quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O Sentimento De Um Ocidental (1880)

Cesário Verde


I
AVE - MARIAS

Nas nossa ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés e a turba,
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, Sampetesburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.
Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio; apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!


II
NOITE FECHADA

Toca-se as grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de "dom"!

E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos;
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos;
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

E mais: as costureiras, as floristas,
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados;
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.


III
AO GÁS

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cuteleiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus meclemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós de arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros,como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

"Dó da miséria!... Compaixão de mim!..."
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzimho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!


IV
HORAS MORTAS

O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!"...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir estrangulados.

E nestes nublosos corredores
Nausiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando, sobre a pedra das sacadas.
E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés de fel como um sinistro mar!
O Homem


Mal das águas, ó Terra, te brotavam
Os cumes dos montes jovens, e cheirosas,
Exalando desejo, cheias de bosques verdes,
No cinzento deserto do Oceano


Surgiam as primeiras ilhas belas; e o olhar alegre
Do Deus do Sol contemplava as recém-nadas
Plantas, da sua eterna juventude
As filhas sorridentes, de ti nascidas.


Eis na mais bela das ilhas, onde sempre
O ar banhava de repouso manso o bosque,
Jazia entre cachos de uvas, após morna
Noite, na hora da manhã crepuscular


Nascido, ó Mãe Terra! O teu mais belo filho;-
E para Hélios, o pai, olha confiado
O menino, e desperto alegre, provando
Os doces bagos, para sua ama


A videira sagrada; e breve cresce; os animais
Receiam-no, pois é diferente deles
O homem; não é igual a ti nem ao pai,
Pois dentro dele, ousada e única,


Está unida, ó Terra! o seu orgulho o afasta
Do teu coração, e as tuas dádivas são
Em vão, e os teus laços ternos;
Pois algo busca de melhor, o indómito!


Do prado rescendente da sua margem tem
De partir o Homem pra a água sem flores,
E embora brilhe, como noite estrelada, o seu
Pomar de frutos de ouro, ele vai cavar


Cavernas nos montes, e rebusca na mina,
Longe da luz alegre de seu Pai, infiel
Também ao Deus do Sol, que não ama
Escravos e escarnece dos cuidados.


Pois mais livres respiram as aves do bosque,
Embora mais magnífico arqueje o peito do Homem,
E ele, que vê o escuro futuro, tem também
De ver a morte, entre todos sozinho ter-lhe medo.



E contra todos os que respiram usa o Homem
Armas em seu orgulho e medo eternos; no dissídio
Se consome, e a flor da sua paz,
Delicada, é breve e passageira.


Não é ele de todos os companheiros de vida
O mais infeliz? Mas mais fundo dilacera
O Destino, que tudo iguala e equilibra,
O peito inflamável do forte.


Hölderlin
Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.


Sophia de Mello Breyner Andresen
(…) Por mais enfadonha, penosa e inútil que lhe parecesse a vida, naquele momento sentia a mesma emoção e o mesmo nervosismo de sete anos, na véspera de Austerlitz.
Recebera e dera já as ordens para o dia seguinte, elo que nada mais tinha de fazer. No entanto, perturbavam-no pressentimentos simples, nítidos e, por consequência, sinistros. Tinha plena consciência de que aquela batalha seria a mais terrível de todas a que assistira até ao momento, e a possibilidade de morrer aflorou-lhe pela primeira vez o pensamento, com toda a sua simplicidade e o seu horror, desprovida de qualquer ligação com a vida presente, despida de toda a presunção no que respeitava ao efeito que poderia ter sobre os outros, sendo antes algo que lhe dizia unicamente respeito a ele, à sua própria alma, e que se lhe apresentava com uma claridade e certeza extraordinárias. Todos os seus pensamentos, tudo o que anteriormente o preocupara e obsidiara, surgia-lhe agora iluminado por uma luminosidade fria e branca, que afastava todas as sombras e apagava os contornos, desprovido de qualquer perspectiva. Afigurou-se-lhe que, até ao momento presente, sempre contemplara toda a sua vida projectada numa tela e iluminada pela luz artificial de uma lanterna- mágica. Agora, claramente iluminadas pela viva claridade do dia, aquelas imagens apareciam-lhe grosseiramente coloridas. «Sim, sim ei-las, essas imagens enganosas que me comoviam, me seduziam e torturavam!», dizia consigo, examinando na memória os principais quadros da sua vida que a lanterna-mágica projectara, observando-os sob aquela luz fria e branca, o nítido pensamento da morte. «Ei-las, essas figuras grosseiramente pintadas que me pareciam tão admiráveis e misteriosas! A glória, o bem público, o amor por uma mulher e pela própria pátria! Como tudo então me parecia grandioso e de sentido profundo! Mas, na realidade, como tudo é pálido, mesquinho e miserável, comparado com a aurora nascente deste novo dia que desperta em mim!» A sua atenção concentrava-se particularmente nas três grandes dores da sua vida: o amor que sentira por uma mulher, a morte do pai e a invasão dos franceses que ocupavam já metade da Rússia. «O amor… aquela rapariguinha que se me afigurava cheia de força misteriosas… Sim, eu amava-a, construía sonhos poéticos de amor, de felicidade… Oh, que inocente e terno rapazinho eu era!», disse voz alta súbita e raivosamente. «Como foi possível acreditar em não sei que espécie de amor ideal que a faria conservar-se-me fiel durante o longo ano da minha ausência. Como a terna pomba da fábula, ela deveria consumir-se na espera… E tudo isso era bem mais simples… aterradoramente simples, espantosamente vil!»
«O meu pai, também ele, construía em Lissi Gori, julgando que tudo lhe pertencia, os camponeses, a terra e até o ar que respirava; mas eis que Napoleão chegou, sem suspeitar da sua existência, varreu-o como uma palinha do seu caminho, e Lissi Gori e toda a sua existência se desmoronaram… e a princesa Maria diz que é uma provação vinda do Céu! Qual será, pois a razão de tal provação se ele deixou de existir e nunca mais voltará à vida?... E a pátria, a perda de Moscovo? Talvez eu amanhã eu seja morto, não pelos franceses mas por um dos nossos, como ia sucedendo ontem à noite quando esse soldado disparou uma espingarda bastante perto da minha cabeça. Depois virão os franceses, agarrar-me-ão pelos pés e pela cabeça e lançar-me-ão numa vala para afastar o cheiro do meu cadáver. Surgirão depois as novas condições de vida para os que restarem, tão naturais como as antigas, mas eu já não serei deste mundo, já não as poderei apreciar!» (…)

Tolstoi, Guerra e Paz.
PEQUENO BOSQUE DE VIDOEIROS DE ARKHIP KUINJI

Os vidoeiros esguios e húmidos
inclinados sobre o rio
o olhar de pé apenas ouve
não se afasta

A solidão dos troncos brancos
não alcançam os teus braços sem os ver chegar
e esta erva inundada de luz espera o teu corpo deitado
para mim
sem despedida.

Como saber de ti ou de mim?
Deslocar-me sem destino

não saberei, não saberei



O MENSAGEIRO DE BILL VIOLA

O homem mergulhado na primeira água
a mais simples, bombeada pelo coração
e limpa pelo sangue.

A carga de luz que acolheu no seu espírito
só lhe inspira a dor pura de cada dia
e ao emergir da água
sente a vida: o ar, o nascimento, o crescimento.
Descobre que o destino não pensa em ninguém
que apenas recebe na sua arte de receber

e assim dá vida e recebe a morte

Os olhos fecham para abrirem por dentro
onde a inteligência não se desloca
mas confia

ganha sentido

a sua visibilidade.



RETRATO DE UMA MÃE PALESTINIANA NA SKY NEWS*

No rosto desta mulher não há expressão
para felicidade ou tristeza

a parede que dividia foi derrubada


* depois de ter perdido o pai, marido e filho


EPISÓDIO DE VERÃO NUM RESTAURANTE EM COLOANE

Apontamos-lhe o dedo e nada sabe de nós.
Não vê num sinal a sua sorte
e ignora-o mais do que qualquer molécula H2O.

- Não é estranho que a aflição de um peixe
no prato da balança seja medida em números
ou no ponteiro o peso da morte acuse já um coração em despedida?

Um grito soa para lá da sua força e da sua natureza.
Um impulso saído da barbatana irrompe
no ar até ao chão
e a fuga afigura-se-lhe improvável.

Com um golpe fácil recebe a morte
rompe-se o fio de luz que o ligava à vida

por um interesse nada científico
e por inspiração de uma cozinheira


Vasco Ferreira Campos. Port.
[SE PERGUNTAREM: DAS ARTES]


Se perguntarem: das artes do mundo?
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos
recantos,
charcos entre elas.
Quero na escuridão revolvida pelas luzes
ganhar baptismo, ofício.
Queimado nas orlas de fogo das poças.
O meu nome é esse.
E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as
noites,
caem dentro dos dias – e eu estudo
astros desmoronados, mananciais, o segredo.


HERBERTO HELDER
MADREDEUS


O SEGREDO DO FUTURO


O segredo do futuro,
É o amor
Um amor sublime e puro,
O belo amor
Só o amor
Resolve tudo numa esperança maior


Sem amor
O que foi grande é já menor
Sem amor
O que era bom ficou pior
Só o amor
Resolve tudo e trás a esperança até nós


Eu vejo o tempo a passar muito depressa


E ao longe essa esperança
Que sinto apagar
Chamou por mim
Para eu a chamar


A ideia de amor
Aconteceu
na estrada da Terra até ao Céu
A ideia de amor não se perdeu
E devolveu tudo o que se deu
A chave do futuro é dar de novo amor
A todo o “outro”…
O “outro” que és tu, e ele, e eu
A sós neste mundo


Letra de Pedro Ayres Magalhães
Música de Fernando Júdice
BRECHT SOBRE BAAL

10 de Fevereiro de 1922
Espero ter evitado em BAAL e NA SELVA um grande erro de outras artes: o seu esforço para arrastar o público consigo. Criei instintivamente distâncias e preocupei-me em fazer com que os meus efeitos (poéticos e filosóficos) fossem controlados. O magnífico isolamento do espectador não é afectado, não se trata de sua res, quae agitur, ele não sente que tenha sido convidado a partilhar sentimentos, a encarnar no herói e a comportar-se de maneira indestrutível e importante ao observar-se a si próprio simultaneamente em dois exemplares. Há um interesse de um tipo mais elevado: o da comparação, o do outro, imenso, surpreendente.

Janeiro 1926
O modelo para Baal
A biografia dramática chamada BAAL trata da vida de um homem que viveu na realidade. Era um tal Josef K., do qual pessoas me diziam conseguirem lembrar-se claramente, tanto da sua pessoa como da sensação que provocava. K. era filho ilegítimo de uma lavadeira. Cedo ganhou má reputação. Sem ter obtido qualquer formação, parece ter sido capaz de impressionar pessoas de facto bastante cultas com conversas extraordinárias pela informação que continham. O meu amigo dizia-me que com a sua maneira incomparável de se movimentar (ao pegar num cigarro, ao sentar-se numa cadeira, etc.), K. provocou uma tal impressão numa quantidade de gente, que estes, sobretudo jovens, passaram a imitá-lo. No entanto, devido ao seu estilo de vida irreflectido, foi-se afundando cada vez mais, sobretudo porque nunca tomou nenhuma iniciativa e porque de cada vez que alguém lhe dava uma oportunidade a explorava de maneira vergonhosa. Vários episódios obscuros pesam-lhe na conta, por exemplo o suicídio de uma rapariga. Tinha formação de mecânico, mas que se saiba nunca trabalhou. Quando as coisas em A. começaram a ficar quentes de mais, fugiu para bastante longe com um médico falhado. Voltou porém em 1911 a A. Numa tasca em Lauterlech, no meio de uma rixa que meteu facas, este seu amigo morreu, quase de certeza morto pelo próprio K. Que de qualquer das formas desapareceu muito rapidamente de A. e parece que morreu miseravelmente na Floresta Negra. ["Das Urbild Baals" em Die Szene, Berlin, Janeiro, 1926]

Por volta de 1926
Sobre Baal
Procurava em vão, ao tornar visível a figura de Baal no palco, mostrar a oposição à burguesia "daquele" tempo. A burguesia estava já tão arruinada, sem salvação possível, que apenas criticava a forma que - enquanto forma - era indiferente, acessória, ou então tentava acabar com um tal "je ne sais pas quoi" da formulação. O verdadeiro opositor só posso esperar encontrar no proletariado. Sem ter sentido em mim esta oposição nunca teria sido capaz de criar um tipo como aquele.

1954
Olhando para as minhas primeiras peças
[...] A peça BAAL pode causar várias dificuldades àqueles que não aprenderam a pensar de forma dialéctica. Não conseguirão ver na peça muito mais do que uma glorificação de um puro egotismo. No entanto há um indivíduo que se opõe às exigências e os desencorajamentos de um mundo que conhece não uma produtividade utilitária mas exploradora. Não podemos dizer como reagiria Baal se os seus talentos fossem utilizados: ele não o deixou. A arte de viver de Baal partilha o destino de qualquer outra arte no capitalismo: é atacada. Ele é associal, mas numa sociedade associal.
Vinte anos depois de ter escrito BAAL estou ocupado com um material (uma ópera) que volta a pegar na ideia principal do BAAL. Há uma figura chinesa do tamanho de um dedo, de madeira e vendida no mercado aos milhares, que representa o deus gordo e pequeno da Felicidade confortavelmente deitado. Este deus, vindo de Leste, devia entrar nas cidades que foram destruídas após uma grande guerra a fim de convencer as pessoas a lutarem pela sua felicidade e bem-estar pessoais. Juntou seguidores de vários tipos e torna-se alvo de perseguição por parte das autoridades quando alguns deles começam a proclamar que os camponeses têm direito à terra, os trabalhadores a tomar conta das fábricas, os filhos dos trabalhadores e camponeses a tomar conta das escolas. É preso e condenado à morte. E então os carrascos praticam a sua arte no pequeno deus da felicidade. Mas o veneno que lhe fazem engolir só lhe sabe bem, a cabeça que lhe cortam volta de imediato a crescer, no patíbulo ele executa uma dança brincalhona e contagiante, etc, etc. É impossível matar por completo a necessidade de felicidade da humanidade.
Nesta edição, a primeira e última cena de Baal foram revistas. De resto deixo a peça conforme a primeira versão, dado que me faltam forças para a mudar. Admito (e aviso): à peça falta sabedoria. [...]
["Bei Durchsicht meiner ersten Stücke" Prefácio para Stücke 1.]

Baal não é um poeta especialmente moderno. Baal não é um prejudicado pela natureza. É do tempo em que esta peça for apresentada. É a dolorosa caveira de Sócrates e Verlaine. Aos actores que reclamam os extremos quando não conseguem encontrar soluções no intermédio: Baal não é uma natureza nem cómica nem trágica. Tem a seriedade de todos os animais. A peça pretende mostrar que é possível conseguir-se o seu quinhão, se se estiver disposto a pagar. A peça não é a história de um ou dos muitos episódios, mas de uma vida. Começou por se chamar: "Baal devora! Baal dança!! Baal glorifica-se!!!"
Bertolt Brecht, Sobre BAAL

in www.artistasunidos.pt/baal.htm
FARÖ


(…) Dois dias após a partida de Moscovo, Karataev fora assaltado pela febre, tendo ficado de cama no hospital de Moscovo e, à medida que Karataev enfraquecia, Pierre ia-se afastando dele.
No cativeiro, no barracão, Pierre descobrira – embora não tivesse sido graças à sua inteligência, mas sim com todo o seu ser – que o homem fora criado para a felicidade, que a felecidade residenele mesmo, que consiste na satisfação das necessidades naturais do homem e que toda a infelicidade não vem da insuficiência mas sim do excesso; contudo, naquele momento, durante as três semanas de marcha, fora-lhe revelada uma nova e consoladora verdade: nada no mundo era verdadeiramente terrível. Aprendera que, tal como não existe uma situação em que o homem seja feliz e inteiramente livre, também não existe uma situação em que seja totalmente infeliz e privado de liberdade. Aprendera que existe um limite para os sofrimentos e um limite para a liberdade, limites estes que se aproximam bastante; que o homem sofria porque, no seu leito de rosas, uma pétala se dobrara, sofria como ele próprio sofria naquele momento, quando adormecia sobre a terra húmida, aquecendo-se de um lado e arrefecendo do outro; tal como sofria outrora, quando calçava os seus estreitos escarpins de baile, sofria agora ao andar descalço (há muito tempo que o seus sapatos se tinham estragado), com os pés cheios de crostas (…).

(...) Havia muito tempo que Pierre conhecia a história. Karataev contara-a umas seis vezes, especialmente para ele, sempre com uma disposição bastante alegre. No entanto, embora a conhecesse, Pierre prestou atenção, como se houvesse qualquer coisa de novo, tendo-se comunicado a Pierre a doce animação que Karataev manifestamente sentia. Era a história de um velho mercador, que vivia honestamente com a família no temor de Deus, tendo ido um dia à feira de Makari com um amigo, um rico mercador.
Tendo parado numa estalagem, os dois mercadores tinham-se deixado adormecer. Na manhã seguinte, o companheiro do mercador foi encontrado com a garganta cortada e roubado. A faca ensanguentada fora encontrada debaixo do travesseiro do velho mercador. Julgaram o mercador, chicotearam-no, arrancaram-lhe as narinas, «como se deve fazer, segundo a lei», dizia Karataev, e mandaram-no para os trabalhos forçados.
- Eis que, irmão (fora neste ponto da narração que Pierre chegara), dez anos se passaram e mais ainda. O velhinho nos trabalhos forçados. Submete-se a tudo, não faz nada de mal. Apenas pede a Deus que lhe envie a morte. Bem… Eis que uma noite os condenadas se juntam, como nós aqui estamos agora, tu e eu; e o velhinho está com eles. Acabam por contar por que crime estão ali a sofrer, em que é que ofenderam a Deus. Cada um deles se põe a contar: uma matara uma alma, o outro duas, um terceiro era um incendiário, outro um vagabundo, sofrendo por nada. Interrogaram o velhinho: «E tu, por que é que sofres, avô?»
- «Eu irmãos, sofro pelos meus pecados e pelos dos outros. Mas não matei uma única alma, não roubei o que não era meu, partilhei com os desgraçados. Eu, irmãos, sou um mercador e tinha grandes riquezas. Eis o que me aconteceu», disse ele. Contou-lhe então toda a história. «Eu, disse ele, não me aflijo por mim. Deus escolheu-me. Só me aflijo pela minha velha e pelos meus filhos.» Dito isto, o velhinho pôs-se a chorar. Mas eis que entre aqueles se encontrava o homem que matara o mercador. «Onde é que isso se passou, avô?», disse. «Quando? Em que mês?» Perguntou tudo e os eu coração doeu-lhe. Aproximou-se assim do velhinho e bum! cai aos pés dele. «É por mim, meu pobre velho, que tu sofres», disse. «É verdade verdadeira, irmãos, este homem sofre sem razão, é inocente. Fui eu quem fez a coisa e meti a faca debaixo do teu travesseiro, quando tu dormias. Perdoa-me, avô, em nome de Cristo!»
Karataev calou-se, sorrindo alegremente; olhou para o fogo e arranjou uma acha.
- O velhinho disse: «Que Deus te perdoe, nós somos todos pecadores perante Deus. Eu sofro pelos meus pecados.» E derramou lágrimas amargas. Então, que pensas tu, meu falcãozinho! – dizia Karataev, com o rosto a brilhar cada vez mais, num sorriso maravilhado, como se fosse no que ainda tinha para contar que residia a beleza e o sentido da sua narração.
-Que pensas, meu falcãozinho! Aquele assassino acusou-se às autoridades. «Matei seis almas», disse (era um grande crime), mas por este velhinho tenho muito dó. Que ele não core por causa de mim.» Contou tudo, escreveram, mandaram um papel como se devia. O lugar era afastado, levou muito tempo a julgarem e fazerem o necessário, até que os papeis fossem escritos como é conveniente, passando pelas autoridades. Foi até ao czar. Chega enfim a ordem do czar: «que libertem o mercador, que lhe dêem como compensação o que fora decidido». O papel chegou, procuraram o velhinho. - «Onde está ele, o velhinho que sofreu inocentemente? Há um papel do czar!» Procuram (o queixo de Karataev tremia). A ele Deus já perdoara, ele estava morto. É assim, meu falcãozinho – concluiu Karataev, ficando silencioso por muito tempo, olhando em frente e sorrindo (…).


(...) Os acontecimentos reais voltaram a confundir-se com as imagens do sonho e, novamente, alguém, ele mesmo ou outra pessoa, falava e dizia as mesmas coisas que dissera em Mojaisk.
«Á vida é tudo, a vida é Deus. Tudo muda de lugar, tudo se move e este movimento é Deus. Enquanto dura a vida, dura a alegria e a consciência da divindade. Amar a vida é amar a Deus. A maior dificuldade e a mais alta beatitude é amar a vida nos seus sofrimentos, nos seus sofrimentos imerecidos.»
«Karataev!, lembrou-se Pierre.
Subitamente, Pierre viu diante de si, como se estivesse vivo, um velhinho de que se esquecera há muito tempo e que, na Suiça, lhe ensinara geografia. «Espera», disse o velhinho a Pierre, mostrando-lhe um mapa-múndi. Este mapa era uma esfera viva, móvel e sem limites precisos. Toda a superfície da esfera era constituída por gotas, estreitamente apertadas umas contra as outras. Todas estas gotas se moviam, mudavam de lugar, misturando-se muitas delas para formar uma única, dividindo-se uma destas para dar origem a outras. Cada gota procurava dilatar-se, ocupar o maior espaço possível, embora as outras tentassem fazer o mesmo, pressionando-a, ora a destruindo, ora se unindo a ela.
-Eis a vida – disse o velho professor.
«Como é simples e claro», pensava Pierre. «Como poderei ter ignorado isto até agora?»
- Ao centro, Deus, procurando cada gota alargar-se para O reflectir na sua maior extensão. Ela cresce, une-se às outras, retrai-se, desaparece da superfície, desce às profundezas e emerge novamente. Eis Karataev, dilatou-se e desapareceu. Vous avez compris, mon enfant?, disse o professor.
- Vous avez compris, sacré nom ! – gritou uma voz, e Pierre acordou. (…)


Tolstoi, Guerra e Paz.
LITERATURA


(…) Na minha infância, minha mãe sugeriu que eu lesse Guerra e Paz, e, durante muitos anos, ela citou frequentemente o romance, chamando-me a atenção para a subtileza e as particularidades da prosa de Tolstoi. Desse modo, Guerra e Paz, tornou-se para mim uma espécie de escola de arte, um critério de gosto e profundidade artística; depois desse livro, nunca mais consegui ler porcarias, que sempre me causaram um profundo desagrado.
Em seu livro sobre Tolstoi e Dostoievski, Merezhokoski critica os trechos em que os personagens de Tolstoi põem-se a filosofar, formulando, por assim dizer, suas ideias definitivas sobre a vida… Contudo, mesmo concordando inteiramente que a ideia de uma obra poética não deve ser formulada com base apenas no intelecto, ou, de qualquer modo, embora concorde com esta afirmação em termos gerais, devo ainda dizer que estamos falando da importância de um indivíduo numa obra literária, onde a sinceridade da expressão de suas próprias ideias constitui a única garantia de seu valor. E, mesmo achando que a crítica de Merezhzovski baseia-se num raciocínio lúcido, isso não faz com que eu deixe de amar Guerra e Paz, inclusive, se assim o quiserem, os trechos que são um “equívoco”. O génio, afinal, não se revela na perfeição absoluta de uma obra, mas sim na absoluta fidelidade a si próprio, no compromisso com sua própria paixão. O anseio apaixonado do artista de encontrar a verdade, de conhecer o mundo e a si próprio dentro desse mundo, confere um significado especial até mesmo aos trechos um tanto obscuros de suas obras, ou, como se costuma dizer, “menos bem-sucedidos”.
Pode-se ir ainda mais longe; não conheço uma só obra-prima que não tenha suas fraquezas ou que esteja inteiramente isenta de imperfeições, pois as tendências pessoais que criam o génio e a integridade de propósitos que sustenta sua obra constituem a fonte não apenas da grandeza de uma obra-prima, mas também das suas falhas. Volto a dizê-lo – pode-se dar o nome de “falha” a um componente orgânico de uma visão de mundo integral? O gênio não é livre.
Como escreveu Thomas Mann: “Só a indiferença é livre. O que tem caráter distintivo nunca é livre; traz a marca do seu próprio selo; é condicionado e comprometido.” (…)

in Esculpir o Tempo, Andrei Tarkovski.
(…) - Eu sou de Leonforte, lá em cima em Val Demone, entre Enna e Nicosia, sou proprietário de terras e tenho três filhas bonitas, três filhas, cada qual mais bonita do que a outra, e tenho um cavalo no qual percorro as minhas terras e então sinto-me um rei, mas não me parece que seja tudo, sentir-me rei, quando monto a cavalo e gostaria de ter outros conhecimentos, de sentir-me diferente, com algo de novo na alma, eu daria tudo o que possuo, até o cavalo, as terras para me sentir mais em paz com os homens, como uma pessoa que não tem nada que se censurar.
Não é que eu tenha algo que me censure. Nada disso. E não falo no sentido da sacristia. Mas não creio estar em paz com os homens. Gostaria de ter uma consciência fresca e que me dissesse para cumprir outros deveres, não os do costume, outros deveres e mais elevados para os homens, porque cumprir os deveres do costume não satisfaz e ficamos como se nada tivéssemos feito, descontentes connosco, decepcionados.
Não apenas para roubar, não matar, etc, e ser um bom cidadão. Penso que está maduro para outra coisa, para outros deveres, novos. O que sentimos, creio, é a falta de outros deveres, de outras coisas a fazer. Para a nossa consciência num sentido novo.
- Parece-me que tem razão. É professor?
- Não há motivo para rir, avozinho. Não há motivo. Acho que é mesmo isto. Já não temos satisfação em cumprir o nosso dever, os nossos deveres. Cumpri-los… é indiferente. Ficamos sempre mal. E eu penso que é exactamente por isto, porque estes são valores demasiados velhos, muito velhos e que se tornaram muito fáceis, que já nada significam para a consciência.
- De certeza que não é professor?
- Não sou nenhum ignorante, posso ler um livro se quiser, mas não sou professor. Estudei nos Salesianos em miúdo, mas não sou professor. (…)

in Sicília de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub, 1998.
CINEMA

“Coloquemos assim: um fenómeno espiritual – isto é, significativo – é “significativo” exactamente porque extrapola os seus próprios limites, e actua como expressão e símbolo de algo espiritualmente mais vasto e mais universal, todo um universo de sensações e ideias corporificadas no seu interior com maior ou menor felicidade – eis aí a medida do seu significado.”

Thomas Mann, A Montanha Mágica.
António Lobo Antunes

Explicação aos paisanos

(…) Estava ao telefone com o pintor Júlio Pomar e depois de falarmos da saudade um do outro
(eu tão bicho do mato, nunca distingui entre a amizade e o amor)
entrámos pela conversa do trabalho dentro. O Júlio é das raríssimas pessoas a quem confidencio o que faço por existir entre nós, desde o primeiro momento, uma cumplicidade absoluta que não necessita de palavras, um princípio de vasos comunicantes que se tornou um milagre de sintonia mental. Então vou eu e digo
- Nunca começo um livro antes de ter a certeza que não sou capaz de o escrever
E de imediato, sem pausa alguma, vai o Júlio e responde
- E como é que a gente explica isto aos paisanos?
A frase é dele
- Como é que a gente explica isto aos paisanos?
tem andado comigo. Talvez possa explicar garantindo, por exemplo, que a principal dificuldade com o livro que ando a escrever consiste em que passei demasiado no romance, sem ter deixado espaço para o romance se pensar a si mesmo. E, quando a gente pensa por fora, ao passo que quando o livro se pensa a si mesmo
(e a gente ali, vigilantes)
se pensa por dentro. A obra é autónoma, e não admite intromissões do autor pelo menos durante as duas ou três primeiras versões (…)

(…) Sento-me à mesa e fico à espera: é assim que trabalho. A pouco e pouco uma espécie de onda ou seja o que for vai tomando conta de mim. A minha tarefa consiste em ficar quietinho, aceitando a tal onda ou o que for. E então chega a primeira palavra. Chega a segunda. Uma fúria calma toma conta da gente e a mão principia a mexer-se do tal lado invisível. (…)

(…) O que fica, nas tais primeiras versões, é um magma: por baixo do magma está o livro. E agora sim, chega aqui, cabeça, e ajuda-me a limpar a trazer o livro metido lá por baixo, a secá-lo, a sacudi-lo, a dar-lhe forma. E então pira-te, cabeça, outra vez, mas mantém-te aí à mão de semear, porque me vais ser útil. (…)

(…) Se tivermos à frente Tolstoi aqui à esquerda e o jornal à direita, começamos sempre pelo jornal. O problema é que o jornal da semana passada é o jornal da semana passada e Tolstoi o jornal de todas as semanas, de modo que o jornal da semana passada se deita fora e Tolstoi fica. Agora, Júlio, como é que a gente explica isto aos paisanos? (…)

in Revista Visão
L´enfance

L´enfance,
Qui peut nous dire quand ça finit,
Qui peut nous dire quand ça commence,
C`este rien, avec de l`imprudence,
C`est tout ce qui n`est pas écrit,

L´enfance,
Qui nous empêche de la vivre
De la revivre infiniment
De vivre à remonter le temps,
De dèchirer la fin du livre

L´enfance,
Qui se dépose sur nos rides
Pour faire de nous de vieux enfants.

Jacques Brel
A decadência do Ocidente

Mário Vargas Llosa

“(...) A análise de Kagan está correcta? Não estou certo de que a sociedade norte-americana seja tão unânime e granítica no seu apoio a essas «políticas de poder», como assegura, tratando de estabelecer uma identidade de acções diplomáticas - ainda que com uma retórica diferente - dos governos democratas e republicanos. Os objectivos geopolíticos que ele esboça para os Estados Unidos exigem um armamento tão sistemático e dispendioso que, provavelmente, mais cedo ou mais tarde atingiriam com tal violência os bolsos dos contribuintes que a opinião pública exigiria uma mudança de política. E também não me parece certo que haja na Europa uma hostilidade tão generalizada contra os Estados Unidos nem um pacifismo tão extremo que chegue a pô-la de joelhos frente a qualquer estado tirano ou ao terrorismo internacional.
Estes esquemas, parece-me, espelham mais desejos do que realidades. Mas é, sem dúvida, certo que, acostumada aos altos níveis de vida que conseguiu, a opinião pública europeia dificilmente aceitaria renunciar ao Estado de bem-estar a pagar mais impostos - já os paga altíssimos – para que os governos incrementem os seus gastos militares. Afortunadamente que assim é. Em boa hora a Europa renunciou às «políticas de poder», que teriam convertido o Velho Continente num paiol nuclear de cidadãos subdesenvolvidos e que isso a induza a orientar a sua diplomacia a favor da negociação, dos consensos internacionais e da paz. Mas daí a que a «velha Europa», letárgica devido à complacência consumista e ao Estado pródigo, tenho perdido tanto nervo e convicção democrática de modo a que, no dia de amanhã, se deixe arrolar por qualquer sátrapa equipado com foguetes ou armas químicas é ir longe demasiado longe no pessimismo. Se a União Europeia for em frente - a guerra do Iraque semeou o caminho com novos escolhos, mas não cancelou – o seu sistema de defesa, sem necessidade de a arrastar para uma competição inútil com os Estados Unidos, deveria imunizá-la contra esse risco, aceitando aquela distribuição do trabalho estratégico que Kagan descreve certeiramente. A aliança atlântica, fragilizada neste momento pela torpe manifestação oportunista de anti-americanismo dos governos de Chirac e Schroeder, deverá restabelecer no futuro, quando, apagados os ecos da guerra do Iraque, e tirando a Europa as conclusões pertinentes do alvoroço com que milhões de iraquianos celebraram a queda de Saddam Hussein, tome consciência do indispensável que é aquela aliança para a sua segurança, num mundo ainda cheio de ciladas e de riscos para os países democráticos.
Será verdade que os Estados Unidos podem prescindir da Europa sem que isso signifique para eles uma quebra importante no âmbito militar ou económico? Talvez. Mas eu creio que não no político. Sem a aliança com a Europa Ocidental – e o freio amistoso no campo internacional que ela implica -, o mais precioso que o colosso do norte tem, essa cultura democrática com o poderio que a converteu na superpotência mundial, sofreria uma deterioração e, talvez desmoronasse. Algum deste perigo assoma do fluente ensaio de Robert Kagan quando explica tranquilamente porque é que os Estados Unidos tendem a desconfiar cada vez mais das Nações Unidas e se negam a enquadrar as suas políticas dentro de instituições internacionais como o Acordo de Quioto sobre o Meio Ambiente ou o Tribunal Penal Internacional. Um tal unilateralismo pode desgastar as instituições e fazer deslizar os Estados Unidos por uma colina que destrua o Estado de Direito. É verdade que os Estados Unidos são uma sociedade democrática, mas, pelo rígido caminho das «políticas de poder», essa democracia crispada, beligerante e arrogante, poderia entrar na bancarrota mais cedo que o esperado. Porque a democracia não implica apenas que haja eleições e que o equilíbrio de poderes e a liberdade de expressão funcionem para consumo interno; é necessário também que no entrançado das relações com os restantes países prevaleça a mesma soma de valores, liberdades e direitos que constituem a cultura da liberdade. Isso não quer dizer que, em nome remoto do ideal kantiano de uma paz universal, uma democracia deva tornar-se vulnerável ao terror ou à chantagem das tiranias com armas nucleares. Mas se o pragmatismo e a força são o único motor dos seus governos, uma democracia deixa rapidamente de o ser e, ainda que conserve um exterior de país livre, converte-se internamente numa sociedade autoritária. A aliança do superpoder com a velha Europa, berço da liberdade e da legalidade à qual o mundo deve o melhor que lhe aconteceu, é, precisamente agora que os Estados Unidos são um superpoder sem concorrentes próximos, a melhor maneira de manter na boa tradição de Washington e Jefferson, que Tocqueville tanto exaltou, e não se deixar ir pela arrogância e pela cegueira do poder ilimitado – deixando contaminar pela natureza do inimigo com o que justifica a prepotência e os excessos. O realismo hobbesiano só é justificável como uma necessidade transitória no áspero caminho em direcção ao ideal kantiano de um mundo pacificado e solidário, coexistindo no marco da lei e da liberdade.”

in DNa
POESIA

A deusa Minerva tem a primazia, contudo o deus Marte está bem presente. Infelizmente!
En la hora iraquí

La presencia de la guerra es constante en Iraq. Tampoco la poesía
puede dejarla de lado. Pero no sólo de la guerra hablan los poetas
iraquíes últimos; también de muchachas campesinas, del tiempo que
pasa y no vuelve, como muestra esta antología esencial preparada por
Muhsin Al-Ramli, que sabe de lo que habla: su hermano Hassan Mutlak,
considerado el García Lorca iraquí, fue ahorcado por el régimen
iraquí en 1990 por su participación en un intento de golpe de
estado. Las obras que ilustran estas páginas pertenecen al más
importante pintor iraquí, Jawad Salim.


Bagdad
Bagdad
¿Eres una patria o un campo de tiro?
¿Eres un paisaje que hay que destruir
o una escalera de víctimas
que no se sacia de su muerte?
Bagdad
¿Eres una cesta que se hunde
y no se llena sino de vida?
¿Acaso es ésta tu fiesta
o tu muerte?
¿Estos caramelos de fuego
son para tus niños muertos
o para la última fiesta de tu degollación?
Entonces, muérete.
Volvámonos al lugar de donde hemos venido
A los desiertos y al infinito
Esperando un nuevo profeta.

Salah Hassan
Babilonia, 1960. Vive en Holanda


¡Oh guerra!..


¡Oh guerra! Soy tu desterrado
y las mujeres son cárceles que no entierran mi mutismo,
y las ciudades deliran como un calendario
por las que no se interesan los combates.

El final de mis días en la patria
Era como un ahogado que veía todo, por última vez
Y me sumergía sentado entrecruzando las piernas en una barca
Repleta de muertos
Y mis ojos borrando el olvido
Y detrás de mi espalda se formaba el recuerdo del exilio.

Muhammad Madlum
Bagdad, 1963. Vive en Siria

Las muchachas campesinas...
Las muchachas campesinas, adolescentes, vírgenes y virtuosas
Hacen señales con las puntas de sus tímidos dedos
Entre las vacas y los búfalos
Hacia las filas de los soldados,
Cuyos pasos en unos estrechos caminos alquitranados
Van hacia lo desconocido.

Jaled Yaber Yusuf
Karbala, 1962. Vive en Jordania


Confirmación
Necesitamos mil profetas
Para que probemos que en la tierra
Hay algo de bondad
Pero necesitamos un solo dictador
Que pruebe que la tierra
Toda la tierra es un infierno.

El umbral de casa lloró
Cuando me vio
Y gritó: ¿por qué has venido?
He perdido mi cara
Y lo que conocía me hizo perder
¡Renegó de mí... a quien vi!
Y cuando me desperté en la patria
Para aliviar mi temor
Imaginé tu puerta..
Como una casa.

Me convertí en adicto a la hora de Bagdad,
En mi reloj
Luego la até a mi lazo
Y empecé a conjugar todos los tiempos
En la hora iraquí.

Ali Al-shalah
Kufa, 1962. Vive en Suiza
Cóctel en la despedida del siglo
Somos innecesarios
Igual que los ladridos del barco en un océano ancho.
Somos innecesarios
Igual que el esqueleto de un tren que
Ha envejecido debajo de las ruedas
Del óxido del olvido.
Y los eruptos de los animales perdidos.
Somos innecesarios
Igual que el polvo de las tizas al final de
La clase.
Somos innecesarios
Igual que los poetas en el siglo XXI.

Abdulrazaq Al-rubayi
Bagdad, 1961. Vive en el Sultanato de Omán


El canto de Uruk
No somos más que las piedras de los molinos
Dad la vuelta a nuestra tierra, piedra por piedra,
Encontraréis nuestra sangre llenándola.
¡Ay! De una nación que no vive sin guerra.

Colgué el abrigo de mi vida
Y fui a la guerra encogido como un huérfano sobre una camella,
¡Ah! ¡Qué será de una patria carcomida su espalda por las termitas!
Una patria hecha de pieles desgarradas y pegadas una encima de otra
Para resonar los tambores en la plaza de la guerra.

Y a Dios escribo diez cartas de papel de lágrimas
Las envío por correo certificado,
Pero él no contesta a su siervo.
¡Oh, Dios! Pues ¿A quién enviamos los dolores que sufrimos?

Y te fuiste solo a tu exilio
Cantando, frustrado al viento como una extraña flauta,
Adiós patria mía a la que no veré.

Adnan Al-sayeg
Kufa, 1955. Vive en Suecia

Nubes
Llueve sombreros
Cayeron encima de los pobres.
Llueve trigo
Cayó encima de los hambrientos de África.
Llueve vino
Cayó en el norte de Europa.
Llueve dátiles
Cayeron en el desierto.
Llueve bombas
Cayeron encima de nosotros.

¡Ay de las cabezas!

Ra-ad Zamil
Misan, 1969. Vive en Irak


Bajo el embargo
Las panaderías le ponen dubitativo
Como si fueran los reyes vigilan los camiones,
entonces ejerce el mediodía en el atardecer
y pone una venda al mar con los inmigrantes.
Cundo tiene hambre, cuenta sus dedos,
o huele los casquillos.
Dije:
–Nadie corrige la leche de su ceguera,
por eso los niños se desmayan.

Contestó:
–El cielo está fangoso
por la intensificación de las invocaciones...
Así búscate la vida con la lotería.
Y despegó...

Salman Dahud
Bagdad, 1962. Vive en Irak


La muerte se lo lleva todo...
La muerte se lo lleva todo
Y la vida nos descuida
¿Desde cuándo nos hemos olvidado de la rosa
y comenzamos a recordar las máscaras
que maduran por la muerte?

Las raíces son negras
Como los dedos de los muertos
¿Qué hacemos cuando se apodera la tormenta
de estas raíces
y anula nuestra frente
y nos perdemos
sin dedos
en medio de una tempestad sin raíces?

Muhammad Turki Al-nassar
Nasiria, 1961. Vive en Canadá

www.elmundo.es




Poesía y vida en Iraq por Muhsin Al-Ramli



El 21 de marzo se celebra el Día Mundial de la Poesía. Sí, hay
tiempo para la poesía en tiempo de guerra. Muhsin Al-Ramli, uno de
lo más importantes novelistas y dramaturgos iraquíes, traductor al
árabe de los clásicos castellanos, también lo sabe. En el
emocionante artículo que sigue demuestra la vigencia del verso en
estos tiempos de pólvora.


Anosotros los iraquíes, en general, y a los intelectuales, en
particular, nos entristece e indigna el hecho de que hoy sólo se
hable de Iraq como si de una amenaza se tratara: se dice que es
el "¡eje del mal!", que tiene armas de destrucción masiva, dictadura
y un mar de petróleo. Apenas se menciona a Iraq como el país de las
mil y una noches y la primera cuna de las civilizaciones: Sumer,
Akkad, Nimrud, Uruk, Asiria, Nínive, Babilonia; Iraq como
Mesopotamia, lugar donde hace cinco mil años nació la escritura y
aparecieron el primer calendario, el primer código, la primera
religión, la primera democracia, los primeros poemas épicos, como
Gilgamesh o La creación.

Sí, la poesía, en la que las mujeres iraquíes han tenido un papel
esencial. Así, Angiduana (s. III a.C.) es reconocida como primera
poetisa del mundo, y Nazik Al-malaika, como iniciadora de la poesía
árabe moderna. Debido a esta influencia innovadora que ha tenido la
mujer, nos entristece que la gente se imagine Iraq resumido en el
bigote cargado de machismo del dictador. Nos entristece que algunas
personas salgan en los medios de comunicación presumiendo de saberlo
todo sobre Iraq, al tiempo que posiblemente ninguno de ellos ha
leído un poema, una novela, o escuchado alguna canción iraquí. Lo
que sí saben es contar pozos de petróleo. En mi país, la poesía no
se considera un complemento o un lujo sino una necesidad. No es sólo
un medio de expresión sino que se convierte en una experiencia viva
y, aún más, en una extensión de la propia vida. Gracias a la poesía,
la persona vive lo que no le ha sido permitido vivir.

La poesía enriqueció a Iraq más que el petróleo, que mas bien le ha
traído catástrofes. La península de Arabia e Iraq son los únicos
lugares del mundo en el que se festejaba el nacimiento de un poeta
porque se convertiría en portavoz de la tribu. Las leyes, la
enseñanza, la historia se escribían en verso. Todavía hoy en mi
pueblo las cartas se escriben en verso. Es el único país del mundo
en que existió un mercado de poesía, el de Mirbad, en Basora, al que
acudía la gente de lugares muy lejanos a comprar, (especialmente los
enamorados), vender, aprender o criticar.

La relación poesía y vida queda reflejada en algunos ejemplos de la
cotidianeidad iraquí. El poeta El Yawahiri, conocido en los años 50
y 60 por la fuerza de su poesía reivindicativa, era seguido por el
pueblo cuando caminaba por la calle. Aquel seguimiento terminaba en
una manifestación improvisada contra el Gobierno. Mudafar Al-Nauab
escapó de la cárcel y vive fuera de Irak. En la universidad,
intercambiábamos clandestinamente sus poemas. Durante la guerra del
Golfo nos sentábamos en las trincheras y la poesía nos guiaba. Había
un soldado. Antes de cada bombardeo me decía: "Muhsin, si muero,
publica mi poesía". ¿No veía ese soldado en la publicación de su
poesía una extensión de su vida? Mi pueblo y el de al lado
estuvieron a punto de iniciar una contienda a causa de una venganza.
Este conflicto se resolvió gracias a un poema que escribió un poeta
llamado Mula Mutlak. Hace pocos días salía en la prensa la noticia
de que un grupo de poetas han hecho llegar al presidente Bush 13.000
poemas contra la guerra, escritos en todo el mundo. ¿Acaso podría la
poesía evitar la guerra que nos amenaza?

¡Cuántas veces la poesía salvó a gente de morir y cuántas veces un
poema mató a su escritor o le mandó a la cárcel o al exilio! Me
llegan cartas de amigos poetas que se ganan la vida en los pueblos
más lejanos de la tierra: un pastor, en Yemen; un peón de albañil,
en Canadá; un campesino, en Malasia; un botones, en Teherán; un
portero, en Australia, y un asesinado, en Argel. En España he
conocido a cinco poetas iraquíes. Al-Bayati, que fue amigo de
Alberti y Octavio Paz. Faik Husein, pintor y poeta en
castellano.Kamal Sabti, Abdul H. Sadoun, Jaled Kaki...

El número de poetas iraquíes dentro y fuera de Irak es difícil de
calcular, quizás miles. Sólo en el primer tomo que, en los 80,
preparó Abbas Al-hili sobre los poetas populares (en dialecto)
contemporáneos llegó a contar 741 poetas. Setecientos de ellos
siguen con vida. Sin embargo, quienes escriben en al-fus-ha (árabe
clásico) superan los tres mil; casi trescientos viven en el exilio.
Habría que sumar los que escriben en kurdo, turco o asirio. La
mayoría de los nombres más importantes de las últimas generaciones
viven actualmente en el exilio. Como decía Sadi Yousuf: "Voy con
todos y mis pasos son solitarios".

La poesía iraquí se ha abierto, en estas últimas décadas, a las
experiencias poéticas del resto del mundo. Pero esta circunstancia
no sólo se da en el exilio. Dentro del país las nuevas generaciones
se circunscriben dentro de los movimientos poéticos que se
desarrollan actualmente en el panorama internacional, con sus
múltiples manifestaciones: poesía estadounidense, europea, afgana,
etc. Recibimos muchos artículos de Bagdad para nuestra revista
Alwah.

A pesar de lo que está sufriendo actualmente el pueblo iraquí por
las consecuencias de las guerras, la dictadura, el embargo... la
creatividad continúa de una manera digna de admiración. Es
suficiente la llegada del ejemplar de un libro procedente del
extranjero para que rápidamente éste sea divulgado en fotocopias. La
técnica más común es el poema en primera persona pero no porque el
poeta hable de sí mismo, es porque sigue teniendo la sensación de su
responsabilidad como portavoz de la tribu, con sus ciudadanos, con
su tierra y con la humanidad.


Muhsin AL-RAMLI

www.elmundo.es
O Violino de Rothschild

"Sentou-se debaixo do salgueiro e entregou-se às recordações. Na outra margem, onde agora é um lameiro, havia naquele tempo uma floresta de bétulas, e no monte calvo que agora se via no horizonte era antigamente um pinhal velhíssimo. Nesse tempo, andavam lanchas pelo rio. Agora tudo era plaino, na outra margem só se via uma bétula solitária, novinha e esbelta como uma menina, no rio apenas patos e gansos, parecia que nem sequer alguma vez tinham navegado nele as lanchas. Também os gansos pareciam ser menos do que outrora. Iákov fechou os olhos e, na sua imaginação, voavam grandes bandos de gansos brancos, uns ao encontro dos outros.
Não conseguia entender como é que nos últimos quarenta ou cinquenta anos da sua vida não fora uma única vez ao rio e, mesmo que tivesse ido, não reparara nele! É que o rio era grandinho, não um riacho qualquer; podia-se organizar nele a pesca e vender o peixe aos comerciantes, aos funcionários e ao empregado do bufete da estação dos comboios e, depois, depositar o dinheiro no banco; podia-se andar de barca pelo rio, de uma casa senhorial para outra, a tocar violino, e o povo de toda a laia pagaria por isso; podia-se tentar pôr de novo as lanchas a andar – seria melhor do que fabricar caixões; por último, podia-se criar gansos para abate e mandá-los no Inverno para Moscovo; só as penas dariam dez rublos por ano! Que prejuízo! Ah, que prejuízo! E se fosse tudo junto – pescar e tocar violino, andar de lancha, criar gansos, que capital se poderia amealhar! Mas não aconteceu nada disso, nem sequer em sonhos, a vida passou sem proveito, sem prazer, perdeu-se, foi em vão! Uma vida perdida, nem sequer por uma pitada de tabaco; pela frente, nada; olhando para trás, nada além dos prejuízos, tão terríveis que até faziam calafrios. Por que não pode uma pessoa viver de modo a que não haja estas perdas, de modo a evitar prejuízos? Pergunta-se: por que cortaram a floresta de bétulas e o pinhal? Por que está vazia a pastagem? Por que é que as pessoas fazem sempre, precisamente, o que é errado? Por que é que Iákov, durante toda a vida, praguejou, rosnou, se atirou de punhos cerrados às pessoas, ofendeu a mulher? E, pergunta-se: qual a necessidade de ter insultado e assustado ontem o judeu? Por que é que as pessoas, em geral, não se deixam viver normalmente umas às outras? É que, agindo assim, os prejuízos são terríveis! Terríveis! Se não existisse o ódio e a raiva, as pessoas só dariam lucros enormes umas às outras."

TCHÉKHOV, Anton (trad. Nina Guerra e Filipe Guerra), “Contos”, Vol. III, Lisboa, Relógio D`Água, 2002, p.p. 179 e 180.

Iran

Sentado debaixo do grande terebinto XV

"Sem dúvida, todo o ser humano tem e acalenta, mais ou menos conscientemente, uma concepção, uma ideia querida, fonte de uma paixão secreta em que o sentimento da vida se alimenta e sustém. Para José essa ideia preciosa era a coabitação do corpo e do espírito, da beleza e do saber e a consciência recìprocamente fortalecedora dos dois elementos. Alguns escravos e viajantes caldeus tinham-lhe contado que Bel, para criar o género humano, fizera decepar a própria cabeça a fim de que o sangue se misturasse com a terra, e da massa de terra ensanguentada fora criada a vida. José não acreditava, mas quando queria tornar-se cônscio da sua própria existência e tirar daí um sentimento de prazer, meditava na cruenta mistura do terrestre com o divino, regozijando-se ìntimamente de ser formado com tal substância. A sorrir, lembrava-se de que a consciência do corpo e da beleza devia ser aperfeiçoada e fortalecida pela consciência do espírito e vice-versa.
Acreditava sim que o espírito de Deus, a que o povo de Sinar dava o nome de «Mummu», adejara sobre as águas do caos e criara o mundo com o poder da palavra. Que maravilha! – pensava ele. O mundo surgira pelo poder da palavra livremente articulada, e ainda hoje qualquer coisa que existisse só se tornava real e presente quando o homem lhe dava vida chamando-a pelo nome. Como não havia, pois, uma bela e graciosa cabeça de se convencer também da sua sabedoria expressa em palavras."

Thomas Mann, “O Jovem José.

Egito

Sobre o amor

"Começaram a falar do amor.
- Como nasce o amor – dizia Aliókhin -, porque razão não se afeiçoou Pelagueia a qualquer outro que lhe fosse mais próximo pelas qualidades físicas e espirituais, mas se apaixonou precisamente por este Nikanor, por estas ventas (aqui toda a gernte lhe chama o «Ventas»), tendo em conta que, no amor, o essencial são as questões da felicidade pessoal… tudo isso é uma incógnita e pode-se interpretá-lo como quisermos. Até hoje, apenas foi dita do amor uma verdade incontestável: «é um grande mistério»; de resto, tudo o que tem sido e escrito do amor nunca foi a solução, mas apenas um levantamento de questões a que nunca se deu resposta. Uma explicação que, aparentemente, serve para um caso já não se aplica a dez outros, e o melhor, a meu ver, é esclarecer cada caso em separado, sem o melhor, a meu ver, é esclarecer cada caso em separado sem tentar generalizar. Como dizem os médicos, é necessário individualizar cada caso concreto.
- Tem toda a razão – concordou Búrkin.
- Nós, os russos polidos, temos propensão para estas questões irresolúveis. Por norma, o amor é poetizado, enfeitado de rosas e rouxinóis; ora nós, os russos, enfeitamos o nosso amor com essas questões fatais, e escolhemos entre elas as menos interessantes. Em Moscovo, quando ainda era estudante, tinha uma namorada, senhora muito querida que, sempre que a apertava nos meus braços, pensava em quanto eu lhe daria por mês e em qual era, na altura, o preço da libra de vitela. Também nós, quando estamos apaixonados, não paramos de nos interrogar: se é honesto ou desonesto, se é inteligente ou estúpido, aonde nos levará este amor, etc. Se isso é bom ou mau, não sei dizer, sei apenas que incomoda, não satisfaz, irrita.
Dava a ideia de que Aliókhin queria contar alguma coisa. Um solitário há-de ter sempre na alma alguma coisa que lhe apetece contar. Na cidade, os sozinhos vão de propósito aos banhos públicos e aos restaurantes para conversarem, e às vezes contam aos banheiros e aos empregados de mesa histórias muito curiosas; na aldeia, habitualmente, abrem-se com os convidados. Via-se agora através das janelas o céu cinzento e as árvores molhadas da chuva, não havia onde a gente se meter com este tempo, não se achando portanto outra hipótese que não fosse contar e ouvir. (…)

Quando, no compartimento, os nossos olhares se cruzaram, a força de alma abandonou-nos aos dois, abracei-a, ela apertou o rosto contra o meu peito, as lágrimas corriam-lhe dos olhos; beijando-a no rosto, nos ombros, nas mãos molhadas de lágrimas – oh, que infelizes nós estávamos! – declarei-lhe o meu amor e compreendi, com uma dor pungente no coração, como era inútil, mesquinho e enganador tudo o que nos impedia de amar. Compreendi que, ao amarmos, temos de reflectir sobre o maor numa base mais elevada, mais importante do que a felicidade ou a infelicidade, o pecado ou a virtude no seu sentido corrente, ou então não vale a pena, sequer, reflectir sobre ele."

TCHÉKHOV, Anton (trad. Nina Guerra e Filipe Guerra), “Contos”, Vol. III, Lisboa, Relógio D`Água, 2002, p.p. 258, 259 e 268.

Peregrinação à Meca

NA MONTANHA III

"O homem não vive sòmente a sua vida individual; consciente ou inconscientemente participa também da sua época e dos seus contemporâneos. Até mesmo uma pessoa inclinada a julgar absolutas e naturais as bases gerais e ultrapessoais da sua existência, e que dá ideia de as criticar tão objectivamente quanto o bom do Hans Castorp – até uma pessoa assim pode fácilmente sentir o seu bem estar moral um tanto diminuído pelos defeitos inerentes a essas bases. O indivíduo pode visar numerosos objectivos pessoais, finalidades, esperanças, perspectivas, que lhe dêem o impulso para grandes esforços e elevadas actividades: mas, quando o elemento impessoal que o rodeia, quando o próprio tempo, não obstante toda a agitação exterior, carece no fundo de esperanças e perspectivas, quando se lhe revela como desesperador, desorientado e falto de saída, e responde com um silêncio vazio à pergunta que se faz consciente ou inconscientemente, mas em todo caso se faz, a pergunta pelo sentido supremo, ultrapessoal e absoluto, de toda a actividade e de todo o esforço – então tornar-se-á inevitável, precisamente entre as naturezas mais rectas, o efeito paralisador desse estado de coisas, e esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral, e de afectar a própria parte física e orgânica do indivíduo. Para um homem se dispor a empreender uma obra que ultrapassa a medida do que é usual fazer-se sem que a época saiba dar uma resposta satisfatória à pergunta «Para quê?», é indispensável ou um isolamento moral e uma independência, como raras vezes se encontram e têm um quê de heróico, ou então uma vitalidade muito robusta. Hans Castorp não possuía nem uma nem outra dessas qualidades, e portanto deve ser considerado medíocre, posto que num sentido inteiramente louvável."

Thomas Mann, "A Montanha Mágica".
Sentado debaixo do grande terebinto XVI

"Apre! – exclamou o guia, sempre montado, arrebitando o queixoi que lembrava um fruto redondo r olhando por cima do ombro aquele que caminhava a seu lado. – Não – acrescentou depois de uma pausa. – Diz o que quiseres. Esta geração é repelente, bebe a injustiça como água e há muito que merece o dilúvio, mas sem a barca da salvação.
[José] - Quanto à injustiça, concordo. Mas repara que neste mundo tudo existe aos pares. Há sempre dois objectos opostos, para se poderem distinguir, e se ao pé de uma coisa não existisse a contrária, nem uma nem outra existiriam. Sem vida não haveria morte. Sem riqueza não haveria pobreza. E se a estupidez desaparecesse, de que serviria falar de inteligência? Dá-se o mesmo com a pureza e a impureza, é claro. Diz o animal impuro ao puro: «Agradece-me, porque, se não fosse eu, como saberias que és puro e quem te chamaria assim?» E o perverso diz ao bondoso: «Cai aos meus pés, porque sem mim, onde estaria a tua superioridade?
- É assim mesmo, tal qual – conveio o desconhecido. – Por isso é que eu desaprovo este mundo de dualidade e não compreendo a vantagem de conservar uma estirpe à qual só se pode atribuir pureza relativamente e por comparação. Mas tem que se pensar e tornar a pensar, contìnuamente, numa coisa e noutra, e sabe-se lá que mais se nos depara, ligado a um mínimo de futuro, como esta agora de eu ter que ter mostrar o caminho para que chegues ao teu fim. Não, é enfadonho de mais!"

Thomas Mann, "O Jovem José".
POESIA

Epopeia de Guilgamesh (c. século XXV a.C.) – Suméria

Quando os deuses criaram Guilgamesh
Shamash o Sol no zénite dotou-o de beleza incomparável
Adad, a tempestade, deu-lhe força invencível.
O toque do seu corpo não tem igual
A sua altura chega a onze côvados
O largo do seu peito são nove palmos
O longo do seu membro é três vezes mais nobre.
Nos terraços de Uruk, a das altas muralhas, o seu passo é soberbo
O embate das suas armas não encontra inimigo
Mas, ao som do seu tambor, fechados em suas casas, os homens não comparecem
Este Guilgamesh não deixa nenhum filho ao seu pai
Não respeita nenhuma donzela, seja filha de herói ou noiva prometida
Diante destas queixas intermináveis
Os deuses, os grandes deuses do céu
Falaram contra o senhor Guilgamesh
Criámos em Guilgamesh um touro desenfreado
O embate das suas armas não tem inimigo
Ao som do seu tambor, fechados em suas casas, os homens não comparecem
Guilgamesh não deixa nenhum filho ao seu pai
Ele, o pastor do seu povo, está a massacrá-lo
O Rei não respeita nenhuma donzela
Seja filha de herói ou noiva prometida.
Agora o grande Anu chama Aruru,
Senhora da Fertilidade:
Tu, Aruru, deixaste gerar Guilgamesh
Cria agora um que lhe seja igual no combate
Que lutem um com o outro e deixem Uruk em paz

Ouvindo isto Aruru invocou um soldado de Anu
Mergulhou as mãos na terra, colheu argila, escarrou nela e lançou aos desertos.

Assim nasceu Enki-Du, criatura do silêncio, parcela do Deus Ninurta,
O corpo rugoso o cabelo comprido luxurioso como o da mulher.
Um abundante velo espesso como o trigo
Era o seu pêlo, como o do Deus Samukan
E não conhecia cidades nem homens, nem terra cultivada
Com o onagro comia a erva da estepe
Com a gazela bebia a àgua da mina
Com a horda habitava o deserto
Esta era a sua única alegria.

(trad. Mário Cesariny).
in "ROSA DO MUNDO 2001 POEMAS PARA O FUTURO", Lisboa, Assírio & Alvim, 2001.
Na montanha IV

"Receio que exista no senhor uma tendência que ameaça tornar-se um traço do seu carácter, se não for combatida. Por isso sinto-me na obrigação de corrigi-lo. O senhor opinou que a doença reunida à estupdez era a coisa mais triste que havia no mundo. Estou de acordo. Também eu prefiro um doente espirituoso a um imbecil tuberculoso, porém não posso deixar de protestar quando o senhor se põe a considerar a enfermidade num plano igual ao da tolice como uma espécie de falta de estilo, um acto de mau gosto praticado pela Natureza, ou um «dilema para o sentimento humano», conforme lhe aprouve exprimir-se , e quando o senhor julga a doença tão nobre e – como dizia? – tão digna de respeito que não pode harmonizar-se com a estupidez. Tal foi a expressão de que se serviu. Pois bem, não! A doença não é nobre, de modo algum, nem digna de respeito. Essa concepção é de si mesma mórbida, só conduz à doença. Talvez consiga despertar o seu horror de modo mais eficaz, dizendo-lhe qie ele é velha e feia. Tem a sua origem em épocas cheias de superstições, nas quais a ideia do humano estava degenerada e privada de toda a dignidade; a épocas angustiadas, que consideravam a harmonia e o bem-estar como coisas suspeitas e diabólicas, ao passo, que a enfermidade equivalia aum passaporte para o Céu. Mas, a Razão e o Século das Luzes dissiparam estas sombras que pesavam sobre a alma da Humanidade – não completamente: a luta dura ainda hoje. Esta luta, meu caro senhor, chama-se Trabalho, trabalho terreno, trabalho em prol da Terra, da honra e dos interesses da Humanidade. E retemperadas, dia a dia, por essa luta, estas forças acabarão por libertar definitivamente o Homem e por conduzi-los pelos caminhos da Civilização e do Progresso, rumo a uma luz cada vez mais clara, mais doce e mais pura.
«Meu Deus! – pensou Hans Castorp, estupefacto e confuso. – Mas isto soa como uma ária de ópera! Como é que eu provoquei isto? Parece-me, aliás, um pouco árido. Por que fala o homem constantemente do trabalho? Isso parece-me também um pouco deslocado aqui». E disse:
- Muito bem, sr. Settembrini. É notável como o senhor sabe falar. Ninguém poderia exprimi-lo mais… de maneira mais plástica, quero eu dizer…"

Thomas Mann, "A Montanha Mágica".
Sentado debaixo do grande terebinto XVII

"José reflectia: «Mas porque me guia ele, este espirra-canivetes, se lhe custa tanto? Não deixa de ser estúpido, armar em pessoa amável e depois amuar. Decididamente, o seu objectivo é aproveitar a minha Hulda. [mula] Bem, ele agora já podia descer. Tínhamos combinado revezar-nos. Fala como homem» - pensava José sorrindo para consigo do costume que os homens têm de dizer mal da espécie humana e julgar o seu semelhante, como se constituíssem uma excepção. Por isso objectou:
- Achas mal a espécie humana, mas tempo houve em que, até aos filhos de Deus, o homem não pareceu de tão má matéria, visto que lhe entregaram as filhas e daí nasceram gigantes e poderosos.
O guia, com a sua maneira afectada, volveu a cabeça por cima do ombro oposto a José.
- Que de historietas conheces! – comentou com ar zombeteiro. – Para a tua idade, não há dúvida, estás em dia com os acontecimentos. Na minha opinião, desde já te digo, essa história não tem pés nem cabeça. Mas, admitindo que seja verdadeira, vou dizer-te a razão por que os filhos da Luz assim procederam, porque procuraram as filhas de Caim. Foi por desprezo, sim, por um grande desprezo. Sabes até que ponto chegara a corrupção das filhas de Caim? Andavam com as partes pudendas à mostra, e homem e mulher eram como animais. A libertinagem tinha ultrapassado todos os limites, não sendo possível ver-se aquilo sem ficar escandalizado. Não sei se estás a compreender. Faziam coisas incríveis. Chegavam a ir nuas ao mercado. Se não soubessem o que é o pudor, enfim… não dariam tanto nas vistas aos filhos da Luz. Mas sabiam, e Deus até as fizera muito púdicas. A sua lascívia consistia precisamente em calcar aos pés o pudor. Não era de perder a paciência? O homem fornicava pùblicamente, pelos caminhos, com a mãe, com a filha, com a mulher do irmão, não tendo, em suma, outra coisa em mente senão o gozo abominável do pudor ofendido. Não devia tudo isto causar horror aos filhos de Deus? Procederam assim por desprezo, percebes? Tinham perdido todo o respeito por aquele género humano que eles deviam estimar em atenção a um empenho superior. Acharam que o homem fora criado apanas para a lascívia, e o desprezo tomou neles um carácter fornicador. Se não entendes estas coisas, não passas de um vitelo."

Thomas Mann, "O Jovem José".
Na montanha V

"Mas o dilema, senhor, a tragédia começa onde a Natureza foi bastante cruel para romper, ou para impedir desde o início, a harmonia da personalidade, associando uma alma nobre e disposta a viver a um corpo inapto para a vida. Conhece Leopardi, meu caro engenheiro? Ou o senhor, tenente? Um poeta infeliz da minha terra, um corcunda enfermiço, com uma alma primitivamente grande, mas diminuída sem cessar pela miséria do seu corpo e arrastada aos abismos da ironia, mas cujos lamentos dilaceram o coração. Ouçam isto!
E Settembrini começou a declamar em italiano, deixando as sílabas fundirem-se na língua, agitando a cabeça, e fechando os olhos, sem se preocupar com o facto dos seus companheiros não entenderem nenhuma palavra. Esforçava-se, visivelmente por saborear a sua memória, e a sua pronúncia, realçando-lhes o valor perante os seus auditores. Finalmente, disse:
- Mas os senhores não compreendem. Ouvem sem perceber o sentido doloroso dos versos. O doente – Leopardi – compenetrai-vos bem disto – foi privado sobretudo do amor das mulheres, e foi isso, antes de mais nada, o que o tornou incapaz de impedir a desagregação da sua alma. O esplendor da glória e da virtude empalidecia ante os seus olhos; a Natureza afigurava-se-lhe má – de resto é realmente maldosa, estúpida e má; neste ponto concordo com ele – e desesperou, é terrível dizê-lo, desesperou da Ciência e do Progresso. Aqui é que principia a tragédia, meu caro engenheiro. Aqui é que o senhor encontra o seu «dilema da alma humana», mas não nessa mulher, renuncio a sobrecarregar a minha memória com esse nome… Não me fale da «espiritualização» que pode resultar da doença, por amor de Deus, não faça isso! Uma alma sem corpo é tão desumana e atroz como um corpo sem alma. O primeiro é, aliás, uma rara excepção, e o segundo, é regra. Regra geral é o corpo que tem supremacia, açambarca toda a vida, toda a importância, e emancipa-se da maneira mais repugnante. Um homem que vive como doente é corpo e nada mais, e nisso está o anti-humano, o humilhante… Na maioria das vezes não vale mais do que um cadáver..."

Thomas Mann, "A Montanha Mágica".
Sentado debaixo do grande terebinto XVIII

"- Posso, com certas reservas, compreendê-las - replicou José.
- Ora, onde foi que as aprendeste?
- Será que perguntas a Eliezer onde aprendeu as que te ensina? Sei desses casos tão bem como ele, e de outros mais. Quando se é mensageiro, guia, guarda, corre-se mundo e aprende-se muito. Posso assegurar-te que o dilúvio veio apenas porque o desprezo dos filhos do Céu pelo homem já se tornara lascivo. Foi o motivo decisivo, de contrário talvez nunca tivesse vindo. Mas posso acrescentar que da parte dos filhos da Luz já havia a intenção de exigir o dilúvio. Infelizmente, veio depois a arca da salvação, e o homem meteu-se lá dentro.
- Alegremo-nos com isso - disse José. - Se assim não fosse não iríamos aqui palrando a caminho de Dotan e não nos serviríamos da mula ora um, ora outro, conforme combinámos.
- Tens razão! - retorquiu o desconhecido, fazendo mais uma vez girar as pupilas dos olhos em redor e mirando de esguelha. - A conversar esqueço tudo. No entanto devo guiar-te e velar por ti, para que chegues aonde estão teus irmãos. Mas qual é mais importante, quem guarda ou quem é guardado? Embora me custe, devo dizer: quem é guardado. Por causa dele é que está aqui o guarda, e não o contrário. Portanto, agora apeio-me e tu montas na mula ficando eu a caminhar no pó, ao teu lado. (...)

De súbito, um solavanco e uma queda. O mal estava feito. Hulda introduzira uma das patas anteriores num buraco do terreno, curvara-se e não podia erguer-se. Partira-se-lhe um jarrete.
- Está quebrado! - disse o guia após um curto exame feito pelos dois. - Olha que belo presente! Eu não te dizia que há jarretes fracos de mais?
- Diante desta fatalidade, não devias alegrar-te de teres aparentemente razão. Neste momento, nem sequer devias pensar em tal. Quem conduzia eras tu e não reparaste que ela se metia desastradamente no buraco.
- Não reparei. E recriminas-me por isso? Aí está a verdadeira índole do homem, que sempre quer atribuir a culpa a alguém quando qualquer coisa corre mal, como se podia prever.
- É também verdadeira índole do homem desejar absolutamente prever a desgraça e depois procurar nela um triunfo inútil. Dá-te por muito feliz que eu te acuse apenas de falta de atenção. Poderia acusar-te de muito mais. Não devias ter-me aconselhado a viajar durante a noite. Não teríamos fatigado tanto a Hulda, e o inteligente animal já não teria posto o pé em falso."

Thomas Mann, "O jovem José".
Na montanha VI

"Segundo os pontos de vista de Settembrini, havia dois princípios que disputavam a posse do mundo: a Força e o Direito, a Tirania e a Liberdade, a Superstição e a Ciência, o princípio da conservação e o do movimento: o Progresso. Podia chamar-se a um o princípio asiático e ao outro o europeu, visto ser a Europa a terra da rebelião, da crítica e da actividade transformadora, ao passo que o continente oriental encarnava a imobilidade, o repouso. Não existia a menor dúvida quanto à questão de saber qual das forças terminaria por triunfar; só poderia ser a da Luz, a do aperfeiçoamento guiado pela Razão. Pois a Humanidade arrastava incessantemente novos povos pelo seu caminho brilhante, ganhava cada vez mais terreno na própria Europa e estava a ponto de penetrar na Ásia. No entanto, faltava ainda muito para que a sua vitória fosse completa, e grandes, magnânimos esforços eram exigidos dos homens de boa vontade, dos que haviam recebido a luz, até que raiasse o dia em que desmoronassem as monarquias e as religiões, até naqueles países que, na verdade, nunca tinham vivido o seu século XVIII nem seu ano de 1789. – Mas esse dia há-de chegar, dizia Settembrini, esboçando um fino sorriso sob a curva do bigode. Se não chegar pelos pés das pombas, chegará sobre as asas das águias. Nascerá com a aurora da confraternização geral dos povos sob o signo da Razão, da Ciência e do Direito. Trará a santa alinaça da democracia dos cidadãos, em esplêndido contraste com aquela três vezes infame aliança dos príncipes e dos gabinetes, cujo inimigo mortal, o inimigo pessoal foi o avô Giuseppe, numa palavra, a República Universal. Mas, para alcançar esse objectivo final era, antes de mais nada, necessário ferir o princípio asiático, o princípio do servilismo e da inércia, no centro e no nervo vital da sua resistência, que era Viena. Tratava-se de vencer, de aniquilar a Áustria, primeiro para tirar a desforra das suas façanhas do passado, e depois para preparar o caminho, o reino da justiça e da felicidade sobre a Terra."

Thomas Mann, "A Montanha Mágica".

Los Olvidados (1950 )

MARGUERITE YOURCENAR


LES TRENTE - TROIS NOMS DE DIEU

[Os Trinta e três nomes de Deus]

Essai d'un journal sans date et sans pronom personne

[Tentativa de um diário sem datas e pronomes pessoais]


1. Mer au matin

[ Mar pela manhã ]

2. Bruit de la
source dans
les rochers
sur les parois de pierre

[ Murmúrio da
nascente nas
rochas
sobre os muros de pedra ]

3. Vent de mer
la nuit,
dans une île

[ Vento de mar
a noite,
sobre uma ilha ]

4. Abeille

[ Abelha ]

5. Vol triangulaire
des cygnes

[ Voo triangular
dos cisnes ]

6. Agneau nouveau-né
beau bélier
brebis

[ Cordeiro recém-nascido
formoso ariete
ovelha ]

7. Le doux muffle
de la vache
le muffle sauvage
du taureau

[ O terno focinho
da vaca
o focinho selvagem
do touro ]

8. Le muffle
patient du
bœuf

[ O focinho
paciente do
boi ]

9. Le feu rouge
dans l’âtre

[ O rubro fogo
na lareira ]

10. Le chameau
boiteaux
qui traversa la
grande ville encombrée
allant vers sa mort

[ O camelo
coxo
que atravessa a
grande cidade atravancada
a caminho da morte ]

11. L’herbe
L ‘odeur de l’herbe

[ A erva
O odor da erva ]

12. ‘ ‘’’’’’

13. La bonne terre
Le sable
et la cendre

[ A boa terra
A areia
e a cinza ]

14. Le héron qui a
attendu toute la
nuit, à demi gelé,
et qui trouve
à apaiser sa
faim à l’aurore

[ A garça real que
esperou toda a
noite, quase gelada,
e pela aurora encontra
com que aplacar sua
fome ]

15. Le petit poisson
qui agonise
dans le gosier du
héron

[ O pequeno peixe
que agoniza
nas goelas da
garça real ]

16. La main,
qui entre en
contact
avec les choses

[ A mão,
que entra em
contacto
com as coisas ]

17. La peau —
toute la surface
du corps

[ A pele —
toda a superfície
do corpo ]

18. Le regard
et ce qu’il regarde

[ O olhar
e o que ele vê ]

19. Les neuf portes
de la
perception

[ As nove portas
da
percepção ]

20. Le torse
humain

[ O torso
humano ]

21. Le son d’une
viole ou d’une
flûte indigène

[ O som de uma
viola ou de uma
flauta indígena ]


22. Une gorgée
de boisson
froide ou
chaude

[ Um trago
de bebida
fresca ou
cálida ]

23. Le pain

[ O pão ]

24. Les fleurs
qui sortent
de terre au
printemps

[ As flores
que despontam
da terra
na primavera ]

25. Sommeil
dans un lit

[ Sono
em um leito ]

26. Un aveugle
qui chante
et un enfant
infirme

[ Um cego
que canta
e uma criança
enferma ]

27. Cheval qui
court
en liberté

[ Cavalo que
corre
em liberdade ]

28. La femme —
aux — chiens

[ A mulher —
os — cães ]

29. Les chameaux
qui s’abreuvent
avec leurs petits
dans l’oued
difficile.

[ Os camelos
que se banham
com seus filhotes
no difícil oued ]

30. Soleil levant
sur un lac
encore à demi
gelé

[ Sol nascente
sobre um lago
ainda meio
gelado ]

31. L’éclair
silencieux
La foudre
bruyante

[ O relâmpago
silencioso
O trovão
fragoso ]

32. Le silence
entre deux amis

[ O silêncio
entre dois amigos ]

33. La voix qui vient
de l’est,
entre par l’oreille
droite
et enseigne un chant

[ A voz que vem
de levante,
entra pelo ouvido
direito
e ensina um canto ]

22 mars 1982

[22 de março 1982]

Tradução de Mário Rui de Oliveira.
ABBAS KIAROSTAMI — UN LUPO IN AGGUATO (Um Lobo ao Ataque). POESIE. EINAUDI TASCABILI 2003.


Una linea rossa sul bianco della neve,
Una preda ferita
Che zoppica

[Traço vermelho sobre o branco da neve,
preda ferida
que coxea]

Un puledro bianco
è nato
da una cavala nera
alle prime luci dell’alba

[Um potro branco
nasceu
de uma égua negra
ao alvorecer]

Il vento porterà con sè
i fiori di ciliegio
sino al biancore delle nubi

[O vento levará consigo
flores de cerejeira
até à alvura das nuvens]

Ogni onda alta
tre onde basse,
ogni tre onde basse
un’onda alta

[Por cada onda alta
tres ondas baixas,
por cada tres ondas baixas
uma onda alta]

Ho accompagnato
la luna
sino al cuore di una nuvola scura,
ho bevuto del vino e ho preso sonno

[Acompanhei
a lua
ao coração de uma nuvem escura,
bebi vinho e adormeci]

Quando tornai al mio paese natale
la casa paterna
non c’era piú e neppure la voce di mia madre

[Quando regressei à terra natal
a casa paterna
já não existia nem a voz de minha mãe]

Il cielo
mi appartiene,
la terra
mi appartiene

come sono ricco!

[O céu
pertence-me,
a terra
pertence-me

como sou rico!]

Un mendicante
è sveglio sulla riva di un ruscello
un assetato
è sveglio sopra un tesoro

[Um mendicante
acordou sobre a margem de um regato
um sedento
acordou sobre um tesouro]

Tradução de Mário Rui de Oliveira.
«UN LUPO IN AGGUATO» (Um Lobo ao Ataque), ed. Einaudi Tascabili e a tradução do texto persa é da responsabilidade de Ricardo Zipoli.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

musicos beduns

Garotas vestindo trajes tradicionais.


Belen Palestina 1918

Duas mulheres sírias


séc XIX

Jovem Libanesa


Nablus.sec XIX

Leon Tolstói


RMN

Paris.1912


Musee D'Orsay

Kerenski.1917

Igreja transforma-se em hospital de Campo. I Guerra

Soldados Ingleses e Prisioneiro alemão. I Guerra

Exército russo rumo a Batalha. I Guerra