A primeira metade do século 20 permanecia como a época em que as vanguardas tiveram controle e domínio sobre a produção artística europeia e mundial. Gerados a partir das vésperas da 1.ª Grande Guerra, futurismo, expressionismo, cubismo, dadaísmo e outros movimentos artísticos se afirmaram através de “manifestos” rebeldes ou anarquistas que, divulgados da Europa para as nações periféricas, se reproduziram em outros importantíssimos manifestos e movimentos artísticos de vanguarda, de que é exemplo o nosso Modernismo. Gilberto Mendonça Teles compilou os manifestos canônicos originados nas hoje chamadas vanguardas históricas e os publicou na antologia Vanguarda Europeia e Modernismo Brasileiro (Vozes, 2009).
Consumado o clima de morte e horror prevalente durante a 1.ª Grande Guerra, artistas e teóricos da arte passam a discordar do controle e do domínio exercidos pela vanguarda sobre o grosso da produção artística europeia. Jean Cocteau é um dos que mais esbravejam. Haja vista a primazia das estátuas gregas em Sangue de Um Poeta (1930), filme dedicado à memória de Paolo Uccello e Piero della Francesca. O “rappel à l”ordre” (trocadilho com o termo jurídico “a ordem do dia”), de que fala Cocteau, coloca em pauta o retorno à arte moderna das imagens harmoniosas e perfeitas do classicismo grego e renascentista. (Lembre-se que no Manifesto Futurista, de 1909, Marinetti havia assentado que o automóvel de corrida “é mais belo que a Vitória de Samotrácia”.) Paradoxalmente, o cubista Pablo Picasso é um dos mais legítimos tribunos na ordem do dia clássica e neoclássica. Considerem-se o quadro La Source (1921) e as réplicas de Ingres. Foi essa a tese desenvolvida com talento e erudição por Kenneth E. Silver em Esprit de Corps: The Art of the Parisian Avant-G arde And The First World War, 1914-1925 (Princeton, 1992), cuja edição se encontra hoje esgotada.
Em 2010, Silver energiza o fluxo da contracorrente aberta pelo livro e alvoroça os arraiais artísticos nova-iorquinos. Primeiro, amplia o campo de trabalho para a Alemanha e a Itália. Segundo, destaca o modo como a estética clássica, posterior à 1.ª Guerra, é apropriada tardiamente pelos artistas fascistas e nazistas. Nela se banham a fim de realçar o cenário pomposo e civilizado que escamoteia as atrocidades que, às vésperas da 2.ª Grande Guerra, estão sendo cometidas por Mussolini e Hitler. Como curador da exposição Chaos & Classicism (1918-1936), Silver povoa com mármore, metal e imagens cinematográficas a interminável rampa circular do Museu Guggenheim em Nova York e recobre suas paredes com tons vermelhos e pastel.
A exposição se abre com Guerra, 15 gravuras de Otto Dix, combatente e artista pacifista alemão. Através da lembrança de corpos mutilados a conviverem com cadáveres em decomposição, vermes, lama e armas letais, Dix expressa o lamento de testemunha raivosa e involuntária do conflito bélico. Perversamente, Chaos & Classicism se fecha com o Prólogo ao filme Olympia (1936), dirigido por Leni Riefenstahl. Ao final dos minutos iniciais, hoje com trilha sonora tomada a Vangelis (youtube.com/watch?v=x6-0Cz73wwQ), a montagem sobrepõe à escultura Discóbolo, do grego Míron, imagens replicantes de atletas alemães contemporâneos. À porta do forno crematório, o 3.º Reich e as ruínas espetaculares do Partenon se harmonizam no elogio da performance desportiva. Já à venda nas boas livrarias brasileiras, o catálogo editado pelo Museu reproduz os trabalhos expostos. Estes se fazem acompanhar de ensaio recente de Silver e de estudos por três colegas seus.
Os artistas que pregam o retorno ao ideal clássico se definem como detratores da vanguarda futurista e expressionista. Retorno ao Ofício (Ritorno al Mestiere), ensaio de Giorgio De Chirico de 1919, tem grande repercussão na própria Itália e na Alemanha. Nele, aconselha o principiante a ter como modelo as estátuas clássicas. Ao reproduzi-las no papel, o jovem “aprende a nobreza e a religião do desenho”. Se por acaso não tiver a oportunidade de ir a museu, aconselha o pintor doublé de ensaísta, “compre uma reprodução em gesso e, no quarto, copie-a dez, vinte, cem vezes”. A teoria se faz prática no quadro Autoritratto (1922), no qual De Chirico exerce dupla e notável maestria sobre a tela bidimensional e a perspectiva. Pintado à esquerda, o busto esculpido de De Chirico olha à direita o rosto do artista também pintado, realisticamente. Este não tira os olhos do espectador. A significativa troca de olhares leva por título Se Ipsum (O Próprio, em latim). Ensaio e quadro servem para Silver assinalar o modo como a escultura se torna forma nobre nas artes entre as duas guerras. Em pleno domínio do espírito de vanguarda, a opção pelo ideal clássico se expressa na pintura por figuras humanas escultóricas (analisem-se as telas de Fernand Léger e Balthus), e tem o final aterrador nas imagens modelares e plácidas do filme Olympia.
Se Otto Dix é testemunha involuntária do caos bélico e De Chirico, crítico demolidor do vale-tudo vanguardista, é o pintor francês Amédée Ozenfant (1886-1966) quem dá os primeiros passos em direção a uma cultura pós-bélica que, por repelir a lembrança, se afirma conscientemente a favor do esquecimento. Em companhia do futuro Le Corbusier (então Charles-Edouard Jeanneret), Ozenfant baliza a reviravolta em Depois do Cubismo (1918). Ali se lê: “A guerra termina, tudo se organiza. Agora, só a ordem e a pureza iluminam e orientam a vida.” Criava-se o movimento purista e, em 1920, fundava-se a revista L”Esprit Nouveau, que repercutiu positivamente no Brasil.
Mário de Andrade é leitor apaixonado da revista, como atestam os sucessivos cotejos analisados por Maria Helena Grembecki em Mário de Andrade e L”Esprit Nouveau (IEB/USP, 1969). No prefácio ao livro, Antonio Candido reitera o papel exercido pela revista francesa na formação das ideias estéticas de Mário. Abrem-se outros caminhos na pesquisa sobre os primórdios da vanguarda brasileira.
Silviano Santiago – O Estado de S.Paulo
sábado, 13 de novembro de 2010
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Considerar alguém como culpado, porque pertence a uma coletividade á qual ele não "escolheu " pertencer , não é característica própria só do racismo.Todo nacionalismo mais intenso, e até mesmo qualquer bairrismo, consideram sempre os outros ( certos outros ) como culpados por serem o que são, por não pertencerem a uma coletividade à qual não escolheram pertencer.(...)
Cornelius Castoriadis
Cornelius Castoriadis
A crônica como espelho do mundo
A crônica sempre foi definida como uma forma brasileira de aparentemente jogar conversa fora, só que – dependendo de quem a escreve – resulta em algo de boa qualidade literária. É o caso de Antonio Prata, que reuniu um punhado delas para formar o livro Meio Intelectual, Meio de Esquerda (Editora 34), que será lançado hoje à noite, no Centro Cultural Rio Verde.
Boa parte do material foi publicado pelo Estado entre 2004 e este ano – primeiro no Guia, depois no caderno Metrópole. Uma constância que poderia levá-lo a acionar o piloto automático, ou seja, fisgar um assunto palpitante no noticiário de hoje para digeri-lo até transformá-lo na crônica de amanhã. Ou, pior: usar o já velho e rasteiro recurso de escrever sobre a falta de assunto quando a inspiração lhe falta. Prata, no entanto, é como Vinicius de Morais para quem escrever prosa é uma arte ingrata: ambos acreditam na crônica como um texto limpo, simples e com graça, sem prejuízo do interesse humano ou informativo.
Basta tomar o texto que inspira o título do livro, Bar Ruim É Lindo, Bicho. Ao se definir como meio intelectual, meio de esquerda, Prata aproveita para traçar o perfil da interessante dualidade da qual muitos se orgulham por acreditarem capazes de falar com desenvoltura tanto do cinema de Tarkovski como do golaço do corintiano Bruno César.
“Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos sobre literatura”, escreve ele, cujo faro para os bons assuntos é sempre temperado por um bom humor, como conta na seguinte entrevista.
Que tipo de assunto mais o interessa ao escrever crônicas?
Assuntos do cotidiano, aparentemente pequenos e desprezíveis. A partir deles, tento chegar a temas maiores. É pela beirada que se come a sopa da crônica.
Boa parte das crônicas reunidas em Meio Intelectual, Meio de Esquerda foi publicada no Estado. Seu interesse, portanto, é o de não confrontar com o noticiário, ou seja, focar em assuntos que não eram estavam nas páginas do jornal?
A crônica é um respiro. É o lugar onde o leitor, cansado de fichas limpas e arrastões, pode encontrar outro tema. Agora, dizer que os assuntos não são “jornalísticos” não significa que não sejam pertinentes e atuais. Ninguém vai escrever uma matéria sobre como os domingos são tristes, mas esse é um tema real, sobre o qual o cronista pode falar.
Que tipo de esboços você faz antes de escrever?
Até a hora que eu mando a crônica, ela é um grande esboço. Alguém já disse que escrever é reescrever: demoro muito tempo trabalhando e retrabalhando cada texto.
Você acredita que a literatura dá conta da realidade de hoje, que é tão complexa e acelerada?
Não sei se está dando conta da realidade, mas é nos momentos em que a realidade se torna complexa que surge a melhor literatura. Veja as tragédias gregas, quando aquelas pessoas passavam de um pensamento mítico e religioso para o racional e filosófico, veja Cervantes, no início do século 17, época em que o parafuso do pensamento dava uma segunda grande volta e surgia a ciência moderna, mandando os gigantes, a bruxaria, o geocentrismo e outras fábulas pra cucuia. Comparado a esses momentos, o mundo atual até parece bem simplezinho!
A solidão é fundamental para o escritor?
Fundamental. E hoje, com redes sociais, BlackBerries e outros cacarecos da comunicação, ficar sozinho é cada vez mais difícil. Cada texto terminado é uma vitória triunfal do Word contra o Twitter, o Facebook, o Outlook…
Você tem o hábito de mostrar o que escreve a outros escritores antes de publicar?
Crônicas, muito raramente. Como escrevo cerca de duas por semana, há muitos anos, já ia ter exaurido a paciência dos meus amigos faz tempo. Agora, quando estou escrevendo um conto ou romance e preciso de alguma ajuda, mostro trechos para amigos escritores e eles me ajudam bastante.
MEIO INTELECTUAL, MEIO DE ESQUERDA
Autor: Antonio Prata (Editora 34, 176 págs., R$ 30)
Fonte : O Estado de S.Paulo
Boa parte do material foi publicado pelo Estado entre 2004 e este ano – primeiro no Guia, depois no caderno Metrópole. Uma constância que poderia levá-lo a acionar o piloto automático, ou seja, fisgar um assunto palpitante no noticiário de hoje para digeri-lo até transformá-lo na crônica de amanhã. Ou, pior: usar o já velho e rasteiro recurso de escrever sobre a falta de assunto quando a inspiração lhe falta. Prata, no entanto, é como Vinicius de Morais para quem escrever prosa é uma arte ingrata: ambos acreditam na crônica como um texto limpo, simples e com graça, sem prejuízo do interesse humano ou informativo.
Basta tomar o texto que inspira o título do livro, Bar Ruim É Lindo, Bicho. Ao se definir como meio intelectual, meio de esquerda, Prata aproveita para traçar o perfil da interessante dualidade da qual muitos se orgulham por acreditarem capazes de falar com desenvoltura tanto do cinema de Tarkovski como do golaço do corintiano Bruno César.
“Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos sobre literatura”, escreve ele, cujo faro para os bons assuntos é sempre temperado por um bom humor, como conta na seguinte entrevista.
Que tipo de assunto mais o interessa ao escrever crônicas?
Assuntos do cotidiano, aparentemente pequenos e desprezíveis. A partir deles, tento chegar a temas maiores. É pela beirada que se come a sopa da crônica.
Boa parte das crônicas reunidas em Meio Intelectual, Meio de Esquerda foi publicada no Estado. Seu interesse, portanto, é o de não confrontar com o noticiário, ou seja, focar em assuntos que não eram estavam nas páginas do jornal?
A crônica é um respiro. É o lugar onde o leitor, cansado de fichas limpas e arrastões, pode encontrar outro tema. Agora, dizer que os assuntos não são “jornalísticos” não significa que não sejam pertinentes e atuais. Ninguém vai escrever uma matéria sobre como os domingos são tristes, mas esse é um tema real, sobre o qual o cronista pode falar.
Que tipo de esboços você faz antes de escrever?
Até a hora que eu mando a crônica, ela é um grande esboço. Alguém já disse que escrever é reescrever: demoro muito tempo trabalhando e retrabalhando cada texto.
Você acredita que a literatura dá conta da realidade de hoje, que é tão complexa e acelerada?
Não sei se está dando conta da realidade, mas é nos momentos em que a realidade se torna complexa que surge a melhor literatura. Veja as tragédias gregas, quando aquelas pessoas passavam de um pensamento mítico e religioso para o racional e filosófico, veja Cervantes, no início do século 17, época em que o parafuso do pensamento dava uma segunda grande volta e surgia a ciência moderna, mandando os gigantes, a bruxaria, o geocentrismo e outras fábulas pra cucuia. Comparado a esses momentos, o mundo atual até parece bem simplezinho!
A solidão é fundamental para o escritor?
Fundamental. E hoje, com redes sociais, BlackBerries e outros cacarecos da comunicação, ficar sozinho é cada vez mais difícil. Cada texto terminado é uma vitória triunfal do Word contra o Twitter, o Facebook, o Outlook…
Você tem o hábito de mostrar o que escreve a outros escritores antes de publicar?
Crônicas, muito raramente. Como escrevo cerca de duas por semana, há muitos anos, já ia ter exaurido a paciência dos meus amigos faz tempo. Agora, quando estou escrevendo um conto ou romance e preciso de alguma ajuda, mostro trechos para amigos escritores e eles me ajudam bastante.
MEIO INTELECTUAL, MEIO DE ESQUERDA
Autor: Antonio Prata (Editora 34, 176 págs., R$ 30)
Fonte : O Estado de S.Paulo
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
E DEUS EXPULSOU ADÃO…
E Deus expulsou Adão com golpes de cana-de-açúcar
E assim fabricou o primeiro rum na terra
E Adão e Eva cambalearam
pelos vinhedos do Senhor
a Santíssima Trindade os encurralava
mesmo assim continuaram cantando
com voz infantil de tabuada
Deus e Deus quatro
Deus e Deus quatro
E a Santíssima Trindade chorava…
Por cima do triângulo isóscele e sagrado
um biângulo isopicante brilhava
e eclipsava o outro.
de “Histoires” (1963)
Jacques Prévert
E assim fabricou o primeiro rum na terra
E Adão e Eva cambalearam
pelos vinhedos do Senhor
a Santíssima Trindade os encurralava
mesmo assim continuaram cantando
com voz infantil de tabuada
Deus e Deus quatro
Deus e Deus quatro
E a Santíssima Trindade chorava…
Por cima do triângulo isóscele e sagrado
um biângulo isopicante brilhava
e eclipsava o outro.
de “Histoires” (1963)
Jacques Prévert
domingo, 7 de novembro de 2010
Grito
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que e’ nosso.
São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo o que é nosso
é excessivo.
E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a espádua,
são os teus olhos,
depois o grito.
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
de outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.
E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa.
David Mourão Ferreira
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que e’ nosso.
São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo o que é nosso
é excessivo.
E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a espádua,
são os teus olhos,
depois o grito.
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
de outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.
E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa.
David Mourão Ferreira
sábado, 6 de novembro de 2010
Quem morre?
Pablo Neruda
Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o preto no branco
e os pingos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.
Pablo Neruda
Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o preto no branco
e os pingos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Devolva-me
Marize Castro
Devolva-me a cólera, a lanterna mágica,
que transportei comigo enquanto te amei.
Devolva-me a morte, a doença, a saúde,
o caos, o cais, as âncoras, o segredo,
teus ataques me deixaram forte
teus gozos me atingiram a alma
me fizeram odiar o amor.
Devolva-me a fantasia, as árvores sólidas
plantadas à margem de um delicado homem
que caminhava certo para a sabedoria dos pássaros.
Devolva-me o néctar, o túmulo dos milagres
a liberdade dos escândalos, os bosques, a lei da botânica,
a letargia da não-paixão,
o doce repouso nas águas da noite
do livro Lábios-espelhos, de Marize Castro. editora uno
Give me back
Marize Castro
Give me back my rage, the magic lantern,
that I carried with me while I loved you.
Give me back death, illness, health,
chaos,cays, anchors, secrets,
your attacks left me strong,
when you came it reached my soul,
it made me hate love.
Give me back fantasy, the soilid trees
planted along the edges of a polite man
who would walk straight toward the wisdom of birds.
Give me back the nectar, the tomb of miracles,
the freedom of scandals, the woods, the law of botany, the lethargy of non-passion,
the sweet repose in the waters of night.
(translates by Steven White)
Primórdios
Marize Castro
Rumor de asas.
Resíduos de países distantes em meu coração.
do livro Lábios-espelhos, de Marize Castro – editora Uno
Fino zelo
FINO ZELO – Marize Castro
Palavras quando caen sobre a gente
surpreendem, adoçam, cortam.
Pessoas quando tremem sobre a gente
cavalgam, encharcam, empoçam.
Fome quando só é fome -e nada mais-
destroça, cega, corrói.
Amor quando saliva
mesmo depois de muito, muito tempo,
é terra fértil, dança, paraíso, fino zelo.
Água descendo das estrelas.
Marize Castro
Devolva-me a cólera, a lanterna mágica,
que transportei comigo enquanto te amei.
Devolva-me a morte, a doença, a saúde,
o caos, o cais, as âncoras, o segredo,
teus ataques me deixaram forte
teus gozos me atingiram a alma
me fizeram odiar o amor.
Devolva-me a fantasia, as árvores sólidas
plantadas à margem de um delicado homem
que caminhava certo para a sabedoria dos pássaros.
Devolva-me o néctar, o túmulo dos milagres
a liberdade dos escândalos, os bosques, a lei da botânica,
a letargia da não-paixão,
o doce repouso nas águas da noite
do livro Lábios-espelhos, de Marize Castro. editora uno
Give me back
Marize Castro
Give me back my rage, the magic lantern,
that I carried with me while I loved you.
Give me back death, illness, health,
chaos,cays, anchors, secrets,
your attacks left me strong,
when you came it reached my soul,
it made me hate love.
Give me back fantasy, the soilid trees
planted along the edges of a polite man
who would walk straight toward the wisdom of birds.
Give me back the nectar, the tomb of miracles,
the freedom of scandals, the woods, the law of botany, the lethargy of non-passion,
the sweet repose in the waters of night.
(translates by Steven White)
Primórdios
Marize Castro
Rumor de asas.
Resíduos de países distantes em meu coração.
do livro Lábios-espelhos, de Marize Castro – editora Uno
Fino zelo
FINO ZELO – Marize Castro
Palavras quando caen sobre a gente
surpreendem, adoçam, cortam.
Pessoas quando tremem sobre a gente
cavalgam, encharcam, empoçam.
Fome quando só é fome -e nada mais-
destroça, cega, corrói.
Amor quando saliva
mesmo depois de muito, muito tempo,
é terra fértil, dança, paraíso, fino zelo.
Água descendo das estrelas.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos,
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente
Carlos Drummond de Andrade
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos,
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente
Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, 2 de novembro de 2010
domingo, 31 de outubro de 2010
sábado, 30 de outubro de 2010
AS SEM-RAZÕES DO AMOR
Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Carlos Drummond de Andrade
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Carlos Drummond de Andrade
O HOMEM E A MORTE
O homem já estava deitado
Dentro da noite sem cor.
Ia adormecendo, e nisto
À porta um golpe soou.
Não era pancada forte.
Contudo, ele se assustou,
Pois nela uma qualquer coisa
De pressago adivinhou.
Levantou-se e junto à porta
- Quem bate? Ele perguntou.
- Sou eu, alguém lhe responde.
- Eu quem? Torna. – A Morte sou.
Um vulto que bem sabia
Pela mente lhe passou:
Esqueleto armado de foice
Que a mãe lhe um dia levou.
Guardou-se de abrir a porta,
Antes ao leito voltou,
E nele os membros gelados
Cobriu, hirto de pavor.
Mas a porta, manso, manso,
Se foi abrindo e deixou
Ver – uma mulher ou anjo?
Figura toda banhada
De suave luz interior.
A luz de quem nesta vida
Tudo viu, tudo perdoou.
Olhar inefável como
De quem ao peito o criou.
Sorriso igual ao da amada
Que amara com mais amor.
- Tu és a Morte? Pergunta.
E o Anjo torna: – A Morte sou!
Venho trazer-te descanso
Do viver que te humilhou.
-Imaginava-te feia,
Pensava em ti com terror…
És mesmo a Morte? Ele insiste.
- Sim, torna o Anjo, a Morte sou,
Mestra que jamais engana,
A tua amiga melhor.
E o Anjo foi-se aproximando,
A fronte do homem tocou,
Com infinita doçura
As magras mãos lhe cerrou…
Era o carinho inefável
De quem ao peito o criou.
Era a doçura da amada
Que amara com mais amor.
Manuel Bandeira
Dentro da noite sem cor.
Ia adormecendo, e nisto
À porta um golpe soou.
Não era pancada forte.
Contudo, ele se assustou,
Pois nela uma qualquer coisa
De pressago adivinhou.
Levantou-se e junto à porta
- Quem bate? Ele perguntou.
- Sou eu, alguém lhe responde.
- Eu quem? Torna. – A Morte sou.
Um vulto que bem sabia
Pela mente lhe passou:
Esqueleto armado de foice
Que a mãe lhe um dia levou.
Guardou-se de abrir a porta,
Antes ao leito voltou,
E nele os membros gelados
Cobriu, hirto de pavor.
Mas a porta, manso, manso,
Se foi abrindo e deixou
Ver – uma mulher ou anjo?
Figura toda banhada
De suave luz interior.
A luz de quem nesta vida
Tudo viu, tudo perdoou.
Olhar inefável como
De quem ao peito o criou.
Sorriso igual ao da amada
Que amara com mais amor.
- Tu és a Morte? Pergunta.
E o Anjo torna: – A Morte sou!
Venho trazer-te descanso
Do viver que te humilhou.
-Imaginava-te feia,
Pensava em ti com terror…
És mesmo a Morte? Ele insiste.
- Sim, torna o Anjo, a Morte sou,
Mestra que jamais engana,
A tua amiga melhor.
E o Anjo foi-se aproximando,
A fronte do homem tocou,
Com infinita doçura
As magras mãos lhe cerrou…
Era o carinho inefável
De quem ao peito o criou.
Era a doçura da amada
Que amara com mais amor.
Manuel Bandeira
Repouso
Adalgisa Nery
Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela
canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem
os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas
entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo
agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito
amada.
Adalgisa Nery
De As Fronteiras da Quarta Dimensão (1951)
Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela
canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem
os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas
entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo
agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito
amada.
Adalgisa Nery
De As Fronteiras da Quarta Dimensão (1951)
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Poema amoroso
Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu…
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu…
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
te deixará pasmo, surpreso, perplexo…
eu te amo, perdoa-me, eu te amo…
Cora Coralina
tão meigo, tão terno, tão teu…
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu…
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
te deixará pasmo, surpreso, perplexo…
eu te amo, perdoa-me, eu te amo…
Cora Coralina
sábado, 23 de outubro de 2010
As várias faces da (web) poesia
O uso da internet pelos novos poetas entra na reflexão sobre o gênero
Raquel Cozer – O Estado de S. Paulo
Questão inimaginável para gerações anteriores da poesia, o arquivamento da produção espalhada por sites, blogs e redes sociais hoje merece reflexão. Afinal, na década em que os diários virtuais se popularizaram no Brasil, boa parte dos versos disponibilizados online nunca chegou ao papel – um dos motivos pelos quais é tão pouco estudada a poesia feita na última década. “Torna-se difícil mapear a produção ciberpoética se não tivermos uma estratégia de preservação para arquivar o material que existe na internet”, diz o cearense Aquiles Alencar Brayner, curador do acervo latino-americano da British Library, no Reino Unido. Prestes a concluir mestrado sobre arquivos digitais, Brayner dará palestra a respeito na terceira edição do Simpoesia, encontro internacional que acontece do próximo dia 5 ao 7 na Casa das Rosas, em São Paulo.
Divulgação – Poema de Marcelo Sahea
Veja também:
Leia mais poemas
O evento é apenas um dos sinais da atenção para este cenário num momento em que os e-readers começam a chegar a País, trazendo possibilidades de experimentação – assim como a literatura infantil, a poesia é um dos gêneros que mais têm a se beneficiar com as novas tecnologias. Nos dias 13 e 14, o festival literário Artimanhas Poéticas, no Rio – que incluirá apresentações de videopoesia e performances – levantará o debate A Poesia Escrita em Outras Esferas, com a estudiosa Heloísa Buarque de Holanda, organizadora da Enter Antologia Digital, e os poetas Gabriela Marcondes e André Vallias.
O encontro com a tecnologia é um fenômeno muito anterior à internet, embora tenha encontrado nela seu meio mais propício. O recém-lançado Poesia Digital – Teoria, História, Antologias (Fapesp/Navegar, R$ 30, 80 págs. + DVD), fruto de mapeamento realizado por Jorge Luiz Antonio, pós-doutorando no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, volta mais de 50 anos no tempo para encontrar as origens da poesia eletrônica. A primeira experiência do gênero, segundo o autor, foi publicada em 1959 pelo alemão Theo Lutz. Chamada Stochastische Texte, pegava as cem primeiras palavras de O Castelo, de Kafka, e criava novos textos a partir delas, usando um programa de computador que produzia frases na estrutura do idioma alemão. “Estava ali a origem dessa produção que tem forte relação com a arte, com o design e com a tecnologia, e que é um desdobramento das poesias de vanguarda, visual, concreta, experimental”, diz Antonio.
A poesia que se encontra na internet hoje divide-se em pelo menos dois grandes grupos, embora eles não raro se confundam. “De um lado estão os herdeiros do concretismo, que ampliaram propostas idealizadas pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e por Décio Pignatari”, diz Antônio Vicente Pietroforte, professor de letras, semiótica e linguística da USP (Augusto de Campos, por sinal, teve o primeiro contato com um Macintosh em 1984). “Outra vertente, que usa a rede mais como ambiente de difusão, tende a uma abordagem mais coloquial, influenciada pela música pop, pelos beats, pelos poetas marginais e pela literatura periférica.”
É nesse segundo grupo que está a maior parte da atual produção de poesia online no País – que, mesmo sendo tão ampla, permite o reconhecimento de alguns poetas, em especial ligados aos eventos literários. Caso da curadora do Simpoesia, Virna Teixeira, que estreou em 2004 o blog Papel de Rascunho (papelderascunho.net). Embora já tivesse sido publicada, foi depois da investida virtual que ficou mais conhecida pelo empenho em difundir a poesia e a tradução – ela comanda hoje um selo artesanal, o Arqueria Editorial. No blog, que recebe média de 200 visitas por dia, publica poemas próprios, mas também trabalhos de outros autores, imagens, frases e áudios, “como se fossem recortes”. “Hoje é mais fácil ter um livro editado, mas as casas tradicionais ainda resistem a lançar poesia. Quem faz isso são as pequenas, que têm distribuição limitada. A internet revelou um número de leitores muito maior do que se podia supor.”
A paulistana Adriana Zapparoli estreou o blog zênite (zeniteblog.zip.net), em 2004, três anos antes de publicar o primeiro livro, A Flor-da-Abissínia (Lumme). “Coloco lá textos referenciais de intenções líricas. Muitas das minhas publicações em revistas literárias impressas ou online são sugestões vindas da leitura do conteúdo do blog”, diz. O uso da tecnologia como linguagem, afirma, não lhe interessa. “Já me aventurei em recursos do gênero, mas prefiro a sensação perene da impressão, a coisa do papel. Gosto da textura, das cores, quase que um quadro”, diz. Vantagem maior da internet, para ela, é conhecer de perto o trabalho de poetas de outros países, algo hoje muito mais fácil do que foi para gerações passadas – a paulistana Ana Rusche, por exemplo, que organiza em São Paulo o evento literário Flap! e edita o blog Contrabandistas de Peluche (www.anarusche.com), chegou a ter livro publicado no México por conta de contatos feitos online. Experiência similar, mas dentro mesmo do País, viveu o poeta e tradutor Cláudio Daniel, editor da revista Zunái (www.revistazunai.com), uma das principais referências de poesia na internet. “Tenho 48 anos, mas só fui conhecer poetas da minha geração, como Frederico Barbosa e Arnaldo Antunes, pela rede. Foi só então que nossa geração passou a conversar e organizar revistas.”
Recursos. Jorge Luiz Antonio lembra que mesmo a poesia focada no verbal sofre interferência dos meios tecnológicos. “Até a temática acaba influenciada pelas tecnologias, numa espécie de metalinguagem”, argumenta. Mas é entre os herdeiros dos concretistas que isso se destaca mais – em seu primeiro livro, Movimento Perpétuo, de 2002, o carioca Márcio André (www.marcioandre.com) chegou a usar códigos de HTML, com suas barras e tags, em meio aos versos, como conteúdo do texto.
André Vallias, editor da Errática (www.erratica.com), foi um dos pioneiros no Brasil no uso de computador em poesia – no início dos anos 90, quando os PCs ainda eram peça rara no Brasil, o jovem formado em direito teve contato, na Alemanha, com tecnologias que não existiam por aqui. “Nunca quis fazer poesia simplesmente escrita”, diz. Naquele momento, a divulgação era feita apenas por CD-ROM, limitação superada com a internet.
O interesse em explorar as possibilidades da web – em 1995, já produzia trabalhos em flash, com animação e áudio – o levou também a questionar o formato de revistas literárias online. “Muita gente fazia revista de poesia na internet, mas com o mesmo padrão da revista impressa. Ou seja, acumula uma série de trabalhos e faz por edição, a cada dois meses. Achava que essa limitação era inadequada”, conta. Fez da Errática uma espécie de blog com visual de site, tomando como base a revista Artéria – criada em 1975, com diferentes formatos a cada edição, chegou até a sair no formato de uma sacola, com os poemas de diferentes proporções dentro. “Aquela década foi muito fértil, com publicações impressas que superavam dificuldades. A Errática aplicou esse mesmo princípio na internet, sem obrigar cada trabalho a ter o mesmo padrão”, conta. Na última quarta-feira, entrou no ar a 101ª colaboração, um videopoema da carioca Gabriela Marcondes feito a partir de fragmentos de poesias de nomes como Cruz e Sousa, Florbela Espanca e Machado de Assis.
Performance. Assim como Vallias, o carioca Marcelo Sahea (www.sahea.net) dedica boa parte de seu trabalho à performance – uma espécie de caminho natural para o poeta que antecipa tendências e engloba gêneros. Autor de um e-book lançado em 2001, quando nem se falava no assunto, e que teve à época 15 mil downloads (no formato tradicional de PDF), hoje ele prefere apresentar sua poesia sonora ao vivo. Na avaliação de Vallias, essa tendência deriva das possibilidades virtuais – ler um poema ao mesmo tempo em que se ouve a voz do poeta, por exemplo. “A rede liberou a poesia da literatura. Há uma falsa impressão de que a poesia pertence à literatura, mas, na maior parte das culturas, a poesia oral é a fonte de perpetuação de mitos”, diz.
Uma entre os poucos estudiosos da poesia digital no Brasil, Heloisa Buarque de Holanda avalia que a crítica faz “pouco caso” das novas linguagens. “Como se vê mais quantidade que qualidade, imagina-se que não tem profundidade”, diz. Em 1998, o poeta e antropólogo Antônio Risério fez um estudo pioneiro desse trabalho, o Ensaio Sobre o Texto Poético em Tempo Digital. Doze anos depois, ele admite ter conhecido muito pouco “realmente digno de interesse”. “A maioria se senta diante do computador como se estivesse diante do papel e da velha máquina de escrever. Não se entrega ao novo meio. Os que fazem isso, como Arnaldo Antunes e André Vallias, vêm de antes da existência de blogs e revistas eletrônicas”, diz.
Intercâmbio e tradução para entender a poesia
Em sua terceira edição, o Simpoesia – que acontece de 5 a 7/11 na Casa das Rosas – terá como destaques a tradução, o intercâmbio entre poetas estrangeiros e de vários Estados do Brasil, a discussão sobre a poesia na universidade e a produção digital. O escritor Wilson Bueno, morto em maio deste ano, será homenageado com a presença da premiada poeta e tradutora canadense Erin Moure – o maior nome do evento -, responsável por verter para o inglês textos em portunhol (misto de português, espanhol e guarani) do paranaense. Outros convidados estrangeiros são Bruce Andrews, fundador e coeditor do jornal de vanguarda L=A=N=G=U=A=G=E, e o holandês Arjen Duinker – que, assim como Erin, tem ligação com a língua portuguesa. “Quisemos manter a proposta de encontro internacional, que já havíamos testado no ano passado, mas o foco varia de ano a ano, Neste, quis chamar mais mulheres. Haverá, por exemplo, um recital com cinco tradutoras, o que também aproxima a universidade”, diz Virna Teixeira, curadora do Simpoesia. De outros Estados, participarão nomes como o paraense Nilson Oliveira, da revista Polichinello, e a editora, jornalista e poeta Marize Castro, do Rio Grande do Norte.
O uso da internet pelos novos poetas entra na reflexão sobre o gênero
Raquel Cozer – O Estado de S. Paulo
Questão inimaginável para gerações anteriores da poesia, o arquivamento da produção espalhada por sites, blogs e redes sociais hoje merece reflexão. Afinal, na década em que os diários virtuais se popularizaram no Brasil, boa parte dos versos disponibilizados online nunca chegou ao papel – um dos motivos pelos quais é tão pouco estudada a poesia feita na última década. “Torna-se difícil mapear a produção ciberpoética se não tivermos uma estratégia de preservação para arquivar o material que existe na internet”, diz o cearense Aquiles Alencar Brayner, curador do acervo latino-americano da British Library, no Reino Unido. Prestes a concluir mestrado sobre arquivos digitais, Brayner dará palestra a respeito na terceira edição do Simpoesia, encontro internacional que acontece do próximo dia 5 ao 7 na Casa das Rosas, em São Paulo.
Divulgação – Poema de Marcelo Sahea
Veja também:
Leia mais poemas
O evento é apenas um dos sinais da atenção para este cenário num momento em que os e-readers começam a chegar a País, trazendo possibilidades de experimentação – assim como a literatura infantil, a poesia é um dos gêneros que mais têm a se beneficiar com as novas tecnologias. Nos dias 13 e 14, o festival literário Artimanhas Poéticas, no Rio – que incluirá apresentações de videopoesia e performances – levantará o debate A Poesia Escrita em Outras Esferas, com a estudiosa Heloísa Buarque de Holanda, organizadora da Enter Antologia Digital, e os poetas Gabriela Marcondes e André Vallias.
O encontro com a tecnologia é um fenômeno muito anterior à internet, embora tenha encontrado nela seu meio mais propício. O recém-lançado Poesia Digital – Teoria, História, Antologias (Fapesp/Navegar, R$ 30, 80 págs. + DVD), fruto de mapeamento realizado por Jorge Luiz Antonio, pós-doutorando no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, volta mais de 50 anos no tempo para encontrar as origens da poesia eletrônica. A primeira experiência do gênero, segundo o autor, foi publicada em 1959 pelo alemão Theo Lutz. Chamada Stochastische Texte, pegava as cem primeiras palavras de O Castelo, de Kafka, e criava novos textos a partir delas, usando um programa de computador que produzia frases na estrutura do idioma alemão. “Estava ali a origem dessa produção que tem forte relação com a arte, com o design e com a tecnologia, e que é um desdobramento das poesias de vanguarda, visual, concreta, experimental”, diz Antonio.
A poesia que se encontra na internet hoje divide-se em pelo menos dois grandes grupos, embora eles não raro se confundam. “De um lado estão os herdeiros do concretismo, que ampliaram propostas idealizadas pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e por Décio Pignatari”, diz Antônio Vicente Pietroforte, professor de letras, semiótica e linguística da USP (Augusto de Campos, por sinal, teve o primeiro contato com um Macintosh em 1984). “Outra vertente, que usa a rede mais como ambiente de difusão, tende a uma abordagem mais coloquial, influenciada pela música pop, pelos beats, pelos poetas marginais e pela literatura periférica.”
É nesse segundo grupo que está a maior parte da atual produção de poesia online no País – que, mesmo sendo tão ampla, permite o reconhecimento de alguns poetas, em especial ligados aos eventos literários. Caso da curadora do Simpoesia, Virna Teixeira, que estreou em 2004 o blog Papel de Rascunho (papelderascunho.net). Embora já tivesse sido publicada, foi depois da investida virtual que ficou mais conhecida pelo empenho em difundir a poesia e a tradução – ela comanda hoje um selo artesanal, o Arqueria Editorial. No blog, que recebe média de 200 visitas por dia, publica poemas próprios, mas também trabalhos de outros autores, imagens, frases e áudios, “como se fossem recortes”. “Hoje é mais fácil ter um livro editado, mas as casas tradicionais ainda resistem a lançar poesia. Quem faz isso são as pequenas, que têm distribuição limitada. A internet revelou um número de leitores muito maior do que se podia supor.”
A paulistana Adriana Zapparoli estreou o blog zênite (zeniteblog.zip.net), em 2004, três anos antes de publicar o primeiro livro, A Flor-da-Abissínia (Lumme). “Coloco lá textos referenciais de intenções líricas. Muitas das minhas publicações em revistas literárias impressas ou online são sugestões vindas da leitura do conteúdo do blog”, diz. O uso da tecnologia como linguagem, afirma, não lhe interessa. “Já me aventurei em recursos do gênero, mas prefiro a sensação perene da impressão, a coisa do papel. Gosto da textura, das cores, quase que um quadro”, diz. Vantagem maior da internet, para ela, é conhecer de perto o trabalho de poetas de outros países, algo hoje muito mais fácil do que foi para gerações passadas – a paulistana Ana Rusche, por exemplo, que organiza em São Paulo o evento literário Flap! e edita o blog Contrabandistas de Peluche (www.anarusche.com), chegou a ter livro publicado no México por conta de contatos feitos online. Experiência similar, mas dentro mesmo do País, viveu o poeta e tradutor Cláudio Daniel, editor da revista Zunái (www.revistazunai.com), uma das principais referências de poesia na internet. “Tenho 48 anos, mas só fui conhecer poetas da minha geração, como Frederico Barbosa e Arnaldo Antunes, pela rede. Foi só então que nossa geração passou a conversar e organizar revistas.”
Recursos. Jorge Luiz Antonio lembra que mesmo a poesia focada no verbal sofre interferência dos meios tecnológicos. “Até a temática acaba influenciada pelas tecnologias, numa espécie de metalinguagem”, argumenta. Mas é entre os herdeiros dos concretistas que isso se destaca mais – em seu primeiro livro, Movimento Perpétuo, de 2002, o carioca Márcio André (www.marcioandre.com) chegou a usar códigos de HTML, com suas barras e tags, em meio aos versos, como conteúdo do texto.
André Vallias, editor da Errática (www.erratica.com), foi um dos pioneiros no Brasil no uso de computador em poesia – no início dos anos 90, quando os PCs ainda eram peça rara no Brasil, o jovem formado em direito teve contato, na Alemanha, com tecnologias que não existiam por aqui. “Nunca quis fazer poesia simplesmente escrita”, diz. Naquele momento, a divulgação era feita apenas por CD-ROM, limitação superada com a internet.
O interesse em explorar as possibilidades da web – em 1995, já produzia trabalhos em flash, com animação e áudio – o levou também a questionar o formato de revistas literárias online. “Muita gente fazia revista de poesia na internet, mas com o mesmo padrão da revista impressa. Ou seja, acumula uma série de trabalhos e faz por edição, a cada dois meses. Achava que essa limitação era inadequada”, conta. Fez da Errática uma espécie de blog com visual de site, tomando como base a revista Artéria – criada em 1975, com diferentes formatos a cada edição, chegou até a sair no formato de uma sacola, com os poemas de diferentes proporções dentro. “Aquela década foi muito fértil, com publicações impressas que superavam dificuldades. A Errática aplicou esse mesmo princípio na internet, sem obrigar cada trabalho a ter o mesmo padrão”, conta. Na última quarta-feira, entrou no ar a 101ª colaboração, um videopoema da carioca Gabriela Marcondes feito a partir de fragmentos de poesias de nomes como Cruz e Sousa, Florbela Espanca e Machado de Assis.
Performance. Assim como Vallias, o carioca Marcelo Sahea (www.sahea.net) dedica boa parte de seu trabalho à performance – uma espécie de caminho natural para o poeta que antecipa tendências e engloba gêneros. Autor de um e-book lançado em 2001, quando nem se falava no assunto, e que teve à época 15 mil downloads (no formato tradicional de PDF), hoje ele prefere apresentar sua poesia sonora ao vivo. Na avaliação de Vallias, essa tendência deriva das possibilidades virtuais – ler um poema ao mesmo tempo em que se ouve a voz do poeta, por exemplo. “A rede liberou a poesia da literatura. Há uma falsa impressão de que a poesia pertence à literatura, mas, na maior parte das culturas, a poesia oral é a fonte de perpetuação de mitos”, diz.
Uma entre os poucos estudiosos da poesia digital no Brasil, Heloisa Buarque de Holanda avalia que a crítica faz “pouco caso” das novas linguagens. “Como se vê mais quantidade que qualidade, imagina-se que não tem profundidade”, diz. Em 1998, o poeta e antropólogo Antônio Risério fez um estudo pioneiro desse trabalho, o Ensaio Sobre o Texto Poético em Tempo Digital. Doze anos depois, ele admite ter conhecido muito pouco “realmente digno de interesse”. “A maioria se senta diante do computador como se estivesse diante do papel e da velha máquina de escrever. Não se entrega ao novo meio. Os que fazem isso, como Arnaldo Antunes e André Vallias, vêm de antes da existência de blogs e revistas eletrônicas”, diz.
Intercâmbio e tradução para entender a poesia
Em sua terceira edição, o Simpoesia – que acontece de 5 a 7/11 na Casa das Rosas – terá como destaques a tradução, o intercâmbio entre poetas estrangeiros e de vários Estados do Brasil, a discussão sobre a poesia na universidade e a produção digital. O escritor Wilson Bueno, morto em maio deste ano, será homenageado com a presença da premiada poeta e tradutora canadense Erin Moure – o maior nome do evento -, responsável por verter para o inglês textos em portunhol (misto de português, espanhol e guarani) do paranaense. Outros convidados estrangeiros são Bruce Andrews, fundador e coeditor do jornal de vanguarda L=A=N=G=U=A=G=E, e o holandês Arjen Duinker – que, assim como Erin, tem ligação com a língua portuguesa. “Quisemos manter a proposta de encontro internacional, que já havíamos testado no ano passado, mas o foco varia de ano a ano, Neste, quis chamar mais mulheres. Haverá, por exemplo, um recital com cinco tradutoras, o que também aproxima a universidade”, diz Virna Teixeira, curadora do Simpoesia. De outros Estados, participarão nomes como o paraense Nilson Oliveira, da revista Polichinello, e a editora, jornalista e poeta Marize Castro, do Rio Grande do Norte.
Meramente ser
OF MERE BEING
The palm at the end of the mind,
Beyond the last thought, rises
In the bronze decor*.
A golf-feathered bird
Sings in the palm, without human meaning,
Without human feeling, a foreign song.
You know then that it is not the reason
That makes us happy or unhappy.
The bird sings. Its feathers shine.
The palm stands on the edge of space.
The wind moves slowly in the branches.
The bird’s fire-fangled feathers dangle down.
* Existem versões para este verso em que a última palavra é distance
MERAMENTE SER
A palmeira no final da mente,
Além do pensamento último, se eleva
Na brônzea distância,
Um pássaro de penas de ouro
Canta na palmeira, sem sentido humano,
Nem sentimento humano, um canto estrangeiro.
Então compreende-se que não é a razão
Que traz tristeza ou alegria.
O pássaro canta. As penas brilham.
A palmeira paira no limiar do espaço.
O vento roça devagar seus galhos.
As penas de fogo do pássaro pendem frouxas.
Fonte : Estado de São Paulo
“Of Mere Being”, poema de Wallace Stevens, incluído no livro Till I End My Song — A Gathering of Last Poems, organizado por Harold Bloom (Harper Collins, importado; 379 páginas, R$ 56,73); a tradução utilizada é a de Paulo Henriques Britto e faz parte da antologia Poema , de Wallace Stevens (Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 44)
OF MERE BEING
The palm at the end of the mind,
Beyond the last thought, rises
In the bronze decor*.
A golf-feathered bird
Sings in the palm, without human meaning,
Without human feeling, a foreign song.
You know then that it is not the reason
That makes us happy or unhappy.
The bird sings. Its feathers shine.
The palm stands on the edge of space.
The wind moves slowly in the branches.
The bird’s fire-fangled feathers dangle down.
* Existem versões para este verso em que a última palavra é distance
MERAMENTE SER
A palmeira no final da mente,
Além do pensamento último, se eleva
Na brônzea distância,
Um pássaro de penas de ouro
Canta na palmeira, sem sentido humano,
Nem sentimento humano, um canto estrangeiro.
Então compreende-se que não é a razão
Que traz tristeza ou alegria.
O pássaro canta. As penas brilham.
A palmeira paira no limiar do espaço.
O vento roça devagar seus galhos.
As penas de fogo do pássaro pendem frouxas.
Fonte : Estado de São Paulo
“Of Mere Being”, poema de Wallace Stevens, incluído no livro Till I End My Song — A Gathering of Last Poems, organizado por Harold Bloom (Harper Collins, importado; 379 páginas, R$ 56,73); a tradução utilizada é a de Paulo Henriques Britto e faz parte da antologia Poema , de Wallace Stevens (Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 44)
Quando eu tiver setenta anos
quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência
Paulo Leminski
então vai acabar esta adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência
Paulo Leminski
Serenata
by Ludwig Rellstab (1799-1860)
Leise flehen meine Lieder
Durch die Nacht zu dir;
In den stillen Hain hernieder,
Liebchen, komm zu mir!
Flüsternd schlanke Wipfel rauschen
In des Mondes Licht;
Des Verräters feindlich Lauschen
Fürchte, Holde, nicht.
Hörst die Nachtigallen schlagen?
Ach! sie flehen dich,
Mit der Töne süßen Klagen
Flehen sie für mich.
Sie verstehn des Busens Sehnen,
Kennen Liebesschmerz,
Rühren mit den Silbertönen
Jedes weiche Herz.
Laß auch dir die Brust bewegen,
Liebchen, höre mich!
Bebend harr’ ich dir entgegen!
Komm, beglücke mich!
Serenade
My songs beckon softly
through the night to you;
below in the quiet grove,
Come to me, beloved!
The rustle of slender leaf tips whispers
in the moonlight;
Do not fear the evil spying
of the betrayer, my dear.
Do you hear the nightingales call?
Ah, they beckon to you,
With the sweet sound of their singing
they beckon to you for me.
They understand the heart’s longing,
know the pain of love,
They calm each tender heart
with their silver tones.
Let them also stir within your breast,
beloved, hear me!
Trembling I wait for you,
Come, please me!
Translation from German by Michael P. Rosewall
by Ludwig Rellstab (1799-1860)
Leise flehen meine Lieder
Durch die Nacht zu dir;
In den stillen Hain hernieder,
Liebchen, komm zu mir!
Flüsternd schlanke Wipfel rauschen
In des Mondes Licht;
Des Verräters feindlich Lauschen
Fürchte, Holde, nicht.
Hörst die Nachtigallen schlagen?
Ach! sie flehen dich,
Mit der Töne süßen Klagen
Flehen sie für mich.
Sie verstehn des Busens Sehnen,
Kennen Liebesschmerz,
Rühren mit den Silbertönen
Jedes weiche Herz.
Laß auch dir die Brust bewegen,
Liebchen, höre mich!
Bebend harr’ ich dir entgegen!
Komm, beglücke mich!
Serenade
My songs beckon softly
through the night to you;
below in the quiet grove,
Come to me, beloved!
The rustle of slender leaf tips whispers
in the moonlight;
Do not fear the evil spying
of the betrayer, my dear.
Do you hear the nightingales call?
Ah, they beckon to you,
With the sweet sound of their singing
they beckon to you for me.
They understand the heart’s longing,
know the pain of love,
They calm each tender heart
with their silver tones.
Let them also stir within your breast,
beloved, hear me!
Trembling I wait for you,
Come, please me!
Translation from German by Michael P. Rosewall
Objeto de amor
De tal ordem é e tão precioso
o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem que me oprima a sensação de um roubo:
cu é lindo!
Fazei o que puderdes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdôo, eu amo.
Adélia Prado
o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem que me oprima a sensação de um roubo:
cu é lindo!
Fazei o que puderdes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdôo, eu amo.
Adélia Prado
A Serenata
Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que ele vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
Adélia Prado
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que ele vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
Adélia Prado
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
A rua
Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De contínuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.
A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.
Cassiano Ricardo
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De contínuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.
A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.
Cassiano Ricardo
Erótica é a alma
Pernas entrelaçadas
as minhas, as tuas
sem saber de quem são.
as mãos!
língua aventureira
desvenda meus sonhos
molha minha pele
Tesão!
jogado na cama
passeio em teu corpo
como tua carne
em ritual
Oração!
Eros nos move
Baco nos guia
ao prazer sem pressa
até que eu morra em teus braços
renasça em tua boca.
Para que morras em meu corpo
e renasças
dentro de mim.
Adélia Prado,
em Poesia reunida. São Paulo. Editora Siciliano
as minhas, as tuas
sem saber de quem são.
as mãos!
língua aventureira
desvenda meus sonhos
molha minha pele
Tesão!
jogado na cama
passeio em teu corpo
como tua carne
em ritual
Oração!
Eros nos move
Baco nos guia
ao prazer sem pressa
até que eu morra em teus braços
renasça em tua boca.
Para que morras em meu corpo
e renasças
dentro de mim.
Adélia Prado,
em Poesia reunida. São Paulo. Editora Siciliano
domingo, 17 de outubro de 2010
Pudesse eu
Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!
Sophia de Mello Breyner
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!
Sophia de Mello Breyner
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Não passarão
Miguel Torga
Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!
Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.
Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.
Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!
Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!
Miguel Torga
Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!
Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.
Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.
Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!
Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!
Recomeça…
Miguel Torga
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...
Miguel Torga
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Ma Solitude
Pour avoir si souvent dormi
Avec ma solitude
Je m’en suis fait presqu’une amie
Une douce habitude
Ell’ ne me quitte pas d’un pas
Fidèle comme une ombre
Elle m’a suivi ça et là
Aux quatre coins du monde
Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude
Quand elle est au creux de mon lit
Elle prend toute la place
Et nous passons de longues nuits
Tous les deux face à face
Je ne sais vraiment pas jusqu’où
Ira cette complice
Faudra-t-il que j’y prenne goût
Ou que je réagisse?
Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude
Par elle, j’ai autant appris
Que j’ai versé de larmes
Si parfois je la répudie
Jamais elle ne désarme
Et si je préfère l’amour
D’une autre courtisane
Elle sera à mon dernier jour
Ma dernière compagne
Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude
Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude
Avec ma solitude
Je m’en suis fait presqu’une amie
Une douce habitude
Ell’ ne me quitte pas d’un pas
Fidèle comme une ombre
Elle m’a suivi ça et là
Aux quatre coins du monde
Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude
Quand elle est au creux de mon lit
Elle prend toute la place
Et nous passons de longues nuits
Tous les deux face à face
Je ne sais vraiment pas jusqu’où
Ira cette complice
Faudra-t-il que j’y prenne goût
Ou que je réagisse?
Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude
Par elle, j’ai autant appris
Que j’ai versé de larmes
Si parfois je la répudie
Jamais elle ne désarme
Et si je préfère l’amour
D’une autre courtisane
Elle sera à mon dernier jour
Ma dernière compagne
Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude
Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude
La Solitudine
Marco se n’è andato e non ritorna piů
Il treno delle sette e trenta senza lui
Č un cuore di metallo senza l’anima
Nel freddo del matino grigio di città
A scuola il banco è vuoto, Marco è dentro me
è dolce il suo respiro fra i pensieri miei
Distanze enormi sembrano dividerci
Ma il cuore batte forte dentro me
Chissà se tu mi penserai
Se con i tuoi non parli mai
Se ti nascondi come me
Sfuggi gli sguardi e te ne stai
Rinchiuso in camera e non vuoi mangiare
Stringi forte al te il cuscino
Piangi non lo sai
Quanto altro male ti farà la solitudine
Marco nel mio diario ho una fotografia
Hai gli occhi di bambino un poco timido
La stringo forte al cuore e sento che ci sei
Fra i compiti d’inglese e matematica
Tuo padre e i suoi consigli che monotonia
Lui con il suo lavoro ti ha portato via
Di certo il tuo parere non l’ha chiesto mai
Ha detto: “un giorno tu mi capirai”
Chissà se tu mi penserai
Se con gli amici parlerai
Per non soffrire piů per me
Ma non è facile lo sai
A scuola non me posso piů
E i pomeriggi senza te
Studiare è inutile tutte le idee
Si affollano su te
Non è possibile dividere
La vita di noi due
Ti prego aspettami amore mio
Ma illuderti non so
La solitudine fra noi
Questo silenzio dentro me
è l’inquietudine di vivere
La vita senza te
Ti prego aspettami perché
Non posso stare senza te
Non è possibile dividere
La storia di noi due
La solitudine fra noi
Questo silenzio dentro me
è l’inquietudine di vivere
La vita senza te
Ti prego aspettami perché
Non posso stare senza te
Non è possibile dividere
La storia di noi due
La solitudine
Il treno delle sette e trenta senza lui
Č un cuore di metallo senza l’anima
Nel freddo del matino grigio di città
A scuola il banco è vuoto, Marco è dentro me
è dolce il suo respiro fra i pensieri miei
Distanze enormi sembrano dividerci
Ma il cuore batte forte dentro me
Chissà se tu mi penserai
Se con i tuoi non parli mai
Se ti nascondi come me
Sfuggi gli sguardi e te ne stai
Rinchiuso in camera e non vuoi mangiare
Stringi forte al te il cuscino
Piangi non lo sai
Quanto altro male ti farà la solitudine
Marco nel mio diario ho una fotografia
Hai gli occhi di bambino un poco timido
La stringo forte al cuore e sento che ci sei
Fra i compiti d’inglese e matematica
Tuo padre e i suoi consigli che monotonia
Lui con il suo lavoro ti ha portato via
Di certo il tuo parere non l’ha chiesto mai
Ha detto: “un giorno tu mi capirai”
Chissà se tu mi penserai
Se con gli amici parlerai
Per non soffrire piů per me
Ma non è facile lo sai
A scuola non me posso piů
E i pomeriggi senza te
Studiare è inutile tutte le idee
Si affollano su te
Non è possibile dividere
La vita di noi due
Ti prego aspettami amore mio
Ma illuderti non so
La solitudine fra noi
Questo silenzio dentro me
è l’inquietudine di vivere
La vita senza te
Ti prego aspettami perché
Non posso stare senza te
Non è possibile dividere
La storia di noi due
La solitudine fra noi
Questo silenzio dentro me
è l’inquietudine di vivere
La vita senza te
Ti prego aspettami perché
Non posso stare senza te
Non è possibile dividere
La storia di noi due
La solitudine
Je suis d’un autre pays que le vôtre, d’une autre quartier, d’une autre solitude.
Je m’invente aujourd’hui des chemins de traverse. Je ne suis plus de chez vous.
J’attends des mutants. Biologiquement je m’arrange avec l’idée que je me fais de la biologie: je pisse, j’éjacule, je pleure. Il est de toute première instance que nous façonnions nos idées comme s’il s’agissait d’objets manufacturés.
Je suis prêt à vous procurer les moules. Mais…
la solitude…
Les moules sont d’une texture nouvelle, je vous avertis. Ils ont été coulés demain matin. Si vous n’avez pas, dès ce jour, le sentiment relatif de votre durée, il est inutile de vous transmettre, il est inutile de regarder devant vous car devant c’est derrière, la nuit c’est le jour. Et…
la solitude…
Il est de toute première instance que les laveries automatiques, au coin des rues, soient aussi imperturbables que les feux d’arrêt ou de voie libre. Les flics du détersif vous indiqueront la case où il vous sera loisible de laver ce que vous croyez être votre conscience et qui n’est qu’une dépendance de l’ordinateur neurophile qui vous sert de cerveau. Et pourtant…
la solitude…
Le désespoir est une forme supérieure de la critique. Pour le moment, nous l’appellerons “bonheur”, les mots que vous employez n’étant plus ” les mots” mais une sorte de conduit à travers lequel les analphabètes se font bonne conscience. Mais…
la solitude…
Le Code civil nous en parlerons plus tard. Pour le moment, je voudrais codifier l’incodifiable. Je voudrais mesurer vos danaïdes démocraties.
Je voudrais m’insérer dans le vide absolu et devenir le non-dit, le non-avenu, le non-vierge par manque de lucidité. La lucidité se tient dans mon froc.
Je m’invente aujourd’hui des chemins de traverse. Je ne suis plus de chez vous.
J’attends des mutants. Biologiquement je m’arrange avec l’idée que je me fais de la biologie: je pisse, j’éjacule, je pleure. Il est de toute première instance que nous façonnions nos idées comme s’il s’agissait d’objets manufacturés.
Je suis prêt à vous procurer les moules. Mais…
la solitude…
Les moules sont d’une texture nouvelle, je vous avertis. Ils ont été coulés demain matin. Si vous n’avez pas, dès ce jour, le sentiment relatif de votre durée, il est inutile de vous transmettre, il est inutile de regarder devant vous car devant c’est derrière, la nuit c’est le jour. Et…
la solitude…
Il est de toute première instance que les laveries automatiques, au coin des rues, soient aussi imperturbables que les feux d’arrêt ou de voie libre. Les flics du détersif vous indiqueront la case où il vous sera loisible de laver ce que vous croyez être votre conscience et qui n’est qu’une dépendance de l’ordinateur neurophile qui vous sert de cerveau. Et pourtant…
la solitude…
Le désespoir est une forme supérieure de la critique. Pour le moment, nous l’appellerons “bonheur”, les mots que vous employez n’étant plus ” les mots” mais une sorte de conduit à travers lequel les analphabètes se font bonne conscience. Mais…
la solitude…
Le Code civil nous en parlerons plus tard. Pour le moment, je voudrais codifier l’incodifiable. Je voudrais mesurer vos danaïdes démocraties.
Je voudrais m’insérer dans le vide absolu et devenir le non-dit, le non-avenu, le non-vierge par manque de lucidité. La lucidité se tient dans mon froc.
Solitude
In my solitude
You haunt me
With dreadful ease
Of days gone by
In my solitude
You taunt me
With memories
That never die
I sit in my chair
And filled with despair
There’s no one could be so sad
With gloom everywhere
I sit and I stare
I know that I’ll soon go mad
In my solitude
I’m afraid
Dear Lord above
Send back my love
You haunt me
With dreadful ease
Of days gone by
In my solitude
You taunt me
With memories
That never die
I sit in my chair
And filled with despair
There’s no one could be so sad
With gloom everywhere
I sit and I stare
I know that I’ll soon go mad
In my solitude
I’m afraid
Dear Lord above
Send back my love
A Dança da Solidão
Solidão é lava
Que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo…
Solidão, palavra
Cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão…
Viu!
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…(2x)
Camélia ficou viúva,
Joana se apaixonou,
Maria tentou a morte,
Por causa do seu amor…
Meu pai sempre me dizia:
Meu filho tome cuidado,
Quando eu penso no futuro,
Não esqueço o meu passado
Oh!…
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão
Viu!
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…
Quando vem a madrugada
Meu pensamento vagueia
Corro os dedos na viola
Contemplando a lua cheia…
Apesar de tudo existe
Uma fonte de água pura
Quem beber daquela água
Não terá mais amargura
Oh!…
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão
Viu!
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…(2x)
Desilusão! Oh! Oh! Oh!..
Que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo…
Solidão, palavra
Cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão…
Viu!
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…(2x)
Camélia ficou viúva,
Joana se apaixonou,
Maria tentou a morte,
Por causa do seu amor…
Meu pai sempre me dizia:
Meu filho tome cuidado,
Quando eu penso no futuro,
Não esqueço o meu passado
Oh!…
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão
Viu!
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…
Quando vem a madrugada
Meu pensamento vagueia
Corro os dedos na viola
Contemplando a lua cheia…
Apesar de tudo existe
Uma fonte de água pura
Quem beber daquela água
Não terá mais amargura
Oh!…
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão
Viu!
Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…
Danço eu, dança você
Na dança da solidão…(2x)
Desilusão! Oh! Oh! Oh!..
Poema da amante
Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda estás ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda estás ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.
Roberto De Simone – La Gatta Cenerentola -Villanella di Cenerentola – Cenerentola è Maria Grazia Schiavo
Chi nasce annuda e chi nasce ‘ncammisa
Io ca nascette annuda e senza niente
aspetto ca pe’ me cagna lu viento
Chi nasce cane e chi nascette gatta
Io ca nascette gatta e no canillo
aspetto ‘e m’ ‘o ‘ncappa’ nu suricillo
Chi ‘a tene ‘argiento e chi la tene d’oro
la caiulella pe’ ‘ncappa’ ‘o palummo
e forse io sola ‘a tenarraggio ‘e chiummo
Chi nasce ‘ncunia e chi nasce martiello
Si stu martiello ‘ncasa e nun m’apprezza
pure vene lu juorno ca se spezza
Chi nasce janco e chi niro gravone
Io mò gravone so’ ma te n’adduone
lu juorno ca m’appicciarraggio bbuono
Chi nasce annuda e chi nasce ‘ncammisa
Io ca nascette annuda e senza niente
aspetto ca pe’ me cagna lu viento
Chi nasce cane e chi nascette gatta
Io ca nascette gatta e no canillo
aspetto ‘e m’ ‘o ‘ncappa’ nu suricillo
Chi ‘a tene ‘argiento e chi la tene d’oro
la caiulella pe’ ‘ncappa’ ‘o palummo
e forse io sola ‘a tenarraggio ‘e chiummo
Chi nasce ‘ncunia e chi nasce martiello
Si stu martiello ‘ncasa e nun m’apprezza
pure vene lu juorno ca se spezza
Chi nasce janco e chi niro gravone
Io mò gravone so’ ma te n’adduone
lu juorno ca m’appicciarraggio bbuono
O nosso
Amamos o que não conhecemos, o já perdido.
O bairro que já foi arredores
Os antigos que não nos decepcionaram mais
porque são mito e esplendor.
Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler.
A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote.
O oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro.
Os mais velhos com quem não conseguiríamos
conversar durante um quarto de hora.
As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido.
Os idiomas que mal deciframos.
Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito.
Os amigos que não podem faltar porque já morreram.
O ilimitado nome de Shakespeare.
A mulher que está a nosso lado e que é tão diversa.
O xadrez e a álgebra, que não sei.
Jorge Luis Borges
O bairro que já foi arredores
Os antigos que não nos decepcionaram mais
porque são mito e esplendor.
Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler.
A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote.
O oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro.
Os mais velhos com quem não conseguiríamos
conversar durante um quarto de hora.
As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido.
Os idiomas que mal deciframos.
Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito.
Os amigos que não podem faltar porque já morreram.
O ilimitado nome de Shakespeare.
A mulher que está a nosso lado e que é tão diversa.
O xadrez e a álgebra, que não sei.
Jorge Luis Borges
Che sera?
Paese mio che stai sulla collina
Disteso come un vecchio addormentato;
La noia, l’abbandono, il niente
Son la tua malacttia,
Paese mio ti lascio io vado via.
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
So far tutto o forse niente
Da domani si vedra’,
E sara’, sara’ quel che sara’.
Gli amici miei son quasi tutti Via,
E gli altri partiranno dopo me,
Peccato, perche’ stavo bene
In loro compagnia
Ma tutto passa, tutto se ne Va
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
Con me porto La chitarra
E se la notte piaNgero’
Una nenia di paese suonero’.
Amore mio ti dacio sulla Bocca
Che fu la fonte del mio primo amore
Ti do l’appUntamento,
Come, quando, non lo So,
Ma so soltanto che ritornero’.
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
Con me porto la chitarra
E se la notte piangero’
Una nenia di paese suoneno’.
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
So far tutto o forse niente
Da domani si vedra’
E sara’, sara’ quel che sara’
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
So far tutto o forse niente
Da domani si vedra’
E sara’, sara’ quel che sara’
Compositor: Sbriccolli/ Greco/ Pes/ Migliacci
Pueblo mío que estás en la colina
tendido como un viejo que se muere,
la pena y el abandono son tu triste compañía,
pueblo mío te dejo sin alegría
Ya mis amigos se fueron casi todos
y los otros partirán después que yo,
lo siento porque amaba su agradable compañía
Mas es mi vida tengo que marchar
Qué será, qué será, qué será
Qué será de mi vida, qué será
Si sé mucho o no sé nada,
ya mañana se verá, que será, será lo que será
Amor mío me llevo tu sonrisa
que fue la fuente de mi amor primero,
amor te lo prometo, cómo y cuando no lo sé
mas sé tan solo que regresaré
Qué será, qué será, qué será
Qué será de mi vida qué será
En la noche mi guitarra dulcemente sonará
y una niña de mi pueblo llorará
Disteso come un vecchio addormentato;
La noia, l’abbandono, il niente
Son la tua malacttia,
Paese mio ti lascio io vado via.
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
So far tutto o forse niente
Da domani si vedra’,
E sara’, sara’ quel che sara’.
Gli amici miei son quasi tutti Via,
E gli altri partiranno dopo me,
Peccato, perche’ stavo bene
In loro compagnia
Ma tutto passa, tutto se ne Va
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
Con me porto La chitarra
E se la notte piaNgero’
Una nenia di paese suonero’.
Amore mio ti dacio sulla Bocca
Che fu la fonte del mio primo amore
Ti do l’appUntamento,
Come, quando, non lo So,
Ma so soltanto che ritornero’.
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
Con me porto la chitarra
E se la notte piangero’
Una nenia di paese suoneno’.
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
So far tutto o forse niente
Da domani si vedra’
E sara’, sara’ quel che sara’
Che sara’, che sara’, che sara’,
Che sara’ della mia vita, chi lo sa !…
So far tutto o forse niente
Da domani si vedra’
E sara’, sara’ quel che sara’
Compositor: Sbriccolli/ Greco/ Pes/ Migliacci
Pueblo mío que estás en la colina
tendido como un viejo que se muere,
la pena y el abandono son tu triste compañía,
pueblo mío te dejo sin alegría
Ya mis amigos se fueron casi todos
y los otros partirán después que yo,
lo siento porque amaba su agradable compañía
Mas es mi vida tengo que marchar
Qué será, qué será, qué será
Qué será de mi vida, qué será
Si sé mucho o no sé nada,
ya mañana se verá, que será, será lo que será
Amor mío me llevo tu sonrisa
que fue la fuente de mi amor primero,
amor te lo prometo, cómo y cuando no lo sé
mas sé tan solo que regresaré
Qué será, qué será, qué será
Qué será de mi vida qué será
En la noche mi guitarra dulcemente sonará
y una niña de mi pueblo llorará
Privatizado
Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário.
E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário.
E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
“Qualquer escritor, músico ou pintor, qualquer artista em geral, graças à própria natureza do trabalho que realiza, tem de estar particularmente consciente da enorme extensão de danos que causa a uma sociedade a ação da censura. A censura é uma organização do tipo canceroso: quando finca em um organismo qualquer, em seguida começa a crescer e a deformar todo o corpo social em que se instalou. Não creio que a censura apenas se limite a impedir que se digam muitas coisas, mas pior ainda – e isso talvez seja o mais grave de tudo -, faz com que as coisas que se dizem fiquem sempre mal ditas ou mal-entendidas. A censura faz com que se deformem todos os valores e, nessa atmosfera asfixiante, os critérios da própria cultura e da civilização confundem-se (…)” (Mario Vargas Llosa, durante o 44° Congresso do Pen Clube, 1979)
Eugenio Montale, 1960
Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
árida, voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, detrás de mim o vazio
com um terror de bêbedo.
Depois como numa tela, acamparão de um jato
árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde; e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo.
(Talvez Uma Manhã)
Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
árida, voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, detrás de mim o vazio
com um terror de bêbedo.
Depois como numa tela, acamparão de um jato
árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde; e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo.
(Talvez Uma Manhã)
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Pesos...
Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.
Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.
Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.
Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.
O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.
Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.
Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.
O Estado de S.Paulo
Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.
Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.
Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.
O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.
Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.
Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.
O Estado de S.Paulo
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
O Bebado e A Equilibrista
Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona do bordel,
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens, lá no mata-borrão do céu,
Chupavam manchas torturadas, que sufoco!
Louco, o bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil.
Meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete.
Chora a nossa pátria mãe gentil,
Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil.
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente, a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar…
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona do bordel,
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens, lá no mata-borrão do céu,
Chupavam manchas torturadas, que sufoco!
Louco, o bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil.
Meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete.
Chora a nossa pátria mãe gentil,
Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil.
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente, a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar…
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Walter Benjamin e a tarefa da crítica
Para a posteridade, a enorme produção de Benjamin significou o estabelecimento de um marco no pensamento e na crítica
Olhando retrospectivamente para o século 20, podemos dizer que Walter Benjamin (1892-1940) de fato realizou um de seus projetos pessoais mais arrojados. Como ele formulou em uma carta a seu grande amigo Gershom Scholem, de janeiro de 1930, ele achava que conseguira o objetivo de “ser considerado como o primeiro crítico da literatura alemã”. Este reconhecimento na época era na verdade muito tímido, restrito a um pequeno círculo de leitores especializados. Hoje este círculo cresceu a ponto de podermos com razão falar de um “reconhecimento” de sua posição privilegiada como crítico.
Benjamin estava ciente, como ele escreveu na mesma carta, que para tornar-se este “primeiro crítico” era necessário “recriar a crítica como gênero”. Este gênero encontrava-se então na Alemanha desprezado, não era considerado como sério. No mesmo ano, Benjamin diagnosticava que uma das causas que havia levado a crítica alemã à crise naquela época, era a “ditadura da resenha como forma de pesquisa crítica”. Ele mencionou então, como um contra-modelo do passado, as “Características” dos irmãos Schlegel. Como um dos caminhos para a saída da crise da crítica, ele cobrava dos críticos uma aproximação entre a abordagem filológica e uma autêntica reflexão crítica. Este termo indicava para ele uma reflexão tanto no sentido de uma teoria das formas, como de uma teoria da história.
Sem falsa-modéstia ele escreveu então que se a situação da crítica alemã estava se transformando, isto ocorria em parte devido aos seus enormes esforços. E, de fato, Benjamin então, com 38 anos, já fizera bastante para o aprimoramento da crítica. Ele não apenas publicara dois ensaios de peso sobre a literatura alemã, seu “O conceito de crítica de arte no romantismo alemão” (1919) e o “Origem do drama barroco alemão” (de 1925, publicado em 1928), como compusera uma profunda análise das Afinidades eletivas de Goethe (1922), além de mais de cerca de uma centena de artigos de crítica, sobretudo sobre literatura alemã e francesa. Com o fracasso de seu plano de entrar para a universidade, ele se entregara de corpo e alma a este projeto de crítica. Isto significou para ele uma vida atribulada, com enormes dificuldades econômicas. Para a posteridade, a sua enorme produção, paradoxalmente derivada desta mesma situação precária, significou o estabelecimento de um marco no pensamento e na crítica.
Esta última, em Benjamin, nunca foi limitada à literatura ou às obras de arte consagradas. Ele entendeu em primeiro lugar o conceito de crítica no seu sentido kantiano, de crítica da possibilidade de conhecimento. Neste ponto seu pensamento já se aproxima do dos românticos Schlegel e Novalis que cobravam da filosofia kantiana uma expansão do seu conceito de experiência. Com estes autores ele via na crítica um medium-dereflexão.
Trocando em miúdos, assim como os românticos viam na “romantização” do mundo um projeto de superação das barreiras entre o universo criativo e penetrado de fantasia das artes, e, por outro lado, a vida prosaica cotidiana, do mesmo modo, Benjamin propõe para a crítica um projeto tanto estético quanto político. O ato da crítica era visto por ele como um meio de crítica de todo o sistema cultural e de sua base econômica. A partir de seu encontro com o marxismo de Lukács, isto tornou-se cada vez mais patente em seus ensaios e textos de crítica de arte. Aliás, se ele se identifi cou tão rapidamente com o marxismo de Lukács, foi também porque ambos, este e Benjamin, vinham de uma profunda relação com o romantismo alemão. Mas Benjamin foi mais longe que seus colegas de geração, justamente porque ao invés de “superar” seu romantismo, manteve-se fiel a ele por toda sua vida. Se ele tenta nos anos de 1930 demarcar uma posição contra este seu romantismo, é justamente porque ele não conseguiu superá-lo totalmente.
A crítica de Benjamin era, portanto, antes de mais nada, um ato de reflexão que se desdobrava em cinco níveis, articulando-os. O primeiro nível incluía uma auto-reflexão (ele sempre refletia sobre sua própria atividade de crítico, sobre o local e o papel da crítica na sociedade). Em segundo lugar, destaca-se uma leitura detalhada e uma refl exão sobre a obra criticada (que era sempre analisada não a partir de um modelo a-histórico, mas sim de seu próprio Ideal a priori, nas palavras de Novalis). Em terceiro lugar, encontramos uma refl exão sobre a história da arte e da literatura, na qual Benjamin, dentro de uma forte tradição alemã, desenvolveu muitas vezes (como no livro Sobre o barroco e no seu ensaio sobre o narrador, de 1936) o tema da teoria dos gêneros literários. Em quarto lugar, nota-se sempre uma refl exão crítica sobre a sociedade, ou seja, a crítica foi praticada em Benjamin a partir do seu presente e voltada para ele, sem a ilusão positivista de se poder penetrar no passado “tal como ele aconteceu”. Por fim, e articulando todos os níveis anteriores, devemos destacar a teoria da história de Benjamin com a sua crítica aos modelos da evolução histórica, tanto liberais como marxistas, que acreditavam em um avanço constante e positivo do devir da história. Benjamin opôs a este modelo uma imagem da história como acúmulo de catástrofes.
Contra o positivismo daqueles que pregavam (inocentemente ou não) uma crítica apolítica, Benjamin demonstrou que não existe um campo fora do político. A arte e sua crítica são medium-de-refl exão não apenas do sistema estético, mas, antes, de toda a sociedade. Neste sentido, ele extrapolou programaticamente o âmbito da crítica da literatura e da arte. Sua atividade crítica não pode ser inteiramente compreendida, se não levarmos em conta seus seminais textos críticos dirigidos à questão do poder e do direito (lembremos sobretudo de seu “Crítica da violência, crítica do poder”, de 1921, que infl uenciou Carl Schmitt), assim como a sua crítica do que ele denominou de concepção “burguesa”, ou seja, instrumental, da linguagem (recordemos seu “A tarefa do tradutor”, também de 1921, e do artigo de juventude “Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem dos homens”, de 1916). Além disso, Benjamin refl etiu também em vários importantes ensaios críticos sobre questões como a (atualíssima) da coleção e do colecionismo (vejam seus trabalhos sobre Eduard Fuchs, de 1937, assim como seus textos sobre coleção de brinquedos e de livros). Seus escritos voltados para a recordação de sua infância (Crônica berlinense e Infância em Berlim) são profundamente inovadores, na medida em que desconstroem criticamente os modelos da autobiografi a e introduzem uma modalidade da auto-escritura mais fragmentada e voltada para uma “topografi a da memória”.
O fundamental dentro do universo das críticas de Benjamin, quando ele voltava seu potente intelecto para as obras que eram publicadas na sua época (como as de Proust, Kafka, Döblin, Kraus, Brecht etc.), ou para reedições de obras consagradas ou não (de Goethe, Kleist, Hebel etc.) é que ele sempre realizou uma crítica que era, ao mesmo tempo, teoria da literatura. É este talvez o legado mais importante de sua produção crítica: ele mostrou a infecundidade da crítica apenas fi lológica, assim como a limitação da crítica meramente imanente, ou ainda, da crítica biográfi ca. Crítica para ele só existia enquanto capacidade de se articular (delicadamente, ou às vezes, como todo o peso histórico exigido por seu objeto de análise), a imanência da obra com a refl exão histórico-crítica. As mostras mais eloqüentes desta concepção são a introdução “crítico-epistemológica” do seu livro sobre o drama barroco alemão, e as refl exões que acompanham as notas de seu trabalho que fi cou inconcluso sobre as passagens de Paris.
Benjamin escreveu no seu último texto, dedicado à crítica da noção de progresso, que “nunca existiu um documento da cultura que não fosse ao mesmo tempo um [documento] da barbárie”. É interessante ler a tradução do próprio Benjamin dessa famosa passagem das suas teses “Sobre o conceito da História”: Tout cela [l’héritage culturel] ne témoigne [pas] de la culture sans témoigner, en même temps, de la barbarie. Com Benjamin aprendemos que cultura é a partir de meados do século 20 toda ela como que transformada em um documento e, mais ainda, ela passa a ser lida como testemunho da barbárie. Esta noção é essencial, porque com este autor vemos não apenas uma tremenda expansão nos critérios de seleção, como também a afi rmação radical de um modo de interpretar esses documentos. Sua teoria da história e da cultura descortina o passado e suas ruínas, sobre as quais construímos nosso presente, como um único e gigantesco arquivo. Quando se fala de arquivo, não se pode esquecer que a toda inscrição deve-se associar um modo de leitura e de interpretação, de outro modo teríamos um arquivo literalmente morto. O elemento político domina todos os momentos do trabalho no arquivo, da seleção, passando pela conservação e pelo acesso, chegando à leitura dos documentos. A história para Benjamin, como é conhecida, é aproximada do modelo do colecionador e do Lumpensamler, o catador de papéis. O historiador deve acumular os documentos que são como que apresentados diante do tribunal da história. Em Benjamin, a cultura como arquivo e memória, devido ao viés crítico e revolucionário de seu modo de leitura, não deixa a sociedade e sua história se cristalizarem em museus e parques temáticos. É o viés conservador da cultura como mercadoria que o faz, ao qual Benjamin opõe sua visada da cultura como documento e testemunho da barbárie. Seu projeto de historiografi a calcada no colecionismo (que tem por princípio o arrancar de seus objetos do falso contexto para inseri-los dentro de uma nova ordem comandada pelos interesses de cada presente) e, por outro lado, inspirado no trabalho do catador (que se volta para o esquecido e considerado inútil) ainda hoje pode ser comparado a um pólen que guarda uma assombrosa força de germinação.
Márcio Seligmann-Silva
é doutor pela Universidade Livre de Berlim, pós-doutor por Yale e professor de Teoria Literária na UNICAMP. Entre outros, é autor dos livros Ler o livro do mundo e Walter Benjamin: romantismo e crítica poética (Iluminuras, 1999), Adorno (PubliFolha, 2003) e O local da diferença (Editora 34, 2005); traduziu de Walter Benjamin O conceito de crítica de arte no romantismo alemão, Iluminuras, 1993
Olhando retrospectivamente para o século 20, podemos dizer que Walter Benjamin (1892-1940) de fato realizou um de seus projetos pessoais mais arrojados. Como ele formulou em uma carta a seu grande amigo Gershom Scholem, de janeiro de 1930, ele achava que conseguira o objetivo de “ser considerado como o primeiro crítico da literatura alemã”. Este reconhecimento na época era na verdade muito tímido, restrito a um pequeno círculo de leitores especializados. Hoje este círculo cresceu a ponto de podermos com razão falar de um “reconhecimento” de sua posição privilegiada como crítico.
Benjamin estava ciente, como ele escreveu na mesma carta, que para tornar-se este “primeiro crítico” era necessário “recriar a crítica como gênero”. Este gênero encontrava-se então na Alemanha desprezado, não era considerado como sério. No mesmo ano, Benjamin diagnosticava que uma das causas que havia levado a crítica alemã à crise naquela época, era a “ditadura da resenha como forma de pesquisa crítica”. Ele mencionou então, como um contra-modelo do passado, as “Características” dos irmãos Schlegel. Como um dos caminhos para a saída da crise da crítica, ele cobrava dos críticos uma aproximação entre a abordagem filológica e uma autêntica reflexão crítica. Este termo indicava para ele uma reflexão tanto no sentido de uma teoria das formas, como de uma teoria da história.
Sem falsa-modéstia ele escreveu então que se a situação da crítica alemã estava se transformando, isto ocorria em parte devido aos seus enormes esforços. E, de fato, Benjamin então, com 38 anos, já fizera bastante para o aprimoramento da crítica. Ele não apenas publicara dois ensaios de peso sobre a literatura alemã, seu “O conceito de crítica de arte no romantismo alemão” (1919) e o “Origem do drama barroco alemão” (de 1925, publicado em 1928), como compusera uma profunda análise das Afinidades eletivas de Goethe (1922), além de mais de cerca de uma centena de artigos de crítica, sobretudo sobre literatura alemã e francesa. Com o fracasso de seu plano de entrar para a universidade, ele se entregara de corpo e alma a este projeto de crítica. Isto significou para ele uma vida atribulada, com enormes dificuldades econômicas. Para a posteridade, a sua enorme produção, paradoxalmente derivada desta mesma situação precária, significou o estabelecimento de um marco no pensamento e na crítica.
Esta última, em Benjamin, nunca foi limitada à literatura ou às obras de arte consagradas. Ele entendeu em primeiro lugar o conceito de crítica no seu sentido kantiano, de crítica da possibilidade de conhecimento. Neste ponto seu pensamento já se aproxima do dos românticos Schlegel e Novalis que cobravam da filosofia kantiana uma expansão do seu conceito de experiência. Com estes autores ele via na crítica um medium-dereflexão.
Trocando em miúdos, assim como os românticos viam na “romantização” do mundo um projeto de superação das barreiras entre o universo criativo e penetrado de fantasia das artes, e, por outro lado, a vida prosaica cotidiana, do mesmo modo, Benjamin propõe para a crítica um projeto tanto estético quanto político. O ato da crítica era visto por ele como um meio de crítica de todo o sistema cultural e de sua base econômica. A partir de seu encontro com o marxismo de Lukács, isto tornou-se cada vez mais patente em seus ensaios e textos de crítica de arte. Aliás, se ele se identifi cou tão rapidamente com o marxismo de Lukács, foi também porque ambos, este e Benjamin, vinham de uma profunda relação com o romantismo alemão. Mas Benjamin foi mais longe que seus colegas de geração, justamente porque ao invés de “superar” seu romantismo, manteve-se fiel a ele por toda sua vida. Se ele tenta nos anos de 1930 demarcar uma posição contra este seu romantismo, é justamente porque ele não conseguiu superá-lo totalmente.
A crítica de Benjamin era, portanto, antes de mais nada, um ato de reflexão que se desdobrava em cinco níveis, articulando-os. O primeiro nível incluía uma auto-reflexão (ele sempre refletia sobre sua própria atividade de crítico, sobre o local e o papel da crítica na sociedade). Em segundo lugar, destaca-se uma leitura detalhada e uma refl exão sobre a obra criticada (que era sempre analisada não a partir de um modelo a-histórico, mas sim de seu próprio Ideal a priori, nas palavras de Novalis). Em terceiro lugar, encontramos uma refl exão sobre a história da arte e da literatura, na qual Benjamin, dentro de uma forte tradição alemã, desenvolveu muitas vezes (como no livro Sobre o barroco e no seu ensaio sobre o narrador, de 1936) o tema da teoria dos gêneros literários. Em quarto lugar, nota-se sempre uma refl exão crítica sobre a sociedade, ou seja, a crítica foi praticada em Benjamin a partir do seu presente e voltada para ele, sem a ilusão positivista de se poder penetrar no passado “tal como ele aconteceu”. Por fim, e articulando todos os níveis anteriores, devemos destacar a teoria da história de Benjamin com a sua crítica aos modelos da evolução histórica, tanto liberais como marxistas, que acreditavam em um avanço constante e positivo do devir da história. Benjamin opôs a este modelo uma imagem da história como acúmulo de catástrofes.
Contra o positivismo daqueles que pregavam (inocentemente ou não) uma crítica apolítica, Benjamin demonstrou que não existe um campo fora do político. A arte e sua crítica são medium-de-refl exão não apenas do sistema estético, mas, antes, de toda a sociedade. Neste sentido, ele extrapolou programaticamente o âmbito da crítica da literatura e da arte. Sua atividade crítica não pode ser inteiramente compreendida, se não levarmos em conta seus seminais textos críticos dirigidos à questão do poder e do direito (lembremos sobretudo de seu “Crítica da violência, crítica do poder”, de 1921, que infl uenciou Carl Schmitt), assim como a sua crítica do que ele denominou de concepção “burguesa”, ou seja, instrumental, da linguagem (recordemos seu “A tarefa do tradutor”, também de 1921, e do artigo de juventude “Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem dos homens”, de 1916). Além disso, Benjamin refl etiu também em vários importantes ensaios críticos sobre questões como a (atualíssima) da coleção e do colecionismo (vejam seus trabalhos sobre Eduard Fuchs, de 1937, assim como seus textos sobre coleção de brinquedos e de livros). Seus escritos voltados para a recordação de sua infância (Crônica berlinense e Infância em Berlim) são profundamente inovadores, na medida em que desconstroem criticamente os modelos da autobiografi a e introduzem uma modalidade da auto-escritura mais fragmentada e voltada para uma “topografi a da memória”.
O fundamental dentro do universo das críticas de Benjamin, quando ele voltava seu potente intelecto para as obras que eram publicadas na sua época (como as de Proust, Kafka, Döblin, Kraus, Brecht etc.), ou para reedições de obras consagradas ou não (de Goethe, Kleist, Hebel etc.) é que ele sempre realizou uma crítica que era, ao mesmo tempo, teoria da literatura. É este talvez o legado mais importante de sua produção crítica: ele mostrou a infecundidade da crítica apenas fi lológica, assim como a limitação da crítica meramente imanente, ou ainda, da crítica biográfi ca. Crítica para ele só existia enquanto capacidade de se articular (delicadamente, ou às vezes, como todo o peso histórico exigido por seu objeto de análise), a imanência da obra com a refl exão histórico-crítica. As mostras mais eloqüentes desta concepção são a introdução “crítico-epistemológica” do seu livro sobre o drama barroco alemão, e as refl exões que acompanham as notas de seu trabalho que fi cou inconcluso sobre as passagens de Paris.
Benjamin escreveu no seu último texto, dedicado à crítica da noção de progresso, que “nunca existiu um documento da cultura que não fosse ao mesmo tempo um [documento] da barbárie”. É interessante ler a tradução do próprio Benjamin dessa famosa passagem das suas teses “Sobre o conceito da História”: Tout cela [l’héritage culturel] ne témoigne [pas] de la culture sans témoigner, en même temps, de la barbarie. Com Benjamin aprendemos que cultura é a partir de meados do século 20 toda ela como que transformada em um documento e, mais ainda, ela passa a ser lida como testemunho da barbárie. Esta noção é essencial, porque com este autor vemos não apenas uma tremenda expansão nos critérios de seleção, como também a afi rmação radical de um modo de interpretar esses documentos. Sua teoria da história e da cultura descortina o passado e suas ruínas, sobre as quais construímos nosso presente, como um único e gigantesco arquivo. Quando se fala de arquivo, não se pode esquecer que a toda inscrição deve-se associar um modo de leitura e de interpretação, de outro modo teríamos um arquivo literalmente morto. O elemento político domina todos os momentos do trabalho no arquivo, da seleção, passando pela conservação e pelo acesso, chegando à leitura dos documentos. A história para Benjamin, como é conhecida, é aproximada do modelo do colecionador e do Lumpensamler, o catador de papéis. O historiador deve acumular os documentos que são como que apresentados diante do tribunal da história. Em Benjamin, a cultura como arquivo e memória, devido ao viés crítico e revolucionário de seu modo de leitura, não deixa a sociedade e sua história se cristalizarem em museus e parques temáticos. É o viés conservador da cultura como mercadoria que o faz, ao qual Benjamin opõe sua visada da cultura como documento e testemunho da barbárie. Seu projeto de historiografi a calcada no colecionismo (que tem por princípio o arrancar de seus objetos do falso contexto para inseri-los dentro de uma nova ordem comandada pelos interesses de cada presente) e, por outro lado, inspirado no trabalho do catador (que se volta para o esquecido e considerado inútil) ainda hoje pode ser comparado a um pólen que guarda uma assombrosa força de germinação.
Márcio Seligmann-Silva
é doutor pela Universidade Livre de Berlim, pós-doutor por Yale e professor de Teoria Literária na UNICAMP. Entre outros, é autor dos livros Ler o livro do mundo e Walter Benjamin: romantismo e crítica poética (Iluminuras, 1999), Adorno (PubliFolha, 2003) e O local da diferença (Editora 34, 2005); traduziu de Walter Benjamin O conceito de crítica de arte no romantismo alemão, Iluminuras, 1993
Sexualidade, corpo e desejo em Walter Benjamin
A relação mãe-menino-prostituta reata as ligações entre a “civilização” e a Vorwelt
Os temas do corpo, do amor, do erotismo, das relações de gênero e do papel das prostitutas, na obra de Benjamin, já suscitaram alguns estudos1. São temas que, de fato, percorrem sua obra desde os primeiros escritos, quando o Benjamin ainda estudante e militante em uma das facções (a mais radical, dizia-se!) do Movimento de Juventude, defendia a necessidade de uma “cultura erótica” e a afirmação de uma “eticidade da prostituta”. Para Sigrid Weigel haveria três diferentes momentos – que se aproximam, articulando-se, mas também que se distanciam – na obra de Benjamin a respeito dessa questão: o inicial, na juventude, sob o signo da dualidade entre criação e procriação, na qual a prostituta, por recusar-se ao “destino” da mulher como esposa e mãe, destrói a “fachada” das belas construções burguesas; um segundo momento, no qual ele situa os relatos da Infância berlinense, onde a prostituta, em contraste com a figura da mãe, abre o caminho para a constituição de um saber sobre o Outro, em especial sobre o próprio corpo (esse Outro que nos é o mais próximo!) e um terceiro momento, no qual esse saber sobre si mesmo, mediado pela prostituta, se alarga em direção à cultura, tal como nos mostra um dos cadernos do Trabalho das passagens.
Em um dos relatos que compõem a Infância berlinense por volta de 1900, intitulado “Mendigos e prostitutas”, Benjamin nos conta seus passeios na cidade, com a mãe e, ao mesmo tempo, sua resistência ao poder materno, andando sempre alguns passos atrás dela. Assim ele podia experimentar sua fascinação pelas prostitutas com quem cruzava eventualmente no caminho. A cidade, “labiríntica”, abria suas portas ao “impulso sexual” e esta irrupção do desejo se contrapunha à Bildung que moldava a subjetividade do menino burguês. Desse modo, a irresistível atração para dirigir-se a uma prostituta, na rua, parecia-lhe um ato de abjuração: contra a própria mãe e a classe social à qual ambos pertenciam.
Retomo aqui os relatos da Infância berlinense relativos ao tema da sexualidade e do corpo – além de “Mendigos e prostitutas”, “O despertar do sexo” e “Notícia de uma morte” – para reler a tríade mãe-menino-prostituta, a partir da obra do jurista suíço e estudioso da antiguidade clássica, Johann Jakob Bachofen. Desde o início de sua imigração para a França, em 1933, Bachofen fora objeto de intensa leitura por parte de Benjamin, que escreveu, em 1934, um artigo de apresentação da obra de Bachofen ao público francês, em princípio a pedido da Nouvelle Revue Française, mas que nunca foi publicado. No texto2, ele procede rigorosamente de acordo com seu “método” de leitura, onde não apenas lê a obra a ser interpretada, mas também o que foi feito dela, as suas diferentes apropriações, que demarcam sua “atualidade”. E é o destino de O matriarcado, a obraprima de Bachofen, como o próprio Benjamin afirma, que está em jogo nesse artigo.
Nessa obra, Bachofen estuda a transformação do matriarcado primitivo no regime patriarcal e monogâmico. A partir de sua pesquisa, conclui pela existência de uma organização familiar diferente daquela que reina no Ocidente desde a antiguidade clássica. As instituições “superiores” de nossa cultura tais como a moral, o direito e o casamento monogâmico têm suas raízes em uma pré-história sombria e violenta, em um mundo primitivo, um “mundo antes do mundo”, uma Vorwelt . O ponto de partida de Bachofen é, em princípio, bastante “feminista”: as crises mais profundas e mais desconhecidas da civilização dizem respeito aos períodos de transformação da condição da mulher. Entretanto, retomando as idéias “evolutivas”, tão comuns à época, ele vai mostrar que entre o estado primitivo, de desordem e promiscuidade impostas pela brutalidade masculina, uma promiscuidade geral que deixa suas marcas na “constituição hetaírica” – de Hetaira, o nome grego para as “cortesãs” – e a forma final da evolução, a sociedade patriarcal, houve um regime diferente, curioso, que ele denominou de Mutterrecht, literalmente, um regime dominado pelo “direito da mãe”: aqui, a mãe transmite seu nome, seu direito e sua propriedade, decide acerca da condição das crianças e, como uma rainha, exerce a soberania, chegando, inclusive, a excluir os homens das guerras, formando exércitos sanguinários e cruéis e fundando uma verdadeira “ginecocracia”. Mas, se o ponto de partida é “feminista”, a conclusão de Bachofen não é: esse regime, o do “direito da mãe” é, de algum modo, contra a natureza e, a ele, deve-se seguir a verdadeira ordem, a ordem patriarcal, que estabelece, no estado normal, o domínio do nous, da “inteligência”, e no direito, a predominância do pai.
Lendo o artigo de Carl Bernoulli sobre Bachofen, Benjamin retoma a idéia, “particularmente feliz”, diz ele, de que reina um “claro-escuro” nas pesquisas de Bachofen. Essa expressão torna-se uma espécie de “fio de Ariadne”, por meio do qual podemos movimentar-nos, com alguma segurança, no interior desse texto de Benjamin. “Claro-escuro” define uma zona intermediária, um “lusco-fusco”, um estado de transição, uma “passagem” ou ainda um “limiar” (Schwelle), conceito-chave nos últimos textos de Benjamin. A própria obra de Bachofen está em um “limiar”, entre o declínio do romantismo e os primeiros movimentos do positivismo. Mas esse “claroescuro”, continua Benjamin, é muito mais aquele que reina na caverna platônica, pois, dependendo da perspectiva, pode dirigir o leitor aos contornos ainda mal definidos das idéias ou fazê-lo naufragar, de vez, nas sombras enganosas. Daí a importância do estudo da “recepção” de Bachofen, para enfatizar também sua apropriação pela esquerda – as de Engels, Paul Lafargue e Elisée Reclus – aliada na luta contra as leituras “místicas” de um Alfred Schuler ou as “nazistas”, de um Alfred Bäumler – mas sem cair na armadilha de ler a Vorwelt de Bachofen como uma imagem idílica do “comunismo primitivo”.
Em meio às leituras “místicas”, “esotéricas”, Benjamin destaca, entretanto, a de um velho conhecido, Ludwig Klages, que, segundo ele, utiliza Bachofen como este jamais sonhou. No Eros cosmogônico, Klages transforma a Vorwelt, em um mundo “citônico”, dominado por forças infernais. Caídas no esquecimento, essas forças retornam por meio das “substâncias míticas” e constituem, para Klages, as Urbilder, as “imagens originárias” do mundo: “as imagens originárias são – escreve Benjamin – a aparição das almas do passado”.
A prostituta que se oferece, na rua, aos olhos desejosos do menino, aparecerá no Trabalho das passagens, como uma dessas Urbilder, na concisa defi nição de Benjamin – “a prostituta é a guardiã daquilo que passou” – que nos lembra um tempo anterior aos imperativos de qualquer ordem, seja o da mãe, seja o do pai. O menino, dividido entre a prostituta e a mãe, atualiza a força dessas “imagens originárias”, em uma espécie de vertigem, em que o retorno do recalcado se faz à custa de um estado de auto-esquecimento, em uma embriaguez que suspende a eficácia das normas (em Bachofen já encontramos a distinção entre apolíneo e dionisíaco, da qual Nietzsche se utilizará). Em “O despertar do sexo”, o menino, que deveria encontrar sua mãe na sinagoga para a comemoração do Ano Novo judaico, “esquece” de seu compromisso para entregar-se, pela primeira vez, à experiência sexual, com uma prostituta. Em “Notícia de uma morte” descobre, muitos anos depois, que sua atração pelas prostitutas poderia levá-lo à morte, pela sífilis. Em “Mendigos e prostitutas”, ele é derrotado na sua luta contra o desejo proibido e, como um ladrão ou um marginal, retorna sozinho às ruas, à noite. Os resíduos desse “mundo primitivo” – que serão decisivos na interpretação que Benjamin fez de Kafka – continuam agindo permanentemente em meio à “civilização”.
A relação mãe-menino-prostituta reata, assim, as ligações conflituosas entre a “civilização” e a Vorwelt. O poder da mãe, judia e burguesa, desafia algumas normas importantes, pois enquanto o pai, ortodoxo, cumpre os ritos religiosos tradicionais, a mãe, liberal, freqüenta a sinagoga reformada. A presença da mãe, intensa e freqüente em Infância berlinense, nos lembra o “direito da mãe”, enquanto o da prostituta, o “estado hetaírico”, de “limiar”. Não por acaso, os lugares preferidos das prostitutas, na cidade, são emblemas do “limiar”: portas, esquinas, calçadas, passagens, shoppings-centers. A Vorwelt, perigosa, fascinante, embriagadora, nos acena por meio da prostituta, com a transitoriedade, a fugacidade, com cortes, cesuras e descontinuidades, nas quais sedução e perigo, vida e morte se encontram e se entrecruzam. Desse confronto entre as “ondas do desejo” (a metáfora é de Benjamin em “O despertar do sexo”), o sujeito só pode subsistir definitivamente cindido e fraturado, após um embate, como nos lembra “Mendigos e prostitutas”, do qual não se sai “com as mãos limpas”.
Ernani Chaves
é professor do Departamento de Filosofi a da Universidade Federal do Pará. Autor de No limiar do moderno: Estudos sobre Friedrich Nietzsche e Walter Benjamin. Belém, Paka-Tatu, 2003
NOTAS
(1) Ver em especial, Sigrid Weigel. Entstellte Ähnlichkeit. Walter Benjamins theoretische Schreibweise. Frankfurt: Fischer, 1997.
(2) BENJAMIN, Walter. “Johann Jakob Bachofen”, in Gesammelte Schriften. Frankfurt: Suhrkamp, 1992, Volume II-1, p. 219-233.
Os temas do corpo, do amor, do erotismo, das relações de gênero e do papel das prostitutas, na obra de Benjamin, já suscitaram alguns estudos1. São temas que, de fato, percorrem sua obra desde os primeiros escritos, quando o Benjamin ainda estudante e militante em uma das facções (a mais radical, dizia-se!) do Movimento de Juventude, defendia a necessidade de uma “cultura erótica” e a afirmação de uma “eticidade da prostituta”. Para Sigrid Weigel haveria três diferentes momentos – que se aproximam, articulando-se, mas também que se distanciam – na obra de Benjamin a respeito dessa questão: o inicial, na juventude, sob o signo da dualidade entre criação e procriação, na qual a prostituta, por recusar-se ao “destino” da mulher como esposa e mãe, destrói a “fachada” das belas construções burguesas; um segundo momento, no qual ele situa os relatos da Infância berlinense, onde a prostituta, em contraste com a figura da mãe, abre o caminho para a constituição de um saber sobre o Outro, em especial sobre o próprio corpo (esse Outro que nos é o mais próximo!) e um terceiro momento, no qual esse saber sobre si mesmo, mediado pela prostituta, se alarga em direção à cultura, tal como nos mostra um dos cadernos do Trabalho das passagens.
Em um dos relatos que compõem a Infância berlinense por volta de 1900, intitulado “Mendigos e prostitutas”, Benjamin nos conta seus passeios na cidade, com a mãe e, ao mesmo tempo, sua resistência ao poder materno, andando sempre alguns passos atrás dela. Assim ele podia experimentar sua fascinação pelas prostitutas com quem cruzava eventualmente no caminho. A cidade, “labiríntica”, abria suas portas ao “impulso sexual” e esta irrupção do desejo se contrapunha à Bildung que moldava a subjetividade do menino burguês. Desse modo, a irresistível atração para dirigir-se a uma prostituta, na rua, parecia-lhe um ato de abjuração: contra a própria mãe e a classe social à qual ambos pertenciam.
Retomo aqui os relatos da Infância berlinense relativos ao tema da sexualidade e do corpo – além de “Mendigos e prostitutas”, “O despertar do sexo” e “Notícia de uma morte” – para reler a tríade mãe-menino-prostituta, a partir da obra do jurista suíço e estudioso da antiguidade clássica, Johann Jakob Bachofen. Desde o início de sua imigração para a França, em 1933, Bachofen fora objeto de intensa leitura por parte de Benjamin, que escreveu, em 1934, um artigo de apresentação da obra de Bachofen ao público francês, em princípio a pedido da Nouvelle Revue Française, mas que nunca foi publicado. No texto2, ele procede rigorosamente de acordo com seu “método” de leitura, onde não apenas lê a obra a ser interpretada, mas também o que foi feito dela, as suas diferentes apropriações, que demarcam sua “atualidade”. E é o destino de O matriarcado, a obraprima de Bachofen, como o próprio Benjamin afirma, que está em jogo nesse artigo.
Nessa obra, Bachofen estuda a transformação do matriarcado primitivo no regime patriarcal e monogâmico. A partir de sua pesquisa, conclui pela existência de uma organização familiar diferente daquela que reina no Ocidente desde a antiguidade clássica. As instituições “superiores” de nossa cultura tais como a moral, o direito e o casamento monogâmico têm suas raízes em uma pré-história sombria e violenta, em um mundo primitivo, um “mundo antes do mundo”, uma Vorwelt . O ponto de partida de Bachofen é, em princípio, bastante “feminista”: as crises mais profundas e mais desconhecidas da civilização dizem respeito aos períodos de transformação da condição da mulher. Entretanto, retomando as idéias “evolutivas”, tão comuns à época, ele vai mostrar que entre o estado primitivo, de desordem e promiscuidade impostas pela brutalidade masculina, uma promiscuidade geral que deixa suas marcas na “constituição hetaírica” – de Hetaira, o nome grego para as “cortesãs” – e a forma final da evolução, a sociedade patriarcal, houve um regime diferente, curioso, que ele denominou de Mutterrecht, literalmente, um regime dominado pelo “direito da mãe”: aqui, a mãe transmite seu nome, seu direito e sua propriedade, decide acerca da condição das crianças e, como uma rainha, exerce a soberania, chegando, inclusive, a excluir os homens das guerras, formando exércitos sanguinários e cruéis e fundando uma verdadeira “ginecocracia”. Mas, se o ponto de partida é “feminista”, a conclusão de Bachofen não é: esse regime, o do “direito da mãe” é, de algum modo, contra a natureza e, a ele, deve-se seguir a verdadeira ordem, a ordem patriarcal, que estabelece, no estado normal, o domínio do nous, da “inteligência”, e no direito, a predominância do pai.
Lendo o artigo de Carl Bernoulli sobre Bachofen, Benjamin retoma a idéia, “particularmente feliz”, diz ele, de que reina um “claro-escuro” nas pesquisas de Bachofen. Essa expressão torna-se uma espécie de “fio de Ariadne”, por meio do qual podemos movimentar-nos, com alguma segurança, no interior desse texto de Benjamin. “Claro-escuro” define uma zona intermediária, um “lusco-fusco”, um estado de transição, uma “passagem” ou ainda um “limiar” (Schwelle), conceito-chave nos últimos textos de Benjamin. A própria obra de Bachofen está em um “limiar”, entre o declínio do romantismo e os primeiros movimentos do positivismo. Mas esse “claroescuro”, continua Benjamin, é muito mais aquele que reina na caverna platônica, pois, dependendo da perspectiva, pode dirigir o leitor aos contornos ainda mal definidos das idéias ou fazê-lo naufragar, de vez, nas sombras enganosas. Daí a importância do estudo da “recepção” de Bachofen, para enfatizar também sua apropriação pela esquerda – as de Engels, Paul Lafargue e Elisée Reclus – aliada na luta contra as leituras “místicas” de um Alfred Schuler ou as “nazistas”, de um Alfred Bäumler – mas sem cair na armadilha de ler a Vorwelt de Bachofen como uma imagem idílica do “comunismo primitivo”.
Em meio às leituras “místicas”, “esotéricas”, Benjamin destaca, entretanto, a de um velho conhecido, Ludwig Klages, que, segundo ele, utiliza Bachofen como este jamais sonhou. No Eros cosmogônico, Klages transforma a Vorwelt, em um mundo “citônico”, dominado por forças infernais. Caídas no esquecimento, essas forças retornam por meio das “substâncias míticas” e constituem, para Klages, as Urbilder, as “imagens originárias” do mundo: “as imagens originárias são – escreve Benjamin – a aparição das almas do passado”.
A prostituta que se oferece, na rua, aos olhos desejosos do menino, aparecerá no Trabalho das passagens, como uma dessas Urbilder, na concisa defi nição de Benjamin – “a prostituta é a guardiã daquilo que passou” – que nos lembra um tempo anterior aos imperativos de qualquer ordem, seja o da mãe, seja o do pai. O menino, dividido entre a prostituta e a mãe, atualiza a força dessas “imagens originárias”, em uma espécie de vertigem, em que o retorno do recalcado se faz à custa de um estado de auto-esquecimento, em uma embriaguez que suspende a eficácia das normas (em Bachofen já encontramos a distinção entre apolíneo e dionisíaco, da qual Nietzsche se utilizará). Em “O despertar do sexo”, o menino, que deveria encontrar sua mãe na sinagoga para a comemoração do Ano Novo judaico, “esquece” de seu compromisso para entregar-se, pela primeira vez, à experiência sexual, com uma prostituta. Em “Notícia de uma morte” descobre, muitos anos depois, que sua atração pelas prostitutas poderia levá-lo à morte, pela sífilis. Em “Mendigos e prostitutas”, ele é derrotado na sua luta contra o desejo proibido e, como um ladrão ou um marginal, retorna sozinho às ruas, à noite. Os resíduos desse “mundo primitivo” – que serão decisivos na interpretação que Benjamin fez de Kafka – continuam agindo permanentemente em meio à “civilização”.
A relação mãe-menino-prostituta reata, assim, as ligações conflituosas entre a “civilização” e a Vorwelt. O poder da mãe, judia e burguesa, desafia algumas normas importantes, pois enquanto o pai, ortodoxo, cumpre os ritos religiosos tradicionais, a mãe, liberal, freqüenta a sinagoga reformada. A presença da mãe, intensa e freqüente em Infância berlinense, nos lembra o “direito da mãe”, enquanto o da prostituta, o “estado hetaírico”, de “limiar”. Não por acaso, os lugares preferidos das prostitutas, na cidade, são emblemas do “limiar”: portas, esquinas, calçadas, passagens, shoppings-centers. A Vorwelt, perigosa, fascinante, embriagadora, nos acena por meio da prostituta, com a transitoriedade, a fugacidade, com cortes, cesuras e descontinuidades, nas quais sedução e perigo, vida e morte se encontram e se entrecruzam. Desse confronto entre as “ondas do desejo” (a metáfora é de Benjamin em “O despertar do sexo”), o sujeito só pode subsistir definitivamente cindido e fraturado, após um embate, como nos lembra “Mendigos e prostitutas”, do qual não se sai “com as mãos limpas”.
Ernani Chaves
é professor do Departamento de Filosofi a da Universidade Federal do Pará. Autor de No limiar do moderno: Estudos sobre Friedrich Nietzsche e Walter Benjamin. Belém, Paka-Tatu, 2003
NOTAS
(1) Ver em especial, Sigrid Weigel. Entstellte Ähnlichkeit. Walter Benjamins theoretische Schreibweise. Frankfurt: Fischer, 1997.
(2) BENJAMIN, Walter. “Johann Jakob Bachofen”, in Gesammelte Schriften. Frankfurt: Suhrkamp, 1992, Volume II-1, p. 219-233.
domingo, 26 de setembro de 2010
sábado, 25 de setembro de 2010
Noite
De noite só quero vestido
o tecido dos teus dedos
e sobre os ombros a franja
do final dos cabelos
Sobre os seios quero
a marca
do sinal dos teus dentes
e a vergasta dos teus
lábios
a doer-me sobre o ventre
Nas pernas e no pescoço
quero a pressão mais
ardente
e da saliva o chicote
da tua língua dormente.
Maria Teresa Horta
o tecido dos teus dedos
e sobre os ombros a franja
do final dos cabelos
Sobre os seios quero
a marca
do sinal dos teus dentes
e a vergasta dos teus
lábios
a doer-me sobre o ventre
Nas pernas e no pescoço
quero a pressão mais
ardente
e da saliva o chicote
da tua língua dormente.
Maria Teresa Horta
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
O corpo, dois corpos
o corpo da poesia
Os ombros
os seios
o ventre que sequestra
entre as pernas fechadas
a vagina
com a sua longa boca entreaberta
Pensar do corpo
o corpo da poesia
Mais os dedos do que as mãos
sobre as arestas
Mais as fendas do que o liso
Mais a ruga
Mais a ruga das coxas
e das pernas
Depois vêm os dentes e a língua
a descer no trilho brando do umbigo
bebendo o sal do suor da pele
e o fermento de um doce que não digo
Escrever do corpo
o corpo da poesia
Os pulsos tão febris
a nuca
e a garganta
O silêncio de uns olhos
que por certo queriam
ver bem mais longe do que o pubis
deixa
Maria Teresa Horta
Os ombros
os seios
o ventre que sequestra
entre as pernas fechadas
a vagina
com a sua longa boca entreaberta
Pensar do corpo
o corpo da poesia
Mais os dedos do que as mãos
sobre as arestas
Mais as fendas do que o liso
Mais a ruga
Mais a ruga das coxas
e das pernas
Depois vêm os dentes e a língua
a descer no trilho brando do umbigo
bebendo o sal do suor da pele
e o fermento de um doce que não digo
Escrever do corpo
o corpo da poesia
Os pulsos tão febris
a nuca
e a garganta
O silêncio de uns olhos
que por certo queriam
ver bem mais longe do que o pubis
deixa
Maria Teresa Horta
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