terça-feira, 27 de agosto de 2019

Muito de tudo




RIO DE JANEIRO - Os menores de 30 podem não acreditar, mas houve um tempo no Brasil -anos 70, por aí- em que cada família só dispunha de um carro. O qual ficava com o chefe da dita, que o usava para ir trabalhar e o trazia de volta à noitinha. No fim de semana, os filhos disputavam o carango, e o pai podia cedê-lo ou não -Rita Lee fez uma música sobre isso, "Papai, Me Empresta o Carro". Claro que de há muito já não é assim.
Com o telefone, idem. Até fins dos anos 80 (juro!), raras as famílias que tinham mais de um. Não de mais um número, mas de mais um aparelho. Por circunstâncias da época, era mais complicado comprar um telefone do que ir a Adis Abeba. Tínhamos de apelar para pistolões, contratar despachantes, subornar autoridades. Numa disputa de herança, os herdeiros se pegavam por causa do aparelho. E, para se ter uma ideia, telefone era investimento. Hoje, meu vendedor de coco na praia tem três ou quatro celulares pendurados na sunga, e ainda acha pouco.
O mesmo com os televisores. Não que fosse proibido ter mais de um -ao contrário. É que não se usava. Nas décadas de 60 e 70, por exemplo, tanto fazia ter como não ter TV em casa -eu próprio, às vezes, passava anos sem, e sem sentir a menor falta. E então começou a história de um aparelho na sala e outro no quarto.
Hoje, como sabemos, em casa ou na rua, onde quer que você esteja -salas de espera, táxis, aviões, elevadores-, há uma tela ligada.
Com o computador foi diferente. Do trambolho exclusivo das grandes empresas, que ocupava um andar inteiro e ao qual só os técnicos tinham acesso, passamos direto para o computador individual, o PC, que até eu e menores de cinco anos conseguem manobrar.
Mas ainda é cedo para dizer se isso nos fará tão neuróticos e estressados quanto o excesso de carros, telefones e aparelhos de TV.

RUY CASTRO -  07 Sep 2011

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Onde não há esperança

Um conhecido viu Nasrudin procurando alguma coisa no chão.
- O que foi que você perdeu mullah ? - perguntou .
- minha chave - respondeu Nasrudin. e os dois , de joelhos , ficaram procurando. Depois de algum tempo o outro perguntou :
- onde foi mesmo que você deixou cair a chave ?
- Em minha casa .
- Então por que você está procurando aqui ?
- Porque aqui há mais luz do que dentro da minha casa .

Idries Shah

Estudar ou ser estudado

Um homem que havia estudado em muitas escolas de metafísica procurou Nasrudin. Para mostrar que podia ser aceito como discípulo , expôs minuciosamente onde estivera e o que estudara.

- Espero que me aceite , ou pelo menos me exponha suas ideias - disse o homem - pois gastei muito tempo estudando nessas escolas .

- Veja só - disse  Nasrudin você estudou os mestres e seus ensinamentos. O ideal seria que os mestres e seus ensinamentos tivessem estudado você. Isto sim, valeria a pena .

"Post-mortem"


De Waly Salomão

Um cavalo-marinho mergulha em seus círculos de corais
mas em sua mente só releva a atualidade do belo.
O passado pode estar abarrotado de chateações
mas daqui pra frente ótimas fotos e melhores filmes
e amor e gravidez no bojo do macho
e horas infindas deitado nas areias
especulando nuvens
que se esgarçam ao sabor e ao deslize das figuras.
Um gosto permanecer aqui extasiado
e sem querer comparecer a nenhum "vernissage"
cansado dos artistas
que dão a seus quadros a última demão de verniz
e permanecer lasso das exposições e dos museus a visitar
e do "dernier cri"
esquecer os pacotes de encomendas à "Amazon Books"
e fugir dos seminários sem sêmen nem humor trocadilhescos.
Quase morrer é assim:
uma cada vez mais crescente ojeriza com a “vidinha literária”
de par com a imorredoura memória de certas linhas,
por exemplo,
que durante o resto de tempo que me é concedido viver
e na hora "H" da morte,
estampada na minha face esteja a legenda:
O que amas de verdade permanece, o resto é escória.
Sonhar com Provenças e Venezas e Florenças.
Rever Piero della Francesca
e a Essaouira de meu amigo Garbil, o boxeador.
E a vista de Delft de Vermeer.
A Barcelona do poeta-"clochard"-palhaço Joan Brossa.
A cena de New York, minha e de todos e de Ashbery
e de Frank O’Hara e de ninguém.

Sobem fiapos da infância de um tabaréu:
ora eu era
uma piaba nadando por entre bancos de areia do Rio das Contas
ora eu era
um acari das locas do Gongogi — rio cheio de baronesas.
Idade do ouro fluvial, plástica, flamante.
Fogueira gigante das noites de São João. Fogos-de-bengala.
Eu sozinho menino e o Amadis de Gaula
e os outros todos principais cavaleiros
e as outras todas principais damas
que povoavam as varandas, os pastos, o curral, a balsa, a chácara,
as pedras, os capins e as matas da Coroa Azul raro Balito.
Convive-se com uma criatura sem imaginar de que reino
provém.

Zelar pelo deus "Treme-Terra" que meu coração devolveu.
Não cortejar a morte.
Não perambular pelos cemitérios
nem brindar o luar patético
com caveiras repletas de vinho tinto seco
como um Byron-Castro Alves gótico e obsoleto.
Sereno e cabeça dura — "testa ruda" —
mirar de frente a caveira
e as tropas de vermes de prontidão
(como observo vermes dentro de um pêssego)
mas por enquanto gargalhar da irrealidade da morte.
Gozar, gozar e gozar
a exuberância órfica das coisas
em riba da terra
debaixo
do
céu.


ELEGIAS DE DUÍNO

Fragmentos


O sentir em nós, ai, é o dissipar-se.
Exalamos nosso ser; e de uma a outra ardência
Nos desvanecemos. Alguma vez nos dizem:
Circulas no meu sangue, este quarto, a primavera
Estão cheios de ti. Inutilmente procuram nos reter
Evolamos. E aqueles que são belos, oh, quem os
Deteria? A aparência transita sem descanso em seu rosto
E se dissipa. Tal o orvalho da manhã
E o calor do alimento, o que é nosso
Flutua e desaparece. Ó sorrisos, para onde?
E tu, olhar erguido, fugitiva onda ardente e nova
Do coração? Ai de nós, assim somos.
Estará o mundo impregnado de nós, pois que
Nele nos perdemos? E os Anjos
Retomarão apenas o que deles emanou?
Talvez um pouco de humano se encontre às vezes
Em seus traços, como o vago no rosto das mulheres
grávidas? Eles porém nada percebem
No turbilhão da volta a si mesmos.”

“E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem anjos nem homens.
E o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face—a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apena ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos –talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.”



 RAINER MARIA RILKE

Cordel - A minha sina


- capítulo 3 - Virgulino

Minha vida vai depressa,
Nas matas desse grotão,
Onde bate coração,
Vida fazendo remessa,
Vou passando sem ter pressa,
Buscando um novo cantar,
Procurando por lugar
Onde possa ter certeza,
Que não tenha mais tristeza,
Nem do que me admirar...

Depois dessa confusão
Com Jacinta e sua laia,
Não quis saber de gandaia,
Muito menos procissão,
Procurando um novo chão,
Bicho de saia, tô fora,
Pelo menos por agora,
Nem que peça a condessa,
Até mula sem cabeça.
Encontrei por mundo afora...

Cheguei nas terras do Juca,
Pelos matos da Terena,
Naquela serra pequena,
Alma da gente cutuca,
Vivendo dessa arapuca,
Não posso dela fugir,
Vou morrendo sem sentir,
Cheiro de terra molhada,
Pelo sangue, temperada,
Brotando sem se pedir...

Pois te conto seu doutor,
Não podendo ficar quieto,
Peguei caminho mais reto,
Todo cabra de valor,
Debaixo do sangrador,
De sujeito mais safado,
Abriu desde seu costado,
Descendo o pau mete ripa,
Revirando então as “tripa”,
Deixando bem perfurado...

Empreitada como aquela,
Nunca mais eu vou saber,
Era coisa pra querer,
Sem pensar direito nela,
Por conta duma costela,
Que um sujeito me quebrou,
Mas deu o fora, vazou,
Nem notícias nem recado,
Correu pelo descampado,
Nem rastro dele ficou...

Esse maldito chulé
Dera de contar vantagem,
Isso é muita sacanagem,
Não vou deixar isso a pé,
Nem que fique tereré,
Não vou fazer de rogado,
Eu pego esse desgraçado.
Eu vou tirar isso a limpo,
Soube que está num garimpo,
Vou matar esse viado...

Peguei a minha mochila,
Despenquei, fui para lá,
Tem gente falou não vá,
Mas tem defunto na fila,
Fui correndo pr’essa vila,
Eu nem pensei duas vezes,
Quero a cabeça do sapo,
Arranco logo no papo,
Que é assim que matam reses...

No garimpo lá no Norte,
Procurei por toda parte,
Não pedindo nem aparte,
Estava com gosto de morte,
Apostei na minha sorte,
Pro garimpo fui correndo,
Mal o sol ia nascendo,
Eu nem esperei brotar,
Querendo depressa chegar,
Vingança assim, vou vivendo...
Chegando no mafuá,
Encontrei cabra valente,
Ouro tinha até no dente,
Tanta gente tinha lá
De todo jeito que dá;
Tinha velho desdentado,
Tinha cabra magoado,
Por causa duma mulher,
Todo jeito que quiser,
Muito pudim de cachaça,
Tem sujeito boa praça,
A desgraça que vier...

Perguntei pra todo mundo,
Onde estava o desafeto,
Que por certo, tava perto,
Ele chamava Raimundo,
Era um cabra vagabundo,
Tinha cicatriz na cara,
Bigode tinha na apara,
Uma cara de paçoca,
Uma cor de tapioca,
Ia sangrar numa vara...

Me pediram com cuidado,
Muita vagareza e tino,
Pois ele tinha o destino,
E o corpo tava fechado,
Que por mais que fosse errado,
Com ele ninguém bulia,
Era o rei da valentia,
Sujeito muito covarde,
Que antes que a noite tarde,
Matava mesmo de dia...

Camarada sem tempero
Senhor dessas taperas,
Maior fera entre essas feras,
Temido por companheiro
Rei dum reinado inteiro,
O maior dos assassinos,
Herói de todos meninos,
O superhomem de lá
Nó em jararaca dá,
Dobrava todos os sinos...

Sem ter medo de valente,
Cara feia e assombração,
Matador desse sertão,
Pensei dum modo decente
De levar esse vivente
Pra casa de Satanás,
Dei dois passos para trás,
Chamei esse tal Raimundo,
Que era fedorento e imundo,
Que só morte satisfaz...

Na hora do desafio,
Ele me reconheceu,
E sabendo quem sou eu,
Chamou espada no fio,
Convidando mais um trio,
Prá “mode” poder brigar,
Gostei do desafiar,
Quatro sujeito é demais,
Mesmo assim eu quero mais,
Nunca vou me acorvadar...

Porém com o sangue quente,
A gente não pensa, demora.
Eu nem pensei, nessa hora,
Que tinha lá muita gente,
Que era melhor, de repente
Esconder e tocaiar,
Podia escolher lugar
Pra pegar esse safado,
Mas deixei tudo de lado,
E com ele fui lutar...

Depois de já ter furado,
Um dos cabras de Raimundo
Uma faca entrou bem fundo ,
Me machucou desse lado,
Agora eu já tô ferrado,
Chegou a hora da morte,
Acabou a minha sorte,
Minha sina terminou,
Pensei que tudo acabou;
Mas meu Deus tem muito porte...

Na hora que eu precisava,
De uma ajuda de meu Deus,
Surgiu um cabra dos meus,
Que eu nunca que imaginava
Que esse camarada tava,
Endiabrado, esse dia,
E no mei da ventania,
Sacou de sua peixeira,
Na porrada fez fileira,
Fez à sua serventia...

Esse sujeito do Norte,
Parecia mais menino,
Chamado de Virgulino,
Não temia dor nem morte,
Para culminar a sorte,
O moço meio zarolho
Era cego só dum olho,
Mas enxergava por dois,
Numa conversa depois,
Temperou com muito molho...

Contou que era garimpeiro,
Veio de Serra Talhada,
Corria na vaquejada,
Percorreu sertão inteiro,
E que desde fevereiro,
Nesse garimpo chegara,
Que cedinho já notara,
Naquele tal de Raimundo,
Um sujeito vagabundo,
Que esse dia preparara...

Força de eu ter conhecido,
Pros lado de Pernambuco,
Um cabra bom de trabuco,
E muito do divertido,
Resolvi por mais sentido,
Nessa nossa ladainha,
Perguntei nessa tardinha,
De quem ele era parente,
Fiquei quieto de repente,
Com a resposta que tinha...

Contou-me, pra susto meu,
Que era neto de Zefinha,
Moça dessas bonitinha,
Que no passado viveu,
Que de perto conheceu,
Com muito beijo e abraço,
Moça pegada no laço,
Nas terras desse sertão,
Que teve com Lampião,
O rei de todo cangaço,

Um moleque bem criado,
Um sujeito musculoso,
Cabra muito perigoso,
Campeão de todo o gado,
Esse peão afamado,
O rei de todo sertão,
Era cara e coração
Do pai, sujeito valente,
Compreendi, bem de repente,
Que o neto de Lampião

Era o tal de Virgulino,
Que lutou junto comigo,
Sem temer nenhum perigo,
Sem ter medo do destino
Que com todo desatino,
Ajudou a terminar
Com quem quis me machucar,
Me pegar na covardia,
Mas com toda valentia,
Me ajudou comemorar...

E desde aquele incidente,
Agora não tem jeito não,
Quando vamos no sertão
Ninguém bole com a gente,
Nem na faca ou no repente,
Quem queira corre perigo
Mexeu com ele ou comigo,
Na ponta duma peixeira,
Arrepende a vida inteira,
Depressa vem o castigo...

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

"... e  em lugar de ouro, de prata  e de outros bens que servem de moeda em outras regiões , aqui a moeda é feita de pessoas , que não são nem ouro, nem tecidos, mas sim, criaturas. E a nós a vergonha e a de nossos predecessores , de termos , em nossa simplicidade, aberto a porta a tantos males (...) . "
Garcia II, rei do Congo, século XVII

folha de lótus e o escorregador de mosquito



  
"Como uma folha de lótus que não pode ser molhada, aquele que se liberou de seus desejos não pode ser maculado pelo mal." A capacidade de repelir água e emergir limpa de águas turvas levou os indianos a eleger o lótus como um dos símbolos da pureza espiritual. A passagem acima, extraída do poema Bhagavad Gita, descreve o fenômeno.

As gotas de água escorrem muito facilmente pelas folhas de lótus. Sua superfície se apresenta sempre limpa e seca. Desde 1970, cientistas se perguntavam o que seria responsável por esse fenômeno. Superfícies capazes de repelir a água têm muitas aplicações tecnológicas, tanto na construção de tubos quanto de lentes e equipamentos ópticos. Em muitos instrumentos, a adesão de partículas e líquidos às superfícies é um problema constante.

Em 1990, examinando as folhas de lótus em um microscópio eletrônico, os cientistas descobriram seu segredo. A superfície das folhas é composta por micromontanhas e microcavidades. Quando uma gota de água cai sobre a folha, a água não consegue remover o ar das microcavidades. Portanto, toca a folha somente nos picos das micromontanhas.

Como a água interage com a folha em somente poucos pontos, a gota mantém sua forma esférica, não se espalha e corre sobre a folha livremente. Basta inclinar a folha levemente para que as gotas corram para a borda e caiam no chão, deixando a folha seca e limpa.

Nos anos seguintes, o princípio da folhas de lótus foi utilizado para construir materiais autolimpantes muito mais eficientes que o Teflon que reveste nossas panelas. Mas esses materiais, apesar de usados em muitas aplicações, têm seu uso limitado pela fragilidade. Basta um arranhão, um pouco de pressão ou um pouco de detergente na água e a microtextura perde a sua capacidade de repelir a água.

Agora, novamente inspirados pela folha de uma planta, um grupo de cientistas desenvolveu protótipos de superfícies que repelem água e óleos e ainda têm a capacidade de se regenerar.

Escorregador. A planta carnívora Nepenthes captura suas vítimas usando uma espécie de escorregador de inseto. Quando um inseto pousa na sua superfície, ela é tão lisa que o inseto escorrega e acaba caindo em uma cavidade no centro da folha (a folha tem o formato de funil). Nessa "boca", a planta acumula um líquido rico em enzimas capaz de matar e digerir o pobre mosquito.

Estudando a superfície das folhas de Nepenthes, os cientistas desvendaram o segredo desse escorregador hiperliso. A superfície da folha não é totalmente lisa, mas apresenta ranhuras e nanocavidades. Essas ranhuras e cavidades são preenchidas por um líquido não volátil (que não evapora) produzido pela planta. Esse líquido repele tanto a água quanto as gorduras. O resultado é que gotas de água e gordura não aderem à superfície. Como as patas dos insetos são recobertas por uma finíssima camada de gordura, eles derrapam e acabam virando o almoço da planta.

Inspirados por essa descoberta, físicos e químicos produziram diversos materiais com propriedades semelhantes às das folhas de Nepenthes. Superfícies feitas de nanofibras de Teflon foram recobertas com líquidos não voláteis (Fluorinert ou Krytox) que não se misturam com água ou com hidrocarbonetos. O resultado é uma superfície hiperlisa na qual gotas de óleo ou água não aderem e escorrem rapidamente.
O mais interessante é que, pelo fato de as gotas interagirem com uma camada muito fina de líquido, a superfície regenera facilmente. Se riscamos a superfície, o microfilme líquido se redistribui, regenerando a propriedade original. O mesmo ocorre quando se aplica pressão.

Essa descoberta abre a possibilidade de, no futuro, podermos utilizar materiais quase impossíveis de sujar. Se eles aparecerão no vidro dos celulares, nas lentes de câmeras fotográficas ou no fundo de nossas panelas, ainda é cedo para prever.

É interessante observar como a ciência pode partir de um poema indiano, passar por um escorregador de inseto e criar panelas impossíveis de sujar.

BIÓLOGO , , MAIS INFORMAÇÕES: BIOINSPIRED SELF-REPAIRING SLIPPERY SURFACES WITH PRESSURE STABLE OMNIPHOBICITY. NATURE, VOL. 477, PÁG. 443, 2011 - O Estado de S.Paulo

- FERNANDO REINACH.20 Oct 2011

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

'...a turbulência que atravessa os EUA...'




Alguns falantes tendem a entender "os Estados Unidos" como uma unidade, uma coisa só


Dia desses, num dos programas de uma das emissoras que carregam o "News" no nome, ouvi a frase que dá título a esta coluna. Na verdade, não se disse "os EUA", e sim "os Estados Unidos".
Como se sabe, em se tratando do padrão formal da língua, a expressão "Os Estados Unidos" (quando sujeito) exige o verbo no plural, já que o artigo ("os") aparece flexionado no plural. Em sendo assim, são do padrão culto construções como "Os Estados Unidos certamente nunca imaginaram que um dia passariam pelo que estão passando" ou "Ao longo da história, os Estados Unidos produziram mais guerras do que qualquer outra coisa".
Na outra ponta, isto é, no uso efetivo da língua, sobretudo na fala, constata-se que não são raras construções como "Os Estados Unidos certamente nunca imaginou que..." ou "Ao longo da história, os Estados Unidos produziu mais guerras do que...", em que o verbo é posto na terceira pessoa do singular. A explicação para esse fato é simples: alguns falantes tendem a entender "os Estados Unidos" como uma unidade, ou seja, como uma coisa só, um país, e aí fazem a concordância com a ideia e não com a forma. Muita gente chega a dizer "o Estados Unidos" (sim, com o artigo no singular), o que evidencia ainda mais a ideia de que se considera o nome próprio "Estados Unidos" como uma unidade, uma coisa só.
Como já afirmei diversas vezes neste espaço, explicações como as que acabamos de ver dizem respeito mais à linguística do que à gramática. Como se sabe, a linguística não diz como deve ser; diz como é (e tenta explicar por que é como é).
Posto isso, convém dizer que, em linguagem formal, a construção predominante é a que apresenta o verbo no plural: "Os Estados Unidos são um dos três países que formam a América do Norte"; "Os Estados Unidos ainda conseguem aplacar sua crise vendendo seus títulos". Pois bem. E como fica a frase que está no título desta coluna? Quem atravessa quem? A julgar pelo que ocorre no padrão formal da língua, diz-se que a turbulência atravessa os Estados Unidos, varre o país, percorre-o de ponta a ponta, mas... Mas, levando-se em conta o contexto em que a frase foi proferida, parece que se queria dizer que são os Estados Unidos que atravessam a turbulência, isto é, enfrentam essa turbulência, são atingidos por ela.
Em outras palavras, quando se analisa a construção em questão sob a ótica do padrão formal da língua, só se pode entender que é a turbulência que atravessa, atinge, varre os Estados Unidos. Para que se entendesse que são os Estados Unidos que atravessam a tal turbulência, seria necessário flexionar no plural a forma verbal escolhida: "...a turbulência que atravessam os Estados Unidos". Melhor mesmo seria a ordem direta: "...a turbulência que os Estados Unidos atravessam".
Fenômeno semelhante ao que se vê com "Estados Unidos" se dá com a palavra "óculos", que, no português do Brasil, há muito tempo virou substantivo que designa uma coisa só, uma unidade ("o óculos", "meu óculos"). Apesar desse uso mais do que difundido, as edições mais recentes dos nossos mais importantes dicionários e o "Vocabulário Ortográfico", da ABL, continuam registrando "óculos" como "substantivo masculino plural".
O "Houaiss", por exemplo, diz que é "erro a discordância de número (um óculos) que se tem vulgarizado no português coloquial do Brasil (formas corretas: uns óculos, meus óculos, um par de óculos)". O "Aulete" diz algo semelhante. É isso.

PASQUALE CIPRO NETO - 20 Oct 2011 




Escravos da infantilidade



Sábado à tarde, supermercado lotado. No caixa, paciência para os carrinhos abarrotados, mas dessa vez precisei de uma dose extra. À minha frente, ar aparvalhado, um jovem pai de família, forte e normal, esperava imóvel seus produtos passarem no caixa. Em pé, olhar perdido, boca entreaberta, fitava o vazio, só faltava o fio de baba.

Lembrava aquelas crianças carregadas junto com a família para um lugar que não lhes interessa, distraídas, alheias. Nesse supermercado existem empacotadores prestativos, mas eles não davam conta. Não custa ajudar, ir organizando, embalando junto.

No comportamento passivo do meu companheiro de caixa, impossível não evocar a figura do nobre, sendo vestido, banhado, alimentado e conduzido nos braços de seus servos ou escravos, um eterno bebê. Quanto mais evoluídos nos tornamos, caminhamos em direção à autonomia, prescindimos de serviçais. É assim com as crianças, que aprendem a cuidar de si cada vez melhor. Mas será que me comporto diferente quando consigo pagar um hotel mais estrelado?

Quem não curte café na cama macia, toalhas limpas, massagem, chofer? O que é um restaurante, senão ficar sentado enquanto o solícito garçom se dedica a atender nossos caprichos? São ocasiões em que voltamos no tempo, nas quais amar é maternar, cuidar. À vezes, ser independente exaure, queremos um mimo.

Trabalhos associados aos cuidados maternos primários, nos quais adultos adquirem privilégios de crianças, sempre foram desvalorizados. Mulheres, pessoas socialmente desvalorizadas, escravos, ocuparam os bastidores da nossa vergonha.

Na verdade, aquele que abre mão da autonomia também se abstém da liberdade que ela proporciona, da intimidade, da privacidade. Mães, pobres e escravos tornaram-se ralé da vida pública, escondidos no armário de nossa carência afetiva, associados ao medo de ficar sozinhos. A infantilidade é um segredo.

Entregar-se nos braços de alguma comodidade é uma delícia, mas como exceção, descanso de guerreiro, conquista. É gostoso, um luxo que só é tal se não for um hábito. Mas no dia a dia, a dependência é uma forma de alienação, uma existência empobrecida.

Que dizer de alguém, aparentemente crescido, que precisa se fazer adotar pelo primeiro empacotador franzino que encontra pela frente? Por favor, supermercado não é spa, há adultos na fila!


DIANA CORSO -  12 Oct 2011 

Álbum de figurinhas




RIO DE JANEIRO - Meu neto João Ruy, que é português e mora em Lisboa, fez seis anos outro dia e recebeu do Brasil seu presente favorito: um álbum de figurinhas -no caso, o do Campeonato Brasileiro- e centenas de pacotinhos com as respectivas. É um brinquedo solitário, porque ele não tem com quem trocar duplicatas ou disputar no bafo-bafo. E, claro, só consegue identificar os jogadores do Flamengo, por quem torce ardentemente quando vem ao Rio, ou algum outro que atue pela seleção.
Mas João Ruy não se importa, e passa dias colando cromos de clubes e jogadores para ele desconhecidos. O prazer de completar uma página supera o fato de que muitos daqueles times e indivíduos continuarão a ser rostos e camisas no vazio, e que ele nunca os verá jogar.
Diante da informação de que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) concedeu registro ao PSD (Partido Social Democrático), fundado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e que este é o 28º partido na fosca constelação política brasileira, coloquei-me no lugar de João Ruy. Imaginei como seria um álbum de figurinhas sobre os partidos.
Cada página dupla seria dedicada a um deles. Traria informações como data de fundação, número de filiados, colocação nas últimas eleições, e mostraria suas cores, mascote, seus 20 principais nomes, o recordista em mandatos etc. -cada qual numa figurinha, como no álbum do Brasileirão.
A exemplo de João Ruy, eu e milhões de brasileiros colaríamos figurinhas de gente que, em grande maioria, nunca vimos e, no caso, é melhor mesmo não ver. Um bando de ninguéns sem representatividade, homiziados em partidos de cujas siglas só se ouve falar quando discutem com o governo ou com a oposição sobre quem dá mais pelos seus miseráveis votos.


RUY CASTRO -  30 Sep 2011 

Abaixo o sutiã



SÃO PAULO - "Amor, eu estourei o limite do cartão de crédito. Do seu e do meu." Vestida e afetando culpa no tom de voz, Gisele Bündchen dá a má notícia ao marido imaginário. Essa é a maneira errada de abordar o assunto. A maneira certa, explica a propaganda de lingerie estrelada pela modelo, é de calcinha e sutiã, requebrando com a mãozinha na cintura e a fala sensual.
Se a propaganda está no ar, é porque deve ter alguma eficácia. Mas não é preciso muito para perceber que estamos diante de mais uma fashion-cafajestada, entre tantas outras do mercado da publicidade, basta ligar a TV para constatá-lo.
Pior, no entanto, do que o apelo ao machismo mais vulgar é a disposição do governo para combatê-lo recorrendo à censura. A Secretaria de Políticas para as Mulheres acionou o Conar, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, para tirar a peça do ar. É uma medida obscurantista, além de desencadear o efeito contrário ao pretendido por essas feministas de tesoura.
A propaganda, diz a secretaria, reforça "o estereótipo equivocado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora os grandes avanços alcançados para desconstruir práticas e pensamentos sexistas". Sim, estamos de acordo -mas e daí?
Em nome de que a propaganda deve estar necessariamente em sintonia com valores progressistas ou submetida à visão igualitária da relação entre o homem e a mulher?
Como conciliar a defesa da emancipação e dos direitos da mulher com a opção regressiva e autoritária pela censura? O que, afinal, é mais nocivo e perigoso para quem aspira viver numa sociedade com menos discriminação e mais esclarecida: a moral da história do anúncio ou a iniciativa do governo para bani-lo da tela?
Com sua cruzada, a ministra Iriny Lopes folcloriza as atribuições de uma pasta que tem assuntos reais para enfrentar. Só falta lançar uma campanha de esclarecimento público: Gisele Bündchen faz mal à saúde.



FERNANDO DE BARROS E SILVA - 30 Sep 2011

O maior medo do homem



Não é a morte o que mais assusta o homem. É o acaso. Contra o acaso, o homem constrói sistemas de pensamento, filosofias, mitologias, religiões. Para se proteger do acaso, o homem criou Deus. Aí está: o homem se diz criatura, quando é o criador.

Mas crentes e carolas não precisam se ouriçar, não estou pregando o ateísmo. Porém, é preciso entender que, ainda que Deus exista, Ele continuará sendo uma abstração. A ideia de Deus tem de ser aprendida. E, se tem de ser aprendida, tem de ser concebida. Criada. Logo, Deus é criatura. Zeus, Amon, Jeová, Astarte, Cibele, Alá, Tupã, seja qual for o nome do ser divino, ele tem de ser concebido pelo homem, junto com sua mitologia.

E por que o homem teve de criar Deus? Por que existe essa necessidade em todo lugar e em todo tempo? Exatamente para que o homem possa se defender do acaso. O acaso é tão apavorante, que o homem criou até o diabo para combatê-lo.

É preferível enfrentar uma legião de demônios com intenções bem claras e regras de comportamento definidas do que simplesmente cogitar a hipótese de que as coisas possam acontecer sem que sejam movidas por razão alguma.

Você precisa encontrar um desígnio oculto por trás de qualquer ocorrência da sua vida. Toda consequência teve uma causa. E, se toda consequência tem uma causa, em tudo podem ser vistos méritos e culpas. Você faz tudo certinho, age bem, é uma boa pessoa, não faz nada de errado?

O Todo-Poderoso o recompensará com uma vida venturosa. Você faz coisas erradas, oprime o próximo e rouba a merenda escolar das criancinhas? Você será punido em algum momento, você não perde por esperar as terríveis consequências de seus atos.

É assim que deveria ser, se o acaso não existisse. Se o mundo fosse justo. Mas o acaso existe. Mas o mundo não é justo. Coisas ruins acontecem a todo momento com pessoas que não merecem sofrer. Coisas boas acontecem a todo momento com pessoas que não merecem a felicidade.

Canalhas são homenageados, incompetentes ganham aumento, oportunistas usufruem da fama, cofres caem do oitavo andar, vírus são contraídos pelo ar, rádios tocam axé a cada minuto. A vida é cheia de perigos e você não pode fazer nada para evitá-los. O mundo está repleto de cafajestes e muito provavelmente a maioria deles jamais será punida. Não adianta rezar. Não adianta cultivar superstições. Não adianta esperar pela intervenção transcendental.

Adianta, um pouco, prevenir-se. Pessoalmente, há muitas formas de prevenção. A principal delas é zelar pela saúde. Comunitariamente, o Estado tem a função de fazer a prevenção. No caso de o Estado estar acometido de alguns desses males, como a corrupção endêmica brasileira, só se pode, mesmo, fiscalizar.

E a fiscalização só é viável quando ocorre em âmbito municipal, quando o cidadão encontra a autoridade na farmácia, no supermercado, na igreja, no estádio de futebol, e o olha na cara, e cobra, com o mero olhar, o efeito de seus atos. A municipalização não tem poder divino, não evita a corrupção, não impede a ação de cafajestes nem as tramas incompreensíveis do acaso. Mas ajuda a preveni-los.

DAVID COIMBRA -  21 Oct 2011 





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Quanto mais pobre o cidadão, mais impostos



A partir da declaração do megainvestidor americano Warren Buffett, a terceira maior fortuna do mundo, pedindo aumento dos impostos para os mais ricos nos Estados Unidos, vários milionários europeus também passaram a defender essa medida naquele continente. Nesse contexto, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, encaminhou ao Parlamento proposta para que os ricos que tenham renda anual acima de € 500 mil passem a pagar uma sobretaxa provisória de 3%.

Esse fato é um bom motivo para discutirmos a carga tributária brasileira, já que nosso país é um dos mais injustos do planeta na cobrança da tributação. Os mais pobres são quem paga, proporcionalmente, mais tributos no Brasil, e não os ricos.

Nesse contexto, é importante lembrar que há um projeto de reforma tributária na Câmara dos Deputados que permanece "adormecido", aliás, como ocorreu com todos os outros elaborados nos últimos anos no Brasil. O debate em torno desse assunto no país acaba centrado em grande parte no aspecto da diminuição dos impostos porque a carga tributária é alta em relação aos serviços que o Estado oferece. Os que mais defendem a diminuição dessa carga são os empresários, baseados no argumento de que pagando muitos impostos seus negócios são dificultados. Fica praticamente excluída do debate a maioria da população brasileira e, principalmente, sua camada mais pobre - proporcionalmente a que paga mais impostos -, que não tem a menor ideia de quanto eles pesam no seu bolso.

Estudos desenvolvidos pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) comprovam claramente tal situação. Segundo um levantamento de 2008, pessoas cuja renda mensal familiar alcançava até dois salários mínimos comprometiam 53,9% de seus ganhos com o pagamento de tributos, enquanto que outras, com renda superior a 30 salários mínimos, comprometiam apenas 29%.

Outro dado de destaque nesse estudo do Ipea: um trabalhador que recebia até dois salários mínimos precisava trabalhar 197 dias para pagar os tributos, enquanto outro que ganhava mais de 30 precisava de três meses a menos de trabalho, ou exatos 106 dias.

Essa situação ocorre porque cerca de 50% da nossa carga tributária é indireta, isto é, incide sobre o consumo, atingindo indiscriminadamente toda a população, independentemente da renda e da riqueza de cada um. A cobrança da maioria dos tributos vem embutida no preço final das mercadorias. Vejamos um exemplo significativo:

Um cidadão que ganha R$ 1 mil por mês e coloca R$ 100 de gasolina no tanque do seu carro está pagando R$ 53 de impostos. Enquanto outro que ganha R$ 30 mil e abastece o tanque pelo mesmo valor também paga os mesmos R$ 53, levando isso à injustiça apontada.

Nos países capitalistas desenvolvidos, ao contrário daqui, a maior parte da carga tributária é direta e recai sobre a renda, a riqueza, a propriedade e a herança. Esses critérios são mais justos do que os existentes no Brasil porque tributa diretamente quem ganha mais e tem melhores condições de pagamento.

Segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), nos Estados Unidos a renda é responsável por 49% da carga tributária. Se comparado com o Brasil, que é de 19%, naquele país é 150% maior que a nossa. A média desse tributo nos países pertencentes à OCDE é de 37%, quase 50% maior que a brasileira.

Sobre a propriedade a carga americana é 10%, cerca de três vezes maior que a brasileira, que é de 3%. Na OCDE a média desse tributo é 6%, o dobro da nossa. Em relação ao consumo, ocorre justamente o inverso. Enquanto na carga tributária brasileira esse tipo de tributos representa em torno de 47%, na americana representam 16% e na OCDE ela representa na média, 37% do total. Esses dados confirmam que nos países desenvolvidos há muito mais justiça tributária que no Brasil.

Dois exemplos ilustram as diferenças entre aqueles países e o Brasil. Na Inglaterra, por exemplo, o imposto sobre a herança é cobrado há mais de 300 anos. Quando da morte da princesa Diana, em 1997, os jornais noticiaram que o fisco inglês cobrou de sua herança o imposto de US$ 15 milhões, metade dos US$ 30 milhões deixados para seus filhos. Naquele país, a taxação é apoiada até mesmo pelos conservadores. Segundo matéria da revista "Veja", publicada em setembro de 2007, o primeiro-ministro inglês Winston Churchil, que conduziu a Inglaterra na luta contra os nazistas, costumava dizer que o imposto sobre a herança era infalível para evitar a proliferação de "ricos indolentes". Por outro lado, no Brasil, o Imposto Territorial Rural - ITR arrecadado em todo o ano de 2007 e em todo território nacional, foi menor do que dois meses de arrecadação do IPTU da cidade de São Paulo. Esses dados falam por si.

Não há dúvida que esse é um tema delicado e já causou ou foi pretexto para inúmeras revoluções. Dois exemplos são significativos. A data nacional da independência americana, 4 de julho, faz lembrar que uma das razões que foram amadurecendo para o início da guerra de libertação foi a cobrança de impostos como o Sugar Act (1764), do Stamp Act (1765) e o Tea Act (Lei do Chá, 1773). No Brasil, a Inconfidência Mineira, tentativa de libertar o Brasil de Portugal, que resultou no enforcamento do herói Tiradentes e no desterro das lideranças envolvidas no movimento, teve como motivo principal da revolta a "derrama", isto é, a cobrança de impostos atrasados feita pelos colonizadores portugueses aos moradores de Minas Gerais.

Diante dessa realidade, é necessário e urgente abrir um espaço na mídia e na sociedade brasileira para discutir a enorme injustiça que há entre nós e, consequentemente a necessidade de aprovação de uma reforma em que os tributos diretos pesem mais que os tributos indiretos na composição da carga tributária. Isso significaria uma das formas mais importantes de redistribuir a renda entre nós.

Finalmente cabe uma pergunta: por que no Brasil os banqueiros, grande empresários do agronegócio, das empresas nacionais e multinacionais, não tomam a iniciativa que foi tomada pelos ricos nos EUA e na Europa, isto é, propõem uma sobretaxa sobre seus ganhos?

Odilon Guedes é mestre em economia pela PUC/SP. Professor universitário e membro do Conselho Regional de Economia-SP. Foi presidente do Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo, vereador e subprefeito de São Paulo.

 21 Oct 2011 

Pensamentos repetitivos




Minha geração cresceu buscando liberdade, bem diferente dos adolescentes de hoje, que trocaram o idealismo por um notebook. Um jingle da época dizia que liberdade era uma calça velha, azul e desbotada, mas isso era apenas uma metáfora para uma liberdade que significava morar sozinho, trabalhar e tomar as próprias decisões – os alicerces para a independência.

O tempo passou e nossa independência se adequou às responsabilidades da vida adulta. Casamento, profissão, paternidade: nos mantivemos livres, pero no mucho. A liberdade plena passou a ser exercitada apenas em área restrita: dentro da nossa cabeça. Ainda podemos pensar o que quisermos. Nosso poder de criatividade segue intacto. E incentivo para exercitar o cérebro nunca faltou: livros, jornais e uma rede de informações que cresce a cada dia.

No entanto, em vez de usar o cérebro como uma forma de libertação, ficamos escravizados por ele. Muitos preferem segurança à liberdade, e então criam um pacote de pensamentos repetitivos ao qual se agarram por décadas, sem nem questionar, sem nem se dar conta de que talvez já não pensem mais daquela maneira.

“Nunca vou conseguir fazer isso”, “Não fui feito para tal coisa”, “Jamais financiarão essa minha ideia maluca”, “Meu pai não me perdoaria”, “Fulana não vai mudar” são pensamentos recorrentes que impedem que arrisquemos.

Não passa pela nossa cabeça que o pai perdoaria, sim, e que ideias malucas podem encontrar incentivadores, e que só é impossível conseguir aquilo que não ousamos tentar. Mas você topa pensar diferente do que pensava antes? É esse o acordo.

Ninguém vai virar um Einstein ou um Steve Jobs por desamarrar-se de suas crenças imutáveis. Mas há um ganho real em ser capaz de abandonar os pensamentos de estimação, mesmo que considere estar traindo a si mesmo. Ora, se as pessoas não conseguem nem mesmo manter suas juras de amor eterno ao parceiro, por que precisam manter juras de amor eterno a um pensamento estagnado?

Pode-se viajar pelo mundo, ir para um lado, para o outro, mas quem continua pensando sempre igual, quem não reavalia suas convicções, permanece imobilizado.

Abandonar uma postura, reposicionar-se, experimentar. Esse é o verdadeiro espírito de liberdade que Steve Jobs deixou como herança, e esse espírito é mais importante que a invenção de iPods, iPhones e iPads, ferramentas modernas, mas que também são manuseadas por gente travada. Pensar diferente não é criar ou usar tecnologia: é recriar-se e usar-se. E isso é possível a qualquer um.


MARTHA MEDEIROS -  12 Oct 2011 

O que há numa escrita?




A todos nós foi dada a capacidade de falar. E a alguns a de escrever essa forma admirável de pensar. Nela, falamos sem produzir sons, mas desenhando símbolos. O lado de dentro importa mais do que o de fora. É normal escrever para si mesmo já o falar nos leva a um hospício. Na fala e na escrita há ouvintes e leitores, mas na fala o interlocutor deve estar presente, pois as palavras exigem o outro. Já na escrita, é preciso desenrolar o pergaminho, abrir o livro ou a carta para ouvir o seu autor (ou autores) e descobrir o seu espírito e as suas intenções. Ou imaginar o eventual leitor. Num caso, o som tem parentesco com o barulho e o caos; no outro, há aquele silêncio que é a marca maior do ato de escrever - essa nobre, essa soberana, essa orgulhosa e altruística ação que só nós, humanos, conhecemos, pois o escrever fica, mas o falar passa...

* * *

Nesta semana rotineira com correios e bancos em greve, fico fascinado com a novidade de que o universo se expande - tal como o capitalismo chinês - em alta velocidade. Os chamados astrofísicos são mitômanos levados a sério, enquanto os do cinema e da televisão são jogados no lixão dessa nossa "baixa-modernidade", como me ensinou o Eduardo Portella. No caso dos astrofísicos, impressiona-me a sua obsessão com as origens do universo, algo que eles compartilham com os modestos pensadores tribais, os quais são parte de minha primeira vida como etnólogo, quando eu corria atrás de índios nas fronteiras de um Brasil que ainda não tinha conseguido morder o próprio rabo.

Ouvi, transcrevi e li à exaustão mitos de origem. Aliás, a mais celebrada teoria do mito - a do consagrado Claude Lévi-Strauss -, escrita no início dos anos 50 e desenvolvida na sua fabulosa tetralogia intitulada Mytologiques (publicada entre 1964 e 1971), os mitos existem para responder a perguntas sem resposta. Por que o mundo foi inventado? De onde veio a humanidade com a sua moral e os seus meios de sobrevivência? Como foi que os animais se distinguiram dos homens? Por que são necessários dois seres humanos para fazer um? De onde veio a morte se no início dos tempos a humanidade era tão imortal quanto os membros da Academia Brasileira de Letras?

Os contadores de mitos das sociedades sem escrita, sem constituição e sem cálculos complexos (até hoje estigmatizadas como "selvagens" e "primitivas"), dizem que o humano foi inventado num tempo imemorial, implantado pelas palavras de uma língua cuja origem é, por sua vez, contada num outro mito pois, conforme aprendi com Lévi-Strauss e, sorry..., com Thomas Mann, um mito pensa e remete a outro mito, tal como a música, os livros, os deuses, a poesia e o amor se pensam indefinidamente entre si. Assim, eles sabem como, mas não quando, o mundo surgiu. Já os nossos astrofísicos são mais apaixonados pelo quando do que pelo como.

Para qualquer ser humano, pensar em termos de nano-segundos é impossível, do mesmo modo que é humanamente inconcebível imaginar uma unidade temporal para além de 10 mil anos. Pois, tirando os poetas que, como diz Kundera, dizem tudo, ninguém pode ter um sentimento de milhões de anos. Só uma fórmula matemática traduz esse tempo intemporal. Mas entre a fórmula científica e a fórmula que eu ouvia de Tia Amália quando iniciava suas histórias - "Isso aconteceu no tempo que os animais falavam...", eu acho mais razoável e - sorry novamente - até mesmo mais racional, ficar com Titia...

* * *

Fiz uma conferência e ganhei uma caneta-tinteiro. Na viagem de volta, preso na dura solidão coletiva de um avião lotado pelo duopólio aéreo instituído no lulo-petismo, escrevi o meu velho nome. Fui imediatamente remetido a Juiz de Fora e a uma humilde escola do bairro dos operários, quando a professora nos iniciou na nobre arte de escrever à tinta. Tomei contato com as penas de metal que, na ponta de um cilindro de madeira da pior qualidade (providenciada, é claro, pelo Ministério da Educação e Cultura), serviam como instrumentos de escrita depois de serem mergulhados nos frascos cheios daquele misterioso líquido azul-marinho.

A mestra explicava que escrever à tinta beirava o "eterno". Com o lápis tudo podia ser apagado como se não tivesse existido, exatamente como as palavras faladas a serem levadas pelo vento. Mas com a tinta, esse material perigoso (e marcante) que agora teríamos que usar, as coisas ficavam. Qualquer descuido, caía um pingo no papel, manchando-o e dele tirando a pureza feita em branco; por outro lado, se a "pena" ficasse saturada, a escrita transbordava o papel. Fomos depois apresentados a um personagem importante: o mata-borrão que como um guardanapo à boa mesa, acompanhava o ato de escrever à tinta.

Escrever à tinta dá asas à fantasia de imortalidade. É a antessala do livro, do decreto, da placa de bronze e do "documento". Pois entre nós - humanos -, a execração, o ódio, e o insulto cabem também ou até mais no papel do que na fala. A fala, sendo curta e exigindo a pessoalidade, tem mais limites do que a carta escrita com maldade e ódio, vingança e ressentimento. Ademais, a "escrita", como os decretos e as leis, pode ser anônima ou coletiva. Pois como aprendi com aquela humilde professora, o que falamos fica na memória, mas o que foi escrito permanece. Seja como um ato de amor ou como prova de arrogância e de transtorno mental. Cuidado, dizia ela, com o que você escreve à tinta - com aquilo que, impresso, não pode ser apagado.



 ROBERTO DaMATTA.: 12 Oct 2011 

Placa para Tenório




RIO DE JANEIRO - No dia 18 de março de 1976, o pianista brasileiro Francisco Tenório Jr., 33, estava em Buenos Aires para uma temporada no Teatro Rex com seus patrícios Vinicius de Moraes e Toquinho. Naquela noite, saiu do hotel Normandie, onde estavam hospedados, e deixou um bilhete: "Vou comprar cigarros e um remédio. Volto já". Não voltou -nunca mais.

Fora confundido com um militante procurado pela ditadura argentina e levado preso. Por falar bem espanhol e com sotaque portenho, não acreditaram que fosse brasileiro, músico e inocente. Passaram a torturá-lo, com a colaboração, a partir do quinto dia, de agentes brasileiros da Operação Condor, braço internacional das ditaduras argentina, brasileira, chilena e uruguaia.

Nove dias depois, seus algozes se convenceram de que tinham se enganado. Mas, já então, Tenório estava cruelmente machucado. Pior: vira o rosto deles. Não podiam devolvê-lo à rua. O jeito era matá-lo, o que fizeram com um tiro, no dia 27. Dali Tenório foi dado como "desaparecido", e o Brasil nunca se empenhou em elucidar o fim de um de seus filhos mais talentosos -autor, em 1964, aos 21 anos, do grande disco instrumental "Embalo".

Os detalhes gravíssimos sobre a morte de Tenório só começaram a aparecer dez anos depois, em 1986, e mesmo assim porque um membro da inteligência argentina resolveu contar. Pois, agora, os argentinos, que não estão varrendo a sua ditadura para debaixo do tapete, nos darão em breve nova lição.

No dia 16 de novembro, às 14 h, a cidade de Buenos Aires, por iniciativa do deputado portenho Raul Puy, homenageará Tenório com uma placa na fachada do hotel Normandie, na rua Rodríguez Peña, 320, de onde ele saiu para morrer. Ela dirá: "Aqui se hospedou este brilhante músico brasileiro, vítima da ditadura militar argentina".

RUY CASTRO - 22 Oct 2011 


Poema na madrugada



O fotógrafo Tiago Trindade, dono de um estúdio e credenciado por diversas associações jornalísticas, me escreve, reclamando de que quer fotografar eventos no interior da Igreja São José, em Porto Alegre, mas o pároco não lhe concede licença. Lá só podem atuar fotógrafos credenciados pela igreja, que já são muitos, não havendo mais lugar para outros.

Escreveu-me para quê? Que posso fazer por ele? A não ser talvez dar este destaque que estou dando neste canhão que é esta coluna.

Mas eu escrevi isso porque quero concluir o seguinte. Noto fotógrafos brigando por fotografar casamentos em igrejas, fazendo de tudo para fotografar casamentos nas igrejas.

São ansiosos por fotografar casamentos, mas não vejo nenhum fotógrafo vir até mim para fotografar o meu celibato.

Fotografariam cada cena do meu celibato!

Essa inspiração me surgiu agora,

De madrugada:

Eu já sei o caminho.

Por isso não tenho surpresas.

Já sofri ingratidões,

Já fui traído, igualmente traí.

Agora mesmo estou passando por grande infortúnio.

E nem sei como reuni forças para enfrentá-lo.

Outra vez, me aprisionaram

Numa camisa de força

De que ainda não pude me livrar.

Tristeza, poxa, se fosse só tristeza

Que eu tivera!

Bati contra coisas mais graves

Povoando a minha mente.

Tive agonias. Quase tombei

Em face de calúnias e mentiras

Que inventaram sobre mim.

Mas ainda nos lábios das gentes

Afloram muitas verdades a meu respeito.

Fui vaiado mas também

Tive aclamações.

Dividi o palco, como intruso bem-vindo,

Com grandes artistas.

Quase não posso sair às ruas,

Todos querem me saudar.

Valeu a pena, aqui estou ainda

A colher os frutos e os castigos

Dessa longa caminhada.

Quantas vezes ouvi dela: “Não me deixa

Nunca, pelo amor de Deus!”.

E quantas vezes eu disse a ela:

“Não me deixa nunca, pelo amor de Deus”.

Nos deixamos.

Vivi, sofri, tive filhos, tenho netos

Que vão me suceder nas esperanças.

Vim e ainda não fui.

Será que resta algo mais a ser vivido?


PAULO SANT’ANA -  22 Oct 2011 

Tramas da memória


DAVID COIMBRA - 



Uma vez explodiu uma fábrica de fogos de artifício no Navegantes, perto de onde morava o meu avô. Quadras inteiras foram arrasadas, como se o bairro tivesse sido bombardeado pela Luftwaffe. Pedaços de pessoas voaram pelos ares e aterrissaram quilômetros adiante. Os sobreviventes não identificavam mortos; identificavam partes deles. Uma moça reconheceu o braço do pai pelo anel que ainda levava no dedo, um rapaz sabia que aquela era a perna do amigo pelo sapato de pele de crocodilo que lhe restara no pé. Meu irmão, que era bem pequeno, ficou traumatizado. Repetia a toda hora:

– Bum! Bum!

Foi exatamente isso. Ou será que não foi bem assim? Juro que tenho essa história impressa na memória como algo que realmente aconteceu, mas, agora, passados tantos anos, duvido de mim mesmo. Tenho quase certeza de que a explosão da fábrica ocorreu, mas será que foi tão trágica?

Pedaços de gente voaram como bem-te-vis pelo céu da cidade? A história da mão com o anel. Estou vendo agora mesmo a mão com o anel, a filha assistindo à cena com a boca escancarada de horror. Parece que fui testemunha. Fui mesmo? Ou alguém inventou e me contou? Ou eu inventei?

A memória é ardilosa. Quando estava escrevendo o livro sobre a história dos Gre-Nais, entrevistei centenas de jogadores do passado. Eles contavam uma história da qual tinham sido protagonistas, depois eu ia falar com outros envolvidos e esses relatavam o mesmo episódio de forma diferente.

Então eu ia aos jornais da época para descobrir quem estava certo. E lá havia mais uma versão, que não raro pouco tinha a ver com o que me haviam dito uns e outros personagens. Não que pretendessem mentir, nada disso. Eles ACREDITAVAM no que contavam. Era o que estava gravado na sua memória.

Existe uma memória coletiva, também. Imagens e reputações se constroem, versões se consagram. Difícil distinguir a realidade crua da réstia de fantasia. Pensando bem, talvez nem exista realidade crua. Talvez tudo seja representação da realidade. E agora, lembrando daquele naco de tempo mais ou menos próximo de quando deve ter ocorrido (ou não) a terrível explosão da fábrica de fogos, percebo como tudo está mesclado, superposto ou contraposto na minha lembrança.

Vejo-me pedalando minha Calói Zero azul-escura, minha irmã Silvia de pé na carona e meu irmão Régis sentado na barra do guidom. Estamos indo até um silo de cereais ali pertinho para subir no morro formado pelas sacas e lá de cima, rente ao teto, nos atirarmos na piscina de grãos abaixo, onde ficávamos enterrados até a cintura. Anos depois li que um menino se afogou nos grãos fazendo exatamente isso. Os perigos da infância.

Vejo Figueroa matando a bola no peito de lenhador e saindo da área com o queixo erguido, a passada larga, a cabeleira esvoaçante, ou será que esse é Beckenbauer, o Kaiser, o homem que não conhecia a cor da grama porque não olhava para baixo, ou será que é Didi, o Príncipe Etíope, que se orgulhava de jamais ter pisado na bola? Não, Didi não podia ser, nunca vi Didi em campo, mas vi o shortinho branco da Alice,

oh, lembro bem daquele shortinho branco e das pernas dourado-escuras da Alice, as primeiras pernas de mulher em que toquei, quase não acreditei quando senti a textura macia da sua pele e senti também vertigens, pensei que ia sair flutuando do Fusca verde do pai dela, que era onde estávamos, eu e Alice e suas coxas de chocolate ao leite, e falando nisso vem-me a imagem do Choco Preto e Branco, acho que não existe mais Choco Preto e Branco, nem Beijo de Moça,

nem quebra-queixo, nem bala gasosa, até porque diziam que bala gasosa matava a criança que a engolia inteira, a bala gasosa era do tamanho de uma bola de pingue-pongue, eu que era bom no pingue-pongue, dava um saque de revesgueio, mas não tão bom quanto o Edu Brites, que batia forte na bolinha, o Edu Brites tinha saque forte, inhaque forte e também tinha um chute forte,

uma espingarda na perna direita, talvez tão forte quanto o chute do Éder, só que o Éder era canhoto, os canhotos são revoltados e uma vez li que o Éder era revoltado porque, quando criança, uma serpente enroscou-se nele durante uma enchente em Belo Horizonte, deve ter sido uma enchente tipo a de 41 em Porto Alegre, o meu avô vivia me mostrando a marca da enchente na parede da casa dele no Navegantes, uma marca alta, ele tinha de levantar a mão para tocá-la com o dedo indicador, ah,

eu adorava ouvir as histórias do meu avô e passei a gostar de futebol por causa dele, ele que torcia pelo Zequinha, mas admirava o Lara, o Tesourinha e o Foguinho, meu avô falava sempre do Foguinho e um dia eu o conheci, ao Foguinho, e o entrevistei tantas vezes que posso dizer que nos tornamos amigos, ao ponto de o Foguinho perguntar por mim quando já estava no fim da sua vida, doente, de cama, abatido, justo o Foguinho que prezava tanto a saúde e a força física e provo o que digo lembrando de um dia em que fui visitá-lo,

ele desceu para abrir a porta e me fez entrar, ele estava de pijama e chinelos, e nós nos acomodamos no elevador e eu perguntei “está tudo bem, seu Rolla?”, e ele me enviou um olhar triste, suspirou e respondeu “estava tudo bem quando eu tinha a sua idade”, e aquilo me deixou sem palavras, subi mudo até o nono andar e lá, no apartamento dele, seu Rolla tirou umas caixas de papelão do armário e começou a me mostrar fotos e viu uma do Pinheiro Machado, que disse ser “o maior homem” que já havia conhecido,

e finalmente tomou nas mãos uma pequena de Luiz Carvalho, o velho Rei da Virada, centroavante que foi presidente do Grêmio nos anos 70, na época em que talvez tenha explodido aquela fábrica de fogos de artifício no Navegantes, o bairro do meu avô, que admirava o Foguinho, e então o Foguinho pegou aquela foto e olhou para a imagem do seu amigo já morto e pensou por um momento e murmurou:

– Todos os dias eu penso no Luiz Carvalho.

Para isso também serve a memória.

 22 Oct 2011

O eixo


 MARCELO RUBENS PAIVA

Suas mãos embrulhadas em luvas de borracha limpam obsessivamente todos os cantos do banheiro. Ele passa escova na privada numa velocidade que deixaria qualquer observador tonto.

Na sala, esfrega panos nos vidros. São limpos, como se tivessem acabado de sair da fábrica, e a cidade fosse a menos poluída do mundo.

Passa aspirador. Espanador nos livros. Organiza as almofadas do sofá. Lava a louça e as enxuga com flanela.

É uma faxina completa, rito diário de quem trabalha em casa, vive só e não consegue organizar os pensamentos se um grão de poeira estiver no meio do caminho.

Lava as mãos gastando dez minutos e meio sabonete. E ainda as esfrega com álcool gel antisséptico.

O interfone toca. Ele atende e manda subir. Livra-se do avental, dá uma ajeitada no cabelo e coloca um jazzinho neutro, nada experimental, nem bebop, nem fusion.

Toca a campainha. Ele abre. Ela entra aflita, como sempre.

"Parei na vaga de idoso que tem na frente do seu prédio. Não tinha vagas", ela diz.

Beijam-se burocraticamente com a porta ainda aberta. Ele tranca. Ela joga as coisas pelo caminho. Ele recolhe e as coloca num cabideiro. Ela despeja a bolsa sobre o sofá e encontra um cigarro amassado no fundo. Ele prontamente pega um isqueiro, acende e fica segurando o cinzeiro, para quando ela precisar.

"Ele deu de controlar as minhas contas. Examina cada ligação do celular e reclama se tem alguma longa demais. 'Usa o Skype.' Reclama quando chega uma multa, critica o meu jeito de dirigir, fazer baliza, meus caminhos. 'Esta rua é a mais congestionada. Vai pela faixa da direita'. Imagina quando souber que voltei a fumar?"

Ela dá três tragadas rápidas. Enfim o agarra e o empurra até o sofá. Pula em cima dele, já sentado. Apaga o cigarro. Abre a barguilha dele, levanta a saia e se encaixa. Tira anel, pulseiras e colares. Joga-os displicentemente na mesa de centro. E fala, enquanto transam no sofá mesmo.

"Não suporto mais aquela arrogância, me examina quando saio, me avalia quando cozinho, testa minha inteligência, perguntando: 'Como é mesmo o nome do presidente da ONU?' Vivo tensa, como numa aula em que o professor faz prova oral. Ai, como é bom... Todo metódico para dormir, acordar, é uma pedra que tem respostas para tudo, nunca chora em velórios, sente-se superior a todos. Ai, assim eu gozo... Sempre me aparece com novidades: 'Olha esta gravação rara de Callas. Viu o novo aplicativo que instalei? Leu o blog do fulano?' Detesto ópera, detesto telejornais, detesto a ONU, a OEA, blogs, e ele insiste: 'Viu o que o fulano escreveu? Você concorda com ele?' Ai, para, não para, ai, gostoso, gostoso, gostoso, ai..."

Ela goza. Joga a cabeça sobre o ombro dele. Respira fundo. Sussurra no ouvido dele:

"Delícia..."

"Eu estava com saudades", ele diz.

"É?"

"É."

"Eu também."

"Você também?"

"É."

"Estava nada."

"Claro que estava. Não deu pra notar?"

"É, deu."

Sorriem. Beijam-se. Ela se levanta rapidamente, ajeita a saia e vai ao banheiro. Pergunta lá de dentro:

"Quer me ver quarta? Se não der, mande uma mensagem. Anônima. Que a aula foi cancelada."

Volta ajeitando os cabelos. Recoloca anel e pulseiras. Checa o celular.

"Por que você sempre tira a aliança?", ele pergunta.

"Eu tiro, é? Não tinha reparado..."

"Você namoraria comigo?"

"Está querendo namorar agora?"

"Tenho pensado nisso."

"O que aconteceu com o solteirão mais convicto da cidade?"

"Se cansou."

"Que nada. Você só quer se aproveitar de mim."

"Quero cuidar de você."

"Você não me aguentaria."

"Não?"

"Está falando isso só pra me agradar."

"Fica mais. Vamos passar a tarde juntos."

"Você é tão doce. Me sinto bem aqui. Me sinto leve..."

Ela se senta de novo no colo dele. Abraça. Volta a se excitar. Tira anel e pulseiras, joga-os na mesa de centro. Enquanto ela fala, transam novamente:

"Mas não posso! Ele é importante pra mim, é o meu eixo. Existem aqueles momentos em que ele se ausenta, está na minha frente, mas não está, parece viajar pra Marte, e tudo em sua volta ganha um tom leitoso. Mas eu gosto dele. Vejo seu olhar me atravessar. Isso dura dias, semanas, aquela quietude dos pensamentos, e sei lá se sonha ou se tem pesadelos, o mistério do homem que vive comigo. Eu amo ele. Ai, que gostoso... Minha vocação é tratar, mas como se não se vê a doença? Quero desvendar ele. Quero parar o mundo para ele respirar um pouco. Quero ele pra mim! Ai... O que eu estava dizendo? Ele é meu! Meu homem, meu amor. Ai, tá gostoso... Ai, gostoso, gostoso, gostoso..."

E goza novamente. Aliviada. Esgotada. Beijam-se. De repente, fica aflita e se ergue.

"Multam aqui na sua rua?"

Recoloca anel, pulseiras. Vai para o banheiro. Ele continua sentado.

"Você é tão gostoso. Que música é essa?"

Ele não responde. Ela volta, pega a sua bolsa, checa novamente o celular. Dá um beijo rápido de despedida.

"Não esquece os colares", ele diz.

Ela sorri e os joga na bolsa. Abre a porta, chama o elevador e pergunta:

"Então, quarta?"

Nunca mais se viram. Não respondeu às mensagens dele, aos e-mails, não ligou. A palavra "namorar" contaminou a relação de anos. Também, pedir uma mulher casada em namoro...

22 Oct 2011