio da vereda,

Num instante que emerge hoje isolado,

Sem antes nem depois, contra o olvido,

E que tem o sabor do que, perdido,

Perdido está mas foi recuperado.

Os acordes conservam velhas cousas:

Ou a parreira ou o pátio ancestral.

(E por trás das paredes receosas

O Sul tem uma viola, um punhal.)

O tango, essa rajada, diabrura,

Os trabalhosos anos desafia;

Feito de pó e tempo, o homem dura

Menos que a leviana melodia,

Que é tempo somente. O tango cria

Um passado irreal, real embora.

Recordação que não pôde ir-se embora

Morta na luta, algures na periferia.



Jorge Luis Borges



Jorge Luis Borges in Poemas Escolhidos. Edição bilingue. Selecção e Trad. Ruy Belo.

Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp.43-47

sábado, 4 de dezembro de 2010

Soneto

Se, para possuir o que me é dado,

Tudo perdi e eu própio andei perdido,

Se, para ver o que hoje é realizado,

Cheguei a ser negado e combatido.

Se, para estar agora apaixonado,

Foi necessário andar desiludido,

Alegra-me sentir que fui odiado

Na certeza imortal de ter vencido!

Porque, depois de tantas cicatrizes,

Só se encontra sabor apetecido

Àquilo que nos fez ser infelizes!

E assim cheguei à luz de um pensamento

De que afinal um roseiral florido

Vive de um triste e oculto movimento.


António Botto

António Boto

Aves de Um Parque Real

As Canções de António Botto

Editorial Presença

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Amorosa antecipação

Ni la intimidad de tu frente clara como una fiesta

ni la costumbre de tu cuerpo, aún misterioso y tácito y de niña,

ni la sucesión de tu vida asumiendo palabras o silencios

serán favor tan misterioso

como el mirar tu sueño implicado

en la vigilia de mis brazos.

Virgen milagrosamente otra vez por la virtud absolutoria del sueño,

quieta y resplandeciente como una dicha que la memoria elige,

me darás esa orilla de tu vida que tú misma no tienes,

Arrojado a quietud

divisaré esa playa última de tu ser

y te veré por vez primera, quizá,

como Dios ha de verte,

desbaratada la ficción del Tiempo

sin el amor, sin mí.



Jorge Luis Borges in Luna de enfrente(1925) -Versión transcripta por José Ignacio Márquez.,pp 9.



Amorosa antecipação

Nem a intimidade da tua fronte clara como uma festa,

nem o hábito do teu corpo, ainda de menina e misterioso e tácito,

nem a sucessão da tua vida assumindo palavras ou silêncios

serão favor tão misterioso

como olhar o teu sono envolvido

na vigília dos meus braços:

Virgem milagrosamente outra vez, pela virtude absolutória do sono,

serena e resplandecente como a alegria que a memória escolhe,

dar-me-ás essa margem da tua vida que tu própria não tens.

Entregue à serenidade,

divisirei essa praia última do teu ser

e ver-te-ei acaso pla primeira vez

como Deus te verá,

já dissipada a ficção do Tempo,

sem o amor, sem mim.

Una furtiva Lacrima

Una furtiva lagrima


Una furtiva lagrima

negli occhi suoi spuntò

quelle festose giovani

invidiar sembrò

Che più cercando io vo?

Che più cercando io vo?

M’ama, si m’ama lo vedo;

lo vedo.

Un solo istante i palpiti

del suo bel cor sentir!

I miei sospir confondere

per poco ai suoi sospir!

I palpiti, i palpiti sentir

confondere i miei coi suoi sospir!

Cielo, si può morir;

di più non chiedo.

non chedo!

Cielo si può, si può morir!

di non chiedo

non chiedo!

Si può morir!

Si può morir!

d’amor.



Une larme furtive

A jailli dans ses yeux…

Elle paraissait envier

Ces joyeuses jeunes filles…

Que puis-je désirer de plus ?

Que puis-je désirer de plus ?

Elle m’aime, je le vois.

Un seul instant sentir

Les palpitations de son beau coeur

Confondre un moment

Mes soupirs avec les siens

Ciel, on peut mourir, je n’en demande pas plus.

Je ne demande rien de plus.

Ciel, si je peux mourir, si je peux mourir, je n’en demande pas plus.

Je ne demande pas d’amour si je peux mourir, ah oui !



[Ciel, on peut mourir... d'amour !

Vivre sa vie

Victoria (1930)

Saraca, Victoria;

Planté de la noria,

Se fue mi mujer!



Si me parece mentira…

¡Después de seis años

volver a vivir!

Volver a ver mis amigos…

Vivir con mama otra vez…

¡Victoria,

cantemos victoria,

yo estoy en la gloria,

se fue mi mujer!



Me saltaron los tapones

Cuando tuve esta mañana

La alegría de no verla más;

Y es que, al ver que no la tengo,

Corro, salto, voy y vengo

Desatentao. ¡Gracias a Dios,

Que me salvé de andar

Toda la vida atao

Llevando el bacalao

De la emulsión de Scott!

Si no nace el marinero

Que me tire de esa piolita

Para hacerme resollar,

Yo ya estaba condenao

A morir crucificao

Como el último infeliz…



¡Victoria,

saraca, Victoria;

pianté de la noria,

se fue mi mujer!



Me da mucha tristeza el panete

Chicato inocente

Que se la llevó…

¡Cuando desate el paquete

y manye que se ensartó…!



¡Victoria,

cantemos victoria;

yo estoy en la gloria

se fue mi mujer !

João e Maria

Agora eu era o herói

E o meu cavalo só falava inglês

A noiva do cowboy

Era você

Além das outras três

Eu enfrentava os batalhões

Os alemães e seus canhões

Guardava o meu bodoque

E ensaiava um rock

Para as matinês



Agora eu era o rei

Era o bedel e era também juiz

E pela minha lei

A gente era obrigado a ser feliz

E você era a princesa

Que eu fiz coroar

E era tão linda de se admirar

Que andava nua pelo meu país



Não, não fuja não

Finja que agora eu era o seu brinquedo

Eu era o seu pião

O seu bicho preferido

Vem, me dê a mão

A gente agora já não tinha medo

No tempo da maldade

Acho que a gente nem tinha nascido



Agora era fatal

Que o faz-de-conta terminasse assim

Pra lá deste quintal

Era uma noite que não tem mais fim

Pois você sumiu no mundo

Sem me avisar

E agora eu era um louco a perguntar

O que é que a vida vai fazer de mim

SOCIALISME (2010) trailer with English subtitles (Jean-Luc Godard)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Balada para mi muerte

Moriré en Buenos Aires

será de madrugada

Guardaré mansamente

las cosas de vivir

Mi pequeña poesía

de adioses y de balas

Mi tabaco mi tango

mi puñado de spleen

Me pondré por los hombros

de abrigo toda el alba

Mi penúltimo whisky

quedará sin beber

Llegará tangamente

mi muerte enamorada

Yo estaré muerto en punto

cuando sean las seis

Hoy que Dios me deja soñar

A mi olvido iré por Santa Fe

Sé que en nuestra esquina vos ya estás Toda de tristeza hasta los pies Abrazame fuerte que por dentro

Oigo muertes viejas muertes

Agrediendo lo que amé

Alma mía vamos yendo

Llega el día

No llores Moriré en Buenos Aires

Será de madrugada

Que es la hora en que mueren

los que saben morir

Flotará en mi silencio

la mufla perfumada

De aquel verso que nunca

te pude decir

Andaré tantas cuadras

y allá en la plaza Francia

Como sombras fugadas

de un cansado ballet

Repitiendo tu nombre

por una calle blanca

Se me irán los recuerdos

en puntitas de pie

Moriré en Buenos Aires

Será de madrugada

Guardaré mansamente

las cosas de vivir

Mi pequeña poesía

de adioses y de balas

Mi tabaco mi tango

mi puñado de spleen

Me pondré por los hombros

de abrigo toda el alba

Mi penúltimo whisky

quedará sin beber

Llegará tangamente

mi muerte enamorada

Yo estaré muerto en punto

cuando sean las seis

de Astor Piazzolla e Horacio Ferrer
Uma emocionante versão do melhor conto de Chekhov


Antonio Gonçalves Filho – O Estado de S.Paulo

Um dos mais delicados contos de Chekhov, A Dama do Cachorrinho (1899), ganhou há 50 anos uma versão para o cinema quando se comemorava o centenário do escritor russo. O mínimo que se pode dizer dela é que se trata de uma transposição feita de pequenos gestos e filigranas. Seu diretor, Iosif Kheifits (1905- 1995), deu mais de uma vez provas de sua competência como artesão, realizando outras adaptações de grandes escritores, entre eles Turguêniev, de quem filmou Ásia, também uma história de amor impossível como A Dama do Cachorrinho.

Esse conto de Chekhov – que Gorki adorava e Tolstoi detestava (por razões morais) – exige mesmo do leitor uma tomada de posição, o que explica principalmente a elipse final que dá ao texto um caráter de obra aberta. Tolstoi, então, acabara de lançar seu último livro, Ressurreição, quando leu A Dama do Cachorrinho e, talvez por se reconhecer na figura do adúltero Dimitri Gurov, tenha sentido certo desconforto com o conto de Chekhov. Compreensível. Alheio à moral conservadora russa da virada do século, o autor ousou contar uma história de amor entre duas pessoas casadas e entediadas.

Gurov (Aleksei Batalov) trabalha em um banco, apesar de sua formação como filólogo – o que informa à futura amante Ana (Iya Savvina) logo no primeiro encontro. Ana é a dama do cachorrinho que conhece numa cidade de veraneio, Ialta, balneário de encontros fugazes no Mar Negro. Logo na primeira sequência do filme, o passeio de Ana com seu lulu da Pomerânia à beira-mar é comentado como o grande acontecimento do dia no bar em que Gurov entra. Lendo o jornal, ele a observa de longe para em seguida ver a linda mulher sentar a seu lado. Conquistador, Gurov atrai a atenção do cachorrinho para chegar ao seu verdadeiro objeto de desejo.

O que era para ser uma aventura passageira acaba em caso amoroso sério. Assustada, ela volta à cidade onde mora ao receber uma carta do marido pedindo sua volta. A sequência da despedida na estação ferroviária subverte o clichê das separações cinematográficas: Gurov fica com a luva de Ana nas mãos e, no lugar de guardá-la, abandona-a na grade da plataforma.

Kheifits segue rigorosamente a progressão do caso no conto de Chekhov, acentuando o tormento de um homem mais velho, casado e com três filhos, ao se apaixonar por uma mulher casada e quase 20 anos mais nova. Ele tenta esquecê-la, mas a irrelevância de seu cotidiano o conduz à casa de Ana – a cena mais tocante do filme de Kheifits, todo ele feito de silêncios reveladores como o da sequência final, em que o banqueiro-filólogo não tem palavras para exprimir seu desamparo. Dificilmente o cinema alcançou um tom emocionado como esse epílogo. Para ver e rever várias vezes.

A DAMA DO CACHORRINHO. Direção: Iosif Kheifits. Elenco: Iya Savvina e Aleksei Batalov. Cult Classic, R$ 34,90

Poema para não ser lido no teu casamento

Poema para não ser lido no teu casamento


Beth Ann Fennelly – Poesia & Ltda

POEM NOT TO BE READ AT YOUR WEDDING

You ask me for a poem about love

in lieu of a wedding present, trying to save me

money. For three nights I’ve lain under

glow-in-the-dark stars I’ve stuck to the ceiling

over my bed. I’ve listened to the songs

of the galaxy. Well, Carmen, I would rather

give you your third set of steak knives

than tell you what I know. Let me find you

some other store-bought present. Don’t

make me warn you of stars, how they see us

from that distance as miniature and breakable,

from the bride who tops the wedding cake

to the Mary on Pinto dashboards

holding her ripe red heart in her hands.

(tradução colectiva PoesiaIlimitada)

POEMA PARA NÃO SER LIDO NO TEU CASAMENTO

Pedes-me um poema sobre o amor

em lugar de uma prenda de casamento, tentando que eu poupe

dinheiro. Por três noites estendi-me sob

estrelas que-brilham-no-escuro colei-me ao tecto

sobre a minha cama. Escutei as canções

da galáxia. Bem, Carmen, eu preferiria antes

dar-te o teu terceiro jogo de facas de carne

a ter de te contar o que sei. Deixa que te descubra

algum outro presente de loja, comprado. Não

me faças avisar-te das estrelas, de como nos vêem

à distância, tão diminutas e quebráveis,

desde a noiva que encima o bolo de casamento

até Maria, no tablier de um Ford Pinto

segurando seu coração rubro e maduro entre mãos.

Fonte : Poesia & Ltda

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Prokofiev - Dance of the Knights

Nesta última tarde em que respiro

Nesta última tarde em que respiro

A justa luz que nasce das palavras

E no largo horizonte se dissipa

Quantos segredos únicos, precisos,

E que altiva promessa fica ardendo

Na ausência interminável do teu rosto.

Pois não posso dizer sequer que te amei nunca

Senão em cada gesto e pensamento

E dentro destes vagos vãos poemas;

E já todos me ensinam em linguagem simples

Que somos mera fábula, obscuramente

Inventada na rima de um qualquer

Cantor sem voz batendo no teclado;

Desta falta de tempo, sorte, e jeito,

Se faz noutro futuro o nosso encontro

António Franco Alexandre

The Great October Socialist Revolution of 1917

terça-feira, 30 de novembro de 2010

“Putrefação”, 2009. Mariana Hardman

Fonte body and profane art

Francis Cabrel Je l'aime à mourir

Je l’aime à mourir

Moi je n’étais rien et voilà qu’aujourd’hui,

Je suis le gardien du sommeil de ses nuits. Je l’aime à mourir

Vous pouvez détruire tout ce qui vous plaira

Elle n’a qu’à ouvrir l’espace de ses bras

Pour tout reconstruire. Pour tout reconstruire. Je l’aime à mourir



Elle a gommé les chiffres des horloges du quartier

Elle a fait de ma vie des cocottes en papier, des éclats de rire

Elle a bâti des ponts entre nous et le ciel

Et nous les traversons à chaque fois qu’elle

Ne veut pas dormir. Ne veut pas dormir. Je l’aime à mourir



Refrain



Elle a dû faire toutes les guerres pour être aussi forte aujourd’hui,

Elle a dû faire toutes les guerres de la vie et l’amour aussi.



Elle vit de son mieux ses rêves d’opaline

Elle danse au milieu des forêts qu’elle dessine. Je l’aime à mourir

Elle porte des rubans qu’elle laisse s’envoler

Elle me chante souvent que j’ai tort d’essayer

De les retenir. De les retenir. Je l’aime à mourir



Pour monter dans sa grotte cachée sous les toits

Je dois clouer des notes à mes sabots de bois. Je l’aime à mourir

Je dois juste m’asseoir, je ne dois plus parler,

Je ne dois rien vouloir, je dois juste essayer

De lui appartenir. De lui appartenir.



Je l’aime à mourir



Refrain…



Elle a dû faire toutes les guerres pour être aussi forte aujourd’hui,

Elle a dû faire toutes les guerres de la vie et l’amour aussi.



Moi je n’étais rien et voilà qu’aujourd’hui,

Je suis le gardien du sommeil de ses nuits. Je l’aime à mourir

Vous pouvez détruire tout ce qui vous plaira

Elle n’a qu’à ouvrir l’espace de ses bras

Pour tout reconstruire. Pour tout reconstruire. Je l’aime à mourir

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

hymne actuel de la russie

Femme Fatale

Déshabillez-moi

Déshabillez-moi, déshabillez-moi

Oui, mais pas tout de suite, pas trop vite

Sachez me convoiter, me désirer, me captiver

Déshabillez-moi, déshabillez-moi

Mais ne soyez pas comme tous les hommes, trop pressés.

Et d’abord, le regard

Tout le temps du prélude

Ne doit pas être rude, ni hagard

Dévorez-moi des yeux

Mais avec retenue

Pour que je m’habitue, peu à peu…

Déshabillez-moi, déshabillez-moi

Oui, mais pas tout de suite, pas trop vite

Sachez m’hypnotiser, m’envelopper, me capturer

Déshabillez-moi, déshabillez-moi

Avec délicatesse, en souplesse, et doigté

Choisissez bien les mots

Dirigez bien vos gestes

Ni trop lents, ni trop lestes, sur ma peau

Voilà, ça y est, je suis

Frémissante et offerte

De votre main experte, allez-y…

Déshabillez-moi, déshabillez-moi

Maintenant tout de suite, allez vite

Sachez me posséder, me consommer, me consumer

Déshabillez-moi, déshabillez-moi

Conduisez-vous en homme

Soyez l’homme… Agissez!

Déshabillez-moi, déshabillez-moi

Et vous… déshabillez-vous !

Viagem ao fim da noite

Louis-Ferdinand Céline

Viajar é muito útil, faz trabalhar a

imaginação. O resto não passa de

decepções e fadigas. A nossa viagem é

inteiramente imaginária. Daí a sua

força.

Vai da vida até à morte. Homens,

animais, cidades e coisas, é tudo

imaginado. Um romance, apenas uma

história fictícia. Di-lo Littré, que nunca

se engana.

Aliás, à primeira vista todos podem

fazer o mesmo. Basta fechar os olhos.

É do outro lado da vida

Poemas

Le temps plus propice pour naître

n´était pas

n´est pas aujourd´hui

La Tour de la Mort s´élève

se voit déjà de partout

n´aura pas sa pareille

En un cercle, un cercle immensément large

des cycles s´achèvent

Des victimes sans tarder, seront là, présents.

Simultanéité toujours si remarquable

des sacrifiés et des armés.

*

O tempo mais propício para nascer

não era

não é hoje

A Torre da Morte se ergue

já se vê de todos os lugares

não haverá semelhante

Em um círculo, um círculo imensamente amplo

os ciclos acabam

As vítimas estarão lá, sem tardar, presentes.

Simultaneidade sempre tão notável

dos sacrificados e dos armados.

Henri Michaux. Publicação na ZUNÁI – Revista de poesia & debates. Trad. Daniela Osvald Ramos.

Fonte Blog Clepsidra

Parlez-moi d’Amour

Parlez-moi d’ amour

Redites-moi des choses tendres

Votre beau discours

Mon cœur n’ est pas las de l’ entendre

Pourvu que toujours

Vous répétiez ces mots suprêmes

Je vous aime

Vous savez bien

Que dans le fond je n’ en crois rien

Mais cependant je veux encore

Écouter ce mot que j’ adore

Votre voix aux sons caressants

Qui le murmure en frémissant

Me berce de sa belle histoire

Et malgré moi je veux y croire

Il est si doux

Mon cher trésor, d’ être un peu fou

La vie est parfois trop amère

Si l’ on ne croit pas aux chimères

Le chagrin est vite apaisé

Et se console d’ un baiser

Du cœur on guérit la blessure

Par un serment qui le rassure

Juliette Greco

No mercado de Isfaão…

No mercado de Isfaão…


GUNNAR EKELÖF

No mercado de Isfaão,

no estrado,

mil e um corpos

mil e uma almas

estavam à venda para escravos.

E mil e um mercadores

faziam diferentes ofertas por corpos e almas.

As almas eram como mulheres.

Os corpos eram como homens.

E sorte teve o Mercador

que, graças à sua perspicácia,

conseguiu arrematar

Uma alma

e um corpo

que condiziam e podiam acasalar.

tradução de Ana Hatherly

http://poesiailimitada.blogspot.com/

Cronópios

Julgou Saint-Simon ver neste quadro uma confissão herética. O unicórnio, o narval, a pérola obscena do medalhão que parece ser uma fera, e o olhar terrivelmente fixo de Madalena Strozzi num ponto em que se desenrolariam cenas lascivas ou de flagelação: Rafael Sanzio mentiu aqui a sua mais terrível verdade.

A intensa cor verde do rosto da personagem atribuiu-se durante muito tempo a gangrena ou ao solstício da Primavera. Animal fálico, o unicórnio tê-la-ia contaminado: no seu corpo dormem os pecados do mundo. Viu-se depois que bastava levantar as falsas camadas de tinta colocadas por três acérrimos inimigos de Rafael: Carlos Hog, Vincent Grosjean, dito o Mármore, e Ruben o Velho. A primeira camada era verde, verde a segunda, era branca a terceira. Não é difícil vislumbrar aqui o tríplice símbolo da mortal falena, que une ao corpo cadavérico umas asas que a confundem com as folhas de uma rosa. Quantas vezes Madalena Strozzi cortou uma rosa branca, sentiu-a gemer entre os dedos, retorcer-se e gemer debilmente como uma pequena borboleta ou um daqueles lagartos que cantam como as liras quando se lhes mostra um espelho. Já era tarde, a falena tê-la-ia picado: Rafael soube, sentiu que ela estava a morrer. Para poder pintá-la com veracidade, agregou o unicórnio, símbolo de castidade, simultaneamente cordeiro e narval, que bebe pela mão de uma virgem. Mas pintava a falena na sua imagem, e este unicórnio mata a senhora, penetra no seu seio majestoso com o corno ornado de impudicícia, repete a operação de todos os princípios. O que esta mulher sustém nas mãos é a misteriosa taça de que sem saber bebemos, a sede que acalmamos noutras bocas, o vinho vermelho e lácteo donde saem as estrelas, os vermes e as estações ferroviárias.



Julio Cortázar in Histórias de Cronópios e de Famas. Trad. Alfacinha da Silva. Editorial Estampa, Lisboa, 1999, 2ª ed., p.18

Déshabillez-moi

Déshabillez-moi




Déshabillez-moi, déshabillez-moi

Oui, mais pas tout de suite, pas trop vite

Sachez me convoiter, me désirer, me captiver

Déshabillez-moi, déshabillez-moi

Mais ne soyez pas comme tous les hommes, trop pressés.

Et d’abord, le regard

Tout le temps du prélude

Ne doit pas être rude, ni hagard

Dévorez-moi des yeux

Mais avec retenue

Pour que je m’habitue, peu à peu…

Déshabillez-moi, déshabillez-moi

Oui, mais pas tout de suite, pas trop vite

Sachez m’hypnotiser, m’envelopper, me capturer

Déshabillez-moi, déshabillez-moi

Avec délicatesse, en souplesse, et doigté

Choisissez bien les mots

Dirigez bien vos gestes

Ni trop lents, ni trop lestes, sur ma peau

Voilà, ça y est, je suis

Frémissante et offerte

De votre main experte, allez-y…

Déshabillez-moi, déshabillez-moi

Maintenant tout de suite, allez vite

Sachez me posséder, me consommer, me consumer

Déshabillez-moi, déshabillez-moi

Conduisez-vous en homme

Soyez l’homme… Agissez!

Déshabillez-moi, déshabillez-moi

Et vous… déshabillez-vous

Juliette Gréco

domingo, 28 de novembro de 2010

5 poemes de Jacques Prevert

Três fósforos

Três fósforos um a um acesos na noite

O primeiro para ver o teu rosto inteiro

O segundo para ver os teus olhos

O terceiro para ver a tua boca

E toda a escuridão para recordar tudo isso

Apertando-te nos braços



***









Trois allumettes une à une allumées dans la nuit

La première pour voir ton visage tout entier

La seconde pour voir tes yeux

La dernière pour voir ta bouche

Et l’obscurité tout entiére pour me rappeler tout cela

En te serrant dans mes bras.

Jacques Prévert

Das Aventuras de Esti

Se a vida tem ou não sentido é uma pergunta ardilosa. Não sei a resposta. Eu a responderia com prazer se pudesse, mas consigo apenas rir dela, disse, com jovialidade, Kornél Esti. Essa vinheta fala da seriedade de Esti, e em seriedade consiste a vida dele.



No fundo ele desfruta do doce horror da confusão de Babel



Esboço búlgaro -Giovanna, ela era a guia búlgara de Kornél Esti. Bem que eu treparia com ela!, foi o que não ocorreu a Esti, mas ocorreu, pois não ocorreu. Giovanna tinha a mesma idade que ele, trabalhava feito uma máquina, “subia” da aldeia toscana próxima para fazer a faxina na casa de Esti.

Aluguei uma casa simples, disse Esti, uma preciosidade da arquitetura italiana, como vocês sabem, proporção, beleza universal feita de alguns pedaços de pedra amontoados, um único quarto amplo, claro, com a promessa sedutora de tardes infinitas e carnais. Giovanna vinha de dois em dois dias, de manhã, na hora de trabalho mais preciosa, não é mesmo? No início eu fugia para o jardim, e passeava, passeava, mas depois acabei ficando, resmungava uma espécie de cumprimento, feito um vigia relutante, um cão pastor imprevisível, e me escondia atrás da escrivaninha. Ao chegar, ela respirava bem fundo e daí em diante falava sem parar -tão depressa, e numa variante local e selvagem do italiano, que eu juro que não entendia uma palavra.

Trata-se de uma diversão infernal, meus amigos, vagar no estrangeiro de maneira que o ruído das bocas nos deixa indiferentes e encaramos abobalhados todos os que se dirigem a nós. Que solidão nobre, amigos, que liberdade e ausência de responsabilidades. De súbito, nos sentimos bebês, tutelados. Desperta em nós uma confiança inexplicável nos adultos, que são mais sábios. Deixamos que falem e façam por nós. Depois, aceitamos tudo, às cegas, ou melhor, de modo inaudito.

A situação não era exemplar, porque a falação de Giovanna não me interessava, embora não fosse um monólogo, mas um diálogo que, de tempos em tempos, com um pigarro ou um murmúrio, eu me via obrigado a incentivar. Nessas horas eu conseguia pescar alguns nomes de cidades. Como se ela dissesse Siena, ou quem sabe siesta?, não sabia por onde ela andava, por onde andávamos, se trocávamos ideias sobre a segurança dos reatores nucleares ou sobre a falta de segurança do sexo oral.

Mas trocávamos. Eu, na maioria das vezes, dizia sim, desatento, porque o sim pode correr para vários lados, pode ser pergunta, pode ser não, pode ser cobrança, espanto, ou pode ser até um sim, com os si eu não arriscava muito, e prosseguia com o meu trabalho. Depois de um si de aparência encorajadora se fez um silêncio assombrado. Se o suor fizesse ruído, somente se ouviria um cheiro adocicado, fruto do trabalho de Giovanna.

Ela ergueu os olhos inquiridores para mim e perguntou insistente: si? Pensei, se eu disse, eu disse, disse e pronto, Petöfi não regateia, ein Mann ein Wort, e assenti com severidade masculina, si. Giovanna, incrédula, abriu a boca, si-i-i? Acho bom que não brinquem comigo, ainda que eu esteja pendurado na beirada de um precipício escuro, desconhecido, disse si, um si que o povo não viu desde Garibaldi, si!, proferi beligerante, como se tivesse reocupado a doce Transilvânia, embora Giovanna não se sensibilizasse com isso. Que fosse o sul do Tirol.

Nessa hora a mulher já estava em cima da escrivaninha, por assim dizer; acompanhando o si beligerante eu fui obrigado a me levantar. De súbito. Nos encaramos. Ela examinou o meu rosto com pesar. Quase sussurrando, perguntou, si? Não tinha mais saída, si, soprei. Uma lágrima surgiu em seus olhos, povero uomo, disse, articulando bem as palavras, povero uomo, e saiu correndo, como um filhote de passarinho assustado.

A minha vida, meus caros, que somente a mulher italiana conhecia, é a vida secreta nascida do doce horror da confusão de Babel, o povero uomo, a infinitude, o desespero, a difícil felicidade do pobre homem.



A boa intenção



Esti desconfiava, tremendamente, havia algum tempo, que talvez tivesse vida eterna. Pare com isso. É longa demais. Ele via a boa intenção da parte do Todo-Poderoso, não desejava ser arrogante, mas não tinha prazer em participar desse projeto. Debaixo da terra, como os vermes, era uma vez, é o certo, é o digno, tem feição humana, não queria entrar em detalhes. Não gostaria de modo algum de parecer ingrato, como se tagarelasse com leviandade. Sentia que sua argumentação era convincente apenas em parte.

Depois, o resultado ambivalente de um exame realizado por conta de uma sequência de episódios de falta de ar o tranquilizou em relação ao assunto. Na verdade, o tranquilizou somente em parte. Sua vida passou a consistir nessas meias palavras.



Observação: Kornél Esti, o herói dos romances de Dezsö Kosztolányi (1885-1936), ressuscitou de novo

Fonte:Folha de São Paulo/Ilustríssima.Domingo 28/11/10.

Sobre o Amor

Quando o amor vier ter convosco,



Seguros embora os seus caminhos sejam árduos e sinuosos.



E quando as suas asas vos envolverem, abraçai-o, embora a espada oculta sob

as asas vos possa ferir.



E quando ele falar convosco, acreditai,



Embora a sua voz possa abalar os vossos sonhos como o vento do norte

devasta o jardim.



Pois o amor, coroando-vos, também vos sacrificará. Assim como é para o

vosso crescimento também é para a vossa decadência.



Mesmo que ele suba até vós e acaricie os mais ternos ramos que tremem ao

sol,



Também até às raízes ele descerá e abaná-las-à



Enquanto elas se agarram à terra.



Como molhos de trigo ele vos junta a si.



Vos amanha para vos pôr a nu.



Vos peneira para vos libertar das impurezas.



Vos mói até à alvura.



Vos amassa até vos tomardes moldáveis;



E depois entrega-vos ao seu fogo sagrado, para que vos tomeis pão sagrado

para a sagrada festa de Deus.



Toda estas coisas vos fará o amor até que conheçais os segredos do vosso

coração, e, com esse conhecimento, vos tomeis um fragmento do coração da

Vida.



Mas se, receosos, procurardes só a paz do amor e o prazer do amor,



Então é melhor que oculteis a vossa nudez e saiais do amor,



Para o mundo sem sentido onde rireis, mas não com todo o vosso riso, e

chorareis mas não com todas as vossas lágrimas.



O amor só se dá a si e não tira nada senão de si.



O amor não possui nem é possuído;



Pois o amor basta-se a si próprio.



Gibran Khalil Gibran in O Profeta, 1923

sábado, 27 de novembro de 2010

Les Feuilles Mortes_Yves Montand à l´Olympia

Les feuilles mortes

Yves Montand – Les feuilles mortes, Prévert/Kosma




Oh je voudrais tant que tu te souviennes

Des jours heureux où nous étions amis

En ce temps là, la vie était plus belle

Et le soleil plus brûlant qu’aujourd’hui

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle

Tu vois je n’ai pas oublié

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle

Les souvenirs et les regrets aussi

Et le vent du nord les emportet

Dans la nuit froide de l’oubli

Tu vois, je n’ai pas oublié

La chanson que tu me chantais



C’est une chanson, qui nous ressemble

Toi tu m’aimais, et je t’aimais

Et nous vivions tout les deux ensemble

Toi qui m’aimais, moi qui t’aimais

Mais la vie sépare ceux qui s’aiment

Tout doucement sans faire de bruit

Et la mer efface sur le sable

Le pas des amants désunis



C’est une chanson, qui nous ressemble

Toi tu m’aimais et je t’aimais

Et nous vivions, tous deux ensemble

Toi qui m’aimait, moi qui t’aimais

Mais la vie sépare ceux qui s’aime

Tout doucement sans faire de bruit

Et la mer efface sur le sable

Le pas des amants désunis

Serge Gainsbourg la chanson de Prévert

la chanson de Prévert

Serge Gainsbourg – la chanson de Prévert, de Serge Gainsbourg/Kosma






Oh je voudrais tant que tu te souviennes

Cette chanson était la tienne

C’était ta préféré je crois

Qu’elle est de Prévert et Kosma

Et chaque fois “Les feuilles mortes”

Te rappelle à mon souvenir

Jour après jour les amours mortes

N’en finissent pas de mourir.



Avec d’autres bien sur je m’abandonne

Mais leur chanson est monotone

Et peu à peu je m’indiffère

A cela il n’est rien à faire

Car chaque fois “Les feuilles mortes”

Te rappelle à mon souvenir

Jour après jour les amours mortes

N’en finissent pas de mourir.



Peut-on jamais savoir par où commence

Et quand finit l’indifférence

Passe l’automne vienne l’hiver

Et que la chanson de Prévert

Cette chanson “Les feuilles mortes”

S’efface de mon souvenir

Et ce jour là mes amours mortes

En auront fini de mourir

Et ce jour là mes amours mortes

En auront fini de mourir

Para pintar o retrato de um pássaro

Para pintar o retrato de um pássaro



Jacques Prévert

Para Elsa Henriquez



Primeiro pintar uma gaiola

com a porta aberta

pintar depois

algo de lindo

algo de simples

algo de belo

algo de útil

para o pássaro

depois dependurar a tela numa árvore

num jardim

num bosque

ou numa floresta

esconder-se atrás da árvore

sem nada dizer

sem se mexer…

Às vezes o pássaro chega logo

mas pode ser também que leve muitos anos

para se decidir

Não perder a esperança

esperar

esperar se preciso durante anos

a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro

nada tendo a ver

com o sucesso do quadro

Quando o pássaro chegar

se chegar

guardar o mais profundo silêncio

esperar que o pássaro entre na gaiola

e quando já estiver lá dentro

fechar lentamente a porta com o pincel

depois

apagar uma a uma todas as grades

tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro

Fazer depois o desenho da árvore

escolhendo o mais belo galho

para o pássaro

pintar também a folhagem verde e a frescura do vento

a poeira do sol

e o barulho dos insectos pelo capim no calor do verão

e depois esperar que o pássaro queira cantar

Se o pássaro não cantar

mau sinal

sinal de que o quadro é ruim

mas se cantar bom sinal

sinal de que pode assiná-lo

Então você arranca delicadamente

uma das penas do pássaro

e escreve seu nome num canto do quadro.



POUR FAIRE LE PORTAIT D’UN OISEAU



A Elsa Henriquez



Peindre d’abord une cage

avec une porte ouverte

pendre ensuite

quelque chose de joli

quelque chose de simple

quelque chose de beau

quelque chose d’utile

pour l’oiseau

placer ensuite la toile contre une arbre

dans un jardin

dans un bois

ou dans une forêt

se cacher derrière l’arbre

sans rien dire

sans bouger…

Parfois l’oiseau arrive vite

mais il peut aussi bien mettre de longues années

avant de se décider

Ne pás le décourager

attendre

attendre s’il le faut pendant des années

n’ayant accun rapport

avec la réussite du tableau

Quand l’oiseau arrive

s’il arrive

observer le plus profond silence

attrendre que l’oiseau entre dans la cage

et quand il est entré

fermer doucement la porte avec le pinceau

puis

effacer un a un tous les barreaux

en ayant soin de ne toucher aucune des plumes

de l’oiseau

Faire ensuite le portrait de l’arbre

en choisissant la plus belle de ses branches

pour l’oiseau

peindre aussi

le vert feuillage et la fraîcher du vent

la poussière du soleil

et le bruit des bêttes de l’herbe dans la chaleur de l’été

et puis attendre que l’oiseau se decide à chanter

Si l’oiseau ne chate pás

c’est mauvais signe

signe que le tableau est mauvais

mais s’il chante c’est bon signe

signe que vous pouvez signer

Alors vous arrachez tout doucement

une des plumes de l’oiseau

et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau



de “Paroles” (1945)

B. de S. (1499 - 1590)

«O vaticínio

Dez anos antes da vinda dos Espanhóis,

o primeiro sinal. Era como uma língua de fogo

no céu, como uma chama, como qualquer coisa faiscando

no crepúsculo. Ardia, largo, e disparava afunilando

para as alturas. Foi visto durante um ano, de noite.

E sempre que se iluminava ouviam-se gritos,

todos gritavam, todos batiam com a palma da mão

na boca, todos tinham medo,

se assustavam, esperavam, ficavam apavorados.





(...)



O monte

É uma coisa alta, pontiaguda; afilada em cima,

no cume, em bico, eleva-se e sobressai;

torna-se cómico, redondo; um monte redondo, baixo;

com muitos rochedos, rochoso; escarpado, fendido, rochoso;

feito de terra; com árvores; pastagens; com ervas; com água;

seco; recortado; com gargantas; com cavernas;

e lá dentro há gargantas, blocos de pedra.

Eu subo, escalo o monte. Vivo

no monte. Nasci no monte. Ninguém

se pode tornar monte. Ninguém se transforma

num monte. Por fim, também o monte se desfaz.



(...)



A caverna

Ali estende-se, ali torna-se longa e funda,

abre-se, estreita. É um lugar apertado,

um lugar de angústia. Ali é intransitável, áspera.

É um lugar terrível, um lugar de morte,

um lugar de trevas. Ali é sombria,

escura. A sua boca está escancarada, fauces abertas.

Fauces, largas, fauces estreitas.

Eu vou ficar na caverna.

Entro. Estou aqui. Estou na caverna.»



Hans Magnus Enzensberger. Mausoléu. Trad. e prefácio de João Barrento. Edições Cotovia, Lisboa, 2004., p.43/45/47

C. v. L. (1707 -1778)

Uma loucura diferente da nossa: a loucura de um clássico.

Claro, seco e lacónico. Naquele tempo era tudo mais pequeno.

Era quase um anão, nervoso, impaciente, rodopiante,

mas o olhar cor de âmbar sob a pesada cabeleira

era penetrante e frio: é preciso rejeitar tudo o que sejam

características acidentais. Coleccionar, definir, classificar.

Todas as parecenças obscuras foram apenas inventadas para

vergonha da ciência. Lâminas terminiológicas para extrair

o imutável da carne e de um mundo cego e trémulo.





Inventários, nomenclaturas, reportórios. A natureza,

um quadrado intemporal, uma quadrícula imóvel.

Gravuras coloridas à mão, árvores genealógicas, tabelas.

Na espuma dos fenómenos, esta linguagem não se mexe.

Uma gramática do mensurável: da espessura de um cabelo,

da fundura de um umbigo, com a forma de uma vulva,

espiralada como a concha de uma orelha. Classificando,

minuciosamente e «com sentido». Trabalhando dia e noite,

para não perder um minuto enquanto permanecesse em Upsala.





Num país pobre, no mais miserável dixhuitième:

juventude pedregosa, sem dinheiro para meias-solas, comendo

do prato alheio, uma cama sempre fria, subterfúgios

para obter títulos e táleres. Finalmente, a fuga para o inóspito.

Lá, onde quase nada mais vive, ele quase revive.





Lapónia, 1745: vi verão e inverno num só dia,

atravessei nuvens, busquei o fim do mundo,

os asilos nocturnos do Sol. No frio, floresce o seu

coração seco. Líquenes rangíferos, tundra, liberdade do Ártico.





Depois, regresso aos cortesãos, aos jardins e gabinetes.

Sonhos infernais, meditações, trevas «cheias de sentido».

Nos olhos âmbar o brilho da loucura. Estático.

Finalmente, professor, médico pessoal da rainha (a mão certa

para curar as doenças do peito), presidente da academia.

Condecorado: Estrela Polar com fita preta. Tudo tarde de mais.

Azedume, desconfiança, noites sombrias em estufas,

depois a apoplexia. Os últimos quatro anos com

paralisia parcial, numa triste fraqueza de corpo e espírito.





Ninguém sabia que ele, que tinha encontrado tantas provas

da providência divina entre as coisas naturais, há muitos anos

vinha coleccionando exemplos semelhantes nos destinos humanos;

e que também os milagres, os pecados, obedecem à taxonomia.

Mania das perseguições, alucinações. Paralelamente à histoire admirable

des plantes, a história natural de doenças e vícios:

Nemesis divina, o noctário, guardado num estojo,

cheio de premonições, augúrios, intuições, leitura para Strindberg.

Teologia empírica. O investigador como espião de Deus.





Tudo tem a sua ordem: fogo posto luxúria infanticídio traição

manha e envenenamento. Melander, professor de teologia,

tece intrigas no consistório, até que, às seis da tarde, a sua cabeça

se volta para as costas. Caí, é levado para casa, nunca mais

verá o dia da cura. Deus é um rectângulo intemporal,

a Sua retaliação uma quadrícula, imóvel: execução, fogo

defenestração cabeça cortada. A senhora Psilanderhjelm, leviana

deita-se com um cortesão em Estocolmo. Apanha uma doença do ventre,

morre em breve. Abrem-na, encontram uma pedra no lugar da criança.





E assim tudo se revela. O pecador apodrece em vida.

Um modo de vida bastante monótono. Os castigos

são coleccionados, definidos e classificados. Minuciosamente e «com sentido»,

como o mecanismo da reprodução: estame seco e pólen,

semente estilete e estigma. Systema sexualis: uma obsessão fatal.

A vida não existe; só existem seres vivos.

Cada vez mais pequeno, o grande ancião medita, imóvel,

sobre uma vingança divina que fosse lógica. «Com sentido».

Sem sentido. «Com sentido». «Nós» não fazemos parte da sua loucura.





A flor que traz o seu nome, linnaea borealis L.,

é insignificante, minúscula, e quase toda branca.







Hans Magnus Enzensberger. Mausoléu. Trad. e prefácio de João Barrento. Edições Cotovia, Lisboa, 2004., p. 73-77

Micenas

Dá-me as tuas mãos, dá-me as tuas mãos,

dá-me as tuas mãos.



Vi dentro da noite

o cimo agudo do monte

vi além a planície inundada

com a luz de uma lua por aparecer

vi, ao voltar a cabeça

as pedras negras contraídas

e a minha vida tensa como corda

princípio e fim

o último momento;

as minhas mãos.



Afunda-se quem levanta as grandes pedras;

estas pedras levantei-as enquanto suportei

estas pedras amei-as enquanto suportei

estas pedras, o meu destino.

Ferido pelo meu solo

tiranizado pela minha túnica

condenado pelos meus próprios deuses,

estas pedras.



Sei que não sabem, porém eu

que segui tantas vezes

o caminho do assassino ao assassinado

do assassinado à paga

da paga ao outro assassínio,

a púrpura inesgotável

aquela tarde do regresso

quando as Solenes começaram a silvar

na erva escassa -

vi as serpentes em cruz com as víboras

entretecidas sobre a linguagem má

o nosso destino.



Vozes de pedra e do sono

mais fundas aqui onde o mundo escurece,

memória da fadiga enraizada no ritmo

que bateu na terra com pés

esquecidos.

Corpos afundados nos alicerces

do outro tempo, nus. Olhos

fixos fixos, num sinal

que por mais que queiras não distingues;

a alma

que luta por tornar-se tua alma.



Nem já sequer o silêncio é teu

aqui onde as mós pararam.



Outubro 1935


Yorgos Seferis. Poemas Escolhidos. Trad. de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratisinis. Relógio D'Água, Lisboa, 1993., p.49/51

An Indian Washing the Baby (1906)

Poesia

I



por caminhos de lavanda e urze: raso,

o sangue sob a plaina dos dedos,



enquanto a mão aprende

toda a beatitude do mundo



a mão alçada sobre a lua dos olhos,

o gesto é conciso

como uma imagem impossível



II



depois, ameias entre os venenos,

os versos:



carótida, laringe, fuligem, falange



os versos: um secreto combate, os versos



tantas vezes não mais que sombras



entre a luz nocturna da lâmina

e a doçura da pálpebra



III



em verdade falo apenas do que há

dentro dos nomes



o que há dentro de um nome?



em verdade falo apenas de um imóvel caminho



um lentíssimo modo de rumar

ao silêncio.

Luís Felício




Fonte Clepsidra
http://luz-clepsidra.blogspot.com/

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Jean Genet : un poète méconnu

Poésie universelle:
 "Patricia" : poesieuniverselle@yahoogroupes.fr
Suite à un message de notre ami Orlando sur son groupe de poésie, je vous propose de (re)découvrir ce poète "rebelle" doté d'une sensibilité magnifique.




Le condamné à mort (extrait)

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SUR MON COU sans armure et sans haine, mon cou

Que ma main plus légère et grave qu'une veuve

Effleure sous mon col, sans que ton cœur s'émeuve,

Laisse tes dents poser leur sourire de loup.



Ô viens mon beau soleil, ô viens ma nuit d'Espagne,

Arrive dans mes yeux qui seront morts demain.

Arrive, ouvre ma porte, apporte-moi ta main,

Mène-moi loin d'ici battre notre campagne.



Le ciel peut s'éveiller, les étoiles fleurir,

Ni les fleurs soupirer, et des prés l'herbe noire

Accueillir la rosée où le matin va boire,

Le clocher peut sonner : moi seul je vais mourir.



Ô viens mon ciel de rose, ô ma corbeille blonde !

Visite dans sa nuit ton condamné à mort.

Arrache-toi la chair, tue, escalade, mords,

Mais viens ! Pose ta joue contre ma tête ronde.



Nous n'avions pas fini de nous parler d'amour.

Nous n'avions pas fini de fumer nos gitanes.

On peut se demander pourquoi les Cours condamnent

Un assassin si beau qu'il fait pâlir le jour.



Amour viens sur ma bouche ! Amour ouvre tes portes !

Traverse les couloirs, descends, marche léger,

Vole dans l'escalier plus souple qu'un berger,

Plus soutenu par l'air qu'un vol de feuilles mortes.



Ô traverse les murs ; s'il le faut marche au bord

Des toits, des océans ; couvre-toi de lumière,

Use de la menace, use de la prière,

Mais viens, ô ma frégate, une heure avant la mort.



PARDONNEZ-MOI mon Dieu parce que j'ai péché !

Les larmes de ma voix, ma fièvre, ma souffrance,

Le mal de m'envoler du beau pays de France,

N'est-ce pas assez, mon Seigneur, pour aller me coucher.

Trébuchant d'espérance



Dans vos bras embaumés, dans vos châteaux de neige !

Seigneur des lieux obscurs, je sais encore prier.

C'est moi, mon père, un jour, qui me suis écrié :

Gloire au plus haut du ciel au Dieu qui me protège,

Hermès au tendre pied !



Je demande à la mort la paix, les longs sommeils,

Le chant des séraphins, leurs parfums, leurs guirlandes,

Les angelots de laine en chaudes houppelandes,

Et j'espère des nuits sans lunes ni soleils

Sur d'immobiles landes.



Ce n'est pas ce matin que l'on me guillotine.

Je peux dormir tranquille. À l'étage au-dessus

Mon mignon paresseux, ma perle, mon Jésus

S'éveille. Il va cogner de sa dure bottine

À mon crâne tondu.



POMPES FUNEBRES JEAN GENET P.267 L'imaginaire/ Gallimard (1953)

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Je sors d'un rêve que je ne puis rapporter.



Un rêve ne peut être fixé. Il s'écoule et chacune de ses images constamment se transforme puisqu'il n'existe que dans le temps et non dans l'espace. Puis l'oubli, la confusion... mais ce que je peux dire, c'est l'impression qu'il m'a fait.



A mon réveil, je savais que je sortais d'un rêve où j'avais commis le mal (je ne sais par quelle action : meurtre, vol ?) mais j'avais commis le mal, et j'éprouvais le sentiment de connaître la profondeur de la vie. Quelque chose comme si le monde avait une surface sur laquelle nous glissons (le bien) et une épaisseur où l'on ne s'enfonce que rarement, plus rarement qu'on ne croit (je note tout de suite qu'il s'agissait ainsi en rêve d'un séjour en prison).



Je crois que ce rejet du monde par le monde peut donner une humilité ou un orgueil, ou vous obliger à rechercher de nouvelles règles de vie, que ce nouvel univers vous permette de voir l'autre monde.



Il serait difficile d'expliquer pourquoi dans la cour de cette prison passait le cortège funèbre de tous les rois de la Terre. Ce n'est pourtant pas l'instant d'être imprécis. En réalité chaque roi, chaque reine, chaque prince royal, vêtu d'un manteau de cour de velours noir à traîne et coiffé de la couronne d'or fermée, voilée de crèpe le plus souvent, menait le deuil de tous les autres rois. Déjà étaient passés devant elle presque tous les rois du monde---ce qui veut dire d'Europe, quand la bonne vit s'avancer un carosse doré traîné par des chevaux blancs vêtus de deuil. Une reine y était assise, le sceptre au poing et le poing aux genoux. Elle était morte. A pied, une autre reine suivait, dont le visage était voilé. On ne pouvait les reconnaître. On savait que c'était des rois, des reines et des princes à leur couronne et à la raideur un peu timide de leur marche.



Malgré la dignité et l'éloignement forcé auxquels les oblige la vie, ces monarques parurent très près de la boniche qui les regardait défiler, avec étonnement, mais sans plus de crainte ni d'émerveillement qu'elle n'eût regardé passer une bande d'oies conduites par le jars. Ce cortège donnait vraiment l'impression de la richesse, les bijoux de deuil y étaient avec profusion, sauf qu'il n'y avait pas une fleur, un feuillage, si ce n'est brodés d'argent sur noir. La reine d'Espagne, reconnue grâce à son éventail, pleura beaucoup. Le roi de Roumanie était maigre, presque sans chair, et blanc. Tous les princes allemands le suivaient.



Et chacun, dans ce cortège, était seul, pris, capturé dans un bloc de solitude d'où il ne pouvait rien voir que lui-même et l'exceptionnelle magnificence- non d'un destin - mais de la trace de ce destin qu'il continuait. Leur solitude enfin, et leur indifférence permettaient à la bonne d'être maîtresse d'elle-même en face de ces personnages hautains. Elle les regarda comme sa patronne regardait le samedi de son balcon passer les noces.



Je suis soudain seul parce que le ciel est bleu, les arbres verts, la rue calme, et qu'un chien marche aussi seul que moi, devant moi. J'avance lentement, mais fortement. Je crois qu'il fait nuit. Ces paysages que je découvre, ces maisons avec leurs réclames, les affiches, les vitrines au milieu de quoi je passe en souverain sont de la même substance que les personnages de ce livre, que les visions que je découvre quand ma bouche et ma langue sont occupées dans les poils d'un oeil de bronze où je crois reconnaître un rappel des goûts de mon enfance pour les tunnels. J'encule le monde...



Pour finir,

le dossier de France Culture pour le centenaire de sa naissance

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regorge de trésors avec des émissions passionnantes.

http://www.franceculture.com/

sábado, 20 de novembro de 2010

A Revolução Mexicana

Como eu não possuo

Olho em volta de mim. Todos possuem

Um afecto, um sorriso ou um abraço.

Só para mim as ânsias se diluem

E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria

Dos espasmos golfados ruivamente;

São êxtases da cor que eu fremiria,

Mas a minh’alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei… perco-me todo…

Não posso afeiçoar-me nem ser eu:

Falta-me egoísmo para ascender ao céu,

Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser

Forçoso me era antes possuir

Quem eu estimasse – ou homem ou mulher,

E eu não logro nunca possuir!…

Castrado d’alma e sem saber fixar-me,

Tarde a tarde na minha dor me afundo…

– Serei um emigrado doutro mundo

Que nem na minha dor posso encontrar-me?

***

Como eu desejo a que ali vai na rua,

Tão ágil, tão agreste, tão de amor…

Como eu quisera emaranhá-la nua,

Bebê-la em espasmos d’harmonia e cor!…

Desejo errado… Se a tivera um dia,

Toda sem véus, a carne estilizada

Sob o meu corpo arfando transbordada,

Nem mesmo assim – ó ânsia! – eu a teria…

Eu vibraria só agonizante

Sobre o seu corpo d’êxtases dourados,

Se fosse aqueles seios transtornados,

Se fosse aquele sexo aglutinante…

De embate ao meu amor todo me ruo,

E vejo-me em destroço até vencendo:

É que eu teria só, sentindo e sendo

Aquilo que estrebucho e não possuo.

Paris 1913 – Maio


Mário de Sá-Carneiro



Mário de Sá-Carneiro. Dispersão. Lisboa, 1914

Pancho Villa

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Abraço EMBRACE

You know the parlor trick.

Wrap your arms around your own body

and from the back it looks like

someone is embracing you,

her hands grasping your shirt,

her fingernails teasing your neck.

From the front it is another story.

You never looked so alone,

your crossed elbows and screwy grin.

You could be waiting for a tailor

to fit you for a straitjacket,

one that would hold you really tight.

ABRAÇO

Conheces o truque do gabinete.

Enrola os braços à volta do teu próprio corpo

e de trás parece que

alguém te está a abraçar,

as mãos dela agarrando a tua camisa,

suas unhas cardando o teu pescoço.

Já de frente é outra história.

Tu nunca pareceste tão só,

de cotovelos cruzados e esgar contorcido.

Podias estar à espera do alfaiate

para provar uma camisa de forças,

uma que te agarrasse muito junto.


Billy Collins
Fonte Poesia & Ltda

Abd al malik .La vie au conditionnel

Abd Al Malik - Fleurs de Lune Feat.Aïssa & Souad Massi

Fleurs de Lune

Mon Oeil pleure, mon oeil pleure, Ma patrie me manque tellement,

ma patrie c’est l’amour, ma patrie c’est le coeur,

ma patrie c’est le respect de chacun, même s’il est différent,

le souvenir perpétue l’éclat de ce lieu ou j’ai tant aimé,

de ce lieux ou j’ai tant donné, j’ai vu la tendresse prendre forme humaine,

un arc-en-ciel me dire je t’aime,

une pluie de perles me parler pour me dire jamais je pourrais te quitter,

mon esprit prit possession de mon corps, je suis devenu plume,

depuis que je suis sorti de la brume, je cueille des fleurs de lune,

au dela des cimes, au dela des cieux, au dela des cils qui se plissent,

mes mots, ce sont les feuilles de mon coeur qui bruissent,

douce réminicence, je veux retourner en enfance,

retrouver l’innoncence pour que plus rien ne m’offense,

a travers toi mon beau pays, tous les esprits s’unifient,

a travers toi mon beau pays, les morts reviennent à la vie,

les coeurs se sont orientés vers toi à travers les ages,

laisse moi saisir par le gout le soleil de ce breuvage,

je suis nostalgique de tes vallons et de tes plaines,

quand le souvenir de l’air de tes montagnes à mon sang se mèle,

je me suis fait argile pour boire de ton eau,

je suis devenu fragile, fleurs de lune au bord d’un ruisseau,



Ce lieu en nous est gravé, comment a-t-on pu faire pour oublier d’où l’on venait,

qui sais, je le sais, ma vie entière à changé,

tout un pan de mon existence, ma mémoire émergé, le voile s’est levé,

fontaine de la vie, ou toute les sources convergent,

ou le lait se mèle au miel, ou jaillisse des diamants de sagesse,

se perdent les intelligences ici n’ont plus pieds,

le fond subsiste au dela de la forme se trouve la réalité,

Il y a des cieux dans ce royaume de l’ame,

qui gouvernent notre monde que l’on trouve quelque fois infame,

l’apparence est le masque du secret,

l’apparence assassine trop souvent ce que l’on crée,

Maintenant que je sais d’ou je viens, je veux retrouver ma terre,

mon coeur est une boussole pour que je ne perde pas mes repères,

quete initiatique je voyage comme Chihiro,

pour que je m’éteigne a moi-même et que disparaisse mon égo



Nostalgique, pas avec la tête mais avec le coeur,

je n’ai pas d’images, ni son, ni odeur,

le souvenir d’une époque ou le corps est frontière,

seul l’esprit à sa place a part entière,

ma tete amnésique mais dans le coeur y’a une trace,

cette marque a vie, souvenir d’avant c’est l’amour,

il n’y avait pas de profondeur, hauteur que l’amour,

nous sommes nostalgiques des choses qui ne sont plus,

non l’endroit est bien la, moi je suis voilé,

avec mes deux pieds sur terre je peux que me souvenir,

l’actualité du monde pousse mon esprit à aller ver le haut,

la ou toi, moi noyés dans l’océan comme avant,

je suis tellement loin et proche en même temps,

le coeur un disque dur, j’oublie jamais,

se souvenir c’est déjà un pas pour revenir …

Marc Lavoine & Souad Massi - Paris

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

 Digo do corpo digno inteligente activo


Digo do corpo digno inteligente activo,

ou adorativo aqui sob este sol demente

Digo do corpo digo o que indigente gente

declarou pervertido inútil indecente,

de escamotear esconder vestir e declarar

não-ter (sendo contudo algo de omnipresente).

Digo que o sexo existe apenas porque sim

como o pudera ser por exemplo um rim

ou qualquer outra víscera ou quem sabe um membro

que parece amovível quando e se preciso

porém nunca senhor deste secreto templo

vivo discreto imenso renovável todo

aqui e agora e logo e por fora e por dentro,

uno ou dispersivo, mas um corpo sempre.

Maria da Graça Varella Cid

Perfeito do Indicativo

Copacabana 20 Ag 81

& etc

Não é o coração

Não é o coração

mas esta carne

em seu rumor.

Não é o coração

mas teu silêncio

de intenso furor.

Não é o coração

mas as mãos

sem corpo, vazias.

Na grave melodia

de um instante

tu e eu

em desequilíbrio

na infame

consistência

de um absoluto

obstáculo.

Ana Marques Gastão


Nocturnos

Canções com palavras

Gótica

2002