quarta-feira, 4 de setembro de 2019

A peste




Dizem que quando os dois estavam chegando a Nova York, na amurada do navio, Freud virou-se para Jung e perguntou:

– Será que eles sabem que nós estamos trazendo a peste?

Não sei se a história, que li num texto do Stephen Greenblatt publicado recentemente na revista The New Yorker, é verdadeira. Nem sei se Freud e Jung estiveram juntos em Nova York algum dia. Mas o que Freud pretenderia dizer com “a peste” é fácil de entender. Era tudo que os dois estavam explorando em matéria de subconsciente, inconsciente coletivo, sexualidade precoce – enfim, a revolução no pensamento humano que na Europa já se alastrava, e era combatida, como uma epidemia. Os agentes alfandegários não teriam identificado o perigo que os dois recém-chegados representavam para as mentes da América, deixando-os passar para contagiá-las.

Todo desafio ao pensamento convencional e a crenças arraigadas é uma espécie de praga solapadora, uma ameaça à normalidade e à saúde públicas. Santo Agostinho dizia que a curiosidade era uma doença. Os que procuravam explicações para o universo e a vida além dos dogmas da Igreja ou da ciência tradicional eram portadores do vírus da discórdia, a serem espantados como se espanta qualquer praga, com barulho e fogo. As ideias de Freud e de Jung divergiram – Jung acabou derivando para um quase misticismo, literariamente mais rico mas menos consequente do que o que pensava Freud – mas as descobertas dos dois significaram uma reviravolta no auto-conceito da humanidade comparável ao que significou o heliocentrismo de Copérnico e as sacadas do Galileu. O homem não só não era o centro do universo conhecido como carregava dentro de si um universo desconhecido, que mal controlava. Agostinho tinha razão, a curiosidade debilitava o homem. A partir de Copérnico a curiosidade só levara o homem a ir desvendando, pouco a pouco, sua própria precariedade, cada vez mais longe de Deus.

Marx, outro pestilento, tinha proposto o determinismo histórico e a luta de classes como eventuais formadores do Novo Homem, livre da superstição religiosa e de outras tiranias. Suas ideias, e a reação às suas ideias, convulsionaram o mundo. Esta peste se disseminou com violência e foi combatida com sangrias e rezas e no fim – como também é próprio das pestes – amainou. Todas as pestes chegam ao seu máximo e recuam. A Terra há séculos não é o centro do universo, o que não impede o prestígio crescente da astrologia. O iluminismo do século dezoito parecia ser o preâmbulo de um futuro racional e prevaleceu o irracionalismo. O Novo Homem de Marx foi visto pela última vez pulando o muro para Berlim Ocidental. E as teses de Freud e Jung que revolucionariam as relações humanas nunca foram aplicadas nas relações que interessam, a do homem com seus instintos e a dos seus instintos com uma sociedade sadia, e na nossa explicação. Foi, como as outras, uma novidade, ou uma curiosidade, que expirou.

Mas também é próprio das pestes serem reincidentes. Cedo ou tarde virá outra perturbar a paz da ignorância de Santo Agostinho. E passar


 - LUIS FERNANDO VERISSIMO. 01 Sep 2011 


"É o poder menos corrupto"


ENTREVISTA - Ellen Gracie: 



A ministra que saiu do Supremo Tribunal Federal avalia o papel do Judiciário no cumprimento das leis e na manutenção das liberdades e direitos constitucionais

A juíza Ellen Gracie Nonhfteet, de 63 anos, entregou há três semanas seu pedido de aposentadoria do Supremo Tribunal Federal (STF). lndicada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em 2000. Ellen foi a primeira mulher a chegar à mais alta corte do país. Ao longo de dez anos e meio, proferiu cerca de 30.000 decisões, presidiu o STF e o Conselho Nacional de Justiça e foi vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral. A ministra poderia continuar no tribunal até 2018, mas ela se considera "muito realizada". Apesar de ter se formado e construído a carreira no Rio Grande do Sul - onde. moram a única filha e a neta -. Ellen está a caminho do Rio de Janeiro natal. A curto prazo, vai retomar o registro na Ordem dos Advogados do Brasil para trabalhar com pareceres, consultoria e arbitragem. Segue o desejo, no entanto, de ser nomeada para um fórum internacional. Em 2008, ela foi derrotada na disputa por um assento na corte de apelação da Organização Mundial do Comércio. "Se houver uma oportunidade, vou analisar", diz a ex-ministra. "Mas não em qualquer lugar. Não estou fugindo do país." No seu apartamento em Brasília, ela concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Foram quase onze anos no Supremo. O tribunal mudou muito nesse tempo?
Creio que a corte de dez anos atrás era mais contida, mais dada ao judicial restraint, uma expressão em inglês que indica um esforço para não se substituir ao legislador. Acontece que a demanda para que o STF resolvesse impasses políticos também era menor. Hoje, há temas controversos que o Congresso não aborda. Os parlamentares não querem se comprometer com uma posição. As demandas, então, vão parar no Supremo, que não tem outra saída senão decidir sobre tais assuntos. Há também o famoso "terceiro turno" - quando a minoria vencida no Legislativo recorre à corte para reverter ou amenizar a derrota. Eu não diria que existe no STF uma atitude concertada para adotar o ativismo judicial. Alguns ministros - muito bem amparados na doutrina e na técnica - avançam mais nessa direção. Outros, menos; Não vejo, contudo, um interesse em aumentar o poder do Supremo. Nosso poder já é bem grande. O certo é que nesses últimos dez anos foram as circunstâncias que fizeram do dilema entre ativismo e contenção um aspecto central para a corte.

Uma das decisões em que o ativismo do Supremo ficou mais patente é aquela que confere o status de família à união estável entre pessoas do mesmo sexo. A Constituição é explícita em dizer que a família no Brasil é formada por homem e mulher. A corte reescreveu a Carta Magna?
O Brasil, desde o pórtico de sua Constituição, diz que não admite discriminação. Então não há motivo para que concidadãos nossos sejam tratados de maneira diferente por causa de sua orientação sexual. Assim como nós não admitiríamos que eles fossem tratados diversamente por questões de cor ou de religião, também a orientação sexual não deve ser um fator impeditivo a que eles gozem de isonomia em relação aos outros cidadãos. Essa é a base da decisão. Um país decente não discrimina entre os seus cidadãos. Meu voto foi no sentido de que todos os direitos correspondentes a uma união estável entre pessoas de sexo oposto sejam estendidos aos homossexuais, inclusive o direito de adoção. Mas as discussões sobre os direitos dos homossexuais ainda não terminaram no Supremo, elas certamente voltarão ao plenário.
A senhora foi a primeira mulher a assumir uma cadeira no tribunal. É importante que uma mulher a substitua?
Acredito que a sociedade brasileira entrou em outra fase. Neste momento, o país é presidido por uma mulher. No Supremo, temos ainda a ministra Cármen Lúcia. O peso simbólico de uma escolha feminina já não é tão grande. Se a presidente quiser escolher uma mulher,no entanto, sua gama de alternativas será bem grande. O Judiciário brasileiro se destaca no mundo porque 30% da primeira instância é formada por mulheres, e quase o mesmo porcentual se repete na segunda instância. Existe uma massa crítica muito boa da qual a presidente poderá tirar um nome feminino, se tal for a sua vontade.

O Supremo vivia atulhado de processos. Essa questão foi equacionada?
Até 1988, O Supremo podia escolher os casos que iria analisar. Isso mantinha o número de processos em um patamar manejável. A Constituição de 1988 tirou essa prerrogativa da corte. Além disso, por ser muito detalhista, a Carta permite que os advogados sempre encontrem uma raiz constitucional para os seus pleitos. Desde a faculdade, eles são orientados a incluir questões constitucionais em suas petições, de modo que a causa possa mais tarde subir até o Supremo. Tudo isso acarretou uma explosão do número de causas que tramitam na corte. Em meados da década passada, chegou a haver 150 000 processos distribuídos entre os gabinetes dos ministros. Isso torna inviável o trabalho de uma corte constitucional. Houve, no entanto, um divisor de águas que nos levou de volta ao bom caminho. Estou falando da Emenda e das leis que a regulamentaram, permitindo o uso da repercussão geral e da súmula vinculante. Depois disso, houve uma clara redução de número Em 2010, apenas 15 000 processos foram distribuídos. E muito, em comparação com outros países. mas um avanço inegável para nós.

Se o instrumento é eficaz, por que é pequeno o número de súmulas publicadas?
Sou uma defensora da adoção das súmulas vinculantes há trinta anos. Sou também muito restritiva no uso dessa ferramenta. Não há contradição aí. As súmulas diminuem o número de processos que chegam ao Supremo na exata medida em que aumentam a segurança jurídica. Para desempenhem esse papel,é fundamental que sejam muito precisas. Se a súmula não é feita com cuidado enseja uma nova dúvida, ela não cumpre o seu papel de estabelecer uma jurisprudência que permita que processos semelhantes ao analisado sejam julgados com mais rapidez e não cheguem mais às instâncias superiores.Isso às vezes acontece. Há súmulas que os próprios ministros quiseram reescrever já no dia seguinte à publicação. Por isso, o tribunal está certo em não se apressar na edição de súmula.

Em maio, o tribunal determinou a prisão do jornalista Pimenta Neves, onze anos depois do assassinato que ele confessou. Com a redução no número de processos, o Supremo tende a decidir com maior velocidade?
O grande problema do Judiciário hoje é a lerdeza. As ações demoram muito, especialmente as penais. O sistema de recursos e nulidades do processo penal brasileiro é inacreditável, quase impede uma condenação. Um bom advogado tem à sua disposição um arsenal quase infinito de manobras para dificultar o desenvolvimento do processo. Ou seja, a culpa não é exclusivamente do Judiciário. Mas nós também temos nossa parcela de responsabilidade. Deveríamos nos equipar, ter mais juízes criminais. E acredito que, mesmo na corte suprema, nem sempre tomamos a melhor decisão. Em 2009, por exemplo, o tribunal alterou sua jurisprudência com relação à possibilidade de cumprimento das penas logo depois da confirmação da sentença em segundo grau. Até então, o tribunal sempre tinha entendido que, confirmada a sentença no Tribunal de Justiça, nada impedia o início da execução. Em 2009, isso mudou. Não concordei com essa posição e discordo dela até hoje.

A senhora é considerada linha-dura em questões penais. Concorda com essa definição?
Sou rigorosa em matéria penal. Acho que é preciso ser. No Brasil, depois da redemocratização, passamos por um período de rechaço absoluto a tudo que significasse repressão. Mas qualquer país democrático precisa ter repressão ao crime. É preciso que haja consequência para o delito, que o direito penal seja efetivo. No entanto, quando for aplicada a pena, é necessário que o sistema prisional cumpra sua finalidade de ressocialização. As penas não existem apenas para punir. Elas devem preparar a pessoa para que saia em condições de ser reabsorvida pela sociedade. E isso não acontece até hoje.

A lerdeza que a senhora mencionou também dificulta o combate à corrupção, e ajuda a disseminar o sentimento de que corruptos, especialmente políticos, não são punidos no Brasil. O julgamento do mensalão, que se aproxima, vai mudar esse roteiro?
Eu não vou participar do julgamento do mensalão, e não me arrisco a prever seu desfecho. Se não me engano, já foi decretada a prescrição de um crime. Outros réus talvez sejam condenados a penas pequenas que, pela passagem do tempo, não será viável executar. De modo geral, contudo, esse processo andou de maneira célere no Supremo. O relator, ministro Joaquim Barbosa, já ouviu 600 testemunhas em dois anos. Nenhuma vara criminal neste país teria tido capacidade para fazê-lo . Isso foi possível, em parte, porque houve a digitalização completa do processo. Minha primeira observação, portanto, é que mudanças nos métodos de trabalho podem trazer resultados fantásticos. O Judiciário ainda lida com práticas herdadas do século XIX, mas estamos nos livrando de muitas delas, o que deve racionalizar nosso trabalho.Em segundo lugar, o papel do Supremo não é punir. Mas julgar de maneira correta e respeitar as garantias que são de todos os cidadãos. Não podemos cercear a defesa, nem passar por cima dos direitos dos acusados. Isso talvez crie frustrações momentâneas, mas, a "longo prazo, a consolidação das instituições democráticas é o que importa.

Nos últimos anos, houve algumas discussões muito ríspidas entre ministros. O clima no Supremo é tenso?
O tribunal está em paz. E, em geral,o convívio entre os ministros é muito bom. Discussões acaloradas sempre ocorreram na corte - a diferença é que atualmente, com a televisão, as reações mais exaltadas ficam à vista de todos.

É bom que as sessões do Supremo sejam transmitidas ao vivo pela TV?
Se os ministros tivessem podido votar sobre o assunto lá atrás, quando o canal foi ao ar, acredito que a maioria teria sido contrária. Eu mesma não teria aprovado a ideia. Sempre que um juiz estrangeiro visita o Brasil, a transmissão das sessões ao vivo causa espanto. É algo que não existe em outros lugares. Para muitos, é uma subversão da lógica de funcionamento de uma corte suprema. Há tribunais que mantêm em segredo até o nome do relatar de um processo. Mas agora os benefícios da televisão estão claros. Ela dá grande transparência à Justiça. Essa transparência é importante, não é possível regredir. Durante a minha presidência, discutimos a possibilidade de editar as sessões. Mas aí ficamos com um problema seríssimo: quem faria essa edição? Quem haveria de cortar a palavra deste ou daquele ministro? Mantivemos o formato, que está bem aceito pela comunidade jurídica. Mesmo que às vezes deixe os ministros muito expostos.

Quando a senhora entrou no Supremo, ainda havia ministros indicados pelo governo militar. Com sua saída, restam apenas três ministros indicados antes do governo Lula. Quanto a indicação influência a trajetória de um ministro na corte?
Pertencer ao Supremo, o topo da pirâmide judiciária, é uma dignidade tão grande que não admite vinculações, subordinações, sujeições a nenhuma outra instância. A melhor homenagem que um ministro pode fazer ao presidente que o nomeou é ser um bom juiz. Ou seja, um juiz isento. Não vejo ninguém atrelado à mesma linha do governo que o nomeou. Seria uma pessoa menor aquela que se atrelasse a uma linha político-partidária. O Supremo faz, sim, política. Mas política ampla, de desenvolvimento nacional, de contribuição ao crescimento do país, de atenção às realidades nacionais. A primeira virtude de um juiz tem de ser a independência. E a independência não é coisa abstrata. É independência do poder econômico, do poder político, do poder da imprensa e da opinião pública, independência dos próprios preconceitos. Felizmente, vejo essa independência posta em prática diariamente não apenas no Supremo, mas em todo o Judiciário, que é o menos corrupto dos poderes.

Ellen Gracie.30 Aug 2011 

Freio na voracidade


 - Renato Janine Ribeiro



Quando as pessoas compram avaliando não só o preço, mas o que as empresas fazem de bom e de mau, a ética pressiona o capitalismo

Renato Janine Ribeiro

O capitalismo é ético? Eis uma questão muito difícil de responder. Basicamente, hoje há duas grandes linhas a respeito. Uma enfatiza a dinâmica de um sistema, ou um estilo, que libera a produção das amarras tradicionais e assim revela capacidade inigualável de criar e talvez até distribuir riquezas. Mas o preço dessa libertação é um caráter nada ou pouco ético: o capitalista é movido por um "instinto animal", promove uma "destruição criativa". Na melhor das hipóteses, é neutro eticamente, o que chamamos de "amoral". Com frequência é até predatório, o que chamamos de "imoral". Só por ele, não respeitaria direitos trabalhistas - tanto assim que, nas últimas décadas, vários deles foram reduzidos - nem teria reverência pela natureza e o ambiente.

Isso não representa contudo, necessariamente, uma condenação do capitalismo. Apenas mostra que ele é excelente naquilo que se propõe: produzir. Precisa, porém, de controles externos. Esses podem ser exercidos pelo Estado, pela sociedade, pela opinião pública. Desse ponto de vista, o que pode introduzir ética na economia são as pessoas, enquanto não empresários. Isto é, o próprio empresário, por valores éticos que não são seus como empresário, mas como pessoa, como sujeito moral, pode orientar sua atividade produtiva numa direção melhor. Se não for ele, será a sociedade. Quando cada vez mais pessoas compram levando em conta não só o preço, mas o que as empresas fazem de bom e de mau, é isso o que acontece. Exemplo importante no Brasil foram as campanhas - movidas por pessoas, inclusive empresários da Abrinq - contra o trabalho infantil. A Zara, acusada há dias de comercializar produtos em que se usa trabalho escravo, padece em sua imagem por isso.

Esse é um primeiro modo de ver o capitalismo, digamos, "selvagem". Mas há outra percepção, ou concepção, do capitalismo. Esta aparece quando organizações como a Etco se empenham em defender um ambiente limpo de corrupção para os negócios melhor florescerem. Aqui o problema é, como se vê na série sobre a cultura das transgressões que saiu pela editora Saraiva (de cujo terceiro volume participei), de que maneira evitar a primazia da transgressão, que faz as boas regras - boas segundo a lei e a ética - serem violadas em nome de uma vantagem fácil que, porém, desmoraliza a sociedade, amoraliza a economia e imoraliza a política. Essa linha de pensamento estaria mais perto dos calvinistas de Max Weber, que sentiam a "ética protestante" expressando-se no "espírito do capitalismo". Pessoas empreendedoras, que mourejam, fazem de tudo para a sociedade prosperar: o empresário weberiano do século 16 ou 17 nada tem a ver com o banqueiro da caricatura, fumando charuto, indolente, espertalhão, mancomunado com os poderosos, corruptor. Esse empreendedor dos começos da modernidade pode não ser simpático - nas Américas, seria senhor de escravos, na Holanda, não reconheceria direitos a seus empregados -, mas ele próprio trabalhava, e muito. De certa forma, quando se fala num capitalismo que requer uma ética intensa, é nele que se pensa.

Mas em nossos dias surge um upgrade. Cada vez mais, no lugar da ética protestante e moralista, aparece uma preocupação ética que nasceu da ideia do meio ambiente e agora se desenvolve para a sustentabilidade. Não tem mais por modelo ideal o empresário calvinista que faz, da empresa, sua razão de vida. Ao contrário, cada vez mais a vida é a razão de ser de tudo o que se faça, inclusive (mas não só, nem prioritariamente) a empresa. Tudo começa com o descontentamento ante a poluição. A economia que se desenvolve desde a Revolução Industrial tem um custo altíssimo para a vida - humana, animal, vegetal. Londres passa cem anos coberta pelo fog, uma neblina que se deve à poluição das fábricas. As pessoas não se enxergam. A cidade fica invisível e os cidadãos, cegos ao seu entorno. Contudo, após a 2ª Guerra Mundial, uma preocupação com a natureza cresce pelo mundo. Movimentos verdes lutam contra a má qualidade do ar, da água, em prol da preservação de florestas. A essa altura, por "verde" se entende o meio ambiente natural ou assimilado. Contudo, com os anos, as causas verdes anexam um elenco de outros valores. Não é só a defesa do mundo não contaminado pelo homem. É a defesa do homem, contra o que o desgasta ou desvaloriza.

Também se propõe uma reorientação da ciência. Tomemos o filósofo que é o primeiro grande referencial de toda preocupação com o meio ambiente, Rousseau. É um amante da natureza. Começa seus Devaneios do Caminhante Solitário narrando um passeio pelos arredores de Paris, em que olha as plantas, identifica-as, extasia-se. Mas é também alguém que faz seu début literário com um escrito, premiado pela Academia de Dijon, sustentando que "as artes e as ciências" - isto é, o que chamamos de tecnologia e ciência - fizeram mal, mais do que bem. Desnaturaram o mundo. Degeneraram o homem. Rousseau não vê em nada moderno, seja a economia, a política ou a ciência, capacidade de reverter o processo pelo qual "o homem nasceu bom e a sociedade o corrompe".

Mas o que notamos na ciência das últimas décadas é um forte empenho em reduzir e mesmo suprimir os danos acarretados pelo desenvolvimento. Lembremos que não faz muito tempo a ciência e a tecnologia eram, em ampla medida, influenciadas por encomendas militares. Isso mudou. Tenhamos em mente que muitas pesquisas são conduzidas em nome de causas destrutivas, ainda hoje. Muitos desconfiam que os cultivos transgênicos, ou têm certeza de que os veículos de transporte individuais, causam males em maior número que as vantagens. Os carros são bons a curto prazo para poucos, mas péssimos para o futuro da humanidade como um todo. Mesmo assim, porém, em casos como o da indústria do tabaco, cientistas cortaram seu elo umbilical com ela, como se vê no filme O Informante. E são cientistas de renome que formam o "core" da Comissão Internacional de pesquisa sobre as Mudanças Climáticas, que talvez constitua o órgão mais prestigioso na luta por mudar o mindset que governa uma produção de custos negativos para a sociedade e a natureza.

Com uma ciência e uma tecnologia mais amigas do verde, um verde que saiu das plantas e colore tudo o que é vida e mesmo cultura, isto é, passa a propor uma qualidade de vida melhor para os humanos e seus parceiros no planeta, com a defesa da biodiversidade e do que podemos chamar a culturo-diversidade, por que não uma economia de novo recorte? Será possível o projeto de uma empresa ter no seu cerne a sustentabilidade, isto é, a proposta de que nenhuma intervenção humana piore o que foi recebido? Essa é uma exigência alta. Para eu me alimentar, tenho de matar animais ou mesmo vegetais. (O momento mais engraçado do filme Notting Hill, para mim, foi quando uma moça se disse vegetariana lapsariana. Lapso significa queda. O que ela dizia é que só comia frutas e legumes que já tivessem caído da planta que as gerou. Não comeria uma maçã arrancada da macieira, porque estaria matando um ser vivo. Fica difícil, claro, viver com uma ética tão radical.) Mas, se tenho de matar ou causar danos, posso reduzi-los, talvez revertê-los por completo e, quem sabe, um dia (esse é o sonho!), até melhorar as condições do que foi recebido. Aqui amplio a ideia de que recebemos insumos "da natureza" para a de que recebemos insumos também humanos: o trabalho, a saúde, a boa disposição uns dos outros. É sustentável a ação que não apenas zera o dano causado, mas também promove ganhos. Suponhamos uma empresa que decida fornecer, a seus funcionários, alimentação saudável - a cada três horas, como hoje se recomenda, em vez de poucas e lautas refeições. Pode melhorar a saúde deles. Ela assim terá devolvido mais do que consumiu. É claro que há tantos insumos que o cálculo não pode isolar um dos outros. Mas é um exemplo.

Porque, no fundo, nossa questão é: o que fará uma empresa ou um empresário agir eticamente, ser ético? Tudo o que afirmei não dá uma resposta definitiva. Quando uma empresa faz questão de não explorar o trabalho infantil ou de preservar a natureza, essa iniciativa é "da empresa" ou dos indivíduos que, entre outras coisas, são seus donos? A diferença é importante. Toda empresa busca o lucro. Mas o que a faz criar limites para sua voracidade? É algo que faz parte do próprio projeto empresarial, ou serão elementos externos, inclusive os valores pessoais dos proprietários? Para sair da moral e entrar no moralismo, conta-se que houve um tempo em que um vinho que tem no nome a palavra "diabo" não era distribuído aqui porque os importadores eram cristãos fervorosos. Era um valor deles, não da empresa. E uma empresa pode ter valores? Uma empresa é diferente dos seres humanos que são seus donos, que a fazem? Questões difíceis. O que parece certo, isso sim, é que uma empresa pode ter no seu próprio projeto de negócios uma solidez sustentável e que isso será mais viável se ela tiver compromissos sociais e ambientais e, além disso, estiver na linha de ponta, no cutting edge, da ciência. O mais, resta a esclarecer - ou a fazer.


RENATO JANINE RIBEIRO É PROFESSOR TITULAR DE ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA DA USP

 04 Sep 2011

Flânerie bipolar



A melancolia, da excentricidade romântica à patologia farmacêutica
RESUMO Descrita até a modernidade como um fenômeno da cultura, sinal de excentricidade e reclusão, a melancolia perdeu, com o advento da psicanálise, o caráter criativo. No século 21, se converte em patologia "bipolar". Publicação de clássico do século 17 e filme de Lars von Trier trazem o melancólico de volta à cena.

MARIA RITA KEHL

O PLANETA MELANCHOLIA não é o Sol negro do poema de Nerval. É uma Lua incansável, cuja órbita desgovernada a aproxima da Terra indefesa até provocar uma colisão devastadora.

O filme de Lars von Trier mistura ficção científica com parábola moral, sofisticada e um tanto ingênua, como convém ao gênero. A destruição do mundo pela melancolia é precedida de um longo comentário sobre a perda de sentido da vida, pelo menos entre os habitantes da sociedade que Trier critica desde "Dançando no Escuro" (2000) e cujo imaginário o cineasta dinamarquês, confiante em seu método paranoico-crítico, conhece pelo cinema sem jamais ter pisado lá: os EUA.

Ao longo do filme, Trier semeia indicações de sua familiaridade com a história da melancolia no Ocidente. O cineasta, que se fez "persona non grata" em Cannes com provocações descabidas em defesa de Hitler, mostrou compreender a posição do melancólico como a de um sujeito em desacordo com o que se considera o Bem, no mundo em que vive. Em "Melancholia", esta é a posição de Justine (Kirsten Dunst), prestes a se casar com um rapaz tão obsequioso em contentá-la que presenteia a noiva com a foto das macieiras em cuja sombra ela deverá ser feliz.

Feliz? A perspectiva do futuro congelado numa imagem perpétua congela também o desejo de Justine, que se desajusta de seu papel e estraga a festa caríssima organizada pela irmã, cheia de rituais destinados a produzir os efeitos de "happiness" exigidos dos filhos da sociedade da abundância.

SINTOMA SOCIAL Se não tivesse o mérito de desvendar a estupidez da fé contemporânea nos "efeitos de felicidade" como medida de todas as coisas, o filme de Trier já terá valido por reabilitar a figura da melancolia como indicador do sintoma social.

Por mais de dois milênios, as oscilações da sensibilidade melancólica indagaram a cultura ocidental a respeito da fronteira que separa o louco e o gênio. Desde a Antiguidade clássica, o melancólico, incapaz de corresponder à "demanda do Outro", denunciava o que não ia bem, no laço social.

A crise que leva Justine a arrebentar seu compromisso amoroso, sua festa de casamento e seu emprego numa única noite é conduzida com precisão didática pelo diretor. Uma observação cruel da mãe (representação perfeita da mãe do melancólico freudiano), seguida da indiferença do pai, deflagra em Justine uma verdadeira crise de fé. De repente, a noiva se exclui da cena na qual deveria ser a principal protagonista. Não acredita mais. Despenca da rede imaginária que sustenta o que se costuma chamar de realidade, ficção coletiva capaz de dotar a vida de significado e valor.

Justine, incapaz de olhar o mundo através do véu de fantasia que conforta aos outros, "os tais sãos" (como no verso de Pessoa), enxerga o que a cena encobre. Ela não teme a chegada de Melancholia porque nunca foi capaz de se iludir sobre a finitude de tudo o que existe. Justine "vê coisas". Árida vida a de quem vê demais porque não sabe fantasiar.

EXCEÇÃO Desde a Antiguidade o melancólico foi entendido, no Ocidente, como aquele que ocupa um lugar de exceção na cultura. O pathos melancólico foi explicado por Hipócrates e Galeno com base na teoria dos quatro humores que regulam o funcionamento do corpo e da alma. As oscilações da bile negra fariam do melancólico um ser inconstante, a um só tempo doentio e genial, impelido a criar para aplacar as oscilações de seu temperamento.

No cerne de sua reflexão "O Homem de Gênio e a Melancolia" (O Problema XXX), Aristóteles já discernira uma questão ética a respeito dos excessos emocionais do melancólico e uma questão estética sobre o gênio criador. Daí o incômodo papel que lhe coube: questionar os significantes que sustentam o imaginário de sua época.

SÉCULO 19 A tradição inaugurada por Aristóteles termina com Baudelaire já no século 19 -o último dos românticos, o primeiro dos modernos, segundo outro melancólico genial, Walter Benjamin. Para suportar os altos e baixos de seu temperamento e dar algum destino à sua excentricidade, alguns melancólicos dedicaram-se a tentar compreender seu mal.

O classicismo inglês produziu o mais completo compêndio sobre a melancolia de que se tem conhecimento, obra da vida inteira do bibliotecário de Oxford Robert Burton (1577-1640).

Sua "A Anatomia da Melancolia", publicada em 1621 e reeditada várias vezes nas décadas seguintes, é um compêndio de mais de 1.400 páginas contendo tudo o que se podia saber sobre a "doença" de seu autor. A editora da Universidade Federal do Paraná acaba de lançar no Brasil o primeiro volume de "A Anatomia da Melancolia" [trad. Guilherme Gontijo Flores, 265 págs., preço não definido].

É pena que o primeiro volume se limite ao longo introito do autor a seus leitores. Esperamos que em breve a Editora UFPR publique uma seleção dos capítulos do livro, que inicia com as causas da melancolia -"Delírio, frenesi, loucura" [...] "Solidão e ócio" [...] "A força da imaginação"...- segue com a descrição dos paliativos para aliviar o sofrimento ("alegria, boa companhia, belos objetos...") para ao final abordar a melancolia amorosa e a melancolia religiosa.

O autor assinou a obra como Demócrito Júnior, a afirmar sua identificação com o filósofo que, segundo a descrição de Hipócrates, afastou-se do convívio com os homens e, diante da vacuidade do mundo, costumava rir de tudo. O riso do melancólico é expressão do escárnio ante as ilusões alheias.
A empreitada de Burton só foi possível em uma época em que a melancolia era entendida não apenas como uma doença, mas como um fenômeno da cultura. O texto seminal de Aristóteles já continha uma reflexão sobre a capacidade criativa do melancólico, atribuída à instabilidade que o impele a expandir sua alma em todas as direções do universo.

FREUD Tal processo de desidentificação encontra-se também no diagnóstico freudiano, ao qual falta, entretanto, a contrapartida da mimesis. Solto da rede imaginária que o enlaça a si mesmo e ao mundo, o melancólico contemporâneo só conta de encarar o Real com a aridez do simbólico.

Algo se passou, na modernidade, para que a inconsistência imaginária do melancólico deixasse de estimulá-lo a reinventar as representações do mundo e ficasse à mercê da Coisa. A receita preparada para Justine tem gosto de cinzas; fios de lã invisíveis impedem suas pernas de andar. Diante desse horror, ela prefere a colisão com Melancholia.

A melancolia deixou de ser entendida como um desajuste referido às normas da vida pública quando Freud arrebatou o significante de seu sentido tradicional a fim de trazer para o campo da psicanálise o diagnóstico psiquiátrico da então chamada psicose maníaco-depressiva -que hoje a medicina retomou sob a designação de transtorno bipolar.

Freud não privatizou a melancolia por acaso: a própria psicanálise deve sua existência ao surgimento do sujeito neurótico gerado nas tramas da família burguesa, fechada sobre si mesma e fundada em compromissos de amor. A psicanálise freudiana é contemporânea ao acabamento da forma subjetiva do indivíduo e à privatização das tarefas de socialização das crianças.

Vem daí que o melancólico freudiano não se pareça em nada com seus colegas pré-modernos: o valente guerreiro exposto à vergonha diante de seus pares (Ajax), o anacoreta em crise de fé (santo Antônio), o pensador renascentista ocupado em restaurar a ordem de um mundo em constante transformação (como na gravura de Dürer). Nem faz lembrar, na aurora modernidade, o "flâneur" a recolher restos de um mundo em ruínas pelas ruas de uma grande cidade (Baudelaire) de modo a compor um monumento poético para fazer face à barbárie.

O melancólico freudiano é o bebê repudiado pela mãe, pobre eu transformado em dejeto sobre o qual caiu a sombra de um objeto mau. O que se perdeu na transição efetuada pela psicanálise foi o valor criativo que se atribuía ao melancólico, da Antiguidade ao romantismo. Perdeu-se o valor do polo maníaco do que hoje a medicina chama de transtorno bipolar.

Onde o melancólico pré-moderno, em seus momentos de euforia, era dado a expansões da imaginação poética, hoje a mania leva os pacientes "bipolares" a torrar dinheiro no cartão de crédito. O consumo é o ato que expressa os atuais clientes da psicofarmacologia, apartados da potência criadora que sua inadaptação ao mundo poderia lhes conferir.

DEPRESSÃO Já não existem melancólicos como os de antigamente? Os neurocientistas que o digam. A psiquiatria e a indústria farmacêutica já escolheram seu substituto no século 21: no lugar do significante melancolia, instala-se a depressão como grande sintoma do mal-estar na civilização do terceiro milênio. Quanto mais se sofistica a oferta de antidepressivos, mais a depressão se anuncia no horizonte como expressão privilegiada do mal-estar, a ameaçar sociedades que se dedicam a ignorar o saber que ela contém.
Tal produção ativa de ignorância a respeito do sentido da melancolia está no centro da parábola de Lars von Trier. John, cunhado de Justine, afirma sua fé no mundo das mercadorias. Abastece a casa com comida, combustível, geradores de energia. Confia na informação científica divulgada pela internet. Verifica no telescópio a aproximação do planeta ameaçador.

Sua defesa é tão frágil que, diante do inevitável, suicida-se com uma overdose das pílulas da esposa. Claire, por sua vez, tem grande fé na encenação da vida. O fracasso do casamento espetacular da irmã não a impede de planejar outro pequeno ritual, na bela varanda da casa, com música e vinho, para esperar a chegada de Melancholia. Excelente final para um melodrama hollywoodiano, que Justine descarta com desprezo.

Justine não tem ilusões a respeito do fim. Mesmo assim, para proteger o sobrinho do horror final, mostra-se capaz de criar a mais onipotente das fantasias. Constrói com ele uma frágil tenda "mágica" sob a qual se abrigam para esperar a explosão de luz trazida pela colisão com Melancholia.

O triângulo formado por três galhos presos na ponta não chega a criar uma ilusão: são como traços de uma escrita, como um significante a demarcar, "in extremis", um território humano em face do Real.

Para suportar os altos e baixos de seu temperamento e dar algum destino à sua excentricidade, alguns melancólicos dedicaram-se a tentar compreender seu mal

Onde o melancólico pré-moderno, em momentos de euforia, era dado à imaginação poética, hoje a mania leva os pacientes "bipolares" a torrar dinheiro no cartão de crédito

A própria psicanálise deve sua existência ao surgimento do sujeito neurótico gerado nas tramas da família burguesa, fechada sobre si mesma e fundada em compromissos de amor


Piiii




Não havia jeito de o detector de metais do aeroporto calar a boca

Piii. Apitou. Ele teve que voltar para passar de novo pelo detector de metal. Já tinha posto na bandejinha relógio, caneta, tudo que pudesse conter metal ou fazer disparar o piii. Voltou e passou de novo.

Fez piiii.

– Tire o casaco – sugeriu o funcionário.

Ele triou o casaco e botou numa bandeja maior. Passou outra vez pelo portal.

Piiii.

– Já sei – disse ele. – Deve ser isto aqui.

Mostrou uma caixinha de remédio que levava num bolso da calça. Não era de metal, era de plástico, mas talvez a máquina suspeitasse que o plástico fosse disfarce. Essas máquinas de aeroporto ficam cada vez mais sofisticadas. E desconfiadas.

– Coração – disse ele, colocando a caixinha em outra bandejinha.

– Como? – disse o funcionário.

– Remédios para o coração. Pressão alta, essas coisas.

– Passe outra vez, cavalheiro – disse o funcionário, sem nenhum interesse no seu coração.

Ele passou outra vez pelo detector, sem a caixinha no bolso.

Piii.

– Não é possível. Será que a máquina não está com defeito?

O funcionário ignorou a hipótese impensável. Perguntou:

– O senhor tem alguma prótese?

Ele hesitou. Tinha alguma prótese? Não. Claro que não. Sugeriu:

– Não pode ser obturação num dente? Tenho várias.

O funcionário desprezou esta hipótese também. Disse:

– O cinto. – O quê? – O cinto. Pode ser a fivela do cinto. E os sapatos.

– Os sapatos também?! – Por favor.

O cinto e os sapatos ocuparam outra bandeja. Ele passou pelo portal, segurando as calças.

Piii.

Ele perdeu a paciência.

– Não. Eu acho que é pessoal. Agora já é implicância.

O funcionário pediu para ele ficar de lado. Outro funcionário, aparentemente mais graduado, viria revistá-lo. Ele protestou:

– Vou perder meu avião.

O protesto também foi ignorado. Veio outro funcionário e pediu para ele estender os braços para ser revistado.

– Se eu estender os dois braços ao mesmo tempo minhas calças caem. Posso estender um de cada vez?

O segundo funcionário estudou a proposta. Não era o procedimento certo. O certo era o revistado estender os dois braços ao mesmo tempo. Ele insistiu:

– Minhas calças vão cair. Eu emagreci muito nos últimos tempos. Ordens do cardiologista.

– Estenda os braços por favor, cavalheiro.

– Primeiro um depois o outro? – Os dois ao mesmo tempo.

– Minhas calças vão cair. Você será responsável pelo vexame. Vai ser um escândalo público. Está entendendo? Eu só de cuecas, aqui, no meio da...do... Vocês querem me expor ao ridículo! Eu vou processar!

Nisso a máquina começou a apitar:

Piii! Piii! Piii! E o homem:

– E cale a boca você também!

VERISSIMO - 04 Sep 2011 




Contraste




Em vez de lembrar o que escrevi sobre as torres do World Trade Center no décimo aniversário da sua destruição, vou repetir o que escrevi na época sobre o pintor Morandi.
O que o italiano Giorgio Morandi, morto em 1964, tem a ver com os dois edifícios do World Trade Center derrubados em 11/9 de 2001? Absolutamente nada. Foi justamente por isso que a primeira coisa que fiz ao chegar a Paris depois de fugir de Nova York e das ruínas ainda fumegantes das torres foi ir ver uma exposição do Morandi.
Eu sabia exatamente o que ia encontrar. Morandi pintou essencialmente a mesma coisa a vida inteira. Conjuntos de garrafas, caixas, vasos e vasilhames que ao mesmo tempo se integravam ao fundo e entre si como formas abstratas e mantinham sua distinção concreta de sólidos. Não foi só porque ainda tinha na retina as imagens das torres em chamas que pensei imediatamente nelas diante daquelas caixas e garrafas longilíneas firmemente postas numa superfície real, com volume e peso, e magicamente postas em outra dimensão, a salvo do tempo, da história, até de interpretação.
Os objetos que Morandi reproduzia nos seus conjuntos eram sempre os mesmos, o que ele estava pintando, na verdade, era a sua permanência, enquanto a vida e o pintor passavam por eles. Não eram os objetos,era a sua existência silenciosa que estava nos quadros de Morandi. Cada pintura era um novo registro daquele mistério, uma coisa existindo, persistindo em existir. O contraste era inescapável com as caixas de ferro evanescentes que eu vira se desmanchando em Nova York, aquelas formas que
se declaravam triunfalmente eternas desaparecendo em minutos.
Não aparecem figuras humanas na obra de Morandi. A vida que existe em seus quadros é toda inferida: a mudança na perspectiva de um conjunto, uma ou outra marca de uso na superfície de um dos seus objetos domésticos, um sombreado denunciando a existência de uma fonte de luz em algum lugar fora do quadro. Nenhum movimento, e tudo se repetindo. O humano só existe na sua obra como contraponto ao que se vê, às coisas reduzidas a elas mesmas e a sua persistência. O humano é tudo na obra de Morandi que não se vê. O próprio pintor interfere o menos possível no seu trabalho e deixa que a obsessão o guie. Ou a única coisa humana na arte do Morandi é a obsessão.
Minha impressão ao olhar seu trabalho era que estava diante do ultimo homem tranquilo do mundo. Na vida parada dos seus quadros havia desprezo pelo drama humano, e eu estava ali atrás daquela tranquilidade. Queria me convencer da transitoriedade da angústia, o sentimento mais humano do momento, e esquecer as mortes e a destruição. Se pudesse passaria o dia e a noite ali, armazenando tranquilidade para enfrentar o que estava por vir – mas o museu fechava às cinco e meia. De qualquer maneira foi bom saber que os objetos do Morandi continuariam lá, independentemente do nosso olhar, da nossa passagem e da nossa angústia, sólidos, indestrutíveis, significando apenas sua propria permanência. E silêncio.


- LUIZ FERNANDO VERISSIMO. 11 Sep 2011 

Direitos humanos e ação diplomática




Devemos evitar posturas que venham a contribuir para o estabelecimento de um elo automático entre a coerção e a promoção da democracia

Comprometido no plano nacional com os direitos humanos, com a democracia, com o progresso econômico e social, o Brasil incorpora plenamente esses valores a sua ação externa.
Diante dos eventos da Primavera Árabe, expressamos nossa solidariedade à mobilização social por maior liberdade de expressão e avanços políticos e institucionais em países submetidos a regimes autoritários. Tanto no Conselho de Segurança quanto no Conselho de Direitos Humanos da ONU, condenamos as violações cometidas pelos regimes líbio e sírio.
Ao velar para que o compromisso com os valores que nos definem como sociedade se traduza em atuação diplomática, o Brasil trabalha sempre pelo fortalecimento do multilateralismo e, em particular, das Nações Unidas.
A ONU constitui o foro privilegiado para a tomada de decisões de alcance global, sobretudo aquelas relativas à paz e à segurança internacionais e a ações coercitivas, que englobam sanções e uso da força.
Ações militares sem a legitimação do Conselho de Segurança da ONU, além de trazerem descrédito para os instrumentos internacionais subscritos pela comunidade internacional como um todo, tendem a se transformar em fator de instabilidade, violência e violações de direitos humanos em grande escala, como demonstrou a intervenção militar no Iraque.
Não nos esqueçamos de que o primeiro direito humano é o direito à vida. A primeira obrigação da comunidade internacional ao deparar com uma situação de crise é a de evitar o agravamento de tensões.
Cada vez que a violência se dissemina, as primeiras vítimas são os segmentos mais vulneráveis: as crianças, as mulheres, os idosos, os desvalidos.
Além de defendermos a legalidade das nossas ações coercitivas perante a Carta da ONU e o direito internacional, devemos sempre aplicar medidas adequadas, com os olhos voltados para os resultados almejados: a promoção da democracia, dos direitos humanos, a proteção da população civil, a criação de condições de estabilidade que geram oportunidade de progresso econômico e social.
A ordem internacional não se fortalece com interpretações livres de mandatos do Conselho de Segurança. E, sempre que a ordem se enfraquece, quem mais padece são os mais fracos. Como bem assinalou o professor Richard Falk, da Universidade Princeton, em entrevista à Folha, houve, no caso da Líbia, uma lacuna entre o que foi autorizado pelo Conselho de Segurança e a ação da Otan.
A relação entre a promoção da paz e segurança internacionais e a proteção de direitos individuais evoluiu de forma significativa ao longo das últimas décadas, a partir da constituição das Nações Unidas, em 1945. Não se pode afirmar que essa evolução, positiva em seu conjunto, seja obra de um grupo de países em particular.
Ela é fruto de um embate de ideias em que os militarmente mais poderosos não estiveram necessariamente na vanguarda dos clamores por justiça e equidade. Lembro que os primeiros esboços da Carta da ONU incluíam referências escassas aos direitos humanos por razões que hoje podem parecer surpreendentes.
Robert C. Hildebrand, que relata as negociações do documento em sua obra "Dumbarton Oaks", credita essa circunstância ao fato de que os Estados Unidos temiam questionamentos à segregação racial ainda vigente no país e à preocupação do Reino Unido de que sua soberania sobre um vasto império colonial viesse a ser posta em xeque -como efetivamente ocorreu.
A luta contra o apartheid proporciona um exemplo eloquente de ação conjunta do mundo em desenvolvimento contra práticas que atentam contra a dignidade humana. Quando o tema foi levado ao Conselho de Segurança da ONU, as objeções à aplicação de sanções contra o regime minoritário sul-africano partiram de membros permanentes ocidentais.
Desde a adoção da Carta da ONU, a relação entre promover direitos humanos e assegurar a paz internacional passou por várias etapas. Sofreu paralisia em função da rivalidade ideológica da Guerra Fria; beneficiou-se do breve momento de consenso internacional do imediato pós-Guerra Fria e da ação internacional pela reversão da invasão iraquiana do Kuait.
Em meados da década de 90 surgiram vozes que, motivadas pelo justo objetivo de impedir que a inação da comunidade internacional permitisse episódios sangrentos como os da Bósnia ou do genocídio em Ruanda, forjaram o conceito de "responsabilidade de proteger".
Embora a responsabilidade coletiva não precise se expressar por meio de ações coercitivas para ser eficaz, surgiram vozes particularmente intervencionistas e militaristas no chamado "Ocidente" que continuam gerando controvérsia e polêmica.
A Carta da ONU, como se sabe, prevê a possibilidade do recurso à ação coercitiva, com base em procedimentos que incluem o poder de veto dos atuais cinco membros permanentes no Conselho de Segurança -órgão dotado de competência primordial e intransferível pela manutenção da paz e da segurança internacionais.
O acolhimento da responsabilidade de proteger na normativa das Nações Unidas teria de passar, dessa maneira, pela caracterização de que, em determinada situação específica, violações de direitos humanos implicam ameaça à paz e à segurança.
Para o Brasil, o fundamental é que, ao exercer a responsabilidade de proteger pela via militar, a comunidade internacional, além de contar com o correspondente mandato multilateral, observe outro preceito: o da responsabilidade ao proteger. O uso da força só pode ser contemplado como último recurso.
Queimar etapas e precipitar o recurso à coerção atenta contra a "rationale" do direito internacional e da Carta da ONU. Se nossos objetivos maiores incluem a decidida defesa dos direitos humanos em sua universalidade e indivisibilidade, como consagrado na Conferência de Viena de 1993, a atuação brasileira deve ser definida caso a caso, em análise rigorosa das circunstâncias e dos meios mais efetivos para tratar cada situação específica.
Não há espaço, no estabelecimento de políticas consistentes na área dos direitos humanos, para generalizações ingênuas nem para facilidades retóricas.
Devemos evitar, muito especialmente, posturas que venham a contribuir -ainda que indireta e inadvertidamente- para o estabelecimento de elo automático entre a coerção e a promoção da democracia e dos direitos humanos. Não podemos correr o risco de regredir a um estado em que a força militar se transforme no árbitro da justiça e da promoção da paz.


ANTONIO DE AGUIAR PATRIOTA . foi ministro das Relações Exteriores. Governo Dilma Rousseff


01 Sep 2011 

Raça e Obama






O presidente Obama recebeu, recentemente, críticas muito severas do professor Cornel West, da Universidade Princeton. Professor de religião e estudos afro-americanos, ele apoiou Obama em sua campanha presidencial e discursou em defesa de sua candidatura no Apollo Theater, no Harlem, em Nova York.
Mas, em abril, alegou que Obama se havia transformado em "um mascote negro dos oligarcas de Wall Street e um títere negro dos plutocratas corporativos, e agora se tornou comandante da máquina de matança norte-americana, e se orgulha disso".
West, conhecido filósofo, ativista e palestrante negro, decerto não representa a opinião da maioria dos negros norte-americanos. Melissa Harris-Perry, sua colega em Princeton, diz que West está desconsiderando a indicação, por Obama, de duas mulheres para a Corte Suprema, e que o apoio dos negros ao presidente continua esmagador.
Mas West é uma voz significativa entre os negros. Ele diz que Obama, o primeiro presidente negro do país, tem "medo dos negros livres" e "predileção por brancos e judeus".
Os comentários de West sobre Obama lembram sua famosa disputa com o ex-reitor da Universidade Harvard, Lawrence Summers. West acusou Summers de ser o "Ariel Sharon do ensino superior". Summers aparentemente convocou o professor para uma conversa pessoal na qual o criticou por sua atividade acadêmica insuficiente como professor de Harvard.
O professor West, que não está acostumado a esse tipo de admoestação, subsequentemente deixou Harvard e voltou a Princeton. Suas críticas públicas a Summers, no entanto, foram demais para muitos de seus novos colegas em Princeton, que posteriormente reprovaram as "insinuações e implicações" de West.
Mas ele está certo sobre uma coisa. A eleição de Obama não tornou a vida mais fácil para a maioria dos negros nos EUA. Os de classe média continuam singularmente otimistas quanto ao futuro, mas 40% das crianças negras do país vivem na pobreza.
Ainda que os negros representem 12,9% da população, só 1,9% da cobertura noticiosa os têm por foco, e a maior parte dessa atenção se dirigiu ao confronto entre Henry Louis Gates, diretor do departamento de estudos afro-americanos de Harvard e amigo de Obama, e o sargento Crowley, da polícia de Cambridge.
Como diz Richard Carter no "Amsterdam News", o maior jornal negro de Nova York, "o sargento Crowley desconfiou do professor Gates por motivos raciais? Provavelmente. O professor Gates se comportou mal? Certamente. O presidente Obama reagiu de maneira desastrada ao incidente? Definitivamente. Argh!"

KENNETH MAXWELL -  FSP . 01 Sep 2011 



Tradução de PAULO MIGLIACCI


último discurso (11/9/1973)




"Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta.

Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos. A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição."

Salvador Allende, ex-presidente do Chile. O último discurso no dia do golpe de Estado (11/9/1973) que implantou a sanguinária ditadura militar comandada pelo general Pinochet.


A cidade nua



11 DE SETEMBRO

A cidade nua

As 8 milhões de histórias de NY
RESUMO O autor de "Bombaim: Cidade Máxima", que dividiu seus anos de juventude entre a metrópole indiana e Nova York, reflete sobre sua experiência do multiculturalismo na maior cidade americana, muito diferente do modelo das metrópoles europeias. Leia a íntegra do ensaio em folha.com/ilustrissima.



Em 1948, o escritor E. B. White formulou uma definição dos três tipos de nova-iorquinos que ficaria famosa: o nativo, o migrante diário (que vem todos os dias para trabalhar ou estudar) e a pessoa de outro lugar que vem em busca de alguma coisa.
Hoje existem três tipos diferentes de nova-iorquinos: as pessoas que agem como se tivessem nascido aqui, que se sentem "donas" da cidade, mesmo que tenham se mudado para cá depois de concluírem a faculdade; as pessoas que estão aqui e gostariam de estar em outro lugar, tão tóxica a cidade já se tornou para elas; e os nova-iorquinos virtuais do mundo inteiro, que vivem em cidades que vão de Sarajevo a Santiago e gostariam de morar em Nova York.
Esses são os três estados de espírito nova-iorquinos, e o que eles têm em comum é o anseio e um elemento de autoilusão. Esta é uma cidade de sonhadores e insones.
De minha janela em Manhattan, vejo o buraco no horizonte da cidade onde antes ficava o World Trade Center. Vivo na mira de todos os malucos e terroristas do mundo. Os terroristas do 11 de Setembro sabiam o que iam fazer quando dois dos três aviões que sequestraram rumaram para Nova York. Quando os malucos querem registrar suas objeções à
América, ao cristianismo, ao capitalismo, à dance music, a qualquer coisa, sempre vêm para Nova York. Vivemos nesta cidade feito uma língua entre os dentes.

DIVERSIDADE Mas isso não impede as pessoas de quererem se mudar para cá, gente de todo o planeta: dois em cada três nova-iorquinos são imigrantes ou filhos de imigrantes. Assim como eu era quando, aos 14 anos, me mudei de Bombaim para Jackson Heights, no Queens, o distrito mais etnicamente diversificado dos EUA.
Meus vizinhos eram indianos e paquistaneses, judeus e muçulmanos, haitianos e dominicanos -vinham se matando mutuamente até pegar o avião. Aqui, porém, essas pessoas vivem lado a lado com seus inimigos seculares, e os filhos de uns namoram os de outros.
Podem até continuar sem se gostar, mas não se atacam, nem se vandalizam; concordam em tolerar os vizinhos. Já faz anos que não acontece um conflito étnico importante na cidade.
Como nenhuma etnia domina, nenhuma comunidade isolada é vista como culpada quando há problemas ou quando a economia vai para o brejo.
Volta e meia explicam-se os problemas das cidades europeias citando o desemprego ou a desigualdade. Mas Nova York é a cidade mais desigual dos EUA. Em 2007, segundo estudo do Instituto de Política Fiscal, 1% dos nova-iorquinos ganharam 45% da renda da cidade (em 1980, esse grupo recebeu 12% da renda). Contas feitas, dá uma média de US$ 3,7 milhões por ano para as 34.500 famílias mais ricas da cidade. A renda diária média desse grupo é maior que a renda anual média dos 10% mais pobres.
Por que, então, as pessoas ainda vêm tentar a sorte neste lugar inóspito? A população deve crescer em mais 1 milhão nas duas próximas décadas, sobretudo devido aos imigrantes.
Seriam as oportunidades ou uma ilusão o que os atrai?

HIERARQUIA Eles vêm porque todo recém-chegado que desembarca no aeroporto JFK pode encontrar um lugar na hierarquia local. Num restaurante, o chef pode ser francês; o pessoal que lava os pratos, mexicano; a hostess, russa; o taxista, paquistanês; o dono do táxi, britânico. Não são todos iguais. Não ganham a mesma coisa. Mas trabalham juntos para servir comida a pessoas com fome. É feito o sistema de castas dos hindus: não é equitativo, mas cada um tem seu lugar.
O que Nova York demonstra, sua lição às outras cidades ricas como Amsterdã, Paris ou Tóquio, é que a imigração funciona. A cidade pode usar os imigrantes, até mesmo os ilegais.
"Embora tenham infringido a lei ao atravessar nossas fronteiras ilegalmente", observou o prefeito Michael Bloomberg, "a economia da nossa cidade seria apenas uma sombra do que é se eles não tivessem feito isso, e entraria em colapso se eles fossem deportados."
Cada imigrante é um épico em formação. É atraído pelo mito fundador da cidade: tenta escapar da história pessoal e política. Para ele, Nova York é a cidade da segunda chance.
Nova York é a maior, a mais rica e a mais acelerada cidade dos EUA. Ela tem mais gente que Los Angeles, Chicago e Filadélfia -somadas. Há 8 milhões de histórias na cidade nua, e em pouco tempo serão 9 milhões (a área metropolitana tem 22 milhões de habitantes -ou seja, um em cada 14 americanos). Essas pessoas fazem dos 831 km2 de Nova York o lugar mais densamente povoado da América do Norte. Como observou Le Corbusier, "uma parte considerável de Nova York nada mais é que uma cidade provisória, uma cidade que será substituída por outra cidade".

EXPERIMENTO Às vezes Nova York inteira dá a impressão de ser um vasto experimento social, em que exilados de todo o planeta se reúnem para sentar-se a uma mesa comprida e falar sobre as coisas que importam: amor, morte e dinheiro. Hoje os nova-iorquinos vêm de mais de 180 países.
O Queens é o condado mais diversificado dos EUA. Mais da metade dos moradores do Queens e do Bronx não fala inglês em casa. É uma cidade que volta e meia difere dos EUA; enquanto 40% de Nova York nasceu fora dos EUA, esse é o caso de apenas 12% do país. Nova York é uma ilha num país em que, até recentemente, 80% da população nacional não tinha passaporte.
A população imigrante da cidade cresceu 38% entre 1990 e 2000. Dos cinco distritos de Nova York, o Queens é o mais estrangeiro, com 46% de seus habitantes nascidos no exterior, e bairros como Elmhurst têm 70% nascidos fora dos EUA. Apenas 16% dos moradores da verdejante Staten Island nasceram no exterior, embora esse distrito tenha grandes comunidades de italianos (mais de metade da população é de origem italiana), cingaleses e nigerianos.
A cidade é muito mais diversa hoje do que era no século passado: 31% branca, 20% negra, 14% asiática e 35% hispânica. O maior grupo imigrante é formado pelos 532 mil dominicanos da cidade, mas mais moradores têm origem italiana que qualquer outra origem. O grupo em crescimento mais rápido é formado pelos mexicanos, cujo número cresceu em mais de um terço nos últimos cinco anos.
Nos últimos anos, Nova York ganhou mais moradores que qualquer outra cidade americana. Com 800 mil novos nova-iorquinos, já passou as cidades do Cinturão do Sol, hoje em franco crescimento. Depois do 11 de Setembro, porém, muita gente pensou que Nova York ficaria mutilada; as empresas financeiras do centro falaram em deixar a cidade. A população de Manhattan diminuiu. Apartamentos em Battery Park foram postos à venda por uma pechincha.

RECUPERAÇÃO Mas a cidade se recuperou, e com força. Nova York não virou Nova Orleans. Não é uma cidade segregada. Os imigrantes salvaram Nova York e a mantiveram em ação. As escolas teriam se desfeito, não fosse pela energia e pelo investimento pessoal de pais imigrantes.
Nova York teria sofrido um declínio populacional líquido, não fosse pelos imigrantes. Os imigrantes, ricos e pobres, não se deixaram desanimar pelo 11 de Setembro; muitos já viram coisa muito pior em suas terras de origem. Enquanto um número considerável de pessoas da classe média deixou a cidade após o desastre, os imigrantes permaneceram.
Agora Nova York vai receber 1 milhão de novos habitantes nos próximos anos, a imensa maioria imigrantes ou filhos de imigrantes. Os imigrantes também conseguem superar a crise habitacional sem se abaterem. Como observa Joe Salvo, chefe da divisão de planejamento demográfico de Nova York, "os imigrantes não se importam com a densidade. Eles simplesmente dobram a ocupação dos lugares".
Assim como Bombaim é um símbolo de certo tipo de megacidade no mundo em desenvolvimento -como São Paulo, Lagos e Jacarta-, Nova York é a joia na coroa de outro grupo de cidades no planeta: Londres, Paris, Sydney, Toronto. Todas seguem seus próprios métodos para lidar com porcentagens de estrangeiros que não têm precedentes históricos.
Paris achou que tinha a questão resolvida -bastava empurrar os pobres e os estrangeiros para a periferia-, até explodir em 2005, quando bandos de jovens imigrantes atravessaram o Boulevard Périphérique e atearam fogo a carros nas margens do Sena. O experimento com o multiculturalismo empreendido em Paris, Amsterdã e Berlim vem sofrendo problemas porque os imigrantes nessas cidades nunca chegam a se sentir realmente franceses, holandeses ou alemães. Dá para se sentir americano ao desembarcar do avião.
Nos últimos dez anos, Nova York tem estado em primeiro lugar no país como a cidade na qual as pessoas mais gostariam de morar ou da qual mais gostariam de estar perto. Há alguma coisa em Nova York que está funcionando.
As pessoas vêm para cá, vindas de partes do mundo onde estavam a se matar, mas em Nova York elas vivem ao lado de seus antigos inimigos, e os seus filhos namoram as filhas deles. Como acontece esse milagre do dia a dia?
Se entendermos como Nova York funciona, poderemos enxergar como poderia funcionar em outras cidades, como as cidades-campos de batalha da Europa.
Quando os malucos querem registrar suas objeções à América, ao cristianismo, ao capitalismo, à dance music, a qualquer coisa, sempre vêm para Nova York
Nova York dá a impressão de ser um vasto experimento social, onde exilados de todo o planeta se reúnem para falar sobre as coisas que importam: amor, morte e dinheiro
Os imigrantes, ricos e pobres, não se deixaram desanimar pelo 11 de Setembro; muitos já viram coisa muito pior em suas terras de origem


SUKETU MEHTA

TRADUÇÃO CLARA ALLAIN


Posted: 11 Sep 2011 

Cidades opressivas




SÃO PAULO - Depressão, ansiedade, medo de sair de casa, hipocondria, paranoia, pânico. Multiplicam-se os nomes de sintomas mentais associados ao estilo de vida nas metrópoles, embora essa seja uma discussão antiga.
Na passagem do século 19 para o 20, o debate urbanístico passou a incorporar o tema. Era como se as decisões de construção e reforma das cidades pudessem influenciar a saúde mental dos habitantes.
O medo de lugares públicos, nessa crítica, era vinculado à desfiguração dos espaços tradicionais, em favor de uma arquitetura homogeneizadora, de largas avenidas, praças a perder de vista, edifícios monumentais e arranha-céus. Um programa que ficou caricato em Brasília e nas nações socialistas.
Na maioria das grandes cidades, contudo, não há predomínio tão claro de um ou outro modo de construir e planejar. Vários deles convivem no mesmo espaço, como heranças justapostas de circunstâncias históricas diversas.
"Medianeras", filme do argentino Gustavo Taretto que entrou em cartaz neste mês, nos lembra como tal mescla de estilos -temperada com desleixo urbanístico, corrupção e escassez de recursos- atinge paroxismos em metrópoles periféricas. Buenos Aires foi a retratada, mas poderia ter sido São Paulo ou a Cidade do México.
A cidade confusa, atulhada de construções e feia, argumenta o roteiro, empurra habitantes para a solidão e os distúrbios psicológicos.
As novíssimas tecnologias das comunicações, segundo o filme, exacerbaria os sintomas mentais e a recusa dos espaços públicos. Do trabalho aos relacionamentos, das compras ao entretenimento, quase tudo, afinal, se pode fazer em casa.
Como a crítica às reformas urbanas no passado, lamentos antitecnológicos atuais recrutam fraca evidência científica e muita ideologia regressista. A experiência de viver em São Paulo indica, ao contrário, que nunca se saiu tanto às ruas.


VINICIUS MOTA -  12 Sep 2011 

Cendrars




Constitui um enigma a obra do poeta e romancista suíço Blaise Cendrars (Frédéric-Louis Sauser), nascido em 1887 e morto em 1961. Impossível submetê-lo a uma escola ou, sequer, enquadrá-lo num dado momento cultural. Sua literatura é múltipla, “difícil” para o leitor descostumado a seu imaginário – apenas isso já é o suficiente para uma alentada exegese.

Blaise Cendrars diz muito ao Brasil. Ele entendeu nossa cordialidade. Apaixonou-se pelo país em decorrência das viagens que fez ao nosso país na década de 20 do século passado. Aqui não foi turista, mas dedicado observador; favoreceram-lhe os passos os amigos modernistas que, inclusive, arcaram com suas despesas. O investimento deu certo, porque Cendrars retribui-o em páginas candentes sobre o Brasil. Influenciou e foi influenciado pela geração da Semana de Arte Moderna.

A razão desta coluna é seu livro O Loteamento do Céu, publicado originalmente em 1949 e saído aqui pela editora Companhia das Letras, em bela tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti. Formalmente pode ser considerada uma obra de memórias; sucede, porém, que se torna necessária certa dose de abertura intelectual para costurar seus retalhos.

A ficha catalográfica deixa uma imprecisão a ser decifrada pelo leitor, pois vai rotulada de biografia e de romance. E é justamente esse caráter epiceno que lhe dá a maior amplidão conceitual possível – e seu encanto.

O livro divide-se em três narrativas, cada qual tendo seu foco específico – mas isso não impede de haver marchas e contramarchas, elipses vertiginosas e perplexas anacronias, e conta com uma personagem, o próprio Cendrars, que narra sua biografia como se fosse uma personagem.

Haveria muito a dizer sobre cada qual dessas narrativas, mas havendo a necessidade da escolha, a segunda, A Torre Eiffel Sideral, merece destaque. Cendrars a dedica a Tarsila do Amaral. A cena de substância é na fazenda Morro Azul, apresentada a ele por Oswald de Andrade e Paulo Prado, situada a 250 km de São Paulo.

Seu originalíssimo proprietário vive a desilusão de um amor impossível por Sarah Bernhardt. Nem a descoberta de uma nova constelação, a da Torre Eiffel, o consola. Com esse mote comovente Cendrars erige o pobre homem à condição de metonímia da alma brasileira.

Cabe referir à tradução, exata, minuciosa e conotativa, à altura do texto original. É um encanto lê-la. Vale por um tratado de bem traduzir, e é uma estrada real para conhecer Cendrars.

 LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL -12 Sep 2011 


Os partidos como parasitas


 - RENATO JANINE RIBEIRO



Uma convicção difundida, entre comentadores da política e cientistas políticos, é que partidos fortes são essenciais para a democracia. Já filósofos e estudiosos da comunicação não se entusiasmam tanto pelos partidos, mas reconhecem sua utilidade. Ora, um mantra da discussão política no Brasil é que os partidos são fracos, representam pouco e tendem a expressar mais os interesses dos políticos que os do eleitorado. Não espanta que nossa legislação seja uma mãe para os partidos. Deixou de regulamentar seu funcionamento interno, o que seria bom, não fosse o fato, revelado pelo Valor, de que vários deles, mesmo importantes, funcionam na base de comissões provisórias nomeadas pela direção nacional, sem democracia interna. Houve momentos, na ditadura, em que a lei fixou um máximo de partidos (dois), determinou que tivessem o "P" de partido em seu nome e até mandou suas convenções se realizarem em Brasília. Bobagem, que passou. Mas continua havendo vantagens para os partidos que, paradoxalmente, talvez expliquem por que são fracos. Não precisam ir à luta, conquistar o apoio do povo. Isso os fragiliza, isso nos fragiliza.

Por que, no Brasil, só partidos podem lançar candidatos? Não é assim na França, Estados Unidos ou Grã Bretanha, três democracias exemplares, fruto de grandes revoluções democráticas. Lá, quase todos os eleitos em nível nacional pertencem aos principais partidos, mas isso não é obrigatório. Os partidos se fortalecem sem serem donos da atividade eleitoral. São fortes porque lutam por isso, não porque a lei lhes dê o oligopólio da política. Já no Brasil só pode concorrer quem se filiou a um partido doze meses antes da eleição - o que exclui do direito de se eleger 95% ou mais da população.

Essa oligopolização da política traz um adicional. Você se filia sem a certeza de que será candidato. Entre você e o voto popular, está a cúpula partidária. Itamar Franco se inscreveu no PMDB, em 1998, esperando concorrer à sucessão de FHC. Uma vez filiado, o PMDB aproveitou o ilustre refém para negociar com o governo tucano e liquidou sua candidatura. Mas é legítimo uma pessoa, que pode expressar a vontade popular, ser impedida de ir às urnas porque o partido lhe negou legenda?

Imaginemos que o PSDB se divida entre Serra e Aécio, em 2014. Se um deles notar que não tem chances no partido, sua única saída será mudar de legenda antes de outubro de 2013. Ora, dificilmente um deles saberia disso a tempo. Portanto, digamos que disputem a convenção. Quem perdê-la não poderá apelar ao povo. Na França, Estados Unidos ou Argentina, poderia - e poderia ganhar a eleição. Agora, à pergunta: isso enfraquece o partido? a resposta adequada é: menos que o sistema atual. Hoje, o perdedor na convenção dificilmente dará apoio entusiástico ao vitorioso. Muitos serristas acusaram Aécio de corpo mole na eleição de 2010. Mas, se ambos puderem ir ao povo, o que teremos? Certamente, outras lideranças partidárias - a começar por FHC - tratarão de curar as feridas e negociar um acordo. Para isso, não precisa haver uma lei barrando candidaturas. É melhor a lei ser aberta, e os conflitos se resolverem na prática. Mais maduro.

Em termos municipais, nem se fala. Com raras exceções, prefeitos se elegem em torno de temas locais - no mundo todo. A maior exceção costuma estar à esquerda, mais afeita a propostas sociais, que interferem na vida cotidiana. Mas, até porque em vários municípios as coligações se mostram monstruosas, aliando partidos opostos no plano federal, por que não admitir listas fora dos partidos? É um absurdo o prefeito de S. Paulo precisar criar um partido para continuar na política, com todas as consequências que vimos nas filiações ao PSD.

Em 2010, os tribunais eleitorais difundiram spots publicitários sobre a importância do voto. A intenção era ótima. A ilusão, total. Diziam que o Poder Executivo reduz as desigualdades. Ora, esse é um belo ideal, mas só isso. Mostraram um eleitor sabatinando os candidatos, como se disputassem um emprego. Na teoria, é assim. Na prática, os candidatos dos grandes partidos têm muito mais poder que os cidadãos. No fundo, os spots indicaram um problema de nossa política: que os tribunais eleitorais acabam assumindo um papel que deveria ser dos partidos.

Tomemos os Estados Unidos, onde o voto não é obrigatório - o que leva a um grave problema, que é a abstenção maior entre negros e pobres, que por isso recebem menor atenção dos políticos, o que aumenta o alheamento político de negros e pobres, levando os políticos a lhes darem menos... Mas, lá, se um partido quiser conquistar o voto de negros e pobres, terá de convencê-los de que é importante votar. Ou seja, em vez de um spot abstrato, no qual a Justiça cega e imparcial fala do voto em geral, teríamos spots concretos, em que um partido diz: se quiser combater a corrupção, vote em nós; se quiser eliminar a miséria, vote no partido tal; e assim por diante.

Isso acabaria com um aspecto que a eleição tem hoje: a reserva de mercado. Por lei, os partidos têm o monopólio das candidaturas. Por lei, os cidadãos têm de votar. Daí sucede que, no dia da eleição, muitos votantes não saibam ainda em quem votar e peçam indicações a amigos. Eu o fiz, em 2010, para deputado estadual. Ora, se você não está convencido de um candidato, por que votar nele? Por que votar? Os partidos, oligopolistas da política, têm apenas de disputar em quem você votará. Não precisam militar pela causa da política. Não precisam convencer ninguém da importância do voto. Funcionam como parasitas, não como atores da política. Isso tem de mudar.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

 Posted: 12 Sep 2011 

La signatura de la esfinge



I

Apenas concluí mis abluciones matinales, escribí a Elena la carta que llevó un propio. Me estremecía de comprensión y de deseo de comunicarme con la extraña y bella mujer, al escribirla. La carta decía:



Guatemala, 22 de enero de 19…

Mi temerosa amiga: Ya sé cuál es su signatura, definitivamente. Ya conozco la clave de su trágica vida, que lo explica todo. Su hieroglífico es el de leona. Corro a visitarla en cuanto pueda.

J. M. Cendal



Breves instantes después estaba con Elena. Encontré a mi amiga en su lecho, con su hermoso cuerpo de leona cubierto por una bata; y su leonina cabeza, de refulgente cabellera enmarañada, abatida contra las sábanas. Sus magníficos ojos fosforecían en la penumbra de la alcoba. Aparecía llorosa y enferma. Le expliqué mi carta.

—Dulce amiga —dije—, me preparaba a buscar en el agua fría alivio para mi cansancio cuando tuve la clara visión de su signatura, que explica su vida. Me turbé tanto que no podría decirle lo que hice inmediatamente después.

—Ante todo: ¿qué es una signatura?

—Se llama signatura a la primera división en cuatro grandes grupos de la raza humana. El tipo de la primera signatura es el buey: las gentes instintivas y en las que predomina el aspecto pasivo de la naturaleza; el tipo de la segunda signatura es el león: las gentes violentas, de presa, en las que predomina la pasión; el tipo de la tercera es el águila: las gentes intelectuales, artistas, en las que predomina la mente; el cuarto y último es el hombre: las gentes superiores, en las que predomina la voluntad. Usted es un puro y hermoso tipo de leona. No le doy más detalles porque sería largo de expresarse.

—Acepto.

Y vi los hermosos ojos de mi amiga brillar de comprensión y de majestad.

—Y ahora, ¿quiere que estudiemos cómo llegué a esta maravillosa visión? Se puede dividir en cinco partes el camino del conocimiento. Primera parte: la que empieza con la intuición inicial de cuando me di clara cuenta, en el Teatro Palace, y viendo ambos correr una cinta, de su fuerte naturaleza magnética, que al aproximarme a usted me llenaba de vitalidad y de energía. Segunda: cuando, jugando ajedrez, usted me tomó una pieza con movimiento tan rápido, tan felino, que parecía el acto de una fiera al caer sobre su presa. Tercera: cuando la concebí como una esfinge. Cuarta: cuando me enseñó su cuadro de El león. Quinta y definitiva —la luz deslumbradora—: cuando llorosa y desencajada por el dolor, echada sobre la alfombra de su cuarto, tuve la clara visión de su trágica naturaleza de leona. Hay más invisibles jalones en este encantado sendero de sombras, en busca de lo desconocido, algunos que ya señalé, y otros que irán apareciendo poco a poco; pero no tienen la misma importancia que los enumerados.

“Y para manifestárselos ahora a usted, prescindiré del orden cronológico, y pasaré, por de pronto, al de su importancia, en el que solo quedan dos: cuando usted se me apareció como una esfinge; y cuando, toda llorosa y desencajada por el dolor, apareció clara su verdadera naturaleza de leona.

“Si usted hubiera seguido subordinada a su esposo; si no hubiera obtenido, con el divorcio, la libertad de acción, probablemente yo nunca habría podido llegar al conocimiento de su naturaleza leonina; pero, emancipada, usted pudo reconstruir su cueva florestal. Pudo arrendar una hermosa casa, y alhajarla. Usted misma me afirmó que prefería comer poco y restar algo a necesidades apremiantes con tal de tener una cómoda vivienda, que diera el apropiado marco a su espíritu. Naturalmente, de la casa elegida formaba parte una amplia sala. Adosada a una de las paredes, y en su medio, usted construyó una extensa especie de canapé, tan bajo que apenas se alzaba diez centímetros del suelo, y lo cubrió de lujosas telas y de almohadas y cojines singularmente bellos y suaves. Almohadones que eran una verdadera obra de arte, de extraños y turbadores matices. Sobre esta alfombra, usted tomó luego el hábito de echarse, para leer y para descansar. Este amplio lecho, que supone obtener, fue obra instintiva de su subconsciente. Usted buscaba poder adoptar su posición habitual de descanso, la única en que puede descansar: el lecho de la gruta en que reposa la leona.

“Usted se acordará, sin embargo, de que no fue en este bajo lecho donde yo tuve la primera y vaga noción de su signatura, sino en un suntuoso sofá, mucho más alto. Me encontraba descansando en él, y cuando usted se preparaba a leer una obra célebre, a la que no puedo dar nombre, con su magnífica y cálida voz, que amo tanto, yo le supliqué que tomara asiento a mi lado, para entrar en el radio que abarcaba su aura y poder recibir su tibia onda de vida animal; pero usted se negó y se echó a mis pies en la alfombra. Así leyó. Y entonces yo tuve la conturbadora visión de que usted era una esfinge, visión que me llenó de inquietud y me desorientó, porque no existe propiamente signatura de esfinge. Es un símbolo demasiado alto para el hombre.”

—¿Y entonces?

—Es que lo que yo vi entonces claramente fue su cuerpo, definitivamente animal, echado en el suelo; su cuerpo de gran digitígrado; su hermoso y robusto cuerpo de fiera; y era tan clara para mí aquella forma bestial, que la acepté sin vacilar; y dije: “poderoso y bello cuerpo animal”; pero sobre él —usted estaba echada— emergía —hacía usted emerger— una hermosa cabeza femenina, clásica, que parecía una bella medalla griega o romana —usted es muy bella y tiene un bellísimo rostro femenil—. La gran nariz griega, tan recta y noble; la ancha frente; el mentón puro; todo aquel bello rostro de mujer se alzaba sobre la poderosa forma de bruto tendida a mis pies. La conturbadora percepción no pudo ser evadida; y la dije: “Usted me desconcierta y me inquieta, porque se parece demasiado a la esfinge.” ¿Comprende usted el proceso? Un rostro de mujer, amplio y definido, sobre un poderoso cuerpo de león, echado. ¿Qué otra cosa es la esfinge? Recuerde: la esfinge tiene rostro y pechos de mujer, y cuerpo y patas de león. Y aquí tengo que contarle, por vía de digresión, algo extraño también: No sé por qué, pero tengo en la mente fijo, con gran frecuencia, el rostro femenino de la esfinge. ¿Entiende usted? Y esta visión frecuente me hizo posible identificarla a usted con rapidez. Yo veía el cuerpo del león y la cabeza de la mujer y balbuceé: “esfinge”. Solo que mi percepción del rostro de la mujer fue clara, la del cuerpo del león no se precisó lo bastante como para permitirme afirmar: cuerpo de león. No obstante, la sensación indefinida bastó a mi pobre espíritu de dios encadenado para murmurar: esfinge.

“Después pasaron días. Yo seguía en aquella misteriosa, aquella aterradora esclavitud de usted. Yo la buscaba como la aguja imantada busca el Norte —no se ría: esto no es, aquí, un lugar común—; yo me volvía hacia usted como el heliotropo se vuelve hacia la luz. Yo la hubiera buscado aunque ir hacia usted fuera ir al encuentro de una inenarrable tortura. Usted era para mí algo más precioso que la misma vida; mi amor más grande; sangre de mi sangre; médula de mis huesos. Yo la buscaba, digo, todas las noches hasta que un día me encontré tan cansado de usted, tan fatigado de usted, que decidí no ir a buscarla. Sabía que verla era exponerme a morir de cansancio. El espíritu cansa, el deus fatiga. ‘Siento la fatiga del deus que me hostiga’ —dijo el poeta—. Entonces compuse aquellos versos que más tarde le leeré de nuevo y que empiezan:

La padecí como una calentura
como se padece una obsesión.
Si prosigo sufriendo su presencia
hubiera muerto yo.

“¿Se acuerda? Estaba muy cansado, repito, aquella noche, y decidí descansar de usted y no venir a verla; pero en el lecho me seguía fatigando mi pensamiento; y necesité huir también de mí mismo. ¿Cómo? ¿Dormir? No podía. ‘Cuando está uno tan cansado, que ya no puede descansar’… ¿Buscar los paraísos artificiales? Arrojé al mar la llave que abre su puerta. ¿Qué hacer? Pensé que un buen libro es también un estupefaciente: un nepente, como diría Rubén; y recordé que usted me había repetidas veces ofrecido y entregado Ella, de Rider Haggard; y que yo siempre lo dejé olvidado en su sala, porque usted me llenaba de tal modo que no tenía tiempo para leer. Entonces decidí pasar solo por un momento a su casa con dos objetos: el referido de pedirle Ella, de Rider Haggard; y el de avisarle que aquella noche faltaría a la cita.

“Pero no contaba con el huésped desconocido y misterioso, con el demonio interior que a veces me posee. Apenas entré a su vivienda y le hablé, fui de nuevo víctima de mi embrujo, de su sortílega presencia, y ya no pude salir. Usted me fascina. Como de costumbre, sus sencillas palabras: ‘No se vaya’, me encadenaron a usted.

“Estaba tan cansado, que me eché en el lecho, a su lado; en el lecho donde usted lloraba, presa de un gran dolor, convulsionando su magnífico cuerpo de leona, mientras un trágico signo maculaba su rostro. ¿Se acuerda? Y entonces, al fin —porque el débil espíritu del hombre da traspiés—, la vi como una hermosa leona echada. Si a pesar de mi cansancio de muerte no llego aquella noche a su casa —conducido por el espíritu que me llevaba de la mano—, tal vez nunca habría sabido su terrible hieroglífico. Pero el caso es que llegué. Y la vi. El dolor desencajaba su rostro. La fuerte mano del dolor había borrado el frágil sello de la mujer, y solo quedaba la cabeza de la leona en el rostro antes humano. Le repito que era obra del dolor. Vi claramente el belfo leonino. Había sangre de innumerables víctimas en sus fauces entreabiertas. Y comprendí que usted no era —nunca pudo ser— la esfinge, sino la leona.”

—¿Hay sangre, pues, en mi boca?

—Sí: hay sangre. Usted acaso no sabe las correspondencias: lo que en el plano de la tierra son víctimas sangrientas, en el plano del espíritu son víctimas espirituales.

“Yo le dije siempre: usted tiene un trágico signo.”

II

—Y de nuevo afirmo que si no llego aquella noche a su casa el extraño suceso del aparecimiento de la fiera no se verifica, porque en todo hombre hay una capa que encubre su hieroglífico, una tela que viste al animal, y cuesta al espectador atravesarla con los ojos del alma y ver a la bestia encubierta; pero el dolor la atenaceaba aquella noche entre las sombras equívocas; el dolor había puesto un cerco alrededor de sus ojos; el dolor acentuaba la cuadratura de su mentón; el dolor hinchaba todo su rostro. ¡Oh, qué hábil modelador es el dolor! La pena actuaba en el astral y hacía surgir su cuerpo de pasión: su kamarupa. Modelaba la dúctil materia y me entregaba su forma viva y radiante. Y vi así a la leona, a la hermosa leona que hay en usted. De momento, todavía vacilé. Era demasiado inquietante aquella visión de su signatura, explicaba demasiadas cosas, para que mi espíritu desconfiado aceptara su precioso hallazgo. Temblé como el buscador de tesoros subterráneos que al fin ve aparecer, de entre las capas de la tierra removida, una argolla; y presiente una caja; o ve la caja misma, y muere de expectación y de deseo. ¿Qué contendrá la caja misteriosa? ¿Será oro o un cadáver? ¿Iba yo a encontrar el oro del conocimiento o el cadáver del error? Y me fui desconcertado y trémulo de esperanza. Solo que antes, ¿se acuerda?, me atreví, porque me laceraba su pena y deseaba consolarla —deseo ineficaz porque el suyo era el dolor de una leona— a coger su mano derecha. Yo, tan respetuoso siempre, digo, me atreví a tomar su mano, a retirarla un poco de su cuerpo y dejarla descansar suavemente sobre la sedosa alfombra, con la palma vuelta hacia abajo; después la acaricié dulcemente. Y entonces saltó un nuevo detalle, como salta una liebre ante el cazador —¡Oh, raro ojeo de sombras, a una luz lunar! ¡Oh, extraño cazador, en la noche, de lo desconocido!—. Y fue aquella pura, aquella lindísima mano de mujer, que descansaba sobre la alfombra, y que era una admirable y terrible garra leonina, a pesar de su belleza. Dos veces usted la retiró, encogiéndola; y se la metió en el pecho como lo hacen los gatos con sus suaves manos de felpa; o los leones —y en general todo el género felis— cuando van a dormir. Yo necesito que usted vea a una gata descansar. Observará cómo esconde su mano entre el pecho y cómo, contenta con esconderla, la dobla graciosamente sobre la articulación del brazo antes de pegarla a su seno. Miraba con tal fijeza estos movimientos felinos que usted se vio obligada a decirme:

“—Yo descanso siempre así; por eso todas las noches se me duermen los brazos, hasta el punto de producirme verdadera tortura.

“Encubiertas por la suave seda de las extremidades de sus dedos, yo sin querer buscaba las uñas retráctiles.

“Y alrededor de aquella muy amada y blanca mano de mujer, que era una garra de fiera, reposaban, como ella, en el suelo, los mayávicos cuerpos de dos sensaciones mías, alucinantes: mi respeto corporal a la leona y mi incapacidad de consolar su tormentosa aflicción.

“Y de este mi respeto corporal y del respeto que le tienen los hombres, no necesito darle muchas explicaciones. Una leona impone siempre. Yo tomé —amplifico— su mano con tanta vacilación como pudo hacerlo un domador incipiente con la de una leona en celo.

“Así, vacilante, me retiré. Ya en mi casa busqué el lecho. El sueño redondeó mi conocimiento. Al día siguiente ya le dije que me levanté para tomar un baño matinal; y me preparaba a hacer correr el agua fría sobre mi cuerpo, cuando de pronto, deslumbrante, vino a mí el conocimiento, ya sin vacilaciones, de su verdadero hieroglífico. El conocimiento que explicaba su vida: el de su signo de leona.

“Y ahora voy a procurar explicarle, siquiera a grandes rasgos, alguno de los torturantes enigmas que la llenan de sombra. Vayamos en orden.

“¿Se acuerda, Elena, de su mayor dolor? ¿Del que sintió repetidas veces, cuando los hombres se quejaron de que era poco femenina? ¿Recuerda la dura, injusta acusación de aquella amiga que la llamó con un infamante nombre? ¿Recuerda las muchas veces en que esta duda de su feminidad la atormentó y la hizo sangrar? Hoy me lo explico y puedo explicárselo a usted. Ante todo, tengo que decirle que no conozco más pura ni más bella alma de mujer que la suya: usted es un tesoro de feminidad; usted es rica en feminidad; usted es una hembra, magnífica y radiosa; pero no olvide que es la hembra del león, la leona, y que las especies inferiores sienten miedo de usted. Miedo pánico. Usted es la hembra, repito, pero la hembra del león. Lo que ellos llamaban masculinidad no era sino fuerza. Usted no puede ser verdaderamente hembra más que para otro león. Para los demás será la Dominadora, la Señora, la Reina. No puede tener amantes sino siervos o domadores. Necesita un león para que aparezca toda su asombrosa feminidad; pero los leones no abundan. De aquí su continuo tormento.

“¡Y ya ve qué luz viva de antorcha que ilumina de arriba abajo la tragedia de su vida! Ahora comprenderá su fracaso matrimonial. Usted casó con un fuerte digitígrado, un cuadrúpedo del género felis también. No podría determinar a qué especie pertenece; pero indudablemente es otro felino. Un felino temible, de afiladas uñas, noble y fuerte dentro de los de su clase, felino, como usted; pero menos poderoso que una leona. ¿Cómo pudo cometer este error, mi hermosa leona? ¿La sedujo el célebre y bello actor de cine, en escena? ¿Fue víctima del hechizo de la pantalla, de esa arte mágica, recién nacida, que resume y pone a contribución a todas las bellas artes, sus hermanas? ¡No se dio cuenta de que iba al desastre! ¡No ve cómo se odiarán eternamente esas especies antagónicas del felis leo y de los demás félidos, porque expresan dos principios distintos y opuestos! Su marido continuamente sentía la tarascada espiritual, la terrible manotada del león; y acabó por alejarse de usted, sin duda siempre amándola y admirándola al mismo tiempo, pues ya le dije que es un fino y generoso espíritu. No afronta impunemente a una leona ni a otro gran felino. Su alma de usted pesa mucho, es leonina.

“En cuanto a aquel otro gran dolor de su vida, el de su amiga de la infancia, Romelia, la que la fustigó con un doloroso vocablo, la que la traicionó después de muchos años de recibir sus beneficios, también tiene fácil explicación. Romelia es una gatita. ¡Amistar con una leona un pequeño gato! ¡Qué tragedia! Usted puede decir la terrible frase: —Yo soy león: los otros son gatos. Romelia a cada momento se sentía indefensa ante usted. Por último, naturalmente, surgió la terrible acusación de masculinidad. Aquella gatita creyó masculinidad lo que era fuerza; falta de feminidad lo que era poder; crueldad lo que era potencia. Siempre había sentido celos de usted, y acabó por envidiarla; por odiarla. Entonces, a pesar de su pequeñez, felinamente, le infirió aquella terrible herida, tan comprensible, que casi llegó a tocar su corazón y que alcanzó muy hondo; la que después con sus uñecillas aceradas agrandaron otras bestezuelas menores e innobles, las mustélidas voraces; con sus uñecillas y con sus caninos; la herida en la que más tarde debía dejar una serpiente el veneno mortífero de sus colmillos; esa herida de la que yo la estoy curando: la acusación de masculinidad. Usted me contó que un día Romelia, celosa del amor de alguien que las requebraba a las dos, se atrevió a amenazarla con un látigo. Usted me refirió también la terrible reacción anímica que sintió al verse ofendida; y al hablar le vi tal majestad, tal realeza herida, que comprendí todo lo que siguió después: que la amiga —en otra rápida reacción de su cariño de siempre contra su violencia de un momento— cayera a sus plantas, pidiéndole perdón, arrepentida, pesarosa y temerosa; y que besara con desesperación las fimbrias de su vestido. Aquel día estuvo su amistad al borde del abismo. Suplicó ella tanto, sinceramente arrepentida de su breve ceguedad, que la leona joven, magnánima, generosa, la perdonó; pero en parte perdonó porque desconocía su verdadera naturaleza de leona; porque la sociedad la encadenaba con sus mil perjuicios.

“Y ahora (descontadas estas dos terribles tragedias de su vida, las tragedias de la primera amistad y del primer amor frustrados), pasemos a su continuidad, a la tragedia menor y diaria que la atormenta; pasemos a esa otra queja que me ha expresado tantas veces de que también posteriores amistades no duran mucho tiempo. Yo fascino, me dijo usted; fascino hasta un grado difícil de expresar; ofusco, conturbo, domino, veo a mis amigos a mis plantas, correr como siervos para satisfacer el menor de mis caprichos. Me adoran, se arrastran ante mí por complacerme; pero aquella fascinación dura muy poco; los pierdo luego. Ahora comprende, ¿no es cierto? Es la manotada de la leona que daña cuando quiere acariciar a seres distintos de su especie.”

III

—Y después de esta explicación, ¿quiere que yo, el intuitivo, siga explicando su terrible signatura? ¿Qué quiere que le aclare? ¿Lo de su admirable cuadro de El león que está pronto a devorar a su domador? ¿Lo de los pretendientes que quisieron besarla? ¿Lo de su enorme magnetismo?

—Para ir por orden, permita que recuerde que usted me habló primeramente de cinco jalones en el camino del conocimiento; y que después pasó a explicarme únicamente el tercero y el quinto, los más importantes. El primero, el de ese magnetismo que dizque poseo; el segundo, el del ajedrez; y el cuarto, el del cuadro de El león, no han sido aún descritos.

—Es cierto; y esa precisión no es sino un signo de su clara, fuerte y amplia inteligencia de leona. Lo del hechizo en el Teatro Palace me quitará poco tiempo, porque después tendré que tratar de él más largamente. Quiero decirle ahora nada más que yo acudí con usted a sentarnos a dos de las lunetas del Palace, completamente libre de su magnética acción. Yo acompañaba a doña Nadie. Para mí entonces usted no era más que una antigua amiga, no muy íntima, a la que quería algo y apreciaba poco. Pero esa noche, al estar a su lado, empezó a ejercer en mí su terrible acción. Sentí, a su contacto, que se encendían los fuegos de la vida, semiapagados por una doble enfermedad del cuerpo y del espíritu que con frecuencia ataca a los seres intuitivos, víctimas de las fuerzas que osan, imprudentes, desatar y afrontar. De pronto me sorprendí riendo; disfruté de una gran agilidad de espíritu a la que no estaba acostumbrado, que me remozaba, que me quitaba veinte años. Mis pensamientos adquirieron agudeza y claridad. Una gran serenidad tranquilizaba mi temeroso cuerpo pasional. Estoy bastante avanzado en el camino del conocimiento para no saber que aquel acrecentamiento de vida se lo debía a usted: a su personalidad próxima y radiosa. Entonces comprendí que usted era una inagotable fuente de energía; un espíritu noble y fuerte; y empecé a apreciarla: es decir, a amarla.

—¿Y lo del ajedrez?

—Es muy fácil de contar. Jugábamos ajedrez aquella tarde. Es un fino tablero el que usted posee, lleno de figulinas blancas y violetas, que son un primor. De pronto su larga y delgada mano blanca se abatió con tal rapidez sobre mi reina, para tomármela, que yo vi en el movimiento su segura explicación: la bestia de presa: bestia de presa en los aires, en la tierra o en el mar. Águila, carnicero o escualo. Me conturbé: miré con sincero temor a la bella dama que tenía delante. Solo los grandes carniceros se mueven así. Aunque de momento no quise aceptar la cruel verdad, sí ya me sentí presa de extraño miedo. Todo mi inconsciente me decía que aquello era verdad: que ante usted estaba ante una poderosa fuerza de destrucción.

“Juega usted bien el ajedrez, Elena; y también me depara incomparables delicias ante las piezas de marfil. ¡Son tan finas sus manos, tan blancas y tan bien proporcionadas! Sus magníficas manos de trágica actuación. Da usted así, oh gran batalladora, salida a su violencia necesaria, en este juego tan parecido a la lucha.”

—Ahora explíqueme lo del cuadro de El león.

—Seré breve porque tengo que explicarle un mundo en pocas palabras. Usted es una admirable pintora. Ese cuadro fue para mí una verdadera revelación. En él aparece un león apresado que un día, despreciando el castigo del látigo y del hierro candente, encendido y porque la mirada fija ha perdido hace tiempo todo valor, se vuelve contra su domador, le hace frente y lo acobarda hasta hacerlo salir huyendo, dejando en su temerosa huida abierta la puerta, por la que también saldrá su prisionero, a recobrar su libertad nativa.

—…

—¿Qué más puedo decirle de este trabajo? ¿Que es un terrible símbolo en que el león, no solo se vuelve contra su domador, sino también contra la sociedad? Son barrotes de prejuicios, látigo de ignorancia, hierro candente de superstición los que la tenían prisionera.

—Sí. Es cierto. No es necesario nada más.

—Y ya que llegamos a hablar de sus cuadros, permítame una digresión, aunque por un momento nos separemos del camino que estamos recorriendo juntos. Déjeme que le hable de algo que tiene muy poca relación con su signatura; pero que me conmueve mucho. Déjeme que le hable de ese otro admirable cuadro suyo de La malla.

—¿La malla?

—En toda mujer hay una maga. En la más simple mujer del carbonero hay una maga. La mujer guarda el sagrado tesoro de la especie y posee artes mágicos para encadenar al hombre. El hilo de que forma su malla es el hábito. Toda mujer estudia al hombre, inconscientemente, sin darse cuenta, y la naturaleza la ha dotado del poder de conocerlo intuitivamente. Toda mujer conoce las mismas signaturas que el iniciado, con más finura que este; conoce el tipo del instintivo, del que hay que complacer la pereza y la glotonería; conoce el tipo del anímico, de la fiera humana, a la que solo se adormece y domina arrojándole la vianda de adulación a su vanidad o de un obstáculo por vencer; es decir, dando de comer a la fiera; conoce al mental, del que hay que aprender las pequeñas manías, para satisfacerlas, y del que hay que suplir la pereza física, moviéndose por él. En cuanto al hombre de voluntad, que es la cuarta signatura, la mujer tiene menos armas contra él; pero las tiene siempre.

“En toda mujer hay una engañadora perpetua. Nació para engañar. Es parte de su oficio. Engaña naturalmente, como las bestias respiran. El hombre piensa; la mujer seduce. Seduce al hortera¹ que le ofrece una mercancía barata; seduce al abogado que no le cobra honorarios; sonríe y seduce al compañero de viaje que le cede el asiento; su sonrisa es su pequeña moneda fraccionaria de seducción, y el día en que deje de seducir, ese día está condenada a perecer y a hacer morir al hombre. La mujer seduce como las hojas de los árboles se tiñen de clorofila, y el papel secante embebe la tinta; como el animal respira. Su naturaleza es seducción.

“Así toda mujer teje una malla alrededor del amante, así lo encadena con los múltiples hilos del hábito. Este queda y conserva al hombre amado cuando ya su pasión ha desaparecido. Usted, con sagacidad verdaderamente femenina, haciendo uso de su innato conocimiento de magia y ayudada de intuición de artista, pintó ese admirable cuadro de la malla tejida al hombre amado; tejida con dolor; malla cuyos hilos tiñó la sangre de su corazón; malla llamada a suavizarle la vida, a envolverlo suavemente, dulcemente, y a retenerlo; malla que extenuaba y mataba a la divina tejedora. ¿Cómo usted pudo expresar cosas tan profundas en una obra plástica? Es uno de los secretos de su divino arte, que la ha hecho famosa.”

Elena, al llegar aquí, bajó la cabeza dolorida.

De pronto la levantó y gritó con voz extrañamente ronca, llena de desesperanza.

—Ya rompí los hilos de esa malla. Cuando los destrozaba, sentía que era mi propio corazón el que rompía.

—…

—Y no contenta con eso, ¿sabe?… rompí la única rueca² que tiene la mujer para tejer su tela.

—Tenga miedo de decir semejantes palabras, porque esta simbólica rotura de la rueca es una renuncia a su feminidad y al amor. Y si de veras la rompió, hay que hacerse de otra rueca, de cualquier manera, aunque sea al precio de su vida.

IV

—Veamos ahora lo de los pretendientes.

“Usted me habló de aquel protector que tiene una alta posición en la banca y el consiguiente poder social. Realizó prodigios por usted. Un día, en su casa, quiso besarla. Usted lo contuvo con una mirada. ¡Pobre diablo! Cómo debe haber corrido, con la cola entre las piernas, cuando vio aparecer a la leona.

—¿Qué signatura es la suya?

—Aunque lo conozco de vista, no veo su signatura en este momento; necesitaría estudiarlo; pero sí puedo decirle que es un mal sujeto; una fiera carnicera, leopardo u otra cosa por el estilo. En cuanto a aquel que un día quiso apoyar la cabeza en el seno de usted, ese es un oso gris. Peligrosa bestia. Yo desconfío de él. En cualquier momento puede aparecer la fiera. ¿Se acuerda? También fue un amigo suyo, que la llenó de dádivas. ¡Otro pobre diablo que desconoció su verdadera naturaleza de leona! ¿Qué otra cosa quiere que le diga?

—Ya no necesito preguntarle nada más. He entendido.

—Entonces, déjeme que le hable de otro extraño episodio en nuestras extrañas relaciones. Es algo más extenso que los anteriores; y ¡ay!, para mí tan precioso…

“¿Ha olvidado acaso que en una ocasión, cuando principiaba nuestra amistad, al pasar por una arteria ciudadana, la vi de pronto? Usted también me vio. Detuvo su coche, y me invitó a sentarme en él y a acompañarla en una gira a Amatitlán. ¿Por qué acepté? No puedo decirlo. Soy hombre de costumbres modestas y llenas de orden: vivir en una casa de huéspedes, decente pero semifamiliar, alejada del ruido y propicia a mis estudios y a mi obra de arte; comer poco y a sus horas; beber raras veces, raras veces ir a los salones; pocos amigos, una sola amiga; escaso contacto social… ¿Por qué acepté? Acaso el artista que hay en mí —siempre en todo artista hay algo de bohemio libérrimo e imprevisto— no ofreció mucha resistencia a aquella su rara invitación de ir así, una o dos semanas, de temporada a Amatitlán, sin avisar a la patrona, sin atender a otras obligaciones sociales. En cuanto a mi trabajo de artista, de este no hablo porque me dejaba libre. Pero el profesor universitario debió protestar. Dije únicamente:

“—¿Pero cómo quiere, señora, que me vaya así, con lo puesto, sin ropa, sin cepillo de dientes?

“Usted solo contestó:

“—Vámonos. Todo eso se compra en Amatitlán.

“—¿Trajes también?

“—Si vamos a estar varios días, enviamos por ellos a la capital.

“Y nos fuimos. Usted vestía, con rara elegancia, un precioso traje sastre. Conducía muy bien; pero era muy atrevida. Llevaba su coche a velocidades peligrosas. Usted y el auto parecían formar un solo animal, rápido y terrible, que espantaba a los pocos transeúntes del camino y dejó moribundo a un perro, hollado sin piedad por el temible monstruo.

“Hoy, a una luz nueva, entiendo perfectamente lo sucedido. Soy hombre de voluntad disciplinada: no me gusta que me aparten del camino que sigo, ni del programa diario que me he trazado en la soledad de la alcoba, por la mañana. No quiero parecerme a las mujeres que salen con propósito de comprarse unos guantes, y regresan con mil caras chucherías… Mil, entre las que no se encuentran los guantes necesitados. Pero usted me tomó como una leona toma con la boca a un cordero, que no puede hacerle resistencia. Era más fuerte que yo…

“Llegamos a la maravillosa ciudad del lago. Usted me llevó a un chalet que le habían ofrecido graciosamente, para ocuparlo durante una temporada. Allí nos esperaba su secretaria y una sirviente joven. La pequeña Alicia, única hija de su frustrado matrimonio, había quedado en un colegio, interna. Nos llevaban la comida del hotel. Y empezó entonces para mí aquella dulce atracción, en que usted ejerció sobre todas mis potencias y sentidos su misteriosa influencia. De ahí regresé dominado por un gran amor, prisionero de usted para siempre.

“¡Oh, temporada divina! Más tarde le hablaré del sortilegio de aquella inmensa gema azul, caída de los cielos, y que se llama el Lago de Amatitlán. De aquellas amanecidas, en que recién salidos del lecho nos encontrábamos como viviendo dentro de un zafiro inmenso, una vida de magia, tal era de transparente y de un pálido azul el cielo; y de un azul reflejado el ambiente; y de un azul intenso el lago. La materia aparecía traslúcida y adquiría una tonalidad azul; y suaves montañas de curvas femeninas cerraban el paisaje, como un coro de doncellas que abarcaran con sus manos unidas el horizonte. El chalet estaba en una posición descollante; una escalera descendía, suavemente, hasta el lago que murmuraba a nuestros pies: y a él bajaba usted a bañarse con frecuencia, en realidad, como una ondina. Pero volvamos a las mañanas. Yo salía, al despertar, apenas vestido, de mi cuarto al corredor que da al lago, como quien se asoma a una arcadia extranatural. Y el hechizo del maravilloso cuadro empezaba. Me sentaba en un banco a contemplar el brillo del agua; veía aquellas pequeñas pinceladas de las barcas de los pescadores, y me adormía en espera de su llegada. Cuando usted salía al mismo corredor, yo la llamaba a mi lado, y juntos nos perdíamos en la maravillosa perspectiva. Y era tan dulce, que yo me entregaba a la dulce ilusión de que usted era mía, y de que nadie me la podía quitar. Porque entonces, usted lo comprenderá, yo ya sentía por usted una atracción irresistible. Usted me hacía presa de misterioso hechizo.

“¡Oh, quién pudiera permitirme explicar lo que fue un largo paseo que dimos una mañana por el encantado camino que bordeaba el lago! De pronto usted se detuvo frente a un arbusto de largas espinas huecas, por las que entraba y salía un agitado pueblo de hormigas. Sabia botánica —sabia en plantas, como en otros muchos conocimientos humanos y divinos—, el arbusto absorbía su atención. Yo compartí su encanto. Los vegetales por primera vez se mostraban a mis ojos deslumbrados. Usted sonreía maternalmente y me iniciaba en su oculta ciencia. Y así me enriquecía la vida. ¿Comprende? Es la palabra. Me enriquecía la vida. La tónica de la vida acentuaba su embriagante ritmo.

“Después seguimos la florida senda. Ya cansados buscamos un tronco de árbol propicio para descansar. Los dos sonreímos infantiles cuando usted lo encontró. Desde que se hizo el mundo parecía aguardar nuestra visita. Había sido creado exprofesamente para nosotros, con exclusión de todo otro objeto que el de darnos asiento durante una hora, desde la eternidad. Fíjese, oh Elena, que esta es una verdadera magia y la mujer es una maga. La viste maya, la tela de la ilusión; maya, la tela de la vida.”

—¡Oh, qué dulce y bello episodio acaba usted de contar! Dulce como para sorprenderme a mí que lo viví… —no: mentira— que pasé por él entonces y que lo vivo ahora… Me ha conmovido aun en esta hora de desesperanza… En esta hora de desolación.

V

—Me he alargado mucho. Ya puestos a seguir el rastro del león, no acabaríamos nunca. Se multiplica por doquier. Conviene que obedezca en mi relato, para no cansarla, la técnica del arte, y que no cargue el detalle. Aun me parece haber insistido demasiado; pero es que me interesa tanto su rara signatura…

—No me ahorre nada; estoy tan interesada como usted.

—Por ejemplo, podría hablarle de su paso, largo y rápido, tan parecido al tranco; de su modo de comer y de acariciar; de sus magníficos ojos, fosforescentes en la oscuridad; de su amor por esta, que la hace ir apagando las lámparas eléctricas, por mí encendidas instintivamente; podría hablarle de cien detalles más. Sobre todo podría hablarle de su obra de arte. Habrá usted conservado en su memoria, precisa y cruel, cómo la conocí, cuando expuso sus cuadros en una modesta sala de lejana ciudad.

“No había mucha gente. El salón, aunque decoroso, era modesto. Los cuadros eran pocos. Apenas los suficientes para aparecer discretamente en una exposición. En algunas de las obras exhibidas había verdadera maestría; inconfundible maestría. El espíritu se mostraba demasiado. Sobre todo llamaba la atención en ellas la seguridad, la limpieza de ejecución, la claridad de visión; y una extraña firmeza. ¿Desde qué sitio eminente se había situado el pintor para poder obtener aquellos incomparables mirajes de las puestas de sol, de la luz de la luna, rielando sobre las aguas de los lagos, de las altas hierbas? Eran paisajes tropicales, trasladados con singular vigor y un aspecto al que no están acostumbrados los hombres. A veces el cuadro se resentía de descuido, de violencia en la ejecución, pero siempre quedaba manifiesta la garra leonina que era su marca de fábrica. Y a pesar de esta maestría, en raro contraste con ella, había en las geniales composiciones algo de selvático, de primitivo. Parecía que un salvaje, un ser intuitivo, hubiese adquirido de pronto el dominio de un arte plástico y pintara sus visiones de la selva. Me impresioné sobre todo por una pequeña obra maestra que era apenas un boceto inacabado; pero como a una luz extranatural quedó preso en ella un bosque africano. El cielo, los montes y la tierra parecían arder, en una inundación de un fuego subido; era la apoteosis del rojo. Quise comprarla, y así entré en relaciones con usted…

—Amargo conocimiento…

—Deje que ahora, ya para concluir, le hable de Alicia. ¿Se acuerda de que un día, cuando ya había ganado tal intimidad, usted me hizo pasar a su comedor, a la hora de la refacción del mediodía? ¡Oh, y cómo gocé entonces de su figura señoril, tan majestuosa y soberana, bajándose a derramar tanta ternura sobre su pequeñuela! Yo no sé si era precisamente tanta majestad lo que hacía conmovedor el contraste de contemplar tanta dulzura. Era una reina que daba de comer a su hija. Me embrujó.

—Siga.

—¿Acaba de entender ahora su signatura de leona? Cuando yo sentí aquel goce singular al verla asistir, en el comedor de su casa, a la pequeña Alicia, fue, sin saberlo, porque me conmovía su majestad de leona, contrastando con lo inseguro de la niñez; con lo indefenso de la niñez. Era como la gracia llevada en brazos de la fuerza. En eso consistía aquel extraño deleite que encontraba al verla acariciar a Alicia, para el que en vano prodigaba vanos epítetos: señoril, majestuoso. Porque Alicia, fruto de una unión híbrida, no es un cachorro de león.

—¿Qué es?

—Solo es una niña, deliciosamente frágil.

—…

—Mas ya es hora de que me aleje y de que la permita descansar…

Y al concluir mi historia callé.

Elena, que hasta entonces me había escuchado con atención, pero con la creciente cólera y desaliento del que ve al médico caminar hacia un diagnóstico fatal, abdicó de pronto de su majestad de diosa. Se echó sobre el lecho y se puso a sollozar angustiosamente.

—¿Entonces, mi mal no tiene remedio?…

—Un león.

—Pero: ¿es que todavía queda algún león sobre la tierra?


Rafael Arévalo Martínez.____Guatemala
FIN

La signatura de la esfinge, 1933


1. Hortera: vulgar y de mal gusto
2. Rueca: instrumento que sirve para hilar, y se compone de una vara delgada con un rocadero hacia la extremidad superior.
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