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sexta-feira, 18 de outubro de 2019


"É doloroso notar que encontramos erros semelhantes em duas escolas opostas: a escola burguesa e a escola socialista. Moralizemos! Moralizemos! brandam ambas com uma febre de missionários."

Charles Baudelaire

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A QUE ESTÁ SEMPRE ALEGRE


 - Charles Baudelaire

Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.

A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade,
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.

As fulgurantes, vivas cores
De tua vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!

Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;

E humilhado pela beleza
Da primavera ébria de cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.

Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,

Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu peito perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,

E, como êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!

Tradução: Ivan Junqueira

(Um dos seis poemas que os juízes mandaram excluir de Flores do mal por conta de uma suposta alusão a sífilis. "Que sua interpretação sifilítica lhes fique na consciência", escreveu Baudelaire.)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Paris, a "capital infame"


Baudelaire e sua relação de amor e ódio com Paris, a "capital infame":

EPÍLOGO

De coração contente escalei a montanha,
De onde se vê – prisão, hospital, lupanar,
Inferno, purgatório – a cidade tamanha,

Em que o vício, como uma flor, floresce no ar.
Bem sabes, ó Satã, senhor de minha sina,
Que eu não vim aqui para lacrimejar.

Como o amásio senil de velha concubina,
Vim para me embriagar da meretriz enorme,
Cujo encanto infernal me remoça e fascina.

Quer quando em seus lençóis matinais ela dorme,
Rouca, obscura, pesada, ou quando em rosicleres
E áureos brilhos venais pompeia multiforme,

– Amo-a, a infame capital! Às vezes dais,
Ó prostitutas e facínoras, prazeres
Que nunca há de entender o comum dos mortais.

Trad.: Manuel Bandeira

sábado, 8 de setembro de 2018

SEMPER EADEM


 - Charles Baudelaire

"De onde te vem, responde, essa tristeza infinda
Que galga, como o mar, o negro e nu rochedo?"
- Quando no coração nossa colheita finda,
viver é um mal. Ninguém ignora este segredo.

Uma dor muito simples, nada misteriosa,
A todos familiar, como tua alegria.
Nada queiras saber, minha bela curiosa!
E, embora a voz te seja afável, silencia!

Cala-te, tola! alma de tudo embevecida!
Boca de riso ingênuo! Ainda mais que a Vida,
A Morte nos enlaça em seus sutis idílios.

Deixa-me o coração confiar no que suponho,
Dentro em teus olhos mergulhar como num sonho,
E dormir longo tempo à sombra de teus cílios!

Tradução: Ivan Junqueira


segunda-feira, 3 de abril de 2017

La fuente de sangre


A veces siento mi sangre correr en oleadas,
lo mismo que una fuente de rítmicos sollozos;
la oigo correr en largos murmullos,
pero en vano me palpo para encontrar la herida.

A través de la ciudad, como un campo cerrado,
va transformando las piedras en islotes,
saciando la sed de cada criatura,
y coloreando en rojo toda la natura.

A menudo he pedido a estos vinos
aplacar por un solo día el terror que me roe;
el vino torna el mirar más claro y  el oído más fino.

He buscado en el amor un sueño de olvido;
mas para mí el amor es un lecho punzante,
hecho para dar de beber a esas mujeres crueles.

CHARLES BAUDELAIRE


Biblioteca Digital Ciudad Seva

quarta-feira, 1 de março de 2017

A MUSA DOENTE



Que manhã trazes, ó musa em mágoas?
Teus olhos fundos de visões macabras
em teu rosto emergem das negras águas
a fria doida dor na qual, só, te acabas.

Que duende obsessor ou exu de encosto
te seduziu para a euforia infame de tua turma?
Que pesadelo ainda se repete no teu rosto,
como se tragada em lodos de promíscua furna?

Tomara Deus que, voltando à boa velha forma,
teu pensamento batuque outro ritmo
e que, nele, Jesus Cristo toque teu íntimo

com o primitivo poema da magnânima norma,
que no eco dos anjos soa dulcíssima cantiga
e nos campos do senhor te estende a mão amiga.

Charles Baudelaire (França, 1821/1867)
Livre adaptação de Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado


domingo, 29 de maio de 2016

El enemigo


Mi juventud no fue sino un gran temporal
Atravesado, a rachas, por soles cegadores;
Hicieron tal destrozo los vientos y aguaceros
Que apenas, en mi huerto, queda un fruto en sazón.

He alcanzado el otoño total del pensamiento,
y es necesario ahora usar pala y rastrillo
Para poner a flote las anegadas tierras
Donde se abrieron huecos, inmensos como tumbas.

¿Quién sabe si los nuevos brotes en los que sueño,
Hallarán en mi suelo, yermo como una playa,
El místico alimento que les daría vigor?

-¡Oh dolor! ¡Oh dolor! Devora vida el Tiempo,
Y el oscuro enemigo que nos roe el corazón,
Crece y se fortifica con nuestra propia sangre.

 Charles Baudelaire




Biblioteca Digital Ciudad Seva

sábado, 8 de agosto de 2015

Meu coração desnudado

"Uma vez, perguntou-se, em minha presença, em que consistia o maior prazer do amor. Alguém naturalmente respondeu: 'em receber'. E um outro: 'em dar-se'. Um outro ainda: 'prazer do orgulho'. E mais outro: 'volúpia da humildade'. (...) Houve, por fim, um descarado utopista que afirmou que o maior prazer do amor era o de formar cidadãos para a pátria.
Quanto a mim digo: a volúpia única e suprema do amor está em fazer o mal. E o homem e a mulher sabem, desde o nascimento, que no mal se encontra toda a volúpia."


Charles Baudelaire, 'Meu coração desnudado'. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. p. 18.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Perfume Exótico


Quando eu a dormitar, num íntimo abandono,
Respiro o doce olor do teu colo abrasante,
Vejo desenrolar paisagem deslumbrante
Na auréola de luz d'um triste sol de outono;
Um éden terreal, uma indolente ilha
Com plantas tropicais e frutos saborosos;
Onde há homens gentis, fortes e vigorosos,
E mulher's cujo olhar honesto maravilha.
Conduz-me o teu perfume às paragens mais belas;
Vejo um porto ideal cheio de caravelas
Vindas de percorrer países estrangeiros;
E o perfume subtil do verde tamarindo,
Que circula no ar e que eu vou exaurindo,
Vem juntar-se em minh'alma à voz dos marinheiros.
Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"

Tradução de Delfim Guimarães


domingo, 1 de junho de 2014

La musique

La musique souvent me prend comme une mer!
Vers ma pâle étoile,
Sous un plafond de brume ou dans un vaste éther,
Je mets à la voile;
La poitrine en avant et les poumons gonflés
Comme la toile,
J'escalade le dos des flots amoncelés
Que la nuit me voile;
Je sens vibrer en moi toutes les passions
D'un vaisseau qui souffre;
Le bon vent, la tempête et ses convulsions
Sur l'immense gouffre
Me bercent. D'autres fois, calme plat, grand miroir
De mon désespoir!


 Charles Baudelaire

domingo, 19 de janeiro de 2014

"O comércio é natural e , portanto, vergonhoso. O menos vil de todos os comerciantes é o que diz:'Sejamos virtuosos, já que assim ganharemos mais dinheiro do que os tolos desonestos'. Para o comerciante até a honestidade é especulação financeira. "

Baudelaire .1864.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014


..Feliz se há de achar quem com asas robustas
Pode sobrevoar campos claros, serenos.
E cujo pensamento, ao romper da alvorada,
Tal como a cotovia, ao céu sai a voar,
Quem plana sobre a vida e consegue captar
A linguagem da flor e das coisas caladas.


Charles Baudelaire

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Tristeza da Lua



Charles Baudelaire


"Divaga em meio à noite a lua preguiçosa;
Como uma bela, entre coxins e devaneios,
Que afaga com a mão discreta e vaporosa,
Antes de adormecer, o contorno dos seios.

No dorso de cetim das tenras avalanchas,
Morrendo, ela se entrega a longos estertores,
E os olhos vai pousando sobre as níveas manchas
Que no azul desabrocham como estranhas flores.

Se às vezes neste globo, ébria de ócio e prazer,
Deixa ela uma furtiva lágrima escorrer,
Um poeta caridoso, ao sono pouco afeito,
No côncavo das mãos toma essa gota rala,
De irisados reflexos como um grão de opala,
E bem longe do sol a acolhe no seu peito."Parte inferior do formulário

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O inimigo





Charles Baudelaire

A juventude não foi mais que um temporal,
Aqui e ali por sóis ardentes trespassado;
As chuvas e os trovões causaram dano tal
Que em meu pomar não resta um fruto sazonado.
Eis que alcancei o outono de meu pensamento,
E agora o ancinho e a pá se fazem necessários
Para outra vez compor o solo lamacento,
Onde profundas covas se abrem como ossários
E quem sabe se as flores que meu sonho ensaia
Não achem nessa gleba aguada como praia
O místico alimento que as farás radiosas/
Ó dor! O tempo faz da vida uma carniça,
E o sombrio Inimigo que nos rói as rosas
No sangue que perdemos se enraíza e viça!

sábado, 8 de dezembro de 2012


Aquilo a que chamam amor é bem pequeno, bem restrito, e bem fraco, comparado à inefável orgia, à santa prostituição da alma que se dá toda inteira, em poesia e caridade, ao imprevisto que se mostra, ao desconhecido que passa.
É bom ensinar por vezes aos felizes deste mundo, nem que seja só para os humilhar um instante no seu estúpido orgulho, que há felicidades superiores às deles, mais vastas e mais delicadas. Os fundadores das colônias, os pastores de povos, os padres missionários exilados no fim do mundo, conhecem sem dúvida qualquer coisa destas misteriosas ebriedades; e, no seio da vasta família que o seu gênio constituiu, devem rir-se algumas vezes daqueles que os lamentam pela sina tão revolta e pela vida tão casta.

Charles Baudelaire. 


O Spleen de Paris. Pequenos poemas em prosa.
 
 

domingo, 4 de novembro de 2012

LE SPLEEN DE PARIS


CHARLES BAUDELAIRE


Une chambre qui ressemble à une rêverie, une chambre véritablement spirituelle, où l’atmosphère stagnante est légèrement teintée de rose et de bleu.
L’âme y prend un bain de paresse, aromatisé par le regret et le désir. – C’est quelque chose de crépusculaire, de bleuâtre et de rosâtre; un rêve de volupté pendant une éclipse.
Les meubles ont des formes allongées, prostrées, alanguies. Les meubles ont l’air de rêver; on les dirait doués d’une vie somnambulique, comme le végétal et le minéral. Les étoffes parlent une langue muette, comme les fleurs, comme les ciels, comme les soleils couchants.
Sur les murs nulle abomination artistique. Relativement au rêve pur, à l’impression non analysée, l’art défini, l’art positif est un blasphème. Ici, tout a la suffisante clarté et la délicieuse obscurité de l’harmonie.
Une senteur infinitésimale du choix le plus exquis, à laquelle se mêle une très légère humidité, nage dans cette atmosphère, où l’esprit sommeillant est bercé par des sensations de serre chaude.
La mousseline pleut abondamment devant les fenêtres et devant le lit; elle s’épanche en cascades neigeuses. Sur ce lit est couchée l’Idole, la souveraine des rêves. Mais comment est-elle ici? Qui l’a amenée? quel pouvoir magique l’a installée sur ce trône de rêverie et de volupté? Qu’importe? la voilà! je la reconnais.
Voilà bien ces yeux dont la flamme traverse le crépuscule; ces subtiles et terribles mirettes, que je reconnais à leur effrayante malice! Elles attirent, elles subjuguent, elles dévorent le regard de l’imprudent qui les contemple. Je les ai souvent étudiées, ces étoiles noires qui commandent la curiosité et l’admiration.
A quel démon bienveillant dois-je d’être ainsi entouré de mystère, de silence, de paix et de parfums? O béatitude! ce que nous nommons généralement la vie, même dans son expansion la plus heureuse, n’a rien de commun avec cette vie suprême dont j’ai maintenant connaissance et que je savoure minute par minute, seconde par seconde!
Non! il n’est plus de minutes, il n’est plus de secondes! Le temps a disparu; c’est l’Eternité qui règne, une éternité de délices!
Mais un coup terrible, lourd, a retenti à la porte, et, comme dans les rêves infernaux, il m’a semblé que je recevais un coup de pioche dans l’estomac.
Et puis un Spectre est entré. C’est un huissier qui vient me torturer au nom de la loi; une infâme concubine qui vient crier misère et ajouter les trivialités de sa vie aux douleurs de la mienne; ou bien le saute-ruisseau d’un directeur de journal qui réclame la suite du manuscrit.
La chambre paradisiaque, l’idole, la souveraine des rêves, la Sylphide, comme disait le grand René, toute cette magie a disparu au coup brutal frappé par le Spectre.
Horreur! je me souviens! je me souviens! Oui! ce taudis, ce séjour de l’éternel ennui, est bien le mien. Voici les meubles sots, poudreux, écornés; la cheminée sans flamme et sans braise, souillée de crachats; les tristes fenêtres où la pluie a tracé des sillons dans la poussière; les manuscrits, raturés ou incomplets; l’almanach où le crayon a marqué les dates sinistres!
Et ce parfum d’un autre monde, dont je m’enivrais avec une sensibilité perfectionnée, hélas! il est remplacé par une fétide odeur de tabac mêlée à je ne sais quelle nauséabonde moisissure. On respire ici maintenant le ranci de la désolation.
Dans ce monde étroit, mais si plein de dégoût, un seul objet connu me sourit: la fiole de laudanum; une vieille et terrible amie; comme toutes les amies, hélas! féconde en caresses et en traîtrises.
Oh! oui! Le Temps a reparu; Le Temps règne en souverain maintenant; et avec le hideux vieillard est revenu tout son démoniaque cortège de Souvenirs, de Regrets, de Spasmes, de Peurs, d’Angoisses, de Cauchemars, de Colères et de Névroses.
Je vous assure que les secondes maintenant sont fortement et solennellement accentuées, et chacune, en jaillissant de la pendule, dit: – “Je suis la Vie, l’insupportable, l’implacable Vie!”
Il n’y a qu’une Seconde dans la vie humaine qui ait mission d’annoncer une bonne nouvelle, la bonne nouvelle qui cause à chacun une inexplicable peur.
Oui! le Temps règne; il a repris sa brutale dictature. Et il me pousse, comme si j’étais un boeuf, avec son double aiguillon. – “Et hue donc! bourrique! Sue donc, esclave! Vis donc, damné!”


Retrato de Baudelaire, por Gustave Courbet

El cuarto doble
Un cuarto que parece un desvarío, un cuarto verdaderamente espiritual, donde la atmósfera estancada está ligeramente teñida de rosa y de azul.

El alma allí toma un baño de pereza, aromatizado por el remordimiento y el deseo. – Hay algo de crepuscular, de azulado y de rosado, un delirio de deleite durante un eclipse.

Los muebles tienen formas alargadas, postradas, lánguidas. Los muebles tienen aire de soñar; se diría dotados de una vida sonámbula, como lo vegetal y lo mineral. Las materias hablan una lengua muerta como las flores, como los cielos, como los soles ponientes.

Sobre los muros ninguna abominación artística. Relativamente al sueño puro, a la impresión sin analizar, el arte definido, el arte positivo es una blasfemia. Así, todo tiene la suficiente claridad y la deliciosa obscuridad de la armonía.

Un aroma infinitesimal de la elección más exquisita, a la que se mezcla una muy ligera humedad, nace en esta atmósfera donde el espíritu durmiente es mecido por sensaciones de sofocación.

La muselina cae abundantemente delante de las ventanas y delante de la cama; se expande en cascadas nevosas. Sobre esa cama está acostado el Idolo, la soberana de los sueños. ¿Pero cómo está ella ahí? ¿Quién la ha traído? ¿Qué poder mágico la ha instalado sobre ese trono de desvarío y deleite? ¡Qué importa! ¡Allá está! Yo la reconozco.

Vean bien esos ojos cuya llama atraviesa el crepúsculo; esos sutiles y terribles mirones, que reconozco por su tremenda malicia! Atraen, subyugan, devoran la mirada del imprudente que los contempla. Frecuentemente los he estudiado, esas estrellas negras que comandan la curiosidad y la admiración.

¿A qué demonio benevolente debo el estar así rodeado de misterio, de silencio, de paz y de perfumes? ¡Oh Beatitud! Eso que nombramos generalmente la vida, aún en su expansión más feliz, no tiene nada en común con esa vida suprema de la que ahora tengo conocimiento y que saboreo minuto por minuto, segundo por segundo.

¡No! ¡No hay más minutos! ¡No hay más segundos! El tiempo ha desaparecido: es la Eternidad que reina, una eternidad de delicias.

Pero un golpe terrible, torpe, resuena en la puerta, y , como en los sueños infernales, me ha parecido que recibía un golpe de azadón en el estómago.

Y luego un Espectro ha entrado. Es un oficial que viene a torturarme en nombre de la ley; una infame concubina que viene a gritar miseria y a agregar las trivialidades de su vida a los dolores de la mía; o bien el testaferro de un director de diario que reclama el término de un manuscrito.

El cuarto paradisíaco, el ídolo, la soberana de los sueños, la Sílfida, como decía el gran René, toda esa magia ha desaparecido al golpe brutal asestado por el Espectro.

¡Horror! ¡Me acuerdo! ¡Me acuerdo! ¡Sí! Esa choza, esa estancia del eterno tedio, es bien la mía. He aquí los muebles fatuos, polvorientos, descornados; la chimenea sin llama y sin brasa, manchada de escupidas; las ventanas tristes donde la lluvia ha trazado surcos en la polvareda; los manuscritos, tachados o incompletos; el almanaque donde el lápiz ha marcado las fechas siniestras!

Y ese perfume de otro mundo, en el que me embriago con una sensibilidad perfeccionada, ay! Ha sido reemplazado por un fétido olor a tabaco mezclado con no sé qué nauseabundo moho. Se respira aquí ahora lo rancio de la desolación.

En ese mundo estrecho, más sí pleno de disgusto, un solo objeto conocido me sonríe: el frasco del láudano; un viejo y terrible amigo; como todos los amigos, ay! fecundo en caricias y en traiciones.

¡Oh! ¡Sí! El Tiempo ha reparado; el Tiempo reina soberano ahora; y con el horroroso viejo ha vuelto todo su demoníaco cortejo de Recuerdos, de Remordimientos, de Espasmos, de Pavor, de Angustias, de Pesadilla, de Cóleras y de Neurosis.

Yo les aseguro que los segundos ahora están fuertemente y solemnemente acentuados, y cada uno, saltando del péndulo, dice: “¡Yo soy la Vida, la insoportable, la implacable Vida!”

No hay más que un Segundo en la vida humana que tenga la misión de anunciar una buena nueva, la buena nueva que causa a cada uno un inexplicable pavor.

¡Sí! El Tiempo reina: ha retomado su brutal dictadura. Y me empuja con su doble aguijón. -” ¡Y arre así! ¡borrico! ¡Suda así, esclavo!, ¡Vive así, maldito!

LE SPLEEN DE PARIS de Charles Baudelaire



O QUARTO DUPLO
Um quarto que parece um devaneio, um quarto verdadeiramente espiritual onde a atmosfera estagnante é ligeiramente tingida de rosa e azul.
A alma toma um banho de preguiça, aromatizada pelos pesares e o desejo. É algo de crepuscular, de azulado e de rosado; um sonho de volúpia durante um eclipse.
Os móveis têm as formas alongadas, prostradas, lânguidas. Os móveis têm o ar de que sonham; diríamos dotados de uma vida sonambúlica como um vegetal ou um mineral. Os tecidos falam uma língua muda como as flores, como os céus, como os sóis poentes.
Nas paredes nenhuma abominação artística. Relativamente ao puro sonho, à impressão não analisada, a arte definida, a arte positiva é uma blasfêmia. Aqui tudo tem suficiente clareza e a deliciosa obscuridade da harmonia.
Um aroma infinitesimal da mais original escolha, ao qual se mistura uma levíssima umidade, flutua nessa atmosfera, onde o espírito sonolento é embalado por uma sensação de estufas aquecidas.
A musselina chora abundantemente diante das janelas e diante do leito; ela se derrama em cascatas de neve. Sobre esse leito está deitado o Ídolo, a soberana dos sonhos. Mas como ela está aqui? Quem a trouxe? Que poder mágico instalou-se nesse trono de devaneios e volúpia? Que importa! Ei-la! Eu a reconheço.
São esses olhos cuja flama atravessa o crepúsculo; esses sutis e terríveis olhares que eu reconheço em sua assustadora malícia! Eles atraem, eles subjugam, eles devoram o olhar do imprudente que os contempla. Já estudei muitas vezes essas estrelas negras que comandam a curiosidade e a admiração.
Por qual demônio benevolente devo eu ter sido envolvido assim de mistério, de silêncio, de paz e de perfumes? Ó beatitude! Isso que nós chamamos geralmente de vida, mesmo em sua expansão mais feliz, nada tem de comum com essa vida suprema que, agora, eu conheço e saboreio minuto a minuto, segundo a segundo.
Não! Não há mais minutos, não há mais segundos! O tempo desapareceu; é a Eternidade que reina, uma eternidade de delícias.
Mas uma pancada terrível, fortíssima, ressoou na porta e, como nos sonhos infernais, pareceu-me que recebia um golpe de uma enxada no estômago.
E depois um Espectro entrou. É um oficial de justiça que vem me torturar, em nome da lei; uma infame concubina que vem exibir sua miséria e juntar as trivialidades de sua vida às dores da minha; ou então um jovem secretário de diretor de jornal que vem reclamar a entrega de um manuscrito.
O quarto paradisíaco, o Ídolo, a soberana dos sonhos, a Sílfide, como dizia o grande René, toda aquela magia desapareceu com o golpe disparado pelo Espectro.
Horror! Eu me lembro! Eu me lembro! Sim! Este chiqueiro, este ambiente de eterno desgosto está bem dentro de mim. Vejam os móveis burros, empoeirados, capengas, a lareira sem chamas e sem brasas, suja de escarros, as tristes janelas onde a chuva traçou seus sulcos na poeira; os manuscritos rasurados ou incompletos; o almanaque onde o lápis marcou as datas sinistras!
E esse perfume de um outro mundo, com o qual eu me embriagava com uma sensibilidade aperfeiçoada, ei-lo substituído por fétido odor de tabaco misturado a um mofo nauseabundo. Respira-se aqui, agora, o ranço da desolação.
Nesse mundo estreito, mas tão repleto de desgostos, um único objeto conhecido me sorri: a garrafinha de láudano; uma velha e terrível amiga, como todas as outras. Oh! fecundas em carinho e traições.
Oh! Sim, o Tempo reapareceu, o Tempo reina soberano agora; e com o horroroso velho voltou todo o demoníaco cortejo de Lembranças, de Arrependimentos, de Espasmos, de Medos, de Angústias, de Pesadelos, de Cóleras e de Neuroses.
Eu vos asseguro que os segundos agora são fortemente e solenemente acentuados e cada um saltando do pêndulo diz:
“Eu sou a Vida, a insuportável, a implacável Vida.”
Só há um Segundo na vida humana com a missão de anunciar uma boa nova, a boa nova que causa em cada um de nós um medo inexplicável.
Sim! O Tempo reina, ele retomou sua brutal ditadura. Ele me empurra, como se eu fosse um boi, com seu duplo aguilhão. “Eia Vamos, então, burrico! Sua então, escravo! vive, então, condenado!

LE SPLEEN DE PARIS de Charles Baudelaire


As tentações, ou Eros, Plutus e a Glória

Charles Baudelaire

Dois soberbos Satanases e uma Diabinha não menos extraordinária, na noite passada, subiram a misteriosa escada por onde o Inferno assalta a fraqueza do homem que dorme e comunica-se em segredo com ele. E eles vieram colocar-se gloriosamente diante de mim, em pé como sobre um estrado. Um esplendor sulfuroso emanava desses três personagens que se destacavam do fundo opaco da noite. Eles tinham um ar tão arrogante, tão pleno de dominação, que eu, primeiramente, os tomei, todos os três, por verdadeiros Deuses.
O rosto do primeiro diabo tinha uma sexualidade ambígua e possuía, também, na linha de seu corpo, a flacidez dos antigos Bacos. Seus belos olhos, lânguidos, de cor tenebrosa e indecisa, pareciam violetas carregadas ainda de pesados choros da tempestade e seus lábios entreabertos como defumadores quentes, de onde exalava o bom cheiro de uma perfumaria; e a cada vez que ele suspirava, insetos almiscarados se iluminavam, esvoaçando aos ardores de sua respiração.
Em volta de sua túnica de púrpura como se fosse um cinto, enlaçava sua cintura uma serpente cintilante que, com a cabeça levantada, virava para ele seus olhos de brasas, langorosamente. Nesse cinto vivo estavam pendurados, alternando com frascos cheios de licores sinistros, facas brilhantes e instrumentos de cirurgia. Em sua mão direita ele tinha um frasco cujo conteúdo era de um vermelho luminoso e que tinha como etiqueta essas palavras bizarras: Bebam, esse é o meu sangue, um perfeito cordial”; na esquerda, um violino que lhe servia, sem dúvida, para cantar seus prazeres, suas dores e para difundir o contágio de sua loucura nas noites de sabá.
Os tornozelos delicados arrastavam alguns anéis de uma corrente de ouro rompida e, quando o incômodo que resultava forçava-o a baixar o olhar para o chão, ele, vaidosamente, contemplava as unhas dos pés, brilhantes e polidas como pedras bem trabalhadas.
Fitou-me com seus olhos inconsolavelmente desolados, de onde escorria insidiosa embriaguez, e me disse com sua voz cantante: “Se quiseres, se quiseres, eu te farei o Senhor das almas e serás o mestre da matéria viva mais ainda que um escultor pode ser do barro, e conhecerás o prazer sempre renascente, incessantemente, e sair de ti mesmo para te esqueceres em outro e atrair outras almas ate se confundirem com a tua.”
Respondi-lhe: “Muito obrigado! Eu não teria o que fazer com esses seres de pacotilha que, sem dúvida, não valem mais do que o meu pobre eu. É verdade que tenho certa vergonha de minhas lembranças, mas não quero esquecer nada. E, mesmo quando eu não te conhecia, velho monstro, tua misteriosa cutelaria, teus equívocos frascos, as correntes que embaraçam teus pés são os símbolos que explicam claramente as inconveniências de tua amizade. Guarda teus presentes.”
O segundo diabo não tinha aquele ar ao mesmo tempo trágico e sorridente, nem aquelas belas maneiras insinuantes, nem a beleza delicada e perfumada. Era um vasto homem de cara grande sem olhos, cujo ventre pesado pendia sobre as coxas e cuja pele do corpo era dourada e ilustrada, como uma tatuagem, com uma multidão de pequenas figuras moventes representando as numerosas formas da miséria universal. Havia pequenos homens emagrecidos que se penduravam, voluntariamente, a um prego; e, ainda, pequenos gnomos, disformes, magros, cujos olhos suplicantes reclamavam esmolas mais bem ainda que suas mãos trêmulas; e depois as velhas mães levando seus abortos pendurados em seus mamilos extenuados. E muitos outros mais.
O grande Satanás batia com seu próprio punho no ventre imenso de onde provinha um tilintar de metais que terminava em um vago gemido feito de numerosas vozes humanas. E ele ria mostrando, sem qualquer pudor, seus dentes estragados em um riso imbecil, como o de certos homens em todos os países, depois de jantarem bem.
E ele me disse: “Posso te dar o que tudo consegue, o que vale tudo, o que tudo substitui!” E bateu em seu monstruoso ventre, cujo eco sonoro fez como que o comentário de sua fala grosseira.
Virei-me, com nojo, e respondi: “Não tenho necessidade, para minha alegria, da miséria de ninguém; e não quero uma riqueza entristecida como um papel pintado com todas as desgraças representadas em tua pele.”
Quanto à Diabinha, eu mentiria se não confessasse que, à primeira vista, encontrei nela um bizarro charme. Para definir esse charme não saberia compará-lo a nada melhor do que ao de certas mulheres muito bonitas que, apesar do tempo vivido, não envelhecem e cuja beleza guarda a magia penetrante das ruínas. Ela tinha um ar imperioso, desajeitado e seus olhos batidos continham uma força fascinante, O que me tocou mais foi o mistério de sua voz, na qual eu reencontrei a lembrança dos mais deliciosos contraiu e, também, um pouco da rouquidão das gargantas incessantemente lavadas pelas aguardentes.
“Queres conhecer meu poder?”, disse a falsa deusa com sua voz charmosa e paradoxal. “Escuta.”
E ela então botou na boca uma gigantesca trombeta, cheia de fitas, como uma flauta antiga, com manchetes de todos os jornais do universo e, através dessa trombeta, gritou meu nome, que se espalhou assim pelo espaço com o barulho de cem mil trovões e voltou para mim repercutido pelo eco do mais longínquo planeta.
“Diabo!”, disse eu, já meio subjugado. “Vejam que precioso.” Mas examinando mais atentamente a sedutora virago, pareceu-me que a reconhecia vagamente por tê-la visto bebendo e comemorando com uns pândegos de minhas relações, e o som rouco do cobre trazia a meus ouvidos não sei que lembranças de uma trombeta prostituída.
Eu respondi, também, com todo o meu desdém: “Vai-te. Eu não fui feito para casar com a amante de certas pessoas cujo nome não quero pronunciar.
Certamente, tinha o direito de ficar orgulhoso da minha corajosa abnegação. Mas, infelizmente, acordei e todas as forças me abandonaram. “Na verdade”, disse-me eu, “era preciso que eu estivesse pesadamente adormecido para mostrar tais escrúpulos. Ah! se eles pudessem voltar quando eu estivesse acordado, eu não seria tão delicado!”
E eu os invoquei em altos brados, suplicando-lhes que me perdoassem, oferecendo-lhes me desonrar tantas vezes quanto necessário para merecer seus favores; mas eu os havia ofendido gravemente, pois nunca mais voltaram.

“Pequenos Poemas em Prosa” (Le Spleen de Paris) de Charles Baudelaire