Pais forçam filhos a lavar as mãos e governos levam pessoas
a morrer pela pátria. São exemplos de como uma pessoa é capaz de determinar o comportamento
de outra pessoa.
Normalmente, não pensamos que o comportamento do filho é
resultado de genes no corpo do pai agindo sobre o corpo do filho. Preferimos
falar em convencimento, autoridade ou persuasão. Mas, quando esse fenômeno é
observado entre animais de diferentes espécies, fica difícil imaginar que o
comportamento induzido não resulte da ação direta de genes.
A capacidade de um gene, localizado em um ser vivo, de agir
sobre outro ser vivo foi proposta inicialmente por Richard Dawkins, que chamou
o fenômeno de fenótipo estendido. Muitos duvidavam da existência desses genes.
Agora, pela primeira vez, um desses genes foi isolado e caracterizado.
No final do século 19, cientistas alemães observaram um
comportamento estranho nas lagartas de uma espécie de mariposa chamada Lymantria
dispar. Lagartas normais passam a noite se alimentando de folhas na copa das
árvores. Antes do amanhecer, elas descem e se escondem. Esse comportamento
evita que sejam devoradas pelos pássaros.
Mas em algumas vezes as lagartas parecem enlouquecer. Antes
do raiar do dia, vão para o topo das árvores, agarram-se às folhas e ficam
imóveis, esperando a morte. Que chega pelo bico de um pássaro. Décadas mais
tarde, foi descoberto que elas “enlouquecem” após serem infectadas por um
baculovírus.
Do ponto de vista do vírus, o comportamento suicida das
larvas é perfeito. Após o vírus ter se multiplicado no interior das larvas,
elas rumam para o topo das árvores e esperam. As aves comem as larvas
infectadas, levando o vírus para outras árvores. O vírus se espalha rapidamente
pela floresta. Se a larva infectada morre no seu esconderijo diurno, a
disseminação do vírus é lenta, pouco eficiente. O vírus parece “convencer” a
larva a mudar seu comportamento. Mas como isso é possível? Seguramente não rola
um papo entre vírus e larva.
Quando os cientistas sequenciaram o genoma do baculovírus,
descobriram um gene estranho, que parecia não ser necessário para a
sobrevivência do vírus. Esse gene, chamado de EGT, produzia uma enzima capaz de
inativar o hormônio 20-hidroxiecdisona, que controla o desenvolvimento das
larvas. Quando a quantidade desse hormônio aumenta, a larva se transforma em
pupa, produzindo o casulo do qual emerge a mariposa adulta.
Cientistas imaginaram que talvez o aumento e a diminuição
diária dos níveis desse hormônio, antes da pupação, seria o responsável pela
migração da larva para a copa da arvore ao anoitecer e sua volta para o
esconderijo ao amanhecer. Será que o vírus, destruindo o hormônio no
hospedeiro, estaria manipulando seu comportamento, induzindo a larva ao
suicídio?
Para testar essa hipótese, cientistas construíram
baculovírus recombinantes em que o gene EGT foi inativado. O vírus modificado
infectou a larva e se reproduziu normalmente. Mas as larvas infectadas acabavam
morrendo, cheias de vírus, não no topo das árvores, mas em seu esconderijo,
longe das aves.
Esse resultado demonstra que o baculovírus carrega em seu
genoma um gene cuja única função é destruir o hormônio que controla o
comportamento das larvas, forçando sua exposição às aves famintas. Esse gene
não somente altera o comportamento das larvas, mas indiretamente induz as aves
a comer as larvas e espalhar o vírus.
Nada mal para um vírus que não tem cérebro nem estudou
estratégia de marketing em um MBA. Provavelmente, ocorreu que uma cópia do gene
EGT acabou inserido acidentalmente no genoma de um baculovírus em algum momento
do passado. Por se reproduzir mais rapidamente, o vírus com esse novo gene
acabou se tornando o baculovírus predominante nas florestas europeias.
À medida que mais espécies tiverem seus genomas
sequenciados, mais exemplos de genes com fenótipos estendidos serão
descobertos. Será que os genes que permitem que o cérebro de um pai argumente
com seu filho e o induza a lavar as mãos antes do almoço não podem ser considerados
genes com fenótipos estendidos? E os genes que permitem a um recém-nascido
emitir um choro capaz de fazer os pais correrem até o berço? Eles podem ser
considerados genes com fenótipo estendido?
- FERNANDO REINACH
27 Oct 2011
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