segunda-feira, 24 de março de 2014

É que as coisas do pensamento são radicalmente simples. Não constituem privilégio de nenhum saber, de nenhum ter, de nenhum agir. Estão por toda parte onde se recolhe um modo de ser. Pensador é todo homem. Todos têm gosto pela revelação do mistério do des-velamento do não saber. A arte de pensar é dada por um movimento extraordinário de sentir e escutar o silêncio do sentido, nos discursos das realizações. No pensamento não somos apenas enviados a remissões e referências. Não está na semântica ou na sintaxe a originariedade do pensamento. Uma paixão mais originária do que toda semântica ou qualquer sintaxe, a paixão do sentido, toma posse do nosso ser e nos faz viajar por dentro do próprio movimento de referir, de remeter, de enviar.


Emmanuel Carneiro Leão, na apresentação de "Ser e Tempo".

Cabral Soho


Li dia desses que mais um bairro de Curitiba - o Cabral - decidiu adotar um sobrenome. Agora será Cabral Soho, seguindo o exemplo de Batel Soho.
O SoHo é um bairro de Manhattan, na cidade de Nova York. Seu nome é a abreviação de South of Houston, indicando que se trata da região ao sul da rua Houston, e um trocadilho com o conhecido bairro do Soho, em Londres.
Já em Londres o Soho tem uma tradição histórica. No século 18, as ruas do Soho conquistaram o prestígio dos nobres. No século 19 ele era o local escolhido por artistas e livres pensadores da Europa para germinar seus ideais, produzir suas obras ou mesmo para se ocultarem dos olhos do mundo.
Na liberal e visionária década de 60 o Soho londrino ganhou ares de liberação sexual, com suas lojas de produtos sexuais e seus estabelecimentos voltados para a liberação dos desejos humanos, frequentados até mesmo por austeros cidadãos ingleses, os pretensos guardiões da moral da sociedade vitoriana.
Nesta mesma época a Carnaby Street, uma das mais célebres do Soho, tornou-se conhecida por se tornar o cenário idílico do aparecimento da minissaia, bem como de vestes coloridas e estampadas, e das famosas calças boca-de-sino, usadas por quase todos os jovens deste período.
Voltando à Curitiba, século 21, e depois de conhecer um pouco sobre a origem de Soho, me pergunto se incluir o sobrenome Soho trará algum benefício para o bairro.
Me pergunto se isso não seria de uma breguice e de uma falta de originalidade tamanha - além de ser tacanho - incorporar um "estilo" ao que sequer existe.
Pretenciosamente arrogante acreditar que trazer um nome a um bairro significará uma mudança de comportamento como vimos em Londres e Nova York, por exemplo. Pior ainda, achar que trará benefícios econômicos à região.

Tomara que o meu Mercês permaneça intacto. E longe, muito longe de cabeças pensantes como a desses senhores.
História de Curitiba Soho.

A madame entra na Louis Vuitton no shopping Pátio Batel ostentando em seu antebraço a linda bolsa da mesma marca da loja.

Eis que, educada e discretamente, a atendente vai ao seu encontro e diz que enquanto ela permanecesse no interior da loja a "bolsa" deveria ficar dentro de uma sacola fornecida imediatamente pela vendedora.


Tudo indica que a madame portava uma Luiz Vintão comprada nas melhores lojas do ramo de Ciudad Del Leste, no Paraguai.

Rodrigo Fornos
"Religião! Eu admito a vida eterna e talvez a tenha admitido sempre. Vamos que a consciência seja inflamada pela vontade de uma força superior, que a consciência olhe para o mundo e diga: ‘Eu existo’ - e que de repente essa força superior lhe tenha prescrito destruir-se, porque lá isso é muito necessário para algo - e até sem explicações para quê -, que eu admito tudo isso, no entanto lá vem outra vez a eterna pergunta: nesse caso, para que se faz necessária minha resignação? Será que não podem simplesmente me devorar, sem exigir de mim o elogio àquele que me devorou?"


- Fiódor Dostoiévski, O Idiota, p. 464. Tradução de Paulo Bezerra. 

discussões acerca da educação

Roberto Elias Salomão
Sinto uma certa angústia em amigos educadoras e educadores com a emergência desse fascismo de araque em nossas plagas. Concluem que a escola falhou, quando o certo é que essa juventude degenerada expressa interesses de classe, nada mais. Por melhor que seja o sistema educacional (e isso tem um limite no sistema capitalista), sempre haverá uma porta aberta para o fascismo. Se não fosse assim, como explicar o nazismo alemão, o fascismo italiano, o franquismo espanhol? Escolas ruins, professores incompetentes?
Andrea Caldas Acho que você tem razão, mas também nos falta um orgânico projeto educativo e cultural que dispute esta juventude. Em doze anos de governo popular, construímos prédios, melhoramos índices mas somos tímidos no debate curricular da escola e da cultura na sociedade. Ganhamos pontos no economicismo e perdemos muitos na "direção moral e intelectual".
Márcia Marques há, também, um gap de educação provocado pela ditadura, que desmontou um modelo de educação pública, implementada em grande parte por Anísio Teixeira, e que, com ele e Darcy Ribeiro, tem na construção da UnB sua elaboração mais refinada. Este desmonte foi crucial em transformar nossa educação no caos em que se encontrava. reconstruir, em meio a escombros (e tanta informação de preconceitos e xenofobias), é muito mais difícil. creio que a educação pública tem melhorado bastante, mas ainda faltam muitos anos para vermos os resultados desse investimento (que não pode ser interrompido, porque ainda precisa de muito)
Maerlio Barbosa O nosso modelo educacional tem que ser repensado. Os filhos da 5692 estão ai. Os estragos também. Tem que haver melhora no ensino desde a mais tenra idade até as universidades. De nada adianta melhorar as estatísticas na marra, como sempre fizeram. Esses planos emergenciais como o Mobral, Supletivo e cotas, que vieram com data para acabar, mas que são perenes, servem apenas como um "cala a boca" de parcelas excluídas, mas que votam, em nada ajudam a resolver o verdadeiro problema. Falta coragem e vontade política.
Márcia Marques tem sido implementadas mudanças – muitas muito boas – pelo MEC em parceria com outros ministérios com sociedade civil. falta comunicação e espaços de ampliação do debate. há uma mudança importante a ser feita no ensino médio, que não serve para nada. frustra os mlks no período mais complicado da vidinha deles, querem ganhar o mundo, mas não querem o ônus que isso acarreta. começou a ser implementada na gestão do haddad. as mudanças de ministros a partir dele sustaram as coisas. e as escolhas dos ministros não são feitas para dar continuidade aos planos e trabalhos. o MEC é um monstro (basta olhar o portal pra entender), cada mudança paralisa, pede novos estudos. não acho que quem chegue não deva fazer isso, porque não posso assinar cheque preenchido por outro sem olhar a fatura direitinho. falta é uma reforma política que contemple relações de Estado mais estáveis.
Maerlio Barbosa Olha, eu ainda cursava o primário quando entendi que quando se tem vontade política e se quer fazer alguma coisa, eles vão lá e fazem. Quando não querem, formam um comissão. o MEC tem comissão para tudo. Tenho visto muitos planos e coisas bonitas no papel, mas na prática.. E esse negócio de "parceria com a sociedade civil" lembra muito a já existente com as empresas particulares de ensino, que já levam muuuiiiiitoooo dinheiro nosso e só fazem o que lhes interessam financeiramente. Agem em nome do lucro e eu não gosto disso. Eles nem deviam ser chamados ou ouvidos, visto que não são responsáveis pela formulação de um plano nacional de educação popular. ACORDA BRASIL, EDUCAÇÃO É PROBLEMA DE TODOS!
Márcia Marques essa parceria com a sociedade civil, com a população, tem se dado muito nas universidades federais, por meio de cursos e atividades de extensão, com resultados muito interessantes. não podemos esquecer o quanto o país é desigual em muitas coisas: dinheiro, acesso, educação, geografia, história, cultura. em muitos casos é bom sermos desiguais e em outros absolutamente abjeto. e é neste contexto complexo que se insere a educação, num momento em que precisamos sair das caixinhas do conhecimento positivista


segunda-feira, 17 de março de 2014

O Amante.

Por vezes sei disto: a partir do momento em que não for, confundidas todas as coisas, ir ao sabor da vaidade e do vento, escrever é nada. A partir do momento em que não for, sempre, todas as coisas confundidas numa única por essência inqualificável, escrever é nada mais que publicidade. Mas na maioria das vezes não tenho opinião sobre isso, vejo que todos os campos estão abertos, que não haverá mais muros, que a palavra escrita não saberá mais onde se esconder, se fazer, ser lida, que sua inconveniência fundamental não será mais respeitada, mas nem penso mais nisso.


Marguerite Duras
Há palavras que nos habitam sempre
outras chegam-nos como a água
em momentos de sede e de silêncio.


Gisela Gracias Ramos Rosa
“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser. O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la. [...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima. É pouco, é muito pouco.”


- Clarice Lispector, do livro "Aprendendo a viver". Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.

sábado, 15 de março de 2014

Há dias em que sinto exalar uma fina poeira
como aquela atribuída a Pilades na famosa
Chronica nera areopagitica ao ser descoberta

adentrou a câmara secreta do meu peito
e chacoalhou o papel que carrega seu nome

Não gosto deste estranho espirrando sobre nosso amor.



(Frank O'Hara, tradução de Ricardo Domeneck)

O petit rolê do sociólogo francês


Guy Tapie, pesquisador da Universidade de Bordeaux


O sociólogo francês Guy Tapie, 59 anos, fala poucas palavras em português. Tem se esforçado, já que está em sua terceira visita ao Brasil, como pesquisador de um convênio entre a Universidade de Bordeaux, a Universidade de Cincinatti (EUA) e a Universidade Federal do Paraná. Seu pequeno vocabulário inclui as palavras “Barigui”, o parque; “Guarituba”, a ocupação irregular; e o programa “Minha Casa, Minha Vida”.

Decorou-as por razões bem pessoais. Confessa-se fascinado pela convivência entre “diferentes” no Barigui. Estimulado pelas soluções urbanas que surgem em condições adversas, a exemplo da favela do Guarituba. E decepcionado pela velocidade com que o governo ergue casas populares sem dar muita “pelota” para o entorno.

Pudesse, estudaria todos esses assuntos. Quem sabe. Guy acaba de concluir uma longa investigação sobre habitação contemporânea em seu país, a França. A descrição dos resultados se assemelha, em parte, ao clima claustrofóbico do filme Caché, de Michel Haneke, em que um casal se sente ameaçado por vídeos domésticos. “As pessoas julgam que bem-estar é sinônimo de espaço protegido”, comenta.

Com o estudo da casa em fase de lançamento, faz também a divulgação da pesquisa realizada ao lado de americanos e brasileiros da UFPR. Guarda segredos. Sabe-se que trata das relações entre mobilidade, energia e “metropolização” – um conceito ainda pouco explorado, mas que diz respeito ao modo de vida em regiões urbanas mais desenvolvidas.

Se Curitiba for o próximo tema do sociólogo, não vai lhe faltar matéria-prima. Fez bons laboratórios por aqui. Guy Tapie não resiste a observar o uso que os curitibanos fazem do espaço, mas ainda não sabe que palavra usar para traduzir o desacato, quase institucionalizado, dos motoristas com os pedestres. “Ainda bem que as calçadas daqui são bem largas. Dá para desviar”, brinca o viajante.

Confira trechos da entrevista de Guy Tapie à Gazeta do Povo.

O senhor utilizou transporte público em Curitiba?

Sim. E também no Rio de Janeiro e em São Paulo...

É um sobrevivente... (risos)

De fato, andar de ônibus no Rio de Janeiro é algo impressionante.

Agora é tarde, mas o senhor acha que Curitiba precisa de metrô?

(risos) Não acho que seja necessário. Aqui há muitas linhas de ônibus. É possível que algumas estejam saturadas, mas não sei se o metrô vai resolver. Em Bordeaux, onde vivo, abandonamos a proposta de metrô nos anos 1980 e nos 1990 adotamos o trem de superfície. Admito que algumas linhas estão saturadas, em especial as que vão para os câmpus universitários. Parecem vagões de animais. Já se começa a falar outra vez em metrô. Em se tratando de transporte, temos de considerar que não existem 50 mil soluções.

O senhor é um respeitado pesquisador de cidades, tem autoridade no assunto. Devemos estar gratos à Fifa ou não? O que dizer da intervenção maciça na cidade para uma Copa do Mundo?

Se o Brasil ganhar a Copa do Mundo, todos os inconvenientes vão cair no esquecimento e a presidente Dilma será reeleita. Mas, se acontecer o contrário, será bem complicado. A Copa serve mais para melhorar a reputação de uma metrópole do que para melhorar a vida da população. Vira uma referência – “ah, aquele lugar está preparado para receber grandes eventos”.

Existem vários estudos a respeito e a conclusão é de que acontecimentos como Copa não ajudaram a melhorar muito os lugares. Pelo contrário: deixam as prefeituras com déficit nos orçamentos, desdobrando-se para compensar os gastos. Penso que uma Copa do Mundo mexe é com o imaginário da cidade, não mais do que isso.

Acompanhou pela imprensa as manifestações de junho de 2013? E os petit rolê (rolezinhos)? O Brasil não lhe parece mais um barril de pólvora do que o cenário de uma Copa do Mundo?

(risos) Sim, acompanhei pelo noticiário... Eu diria que em todas as manifestações sempre tem um pequeno grupo que aparece para quebrar. Do que li, as manifestações foram populares e legítimas, uma reivindicação de acesso ao transporte. Numa cidade como o Rio, não compensa ingressar no Minha Casa, Minha Vida, e ir morar longe, sem ônibus. E tem o suborno, a corrupção, que geram revolta. Entendo que o Brasil está no caminho para a maturidade democrática. E que vocês querem ter mais controle sobre os editais de serviços públicos. Desculpe comparar, mas na França, a licitação dos meios de transporte segue um contrato draconiano. Fiquei admirado com o baixo grau de exigências das concessões por aqui.

Qual sua conclusão a respeito?

É uma questão complexa. No Brasil, a passagem do rural para o urbano se deu de forma massiva e num espaço de tempo muito curto. Países mais antigos tendem a um controle maior, o que implica em especificações das políticas e programas públicos. O detalhamento tende a ser completo. Além disso, observo que faltam no Brasil técnicos especializados.

É a terceira vez que o senhor vem a Curitiba. O que lhe impressiona na cidade?

O Parque Barigui. Me encanta. É um espaço público. Todas as vezes em que fui até lá havia muita gente, de origens familiares e sociais diferentes, com práticas distintas, mas todos utilizam...

Tem quem ligue para as rádios e escreva para os jornais, reclamando justamente disso...

(risos) De minha parte, admirei bastante essa diversidade e uma certa harmonia do local. As pessoas compartilham o mesmo espaço...

O que estudaria sobre o Brasil?

Três aspectos. Os condomínios fechados, as ocupações irregulares e o programa Minha Casa, Minha Vida. Na França existem condomínios, mas muito menos. Aqui, é um modelo que marca a paisagem. É como se para a classe média fosse a única maneira de habitar a cidade. Impressiona: é vedado, com guarda, aquele grande portão, um enclave, separado. Uma ilha artificial. Quanto às favelas, são de uma grande diversidade. Me admira ter habitações bem confortáveis, variedade de soluções urbanas. Já no que diz respeito ao Minha Casa, Minha Vida, entendo a necessidade de construir tantas moradias, mas lamento a falta de qualidade, de bons equipamentos, de cuidados com o entorno, a baixa acessibilidade.

Urbanistas estrangeiros, em visita ao Brasil, tendem a estranhar nossa “arquitetura de competição” – prédios parecem ser rivais uns dos outros e têm pouca relação com a calçada, a exemplo dos condomínios de luxo da Avenida Visconde de Guarapuava. O que lhe parece?

[pausa] Observei essa competição, mas entendo como uma forma de liberalismo. Concordo. Não há uma régua delimitando o número de andares. Ocorre o risco de muitos terem de ficar na sombra. De ponto de vista de organização da cidade, não é muito bom. Mas não chega a ser um problema, porque as calçadas são largas. O difícil aqui é na hora de atravessar a rua (risos). Vejo que vocês não têm muito respeito pelos pedestres. O sistema de sentido único das vias favorece o carro. Não vejo atenção com o ciclista. A arquitetura talvez não esteja muito ligada ao espaço público. Ao entrar nos condomínios e nos estacionamentos, os carros bloqueiam a calçada. O pedestre tem de se virar. O que vai fazer? Daqui a 20, 30 anos, pode ser que seja diferente. É uma questão de usos e de práticas.

Ao mesmo tempo, Curitiba vive um período de declaração de amor à cidade. Temos os ativistas do Bosque Gomm, os ciclistas... O que lhe parece? São apenas românticos?

O amor à cidade certamente não é compartilhado por todos. Há uma categoria, a dos “urbanos”. São eles que agem assim. Vêm de um tipo de cultura. Entendem o lugar onde moram como seu. Mas devemos considerar que esses movimentos muitas vezes se transformam em políticas públicas. Chegam a organizar a cidade. É o caso do uso da bicicleta. Em Copenhague, o índice de ciclistas chega a 45% da população – é muito alto. Em Amsterdã, eles são tantos e tão convictos que chegam a se zangar com quem pisa na pista errada.

O senhor acaba de lançar Sociologie de l´habitat contemporain – Vivre l’architecure, resultado de seus estudos sobre moradia. Uma das conclusões é de que as pessoas se refugiam no espaço doméstico, isoladas pela tecnologia. Do que elas têm medo?

Da violência física. Do roubo. Da falta de civilidade... Mas tem algo a mais – a sociedade dá demonstrações de ansiedade. Há o medo de perder o status social, medo do que a globalização pode trazer, medo da desestabilização, medo do desemprego. Em meio a tudo isso, as pessoas buscam se firmar no que já conhecem: o lugar em que vivem. Privatizam a casa, recolhidas do mundo, julgando que o bem-estar é sinônimo de espaço protegido.

Nesse tipo de habitação, o indivíduo superprotegido concentra todos os recursos que existem. A casa em que habita passa a representar ele mesmo. Nesse lugar, tem a possibilidade de decidir como faz ou não faz a apropriação do mundo. Por essas e outras, o hábitat individual é uma peça-chave para entender a sociedade.


 JOSÉ CARLOS FERNANDES

Colaboraram Cristina de Araújo Lima e Brunno Covello.

Gazeta do Povo.09/03/2014 |

sexta-feira, 14 de março de 2014

Plano Marshall

No dia 12 de março de 1947, Harry Truman, presidente dos EUA, apresentou ao Congresso as diretrizes da sua política externa. Ele exigiu esforços especiais para combater a expansão dos soviéticos no mundo.
"A fim de garantir o desenvolvimento pacífico das nações, sem exercer pressão, os Estados Unidos assumiram a maior parte na criação das Nações Unidas. Mas só concretizaremos nossas metas se estivermos dispostos a ajudar povos soberanos na manutenção de suas instituições livres e de sua integridade nacional contra imposições de regimes autoritários."
Essas foram as palavras do presidente Harry Truman diante do Congresso norte-americano no dia 12 de março de 1947. Com seu pronunciamento, o então chefe do governo conclamou a opinião pública dos Estados Unidos a apoiar a Turquia e a Grécia, tanto no aspecto econômico como militar, para "conter as tentativas soviéticas de subversão", como se dizia na linguagem da Guerra Fria.
Pouco apoio, grande efeito
Truman respondeu à suposta ameaça soviética no Sudeste Europeu com uma concepção própria de política de segurança. Mesmo que o Congresso tenha aprovado o plano apenas com uma pequena margem de votos, seu efeito foi enorme: a Doutrina Truman selou não só a derrota comunista na guerra civil da Grécia, como fomentou de forma perigosa o antagonismo entre as duas superpotências, acirrando a Guerra Fria.
Segundo a teoria de Truman, o mundo estava dividido entre dois sistemas: os governo livres democráticos e os totalitários comunistas. A ajuda ao exterior, segundo formulado na sua doutrina de 1947, foi a diretriz das políticas externa e de segurança da Casa Branca durante várias décadas. Entre os acontecimentos que se seguiram estão o Plano Marshall, de reconstrução da Europa pós-guerra, alianças como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), criada em 1949, e as intervenções na Coreia e no Vietnã.
Armas nucleares como trunfo político
O principal trunfo político dos Estados Unidos era na época (e continua sendo) seu arsenal nuclear. Esta é a opinião do historiador norte-americano e diretor do Centro Nacional de Economia Alternativa, em Washington, Gar Alperovitz:
"A Guerra Fria, como a conhecemos, não teria sido imaginável sem armas nucleares. Não só no aspecto da corrida armamentista, mas também das relações entre os Estados Unidos e a União Soviética. Estas relações seriam radicalmente diferentes se não tivesse havido a bomba atômica. Por isso, acredito que, se não houvesse armas nucleares naquele momento, não daria para entender o porquê da corrida armamentista durante a Guerra Fria, nem seus aspectos políticos, geopolíticos e estratégicos na Europa."
Até hoje, Truman representa para muitos o típico cidadão americano, que podia ganhar seu pão como agricultor ou como contador. Alguém que, apesar de todas as dificuldades, demonstrou brio, começou de baixo e foi parar na Casa Branca. Para o historiador Alperovitz, Truman teve outra personalidade política: "Inescrupuloso e consciente de seu poder, com a capacidade de desrespeitar instituições democráticas e enganar a opinião pública".
Truman acreditava em eleições livres, no Estado de direito e suas bases. Mas também foi produto de um dos piores aparatos da história americana. "Quem o levou ao poder foi o gângster político Pendergast, em Missouri, no Texas. Era um aparato dos mais brutais, que comprava políticos e encomendava assassinatos. Truman era senador e teria que ter sido extraordinariamente ingênuo se não tivesse notado com quem estava lidando. Já naquela época era comum os políticos mentirem e distorcerem a realidade", conclui Alperovitz.


Autoria Michael Marek (rw)

Fonte : Deutche Welle

1892: Primeiro Congresso Sindical Alemão


No dia 14 de março de 1892 começou em Halberstadt o Primeiro Congresso Sindical Alemão. Mas somente após o fim da 1ª Guerra Mundial os sindicatos seriam reconhecidos oficialmente como representantes dos trabalhadores.

Foi Carl Legien quem abriu a Conferência de Fundação da Comissão Geral dos Sindicatos da Alemanha, no salão de dança de um restaurante em Halberstadt (na Saxônia-Anhalt). Ao todo, 57 entidades independentes decidiram criar uma central sindical, em 14 de março de 1892. Legien e seus companheiros haviam empreendido inúmeros esforços e sofrido incontáveis perseguições até então.
Ainda em 1878, o chanceler Otto von Bismark (1815-1898) conseguira aprovar no Reichstag (Parlamento Imperial) a "Lei contra as perigosas reivindicações da social-democracia", também chamada "Lei dos socialistas". Até a sua revogação no final de 1890, muitos sindicatos foram dissolvidos e proibidos. Mesmo assim, por volta do ano 1900 essas organizações contavam com cerca de 850 mil filiados.
Nessa época, difundiu-se entre os líderes sindicais a ideia de mudar a sociedade através de reformas, e não mais por meio de revoluções. Mas somente após o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, os sindicatos seriam reconhecidos oficialmente como representantes dos trabalhadores. Em 1933, os sindicatos livres foram esmagados pelos nazistas, enquanto as associações cristãs e liberais foram forçadas a se autodissolverem.
Diferenças entre Leste e Oeste alemães
Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, os trabalhadores voltaram a se organizar. Na Alemanha Ocidental, havia liberdade sindical; na Alemanha Oriental, os sindicatos estavam subordinados ao regime comunista do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED). Desde aquela época, eles conseguiram extrapolar em muito a sua meta inicial de "melhorar a situação social de seus filiados, através de conquistas salariais e redução da jornada de trabalho".
Fazendo-se uma retrospectiva dos 50 anos de democracia na Alemanha, após a Segunda Guerra Mundial, constatou-se que o movimento sindical obteve importantes vitórias. Isso, segundo a Confederação Alemã de Sindicatos (DGB), inclui principalmente duas áreas: a conquista de amplos direitos de cogestão empresarial, e a equiparação do padrão de vida dos trabalhadores ao desenvolvimento econômico geral do país.
Naturalmente, devido ao processo de globalização da economia, os sindicatos enfrentam novos desafios, não só na Alemanha. Na Europa, esse processo exige uma maior coordenação entre as entidades nacionais representativas dos trabalhadores, com consequências supranacionais.
Apesar da ampliação das atividades dos sindicatos para além das fronteiras nacionais, é um fato inegável que o número de sindicalizados diminui na Alemanha. Uma das explicações para este fenômeno é o aumento do número de desempregados. Por outro lado, os sindicatos têm dificuldades de conquistar novos filiados em setores econômicos promissores, onde ocorrem mudanças nas formas de participação e cogestão. Isso vale principalmente para as áreas dominadas por jovens, mulheres e mão-de-obra altamente qualificada.


Autoria Otto Busch (gh)

Fonte : Deutche Welle
“A primeira questão a ser formulada acerca de qualquer
enunciado, em todo contexto histórico, não é ‘é verdade?’ mas
‘faz sentido?’ Uma expressão que faz sentido... é simplesmente
aquela que serve bem a dois propósitos. Primeiro, comunicar
clara e consistentemente a intenção do autor ao leitor.
Segundo, comunicar, do mesmo modo, a intenção do autor a
ele próprio” (FISCHER, David Hackett. Historian’s Fallacies.
Toward a Logic of Historical Thought. New York, Harper & Row
Publishers, 1970 : p. 264).



Gustavo Biscaia de Lacerda : essa citação é bastante ambígua, pois em seu início ela dá a entender que a pergunta "faz sentido" implica técnicas de pesquisa e, depois, evidencia que se trata de problemas de comunicação das pesquisas. De qualquer maneira, nesses termos concordo totalmente com ela 

Podem até ter havido manifestantes neonazistas em Kiev...

mas a questão é muito mais antiga...a Criméia era grega e foi ocupada por mongóis (tártaros). Nunca na história aquele povo foi russo...nem antes, nem agora!. Quando os russos de Romanov invadiram a Crimeia também invadiram a Polônia em 1793. Não existia Ucrânia (criada em 1922 pelos soviéticos em resposta a derrota na Guerra Polaco-Russa de 1920). O povo da nova República Soviética eram os rutenos (assim eram chamados os ucranianos), que viviam em terras da Polônia desde a queda do Principado Kievano (criado pelos Vikings em terras da Europa Central) e que nesse período ganham um território, um estado e um nome para seu país: Ucrânia.

Por que Catarina a Grande, prima do Rei eleito da Polônia August Poniatowski, invadiu a Polônia???
Porque os polacos vinham dando mau exemplo aos reinos hereditários da Europa desde 1453, quando junto com a Lituânia, criaram a República das duas Nações, com um congresso estabelecido e eleições para rei...a hereditariedade de uma única família caiu por terra.

Por que Catarina a Grande, junto com Austria e Prússia invadiu a Polônia em 1793?
Porque a República polaca (seguida pelos EUA de 1776 e França de 1792) ousou estabelecer uma Constituição, a de 3 de maio de 1791 numa Europa de Reinos totalitários, ungidos pela Igreja Católica Romana.

Por que Catarina a Grande invadiu a Polônia e a Crimeia no século 17?
Porque nem todos os congressistas polacos concordavam com os destinos da República com a queda do "Liberum Veto" da Constituição de 3 de maio, e se conflagraram contra o próprio país e se aliaram aos três invasores, na conhecida Confederação de Bar (cidade hoje na Ucrânia e fundada pela rainha da Polônia, Bona Sforza (do Reino de Bari, atualmente cidade italiana).

Quando, em 1918, a Polônia recupera seu Estado (apagado do mapa por russos, austríacos e alemães), na Rússia havia acontecido a revolução Bolchewiki em 1917.
Os comunistas estabelecidos no poder não quiseram perder as terras invadidas por Romanov em 1793...e invadiram novamente a Polônia em 1920.
Só que levaram mais uma surra dos polacos, como havia acontecido em 1612, quando o Rei polaco Wladyslaw entrou vitorioso no Principado de Moscou (não existia a Rússia até então).
Como consequência, os moscovitas após alguns anos conseguiram criar o reino da Rússia, o que só foi possível, com o desleixo de Varsóvia para com terras tão distantes.
Mas o pior de tudo isso foi o ódio eterno que os russos passaram a nutrir pelos polacos.

Assim, a questão dos passaportes russos dados por Putin, aos chechenos, aos georgianos da Ossetia do Norte, da Ossetia do Sul, da Abicassia e agora, aos ucranianos de fala russa da Crimeia....não tem absolutamente nada a ver com esse discurso comunista do PCB e do PCdoB sobre a questão...

O que deseja o ex-chefe da KGB é reconstruir a Grande Rússia dos Romanov, a Rússia da União Soviética, esta derrubada por uns eletricistas e mineiros polacos das cidades de Gdansk e Katowice....

Coisas como fornecimento de gás russo a Itália, Alemanha, França são muitos factuais diante de uma história de agressões mútuas entre Polônia e Rússia. E na questão Ocidente X Oriente...
o Ocidente está ainda em grande dívida com a Polônia....pois ao abandoná-la aos fascismo stalinista (esse regime nunca foi de esquerda) deu dinheiro para reconstruir a Alemanha nazista através do Plano Marshal...deu dinheiro aos agressores e abandonou as vítimas polacas da segunda guerra mundial...

As questões da antiga Iugoslávia (Eslavos do Sul) República Soviética criada no decorrer dos acontecimentos pós primeira guerra mundial, e seu desmantelamento pós a queda da União Soviética...
também tem a ver apenas com os ideais de Pan-eslavismo imaginados tanto por polacos quanto por Russos, tanto por Pilsudski quanto por Lenin.
E portanto, a questão no momento, vivida pela Ucrânia e Crimeia, passa ao largo de comunistas x nazistas, direita x esquerda....quem não percebe isso e tenta explicações sob o viés de cada uma das visões incorre em erro histórico.

Ulisses Iaroshinski
No te quedes inmóvil
al borde del camino,
no congeles el júbilo,
no quieras con desgana,
no te salves ahora
ni nunca.
No te salves.

Mario Benedetti

"La muerte feliz"

  de Albert Camus.

Inundada de la luz ardiente y de los colores y olores de la juventud de Albert Camus (1913-1960) y nutrida ya de buena parte de las claves de su mundo, así como muchos de los temas, sensaciones e inquietudes que impregnan toda su obra, "La muerte feliz" es una novela en la que Mersault, en quien laten numerosas vivencias de su joven autor, busca la felicidad hasta sus últimas consecuencias. Si "El primer hombre" reúne o compendia la infancia del Camus, en "La muerte feliz", escrita entre 1936 y 1938 y publicada póstumamente en 1971, hallamos el vigoroso impulso de su juventud, y en Mersault, su protagonista, no una primera versión del protagonista de "El extranjero", sino su antecedente necesario.
Se você abrir teu casaco,
Terei que dar o dobro de amor.

Se você vestir o chapéu redondo e branco,
Terei que exagerar meu sangue.

Da sala onde você faz amor,
terão que tirar todos os móveis

todas as árvores, todas as montanhas, todos os oceanos.
O mundo é estreito demais.


*Yehuda Amichai (1924-2000). Versões elaboradas em cima das traduzidas do hebraico ao inglês por Chana Bloch e Stephen Mitchell (Selected Poetry of Yehuda Amichai, New York, Harper & Row). fonte: blog Sibila

Uma taça feita de um crânio humano



Não recues! De mim não foi-se o espírito...
Em mim verás - pobre caveira fria -
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.

Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!... que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.

Mais vale guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
- Taça - levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do réptil.

Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
...Podeis de vinho o encher!

Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.

E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim p'ra alguma coisa!...


Lord Byron

(Tradução de Castro Alves)

A LITERATURA EM RIDÍCULO


I.
Os homens encarnam a estupidez de pangarés e vacas.
A poesia e a literatura são obra do inferno.
Geram apenas petulância, gratuidade e um monte de apegos.
Deveríamos mais é tratar os que seguem essa trilha demoníaca.

II.
Obras-primas de poesia e prosa, vozes de ouro e jade.
Palavras, palavras, frases, frases... todos ficam impressionados.
Porém crês que Yama se encantará com versos elegantes?
Prepara-te pras cacetadas do cetro de ferro e pro brilho diabólico de seus olhos!

Ikkyu Sojun

traduzido por Joca Reiners Terron

sexta-feira, 7 de março de 2014

"A impunidade foi consagrada na Síria", diz Paulo Sérgio Pinheiro


Brasileiro que chefia comissão da ONU sobre o conflito critica inércia do Conselho de Segurança e afirma que, devido a divisões entre potências, comunidade internacional é também responsável pelas atrocidades.

A comissão da ONU responsável por investigar as violações dos direitos humanos na guerra síria divulgou um relatório nesta quarta-feira (05/03) no qual critica a inércia da comunidade internacional em agir para solucionar o conflito.
Em entrevista à DW Brasil, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, que chefia a comissão, diz que "a impunidade foi consagrada" na Síria, em parte devido a divisões entres os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Rússia, China, Reino Unido e França).
"Os crimes e violações vêm sendo cometidos, e os perpetradores estão totalmente tranquilos porque não precisam enfrentar qualquer nível de justiça", afirma Pinheiro.
Deutsche Welle: No relatório divulgado nesta quarta-feira foi citado que houve negligência das grandes potências em relação ao conflito da Síria. De que forma as grandes potências falharam?
Paulo Sérgio Pinheiro: Nós chamamos a atenção para a incapacidade do Conselho de Segurança em referir o caso da Síria para o Tribunal Penal Internacional (TPI). Isso porque a Síria não faz parte do Estatuto de Roma, que criou o TPI e, desta forma, o único órgão dentro da comunidade internacional e da ONU que poderia fazer isso seria o Conselho de Segurança.
Mas, por causa da divisão dentro do Conselho, especialmente entre os membros permanentes, a impunidade foi consagrada na Síria. Os crimes e violações vêm sendo cometidos, e os perpetradores estão totalmente tranquilos porque não precisam enfrentar qualquer nível de justiça.
O relatório terá consequências políticas práticas?
O que estamos fazendo é documentando as violações aos direitos humanos e ao direito internacional humanitário, para que, no futuro, quando o TPI, que nós esperamos que em algum momento possa atuar, possa abrir investigações criminais. Nosso único mandato é primeiro reconstruir os fatos relativos às violações e, em segundo lugar, indicar quando possível os autores, o que nós temos feito.

O senhor disse a jornalistas que países que têm influência sobre os grupos em guerra na Síria deveriam tentar persuadi-los a chegar a uma solução para o conflito. Como isso seria possível?
Não é uma questão de possibilidade. Essa guerra continua porque os dois lados – governo e grupos não estatais armados – são subsidiados por Estados-membros das Nações Unidas. E nós chamamos a atenção para que os que estão apoiando as duas partes do conflito poderão ser responsabilizados no futuro. De certa forma, aqueles que subsidiam o governo e os grupos não estatais armados tem a corresponsabilidade na prática eventual dos crimes de guerra e nas violações de direitos humanos.
O senhor vê uma solução para o conflito a médio prazo? Como ela seria?
A solução está encaminhada. Desde 2011 nós temos repetido que não há nenhuma solução militar para o conflito. Pode haver uma solução militar daqui a 20 anos, mas a Síria já estará totalmente destruída. Esse processo de certa forma começou, na conferência Genebra II há um mês. Eu não diria que este primeiro round fracassou. Nunca tivemos a ilusão de que a negociação seria fácil. Mas a via para a negociação está aberta. Agora, é lamentável que enquanto se faz essa negociação que o governo e os grupos não estatais armados continuem a combater. Enfim, sírios matando sírios, o que é lamentável.
O senhor é a favor de uma missão de paz da ONU na Síria? Acredita que a ONU receberia o aval de países como China e Rússia?
Não. Por isso que estamos muito longe [de uma solução]. Ainda que em algum momento possa haver alguma força de interposição organizada pela ONU, isso não pode ser excluído, mas não é absolutamente o caso. Sem o cessar-fogo das hostilidades, sem a suspensão dos combates, não há nenhum sentido em pensar numa força das Nações Unidas. Isso é algo extremamente remoto para o panorama atual.
A crise na Ucrânia retirou um pouco o foco do conflito na Síria. Há agora um grande empenho de forças como EUA e Rússia na Ucrânia e parece haver um esquecimento do conflito sírio.
O que eu espero é que essa crise será resolvida diplomaticamente e que a responsabilidade tanto dos EUA como da Federação Russa continuará em termos do papel que as duas potências vinham exercendo no processo de negociação na Síria juntamente com a ONU. São dois países extremamente importantes e que têm condições de lidar com mais de uma crise. Eu não creio que o fato de ter sido aberta outra crise na Europa que a Síria vai ser esquecida.

DW.DE
Data 05.03.2014
Autoria Fernando Caulyt
Edição Rafael Plaisant

terça-feira, 4 de março de 2014

Discussões sobre a crise ucrâniana

exato, temos que torcer pra que não dê em nada. Se eu fosse arriscar um palpite, porém, acho que a Rússia colocou o ocidente numa sinuca de bico. Este acho que vai adotar a velha estratégia de apoiar os rebeldes internos, com o problema de não ter muita noção de onde isso vai dar.

Emerson Urizzi Cervi Postei o comentário a seguir em outro post, mas como é feriado de carnaval/tenho preguiça e acho que vale aqui também, vou apenas copiar e colar: Se formos falar sobre os condicionantes políticos da crise na Ucrânia não podemos nos esquecer que o país passou por uma profunda reforma eleitoral em 2011. A partir daquele ano o parlamento ucraniano passou a ser eleito pelo sistema que no Brasil é chamado de misto. 50% por listas partidárias e outros 50% por voto majoritário em distritos eleitorais com uma vaga no parlamento. Isso criou as condições necessárias (não suficientes, mas necessárias) para a cisão do País em distritos de um lado do País com a totalidade de representantes contra Rússia e a totalidade de representantes de outro lado do País pró-Russia. Por isso, gente, muito cuidado com propostas mirabolantes de reformas partidárias, os efeitos inesperados/imprevistos/indesejáveis podem aparecer antes do que se imagina.

Renato Perissinotto Emerson, acho que isso é mais efeito da própria constituição da Ucrânia, do que causa, ou seja, uma divisão étnica , regional e econômica histórica entre o lado ocidental e o lado oriental que se manifestou no sistema eleitoral, como você aponta. O problema é que esses dois lados são, eles próprios, muito heterogêneos, como populações não-ucranianas entre os majoritariamente ucranianos e populações não russas entre os majoritariamente russos (ucranianos e tártaros). Tudo isso embolado pelo fato de ter como vizinho um país como a Rússia,potência econômica e militar diretamente interessada. Pelo andar da carruagem, propostas de reforma política parecem ter ido pro espaço.

Jorge Fazendeiro De Oliveira nem tanto ,a Russia pode ter em vista , uma provável finlandização da Ucrânia

Emerson Urizzi Cervi ok Renato Perissinotto, mas com todas essas características culturais e históricas os caras resolvem aplicar um sistema eleitoral que favorece as divisões histórias e culturais ao invés de criar mecanismos políticos de compensação das divisões culturais e históricas. Para mim, a atual crise na Ucrânia, a despeito de todos os condicionantes de longo prazo, pode ser explicada em duas palavras: "voto distrital". E não estou falando em alguma proposta de reforma política nesse momento. Estou dizendo que a reforma realizada e concluída em 2011 é responsável pela atual crise e não que a crise será solucionada pela reforma política.
Rafael Wowk E tem um fator histórico mto pesado que é o Holomodor. As regiões predominantemente russas só o são pq em 1932-33 a Rússia exterminou 20% da população ucraniana. Acho que nenhum ucraniano espera outra coisa vinda da Rússia senão a anexação...

Rafael Wowk Emerson , mto bom saber disso! Reforma esta "patrocinada" pela Rússia para evitar uma nova revolução laranja, correto?
Emerson Urizzi Cervi Isso. A reforma concretizada em 2011 foi uma resposta à revolução laranja de 2004. E deu no que deu em 2014. PORRA! Os caras têm um histórico de cisão cultural e étnica. Daí vem algum "animal de tetas" e diz que cada distrito vai eleger seu próprio representante. Fodeu geral !! Some a isso o fato de os partidos terem forte ligação com grupos étnicos e localizados geograficamente. Por fim, adicione uma invasão russa ocorrida menos de 100 anos atrás, que deixou como resultado uma importante região do País (Crimeia) com 60% da população falando russo e uma base militar naval russa em território da Crimeia. Só poderia dar merda mesmo. O resto é fuleragem, como se diz por aqui...
Emerson Urizzi Cervi pode contar comigo se for para se posicionar contra voto distrital, ainda que misto, com uma representação como a atual no nosso congresso. Já foi tirar minha bandeira do armário e começar a limpar meu fuzil. Para que praça devo marchar?
Ricardo Costa de Oliveira O estado de guerra acontece quando a legitimidade é quebrada pela violência ilegítima. Derrubaram pela força o governo eleito democraticamente na Ucrânia e foi declarada a guerra. A situação repete a guerra anterior na Georgia e o controle da Ossétia do Sul e Abkhazia pelos russos.
Renato Perissinotto Bom, Emerson, o seu argumento reforça a minha posição, ou seja, o voto distrital é ruim porque agrava problemas que existem muito, muito antes dele. Mas eu iria além, a sua proposição parece sugerir, contrafatualmente, que se não fosse o voto distrital, não estaríamos vivendo essa crise. Na base dessa proposição, parece estar a suposição de que os grupos ali aceitariam algum tipo de convivência percentualmente equilibrada por um sistema eleitoral ótimo, e isso é altamente duvidoso pelos fatores de longo prazo, históricos, éticos, culturais etc. Vc acha que o partido Sloboda, declaradamente nazi-facista, quer dar algum tipo de representação a quem quer que não seja ucraniano? Russos e Tártaros na Crimeia querem conviver entre si? Ucranianos e russos querem conviver entre si. Esse é o problema fundamental. Essa gente toda tem sido mantida junta não por sistemas eleitorais ótimos; essa gente tem sido mantida junta, ao longo da história, por regimes de força (por isso tem gente que defende claramente que a Ucrânia deva deixar de existir, pois como país é inviável). Definitivamente, é preciso ir muito além de "voto distrital" para explicar esse troço aí, ainda que, como vc disse, ele tenha jogado lenha numa fogueira acesa muito antes de 1991. É mais ou menos como convencer bósnios, sérvios, croatas e muçulmanos a entrarem em acordo em torno de um sistema eleitoral depois do fim da Iugoslávia.

Eric Gil Dantas O negócio é que pode tá tudo explodindo, mas os bancos sempre saem ganhando.
http://www.valor.com.br/.../banco-central-da-russia-eleva...

Luiz Eva Essa questão do voto distrital é interessante como um elemento entre muitos outros que podem explicar uma situação historicmente muito complexa, e a própria reforma precisaria ser considerada muito cuidadosamente para evitar simplificações precipitadas. O fato é que a Rússia tem bases militares em Sebastopol que, por acordo internacional, não podem se deslocar para fora do território onde estão estacionadas, e a Ucrânia já avisou que vai considerar isso agressão militar. Por outro lado, a Rússia tem controle estratégico do poder na Criméia, e o poder legítimo da Criméia (que é uma República Autônoma) questiona (com base em argumentos que têm sua força) a legitimidade da deposição do Yanukovitch, e parte da frota Ucraniana parece que já hasteou bandeira russa. A situação está realmente muito delicada neste momento.
Luiz Eva A Rússia tem maioria na Criméia, mas há muitos tártaros e outras etnias. Os ucranianos alegam que os Russos foram transferidos para a Criméia por uma política de deslocamento de populações de Stalin. A ucrânia foi igualmente massacrada na segunda guerra pelos russos e pelos alemães (que foram todavia saudados, quando invadiram a Ucrânia, como libertadores...) Mas a Rússia vê a Ucrânia como parte de sua identidade nacional. É uma situação extremamente complicada.
Bruno Faria Professores,Tentando acompanhar o debate, e a reportagem efetuada pela Globo News, onde entrevistaram um cientista político que está, nesse momento, na Ucrânia, pelo qual o mesmo afirmou, além de todos ás probabilidades enunciadas por vocês, que pode ter acontecido, também, um golpe da direita como aconteceu na Itália de Mussolini?

Segue a reportagem (dos 20min em diante tal afirmação, mas toda a reportagem é interessante):

http://globotv.globo.com/.../sem-fonteiras.../3179785/

Sem Fonteiras mostra a importância da Ucrânia e a possível divisão do país em dois
globotv.globo.com

O movimento Euromaidan vai além da extrema-direita. É uma evolução. Começou com cidadãos normais, frustrados com a decisão do presidente de não assinar um acordo de associação com a União Europeia e com as denúncias de corrupção.