sexta-feira, 14 de abril de 2017

1865: Abraham Lincoln é assassinado


Em 14 de abril de 1865, Abraham Lincoln foi assassinado num teatro. O 16º presidente dos EUA impediu a divisão do país em norte e sul e entrou para a história como abolicionista.


Maior trunfo de Lincoln foi manter país unido

Às 22h15 de 14 de abril de 1865, no Teatro Ford, pouco antes do último ato da peça Our American Cousin ("Nosso primo americano") a porta do camarote onde estavam o presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, e sua esposa abriu-se de repente e o chefe de Estado foi baleado na nuca pelo ex-ator John Wilkes Booth. Assim morria o 16º presidente dos EUA, que impedira a divisão do país em norte e sul, entrando para a história como abolicionista.

Cinco dias antes, em 9 de abril, o general dos estados do sul, Robert Lee, havia admitido sua derrota. Um público entusiástico presenciou, nas escadarias da Casa Branca, em Washington, o anúncio do fim da guerra civil. Ao ouvir as palavras do presidente, principalmente a promessa de conceder o direito ao voto aos ex-escravos, o ex-ator – um sulista fanático – decidiu assassinar Lincoln.

Em meio à guerra civil, no verão de 1864, Booth já havia tentado, sem sucesso, sequestrar o odiado presidente e usá-lo como refém para exigir a libertação de prisioneiros de guerra dos confederados. Diante da derrota dos estados do sul, abandonou a ideia do sequestro e passou a planejar o assassinato.
Foi o primeiro de uma série de atentados contra os presidentes dos EUA. Lincoln faleceu na manhã de 15 de abril, deixando como herança de governo um país que procurava se reconciliar, após quatro anos de sangrenta guerra civil.

Biografia

Abraham Lincoln nasceu em Hodgenville, Kentucky, em 12 de fevereiro de 1809. Filho de lavradores, teve que interromper várias vezes sua formação escolar para trabalhar, seja na roça, numa serraria ou em barcos dos rios Ohio e Mississipi. Em 1836, formou-se em direito e passou a exercer a advocacia. No ano seguinte, mudou-se para Springfield, Illinois, à procura de melhores oportunidades profissionais.

Filiado ao partido Whig (que deu origem ao partido Republicano), elegeu-se quatro vezes para a assembleia estadual, entre 1834 e 1840. No início de sua carreira política, era um abolicionista reservado. Embora considerasse a escravatura uma injustiça social, temia que a abolição dificultasse a administração do país. Entre 1847 e 1849, foi representante de Illinois no Congresso, onde propôs a emancipação gradativa dos escravos, desagradando tanto aos abolicionistas quanto aos escravistas. Opôs-se à guerra no México, o que lhe custou a reeleição.

Depois de cinco anos afastado da política, candidatou-se ao Senado, em 1858. Foi derrotado pelo democrata Stephen Douglas, mas tornou-se líder dos republicanos, sendo eleito presidente dos EUA em 1860. Ao iniciar seu governo, em 4 de março de 1861, Lincoln teve que enfrentar o separatismo de sete estados escravocratas do sul, que formaram os Estados Confederados da América.

O presidente foi firme e prudente: não reconheceu a secessão, ratificou a soberania nacional sobre os estados rebeldes e conclamou-os à conciliação, assegurando-lhes que nunca partiria dele a iniciativa da guerra.

Os confederados, porém, tomaram o Forte Sumter, na Virgínia Ocidental, em 12 de abril de 1861, desencadeando um conflito que só terminou em 1865, com a vitória do norte e um saldo de 618 mil mortos em batalhas e vítimas de epidemias.

Histórica batalha de Gettysburg

Lincoln encontrara o governo sem recursos, sem Forças Armadas e com uma opinião pública pouco favorável. Armou rapidamente um Exército para enfrentar os confederados que, apoiados por 11 estados sublevados, chegaram à Pensilvânia e ameaçaram Washington. Em 3 de julho de 1863, travou-se a histórica batalha de Gettysburg, vencida pelos unionistas do norte.

Alguns meses depois, ao inaugurar o cemitério nacional de Gettysburg, Lincoln pronunciou o célebre discurso em que definiu o significado democrático do governo do povo e para o povo, que alcançou repercussão mundial. Reeleito presidente em 1864, anunciou um programa de educação dos escravos libertados e a concessão imediata do direito de voto a determinados negros.

Cedeu também à exigência dos radicais que pediram uma ocupação militar provisória de alguns estados do sul, para implantar uma política de reforma agrária. Seu grande mérito, no entanto, foi ter mantido a unidade do país.

Autoria Jens Teschke (gh)


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terça-feira, 11 de abril de 2017

En el país llamado Más o Menos





Vivo en el país llamado Más o Menos,
donde,
muy extrañamente,
no hay ningún partido oficial llamado “Masomenosista”…
donde ellos
leen a nuestros escritores clásicos… más o menos.

Donde a veces,
hasta los distinguidos ciudadanos
se enamoran (más o menos),
pero a veces,
después de algunos meses
ya no hay besos,
los unen solo los pesos.
Entonces no son ajenos,
más o menos.

“¿Es verdad, señor, que todos beben en su país Más o Menos?”
Hay algunas personas que no beben nada…
Más o menos…”
“Difícil de creer, señor,”
Ni siquiera algo así como…
una gota. Más o menos.”

“¿Qué tipo de gente es aquella, la de su amado pueblo
del país llamado Más o Menos?”
Son más o menos agradables…
Más o menos honestos…
Unas veces menos, otras veces más…

“¿Está Usted, señor, orgulloso de su gran país,
llamado Más o Menos?”
Hmmm…
Más o menos…
Por lo general, somos generosos más o menos..
suficientemente amistosos… menos o más…

Por supuesto, todos estamos por la paz…
un tanto más, un tanto menos..
Por supuesto, tenemos algunas pequeñitas,
pero más o menos
desagradables guerras.

En cada esquina,
en cada cocina de cada casa
cuando las esposas y los esposos están algo
así como peleando discretamente,
tenemos nuestra propia Chechenia doméstica,
y un Irak privado,
ondeando un trapo húmedo de cocina
como una bandera nacional,
cuando las sandalias y las planchas
a veces vuelan por encima de las cabezas
como ovnis…
sin embargo, apreciamos nuestros valores de familia…
Más o menos…

En nuestras cortes de justicia  tenemos
más o menos incorruptibles jueces,
en nuestros centros de investigación
hay pensadores, más o menos insobornables.

Una más o menos bella mujer me susurró:
“Estoy más o menos enamorada de Ud.
Más o menos para siempre…”

Me gustaría pararme frente a Dios,
así como soy,
no algo así como más o menos.

No estar  más o menos feliz
En esta más o menos vida…
En esta más o menos libertad.

2004


YEVGUENI YEVTUSHENKO

Provérbios alemães

Dummheit und Stolz wachsen auf einem Holz
Na tradução literal, significa "Estupidez e orgulho crescem da mesma madeira". Explicando: pessoas arrogantes, que acreditam ser mais que outras, desconhecendo os próprios limites, cometem uma estupidez. O falso orgulho e a burrice são, no fundo, a mesma coisa. E, pelo fato de rimar, a expressão tem um sentido especial em alemão.

Wer schön sein will, muss leiden"
Em tradução literal, o ditado alemão significa "quem quer ser belo tem que sofrer". Muitas vezes não se está contente com o que se tem, e tanto homens quanto mulheres se submetem a situações desconfortáveis, seja fisicamente ou financeiramente, para atingir seus ideais de beleza.

Der Ton macht die Musik
Em tradução literal, "O tom é que faz a música". Não importa o que você tem a dizer, diga-o com respeito. Se, por exemplo, o novo perfume de uma amiga não lhe agrada, não diga a ela que ele fede. O resultado da conversa será muito mais positivo se você disser de forma amistosa que para seu gosto ele é muito intenso.

Die Ratten verlassen das sinkende Schiff
Já nos tempos dos grandes navegadores, sabia-se que, "quando um navio está afundando, os ratos são os primeiros a pular fora". Isso levou à conclusão de que os ratos podem prever desgraças. Hoje em dia, pessoas que só se preocupam com elas mesmas são as primeiras a deixar a empresa ou uma equipe quando as coisas começam a ficar ruins.

Ist die Katze aus dem Haus, tanzen die Mäuse auf dem Tisch
Os provérbios muitas vezes servem para ensinar crianças. Este, não! Quando pais ou professores não estão próximos, as crianças aproveitam para fazer travessuras. Claro que isso acontece também com adultos. Este provérbio é tão conhecido, que existe em vários idiomas, inclusive no Brasil: "Quando o gato está fora, os ratos dançam sobre a mesa".

Der Fisch stinkt vom Kopf her
Quando um peixe morre, a cabeça dele é a primeira parte a se decompor, e a primeira a cheirar mal. O provérbio "o peixe começa a feder pela cabeça" geralmente é associado a empresas e partidos. Quando o chefe faz um mau trabalho, é de se esperar que seus funcionários ou correligionários não sejam melhores.

Man sägt nicht den Ast ab, auf dem man sitzt
Oh, nós, humanos! Se damos um tiro no próprio pé, cuspimos na mão que nos alimenta e afundamos o próprio barco, por que não também serrar o galho em que estamos sentados? Ou seja, há muitas maneiras de prejudicar os próprios interesses. Esse provérbio serve de advertência. Literalmente, ele diz "não se corta o galho em que se está sentado".

Reden ist Silber, Schweigen ist Gold
Já na Bíblia, no Talmude e no Corão há lições sobre esta sabedoria. "Atenue sua voz, pois a mais repulsiva das vozes é a do burro." "Se as palavras são de prata, o silêncio é de ouro". Ou seja, é melhor se calar do que falar besteira.

Mit Speck fängt man Mäuse
Literalmente, o provérbio significa: "Com toucinho se pegam camundongos." A ideia é que, se você quer que alguém faça algo por você, ofereça o incentivo adequado. Mas cuidado com armadilhas, como a do toucinho para atrair para a ratoeira. Este provérbio costuma ser usado no ambiente empresarial, onde empregadores tentam aumentar a produtividade ao oferecer "iscas" aos funcionários.

Eine Hand wäscht die andere
Uma mão lava a outra. Ou seja, claro que posso ajudar você, mas quando eu precisar, espero o mesmo de você. Um ditado muito conhecido no Brasil, e que ganha atualidade com os escândalos de corrupção. Em português, este provérbio tem até um complemento: "E as duas juntas lavam o rosto."

Lieber den Spatz in der Hand, als die Taube auf dem Dach
"Melhor um pardal na mão do que um pombo no telhado." As pessoas comeram pombos por milênios, mas em caso de necessidade, um pardal também servia. Com isso em mente, este provérbio alemão alerta contra a ganância. O ditado vem da expressão em latim "um pássaro capturado é melhor do que mil no gramado". Hoje, os falantes do português diriam: "melhor um pássaro na mão que dois voando".

Wer den Pfennig nicht ehrt, ist des Talers nicht wert
"Quem não preza o Pfennig não merece o táler." Na Idade Média, 360 Pfennig valia um táler. Essa antiga moeda alemã é considerada a "mãe" do dólar. Para dar valor ao o táler, era preciso antes aprender o valor do Pfennig, diz o provérbio. Em português, pode-se dizer que "quem nasceu para tostão nunca chega a dez réis" lembra o dito popular alemão.

In der Not frisst der Teufel Fliegen
"Em necessidade, o diabo come até mosca." De acordo com esse provérbio alemão do século 19, o diabo comeria esses insetos como último recurso para sobreviver. Mas o ditado tem um significado mais profundo. Belzebu, um dos nomes de satã, quer dizer "senhor das moscas", ou seja, em caso de emergência, lúcifer não comeria somente moscas, mas também seus semelhantes.

Ein gutes Gewissen ist ein sanftes Ruhekissen
"Uma consciência livre é um travesseiro macio" concorre entre os ditos populares mais simpáticos da Alemanha. Não faça o mal, ele sugere, e você dormirá em paz. Palavras realmente sábias – embora sejam um fraco consolo para quem sofre de insônia crônica.

Wer im Glashaus sitzt, soll nicht mit Steinen werfen
Consta que "Quem tem telhado de vidro não atira pedras no do vizinho" tem origem na Alemanha, embora não se saibam mais detalhes. O ditado evoca a frase bíblica "Aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra", pois sugere que, da mesma forma como, no fundo, ninguém é sem pecado, de uma maneira ou de outra todos vivemos em casas com telhado de vidro.

Viele Köche verderben den Brei
"Cozinheiros demais estragam o mingau" é a tradução literal deste provérbio. A ideia é que, quando há gente demais dando opiniões ou ordens, e ninguém para concentrar e filtrar os esforços, o resultado é um fiasco. Enfim, uma apologia do trabalho organizado e da hierarquia, como no brasileiro "Muito cacique para pouco índio".

Kleider machen Leute
Assim como "O hábito faz o monge", trata-se de uma variante do velho ditado latino "Vestis virus reddit" (As roupas fazem o homem). Até hoje, a ideia é martelada em outdoors e revistas de moda para justificar a importância – e o preço – da aparência exterior. Uma variação genial é atribuída ao espirituoso autor americano Mark Twain: "Gente nua tem pouca ou nenhuma influência na sociedade".

Lügen haben kurze Beine
A advertência de que "A mentira tem pernas curtas" e, portanto, nunca vai muito longe, parece ser quase universal. Uma variante africana reza: "Você pode comer uma vez com uma mentira, mas não duas". Também sábia é a inversão de perspectiva contida no dito popular inglês "Engana-me uma vez, vergonha para ti; engana-me duas, vergonha para mim".

Auch ein blindes Huhn findet mal ein Korn
Datado de, no mínimo, 400 anos atrás, o dito "Até uma galinha cega acaba achando um grão de milho" tem sentido ambivalente – e também é empregado dessa forma. Pode significar que até o ser mais incapaz pode obter um sucesso – por sorte ou por pura teimosia, porém sem mérito real. Ou ser entendido como um incentivo aos menos capacitados, para que não percam a esperança e continuem persistindo.

Jeder ist sein Glückes Schmied
"Cada um é o forjador da própria sorte" é um estímulo à autodeterminação que lembra a noção do "self-made man" americano. O provérbio é uma variação de "Quisque faber suae fortunae", registrado pelo cônsul romano Ápio Cláudio Cego, por volta do ano 300 a.C.. Numa ironia histórica, o biógrafo Lívio atribuiu a cegueira de Ápio a uma praga – rogada por outra pessoa, naturalmente.

Gelegenheit macht Diebe
"A ocasião faz o ladrão" – também na Alemanha. Senão, e o escândalo da Volks? E o da DFB? Outra versão dessa noção é a famigerada "lei de Gérson" (o jogador): "O importante é levar vantagem". O provérbio resume uma tendência humana tão lamentável como incorrigível, por isso nunca perde a atualidade. E, como "Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão", a enxurrada de escândalos nunca terá fim.

Der Apfel fällt nicht weit vom Stamm
Semelhante a "Filho de peixe, peixinho é", "A maçã não cai longe do tronco" é outro desses provérbios que convidam a um uso ambivalente ou irônico. A ideia é que qualidades – boas ou más – são herdadas das gerações anteriores. Portanto, atenção: se for dito como elogio, ótimo. Se for insulto, é extensivo ao pai, à mãe e a sabe-se lá quantas gerações.

Wie man in den Wald hineinruft, so schallt es heraus
"Como se grita na floresta, assim virá o eco" seria a tradução quase literal desse ditado. Ou seja: o que se coloca no mundo retorna da mesma forma, para o bem ou para o mal. Se o input for negativo, portanto, é bom ter em mente que "Quem semeia vento, colhe tempestade".

Morgenstund hat Gold im Mund
Os alemães e suas rimas, desta vez para dar uma má notícia aos dorminhocos: "A manhã tem ouro na boca". Trata-se de um ditado latino, também difundido na variante "Aurora musis amica" – A aurora é a amiga das musas. De forma menos poética, "Deus ajuda quem cedo madruga" igualmente encoraja a diligência matinal. Ou, menos apetitoso: "O pássaro madrugador é que pega a minhoca".

Fonte : Deutsche Welle

segunda-feira, 10 de abril de 2017

1.
Avanço
a mortalha me alcança.
2.
Ando na trilha
que liga Deus a soltas cortinas
trocá-lo talvez eu consiga.
3.
Como num jogo
correm nas minhas juntas
os ventos do cansaço.
Sentem medo do meu fogo?
se refugiaram na minha pluma
se esconderam nos meus livros.
4.
Hora não sabida na mudez do tormento
isto são agulhas costurando minha pele
meu caminho está escuro:
onde o rosto do horizonte, para ler para mim meu livro?
5.
Para dizer a verdade
mude seus passos, esteja pronto
para incendiar-se.
6,
Um pouco de tédio
e cubro a todo instante
poças de esperança.
7.
Levo um guia nas asas
que me leva ao caminho
e no caminho há cinzas
que apagam, fogo que arde.
8.
Sou a casa da luz que não se acende:
minha inquietude arde no monte da soberba
meu amor é uma almenara verde.
9.
Repousa nas minhas veias a aquiescência do sonho
chora a cítara das coisas:
o que custa para a aurora lembrar meu passo
o que custa para o sol andar atrás de mim?
10.
Vêm dançar nas minhas pálpebras
a noite cadáver a cidade camaleoa
me revisto de triste Artarte
desenho a tempestade.
11.
Rosto do possível ó rosto do horizonte
mude seu sol ou queime-se.
12.
Virei meu trono do avesso:
quando brinco ou me alegro
preparo em segredo a mortalha
e caminho quando me canso.
13.
Por ser todo eco o horizonte
retorno do que vem, exaltamento
não envelhecem os ventos.
14.
Quem vê como ele a morte e a vida
escreve com os olhos a noite e o dia
e as folhas apagam o que as apagaria.
15.
Vela adivinha do futuro
que tenho que temo o caminho curto?
16.
Confuso disse o depois:
"saltando o canto
do bico do pássaro
o galho não se
encanta".
17.
Ele é isto, se recusa a subir
a não ser abrasado
tem um fogo que não se apaga
tem um coração.
18.
Brilhe, escreva um poema, ande:
amplie ainda mais a terra.

Adonis | Folhas ao vento

Salmo


Avança desarmado como o bosque e sem ser detido como
a nuvem, ontem carregou um continente e mudou o mar de lugar.
Traça o avesso do dia. Dos pés produz um dia e da noite
empresta um calçado e espera pelo que não virá. Ele é a
física das coisas. Conhece-as, chama-as por nomes que não
revela. Ele é o real e seu contrário, a vida e a não vida.
Ali onde a pedra vira lago e a sombra cidade, ele vive - e
faz errar o desespero, apaga o chão da esperança, dança
para o pó até que este boceje e dança para as árvores até que elas durmam.
Ei-lo a anunciar o cruzamento das pontas, a imprimir o
signo da magia na fronte da nossa era.
Enche a vida sem que seja visto. Faz da vida espuma e
mergulha nela. Transforma o amanhã em caça, corre
atrás dela em desespero. Inscritas, suas palavras seguem
rumo: à perdição à perdição.
A confusão é a sua pátria, mas tem os olhos cheios.
Assusta e conforta
exala terror transborda ironia
descasca os homens como cebola.
Ele e o vento que não volta atrás, a água que não retorna
à fonte. Cria sua espécie a partir dele mesmo. Não tem
ascendentes, suas raízes estão em seus passos.
Caminha no abismo e tem o porte do vento.

Adonis | O cavaleiro das palavras estranhas

domingo, 9 de abril de 2017


"Desde 2011, a Síria é invadida por mercenários estrangeiros pagos por Estados Unidos, Reino Unido, França, Israel, Turquia, Arábia Saudita e Qatar. Nunca um conflito foi tão distorcido em sua natureza real com uso massivo de propaganda de guerra para manipular SENTIMENTOS e fazer pessoas se comoverem. As imagens de crianças feridas e mortas, de pessoas morrendo por ataques de armas químicas e de fanáticos muçulmanos degolando indefesos jornalistas são reais. Mas a narrativa, o momento de publicação e o que oferecem como solução é friamente calculado. Muitas dessas imagens são distorcidas com as chamadas operações de 'falsa bandeira" e os fatos são invertidos em favor dos invasores. Nessa guerra, o presidente Bashar al Assad, com apoio da Rússia, do Irã e do Hezbollah enfrenta dia a dia o terrorismo dos mercenários estrangeiros e a campanha de difamação internacional daqueles que pretendem partilhar o país em três pedaços. A guerra da Síria nunca foi uma guerra civil muito menos uma luta de "democratas" contra um ditador: ela é uma resistência contra o colonialismo e estão aí os exemplos do Iraque e da Líbia para mostrar que essa conversa de que ditador estadunidense vai implantar democracia já não engana mais ninguém. Se Bush e Obama mentiram, qual o sentido de acreditar na mesma mentira agora contada por Trump?"

Thomas de Toledo


"Paraná, paraíso da impunidade", o que sempre foi apontado por qualquer pessoa crítica bem informada ! Há vários anos que classificamos a Lava Jato como Farsa a Jato por causa da imensa impunidade existente na "República de Curitiba". A verdade sempre será reconhecida e agora até mesmo um dos operadores da força-tarefa reconhece apenas alguns dos principais escândalos de corrupção regionais, casos nunca tratados efetivamente pelos justiceiros locais. Faltou reconhecer e mencionar as Contas CC5, o mega fracasso do Banestado, a "mãe" de todas as corrupções recentes na classe dominante paranaense e com muitos dos mesmos operadores seletivos da Lava a Jato, o outro caso do "primo" de Beto Richa, Luiz Abi Antoun, o escândalo da Receita Estadual, agora o escândalo do Porto de Paranaguá e muitos outros casos de corrupção sendo semanalmente descobertos e denunciados: Pelo Gaeco e pelos integrantes justos no sistema judicial sério e não partidarizado, pelos verdadeiros jornalistas profissionais no campo midiático crítico, pelos policiais honestos nas instituições policiais sérias aqui existentes. Basta de farsas no Paraná !

Ricardo Costa de Oliveira



Guerras começam pela política e só terminam pela política como reitera Clausewitz. A guerra na Síria poderia terminar com a vitória militar total de um lado, o que parece difícil porque sempre que um grupo se aproxima de desmantelar os outros ocorrem ainda mais intervenções externas. Outra possibilidade poderia ser a iugoslavização na quebra do Estado Sírio e a formação de outras unidades aprofundando dimensões etnonacionais. Ainda restam possibilidades de formas autônomas e federativas entre os grupos alauítas, de Assad, xiítas, os apoios do Irã e do Hezbollah, os sunitas na base do ISIS e outros grupos com apoios da Arábia Saudita, wahabismo, minorias como os drusos, turcomanos, assírios, curdos e outros grupos étnicos e religiosos. Todo Estado Nacional mais estável se assenta em um núcleo duro etnonacional, o que hoje não é o caso da Síria. Os interesses do complexo industrial-militar dos Estados Unidos com Trump enfrentando derrotas na política interna, como na saúde da Obamacare, forçam os Republicanos a procurarem as tradicionais guerras externas para disfarçarem sua mediocridade e crescente falta de apoio doméstico, afinal Trump tem todos os defeitos de Obama e muitos mais, além do que para o capitalismo as guerras sempre são os melhores e mais lucrativos negócios. O cenário muito provável é a guerra continuar delimitada entre os aliados da Rússia e dos EUA, com as grandes potências nucleares evitando confrontos militares diretos entre si. Guerras devem ser travadas até o seu fim político, o que ainda está muito longe na Síria.

Ricardo Costa de Oliveira

Notas Estéticas

"A obra de Lukács, em matéria estética, acolhe como princípio fundamental a ideia de que aquilo que é social na obra de arte é a forma.

As implicações imediatas dessa posição indicam com grande clareza que as relações entre obras de arte e sociedade são concebidas de modo analógico-estrutural e não pela presença, na obra, de 'elementos' ou 'conteúdos' sociais.

Por exemplo: o romance é definido, ou melhor, situado, como gênero literário expressivo da burguesia não porque tantos romances contenham tão numerosos personagens, situações e acontecimentos facilmente encontráveis na sociedade burguesa - mas sim porque a estrutura básica da forma literária 'romance' possui linhas substancialmente homólogas (segundo Goldmann) ou análogas (pela nossa opinião) às diretrizes da sociedade burguesa.

O entendimento da relação arte/sociedade como uma função baseada na analogia de estruturas retira à velha dualidade forma/conteúdo qualquer valor lógico.

O 'conteúdo' se dissolve. Arte é campo de formas significativas, cuja significação vem da força com que se referem a formas sociais, não porque a arte tenha de ser explicada 'de fora', mas, simplesmente, porque sua função é ser linguagem, isto é, transposição ao nível do domínio, da clarificação e da consciência - daquelas formas sociais que constituem a bruta experiência do cotidiano. A arte, e especialmente a arte literária, realiza nessa condição um trabalho filosófico: por ela, a sociedade se conhece a si mesma.

O 'conteúdo' da obra de arte é uma ilusão elementarista, que não resiste a uma visão estrutural. Consiste no engano de querer perceber a obra em fragmentos, quando ela é antes de tudo uma unidade; e também em outro engano, o de querer captar uma 'mensagem' dentro de um estilo e das palavras, quando toda mensagem é a linguagem mesma: a ideia não está na palavra, não se vestiu com ela; a ideia, a significação, a mensagem, é a linguagem.

Se Croce não tivesse esquecido tantas coisas, seria possível dizer com ele (mas a terminologia já revela o que ele esqueceu) que toda intuição é expressão. Que todo 'conteúdo' é linguagem - e portanto, que separá-lo (tentar separá-lo) da sua linguagem, é apenas mutilação, apenas perda, apenas dano."


- José Guilherme Merquior, "Notas Estéticas", em "A Razão do Poema: ensaios de crítica e de estética" (1965). São Paulo: É Realizações, 2013. pp. 222-223. Da página do Fabricio Gonçalves
Ainda antes da abertura dos portões do cemitério, alguém já acende uma nova vela para a Missa de Sétimo Dia do jornal impresso. Se ontem foi o maior jornal do Paraná, mudando de formato e apostando no digital, no mês passado o jornal da cidade em que moro deixou de circular duas vezes na semana para investir em apenas uma edição semanal de “mais fôlego”. Nos últimos dez anos, ao menos oito grandes esfinges do jornalismo impresso morreram, da Gazeta Mercantil ao Jornal do Brasil. No ínterim, muitos amigos jornalistas foram demitidos, estão desempregados ou sobrevivendo de freelancers. Outros estão em segunda faculdade ou especializando-se em carreiras acadêmicas. O mundo muda, as profissões mudam e a redação parece destinada a ser o museu do futuro, onde crianças, acompanhadas dos professores, serão informadas sobre estranhas práticas em espaço restrito. O cenário realmente não é animador. Os dados do IVC apontam para uma queda progressiva da base de assinantes das principais revistas em circulação do País. Mesmo quem muda ainda está longe da calmaria. Os anunciantes estão evadindo-se para novas experiências de contato com seus consumidores. A base de produção, sem receita, corta custos para a máquina não emperrar. As ferramentas digitais não cobrem o antigo modelo. A conta não fecha.

E onde está o RelevO neste processo? Somos um jornal de papel, logo sentimos os efeitos da crise econômica, do aumento de custos operacionais – dos Correios ao combustível –, da instabilidade de ser contemporâneo em um segmento revirado e de nossa própria infraestrutura, modesta. Ainda assim, a cada mês aumentamos um pouco a nossa base de assinantes e não sentimos intensamente a fuga de anunciantes, até porque são poucos e fieis a um certo propósito, que retratarei mais à frente. Podia ser pior, mas confortável não é.
Para não fecharmos as portas, montamos um jornal sem fins lucrativos. O que isso significa? Exatamente: ninguém na estrutura ganha dinheiro com o jornal. (Prestamos contas públicas de nossos ganhos e gastos.) Naturalmente, não é o ideal. Eu mesmo gostaria muito de me remunerar com o jornal e pensar calmamente em estratégias de aprofundar as relações entre leitores e a literatura, estudar melhor o mundo complexo em que acordamos. Mas não: passo boa parte do mês fazendo malotes dos assinantes, distribuindo jornal no Brasil, cobrando assinantes e pagando boletos. Desgosto? Também não. Sinto um orgulho discreto de, em sete anos de turbulências, não abrirmos mão de alguns valores. Não ganhamos dinheiro porque nunca batemos na porta do poder público. Não ganhamos dinheiro porque não vendemos espaço editorial para empresas que acreditam que conteúdo e publicidade são o mesmo saco. Fechamos alguns meses no prejuízo porque não damos assinaturas para YouTubers, que se travestem de interesse público para inocular ações de marketing. Em suma, somos um case pronto de fracasso para os novos tempos.

O que, portanto, será de nós se o cemitério já tem uma lápide com o nosso nome e nos convoca para o descanso em paz? Bem, acredito, talvez de uma forma racionalista-mística, que o impresso ainda significará algo para determinados grupos, sejam eles pequenos, sejam eles à margem, sejam ele eu + cinco. Aos solavancos, encontramos um público cativo. E digo isso no sentido que o termo carrega de necessidade/apreço de se relacionar com o papel. Eu reconheço que sou da geração anterior, escrava do papel. Formei-me leitor nos jornais de papel, comecei minha carreira na comunicação entregando jornal de papel, aprendi a diagramar pensando no RelevO em páginas, entrego jornal até hoje. Talvez seja a minha moira. O que vai acontecer se o RelevO tiver que fechar? Não sei. Só sei de meu desconforto com os novos tempos, mas não quero ser um velho nostálgico.

Por isso, quando encontro pessoas que se comprometem com a reflexão sobre os rumos da Comunicação e da Cultura, digo que se trata da construção de circuitos. Um jornal de literatura de papel ainda é importante no processo de disseminação de um conjunto de ideias e de trabalhos. Representa, ao seu modo, um recorte temporal, nem melhor ou pior do que qualquer outro, apenas mais um – aquele que escolhemos. Não precisamos anular outras plataformas para construir o nosso circuito.

Quando encontro pessoas que são meus amigos e se comprometem com a reflexão sobre os rumos da Comunicação e Cultura, sou ainda mais franco. Se trata, sobretudo, daqueles que gostam de cultura, principalmente amigos, de investirem um pouco de seu tempo e dinheiro em projetos que não existirão sem algum engajamento. Porque assistir a morte anunciada de grandes conglomerados de comunicação é quase excitante. Contudo, logo um novo rei assume o lugar, se duvidar com a mesma música. Agora, quando morrem iniciativas culturais fora da curva, a próxima iniciativa precisará sair dos escombros para se erigir.
Portanto, não se trata de apelo, nem de defesa extrema de causa própria. Se você gosta de cultura, pense com mais carinho nos jornais impressos do setor, aqueles que você acha legal. O Brasil está cheio de periódicos muito bons e que movimentam ao seu modo determinados circuitos. Assine, divulgue, colabore, sugira. Se somos impessoais com a morte dos jornalões, não custa ser menos duro com projetos de identidade mais clara. Até custa, mas não muito.

Daniel Zanella


UMA MUDANÇA NO TEMPO DO CORAÇÃO



Uma mudança no tempo do coração
Resseca-lhe a umidade; um estampido dourado
Ecoa na tumba glacial.
Uma mudança no território das veias
Transforma a noite em dia; o reflexo solar do sangue
Ilumina os vermes ainda vivos.

Uma mudança nos olhos dissimula
Os ossos da cegueira; e o ventre
Mergulha na morte como a transpiração da vida.

A escuridão no tempo dos olhos
É a metade de sua luz; o mar profundo
Irrompe numa terra sem peixes.
A semente que dos flancos engrendra uma floresta
Divide ao meio seu fruto, e a metade
Goteja devagar no vento adormecido.

O tempo da carne e dos ossos
Torna-se úmido e seco; o vivo e o morto
Se movem como dois espectros diante dos olhos.
Uma mudança no tempo do mundo
Transforma um espectro no outro; cada criança
No útero da mãe repousa em sua dupla sombra.
Uma mudança arrasta a lua para o sol,
Caem da pele as cortinas em farrapos;
E o coração renuncia aos próprios mortos.

Dylan Thomas

Trad. Ivan Junqueira.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

"Então, a Reforma Protestante foi um caso de "muito barulho por nada"? Fruto de um equívoco? Devemos responder com firmeza: não! As revoluções, no entanto, não surgem pelas ideias ou pelas teorias abstratas, mas por situações históricas concretas, e a situação da Igreja, há tempo, não refletia realmente aquelas convicções. A vida, a catequese, a piedade cristã, a direção espiritual, por não falar depois da pregação popular: tudo parecia afirmar o contrário, ou seja, que o que conta são as obras, o esforço humano".

 Frei Raniero Cantalamessa. 
O principal problema do pseudo intelectual da tecnociência é a sua baixa capacidade interpretativa, toda informação é tomada por ele por um único viés interpretativo e definida como um conceito prático e fechado adequado ao seu interesse - muitas vezes a sua vaidade - ou nível de conhecimento de causa. O segundo passo é vestir seu conceito de termos técnicos precisos, pola isto confere a autoridade ao argumento.

Pronto, eis uma definição simplória de ocasião, que será tachada de "complexa" - palavra da moda, pouco compreendida - com sua vestimenta técnica, científica, burocrática, adicione um rebanho ruidoso ávido por verdades fáceis e pronto.

Henrique Veber
O fim da Gazeta do Povo como jornal diário foi mais uma consequência do apoio ao golpe de 2016. Ocorreu uma grande separação e mesmo um divórcio com a maior parcela da intelligentsia regional. A grande maioria do professorado passou a abominar o veículo pelas suas ideias de extrema direita, como intelectuais críticos são formadores de opinião o impacto comercial foi devastador. Além das mudanças tecnológicas as mudanças políticas foram determinantes para o destino do jornal. O golpe de 2016 ainda vai causar muitas sérias derrotas para as oportunistas forças conservadoras e burguesas que o apoiaram. Partidos políticos e empresários golpistas de direita vão pagar o pato pelo desequilíbrio, pela instabilidade e pelas crises que o golpe de 2016 trouxe para o Brasil.

RCO
O que aconteceu na Hebraica, tanto em São Paulo (onde a palestra do fascistão foi cancelada) como no Rio (onde ocorreu sob protestos) tem um nome- luta de classes, e um sobrenome- a incapacidade (que pode ser corrigida) dos setores democráticos das várias comunidades de se descartarem de suas velhas organizações.
OK, a Hebraica é apenas um clube e aqueles que protestaram não são a classe operária. Porém, a luta de classes se desdobra em mil facetas e expõe o tenebroso drama do atual momento.
Os judeus pagam um altíssimo preço pela existência do estado de Israel, na verdade um Forte Apache implantado no Oriente Médio para atender os interesses imperialistas, massacrar os palestinos, negando-lhes qualquer existência independente, e ajudar na manutenção das monarquias árabes feudais, que garantem o fluxo do petróleo.
Os protestos dos judeus, no Brasil contra Bolsonaro, em Israel e no mundo contra a guerra sem quartel aos palestinos, expõem a incompatibilidade dos anseios democráticos com a “ordem” (na verdade, uma desordem sanguinária) reinante no Oriente Médio, estado de coisas que encontra apoio nos dirigentes das Hebraicas.
Por isso, nada de racismo, que não é senão uma das manifestações mais pútridas dessa mesma “ordem”.


Roberto Elias Salomão                 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

La coautoría de las mujeres

(Prof. Dra. Christina Thürmer-Rohr)


Dentro del Movimiento de Liberación de las Mujeres, se sostenía que las mujeres eran un grupo perseguido y oprimido siempre expuestas a la violencia en forma de violación o abuso, violencia indirecta (estructural) en forma de desigualdad, salarios bajos o discriminación. Sin embargo, desde la Sociología Feminista Alemana son consideradas principalmente como diseñadoras de su propia vida y de la realidad social equivalentes a los hombres. Así que hay una contribución de las propias mujeres en la construcción de relaciones de género y en las estructuras sociales que son responsables de la represión, la violencia y la discriminación contra las mujeres.


La investigadora social Prof. Dra. Christina Thürmer-Rohr habla claramente de una "coautoría de las mujeres" que les hace cómplices a la hora de construir una realidad patriarcal y machista. Son colectivamente culpables, es decir aceptan abiertamente (como en este reportaje) o hacen la vista gorda, cuando los hombres son violentos, los protegen y les apoyan "desinteresadamente" en sus proyectos personales y profesionales etc. El término está en agudo contraste con el Concepto de Víctima, que se basa en la debilidad y la impotencia de la mujer aparentemente "inherente". Por el contrario, la "coautoría de las mujeres" subraya su complicidad a la hora de construir una realidad patriarcal y machista y de mantener las estructuras sociales que son responsables de la represión, la violencia y la discriminación. Según la investigadora no existe ninguna influencia, sugestión o manipulación "automática" por parte de la sociedad al individuo, especialmente al femenino. La sociedad necesita cómplices o coautoras...
A garantia de que o menor benefício pago pelo sistema previdenciário será o salário mínimo é uma vitória da representação popular no congresso sobre os tecnocratas do governo Temer.
O projeto de reforma de Temer, inicialmente, previa a desvinculação de benefícios e salário mínimo. As bases pressionaram os parlamentares, o governo percebeu que estavam indo anéis, dedos e até os cotovelos e voltou atrás.
No final, aquela grande proposta de reforma resultará no fim do fator previdenciário com adoção de uma idade mínima para aposentadorias pelo INSS - o que já deveria existir.
Fico pensando na cara dos "técnicos" do governo que meses atrás juraram de pés juntos que os números não mentiam: se não fosse aprovada a reforma como eles apresentavam, o sistema quebraria.

Os números não mentem. Há pessoas que mentem com os números.

Emerson Urizzi Cervi

O chavismo não pode estar isento de críticas


 ABR 5, 2017  0  Revista Diálogos do Sul

Sociólogo venezuelano questiona a “solidariedade incondicional” da esquerda latino-americana com o chavismo.

Natalia Uval*


edgardo-landerEdgardo Lander não é apenas um acadêmico, professor titular da Universidade Central da Venezuela e pesquisador associado do Transnational Institute. É uma pessoa vinculada há anos aos movimentos sociais e à esquerda em seu país. A partir disso afirma que o apoio incondicional das esquerdas da região ao chavismo reforçou as tendências negativas do processo. Sustenta que as esquerdas,que no nível global não tiveram a “capacidade de aprender” terminam respaldando um “governo de máfias” como o da Nicarágua; e quando “colapsar o modelo venezuelano” é possível que simplesmente “olhem para outro lado”.

–Há três anos você caracterizou a situação na Venezuela como a “implosão do modelo petrolífero rentista”. Esse diagnóstico continua vigente?
-Lamentavelmente, os problemas que podem ser associados ao esgotamento do modelo petroleiro rentista se acentuaram. O fato de a Venezuela ter tido 100 anos de indústria petrolífera e de centralização do estado, girando em torno à forma como é repartida a renda, conformou não apenas um modelo de Estado e de partido, mas também uma cultura política e imaginários coletivos da Venezuela como um país rico, de abundância, e a noção de que a ação política consiste em organizar-se para pedir ao Estado. Essa é a lógica permanente. No processo bolivariano, apesar de muitos discursos que aparentemente iam em direção contrária, o que se fez foi acentuar isso. Do ponto de vista econômico acentuou-se esta modalidade colonial de inserção na organização internacional do trabalho. O colapso dos preços do petróleo simplesmente desnudou uma coisa que era evidente, sempre que se depende de uma commodity cujos preços necessariamente flutuam.

–As críticas à situação da democracia na Venezuela se acentuaram depois que Nicolás Maduro assumiu. Por que isso aconteceu? Como se compara com a situação sob o governo de Hugo Chávez?
-Primeiro é preciso levar em conta o que aconteceu no trânsito de Chávez a Maduro. Eu sou da opinião de que a maioria dos problemas com os que nos encontramos hoje são problemas que vinham se acumulando com Chávez. As análises de parte da esquerda venezuelana que reivindicam la época de Chávez como a época de glória na qual tudo funcionava bem, e de repente aparece Maduro como um incompetente ou um traidor são explicações muito maniqueístas e que não permitem desentranhar quais são as lógicas mais estruturais que levam à crise atual. O processo venezuelano, de forma muito esquemática, sempre esteve sustentado por dois pilares fundamentais: por um lado, a capacidade extraordinária de Chávez de comunicar y de liderança, que gerou uma força social; por outro lado, preços do petróleo que chegaram, em alguns anos, a mais de 100 dólares por barril. Em 2013, de forma quase simultânea esses dois pilares entraram em colapso: Chávez morreu e os preços do petróleo despencaram. E o imperador ficou nu. Ficou claro que isso tinha um alto grau de fragilidade por depender de coisas das quais não era possível seguir dependendo. Além disso, há diferenças muito grandes entre a liderança de Chávez e a de Maduro. Chávez era um líder com capacidade de dar orientação e sentido, mas também exercia uma extraordinária liderança dentro do governo bolivariano como tal, de maneira quando ele decidia algo, essa era a decisão. Isso gera falta de debates e muitos erros, mas gera também uma ação unitária, dirigida. Maduro não tem essa capacidade, nunca a teve e agora no governo cada um puxa para o seu lado. Por outra parte, durante o governo de Maduro houve um incremento da militarização, talvez porque Maduro não vem do mundo militar. Então para garantir o apoio das Forças Armadas ele tem que incorporar mais integrantes das Forças Armadas e dar-lhes mais privilégios. Criaram-se empresas militares, atualmente um terço dos ministros e a metade dos governadores são militares, e estão em lugares muito críticos da gestão pública, onde tem havido os maiores níveis de corrupção: a concessão de divisas, os portos, a distribuição de alimentos. O fato de que estejam em mãos de militares torna mais difícil que sejam atividades transparentes, que a sociedade saiba o que está acontecendo.

– O que aconteceu com os processos de participação social promovidos pelos governos bolivarianos?
-Hoje na Venezuela há uma desarticulação do tecido da sociedade. Depois de uma experiência extraordinariamente rica de organização social, de organização de base, de movimentos em relação à saúde, às telecomunicações, à posse da terra urbana, à alfabetização, que envolveu milhões de pessoas e gerou uma cultura de confiança, de solidariedade, de ter a capacidade de incidir sobre o próprio futuro, supunha-se que em momentos de crise haveria capacidade coletiva de responder, mas acontece que não. É claro que falo em termos muito amplos, há lugares em que há maior capacidade de autonomia e de autogoverno. Mas de forma geral se pode dizer que a reação que se vive hoje é mais em termos competitivos, individualistas. De qualquer modo, creio que ficou uma reserva que em algum momento pode vir à tona.

–Por que não foi possível  manter essa corrente de participação e organização?
-O processo esteve atravessado desde o início por uma contradição muito séria, que é a contradição entre entender a organização de base como processos de autogestão e de autonomia, de construção de tecido social de baixo para cima, e o fato de que a maior parte dessas organizações foi produto de políticas públicas, promovidas de cima, do Estado. E essa contradição se comportou de maneira diferente em cada experiência. Onde havia experiência organizativa prévia, onde havia dirigentes comunitários, havia uma capacidade de confrontar o Estado; não para rechaça-lo, mas para negociar. Além disso, a partir de 2005 há uma transição do processo bolivariano de algo muito aberto, a partir de um processo de busca de um modelo de sociedade diferente do soviético e do capitalismo liberal, tomando a decisão de que o modelo é socialista, e  uma interpretação do socialismo como estatismo. Houve muita influência política-ideológica cubana nessa conversão. Então muitas organizações já começam a ser pensadas em termos de instrumentos dirigidos de cima e começa a se consolidar uma cultura stalinista em relação à organização popular. E isso resultou, obviamente, em muita precariedade.

–Como é a situação da democracia em termos liberais?
-Obviamente é muito mais grave [durante o governo de Maduro], e é mais grave porque é um governo que perdeu muitíssima legitimidade e que tem níveis crescentes de rechaço por parte da população. E a oposição tem avançado significativamente. O governo tinha hegemonia de todos os poderes públicos até que perdeu aparatosamente as eleições (parlamentares) em dezembro de 2015. E a partir daí começou a responder em termos crescentemente autoritários. Em primeiro lugar, desconheceu a Assembleia, primeiro desconhecendo os resultados de um Estado que tirava a maioria qualificada da oposição na Assembleia, com razões aparentemente sem pé nem cabeça. Posteriormente, houve um franco desconhecimento da Assembleia como tal, que do ponto de vista do governo não existe, é ilegítima. E tanto é assim que há alguns meses era necessário renovar os integrantes do Conselho Nacional Eleitoral [CNE], e então a Corte desconheceu a Assembleia e nomeou os integrantes do CNE que, é claro, são todos chavistas. Maduro tinha que apresentar no começo do ano uma memória de gestão do ano anterior, e como não reconhece a Assembleia, a memória foi apresentada ante a Corte. A mesma coisa aconteceu com o orçamento. Tínhamos um referendo revogatório para o qual tinham sido cumpridos todos os passos. Devia ser feito em novembro do ano passado e o CNE resolveu adiá-lo, e isso significou matá-lo: simplesmente agora não há referendo revogatório. Era constitucionalmente obrigatória a eleição de governadores em dezembro do ano passado, e ela foi adiada indefinidamente. Então estamos em uma situação na qual há uma concentração total de poder no Executivo, não há Assembleia legislativa. Maduro está há mais de um ano governando por decreto de emergência autorrenovado, quando deve ser ratificado pela Assembleia. Estamos muito longe de algo que se possa chamar de prática democrática. Nesse contexto, as respostas dadas são cada vez mais violentas, dos meios e da oposição, e a reação do governo, já incapaz de fazer outra coisa, é a repressão das manifestações, os presos políticos. Utilizam todos os instrumentos do poder em função de preservar-se no poder.

–Quais as consequências desta situação no longo prazo?
-Eu diria que há três coisas que são extraordinariamente preocupantes das consequências de tudo isso no médio e no longo prazo, Em primeiro lugar, há uma destruição do tecido produtivo da sociedade e vai demorar muito poder recuperá-lo. Recentemente houve um decreto presidencial de abertura de 112.000 quilômetros quadrados à mineração transnacional em grande escala em um território onde estão os habitat de dez povos indígenas, onde estão as maiores fontes de água do país, na selva amazônica. Em segundo lugar está o tema de como a profundidade desta crise está desintegrando o tecido social e hoje, como sociedade, estamos pior do que estávamos antes do governo de Chávez; isto é algo muito duro de dizer, mas efetivamente é o que se vive no país. Em terceiro lugar, a forma como se reverteram as condições de vida em termos de saúde e de alimentação. O governo deixou de publicar estatísticas oficiais e há que confiar em estatísticas das câmaras empresariais e de algumas universidades, mas estas indicam que há uma perda sistemática de peso da população venezuelana; alguns cálculos dizem que é que seis quilos por pessoas. E é claro que isso tem consequências em desnutrição infantil e tem efeitos no longo prazo. Por último, isso tem extraordinárias consequências em relação à possibilidade de qualquer imaginário de mudança. A noção de socialismo, de alternativas, está descartada na Venezuela. Instalou-se a noção de que tudo o que é público é necessariamente ineficiente e corrupto. É um fracasso.

–Como você vê as reações dos partidos de esquerda no nível global, e especialmente na América Latina, a respeito da Venezuela?
-Creio que um dos problemas que a esquerda vem arrastando historicamente é a extraordinária dificuldade que temos tido, como esquerda, de aprender da experiência. Para aprender da experiência é absolutamente necessário refletir criticamente sobre o que acontece e porque acontece. É claro que sabemos toda a história do que foi a cumplicidade dos partidos comunistas do mundo com os horrores do Estalinismo, e não por falta de informação. Não foi que ficaram sabendo depois dos crimes de Stalin, mas sim que houve uma cumplicidade que tem que ver com esse critério de que como se é anti-imperialista e se trata de um enfrentamento contra o império, vamos nos fazer de loucos com a matança de tanta gente, vamos não falar disso. Creio que essa forma de entender a solidariedade como solidariedade incondicional, porque há um discurso de esquerda ou porque haja posturas anti-imperialistas, ou porque geopoliticamente se expressem contradições com os setores documentos no sistema global, leva a não indagar criticamente sobre quais são os processos que estão ocorrendo. Então se gera uma solidariedade cega, não crítica, que não só tem a consequência de que eu não fui criticar o outro, mas tem a consequência de que ativamente se está celebrando muitas das coisas que terminam sendo extraordinariamente negativas. A chamada hiper-liderança de Chávez era algo que estava ali desde o princípio. Ou o modelo produtivo extrativista. O que a esquerda conhece em sua própria cultura sobre as consequência disso estava aí. Então, como não abrir um debate sobre essas coisas, de maneira a pensar criticamente e apresentar propostas? Não que a esquerda europeia venha a dizer aos venezuelanos como têm que dirigir a revolução, mas tampouco esta celebração acrítica, justificativa de qualquer coisa. Então, os presos políticos não são presos políticos, a deterioração da economia é produto da guerra econômica e da ação da direita internacional. Isso é certo, está aí, mas obviamente não é suficiente para explicar a profundidade da crise que estamos vivendo. A esquerda latino-americana tem uma responsabilidade histórica em relação, por exemplo, à situação de Cuba hoje, porque durante muitos anos assumiu que enquanto existisse o bloqueio a Cuba não se podia criticar Cuba, mas não criticar Cuba queria dizer não ter a possibilidade de refletir criticamente sobre qual é o processo que está vivendo a sociedade cubana e quais são as possibilidades de diálogo com a sociedade cubana em termos de opções de saída. Para uma grande proporção da população cubana, o fato de que se estava em uma espécie de beco sem saída era bastante óbvio no nível individual, mas o governo cubano não permitia expressar isso e a esquerda latino-americana se desentendeu, não aportou nada, mas simplesmente solidariedade incondicional. O caso mais extremo é pretender que o governo da Nicarágua é um governo revolucionário e faz parte dos aliados, quando é um governo de máfias, absolutamente corrupto, que do ponto de vista dos direitos das mulheres é um dos regimes mais opressivos que existem na América Latina, em uma aliança total com setores corruptos da burguesia, com o alto mando da igreja católica, que antes era um dos grandes inimigos da revolução nicaraguense. O que acontece com isso? Que se reforçam tendências negativas que teria sido possível viabilizar. Mas, além disso, não aprendemos. Se entendermos a luta pela transformação anti capitalista não como uma luta que acontece lá e vamos ser solidários com o que eles fazem, mas como uma luta de todos, então o que se faz mal lá nos está afetando também, e também tenho a responsabilidade de assinalar isso e de aprender desta experiência para não repetir o mesmo. Mas não temos capacidade de aprender porque, de repente, quando terminar de colapsar o modelo venezuelano, vamos olhar para outro lado.  E isso, como solidariedade, como internacionalismo, como responsabilidade político-intelectual, é desastroso.

–Por que a esquerda adota estas atitudes?
-Tem que ver, em parte, com o fato de que não terminamos de descarregar o pensamento de esquerda de algumas concepções demasiadamente unidimensionais do que é que está em jogo. Se o que está em jogo é o conteúdo de classe e o anti-imperialismo julgamos de uma maneira. Mas se pensamos que a transformação hoje passa por isso, mas também por uma perspectiva crítica feminista, por outras formas de relação com a natureza, por pensar que o tema da democracia não é descartar a democracia burguesa, mas sim aprofundar a democracia; se pensamos que a transformação é multidimensional porque a dominação também é multidimensional,  porque este apoio acrítico aos governos de esquerda que coloca os direitos dos povos indígenas em segundo plano, coloca a devastação ambiental em segundo plano, coloca a reprodução do patriarcado em segundo plano? Então se termina julgando a partir de uma história muito monolítica do que se supõe que é a transformação anti capitalista, que não dá conta do mundo atual. E obviamente, de que nos serve liberar-nos do imperialismo ianque se estabelecermos uma relação idêntica com a China? Há um problema político, teórico e ideológico, talvez geracional, de pessoas para as quais esta era sua última aposta para conseguir uma sociedade alternativa, a se resistem a aceitar que fracassou.

*Original de La Diaria, jornal cooperativo fundado em 2006 e que desde 2012 é o segundo mais lido no Uruguai


segunda-feira, 3 de abril de 2017

A verdadeira unidade operacional da política dominante no Brasil é a família

A verdadeira unidade operacional da política dominante no Brasil é a família, não apenas o indivíduo e muito menos o partido político. Andrea Neves é muito melhor operadora de bastidores do que o irmão Aécio Neves. A genealogia deles, Cunha e Neves, explica muito do comportamento, do poder e dos cargos obtidos. Com a família resgatamos o papel político das mulheres e das parentelas agindo nas dinâmicas políticas. Se quisermos entender as movimentações financeiras, a influência nas mídias, as alianças, as heranças recebidas e construídas, devemos também observar a dinâmica do parentesco. O PSDB se tonou a maior confederação oligárquico-familiar do Brasil contemporâneo e a mídia paulista já iniciou a operação de troca de comando entre Neves por Doria, de uma família senhorial para outra.

RCO

La fuente de sangre


A veces siento mi sangre correr en oleadas,
lo mismo que una fuente de rítmicos sollozos;
la oigo correr en largos murmullos,
pero en vano me palpo para encontrar la herida.

A través de la ciudad, como un campo cerrado,
va transformando las piedras en islotes,
saciando la sed de cada criatura,
y coloreando en rojo toda la natura.

A menudo he pedido a estos vinos
aplacar por un solo día el terror que me roe;
el vino torna el mirar más claro y  el oído más fino.

He buscado en el amor un sueño de olvido;
mas para mí el amor es un lecho punzante,
hecho para dar de beber a esas mujeres crueles.

CHARLES BAUDELAIRE


Biblioteca Digital Ciudad Seva