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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

O que move a História


- LUIZ FERNANDO VERISSIMO


Os pais de Adolph Hitler teriam sido aconselhados a levar o menino para uma consulta com um médico que estava revolucionando o tratamento de distúrbios mentais, em Viena. Mas decidiram que o que o Adolphinho fazia com insetos era normal para a idade dele e não procuraram o Dr. Freud. O resultado foi o que se viu.

Karl Kraus escreveu que a Viena do começo do século 20 era o campo de provas da destruição do mundo. A derrocada do império Austro-Húngaro foi o fim de um certo mundo, mas acho que Kraus quis dizer mais do que isto. Para ele, as revoluções do pensamento postas em movimento na Viena da sua época trariam o fim do longo dia do humanismo europeu que durara desde a Renascença, e o novo século restauraria a idade das trevas.

O encontro que não houve entre o intelectual judeu que radicalizou o estudo da consciência e o homem que quis eliminar as duas coisas, o judeu e a consciência, da História simboliza este prenúncio, ou esta intuição de Kraus, sobre o século. Seria fatalmente o século do desencontro entre as duas formas de modernidade, a que liberava o pensamento pela investigação científica e a que o aprisionava pelo mito do estado científico.

A questão é até onde coisas vagas como o clima intelectual de uma cidade, ou clínicas como a maluquice de alguém, influenciam a História, ou até que ponto uma boa terapia pediátrica teria evitado o Holocausto. A História teria sido diferente sem Hitler, ou com um Hitler no poder mas tratado por Freud? A ideia do nazismo como uma anomalia patológica, como coisa de loucos, é uma ficção conveniente que absolve boa parte da direita cristã europeia da sua cumplicidade.

Mas a ideia de um determinismo neutro, independente de qualquer escolha moral, também é assustadora. Precisamos de vilões mais do que de heróis, de culpados muito mais do que de inocentes. Nem que seja só para preservar o autorrespeito da espécie.

O materialismo histórico rejeita a ideia de sujeitos regendo a História e marxistas ortodoxos reagem a qualquer sugestão de que as ideias justas venham de um discernimento moral inato. Assim a História como um relato de mocinhos providenciais em guerra com bandidos doentes sobra para a literatura, ou essa categoria de ficção sentimental que é a História convencional.

Pois gostamos de pensar que é a iniciativa humana que move a História, e que o seu objetivo, mesmo que tarde, seja moral e justo, e que ela tenha uma cara e uma biografia.

Estadão.20/05/2012

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Contraste




Em vez de lembrar o que escrevi sobre as torres do World Trade Center no décimo aniversário da sua destruição, vou repetir o que escrevi na época sobre o pintor Morandi.
O que o italiano Giorgio Morandi, morto em 1964, tem a ver com os dois edifícios do World Trade Center derrubados em 11/9 de 2001? Absolutamente nada. Foi justamente por isso que a primeira coisa que fiz ao chegar a Paris depois de fugir de Nova York e das ruínas ainda fumegantes das torres foi ir ver uma exposição do Morandi.
Eu sabia exatamente o que ia encontrar. Morandi pintou essencialmente a mesma coisa a vida inteira. Conjuntos de garrafas, caixas, vasos e vasilhames que ao mesmo tempo se integravam ao fundo e entre si como formas abstratas e mantinham sua distinção concreta de sólidos. Não foi só porque ainda tinha na retina as imagens das torres em chamas que pensei imediatamente nelas diante daquelas caixas e garrafas longilíneas firmemente postas numa superfície real, com volume e peso, e magicamente postas em outra dimensão, a salvo do tempo, da história, até de interpretação.
Os objetos que Morandi reproduzia nos seus conjuntos eram sempre os mesmos, o que ele estava pintando, na verdade, era a sua permanência, enquanto a vida e o pintor passavam por eles. Não eram os objetos,era a sua existência silenciosa que estava nos quadros de Morandi. Cada pintura era um novo registro daquele mistério, uma coisa existindo, persistindo em existir. O contraste era inescapável com as caixas de ferro evanescentes que eu vira se desmanchando em Nova York, aquelas formas que
se declaravam triunfalmente eternas desaparecendo em minutos.
Não aparecem figuras humanas na obra de Morandi. A vida que existe em seus quadros é toda inferida: a mudança na perspectiva de um conjunto, uma ou outra marca de uso na superfície de um dos seus objetos domésticos, um sombreado denunciando a existência de uma fonte de luz em algum lugar fora do quadro. Nenhum movimento, e tudo se repetindo. O humano só existe na sua obra como contraponto ao que se vê, às coisas reduzidas a elas mesmas e a sua persistência. O humano é tudo na obra de Morandi que não se vê. O próprio pintor interfere o menos possível no seu trabalho e deixa que a obsessão o guie. Ou a única coisa humana na arte do Morandi é a obsessão.
Minha impressão ao olhar seu trabalho era que estava diante do ultimo homem tranquilo do mundo. Na vida parada dos seus quadros havia desprezo pelo drama humano, e eu estava ali atrás daquela tranquilidade. Queria me convencer da transitoriedade da angústia, o sentimento mais humano do momento, e esquecer as mortes e a destruição. Se pudesse passaria o dia e a noite ali, armazenando tranquilidade para enfrentar o que estava por vir – mas o museu fechava às cinco e meia. De qualquer maneira foi bom saber que os objetos do Morandi continuariam lá, independentemente do nosso olhar, da nossa passagem e da nossa angústia, sólidos, indestrutíveis, significando apenas sua propria permanência. E silêncio.


- LUIZ FERNANDO VERISSIMO. 11 Sep 2011 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Só para leitores


"Eu tomo um remédio para controlar a pressão.
Cada dia que vou comprar o dito cujo, o preço aumenta.
Controlar a pressão é mole. Quero ver é controlar o 'preção.'
Tô sofrendo de 'preção' alto.
O médico mandou cortar o sal. Comecei cortando o médico, já que a consulta era salgada demais.
Para piorar, acho que tô ficando meio esquizofrênico.
Sério!
Não sei mais o que é real.
Principalmente, quando abro a carteira ou pego extrato no banco.
Não tem mais um Real.
Sem falar na minha esclerose precoce. Comecei a esquecer as coisas:
Sabe aquele carro? Esquece!
Aquela viagem? Esquece!
Tudo o que o presidente prometeu? Esquece!
Podem dizer que sou hipocondríaco, mas acho que tô igual ao meu time:
- nas últimas.
Bem, e o que dizer do carioca? Já nem liga mais pra bala perdida...
Entra por um ouvido e sai pelo outro.
Faz diferença...
'A diferença entre o Brasil e a República Checa é que a República Checa tem o governo em Praga e o Brasil tem essa praga no governo'
'Não tem nada pior do que ser hipocondríaco num país que não tem remédio'."

(LUIZ FERNANDO VERÍSSIMO)