domingo, 9 de abril de 2017

Notas Estéticas

"A obra de Lukács, em matéria estética, acolhe como princípio fundamental a ideia de que aquilo que é social na obra de arte é a forma.

As implicações imediatas dessa posição indicam com grande clareza que as relações entre obras de arte e sociedade são concebidas de modo analógico-estrutural e não pela presença, na obra, de 'elementos' ou 'conteúdos' sociais.

Por exemplo: o romance é definido, ou melhor, situado, como gênero literário expressivo da burguesia não porque tantos romances contenham tão numerosos personagens, situações e acontecimentos facilmente encontráveis na sociedade burguesa - mas sim porque a estrutura básica da forma literária 'romance' possui linhas substancialmente homólogas (segundo Goldmann) ou análogas (pela nossa opinião) às diretrizes da sociedade burguesa.

O entendimento da relação arte/sociedade como uma função baseada na analogia de estruturas retira à velha dualidade forma/conteúdo qualquer valor lógico.

O 'conteúdo' se dissolve. Arte é campo de formas significativas, cuja significação vem da força com que se referem a formas sociais, não porque a arte tenha de ser explicada 'de fora', mas, simplesmente, porque sua função é ser linguagem, isto é, transposição ao nível do domínio, da clarificação e da consciência - daquelas formas sociais que constituem a bruta experiência do cotidiano. A arte, e especialmente a arte literária, realiza nessa condição um trabalho filosófico: por ela, a sociedade se conhece a si mesma.

O 'conteúdo' da obra de arte é uma ilusão elementarista, que não resiste a uma visão estrutural. Consiste no engano de querer perceber a obra em fragmentos, quando ela é antes de tudo uma unidade; e também em outro engano, o de querer captar uma 'mensagem' dentro de um estilo e das palavras, quando toda mensagem é a linguagem mesma: a ideia não está na palavra, não se vestiu com ela; a ideia, a significação, a mensagem, é a linguagem.

Se Croce não tivesse esquecido tantas coisas, seria possível dizer com ele (mas a terminologia já revela o que ele esqueceu) que toda intuição é expressão. Que todo 'conteúdo' é linguagem - e portanto, que separá-lo (tentar separá-lo) da sua linguagem, é apenas mutilação, apenas perda, apenas dano."


- José Guilherme Merquior, "Notas Estéticas", em "A Razão do Poema: ensaios de crítica e de estética" (1965). São Paulo: É Realizações, 2013. pp. 222-223. Da página do Fabricio Gonçalves
Ainda antes da abertura dos portões do cemitério, alguém já acende uma nova vela para a Missa de Sétimo Dia do jornal impresso. Se ontem foi o maior jornal do Paraná, mudando de formato e apostando no digital, no mês passado o jornal da cidade em que moro deixou de circular duas vezes na semana para investir em apenas uma edição semanal de “mais fôlego”. Nos últimos dez anos, ao menos oito grandes esfinges do jornalismo impresso morreram, da Gazeta Mercantil ao Jornal do Brasil. No ínterim, muitos amigos jornalistas foram demitidos, estão desempregados ou sobrevivendo de freelancers. Outros estão em segunda faculdade ou especializando-se em carreiras acadêmicas. O mundo muda, as profissões mudam e a redação parece destinada a ser o museu do futuro, onde crianças, acompanhadas dos professores, serão informadas sobre estranhas práticas em espaço restrito. O cenário realmente não é animador. Os dados do IVC apontam para uma queda progressiva da base de assinantes das principais revistas em circulação do País. Mesmo quem muda ainda está longe da calmaria. Os anunciantes estão evadindo-se para novas experiências de contato com seus consumidores. A base de produção, sem receita, corta custos para a máquina não emperrar. As ferramentas digitais não cobrem o antigo modelo. A conta não fecha.

E onde está o RelevO neste processo? Somos um jornal de papel, logo sentimos os efeitos da crise econômica, do aumento de custos operacionais – dos Correios ao combustível –, da instabilidade de ser contemporâneo em um segmento revirado e de nossa própria infraestrutura, modesta. Ainda assim, a cada mês aumentamos um pouco a nossa base de assinantes e não sentimos intensamente a fuga de anunciantes, até porque são poucos e fieis a um certo propósito, que retratarei mais à frente. Podia ser pior, mas confortável não é.
Para não fecharmos as portas, montamos um jornal sem fins lucrativos. O que isso significa? Exatamente: ninguém na estrutura ganha dinheiro com o jornal. (Prestamos contas públicas de nossos ganhos e gastos.) Naturalmente, não é o ideal. Eu mesmo gostaria muito de me remunerar com o jornal e pensar calmamente em estratégias de aprofundar as relações entre leitores e a literatura, estudar melhor o mundo complexo em que acordamos. Mas não: passo boa parte do mês fazendo malotes dos assinantes, distribuindo jornal no Brasil, cobrando assinantes e pagando boletos. Desgosto? Também não. Sinto um orgulho discreto de, em sete anos de turbulências, não abrirmos mão de alguns valores. Não ganhamos dinheiro porque nunca batemos na porta do poder público. Não ganhamos dinheiro porque não vendemos espaço editorial para empresas que acreditam que conteúdo e publicidade são o mesmo saco. Fechamos alguns meses no prejuízo porque não damos assinaturas para YouTubers, que se travestem de interesse público para inocular ações de marketing. Em suma, somos um case pronto de fracasso para os novos tempos.

O que, portanto, será de nós se o cemitério já tem uma lápide com o nosso nome e nos convoca para o descanso em paz? Bem, acredito, talvez de uma forma racionalista-mística, que o impresso ainda significará algo para determinados grupos, sejam eles pequenos, sejam eles à margem, sejam ele eu + cinco. Aos solavancos, encontramos um público cativo. E digo isso no sentido que o termo carrega de necessidade/apreço de se relacionar com o papel. Eu reconheço que sou da geração anterior, escrava do papel. Formei-me leitor nos jornais de papel, comecei minha carreira na comunicação entregando jornal de papel, aprendi a diagramar pensando no RelevO em páginas, entrego jornal até hoje. Talvez seja a minha moira. O que vai acontecer se o RelevO tiver que fechar? Não sei. Só sei de meu desconforto com os novos tempos, mas não quero ser um velho nostálgico.

Por isso, quando encontro pessoas que se comprometem com a reflexão sobre os rumos da Comunicação e da Cultura, digo que se trata da construção de circuitos. Um jornal de literatura de papel ainda é importante no processo de disseminação de um conjunto de ideias e de trabalhos. Representa, ao seu modo, um recorte temporal, nem melhor ou pior do que qualquer outro, apenas mais um – aquele que escolhemos. Não precisamos anular outras plataformas para construir o nosso circuito.

Quando encontro pessoas que são meus amigos e se comprometem com a reflexão sobre os rumos da Comunicação e Cultura, sou ainda mais franco. Se trata, sobretudo, daqueles que gostam de cultura, principalmente amigos, de investirem um pouco de seu tempo e dinheiro em projetos que não existirão sem algum engajamento. Porque assistir a morte anunciada de grandes conglomerados de comunicação é quase excitante. Contudo, logo um novo rei assume o lugar, se duvidar com a mesma música. Agora, quando morrem iniciativas culturais fora da curva, a próxima iniciativa precisará sair dos escombros para se erigir.
Portanto, não se trata de apelo, nem de defesa extrema de causa própria. Se você gosta de cultura, pense com mais carinho nos jornais impressos do setor, aqueles que você acha legal. O Brasil está cheio de periódicos muito bons e que movimentam ao seu modo determinados circuitos. Assine, divulgue, colabore, sugira. Se somos impessoais com a morte dos jornalões, não custa ser menos duro com projetos de identidade mais clara. Até custa, mas não muito.

Daniel Zanella


UMA MUDANÇA NO TEMPO DO CORAÇÃO



Uma mudança no tempo do coração
Resseca-lhe a umidade; um estampido dourado
Ecoa na tumba glacial.
Uma mudança no território das veias
Transforma a noite em dia; o reflexo solar do sangue
Ilumina os vermes ainda vivos.

Uma mudança nos olhos dissimula
Os ossos da cegueira; e o ventre
Mergulha na morte como a transpiração da vida.

A escuridão no tempo dos olhos
É a metade de sua luz; o mar profundo
Irrompe numa terra sem peixes.
A semente que dos flancos engrendra uma floresta
Divide ao meio seu fruto, e a metade
Goteja devagar no vento adormecido.

O tempo da carne e dos ossos
Torna-se úmido e seco; o vivo e o morto
Se movem como dois espectros diante dos olhos.
Uma mudança no tempo do mundo
Transforma um espectro no outro; cada criança
No útero da mãe repousa em sua dupla sombra.
Uma mudança arrasta a lua para o sol,
Caem da pele as cortinas em farrapos;
E o coração renuncia aos próprios mortos.

Dylan Thomas

Trad. Ivan Junqueira.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

"Então, a Reforma Protestante foi um caso de "muito barulho por nada"? Fruto de um equívoco? Devemos responder com firmeza: não! As revoluções, no entanto, não surgem pelas ideias ou pelas teorias abstratas, mas por situações históricas concretas, e a situação da Igreja, há tempo, não refletia realmente aquelas convicções. A vida, a catequese, a piedade cristã, a direção espiritual, por não falar depois da pregação popular: tudo parecia afirmar o contrário, ou seja, que o que conta são as obras, o esforço humano".

 Frei Raniero Cantalamessa. 
O principal problema do pseudo intelectual da tecnociência é a sua baixa capacidade interpretativa, toda informação é tomada por ele por um único viés interpretativo e definida como um conceito prático e fechado adequado ao seu interesse - muitas vezes a sua vaidade - ou nível de conhecimento de causa. O segundo passo é vestir seu conceito de termos técnicos precisos, pola isto confere a autoridade ao argumento.

Pronto, eis uma definição simplória de ocasião, que será tachada de "complexa" - palavra da moda, pouco compreendida - com sua vestimenta técnica, científica, burocrática, adicione um rebanho ruidoso ávido por verdades fáceis e pronto.

Henrique Veber
O fim da Gazeta do Povo como jornal diário foi mais uma consequência do apoio ao golpe de 2016. Ocorreu uma grande separação e mesmo um divórcio com a maior parcela da intelligentsia regional. A grande maioria do professorado passou a abominar o veículo pelas suas ideias de extrema direita, como intelectuais críticos são formadores de opinião o impacto comercial foi devastador. Além das mudanças tecnológicas as mudanças políticas foram determinantes para o destino do jornal. O golpe de 2016 ainda vai causar muitas sérias derrotas para as oportunistas forças conservadoras e burguesas que o apoiaram. Partidos políticos e empresários golpistas de direita vão pagar o pato pelo desequilíbrio, pela instabilidade e pelas crises que o golpe de 2016 trouxe para o Brasil.

RCO
O que aconteceu na Hebraica, tanto em São Paulo (onde a palestra do fascistão foi cancelada) como no Rio (onde ocorreu sob protestos) tem um nome- luta de classes, e um sobrenome- a incapacidade (que pode ser corrigida) dos setores democráticos das várias comunidades de se descartarem de suas velhas organizações.
OK, a Hebraica é apenas um clube e aqueles que protestaram não são a classe operária. Porém, a luta de classes se desdobra em mil facetas e expõe o tenebroso drama do atual momento.
Os judeus pagam um altíssimo preço pela existência do estado de Israel, na verdade um Forte Apache implantado no Oriente Médio para atender os interesses imperialistas, massacrar os palestinos, negando-lhes qualquer existência independente, e ajudar na manutenção das monarquias árabes feudais, que garantem o fluxo do petróleo.
Os protestos dos judeus, no Brasil contra Bolsonaro, em Israel e no mundo contra a guerra sem quartel aos palestinos, expõem a incompatibilidade dos anseios democráticos com a “ordem” (na verdade, uma desordem sanguinária) reinante no Oriente Médio, estado de coisas que encontra apoio nos dirigentes das Hebraicas.
Por isso, nada de racismo, que não é senão uma das manifestações mais pútridas dessa mesma “ordem”.


Roberto Elias Salomão                 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

La coautoría de las mujeres

(Prof. Dra. Christina Thürmer-Rohr)


Dentro del Movimiento de Liberación de las Mujeres, se sostenía que las mujeres eran un grupo perseguido y oprimido siempre expuestas a la violencia en forma de violación o abuso, violencia indirecta (estructural) en forma de desigualdad, salarios bajos o discriminación. Sin embargo, desde la Sociología Feminista Alemana son consideradas principalmente como diseñadoras de su propia vida y de la realidad social equivalentes a los hombres. Así que hay una contribución de las propias mujeres en la construcción de relaciones de género y en las estructuras sociales que son responsables de la represión, la violencia y la discriminación contra las mujeres.


La investigadora social Prof. Dra. Christina Thürmer-Rohr habla claramente de una "coautoría de las mujeres" que les hace cómplices a la hora de construir una realidad patriarcal y machista. Son colectivamente culpables, es decir aceptan abiertamente (como en este reportaje) o hacen la vista gorda, cuando los hombres son violentos, los protegen y les apoyan "desinteresadamente" en sus proyectos personales y profesionales etc. El término está en agudo contraste con el Concepto de Víctima, que se basa en la debilidad y la impotencia de la mujer aparentemente "inherente". Por el contrario, la "coautoría de las mujeres" subraya su complicidad a la hora de construir una realidad patriarcal y machista y de mantener las estructuras sociales que son responsables de la represión, la violencia y la discriminación. Según la investigadora no existe ninguna influencia, sugestión o manipulación "automática" por parte de la sociedad al individuo, especialmente al femenino. La sociedad necesita cómplices o coautoras...
A garantia de que o menor benefício pago pelo sistema previdenciário será o salário mínimo é uma vitória da representação popular no congresso sobre os tecnocratas do governo Temer.
O projeto de reforma de Temer, inicialmente, previa a desvinculação de benefícios e salário mínimo. As bases pressionaram os parlamentares, o governo percebeu que estavam indo anéis, dedos e até os cotovelos e voltou atrás.
No final, aquela grande proposta de reforma resultará no fim do fator previdenciário com adoção de uma idade mínima para aposentadorias pelo INSS - o que já deveria existir.
Fico pensando na cara dos "técnicos" do governo que meses atrás juraram de pés juntos que os números não mentiam: se não fosse aprovada a reforma como eles apresentavam, o sistema quebraria.

Os números não mentem. Há pessoas que mentem com os números.

Emerson Urizzi Cervi

O chavismo não pode estar isento de críticas


 ABR 5, 2017  0  Revista Diálogos do Sul

Sociólogo venezuelano questiona a “solidariedade incondicional” da esquerda latino-americana com o chavismo.

Natalia Uval*


edgardo-landerEdgardo Lander não é apenas um acadêmico, professor titular da Universidade Central da Venezuela e pesquisador associado do Transnational Institute. É uma pessoa vinculada há anos aos movimentos sociais e à esquerda em seu país. A partir disso afirma que o apoio incondicional das esquerdas da região ao chavismo reforçou as tendências negativas do processo. Sustenta que as esquerdas,que no nível global não tiveram a “capacidade de aprender” terminam respaldando um “governo de máfias” como o da Nicarágua; e quando “colapsar o modelo venezuelano” é possível que simplesmente “olhem para outro lado”.

–Há três anos você caracterizou a situação na Venezuela como a “implosão do modelo petrolífero rentista”. Esse diagnóstico continua vigente?
-Lamentavelmente, os problemas que podem ser associados ao esgotamento do modelo petroleiro rentista se acentuaram. O fato de a Venezuela ter tido 100 anos de indústria petrolífera e de centralização do estado, girando em torno à forma como é repartida a renda, conformou não apenas um modelo de Estado e de partido, mas também uma cultura política e imaginários coletivos da Venezuela como um país rico, de abundância, e a noção de que a ação política consiste em organizar-se para pedir ao Estado. Essa é a lógica permanente. No processo bolivariano, apesar de muitos discursos que aparentemente iam em direção contrária, o que se fez foi acentuar isso. Do ponto de vista econômico acentuou-se esta modalidade colonial de inserção na organização internacional do trabalho. O colapso dos preços do petróleo simplesmente desnudou uma coisa que era evidente, sempre que se depende de uma commodity cujos preços necessariamente flutuam.

–As críticas à situação da democracia na Venezuela se acentuaram depois que Nicolás Maduro assumiu. Por que isso aconteceu? Como se compara com a situação sob o governo de Hugo Chávez?
-Primeiro é preciso levar em conta o que aconteceu no trânsito de Chávez a Maduro. Eu sou da opinião de que a maioria dos problemas com os que nos encontramos hoje são problemas que vinham se acumulando com Chávez. As análises de parte da esquerda venezuelana que reivindicam la época de Chávez como a época de glória na qual tudo funcionava bem, e de repente aparece Maduro como um incompetente ou um traidor são explicações muito maniqueístas e que não permitem desentranhar quais são as lógicas mais estruturais que levam à crise atual. O processo venezuelano, de forma muito esquemática, sempre esteve sustentado por dois pilares fundamentais: por um lado, a capacidade extraordinária de Chávez de comunicar y de liderança, que gerou uma força social; por outro lado, preços do petróleo que chegaram, em alguns anos, a mais de 100 dólares por barril. Em 2013, de forma quase simultânea esses dois pilares entraram em colapso: Chávez morreu e os preços do petróleo despencaram. E o imperador ficou nu. Ficou claro que isso tinha um alto grau de fragilidade por depender de coisas das quais não era possível seguir dependendo. Além disso, há diferenças muito grandes entre a liderança de Chávez e a de Maduro. Chávez era um líder com capacidade de dar orientação e sentido, mas também exercia uma extraordinária liderança dentro do governo bolivariano como tal, de maneira quando ele decidia algo, essa era a decisão. Isso gera falta de debates e muitos erros, mas gera também uma ação unitária, dirigida. Maduro não tem essa capacidade, nunca a teve e agora no governo cada um puxa para o seu lado. Por outra parte, durante o governo de Maduro houve um incremento da militarização, talvez porque Maduro não vem do mundo militar. Então para garantir o apoio das Forças Armadas ele tem que incorporar mais integrantes das Forças Armadas e dar-lhes mais privilégios. Criaram-se empresas militares, atualmente um terço dos ministros e a metade dos governadores são militares, e estão em lugares muito críticos da gestão pública, onde tem havido os maiores níveis de corrupção: a concessão de divisas, os portos, a distribuição de alimentos. O fato de que estejam em mãos de militares torna mais difícil que sejam atividades transparentes, que a sociedade saiba o que está acontecendo.

– O que aconteceu com os processos de participação social promovidos pelos governos bolivarianos?
-Hoje na Venezuela há uma desarticulação do tecido da sociedade. Depois de uma experiência extraordinariamente rica de organização social, de organização de base, de movimentos em relação à saúde, às telecomunicações, à posse da terra urbana, à alfabetização, que envolveu milhões de pessoas e gerou uma cultura de confiança, de solidariedade, de ter a capacidade de incidir sobre o próprio futuro, supunha-se que em momentos de crise haveria capacidade coletiva de responder, mas acontece que não. É claro que falo em termos muito amplos, há lugares em que há maior capacidade de autonomia e de autogoverno. Mas de forma geral se pode dizer que a reação que se vive hoje é mais em termos competitivos, individualistas. De qualquer modo, creio que ficou uma reserva que em algum momento pode vir à tona.

–Por que não foi possível  manter essa corrente de participação e organização?
-O processo esteve atravessado desde o início por uma contradição muito séria, que é a contradição entre entender a organização de base como processos de autogestão e de autonomia, de construção de tecido social de baixo para cima, e o fato de que a maior parte dessas organizações foi produto de políticas públicas, promovidas de cima, do Estado. E essa contradição se comportou de maneira diferente em cada experiência. Onde havia experiência organizativa prévia, onde havia dirigentes comunitários, havia uma capacidade de confrontar o Estado; não para rechaça-lo, mas para negociar. Além disso, a partir de 2005 há uma transição do processo bolivariano de algo muito aberto, a partir de um processo de busca de um modelo de sociedade diferente do soviético e do capitalismo liberal, tomando a decisão de que o modelo é socialista, e  uma interpretação do socialismo como estatismo. Houve muita influência política-ideológica cubana nessa conversão. Então muitas organizações já começam a ser pensadas em termos de instrumentos dirigidos de cima e começa a se consolidar uma cultura stalinista em relação à organização popular. E isso resultou, obviamente, em muita precariedade.

–Como é a situação da democracia em termos liberais?
-Obviamente é muito mais grave [durante o governo de Maduro], e é mais grave porque é um governo que perdeu muitíssima legitimidade e que tem níveis crescentes de rechaço por parte da população. E a oposição tem avançado significativamente. O governo tinha hegemonia de todos os poderes públicos até que perdeu aparatosamente as eleições (parlamentares) em dezembro de 2015. E a partir daí começou a responder em termos crescentemente autoritários. Em primeiro lugar, desconheceu a Assembleia, primeiro desconhecendo os resultados de um Estado que tirava a maioria qualificada da oposição na Assembleia, com razões aparentemente sem pé nem cabeça. Posteriormente, houve um franco desconhecimento da Assembleia como tal, que do ponto de vista do governo não existe, é ilegítima. E tanto é assim que há alguns meses era necessário renovar os integrantes do Conselho Nacional Eleitoral [CNE], e então a Corte desconheceu a Assembleia e nomeou os integrantes do CNE que, é claro, são todos chavistas. Maduro tinha que apresentar no começo do ano uma memória de gestão do ano anterior, e como não reconhece a Assembleia, a memória foi apresentada ante a Corte. A mesma coisa aconteceu com o orçamento. Tínhamos um referendo revogatório para o qual tinham sido cumpridos todos os passos. Devia ser feito em novembro do ano passado e o CNE resolveu adiá-lo, e isso significou matá-lo: simplesmente agora não há referendo revogatório. Era constitucionalmente obrigatória a eleição de governadores em dezembro do ano passado, e ela foi adiada indefinidamente. Então estamos em uma situação na qual há uma concentração total de poder no Executivo, não há Assembleia legislativa. Maduro está há mais de um ano governando por decreto de emergência autorrenovado, quando deve ser ratificado pela Assembleia. Estamos muito longe de algo que se possa chamar de prática democrática. Nesse contexto, as respostas dadas são cada vez mais violentas, dos meios e da oposição, e a reação do governo, já incapaz de fazer outra coisa, é a repressão das manifestações, os presos políticos. Utilizam todos os instrumentos do poder em função de preservar-se no poder.

–Quais as consequências desta situação no longo prazo?
-Eu diria que há três coisas que são extraordinariamente preocupantes das consequências de tudo isso no médio e no longo prazo, Em primeiro lugar, há uma destruição do tecido produtivo da sociedade e vai demorar muito poder recuperá-lo. Recentemente houve um decreto presidencial de abertura de 112.000 quilômetros quadrados à mineração transnacional em grande escala em um território onde estão os habitat de dez povos indígenas, onde estão as maiores fontes de água do país, na selva amazônica. Em segundo lugar está o tema de como a profundidade desta crise está desintegrando o tecido social e hoje, como sociedade, estamos pior do que estávamos antes do governo de Chávez; isto é algo muito duro de dizer, mas efetivamente é o que se vive no país. Em terceiro lugar, a forma como se reverteram as condições de vida em termos de saúde e de alimentação. O governo deixou de publicar estatísticas oficiais e há que confiar em estatísticas das câmaras empresariais e de algumas universidades, mas estas indicam que há uma perda sistemática de peso da população venezuelana; alguns cálculos dizem que é que seis quilos por pessoas. E é claro que isso tem consequências em desnutrição infantil e tem efeitos no longo prazo. Por último, isso tem extraordinárias consequências em relação à possibilidade de qualquer imaginário de mudança. A noção de socialismo, de alternativas, está descartada na Venezuela. Instalou-se a noção de que tudo o que é público é necessariamente ineficiente e corrupto. É um fracasso.

–Como você vê as reações dos partidos de esquerda no nível global, e especialmente na América Latina, a respeito da Venezuela?
-Creio que um dos problemas que a esquerda vem arrastando historicamente é a extraordinária dificuldade que temos tido, como esquerda, de aprender da experiência. Para aprender da experiência é absolutamente necessário refletir criticamente sobre o que acontece e porque acontece. É claro que sabemos toda a história do que foi a cumplicidade dos partidos comunistas do mundo com os horrores do Estalinismo, e não por falta de informação. Não foi que ficaram sabendo depois dos crimes de Stalin, mas sim que houve uma cumplicidade que tem que ver com esse critério de que como se é anti-imperialista e se trata de um enfrentamento contra o império, vamos nos fazer de loucos com a matança de tanta gente, vamos não falar disso. Creio que essa forma de entender a solidariedade como solidariedade incondicional, porque há um discurso de esquerda ou porque haja posturas anti-imperialistas, ou porque geopoliticamente se expressem contradições com os setores documentos no sistema global, leva a não indagar criticamente sobre quais são os processos que estão ocorrendo. Então se gera uma solidariedade cega, não crítica, que não só tem a consequência de que eu não fui criticar o outro, mas tem a consequência de que ativamente se está celebrando muitas das coisas que terminam sendo extraordinariamente negativas. A chamada hiper-liderança de Chávez era algo que estava ali desde o princípio. Ou o modelo produtivo extrativista. O que a esquerda conhece em sua própria cultura sobre as consequência disso estava aí. Então, como não abrir um debate sobre essas coisas, de maneira a pensar criticamente e apresentar propostas? Não que a esquerda europeia venha a dizer aos venezuelanos como têm que dirigir a revolução, mas tampouco esta celebração acrítica, justificativa de qualquer coisa. Então, os presos políticos não são presos políticos, a deterioração da economia é produto da guerra econômica e da ação da direita internacional. Isso é certo, está aí, mas obviamente não é suficiente para explicar a profundidade da crise que estamos vivendo. A esquerda latino-americana tem uma responsabilidade histórica em relação, por exemplo, à situação de Cuba hoje, porque durante muitos anos assumiu que enquanto existisse o bloqueio a Cuba não se podia criticar Cuba, mas não criticar Cuba queria dizer não ter a possibilidade de refletir criticamente sobre qual é o processo que está vivendo a sociedade cubana e quais são as possibilidades de diálogo com a sociedade cubana em termos de opções de saída. Para uma grande proporção da população cubana, o fato de que se estava em uma espécie de beco sem saída era bastante óbvio no nível individual, mas o governo cubano não permitia expressar isso e a esquerda latino-americana se desentendeu, não aportou nada, mas simplesmente solidariedade incondicional. O caso mais extremo é pretender que o governo da Nicarágua é um governo revolucionário e faz parte dos aliados, quando é um governo de máfias, absolutamente corrupto, que do ponto de vista dos direitos das mulheres é um dos regimes mais opressivos que existem na América Latina, em uma aliança total com setores corruptos da burguesia, com o alto mando da igreja católica, que antes era um dos grandes inimigos da revolução nicaraguense. O que acontece com isso? Que se reforçam tendências negativas que teria sido possível viabilizar. Mas, além disso, não aprendemos. Se entendermos a luta pela transformação anti capitalista não como uma luta que acontece lá e vamos ser solidários com o que eles fazem, mas como uma luta de todos, então o que se faz mal lá nos está afetando também, e também tenho a responsabilidade de assinalar isso e de aprender desta experiência para não repetir o mesmo. Mas não temos capacidade de aprender porque, de repente, quando terminar de colapsar o modelo venezuelano, vamos olhar para outro lado.  E isso, como solidariedade, como internacionalismo, como responsabilidade político-intelectual, é desastroso.

–Por que a esquerda adota estas atitudes?
-Tem que ver, em parte, com o fato de que não terminamos de descarregar o pensamento de esquerda de algumas concepções demasiadamente unidimensionais do que é que está em jogo. Se o que está em jogo é o conteúdo de classe e o anti-imperialismo julgamos de uma maneira. Mas se pensamos que a transformação hoje passa por isso, mas também por uma perspectiva crítica feminista, por outras formas de relação com a natureza, por pensar que o tema da democracia não é descartar a democracia burguesa, mas sim aprofundar a democracia; se pensamos que a transformação é multidimensional porque a dominação também é multidimensional,  porque este apoio acrítico aos governos de esquerda que coloca os direitos dos povos indígenas em segundo plano, coloca a devastação ambiental em segundo plano, coloca a reprodução do patriarcado em segundo plano? Então se termina julgando a partir de uma história muito monolítica do que se supõe que é a transformação anti capitalista, que não dá conta do mundo atual. E obviamente, de que nos serve liberar-nos do imperialismo ianque se estabelecermos uma relação idêntica com a China? Há um problema político, teórico e ideológico, talvez geracional, de pessoas para as quais esta era sua última aposta para conseguir uma sociedade alternativa, a se resistem a aceitar que fracassou.

*Original de La Diaria, jornal cooperativo fundado em 2006 e que desde 2012 é o segundo mais lido no Uruguai


segunda-feira, 3 de abril de 2017

A verdadeira unidade operacional da política dominante no Brasil é a família

A verdadeira unidade operacional da política dominante no Brasil é a família, não apenas o indivíduo e muito menos o partido político. Andrea Neves é muito melhor operadora de bastidores do que o irmão Aécio Neves. A genealogia deles, Cunha e Neves, explica muito do comportamento, do poder e dos cargos obtidos. Com a família resgatamos o papel político das mulheres e das parentelas agindo nas dinâmicas políticas. Se quisermos entender as movimentações financeiras, a influência nas mídias, as alianças, as heranças recebidas e construídas, devemos também observar a dinâmica do parentesco. O PSDB se tonou a maior confederação oligárquico-familiar do Brasil contemporâneo e a mídia paulista já iniciou a operação de troca de comando entre Neves por Doria, de uma família senhorial para outra.

RCO

La fuente de sangre


A veces siento mi sangre correr en oleadas,
lo mismo que una fuente de rítmicos sollozos;
la oigo correr en largos murmullos,
pero en vano me palpo para encontrar la herida.

A través de la ciudad, como un campo cerrado,
va transformando las piedras en islotes,
saciando la sed de cada criatura,
y coloreando en rojo toda la natura.

A menudo he pedido a estos vinos
aplacar por un solo día el terror que me roe;
el vino torna el mirar más claro y  el oído más fino.

He buscado en el amor un sueño de olvido;
mas para mí el amor es un lecho punzante,
hecho para dar de beber a esas mujeres crueles.

CHARLES BAUDELAIRE


Biblioteca Digital Ciudad Seva

sexta-feira, 31 de março de 2017



O capiroto acabou de aprovar a coisa. Fingiu que cortou uma coisinha, aqui outra ali, mas o que cortou é irrelevante e diz respeito ao tempo de experiência do funcionário antes da contratação definitiva. A terceirização será ampla . Fica uma pergunta: ainda nos organizaremos com hora marcada para estar nas ruas e derrubar esse governo? Ou não sairemos dela até que ele caia? A Globo faz o papel dela direitinho, o de convencer que sindicatos e afins não é povo. E nós parecemos mais um bando de largados no baile gostando da música.

Lázara Papandrea

309.


A política tem que ser moderada. O que tem de ser radical, nazi-jacobinisticamente radical, é o humor.

RM

310

Como espécie de antídoto sociossintático pruma época de “ingênua hipertrofia da personalidade” (como Nabuco definiu a intolerância), gostaria que os gramáticos, num próximo acordo ortográfico, defendessem esta urgente, urgentíssima medida: os pontos de exclamação, a separação silábica de ênfase e a caixa alta devem ser com-ple-ta-men-te ELIMINADOS!!!!!

RM
Quando Rio Branco morreu (o mesmo que, sem um único tiro de canhão, aumentou o Brasil em 900.000 km²), o carnaval foi adiado por Hermes da Fonseca. Era fevereiro de 1912. Marcou-se, em respeito às exéquias do fronteiro-mor brasileiro, nova data pra folia. Foi o ano em que houve – muito antes de carnavais fora de época e das micaretas de hoje em dia – dois carnavais. Pulou-se com o corpo do Barão ainda quente, extraoficialmente, e pulou-se depois, conforme deixa e pretexto do Presidente da República nos Estados Unidos do Brasil.
Dizem que Juca Paranhos (o Barão) adorava uma birita, um rabo de saia, uma dívida impagável e um carnaval rasgado pra se esboroar. Depois, sempre voltava pros seus mapas, títulos e diplomas. Se é verdade que os mortos custam um pouco a entender que já morreram, o espírito do Barão só pode ter pulado – e como! – os tristes carnavais daquele ano.
*
Brasil, a maior potência mundial na guerra de serpentinas.

RM

[Um Amor Depois do Outro]



Chegará o momento
em que, eufórico,
você se saudará ao chegar
a sua própria porta, ao seu próprio espelho
e cada um sorrirá à saudação do outro
e dirá, sente aqui. Coma.
Você amará de novo o estranho que você era.
Dê vinho. Dê pão. Devolva seu coração
para si mesmo, pro estranho que o amou
toda a sua vida, que você ignorou
por um outro, que o conhece de cor.
Tire as cartas de amor da prateleira,
as fotografias, as anotações desesperadas,
descasque do espelho a sua própria imagem.
Sente-se. Banqueteie-se de sua vida.
[Derek Walcott, 1930-2017/ trad. Rodrigo Madeira]


ÉL


Él ganó todas las batallas.
Su pelea fue cuerpo a cuerpo
con armaduras y sin ellas.
Se armó con flechas
pudo crear espadas
hizo alianzas con el veneno
logró esculpir el fuego
desnudó el alma de los químicos
supo afilar las palabras
y blandir los libros.
Él murió tantas vezes
y fue vencedor muchas más,
peleó tanto y viene tan cansado.
Él ganó todas las batallas
menos una,
menos una con cara de mujer.


 LUZ HELENA CORDERO (Bucaramanga,Colômbia, 1961-)
Tradução Rodrigo Madeira


quinta-feira, 30 de março de 2017

"Patriotismo no Brasil é ignorância, primeiro linguisticamente. Com nosso monolinguismo, quem não tem condições de ler outras línguas pensa que o que acontece em seu país é tudo, é o máximo. Uma merda! Eu leio inglês, francês, latim, grego, russo e então posso confrontar. Não preciso ficar com Ferreira Gullar. Eu leio Maiakóvski em russo, que viveu oitenta anos antes dele. Não preciso ler Rosa, leio Joyce no original. Desconhecer o que está lá fora é a base desse nosso patriotismo, sinônimo de ignorância. Compare um conto de Dalton Trevisan com um conto de Borges. Nem dá. Você vai comparar o quê? 'A guerra conjugal' com 'O Aleph', com 'O Imortal'? Do ponto de vista de criação verbal, de criação do novo imaginário, não tem nada. Nós somos pobres, somos miseráveis em tudo. Nós só temos pra frente, pra trás não temos nada."
Paulo Leminski

Entrevista publicada no jornal Nicolau, n. 19, janeiro de 1989. (5 meses antes da morte do poeta)

Seminário 100 anos da Revolução russa e 95 anos do PC do B