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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Piiii




Não havia jeito de o detector de metais do aeroporto calar a boca

Piii. Apitou. Ele teve que voltar para passar de novo pelo detector de metal. Já tinha posto na bandejinha relógio, caneta, tudo que pudesse conter metal ou fazer disparar o piii. Voltou e passou de novo.

Fez piiii.

– Tire o casaco – sugeriu o funcionário.

Ele triou o casaco e botou numa bandeja maior. Passou outra vez pelo portal.

Piiii.

– Já sei – disse ele. – Deve ser isto aqui.

Mostrou uma caixinha de remédio que levava num bolso da calça. Não era de metal, era de plástico, mas talvez a máquina suspeitasse que o plástico fosse disfarce. Essas máquinas de aeroporto ficam cada vez mais sofisticadas. E desconfiadas.

– Coração – disse ele, colocando a caixinha em outra bandejinha.

– Como? – disse o funcionário.

– Remédios para o coração. Pressão alta, essas coisas.

– Passe outra vez, cavalheiro – disse o funcionário, sem nenhum interesse no seu coração.

Ele passou outra vez pelo detector, sem a caixinha no bolso.

Piii.

– Não é possível. Será que a máquina não está com defeito?

O funcionário ignorou a hipótese impensável. Perguntou:

– O senhor tem alguma prótese?

Ele hesitou. Tinha alguma prótese? Não. Claro que não. Sugeriu:

– Não pode ser obturação num dente? Tenho várias.

O funcionário desprezou esta hipótese também. Disse:

– O cinto. – O quê? – O cinto. Pode ser a fivela do cinto. E os sapatos.

– Os sapatos também?! – Por favor.

O cinto e os sapatos ocuparam outra bandeja. Ele passou pelo portal, segurando as calças.

Piii.

Ele perdeu a paciência.

– Não. Eu acho que é pessoal. Agora já é implicância.

O funcionário pediu para ele ficar de lado. Outro funcionário, aparentemente mais graduado, viria revistá-lo. Ele protestou:

– Vou perder meu avião.

O protesto também foi ignorado. Veio outro funcionário e pediu para ele estender os braços para ser revistado.

– Se eu estender os dois braços ao mesmo tempo minhas calças caem. Posso estender um de cada vez?

O segundo funcionário estudou a proposta. Não era o procedimento certo. O certo era o revistado estender os dois braços ao mesmo tempo. Ele insistiu:

– Minhas calças vão cair. Eu emagreci muito nos últimos tempos. Ordens do cardiologista.

– Estenda os braços por favor, cavalheiro.

– Primeiro um depois o outro? – Os dois ao mesmo tempo.

– Minhas calças vão cair. Você será responsável pelo vexame. Vai ser um escândalo público. Está entendendo? Eu só de cuecas, aqui, no meio da...do... Vocês querem me expor ao ridículo! Eu vou processar!

Nisso a máquina começou a apitar:

Piii! Piii! Piii! E o homem:

– E cale a boca você também!

VERISSIMO - 04 Sep 2011 




quarta-feira, 21 de agosto de 2019

O som da época


 - LUIZ FERNANDO VERISSIMO



Desconfio que ainda nos lembraremos destes anos como a época em que vivemos com o acompanhamento dos alarmes de carro. Os alarmes de carro são a trilha sonora do nosso tempo: o som da
paranoia justificada.
O alarme é o grito da nossa propriedade de que alguém está querendo tirá-la de nós. É o som mais desesperado que um ser humano pode produzir – a palavra “Socorro!” –, mecanizado, padronizado e a todo volume. É “Socorro!” acrescentado ao vocabulário das coisas, como a buzina, a campainha, a música de elevador, o “ping” que avisa que o assado está pronto e todos os “pings” do computador. Também é um som típico porque tenta compensar a carência mais típica da época, a de segurança. Os carros pedem socorro porque a sua defesa natural – polícia por perto, boas fechaduras ou respeito de todo o mundo pelo que é dos outros – não funciona mais. Só lhes resta gritar.
Também é o som da época porque é o som da intimidação. Sua função principal é espantar e substituir todas as outras formas de dissuasão pelo simples terror do barulho. O som da época em que os decibéis substituíram a razão. Como os ouvidos são, de todos os canais dos sentidos, os mais difíceis de proteger, foram os escolhidos pela insensibilidade moderna para atacar nosso cérebro e apressar nossa imbecilização. Pois são tempos
literalmente do barulho.
O alarme contra roubo de carro também é próprio da época porque frequentemente não funciona. Ou funciona quando não deve.
Ouvem-se tantos alarmes a qualquer hora do dia ou da noite porque, talvez influenciados pela paranoia generalizada, eles disparam sozinhos. Basta alguém se aproximar do carro com uma cara suspeita e eles começam a berrar.
Decididamente, o som do nosso tempo.


 FSP.29 Sep 2011

sábado, 29 de setembro de 2012



Sobre a morte de Ted Boy Marino e as lutas de ontem e de hoje:

"Os bons geralmente começavam apanhando e, quando parecia que estavam liquidados e que o Mal triunfaria, vinha a eletrizante reação, durante a qual o inimigo pagava por todas as suas maldades. Humilhação e vingança, nada na história do teatro é tão antigo e tão eficaz. Nove entre dez novelas de televisão têm o mesmo enredo.

Não sei se ainda fazem espetáculos de “catch” pelo interior do país. Hoje na TV o que se vê é o “ultimate fighting”, ou “mixed martial arts”, dois lutadores simbolizando nada trocando socos e pontapés sem simulação, quando não se engalfinham no chão como um bicho de duas costas e oito patas em convulsão.

Nessas lutas não vale, exatamente, tudo — parece que esgoelar o outro e xingar a mãe não pode. Mas é o “catch” despido da fantasia, com sangue de verdade. Não há mais mocinho e vilão, apenas duas máquinas de brigar, brigando.
Nem Ted Boy Marino nem Homem Montanha, apenas a violência em estado puro. Sei não, acho que empobrecemos."

Luiz Fernando Verissimo