quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Qual será o futuro religioso do Brasil?





O novo perfil do catolicismo brasileiro é marcado pelo êxodo dos católicos "por convenção" e pelo surgimento de comunidades dinâmicas

Na discussão sobre a redução do percentual de católicos no país, reavivada pelo "Novo Mapa das Religiões no Brasil", da FGV, frequentemente se imagina um passado em que a ampla maioria dita católica teria o perfil que se espera do católico urbano atual. Mas o "catolicismo popular" brasileiro é muito diferente disso.

Ele sempre foi mais um "cristianismo popular", permeado por sincretismos e particularismos, em que a influência do magistério romano foi muito relativa.

Por isso, a redução do percentual de católicos no país deve ser lida como a explicitação de uma diversidade religiosa camuflada e o aflorar de visões de mundo populares antes ocultas e recalcadas.
Entre os anos de 1991 e 2009, enquanto a porcentagem de católicos caiu 15%, a dos "sem religião" aumentou apenas 2%; a de evangélicos aumentou 10%.

Isso sugere que estamos num caminho diferente da Europa, onde a religião vem perdendo espaço na sociedade, e mais próximo ao norte-americano, onde há grande diversidade de religiões e estas permanecem influentes na vida social.

A presença do fator religioso nas eleições de 2010 ilustra essa tendência e mostra como ela poderá influenciar a relação entre religiões e sociedade no futuro do Brasil.

Quanto ao catolicismo brasileiro, seu novo perfil é marcado pelo êxodo dos católicos "por convenção" e pelo surgimento de um novo polo dinâmico, representado principalmente pelos movimentos e pelas novas comunidades.

Na arquidiocese de São Paulo, por exemplo, são reconhecidos mais de 40 grupos, que variam de poucas dezenas de participantes em uma paróquia a movimentos com centenas de pessoas, que já se ramificam na Europa e nos EUA.

O laicato tem papel preponderante nessas organizações, que contam com leigos consagrados à obra, muitos dos quais celibatários.

Contando, desde João Paulo 2º, com o apoio explícito do Vaticano, conseguem uma síntese entre pluralidade e unidade. Com isso, resolveram vários problemas do catolicismo do final do século 20, como a necessidade de pluralismo interno, a autonomia dos leigos, a falta de padres e o celibato.

No Brasil, seu grande desafio é formativo, pois se propõem à exigente tarefa de conciliar renovação litúrgica, mística cristã, evangelização, trabalho cultural e ação social.

Os dados indicam que continuaremos a ser, no futuro, um país cristão, com um povo marcado pela religiosidade. Isso diz muito, mas deixa muito ainda por dizer.

Fundamentalismo versus racionalidade, individualismo versus solidariedade, bem comum versus clientelismo, essas são algumas das questões que estão intimamente ligadas à forma como compreendermos e praticarmos nossas opções religiosas no futuro.

FRANCISCO BORBA RIBEIRO NETO é coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, editor-assistente no Brasil da revista "Communio" e um dos organizadores dos livros "Um Diálogo Latino-Americano: Bioética & Documento de Aparecida" (Difusão, 2009) e "Economia e Vida na Encíclica Caritas in Veritate" (Companhia Ilimitada, 2010).

FSP.12 Oct 2011

Quinze anos da Lei de Arbitragem



  
É imprescindível que se desenvolva uma cultura da arbitragem em nosso país, para que a lei também possa ser corretamente aplicada

Um dos objetivos do processo de modernização é a diminuição da tutela do Estado e o consequente aumento dos poderes da cidadania.

Importante em termos de mudança social, embora pouco percebida pela própria sociedade, essa transformação é essencial, pois trata de criar mecanismos de proteção e garantias individuais que se conformem, não só sob o ponto de vista jurídico mas também sob aspectos econômicos e sociais, com o pleno exercício dos direitos humanos.

Exemplos significativos encontram-se no Código de Defesa do Consumidor, nos Juizados Especiais Cíveis e Criminais e no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Ademais, em 2004, foi promulgada a emenda constitucional nº 45, dispondo sobre a reforma do Judiciário e que ensejou, em consequência, a aprovação de novas leis processuais que concorreram para o melhor funcionamento de nosso poder judicante.

Agora, estamos comemorando o 15º aniversário da lei nº 9.307, que dispõe sobre arbitragem e cujo projeto tive a iniciativa de apresentar ao Senado Federal em 1992.

Naquela ocasião, observei que o texto, caso aprovado, iria significar o aparecimento de uma instância alternativa à prestação jurisdicional por parte do Estado.

Há no Brasil uma demanda da sociedade direcionada no sentido de tornar mais célere a prestação jurisdicional, pois, como ressaltou Rui Barbosa, em sua sempre recordada "Oração aos Moços", "justiça atrasada não é justiça, e sim injustiça qualificada e manifesta".

Se tal representa um estorvo para as partes, não deixa de constituir, igualmente, um tormento para os advogados e uma preocupação para os magistrados, que vivenciam o crescimento geométrico das lides. A arbitragem, conquanto seja instituto que só agora está sendo exercitado entre nós, não é algo novo em nosso Direito positivo legislado.

Basta lembrar o artigo 160 da Constituição de 1824, prevendo que, em causas cíveis e penais, civilmente intentadas, poderiam as partes "nomear juízes árbitros", cujas sentenças seriam "executadas sem recursos, se assim o convencionarem ambas as partes".

Frise-se, ainda, o fato de a arbitragem ter permanecido letra morta nas práticas jurídicas brasileiras, apesar de estar prevista no Código Civil que vigorou de 1917 a 2002.

Esse hábito não pode ser imputado à falta de tradição do instituto em nosso Direito, mas à disciplina da matéria, que subordinava a arbitragem à homologação judicial.

Carecia-se, portanto, de provisão legal que desse a esse instituto, tão amplamente usado em outros países e no Direito internacional público, eficácia jurídica integral.

As vantagens que oferece sobrelevam de muito os processos jurisdicionais estatais: quer pela celeridade do rito escolhido, quer pela especialização dos árbitros, mediante a faculdade de se escolherem os experts na referida matéria; quer pelo sigilo, quando tal se impõe; quer pela flexibilidade dos atos procedimentais; quer pela menor onerosidade dos custos; quer pela exequibilidade das decisões arbitrais, como títulos executivos que são.

É de todo necessário, entretanto, que se continue a apoiar o sistema de arbitragem em nosso país.
Para tal fim, é imprescindível que se desenvolva uma cultura da arbitragem, para que a lei seja não apenas adequadamente apreendida pela sociedade, mas também corretamente aplicada.

MARCO MACIEL é membro da Academia Brasileira de Letras. Foi vice-presidente da República (1995-1998 e 1999-2002), ministro da Educação (governo Sarney), senador e governador de Pernambuco (1978-1985).

 FSP.12 Oct 2011

Das peculiaridades




Li recentemente uma biografia de Serge Gainsbourg publicada no Brasil pela editora Barracuda (Um Punhado de Gitanes, da inglesa Sylvie Simmons). Serge Gainsbourg, estrela da canção francesa, ator, diretor, desenhista, escritor, compositor e figura carimbada dos anos 60, 70 e 80, era um cara pra lá de talentoso.

E peculiar, muito peculiar... Um sujeito tímido, cheio de manias, o feio-bonito que arrasou o coração das mulheres que valiam a pena na época (entre as suas conquistas famosas, Brigitte Bardot e a lindíssima Jane Birkin, com quem Serge viveu por 13 anos e teve uma filha).

Um Punhado de Gitanes é a história da trajetória musical de Gainsbourg; mas, também, é um arrazoado de narrativas incríveis, de aventuras e máximas que fazem a gente fechar o livro de bom humor, perguntando-se por que, afinal de contas, não se vive a vida com um grau a mais de maluquice. Talvez porque nos falte gênio – coisa que Serge tinha para dar e vender...

Ele, que fumou cada minuto da sua vida (andava sempre com um fortíssimo Gitane aceso), que aprendeu a beber no exército e encheu a cara até morrer, que foi apaixonado pela neta de Tolstói, sua colega num curso de artes, que via filmes pornográficos com Salvador Dalí, que comprou um Rolls-Royce prateado apenas para fumar seus Gitanes dentro do carro, pois Serge nunca aprendeu a dirigir – ele era um gênio que chegou a compor para todas as grandes cantoras da cena musical da época, enquanto lançava um ou dois discos próprios por ano.

De todas as doideiras de Gainsbourg, a que mais me impressionou foi o seu fanatismo estético. Tinha absoluta mania de arrumação, e na sua casa da Rue de Verneuil, cujas paredes pretas ele copiou da casa do próprio Dalí, nada nunca podia ser mudado de lugar. Habitava-se um cenário milimetricamente pensado por Serge, e eram proibidos os vestígios de vida humana nas salas, nos quartos e até mesmo no banheiro. Bilhetes, moedas, cabelo na escova, sapato ao lado da cama, bolsa sobre a cadeira?

Pecados que deixavam Serge absolutamente furioso. As crianças só podiam brincar num único cômodo, de portas fechadas. Serge dizia que a sua mente era tão atravancada, tão cheia de ideias, de notas musicais e de imagens, que o exterior obrigatoriamente precisava estar sempre em perfeita ordem. A família Gainsbourg sofreu um pouco com isso, imaginem... Mas, de fato, Serge podia dar-se às maiores maluquices: poucos artistas foram tão prolíficos quanto ele.

LETICIA WIERZCHOWSKI - FSP. 29 Sep 2011 

O som da época


 - LUIZ FERNANDO VERISSIMO



Desconfio que ainda nos lembraremos destes anos como a época em que vivemos com o acompanhamento dos alarmes de carro. Os alarmes de carro são a trilha sonora do nosso tempo: o som da
paranoia justificada.
O alarme é o grito da nossa propriedade de que alguém está querendo tirá-la de nós. É o som mais desesperado que um ser humano pode produzir – a palavra “Socorro!” –, mecanizado, padronizado e a todo volume. É “Socorro!” acrescentado ao vocabulário das coisas, como a buzina, a campainha, a música de elevador, o “ping” que avisa que o assado está pronto e todos os “pings” do computador. Também é um som típico porque tenta compensar a carência mais típica da época, a de segurança. Os carros pedem socorro porque a sua defesa natural – polícia por perto, boas fechaduras ou respeito de todo o mundo pelo que é dos outros – não funciona mais. Só lhes resta gritar.
Também é o som da época porque é o som da intimidação. Sua função principal é espantar e substituir todas as outras formas de dissuasão pelo simples terror do barulho. O som da época em que os decibéis substituíram a razão. Como os ouvidos são, de todos os canais dos sentidos, os mais difíceis de proteger, foram os escolhidos pela insensibilidade moderna para atacar nosso cérebro e apressar nossa imbecilização. Pois são tempos
literalmente do barulho.
O alarme contra roubo de carro também é próprio da época porque frequentemente não funciona. Ou funciona quando não deve.
Ouvem-se tantos alarmes a qualquer hora do dia ou da noite porque, talvez influenciados pela paranoia generalizada, eles disparam sozinhos. Basta alguém se aproximar do carro com uma cara suspeita e eles começam a berrar.
Decididamente, o som do nosso tempo.


 FSP.29 Sep 2011

Loucura peruana




Foi vendendo a comida que faziam em casa que conseguiram um lugar na sociedade de colonizadores


Como não fui ao festival do Peru, fiquei estudando por aqui, lendo sobre o mercado de Cuzco, suas tendas, geralmente tocadas por mulheres de geração em geração.
Foi vendendo a comida e a bebida que faziam em casa, saindo para a rua, é que conseguiram um lugar na nova sociedade dos colonizadores.

Assisti a um filme de 2006 de Claudia Llosa. Madeinusa. É o nome do filme e da protagonista, que mora num povoado andino fictício, Mayacuna. Um peruano citadino, Salvador, fica preso na cidade por causa de uma rocha que caiu na estrada. O povo desconfia dele e quer que volte para Lima. Só que, sem saída, é preso por Don Cavo, pai de Madeinusa no celeiro da família.
Os nativos não gostam de pessoas estranhas no seu festival de Tempo Santo na semana da Páscoa. Acontece que, nesse pequeno intervalo de tempo, Deus fica cego aos pecados do homem. Logo, todos caem na orgia mais maluca.

No meio dessa folia é que a adolescente e bela Madeinusa tem que aguentar o assédio sexual do pai.
Aparece o tema de comida e violência. Nos primeiros dias do festival, homens mulheres e crianças juntam-se para comer, para jogar pelos ares, para estragar comida feita com muito carinho e esforço.
As ruas ficam cheias de restos e de vômito, as cenas macabras começam. Forçam comida garganta abaixo de uma velha morrendo, roubam o porco de uma outra para comê-lo numa bacanal.

A comida também representa a divisão cultural profunda entre a provinciana Madeinusa e o branco e urbano Salvador, que não consegue entender a língua, os costumes, e as preferências da pequena vila.
Quando Madeinusa percebe que o pai trancou Salvador no celeiro faz para ele um dos pratos preferidos de sua região, um porquinho da Índia (o cuy) assado com batatas.

Doido de fome, Salvador avança na comida e, quando prova, cospe com nojo, furioso! Que asco!
O misterioso visitante de Lima é a encarnação viva do mundo que ela procura. Madeinusa, quando quer seduzir, usa os brincos da mãe, que também fugira, deixando-a só. Nos dias do festival, ela oferece sua virgindade a Salvador, esperando que a oferta do seu corpo fosse o bastante para que ele a levasse consigo. Ele se recusa. É, então, no papel de mulher cozinheira que ela trama sua fuga. Prepara uma sopa e sua vingança. Despeja veneno de ratos num caldo e chama: "Papá, papito, tu caldo de gallina!"

O pai não acorda, ela despeja a sopa pela sua goela. Acostumada com abandono e violência, Madeinusa defende a possibilidade de seu sonho do jeito que sabe.

Foge num caminhão, orgulhosa de si mesma e principal construtora de seu caminho. Interessante é que Madeinusa, ao contrário das peruanas reais que se ergueram socialmente por meio da cozinha, não soube usar a arte, técnica e dom para escapar da pobreza, do abuso.

E, como muitas outras mulheres andinas, ela não entende que o espaço da cozinha pode oferecer às mulheres um atalho para contestar o domínio patriarcal. E porque o delicioso nome de Madeinusa? Não sei.

Foi a mãe que batizou...

 NINA HORTA - FSP.29 Sep 2011 

Isolacionismo





O German Marshall Fund dos EUA (GMF) foi criado para celebrar o papel do Plano Marshall na reconstrução da Europa após a Segunda Guerra. Em um discurso na Universidade Harvard em 1947, o general George Marshall, então secretário de Estado americano, lançou o plano que proveria assistência crucial à reconstrução europeia.

Também em Harvard, 25 anos mais tarde, o chanceler alemão Willy Brandt anunciou o estabelecimento do GMF, com uma generosa dotação orçamentária alemã, para servir como organização de pesquisa e de fomento à educação nos EUA. Sediado em Washington, o instituto visa promover o bom relacionamento entre os EUA e a Europa.

Trabalhei como consultor informal para o presidente do GMF no final dos anos 1970, depois da Revolução dos Cravos (1974), quando ajudei a organizar duas grandes conferências internacionais em Lisboa sobre a economia de Portugal. Era um período difícil. Portugal estava tentando enfrentar as consequências de um longo período de ditadura de direita, seguido por anos de conflitos entre militares de esquerda e políticos civis.

O projeto era instigante. Do lado americano, conseguimos o envolvimento de alguns jovens e brilhantes economistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Muitos deles, a exemplo de Paul Krugman, hoje professor da Universidade Princeton, colunista do "New York Times" e da Folha e laureado com o Nobel de Economia de 2008, viriam a construir carreiras brilhantes posteriormente.

Bruce Stokes  se tornou pesquisador sênior no GMF. Acompanho seu trabalho já há anos. Ele era um dos meus colegas mais brilhantes no Conselho de Relações Exteriores de Nova York. Trabalhou por muitos anos no "National Journal", de Washington, publicando artigos sempre interessantes, com observações bastante aguçadas sobre a opinião pública e a política externa americanas.

Por isso, venho lendo com especial atenção os seus textos mais recentes. Em uma análise da mais recente pesquisa do GMF sobre a opinião pública dos dois lados do Atlântico, combinada a dados das pesquisas de opinião do instituto Pew, Stokes conclui que os jovens republicanos dos EUA perderam o interesse pela Europa, opõem-se cada vez mais a aventuras internacionais e veem a China como potencial inimigo.

Stokes acredita que isso represente a retomada de uma tradição muito antiga na política americana. Caso os republicanos reconquistem a Casa Branca e o controle do Senado no ano que vem, alerta Stokes, estejamos preparados para um retorno ao antigo isolacionismo dos EUA.



KENNETH MAXWELL . FSP.29 Sep 2011 

Tradução de PAULO MIGLIACCI


Vírus provoca suicídio



Pais forçam filhos a lavar as mãos e governos levam pessoas a morrer pela pátria. São exemplos de como uma pessoa é capaz de determinar o comportamento de outra pessoa.

Normalmente, não pensamos que o comportamento do filho é resultado de genes no corpo do pai agindo sobre o corpo do filho. Preferimos falar em convencimento, autoridade ou persuasão. Mas, quando esse fenômeno é observado entre animais de diferentes espécies, fica difícil imaginar que o comportamento induzido não resulte da ação direta de genes.

A capacidade de um gene, localizado em um ser vivo, de agir sobre outro ser vivo foi proposta inicialmente por Richard Dawkins, que chamou o fenômeno de fenótipo estendido. Muitos duvidavam da existência desses genes. Agora, pela primeira vez, um desses genes foi isolado e caracterizado.

No final do século 19, cientistas alemães observaram um comportamento estranho nas lagartas de uma espécie de mariposa chamada Lymantria dispar. Lagartas normais passam a noite se alimentando de folhas na copa das árvores. Antes do amanhecer, elas descem e se escondem. Esse comportamento evita que sejam devoradas pelos pássaros.

Mas em algumas vezes as lagartas parecem enlouquecer. Antes do raiar do dia, vão para o topo das árvores, agarram-se às folhas e ficam imóveis, esperando a morte. Que chega pelo bico de um pássaro. Décadas mais tarde, foi descoberto que elas “enlouquecem” após serem infectadas por um baculovírus.

Do ponto de vista do vírus, o comportamento suicida das larvas é perfeito. Após o vírus ter se multiplicado no interior das larvas, elas rumam para o topo das árvores e esperam. As aves comem as larvas infectadas, levando o vírus para outras árvores. O vírus se espalha rapidamente pela floresta. Se a larva infectada morre no seu esconderijo diurno, a disseminação do vírus é lenta, pouco eficiente. O vírus parece “convencer” a larva a mudar seu comportamento. Mas como isso é possível? Seguramente não rola um papo entre vírus e larva.

Quando os cientistas sequenciaram o genoma do baculovírus, descobriram um gene estranho, que parecia não ser necessário para a sobrevivência do vírus. Esse gene, chamado de EGT, produzia uma enzima capaz de inativar o hormônio 20-hidroxiecdisona, que controla o desenvolvimento das larvas. Quando a quantidade desse hormônio aumenta, a larva se transforma em pupa, produzindo o casulo do qual emerge a mariposa adulta.

Cientistas imaginaram que talvez o aumento e a diminuição diária dos níveis desse hormônio, antes da pupação, seria o responsável pela migração da larva para a copa da arvore ao anoitecer e sua volta para o esconderijo ao amanhecer. Será que o vírus, destruindo o hormônio no hospedeiro, estaria manipulando seu comportamento, induzindo a larva ao suicídio?

Para testar essa hipótese, cientistas construíram baculovírus recombinantes em que o gene EGT foi inativado. O vírus modificado infectou a larva e se reproduziu normalmente. Mas as larvas infectadas acabavam morrendo, cheias de vírus, não no topo das árvores, mas em seu esconderijo, longe das aves.

Esse resultado demonstra que o baculovírus carrega em seu genoma um gene cuja única função é destruir o hormônio que controla o comportamento das larvas, forçando sua exposição às aves famintas. Esse gene não somente altera o comportamento das larvas, mas indiretamente induz as aves a comer as larvas e espalhar o vírus.

Nada mal para um vírus que não tem cérebro nem estudou estratégia de marketing em um MBA. Provavelmente, ocorreu que uma cópia do gene EGT acabou inserido acidentalmente no genoma de um baculovírus em algum momento do passado. Por se reproduzir mais rapidamente, o vírus com esse novo gene acabou se tornando o baculovírus predominante nas florestas europeias.

À medida que mais espécies tiverem seus genomas sequenciados, mais exemplos de genes com fenótipos estendidos serão descobertos. Será que os genes que permitem que o cérebro de um pai argumente com seu filho e o induza a lavar as mãos antes do almoço não podem ser considerados genes com fenótipos estendidos? E os genes que permitem a um recém-nascido emitir um choro capaz de fazer os pais correrem até o berço? Eles podem ser considerados genes com fenótipo estendido?


- FERNANDO REINACH

 27 Oct 2011 

Sabendo francês podemos ser mais felizes



  
Não me considerem esnobe, exibido. Mascarado, como se dizia na minha infância. Não usam mais a palavra? Tão atual. O que há de gente mascarada no mundo. Vou dizer o óbvio. Para desfrutar melhor Paris, a Provence celebrada, e outros, sabendo francês, os prazeres multiplicam-se por cem, o desfrute por duzentos, a alegria por quinhentos. Mesmo que você tenha ido apenas para fazer compras, como a maioria dos brasileiros, que pedem descontos em português mesmo e em altos brados (ou em brado retumbante), vale a pena aprender francês.

O parisiense muda quando você se dirige a ele na sua língua, ainda que precariamente, como eu. Quem não gosta de uma pessoa que chega e você percebe o esforço que ela faz para se expressar em sua língua natal? Assim, vale a pena aprender francês para poder caminhar à vontade em Paris deixando-se envolver por ela, sabendo um pouco mais.

Claro, o francês não é importante apenas por isso. Mas já é um enorme handicap. Há as revistas, os milhares de livros traduzidos do mundo inteiro, o cinema, a música, até a facilidade nas compras. Só poder ler a gigantesca coleção La Pléiade (projeto de uma vida) no original é uma bênção, raras vezes igualada. Ou os fólios, delicados, sensuais? Hoje estamos aprendendo apenas o que o mercado chama de línguas úteis, como o inglês, o japonês, o mandarim. Mandarim? (Eu lá quero falar chinês?) Para vencermos na vida? Nos tornarmos empreendedores? Sermos alguém? Mas o que é ser alguém? Tudo tem de ter aplicação prática? Se é assim, acabemos com o ensino brasileiro, ele não leva a nada, do jeito que está estruturado.

Há na nossa vida algo que é preciso preencher. Uma necessidade interior de espírito, contemplação do mundo, da vida, avaliação das coisas. Encarar a existência como algo que precisa de alimento. Foram eliminando as línguas de todos os cursos, a não ser alguns muito especializados. Tive no ginásio português, inglês, francês, latim e espanhol e posso dizer que isso me ajudou. Mas vieram deletando tudo, como se diz. E o francês se foi por meio de ministros que só pensam em política. O atual quer a Prefeitura de São Paulo, imaginem. Nem administrou direito o Enem.
A primeira palavra que aprendi em francês foi: nous. Estava no primeiro ano do ginásio. Tínhamos aulas de francês desde o primeiro dia com mademoiselle Fanny, uma graça de pessoa. Perguntamos: "Por que a senhora começou com o nous, que significa nós, e não com o je, que quer dizer eu?" Ela sacudiu o dedo: "O nous somos todos, é o coletivo, a classe. O je é muito individualista." Esses eram os professores que tínhamos. Jamais dona Fanny falou em português na aula. Nos virávamos para saber o que ela queria dizer. Ela sabia conduzir a lição, de maneira que descobríamos os significados e as pronúncias às vezes sutis do francês, língua tão poética, sensível, cheia de nuances, e ao mesmo tempo incisiva. Dificuldades terríveis para diferenciar Anne (Ana) de âne (asno). A professora insistia, queria a perfeição. Nesta minha idade, penso, dia desses entrar para a Aliança Francesa a fim de aperfeiçoar minha precariedade.

Donna Fanny ainda está lá em Araraquara. Até algum tempo atrás, quando eu a encontrava na rua, ela me dizia, como sempre disse ao entrar na classe:

- Bonjour, mon enfant!

- Bonjour, madame.

- Mademoiselle, mademoiselle...

Ria, afetuosa. Aos 14 anos estávamos lendo Alexandre Dumas no original. Não era fácil, mas a gente acabava gostando, se imaginava na França. Também Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand, depois Balzac, Flaubert, Stendhal. Hoje chegaríamos a Le Clézio, Houellebecq, Jonathan Littell, Georges Perec. Aos 16 tivemos acesso a Jaques Prévert, que deslumbramento! A poesia entrava em nós por meio de Aragon, Paul Valéry, Verlaine, e, claro Rimbaud e Baudelaire, o maldito. Também Céline, complicado, Camus, os romances de Sartre, um pouco de Proust (eu mantinha a tradução do Quintana do lado). Toda semana, nos anos 50, havia um filme francês no cinema. Fanny insistia para que fôssemos. Não era exigir muito, sabíamos que algumas estrelas francesas como Martine Carol, Claudine Dupuis e Françoise Arnoul mostravam os peitinhos, era um avanço na nossa vida sexual. Mas havia Arlety, Edwige Feuillère, Maria Casarés, soberbas. E Gerard Philippe, jamais substituído. Hoje minhas paixões são Juliette Binoche, Irene Jacob, Marion Cotillard. Por outro lado, descobrimos os filmes de Marcel Carné, de René Clair, André Cayatte, Jean Delannoy, Robert Bresson, clássicos. Depois, digerimos toda nouvelle vague, que mudou a linguagem do cinema.

Nós, que aprendemos francês, tivemos sempre algo mais dentro de nós. De coisas pequenas e grandes. Não estou aqui para fazer lista e apenas para insistir numa coisa muito simples: sabendo francês, sempre me senti um pouco mais feliz na vida. Uma delas foi ouvir, recentemente, do garçom de um bistrô; "Monsieur, vous êtes du quartier?" (O senhor é do bairro?) Que, como Eros Grau diz em um livrinho delicioso sobre Paris, é um sinal de que você está sendo aceito. Coisa nada fácil para um estrangeiro. Que volte o francês às escolas!




Ignácio de Loyola Brandão - O Estado de S.Paulo.04 de novembro de 2011 | 3h 06

La cosecha



Flannery O’Connor

La señorita Willerton siempre quitaba las migas de la mesa. Era su hazaña doméstica especial y lo hacía con gran esmero. Lucía y Bertha fregaban los platos y Garner se iba a la sala a hacer el crucigrama del Morning Press. Así dejaban sola en el comedor a la señorita Willerton y eso le gustaba a ella. ¡Uf! En aquella casa el desayuno era siempre un suplicio. Lucía insistía en seguir siempre el mismo horario en el desayuno y las demás comidas. Lucía decía que desayunar a la misma hora contribuía a adquirir otras prácticas regulares, y, con lo propenso que era Garner a sufrir molestias, era fundamental que estableciesen algún método en las comidas. De esa manera, también se aseguraba de que él le pusiera agaragar a su crema de trigo. «Como si después de llevar cincuenta años haciéndolo -pensó la señorita Willerton-, fuese capaz de hacer otra cosa.» La polémica del desayuno empezaba siempre con las gachas de harina de trigo de Garner y terminaba con las tres cucharadas de piña triturada de la señorita Willerton. «Ya sabes lo de tu acidez, Willie -le decía siempre la señorita Lucía-, ya sabes lo de tu acidez», y entonces Garner ponía los ojos en blanco y soltaba algún comentario desagradable, y Bertha pegaba un salto y Lucía se mostraba afligida y la señorita Willerton saboreaba la piña triturada que acababa de tragarse.

Era un alivio quitar las migas de la mesa. Quitar las migas de la mesa le daba tiempo para pensar, y, si la señorita Willerton debía escribir un relato, antes tenía que pensarlo. Casi siempre pensaba mejor sentada delante de la máquina de escribir, pero por el momento tendría que conformarse con lo que había. En primer lugar, debía pensar un tema para el relato que iba a escribir. Eran tantos los temas sobre los que se podía escribir un cuento que a la señorita Willerton nunca se le ocurría ninguno. Era siempre la parte más difícil de escribir un cuento, ella siempre lo decía. Dedicaba más tiempo a pensar en algo sobre lo que escribir que a la escritura en sí. A veces descartaba un tema tras otro y, a menudo, tardaba una o dos semanas en decidirse por alguno. La señorita Willerton sacó el recogedor y la escobilla de plata y se puso a limpiar la mesa. «¿Y un panadero -se preguntó-, será un buen tema?» «Los panaderos extranjeros eran muy pintorescos», pensó. La tía Myrtile Filmer había dejado sus cuatricromías de panaderos franceses estampadas en sombreros con forma de hongo. Eran hombres magníficos, altos… rubios y…

-¡Willie! -gritó la señorita Lucía, entrando en el comedor con los saleros-. Por el amor de Dios, pon el recogedor debajo de la escobilla o echarás todas las migas sobre la alfombra. En lo que va de la semana le he pasado la aspiradora cuatro veces y no pienso volver a pasarla.

-Si le has pasado la aspiradora no sería por las migas que se me caen a mí -le contestó la señorita Willerton, lacónica-. Siempre recojo las migas que se me caen. -Y aclaró-: Y a mí se me caen bien pocas.

-A ver si esta vez lavas el recogedor antes de guardarlo -le soltó la señorita Lucía.

La señorita Willerton se echó las migas en la mano y las arrojó por la ventana. Llevó el recogedor y la escobilla a la cocina y los metió debajo de un chorro de agua fría. Los secó y los volvió a guardar en el cajón. Misión cumplida. Ahora podía ponerse delante de la máquina de escribir. Y estarse allí hasta la hora del almuerzo.

La señorita Willerton se sentó delante de la máquina de escribir y lanzó un suspiro. ¡A ver! ¿En qué había estado pensando? Ah, sí. En los panaderos. Ummm. Los panaderos. No, los panaderos, mejor no. Tenían poco de originales. Los panaderos no producían tensión social. La señorita Willerton clavó la vista en la máquina de escribir. A S D F G… sus ojos recorrieron las teclas. Ummm. «¿Y los maestros?», se preguntó la señorita Willerton. No. Por Dios, no. Los maestros siempre hacían que la señorita Willerton se sintiera rara. Sus maestras del Seminario Femenino Willowpool estaban bien, pero eran todas mujeres. El Seminario Femenino de Willowpool, recordó la señorita Willerton. La frase no le gustaba nada: Seminario Femenino de Willowpool… sonaba a biología. Ella se limitaba a decir que se había graduado de Willowpool. Los maestros hacían que la señorita Willerton se sintiera como si estuviera a punto de pronunciar algo mal. Además, los maestros no eran oportunos. Ni siquiera representaban un problema social.

Problema social. Problema social. Ummm. ¡Los aparceros!

La señorita Willerton nunca había intimado con ningún aparcero pero, reflexionó, como tema tendría tanto arte como cualquier otro, ¡y le permitirían conseguir ese aire de trascendencia social que tan útil resultaba en los círculos que esperaba conocer en sus viajes! «Siempre puedo sacarle partido -refunfuñó-, al tema de la lombriz intestinal.» ¡Ya le iba saliendo! ¡Sin duda! Movió los dedos con nerviosismo sobre las teclas sin tocarlas. Después, de repente, empezó a escribir a gran velocidad.

«Lot Motun -registró la máquina- llamó a su perro.» Una pausa abrupta siguió a la palabra «perro». La señorita Willerton siempre se esmeraba en la primera oración. «La primera oración -decía siempre-, le venía como… ¡como un chispazo! ¡Tal cual! – decía, y chasqueaba los dedos-, ¡como un chispazo!» Y sobre la primera oración construía su relato. «Lot Motun llamó a su perro», le había salido automáticamente a la señorita Willerton, y al releer la frase, decidió no solo que «Lot Motun» era un nombre adecuado para un aparcero, sino que hacer que llamara a su perro era lo mejor que se podía esperar de un aparcero. «El perro levantó las orejas y, con el rabo entre las patas, se acercó a Lot.» La señorita Willerton había escrito la frase antes de que le diera tiempo a advertir su error: dos «Lot» en un mismo párrafo. Resultaba desagradable al oído. La máquina de escribir retrocedió chirriando y la señorita Willerton escribió tres X sobre «Lot». Entre líneas anotó a lápiz: «Su amo». Ahora ya estaba lista para continuar. «Lot Motun llamó a su perro. El perro levantó las orejas y, con el rabo entre las patas, se acercó a su amo.» «Y también tengo dos perros – pensó la señorita Willerton-. Ummm.» Pero decidió que eso no molestaría tanto al oído como los dos «Lot».

La señorita Willerton era muy partidaria de lo que denominaba «arte fonético». Según ella, el oído era tan lector como el ojo. Le gustaba expresarlo de ese modo. «El ojo forma un cuadro -le había dicho a un grupo en las Hijas Unidas de las Colonias- que puede pintarse en abstracto, y el éxito de la empresa literaria -a la señorita Willerton le gustaba la expresión empresa literaria- depende de esos elementos abstractos creados en la mente y de la naturaleza tonal -a la señorita Willerton también le gustaba eso de naturaleza tonal-, que registra el oído.» La oración «Lot Motun llamó a su perro» tenía un toque cáustico y seco que, seguido de «el perro levantó las orejas y, con el rabo entre las patas, se acercó a su amo», le daba al párrafo la salida que precisaba.

«Lot tiró de las orejas cortas y raquíticas del animal y se revolcó con él en el barro.» A lo mejor, reflexionó la señorita Willerton, eso era un poco exagerado. Pero, según le constaba, el que un aparcero se revolcara en el barro entraba dentro de lo razonablemente posible. En cierta ocasión había leído una novela que trataba de ese tipo de personas, en la que se había hecho algo tan feo como aquello y, a lo largo de tres cuartas partes de la narración, cosas mucho peores. Lucía la encontró mientras limpiaba uno de los cajones del escritorio de la señorita Willerton, y, después de hojear unas cuantas páginas al azar, sujetó el libro entre el pulgar y el índice, lo llevó hasta el horno y lo echó al fuego.

-Willie, esta mañana cuando limpiaba tu escritorio, me encontré un libro que Garner debió de dejar allí para hacerte una broma -le dijo la señorita Lucía más tarde-. Fue horrible, pero ya sabes cómo las gasta Garner. Lo he quemado. -Y luego, con una risita ahogada, añadió-: Estaba segura de que no podía ser tuyo.

La señorita Willerton estaba segura de que no podía ser de nadie más que de ella, pero no se atrevió a aclararlo. Lo había encargado directamente a la editorial porque no quería pedirlo en la biblioteca. Le había costado tres dólares con setenta y cinco centavos, envío postal incluido, y no había terminado los últimos cuatro capítulos. Eso sí, había leído lo suficiente para poder afirmar que era razonablemente posible que Lot Motun se revolcara en el barro con su perro. Al hacerle hacer tal cosa, lo de las lombrices intestinales tendría más sentido, decidió. «Lot Motun llamó a su perro. El perro levantó las orejas y, con el rabo entre las patas, se acercó a su amo. Lot tiró de las orejas cortas y raquíticas del animal y se revolcó con él en el barro.»

La señorita Willerton se apoyó en el respaldo. Era un buen comienzo. Ahora planificaría la acción. Había que incluir una mujer, claro. A lo mejor Lot podía matarla. Ese tipo de mujeres siempre sembraba cizaña. Incluso podía provocarlo para que acabara matándola por libertina y, después, quizá a él lo perseguiría la mala conciencia.

Si debía tomar ese rumbo, sería necesario dotarlo de principios, aunque no sería demasiado difícil dárselos. Se preguntó de qué manera introduciría ese aspecto, en vista de toda la atención que en el relato debía dedicarle al amor. Tendría que poner algunas escenas bastante violentas y naturalistas; el tipo de detalles sádicos que una leía en relación con esa clase de gente. Era un problema. Sin embargo, la señorita Willerton disfrutaba con esos problemas. Lo que más le gustaba era planificar las escenas pasionales, pero, cuando llegaba el momento de escribirlas, siempre empezaba a sentirse rara y a preguntarse qué diría su familia cuando las leyeran. Garner chasquearía los dedos y le haría un guiño a la menor oportunidad; Bertha la consideraría una persona horrible; y Lucía diría con esa vocecita tonta que la caracterizaba: «¿Qué nos has estado ocultando, Willie? ¿Qué nos has estado ocultando?», y lanzaría su risita ahogada, como hacía siempre. Pero la señorita Willerton no podía pensar en eso ahora; debía darle forma a sus personajes.

Lot sería alto, encorvado y desaliñado, pero sus ojos serían tristes y lo harían parecerse a un caballero pese a tener el cuello enrojecido y las manos enormes y torpes. Tendría los dientes rectos y, para indicar que era dueño de cierto espíritu, sería pelirrojo. Las prendas le colgarían sin gracia, pero las luciría con desenfado, como si fuesen una segunda piel; tal vez, reflexionó la señorita Willerton, sería mejor, después de todo, que no se revolcara con el perro. La mujer sería más o menos guapa, con el pelo rubio, los tobillos gruesos, los ojos turbios.

La mujer le serviría la cena en la cabaña y él comería la sémola llena de grumos a la que ella ni siquiera se habría molestado en ponerle sal y, allí sentado, pensaría en cosas grandiosas, lejos, muy lejos… en otra vaca, una casa pintada, un pozo limpio, incluso una granja propia. La mujer empezaría a dar alaridos porque él no había cortado suficiente leña para la cocina y se quejaría del dolor de espalda. Ella se sentaría a verlo comer la sémola rancia y le diría que no tenía suficientes agallas para robar comida.

-¡Eres un asqueroso pordiosero! -le diría con sorna. Y él la mandaría callar.

-¡Cierra la boca!-gritaría.

-Me tienes harta, más que harta. -Pondría los ojos en blanco y, burlándose y riéndose de él, le diría-: Los desgraciados como tú no me dan miedo.

Entonces él echaría la silla hacia atrás e iría hacia ella. Ella agarraría un cuchillo de la mesa -la señorita Willerton se preguntó cómo era posible que aquella mujer fuera tan corta-, y retrocedería manteniendo el cuchillo en alto. Él daría un salto hacia delante y ella se apartaría veloz, como un caballo salvaje. Luego volverían a estar cara a cara, los ojos rebosantes de odio, y avanzarían y retrocederían. La señorita Willerton alcanzó a oír cómo los segundos iban golpeando contra el tejado de lata. Él se abalanzaría otra vez sobre la mujer y ella, con el cuchillo dispuesto, se lo hincaría de un momento a otro… La señorita Willerton no pudo aguantar más. Golpeó a la mujer con fuerza en la cabeza, por detrás. La mujer soltó el cuchillo y una niebla la envolvió y se la llevó del cuarto. La señorita Willerton se volvió hacia Lot.

-Deja que te sirva un poco de sémola caliente -le dijo.

Se acercó a la cocina, en un plato limpio sirvió una ración de sémola blanca y tersa y un trozo de mantequilla.

-Caray, gracias -dijo Lot, y le sonrió con esos bonitos dientes-. Tú sí sabes cómo prepararla. Verás -le dijo-, estuve pensando… Podríamos marcharnos de esta granja arrendada y tener un lugar decente. Si este año conseguimos ganar algo, podríamos comprarnos una vaca y empezar a construirnos una casita. Imagínatelo, Willie, imagínate lo que sería.

Ella se sentó a su lado y le puso la mano en el hombro.

-Lo conseguiremos -aseguró-. Nos irá mejor que ningún otro año y en primavera tendremos esa vaca.

-Tú siempre sabes cómo me siento, Willie. Tú siempre lo has sabido.

Se quedaron sentados largo rato, pensando en lo bien que se entendían.

-Termina de comer -dijo ella al fin.

Cuando él hubo cenado, la ayudó a quitar la ceniza de la cocina y después, en el caluroso atardecer de julio, dieron un paseo por el prado, en dirección al arroyo, y hablaron de la casita de la que algún día serían dueños.

A finales de marzo, cuando la época de lluvias estaba cerca, habían conseguido más de lo esperado. A lo largo del mes anterior, Lot se había levantado a las cinco de la mañana, y Willie, una hora antes, para tratar de adelantar todo el trabajo posible aprovechando el buen tiempo. A la semana siguiente, comentó Lot, empezaría a llover y, si antes no levantaban la cosecha, la perderían… y con ella, cuanto habían ganado en los últimos meses. Sabían lo que aquello supondría, otro año de ir tirando sin mucho más de lo que habían tenido el anterior. Además, al año siguiente, en lugar de la vaca, llegaría un crío. Lot se había empeñado en comprar la vaca pese a todo.

-Alimentar a un crío tampoco cuesta tanto -había razonado-, y la vaca nos ayudaría a darle de comer…

Pero Willie se había mostrado firme, comprarían la vaca más adelante, el crío debía empezar con buen pie.

-A lo mejor -había concluido Lot-, vamos a tener suficiente para las dos cosas. -Y se había marchado a ver el campo recién arado como si pudiera calcular la cosecha por los surcos.

Pese a las estrecheces, había sido un buen año. Willie había limpiado la casucha y Lot había arreglado la chimenea. En la puerta había profusión de petunias, y en la ventana, una colonia de dragoncillos. Había sido un año pacífico. Pero ahora comenzaban a inquietarse por la cosecha. Debían recogerla antes de que llegaran las lluvias.

-Nos falta una semana más -rezongó Lot al regresar esa noche-. Una semana más y lo vamos a conseguir. ¿Tienes ganas de cosechar? No está bien que debas salir -suspiró-, pero no podemos pagar a nadie para que nos ayude.

-Me encuentro bien -dijo ella, y ocultó las manos temblorosas a su espalda-. Cosecharé.

-Esta noche está nublado -dijo Lot, sombrío.

Al día siguiente trabajaron hasta el anochecer, trabajaron hasta reventar, y después regresaron a trompicones a la cabaña y cayeron en la cama.

Willie se despertó por la noche, notando un dolor. Era un dolor suave y verde, recorrido de luces moradas. Se preguntó si estaría despierta. Movió la cabeza de lado a lado y dentro de ella notó unas siluetas que zumbaban y picaban piedras.

Lot se incorporó.

-¿Te sientes mal? -le preguntó temblando.

Ella se apoyó sobre el codo y luego se dejó caer otra vez.

Ve al arroyo y trae a Anna -jadeó. El zumbido se hizo más intenso y las siluetas más grises. Al principio, el dolor se entremezcló con aquellas siluetas durante unos segundos; luego, de forma ininterrumpida. Llegaba a ella una y otra vez. El zumbido se hizo más nítido y, a eso del alba, se dio cuenta de que estaba lloviendo. Más tarde preguntó con voz ronca:

-¿Cuánto hace que llueve?

-Dos días enteros -contestó Lot.

-Entonces hemos perdido. -Willie miró con desgana los árboles empapados-. Se acabó.

-No, no se acabó -dijo él en voz baja-. Tenemos una niña.

-Tú querías un niño.

-No. Tengo lo que quería, dos Willies en lugar de una, y eso es mucho mejor que una vaca -sonrió-. ¿Qué puedo hacer para merecerme todo lo que tengo, Willie? -Seinclinó y la besó en la frente.

-¿Qué puedo hacer yo? -preguntó ella en voz baja-. ¿Qué puedo hacer paraayudarte más?

-¿Qué tal si vas al mercado, Willie?

La señorita Willerton apartó de sí a Lot de un empujón.

-¿Qué… qué me decías, Lucía? -tartamudeó.

-Te decía que qué tal si esta vez vas tú al mercado. Esta semana meha tocado ir a mí todas las mañanas y ahora estoy ocupada.

La señorita Willerton dejó la máquina de escribir y dijo con brusquedad:

-Muy bien. ¿Qué quieres que te traiga?

-Una docena de huevos y dos libras de tomates, que sean maduros, y más te vale que empieces a curarte ese resfriado ahora mismo. Te lloran los ojos y tienes la voz ronca. En el cuarto de baño hay Empirin. Pide que anoten lo que gastes en nuestra cuenta. Yponte el abrigo. Hace frío.

La señorita Willerton elevó la vista al cielo.

-Tengo cuarenta y cuatro años -anunció-, sé muy bien cómo cuidarme.

-Y que los tomates sean maduros -le contestó la señorita Lucía.

Con el abrigo mal abrochado, la señorita Willerton avanzó pesadamente por la calle principal y entró en el supermercado.

-¿Qué venía yo a comprar? -refunfuñó-. Ah, sí, dos docenas de huevos y una libra de tomates.

Pasó delante de las estanterías de vegetales enlatados y de las galletas y fue a la caja donde tenían los huevos. Pero no había huevos.

-¿Dónde están los huevos? -le preguntó a un chico que pesaba frijoles.

-Solamente nos quedan huevos de pularda -dijo mientras cogía otro puñado de frijoles.

-Bien, ¿dónde están y qué diferencia hay? -exigió saber la señorita Willerton.

El chico echó los frijoles sobrantes al cubo, se agachó sobre la caja de los huevos y le entregó un paquete.

-Ninguna diferencia, la verdad -dijo al tiempo que mascaba el chicle con los dientes incisivos-. Son de gallinas adolescentes o algo así, no lo sé bien. ¿Se los pongo?

-Sí, y dos libras de tomates. Que estén maduros -precisó la señorita Willerton.

No le gustaba hacer la compra. No había motivo alguno para que los dependientes fuesen tan altaneros. Ese muchacho no se habría entretenido tanto con Lucía. Pagó los huevos y los tomates y salió apresuradamente. En cierta manera, aquel lugar la deprimía.

Vaya tontería que un supermercado pudiese deprimir… si allí dentro solo tenían lugar actividades domésticas sin importancia… mujeres que compraban frijoles… que llevaban a los niños en esos cochecitos… que regateaban por un octavo de libra de más o de menos de calabaza… «¿Qué ganaban con eso? -se preguntó la señorita Willerton-. ¿Dónde había allí ocasión para expresarse, para crear, para el arte?» A su alrededor todo era lo mismo: aceras llenas de gente que se afanaban de un lado a otro, con las manos cargadas de paquetitos y las mentes llenas de paquetitos, aquella mujer de allí que llevaba al niño de la cadena y tiraba de él, lo sacudía y lo arrastraba para alejarlo de un escaparate donde se exhibía una lámpara hecha con una calabaza ahuecada. Probablemente se pasaría el resto de la vida tirando de él y sacudiéndolo. Y allí iba otra, a la que se le caía la bolsa de la compra en plena calzada, y otra más, que le sonaba la nariz a un niño, y por la acera se acercaban una anciana con sus tres nietos saltándole alrededor, seguidos de un hombre y una mujer que caminaban demasiado juntos para ser refinados.

La señorita Willerton observó a la pareja con atención cuando se acercaron más y la adelantaron. La mujer era regordeta, de tobillos gruesos y ojos turbios. Llevaba unos zapatos de tacón, unas ajorcas azules, un vestido de algodón demasiado corto y una chaqueta de cuadros escoceses. Tenía la piel manchada y el cuello estirado hacia delante, como si quisiera oler una cosa que le alejaran continuamente de la nariz. En la cara lucía una mueca estúpida. Él era un hombre larguirucho, consumido y desaliñado. Iba encorvado, y el pelo rubio y enredado le caía hacia un lado del cuello largo y enrojecido. Sus manos jugueteaban tontamente con las de la muchacha mientras avanzaban desmañados, y en una o dos ocasiones le lanzó una sonrisa empalagosa, que permitió a la señorita Willerton comprobar que tenía los dientes rectos, los ojos tristes y una erupción en la frente.

-¡Aaah! -se estremeció.

La señorita Willerton dejó la compra encima de la mesa de la cocina y regresó junto a la máquina de escribir. Miró el papel que había en ella. «Lot Motun llamó a su perro – ponía-. El perro levantó las orejas y, con el rabo entre las patas, se acercó a su amo. Lot tiró de las orejas cortas y raquíticas del animal y se revolcó con él en el barro.»

-¡Suena fatal! -masculló la señorita Willerton-. De todos modos, el tema no es nada del otro mundo -decidió.

Necesitaba algo más pintoresco… con más arte. La señorita Willerton se quedó largo rato mirando la máquina de escribir. Después, de repente, con el puño asestó varios golpecitos extasiados sobre el escritorio.

-¡Los irlandeses!-chilló-. ¡Los irlandeses!

La señorita Willerton siempre había admirado a los irlandeses. «Su acento -pensó-, era muy musical, y su historia… ¡espléndida!» «¡Y las gentes -caviló-, las gentes de Irlanda! Llenas de temple… pelirrojas, de anchos hombros y enormes bigotes caídos.»

FIN

“The Crop”,
Mademoiselle, 1971

Biblioteca Digital Ciudad Seva


terça-feira, 20 de agosto de 2019

Book

A tutela Constitucional da Intimidade
Editora Forense
autor : Eduardo Gianotti
Pergunte -me qual é a minha virtude  mas não a cor da minha pele.
                                                          Provérbio árabe

Americanos

 Há apenas um partido nos Estados Unidos da América : o partido da propriedade. O qual tem duas facções : os Republicanos e os Democratas . Os republicanos são um pouco mais estúpidos , mais rígidos e mais doutrinários no seu capitalismo estilo " laissez faire ". Já os democratas são mais espertos , mais charmosos  e mais corruptos . 

Gore Vidal
A razão de ser de uma Constituição não é facilitar a ação governamental, mas proteger os direitos fundamentais do cidadão.

Fábio Konder Comparato

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O avanço tecnológico tem um preço: o fim da possibilidade de escolher e testar livros e discos novos no mundo real



LUÍS ANTÔNIO GIRON*




Imagine o que seria das mulheres se, de repente, suas lojas favoritas de roupas, acessórios e perfumes desaparecessem. Não de repente, mas de uma forma lenta, cruel e inevitável, até que toda e qualquer roupa e acessório só fosse acessível via internet. Tenho certeza de que elas fariam uma revolução para recolocar as vitrines nos seus antigos lugares. Seria um choque a ausência da possibilidade de se aventurar pelos produtos materiais, escolher ao acaso um item e se arriscar. É assim que estou me sentindo: como uma mulher sem loja. Não quero sexualizar o debate. De fato, muitas são as mulheres que consomem produtos culturais com a mesma fúria dos homens (não avistei nenhuma até hoje, mas creio que elas existem). Assim, uma grande parcela do público está sendo atingida com a eliminação do varejo de cultural.

Sempre fui um consumidor da área. Um dos meus prazeres em viagens era (estou enfatizando o pretérito mais que perfeito) encontrar lojas de discos e DVDs e livrarias, passear pelas estantes e, sem um objetivo definido, descobrir uma banda, um autor, um filme. Mesmo em casa, eu adorava ir a uma locadora de vídeos e pegar um filme no qual jamais pensei, e que nem conhecia. Era um gesto de acaso, um ato lúdico de apostar em uma manifestação artística desconhecida. Como visitar uma galeria desconhecida, era desse modo que as coisas funcionavam. Aos poucos, estou assistindo ao desmoronamento desse hábito. A evolução tecnológica é inevitável e cobra seu preço: o consumidor terá os produtos que deseja, mas não mais o prazer da interação concreta com eles – e, não raro, não mais a qualidade q ue eles apresentavam anteriormente.

As primeiras lojas a sumir do mapa foram as de CDs. Com a pirataria de arquivos digitais pela internet, tornou-se possível achar qualquer coisa sem pagar por isso. Depois os e-books derrubaram as livrarias. E, finalmente, as locadoras estão com os dias contados. As lojas de videogame, os últimos baluartes da compra cultural, são as próximas. Tudo está migrando para o buraco cintilante do atacado do mundo virtual.

Os exemplos são incontáveis. Assisti ao fechamento de muitas lojas que eu amava. Alguém lembra da Virgin na Times Square de Nova York? Ou da Tower Records em San Francisco? Acabaram de fechar a mais antiga loja da HMV de Londres, a primeira especializada em discos clássicos, que estava no local, na Oxford Street, desde 1897, desde a invenção do gramofone. No lugar dela, estão inaugurando neste momento uma loja de moda jovem, a Forever 21. Lamentável para mim e todos os consumidores de cultura, que bom para as lolitas. Em Toronto, fecharam a venerável Sam Goody’s – loja de vinil e CDs que serve como cenário para o filme Scott Pilgrim. Estão construindo uma torre de 40 andares no local. As lojas HMV de Toronto estão liquidando todos os seus discos clássicos, a preço de banana. Não tenho m ala para tantos itens preciosos. Afinal, eles estão lá desde o ano 4 A.B. (antes de Bieber, sendo que o Annus Bieberi é 2009), quando vim à cidade pela primeira vez. Os discos demoravam a desaparecer das prateleiras. Eles esperavam por quem se interessasse por eles e os comprasse. Eu demorava anos até me decidir por este ou aquele disco.

Vamos às livrarias. Os livros eletrônicos vieram para sempre. Não nego sua funcionalidade e incrível rapidez. Mas muitas e inimagináveis são as transformações que eles impõe aos hábitos de leitura e de compra de títulos. Só nos Estados Unidos, o consumo de livros em papel caiu 14 por cento nos dois últimos anos, com um crescimento acelerado de downloads de livros eletrônicos, na ordem de 30 por cento ao ano. Isso pode ser verificado na vida real. Observo as grandes livrarias vendendo e-readers, como que assinando a rendição ao mundo digital. Isso quando já não estava falida mesmo. É o caso da cadeia Borders. Presenciei a liquidação de estoque das filiais londrinas há um ano. Agora vi a xepa da Borders do CNN Center, em Nova York. Antes a gente reclamava que as pequenas livrarias havi am sido devoradas pelas grandes cadeiras. Agora a gente chora pelas grandes cadeias... Também as redes de bancas de revistas e jornais de aeroportos do mundo inteiro estão restringindo o espaço aos livros de bolso, os populares best-sellers. É o que nos Estados Unidos chamam de “mass market books”, livros do mercado de massas. Curiosamente, a popularidade dessas brochuras baratas está em queda. Os livros de bolso barato deixaram de ser expostos – suprimindo, com isso, a eventual a possibilidade de comprar um livro ao acaso, um dos maiores deleites que um passageiro pode ter para matar o tédio das viagens. Hoje, as bancas de aeroporto, rodoviária e ferroviária americanas preferem os livros em capa dura de autores consagrados e as brochuras de prestígio, com autores vendáveis conhecidos. Não parece haver mais espaço para surgirem talentos nem mesmo na área dos best-sellers. Não existe mais a pausa para folhear um volume qualquer, ruim ou não.

Também não vale a pena chorar pelas lojas e locadoras de DVD, embora eu continue a lamentar seu extermínio. Provavelmente por culpa do meu sentimentalismo, ainda freqüento a locadora do meu bairro, para manter viva a chama da resistência. O que é cretino, já que eu sozinho não consigo segurar a integridade de minha locadora, que já terceirizou parte do espaço para um bar e uma loja de consertos de computadores. Eu raramente compro DVDs, mas agora é o caso, já que os espaços para o produto estão encolhendo nas poucas lojas que sobraram. No Brasil, já há vários serviços de aluguel de filmes pela televisão ou pelo computador. O Netflix – que inclui envio pelo correio de DVDs e downloads de filmes – acaba de chegar ao país.

Não pretendo condenar a evolução, mas apenas um aspecto do progresso que desconsidera o gosto e os hábitos dos consumidores. À medida que as compras no mundo online estão cada vez mais divertidas, o mundo offline – antigamente conhecido como mundo real – ficou mais triste. Pelo menos para quem gosta de livros, revistas, HQs, discos, DVDs e games. Não há o que fazer. Preciso me acostumar com cidades sem as lojas que eu adorava freqüentar, e me render à intangibilidade e à desvalorização dos produtos que gostava de tocar, escolher e arriscar. O comércio de massa aboliu o comprador distraído, expulsou o devaneio do mundo das compras em shopping centers e ruas. Tudo aquilo que fazia parte do mercado de massa tornou-se um nicho alternativo. Aos saudosistas, só resta mesmo freqüentar os seb os e lojas de artigos de segunda mão. O detalhe é que, nesses negócios, o material é exibido sem cuidado, amontoado e empoeirado. Quem consome artigos de cultura não terá mais acesso a produtos novos que possa testá-los antes de comprá-los. É a morte do experimento. É a morte da experiência física. Eu gostava de objetos, de coisas, não de algoritmos abstratos na internet. Por isso me considero vítima do assalto do suposto progresso. E o pior é que o criminoso não tem corpo.

Comprar pela internet é como sexo virtual: muita imaginação para nenhuma presença...

*Editor da seção Mente Aberta de ÉPOCA, escreve sobre os principais fatos do universo da literatura, do cinema e da TV.

Texto publicado em 06/09/2011



"Em cada linha que escrevo trato sempre, com maior ou menor fortuna, de invocar os espíritos esquivos da poesia, e trato de deixar em cada palavra o testemunho de minha devoção pelas suas virtudes de adivinhação e pela sua permanente vitória sobre os surdos poderes da morte"

 (Gabriel García Márquez, discurso em 1982).

La candelaria de Juan Candelario



[



Todos los meses iba Juan Candelario al almacén de don Teodorito Valdepié, con toda la verdura de su finca:

-Aquí traigo, don Teodorito, una carguita pa que usté me la estime.

-La carga está chiquita, Juan. Parece que se te ha cansado la tierra.

-La seca ha sío grande, don Teodorito.

-Habrá que tener paciencia para cobrarte más adelante. Esta vez no puedo abonarte ni siquiera el interés del préstamo. Tú sigue trabajando que mientras yo viva, yo no dejo en la calle a ningún jíbaro¹ decente.

-Asina Dios se me lo aconseje.

Se pusieron a trabajar Juan Candelario y su jíbara como dos desesperados, sin hacerle dengues ni a la llovizna, ni al sol, ni al ortigal. Eran dos lomos de bestia curvados sobre el terreno, con esa fealdad terrosa que da la finca cuando no salva, con ese tremendo piojillo de la mala suerte que ha acabado con la salud, con la esperanza, con la alegría de nuestros terratenientes de la altura. Después de haber desbabado hasta el pepino angolo y de no haberse comido nada más que los rabos de las batatas jojotas, volvió al mes siguiente Juan Candelario al almacén de don Teodorito Valdepié, con todas las verduras de su finca:

-Aquí traigo, don Teodorito, otra carguita pa que usté me la estime.

-La carga está más chiquita aún, Juan. Parece que se te ha lavado la tierra.

-El chubasco ha sío grande, don Teodorito.

-Habrá que tener paciencia para cobrarte más adelante. Esta vez no puedo abonarte ni siquiera el interés sobre los intereses del préstamo. Tú sigue trabajando que mientras yo viva, yo no dejo en la calle a ningún jíbaro decente.

-Asina Dios se me lo aconseje.

Se pusieron a trabajar Juan Candelario y su jíbara como dos demonios, sin hacerle dengues ni a la fiebre, ni al tabardillo, ni al vértigo. Eran dos lomos de bestia curvados sobre el terreno, con el sometimiento brutal que da la finca cuando no salva, con esa voraz piojera de la desgracia que ha acabado con la pujanza, con la ilusión, con la moral de nuestros terratenientes de altura. Después de destallar hasta los rabos de las batatas jojotas y de no haberse comido nada más que el palmiche de los cerdos, volvió al mes siguiente Juan Candelario al almacén de don Teodorito Valdepié, con la última gota de verdura de su finca:

-Aquí traigo, don Teodorito, otra carguita pa que usté me la estime.

-La carga está más chiquita que nunca, Juan. Parece que se te ha salado la tierra.

-La hormiguilla ha sío grande, don Teodorito.

-Habrá que tener paciencia para cobrarte más adelante. Esta vez no puedo abonarte ni siquiera el interés sobre los intereses del interés del préstamo. Tú sigue trabajando que mientras yo viva, yo no dejo en la calle a ningún jíbaro decente.

-Asina Dios se me lo aconseje.

Cuando hubo entregado su última carga, Juan Candelario se sentó una noche, frente a su bohío, a seguirle la lucecita a un cucubano para ver si se le ocurría algo. La mujer, adivinando la desazón de su hombre, se le sentó al lado, por si acaso le daba a otro cucubano por volar cerca del primero. La jíbara de Juan Candelario era una hembra padecedora, con el corazón más bueno que una marifinga; sabía cuando el coraje de un hombre necesitaba de un sobo de mano encariñada. A Juan Candelario se le adormeció la pena bajo los dedos cuarteados de su jíbara:

-Ya esta finca no es de nojotros ná más que a medias. Semos casi agregaos, Juana.

-Tú eres el que mandas, Juan.

-Toas las cosas malas han venío juntas y don Teodorito lleva bien la cuenta, Juana.

-Haberá que entregal la finca, Juan.

Juan Candelario se arrugó como una hoja de tabaco oyendo la simple verdad que le había descubierto su jíbara. Para él entregar la finca era como caer en el limbo. El finquista había visto nacer sus pies en aquel barro cipey y tenía por la tierra ese oscuro cariño que sabe poner en su finca un terrateniente jíbaro. La finca había sido de su bisabuelo, la achicó su abuelo, la volvió a agrandar su padre y a Juan Candelario la pena le retorcía las tripas cuando pensaba que fuera él quien tuviera que entregarla.

Desde el momento en que entró en cuentas la refacción, Juan Candelario solo tuvo un pensamiento bravo: pagar aquella manita de ayuda que había estrangulado a tantos finquistas de Puerto Rico. La cogió porque le dio por sembrar unos palitos de café para aprovechar una sombra baldía que le había crecido en los barbechos. En el pueblo le hicieron un cuento fantástico de lo mucho que producía ese grano mártir, que era el pan de la montaña, del cual todo el mundo huía, porque al cañero le dio por decir que la flor del café atraía a los huracanes. Don Teodorito le prestó setenta y cinco pesos y al final del año, cuando aún estaban los palos niños, ya le debía a su prestamista más de cuatrocientos pesos, después de haberle entregado toda la verdura de su finca; ahora el jíbaro comprendía, dentro de su recelo de perdidoso, lo que era aquel pacto donde había que entregar los frutos sin que se pagara nunca el rédito, en una de esas tiendas mitad almacén, mitad pulpería, donde por unas telas y unas cuantas provisiones de boca, dejaba el jíbaro año tras año la sangre verde de sus entrañas.

¡Casi nada, se trataba nada menos que de don Teodorito Valdepié!, sanguijuela grasienta del interés triple sobre uno compuesto, cuyos calcetines se paraban solos cuando se descalzaba su ñame patricio. Aquel hombre pegado todo el día a un mondadientes, tenía una trágica matemática de pulpero. Su negocio consistía en no dejar nunca a ningún jíbaro decente en la calle mientras él estuviera vivo y tener a cada finquista agarrado por el pescuezo trabajando para él, sin pagar contribuciones ni peones.

Juan Candelario era el más avispado de los parientes de Juan Pateta y había visto demasiadas cosas en su vida para que lo engañara el mondadientes meloso de don Teodorito. Se sentía enfermo, con esa amarra en la cintura que padece el encorvado, con las manos tajeadas y el alma mugrienta. Su dilema era tan claro, que tenía la disyuntiva picándole en los ojos: o le pagaba a don Teodorito o este se llevaba la finca para su almacén. Bastaba que el pulpero le mandara los papeles de la corte, para que él tuviera que seguir andando con su jíbara, a vivir de las mañas. En estos momentos es cuando el pata de pon se le acerca a un jíbaro para hacerle su propuesta; se le apareció, de pronto, un compadre ambidiestro, que andaba con las posaderas puestas en tres tajarrias:

-¡Diache, Juan! ¿Qué te se acontece?

-Cosas de la finca que van mal. Haberá que entregal un día de estos.

-¿Debes mucho?

-Cuatrocientos y la quema.

-Pos sí que es un pleitito ese. Yo púe salval la mía pol unos deos que me dejé en el trabajo. Me dieron quinientos pesos pol ellos.

-¿Unos deos?

-Sí, mi amigo; un tajo de buena suelte. Me los colté con el mocho tumbando caña. Tié que pagal el gobierno.

-¡Pol la finca daba yo una mano!

-Me han dicho que pol ahí hay un colte aonde arreglan eso. Si te interesa, procura al crucificaol. Ese te salva.

Aquella noche la pasó Juan Candelario con desvelo de hamaca que es el peor desvelo del mundo. El recurso era un poco fuerte, pero el calcetín de don Teodorito era implacable. Por la mañana tenía los ojos hundidos pero una calma absoluta. A su jíbara le dijo:

-Voy a un colte pol aquí, a vel si me lío con unos pesos. Tú atiende la finca, Juana.

Cuando preguntó por el crucificador los cortadores bajaron el machete, como si le presentaran armas al intruso: se le acercó un gordiflón tostado, haciéndole un guiño de inteligencia:

-Teño un recao pa usté de un compai mío que a la ve es compai de usté.

-Venga el recao.

-Me jallo en un apuro y voy a peldel mi finca si no reúno cuatrocientos y pico de pesos. Lo que yo necesito es una ayúa de la comisión.

-Pa que le sobren cuatrocientos y pico limpios, haberá que pical tres dedos y una falange. Polque aquí cobro yo y los testigos.

-Usté me arregla eso.

-Si acaso vié usté a echalse pa atrás, más vale que no entre. Ya teña cuatro dándole tiempo a la coltá.

-Búsqueme usté trabajo que vengo mañana.

-Yo lo hablaré con el capatá pa que me lo apunte.

Juan Candelario empezó a cortar caña con tres dedos y una falange menos en la conciencia. Cada rato se secaba el sudor de la frente, un sudor nazareno, que le goteaba por última vez por entre cinco dedos. El crucificador lo rondaba continuamente, espiándole el ánimo, temeroso de que pudiera arrepentírsele su hombre, como otros picadores que allí estaban. Juan Candelario escuchaba a su alrededor el respingo irresoluto de los aspirantes; había algunos que bromeaban con su propio miedo:

-Adéjeme eso pa la semana que viene, ¡hom!, que me he descubielto que teño el deo bonito.

-Tiés que resolvel o dejal el trabajo. El crucificaol está peldiendo el aguante.

-Se lo contesto mañana.

Por las noches Juan Candelario no dormía palpándose los dedos de la mano comprometida. El pacto concertado con el crucificador le parecía una traición contra una pobre mano que había encallecido luchando por salvar la finca de su padre. Noche tras noche, por sus nervios agitados, pasaba toda la tragedia chica de la mutilación. La treta era macabra. No era cuestión de ir, estirar la mano y que le cortaran los dedos. Había que disimular, vivir con aquella angustia por unos cuantos días, para no tener obstáculos en la investigación.

Una mañana antes de partir, acarició a su jíbara por última vez con los dedos completos. La envejecida lo miró con su instinto de hembra padecedora, y le besó los dedos, como si hubiera adivinado el pacto:

-No se me apure si vengo talde. Teño que dil al pueblo, Juana.

-Dios te abendiga, Juan -contestó la envejecida involuntariamente. Juan Candelario se fue hasta el crucificador tan pronto llegó al corte:

-Me corre priesa el asuntito ese. Tié que sel esta talde.

-Esta talde será -contestó el feroz cirujano, asombrado a su pesar por la sangre brava del enclenque-. Afila bien el mocho, celca del cabo, que debe sel con tu mesmo filo.

Aquella tarde fue la crucifixión de los tres dedos y una falange de Juan Candelario. El hombre no pudo quejarse del trabajito. Le rodearon en el corte los testigos, le tendieron la mano sobre una piedra negra y el crucificador no dio nada más que un solo golpe. El dolor vino en ayuda del pequeño héroe y lo desmayó.

Del cañaveral lo recogieron el crucificador y los tres testigos para llevarlo a curar y jurar el informe. Cuando llegó hasta el practicante del poblacho, aún seguía sin conocimiento. Se le había desmoronado el coraje, no ante el dolor de la mano, sino ante la tramposería del espíritu. Era la primera canallada, una canallada impuesta por la miseria, después de haberse baldado la cintura, de haber desbotonado hasta las cepas machorras, de no haber comido otra cosa que no fuera el palmiche de los cerdos. El desmoronamiento lo libró de los horrores de nuestra cirugía industrial.

Juan Candelario volvió a su finca, más pálido que un lerén, con la mano vendada, buscando el amparo mimoso de su jíbara. La envejecida se pasó toda la noche con los vendajes encanallecidos apretados contra su corazón.

La cura fue monstruosa, el expediente largo, pero Juan Candelario obtuvo sus cuatrocientos y pico de pesos y fue al pueblo a buscar a don Teodorito:

-Aquí tié usté sus chavos, don Teodorito. Deme el recibo.

-¿Para qué necesitas tú recibo, malgenioso? Deja eso hasta el domingo que venga el tenedor de libros.

-Deme el recibo agora aquí, don Teodorito. Usté anda muy bien de salú y sería una lástima que le ocurriera un arsidente. Pagarle a usté me cuesta a mí tres déos y una mitá.

Don Teodorito Valdepié tenía una gran ilusión por seguir parando su calcetín por muchos años. Le entregó el saldo, olisqueando la tragedia de su refaccionado, con el mondadientes quieto por el miedo.

Desde aquel pago Juan Candelario fue un jíbaro enconado, que cada vez que podía robarle un atierro a su finca, se ponía a mirarse la mano mutilada con una extráviga fijeza. La jíbara se le sentaba al lado, a contarle cositas buenas a la mano herida de su Juan, para que su arrullo de hembra consolara a su hombre de aquel dolor muñoso. Algunas veces Juan Candelario se apretaba la boca, con una pena que no era de este mundo:

-Carijo, me duele esta mano como no me había dolío nunca, ni cuando la cura, Juana.

-Adéjame tentártela un poco, Juan.

-No, si el dolol no es asina de esos. Me duele como pué dolel una injustisia. Este dolol no tié cura ni consuelo güeno, Juana.

En estos momentos es cuando el pata de pon se le acerca a un jíbaro para hacerle su propuesta. Se le apareció, de pronto, un compadre ambidiestro, que andaba con las posaderas puestas en tres tajarrias:

-¡Diache, Juan! ¿Qué se te acontece?

-Cosas de esta mano que me duele como si se me estuviera prudriendo. Haberá que coltalse el brazo un día de estos.

-¿Duele mucho?

-Más que los cuatrocientos pesos y la quema.

-Pos sí que es un pleitito ese. A mí el dolol me lo quitó la candela.

-¿La candela?

-Sí, mi amigo, una candelita que le metí a un ranchón de enlatado de mi prestamista. Tié que pagarle agora él a to el mundo.

-¡Pol quitalme este dolol le pegaba yo fuego al pueblo entero!

-Me han dicho que pol ahí vamos a tenel mucha candela ahoritita. Si tiés interés, arrecuelda que esta noche es noche de candelaria. Esta noche la que salva es la candela.

Como si estuvieran pendientes de una palabra diabólica, empezaron a arder los barbechos y los resquebrajos de la lejanía. ¡Grande fiesta de la candela la Candelaria de Puerto Rico! Fiesta que prende en barrancales y barranquillas, donde no crecen más frutos ni más flores, que los amargos frutos y flores de la aguantatúa; noche donde la candela se come a pedazos a la mala suerte, para que descanse la cintura baldada de nuestro finquista; júbilo religioso cerca de fogatas y humaredas, donde un jíbaro decente se descuelga de los hombros los murciélagos de la desgracia. Juan Candelario se puso de pie, dinamizado por la vieja caricia de la candela.

Era la primera vez que en la finca de Juan Candelario no se habían encendido a tiempo los tizones alegres de la candelaria. ¡Cuando mozo encendía su hoguerita porque le iba bien al hombre!

-¡A Juancho Candelario le va bien la candela de la candelaria! -más tarde, para guardarle el recuerdo a su mai, que año tras año se ahumaba los ojos con el chorrito de la candela, para darle gusto a su hijo y apagar siempre las brasas con la misma guasita-: ¡A Juancho Candelario le va bien la candela de la candelaria! -por el resto de los años, como una espantada grande que le puede dar un jíbaro decente a los murciélagos de la desgracia. La jíbara de Juan Candelario se tiró a reunir una bruca, entre la hojarasca de la finca, para que no muriera también aquella otra parte de su hombre, un hombre que ya había empezado a morir por tres dedos y una mitad, a quien el rencor de una injusticia estaba pudriendo poco a poco.

Como un niño embelesado Juan Candelario se sentó junto a su jíbara a escuchar los crujidos de las ramas estallantes. La candela se le iba metiendo poco a poco por los ojos, removiendo sus fibras de mozo, calentándole el coraje desmoronado, sintiendo que los dedos de la mano le estaban naciendo de nuevo, para empuñar un pensamiento. Estuvo encuclillado junto a su jíbara hasta que se apagó el último tizón de su candelaria. Ella lo vio levantarse más feliz que nunca:

-Muchas grasias pol habelme salvao unos recueldos que yo quieo mucho, el de mí cuando moso, el de mí mai, Juana.

-A Juancho Candelario le va bien la candela de la candelaria, Juan.

-Deme usté un besito pol si acaso se me acontece algo esta noche. ¡Lo que es la candela! Jasta hoy no se me había ocurrío. Ande, deme el besito que teño que dilme, Juana.

La jíbara tembló un momentito pero no le dijo nada. Le dio el beso a su hombre, lo acompañó hasta los espeques y le dijo involuntariamente:

-Dios te abendiga, Juan.

Juan Candelario tiene el pecho lleno de candela, de la candela alegre y chismosa de su mocedad, candela de candelaria, llama que achispa al jíbaro, como si alguien le descolgara de los hombros los murciélagos de la desgracia. Por el camino, platicaban con él cuatrocientas hogueras de jíbaros candelistas:

-¡Ahí va Juan Candelario con el pecho lleno de candela!

-¡A Juancho Candelario le va bien la candela de la candelaria!

-¡Corre a tu asunto, Juan Candelario, que esta noche la que salva es la candela!

Llegó al pueblo en tres trancos, con todos los fósforos de su cajeta saltando de minúsculo goce; en el pueblo le saludaron las ingenuas candelillas de los títeres, que encendían sus pequeñas bracerías en los solares aislados:

-¡Aquí está Juan Candelario con el pecho lleno de candela!

-¡A Juancho Candelario le va bien la candela de la candelaria!

-¡Corre a tu asunto, Juan Candelario, que esta noche lo que salva es la candela!

Juan Candelario se metió en el patio de don Teodorito Valdepié, con los dedos llenos de una misteriosa comezón, y se puso a reunir una brusca entre la basura de la trastienda. ¡Juy, qué alegría la de aquella mano cuando encendió la punta de un saco, y el saco humeó el serrín, y el serrín al cajón, y el cajón al trasto, y el trasto a la ristra, y la ristra al gas, y el gas al calcetín, y el calcetín al pulpero, y el pulpero a la libreta del interés triple sobre un compuesto.

Juan Candelario se escurrió hasta la acera del frente para contemplar, con su muñón en alto, la más grande candelaria que jamás se hubiera encendido en aquel beatífico pueblo. Lo menos que hubiera podido sospechar la policía era que aquel jíbaro bobón, que contemplaba la candela con la cara risueña de un niño encandilado, fuera el autor de un incendio malicioso.

El pueblo entero creyó que el fuego del almacén había sido otra jaibería² de don Teodorito Valdepié para cobrar de sus pólizas. Cuando la aseguradora se decidió a remover los escombros, buscando eximentes para su pleito, se encontró con un esqueletito meloso, que dormía como un bendito, anestesiado aún por la fragancia bruta y sucia de un calcetín de pulpero.

FIN

Cuentos para fomentar el turismo, 1946


 Emilio S. Belaval_________PortoRico

1. Jíbaro: perteneciente o relativo al campesino de ascendencia española, generalmente en las regiones montañosas de Puerto Rico.
2. Jaibería: astucia.


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