sábado, 11 de janeiro de 2014

Política Cultural

Marilia Kubota
Apesar dos esforços do Ademir Demarchi em fazer um amplo mapeamento da poesia no Paraná, publicar o resultado da investigação num jornal como o "Cândido" não está com nada. Nem antologia patrocinada pela BPPR, com fins marqueteiros. Em privado escrevi ao Ademir, não concordo com esse marketing patrocinado pelo estado. Ah, literatura e poder. Já vimos esse filme em Curitiba, com a Travessa dos Editores. Mas aqui, ter amnésia cultural é estratégico.

Jorginho da Hora Ver "artistas" e produtores culturais (hoje qualquer coisa é cultura e arte) chamando arte de produto como já vi na televisão e em jornais é melancólico. Para esses zé ruelas tudo isso que você escreveu aí é bobagem, não faz sentido algum. A única coisa que faz sentido para esses mercenários é a palavra estourar e sucesso, sendo que se sucesso é isso que eles imaginam, o traficante também é um homem bem sucedido, e daí ?

Mario Domingues Marilia Kubota, vou de moderado nesta questão... a iniciativa do mapeamento é da BPP, para a qual chamou o Ademir Demarchi... concordo com a má qualidade do Candido, na mesma linha rasteira do Rascunho (abordagens sempre calcadas em "mensagem" e significado" como se fosse possível fazer arte com espuma ou fumaça, e destaque editorial para os compadres, polemicas com grandes poetas, só pra chamar a atenção, etc). Mas discordo do fim marketeiro da iniciativa, porque poesia não traz cartaz pra ninguém no mundo em que a gente vive. Outra coisa: o produto é uma antologia, este é o resultado mais concreto. Topei participar porque respeito o crivo crítico do Demarchi, que não trabalha na linha dos compadrios... Longe de mim defender a a direção da bbltk, mas... ninguém consegue ser medíocre sempre, o tempo todo... até pouco tempo atrás estes meninos nem sabiam o que era poesia. Até a Gazeta do Povo, que escreve pra uma província tão minúscula que me recuso a chamar de Curitiba, até a Gazeta já anda publicando poesia, então, este mundo nem sempre é raso e rasteiro o tempo todo. 

Ademir Demarchi respeito as opiniões pessoais e as admiro, como a postura crítica da Marilia, que tentei convencer em participar da antologia, inutilmente, pois ela foi firme em sua decisão de não participar. No entanto, no que me diz respeito esse assunto, em primeiro lugar devo dizer que, embora procurando participar ativamente da cultura do Estado (entre antologias, ensaios e resenhas e revistas, escrevo há mais de 5 anos num jornal em Maringá) resido fora, muito longe daí da província, portanto alheio às questões locais que, sei, são figadais, sempre, e não me interessaram para decidir fazer o trabalho. Recebi um convite da instituição Biblioteca Pública do PR, que está acima das pessoas que possam eventualmente administrá-las, é uma instituição pública, tive total liberdade para fazer um trabalho que julgo sério, de pesquisa e de seleção e análise, no qual em nada teve interferência de qualquer pessoa. Os livros é que falam por si, no que há neles, não no que fazem deles. Antes de terem lido o trabalho que fiz, sequer o ensaio que escrevi já o estão tachando de "produto" me colocando na bacia de zé ruelas... Ora, zé ruela é o que não lê... Creio que o melhor a fazer é abandonar essa leitura desfocada e discutirem o conteúdo, o ensaio que escrevi e as questões que lá coloquei, bem como a antologia que sairá. A discussão está aí, e não nesse panfletarismo que somente seria aceitável se meu trabalho fosse o tal produto esvaziado que o Fora de Hora aí comenta sem ter lido... Além disso, no que diz respeito à instituição pública, cabe a ela realizar ações educativas e nesse quesito, no que diz respeito à antologia e ao ensaio e poemas publicados no Candido, não vejo marketing,mas o cumprimento dessa função, uma vez que os trabalhos falam por si - a antologia será distribuída em todas as bibliotecas publicas do Estado. E com isso não estou defendendo governo nenhum. Vejam a coleção Brasil Diferente feita no governo Lerner - ele se foi, mas o trabalho realizado pelo Miguel Sanches Neto está aí ainda ecoando para quem lê. Há que se fazer essas distinções e não confundir tanto as coisas. Estou preocupado com a formação de novos leitores, com a circulação da cultura do Estado (especialmente da poesia), que vai se disseminar com trabalhos como esse que tem um valor acima de questões políticas (que não devem ser menosprezadas, afinal isso também está no meu trabalho, não de forma partidarizada).

Marilia Kubota Tem razão, Jorginho, estamos na época de pleno vapor do marketing cultural. Para que possa sobreviver, a cultura está enquadrada em editais. Todos nós , artistas, nos últimos anos, corremos atrás de editais para poder sobreviver de nosso trabalho. Mas há quem se desvie dos editais e, por ser amigo do rei, tenha privilégios. Conhecemos esses casos aqui em Curitiba.

Mario Domingues o resultado, a culminância, o objetivo, o suporte, Ademir, é a antologia...todas palavras melhores que produto, palavra bastante judiada, que empreguei mal neste contexto. Abraço e parabéns pelo trabalho.

Ademir Demarchi Prezada Marilia, ainda que talvez (espero) não queira, sua afirmação, tal como está, deixa sugerido, já que o motivo originário dos comentários é o trabalho que fiz para a BP, que me enquadro nos que desviam dos editais, são amigos do rei, tem privilégios - por isso, já que você generaliza não fazendo a devida ressalva, digo que fui convidado a fazer um trabalho sobre poesia em nome da minha experiência (ou notório saber, como se diz no jargão legal para explicar por que às vezes não se faz licitação para elaborar um trabalho) que ela sim me autoriza a fazer isso, acima de todas essas questiúnculas, uma vez que, só para ficar no último trabalho, editei 6 números da Babel Poética, resultado de um projeto premiado em primeiro lugar entre 170 outros - nacionalmente - pelo MinC, por uma comissão composta por críticos e professores de universidades federais acima de qualquer suspeita. Indo por esse caminho anulatório do trabalho realizado daqui a pouco estarei sendo chamado de Leni Riefenstahl, ilustre colaboracionista do regime nazista... Ora, ora, ora, ocorre que estamos num espaço democrático, as instituições existem e falam mais alto que os que as ocupam eventualmente, instituições essas construídas graças ao esforço coletivo e das quais devemos exigir que tenham ações positivas como essas de publicar livros, publicar editais. Cordialmente, vou ler poesia. Abraço

Marilia Kubota Mário, um jornal patrocinado por uma Secretaria da Cultura não tem uma linha editorial totalmente isenta. Nem o Nicolau, que nasceu com uma concepção muito mais libertária tinha, sofria imposições na pauta. O "Cândido", com certeza, funciona para pagar dívidas de campanha eleitoral. É "obrigado" a trazer artigos sobre escritores do Paraná por ser patrocinado pelo governo do Paraná. Por isso encomenda pautas a gente que tem aval, como Ademir Demarchi, ou, se serve de nomes dos autores do Paraná, como Valencio Xavier. São duas publicações distintas, o "Candido", cujo co-editor é o diretor da Biblioteca Pública do Paraná e o "Rascunho", cujo editor é o empresário Rogério Pereira. Engraçado por tudo estar concentrado numa mesma pessoa, uma publicação, que cresceu espicaçando os poetas do Brasil se confunde com outra, que precisa tanto dos poetas como dos escritores do Paraná para ter legitimidade. Creio que o conluio entre o público e o privado confunde a todo mundo, e aí não se sabe o quanto um favorece o outro. A minha crítica em relação à atual gestão da Biblioteca Pública do Paraná sempre foi essa. Se isso não é mediocridade cultural , não sei o que é.

Marilia Kubota Ademir, em primeiro lugar: em termos de literatura, não há províncias. Há, sim, atitudes provincianas. Contesto a quem diga que Curitiba é uma província cultural, se há grandes escritores que nasceram aqui. Dalton nasceu aqui e se correspondia com os maiores escritores do Brasil, e lia literatura russa e alemã. Portanto, não é preciso morar em Nova Iorque para ser cosmopolita. Mas há os que dizem, em todos os lugares em que vão: "Curitiba é uma merda". E acham que a partir deles é que começaram as luzes na cidade. Esses provincianos, que ignoram a história da cidade, do Estado, do país e do mundo é que precisam do poder para se assegurar de suas virtudes nulas. O seu trabalho, Ademir, tenho, certeza, é muito profissional, como já foi a antologia "Passagens". Mas eu não tenho o mesmo ponto de vista em relação a "relações figadais". É muito mais do que divergências pessoais, se trata de postura política. Ou você aceita uma política cultural ou não. Em relação ao mapeamento, sei que listou muita gente boa e competente. Prefiro comentar quando ler a matéria impressa.

Marilia Kubota Ademir, o "amigo do rei" é outro...
Rogéria Reis Existe um plano nacional de cultura que o Estado busca cumprir. Assisti a uma palestra de uma representante do Minc em que afirmou a existência de verba para a cultura. A burocracia e complexidade dos editais deixa de fora os artistas populares e estes realizam uma arte independente com todas as dificuldades que todos já conhecemos.

Ademir Demarchi Marília, será um prazer ler suas críticas tanto ao ensaio do Candido quanto à antologia, se isso te motivar. Como disse antes, respeito e admiro sua opinião e meus comentários aqui são posturais, nada pessoais. abraço

Marilia Kubota Rogéria, as políticas culturais são determinadas por cada administração, de acordo com seu perfil. Do MinC vem a política dos editais , em que o Estado não pode mais criar projetos com recursos próprios. O jornal Nicolau, por exemplo, foi patrocinado pela Secretaria do Estado do Paraná, nos anos 90, não era projeto de lei de incentivo. Até a gestão anterior (Requião) havia projetos diretamente administrados pela Secretaria da Cultura que não eram terceirizados. Um artista poderia fazer uma reunião com o Secretario da Cultural e propor um projeto . Hoje isso não é mais possível, só os que são muito amigos conseguem reunião e aprovação de projetos fora das leis de incentivo.

Rogéria Reis Temos observado um movimento no campo da poesia.Digo movimento, pois tem se expandido a cada dia. Um movimento que se iniciou nas periferias de SP.Os rappers tem grande contribuição nisso.São coletivos de poesia por todo lado, com microfone aberto.Fora os grupos nas redes sociais. Uma febre que tem atraído a mídia. João do corujão, um grande incentivador da leitura e da poesia com seu coletivo "Corujão da poesia", ganhou destaque na mídia e já conta com apoio de artistas.
Penso que poesia já é economicamente viável sim até pelo recente interesse editorial. Vejam que Leminsnki vendeu horrores.
Aqui no RJ carioca que não é bobo nem nada já mapeou os coletivos de poesia e incluiu no circuito cultural.

Rogéria Reis E já lançou o movimento Rio capital da poesia, baseado no princípio da economia criativa, cidade criativa coisa e tal. É uma corrida do ouro. Diante disso é necessário que as cidades, regiões, seja lá o que for elejam seus nomes no cenário poético e invistam nesses nomes. Me parece que foi isso que a biblioteca pública tentou fazer e nisso vocês saíram na frente.

Rogéria Reis Achei interessante o Ademir Demarchi, ter esse cuidado de incluir na lista, os poetas que sempre acreditaram na poesia. Pensem que grande parte dos poetas mais expressivos não estão entre nós.Precisamos de um sociedade de poetas mortos mas também de vivos. Quanto as instituições? Cumprem seu papel positivista de legitimar.

Marilia Kubota Bem, sempre houve movimento na poesia, a questão é que agora há um maior interesse da classe média na poesia. Quando eu comecei, os conceitos de poesia e marginalidade andavam juntos. Não existiam saraus de poesia, as declamações eram feitas nos bares, como no Bar do Cardoso e no Trem Azul, e improvisadas, sem luzes e microfones. Hoje, para falar em público é preciso que tudo seja produzido. No recital "Cutucando a inspiração", em que participei, vi que para poetas como Baptista do Pilar e Altair de Oliveira, e próprio Geraldo Magela, falar um poema em público é algo muito natural. Gostaria de ter o dom desses poetas. Aliás, Magela foi outro que parece ter ficado fora do mapeamento do Ademir, e também Monica Berger, Eudes Berger...

Rogéria Reis Não que não houvesse mas era mais focal.Hoje o movimento é mais propagado até por conta das redes sociais e busca uma unificação. Não sei aí em Curitiba mas a poesia no RJ está com força total nas periferias e chegando nas escolas públicas. Em São Paulo também. Já temos festas literárias nas periferias e favelas.

Rogéria Reis Veja que dias atrás o Roberto Prado foi em um evento em Natal, onde o Marcos Prado foi homenageado. Achei interessante essa iniciativa e essa interação. E quanto a poesia marginal, o movimento não envolvia as donas de casa, por exemplo. Hoje, elas tiram seus caderninhos da gaveta e vão embora. Lindo de ver e muito emocionante também. Mulheres das favelas que perderam seus filhos na guerra do narcotráfico, encontraram na poesia uma forma de expressão.

E por aí vai.

CONVERSAS COM CASCAS DE ÁRVORE. TU,


tira a casca, anda,
tira-me, feito casca, da minha palavra.

É tarde já, mas nós
queremos estar nus e à beira
da navalha.

Paul Celan

Tradução: João Barrento

A QUEIMA DE LIVROS

Quando o regime ordenou que fossem queimados publicamente
Os livros que continham saber pernicioso, e em toda parte
Fizeram bois arrastarem carros de livros
Para as pilhas em fogo, um poeta perseguido
Um dos melhores, estudando a lista dos livros queimados
Descobriu, horrorizado, que os seus
Haviam sido esquecidos. A cólera o fez correr
Célere até sua mesa, e escrever uma carta aos donos do poder.
Queimem-me! Escreveu com pena veloz. Queimem-me!
Não me façam uma coisa dessas! Não me deixem de lado! Eu não
Relatei sempre a verdade em meus livros? E agora tratam-me
Como um mentiroso! Eu lhes ordeno:
Queimem-me!

Bertolt Brecht

Tradução: Paulo César Souza

SOBRE UM LEÃO CHINÊS DE RAIZ DE CHÁ



Os maus temem tuas garras.
Os bons alegram-se com teu garbo.
O mesmo
quero ouvir
de meus versos.

Bertolt Brecht

Tradução: Haroldo de Campos

Recordação


E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou.


- Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens" (Tradução de Maria João Costa Pereira).
Este é o momento em que
os lobisomens se
ficam pelo caminho.
Nenhum
esbirro vive
já.

O Homem, verdadeiro e solitário,
passeia o porte íntegro por entre
os Homens.

Paul Celan

Tradução: João Barrento

RETRATO DE UMA SOMBRA

RETRATO DE UMA SOMBRA 
Os teus olhos, rastro de luz dos meus passos;
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
a tua sobrancelha, orla pelo caminho da tragédia;
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;
as tuas faces, campos de armas da madrugada;
os teus lábios, hóspedes tardios;
os teus ombros, estátua do esquecimento;
os teus seios, amigos das minhas serpentes;
os teus braços, alámos à porta do castelo;
as tuas mãos, tábuas de juras mortas;
as tuas ancas, pão e esperança;
o teu sexo, lei do fogo na floresta;
as tuas coxas, asas no abismo;
os teus joelhos, máscaras da tua altivez;
os teus pés, campos de batalha dos pensamentos;
as tuas solas, criptas em chamas;
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.
Paul Celan
Tradução: João Barrento


(Do livro A morte é uma flor. Lisboa: Cotovia, 1998)
Na selva do sangue, aí
está a despedida, de dedos
finos, em
cada ponta, em forma de
coração, uma
lente, aí
os tigres caçam
o dia.

Paul Celan

Tradução: João Barrento

EPITÁFIO



Escapei aos tigres
Nutri os percevejos
Fui devorado
Pela mediocridade

Bertolt Brecht

Tradução: Haroldo de Campos

Cem Sonetos de Amor

Eu amo-te sem saber como, ou quando, ou a partir de onde. Eu simplesmente amo-te, sem problemas ou orgulho: eu amo-te desta maneira porque não conheço qualquer outra forma de amar sem ser esta, onde não existe eu ou tu, tão intimamente que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão, tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se.


Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"

In Sexus Veritas

Sinto a tua pele e sinto que vamos a tempo;
é quando sinto a tua pele que sinto que vamos a tempo;
deliciosamente a tempo;
pornograficamente a tempo.

Se não é pornográfico: então não é amor.

O cheiro;
o cheiro a tudo.

Se cheira a tudo, se sabe a tudo, se rasga tudo, se pisa tudo, se come tudo, se quer tudo, se te faz tudo: então é tudo.
Se é tudo: então é amor.


in "In Sexus Veritas", de Pedro Chagas Freitas

Encomenda de um ou mais exemplares (quase 1500 páginas) autografados, basta enviar e-mail para fabricaescrita@gmail.com

MANUAL DA NOVA POESIA


Mark Strand. Para Greg Orr e Greg Simon

1 Se um homem compreende um poema
terá problemas.

2 Se um homem vive com um poema
morrerá sozinho.

3 Se um homem vive com dois poemas
será infiel a alguém.

4 Se um homem concebe um poema
terá menos um filho.

5 Se um homem concebe dois poemas
terá dois filhos a menos.

6 Se um homem tem uma coroa na cabeça quando escreve
será descoberto.

7 Se um homem não usar uma coroa na cabeça enquanto escreve
não enganará ninguém a não ser ele mesmo.

8 Se um homem fica furioso num poema
será desprezado pelos homens.

9 Se um homem continuar furioso num poema
será desprezado pelas mulheres.

10 Se um homem denunciar publicamente a poesia
os seus sapatos ficarão cheios de urina.

11 Se um homem desiste da poesia a favor do poder
terá muito poder.

12 Se um homem se envaidecer por causa dos seus poemas
será amado pelos tolos.

13 Se um homem se envaidecer por causa dos seus poemas e amar os tolos
não escreverá mais.

14 Se um homem pede atenção por causa dos seus poemas
será como um burro ao luar.

15 Se um homem escreve um poema e elogia o poema de um companheiro
terá uma amante esplendorosa.

16 Se um homem escreve um poema e elogia exageradamente um poema
de um companheiro
afugentará a sua amante.

17 Se um homem reivindica o poema de outro
o seu coração ficará com o dobro do tamanho.

18 Se um homem deixar os seus poemas ficarem nus
terá medo da morte.

19 Se um homem tem medo da morte
será salvo pelos seus poemas.

20 Se um homem não tem medo da morte
poderá, ou não, ser salvo pelos seus poemas.

21 Se um homem termina um poema
banhar-se-á na esteira vazia da sua paixão
e será beijado pela página em branco.




(Versão a partir do original - reproduzido em New selected poems,Alfred A. Knopf, Nova Iorque, 2009, pp. 43-44 - e da tradução castelhana de Eduardo Chirinos reproduzida em Sólo uma canción, Pre-Textos, Valência, pp. 27-31).
El día que te besé, la última cucaracha
se murió. Las Naciones Unidas
abolieron todas las cárceles. El papa
admitió a Jean Genet como miembro
del Colegio de Cardenales. La
Fundación Ford, con gasto enorme,
reconstruyó la ciudad de Atenas.
El día que hicimos el amor, el dios pan
volvió a la Tierra, Eisenhower dejó
de jugar al golf. Los supermercados
vendieron mariguana. Y Apolo leyó
poemas en el parque Union Square.

El día que retozaste en mi cuerpo
las bombas se disolvieron.

Diane di Prima (Brooklyn, New York, EE.UU., 1934)

Traducción de José Vicente Anaya

TRES PEQUENAS PARÁBOLAS PARA MEUS AMIGOS POETAS


Stanley Kunitz

1
Certas espécies de sáurios, especialmente os lagartos, são capazes de largar as suas caudas como forma de auto-defesa quando se sentem ameaçadas. O apêndice separado, assumindo uma vida própria e remexendo-se furiosamente, desvia a atenção para si. Tão depressa como o gato-bravo lança as garras sobre a cauda que se agita, prendendo-a na areia para a abocanhar e esmagar, assim o lagarto livre escapa apressadamente. E uma nova cauda começa a crescer no lugar daquela que foi sacrificada.


2
A larva do escaravelho-tartaruga tem o excelente hábito de recolher os seus excrementos e restos de pele dentro de uma bolsa que carrega às costas quando avança em campo aberto. Se não fosse esse escudo fecal apareceria nu diante dos seus inimigos.


3
Entre os Beduínos, os poetas-pedintes do deserto são vistos com desprezo por causa da ganância, da habilidade para roubar e da sua venalidade. Nos diversos acampamentos toda a gente sabe que os poemas de louvor podem ser comprados, mesmo pelos piores canalhas, com comida ou dinheiro. Além disso, estes bardos vagabundos são conhecidos por roubarem ideias, versos e mesmo canções completas a outros. Muitas vezes a sua recitação é interrompida pelos gritos dos homens agachados em volta das fogueiras: "Farsantes. Roubastes isso deste e daquele!" Quando o poeta tenta defender-se, recorrendo a testemunhas que comprovem a sua honradez ou, em casos extremos, apelando a Alá, os seus ouvintes apupam-no, gritando, "Kassad, kaddad! Um poeta é um mentiroso."




(Versão do original reproduzido em The collected poems, W.W. Norton & Company, Nova Iorque/Londres, 2002, pp. 234-235).

REFLEXOS, REFLEXÕES

REFLEXOS, REFLEXÕES
Stanley Kunitz

Há uns anos cheguei à compreensão de que a força mais pungente de todas as tensões líricas resiste à consciência de que enquanto vivemos já estamos a morrer. Aceitarmos este tipo de conhecimento e, apesar dele, sermos capazes de nos mantermos íntegros e dotados de compaixão - esta é a razão última do trabalho em arte.

No âmago da existência de cada um de nós existe um fundo de energia que nada tem a ver com a identidade pessoal, mas que deriva do ser e funde-se com a natureza e o universo. O homem desempenha apenas um pequeno papel em todo o maravilhoso espectáculo da criação.

Os poemas seriam fáceis se as nossas mentes não estivessem tão atafulhadas com o ruído dos dias. A tarefa é conseguir chegar à outra margem, onde podemos escutar os ritmos profundos que nos ligam às estrelas e às correntes.


Eu insisto nas minhas tentativas de dominar a linguagem, de modo a não ter de mentir. E continuo a ler os mestres, porque eles contaminam-me com as possibilidades do humano.


Os poemas que escrevemos nunca nos satisfazem, uma vez que, mesmo nos casos mais felizes, não passam de um eco enfraquecido de uma canção que talvez tenha sido ouvida uma ou duas vezes no tempo de uma vida e que continuamente tentamos relembrar.


Eu gosto de pensar que é o amor do poeta pelo particular, pelas coisas deste mundo, que o conduz ao universal.


Uma coisa mal feita desmorona-se. Uma obra de arte defeituosa não demora mais do que uns anos a perder a maior parte da sua energia. Para o dizer de maneira simples, a conservação da energia é a função da forma.


Fomos todos expulsos do Jardim, mas os que mais sofrem no exílio são aqueles a quem ainda é permitido sonhar com a perfeição.


Por vezes sinto-me envergonhado por ter escrito tão poucos poemas sobre temas políticos, sobre as causas que me interessam. Mas então lembro a mim próprio que decidir viver como poeta no contexto do moderno super-estado é em si mesma uma acção política.


Há sempre uma canção que subjaz sob a superfície dos meus poemas. A luta entre o encantamento e o sentido. O encantamento quer dominar. Ele não precisa realmente de uma língua: tudo o que precisa é de sons. O sentido tem de lutar para se afirmar a si mesmo, para se engastar no ritmo e tornar-se inseparável dele.


Aos oitenta e sete anos Miró disse a um entrevistador que se sentia mais próximo dos "jovens - de todas as novas gerações". Da infância à maturidade, meditou ele, "sempre vivi uma vida muito intensa, quase como um monge, uma vida austera. Foram-se soltando as pequenas folhas, flutuaram, dispersaram-se a si mesmas. Mas o tronco da árvore e os ramos mantiveram-se sólidos."


Sim, admitiu ele, o seu estilo mudou - mudou várias vezes, de facto, ao longo da sua vida. Mas estas mudanças não implicaram uma rejeição do que fizera antes.


Na minha idade, depois de ultrapassares - ou de deploravelmente julgares que ultrapassaste - as ansiedades e complicações impertinentes da juventude, com que te deves confrontar se não com as questões simples e essenciais? Eu nunca me canso do canto dos pássaros e do céu e das estações. Quero escrever poemas que sejam verdadeiros, luminosos, profundos, sóbrios. Sonho com uma arte tão transparente que possas olhar através dela e ver o mundo.


(Versão do original reproduzido em The collected poems; W.W. Norton & Company, Nova Iorque/Londres, 2002, pp. 13-14).

Silêncio


Assim como do fundo da música 
brota uma nota 
que enquanto vibra cresce e se adelgaça 
até que noutra música emudece, 
brota do fundo do silêncio 
outro silêncio, aguda torre, espada, 
e sobe e cresce e nos suspende 
e enquanto sobe caem 
recordações, esperanças, 
as pequenas mentiras e as grandes, 
e queremos gritar e na garganta 
o grito se desvanece: 
desembocamos no silêncio 
onde os silêncios emudecem. 

- Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra" (Tradução de Luis Pignatelli)

Memória de Minhas Putas Tristes

"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza."


- Gabriel García Márquez, in 'Memória de Minhas Putas Tristes'.

EPITÁFIO 1919


A Rosa Vermelha desapareceu.
Para onde foi, é um mistério.
Porque ao lado dos pobres combateu
Os ricos a expulsaram de seu império.

Bertolt Brecht

Tradução: Paulo César Souza

A pequena realidade
duplicada
manda a sua loucura
cercar-te,
ora uma, ora outra,

amanhã
tudo isso recolherá a si,
e as palavras, sem disfarce,
nascem,
as primeiras.

Paul Celan

Tradução: João Barrento

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A Faca Não Corta o Fogo


a faca não corta o fogo,

não me corta o sangue escrito,

não corta a água,

e quem não queria uma língua dentro da própria língua?

eu sim queria,

jogando linho com dedos, conjugando

onde os verbos não conjugam,

no mundo há poucos fenómenos do fogo,

água há pouca,

mas a língua, fia-se a gente dela por não ser como se queria,

mais brotada, inerente, incalculável,

e se a mão fia a estriga e a retoma do nada,

e a abre e fecha,

é que sim que eu a amava como bárbara maravilha,

porque no mundo há pouco fogo a cortar




Herberto Helder em A Faca Não Corta o Fogo, súmula & inédita, pp. 66-67, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2008.
Mesmo que não possas fazer a vida como a queres,
isto ao menos tenta
quanto puderes: não a desbarates
nos muitos contatos do mundo,
na agitação e nas conversas.
Não a desbarates arrastando‑a,
e mudando‑a e expondo‑a
ao quotidiano absurdo
das relações e das companhias
até se tornar um estranho importuno.


Konstantinos Kavafis

TITOLO A PIACERE 82


La luce oggi sospira
in mezzo a una festa di nuvole decadenti,
mi piace quel suo strusciarsi indefinito
lungo i dorsi del tempo,
come un gatto randagio
vittima dell'ardore di un pasto gelido
Ieri notte ho chiuso gli occhi
con la bocca rigonfia di buio,
cena fredda di un maltrattato passato,
stamani la luce
ha ferito la casbah di specchi retrovisori
mi ha offerto i profumi della terra futura
e ha cucinato il presente,
rendendolo speziato e croccante
da mordere, come musica araba al sole.

__Marco Scarpulla__



Creio que foi o sorriso, 
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, 
morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade

No teatro


~Agnya Barto

Quando eu tinha
Oito anos,
Eu fui
Assistir balé.

Eu fui com minha amiga Lyuba
Nós no teatro fotografamos os casacos,
Fotografamos os xales quentes.
No teatro, em nossas mãos,
Deram passes para o vestiário.

Finalmente eu estou no balé!
Eu me esqueci de tudo no mundo.

Mesmo multiplicar três vezes três
Eu agora não conseguiria.
Finalmente estou no teatro,
Como eu esperei por isso.

Eu agora vejo uma fada
De lenço branco e grinalda de flores.
Eu me sento, nem ouso respirar,
Segurando o passe na mão.

De repente a orquestra ribombou as tubas,
Eu e minha amiga Lyuba
Chegamos a nos encolher ligeiramente.
De repente vi que não tinha mais o passe.

A fada girando no cenário
E para o cenário eu nem olhava.
Eu esquadrinhei os joelhos:
Não consigo encontrar o passe.

Talvez ele esteja
Em algum lugar embaixo da cadeira?
Para mim agora
Não há mais balé!

Com toda força as tubas tocam.
Os convidados dançam no baile,
Mas eu e minha amiga Lyuba
Procuramos o passe no chão.

Ele caiu em algum lugar...
Eu me arrasto sob a cadeira ao lado.
Maravilham-se as crianças:
– Quem está rastejando aí embaixo?

Uma borboleta esvoaçou pelo cenário
E eu não vi nada.
Procurava o passe pelo chão
E finalmente o encontrei.

E justo então as luzes se acenderam
E todos saíram da sala.
– Eu gosto muito de balé –
Eu disse para o pessoal.

1938

~em russo~

В театре
~Агния Барто

Когда мне было
Восемь лет,
Я пошла
Смотреть балет.

Мы пошли с подругой Любой.
Мы в театре сняли шубы,
Сняли теплые платки.
Нам в театре, в раздевалке,

Наконец-то я в балете!
Я забыла все на свете.

Даже три помножить на три
Я сейчас бы не смогла.
Наконец-то я в театре,
Как я этого ждала.

Я сейчас увижу фею
В белом шарфе и венке.
Я сижу, дышать не смею,
Номерок держу в руке.

Вдруг оркестр грянул в трубы,
Мы с моей подругой Любой
Даже вздрогнули слегка.
Вдруг вижу — нету номерка.

Фея кружится по сцене —
Я на сцену не гляжу.
Я обшарила колени —
Номерка не нахожу.

Может, он
Под стулом где-то?
Мне теперь
Не до балета!

Все сильней играют трубы,
Пляшут гости на балу,
А мы с моей подругой Любой
Ищем номер на полу.

Укатился он куда-то...
Я в соседний ряд ползу.
Удивляются ребята:
— Кто там ползает внизу?

По сцене бабочка порхала —
Я не видала ничего:
Я номерок внизу искала
И наконец нашла его.

А тут как раз зажегся свет,
И все ушли из зала.
— Мне очень нравится балет,—
Ребятам я сказала.


1938
O teu rosto é tão familiar para mim
Como se você vivesse comigo.
Longe, na rua e em casa
Eu vejo o teu fino perfil.
Os teus passos vêm atrás de mim
Onde quer que eu vá, você está lá,
Não é fácil pra você parar
De andar atrás de mim à noite?
Você não se esgueira ao meu lado
Mal eu espreito pela porta
Meio feita de ar e invisível,
Semelhante às visões do sono?
Eu frequentemente penso, se você não
No meio do cemitério, atrás da eira,
Sentou-se, silenciosa, sobre um túmulo
Envolta em seu lenço de algodão?
Eu fui me aproximando – você se sentou,
Eu cheguei perto – você se afastou,
Desceu em direção ao rio, e começou a cantar...
À tua voz os sinos
Responderam com o toque do carrilhão
E eu chorei, e esperei timidamente
Mas sob o som do carrilhão
Tua doce voz silenciou...
Mais um instante, mas não há resposta
O lenço surge momentaneamente além do rio...
Mas sei amargamente que em algum lugar
Ainda nos veremos novamente.

Aleksandr Blok

~em russo~

Твое лицо мне так знакомо,
Как будто ты жила со мной.
В гостях, на улице и дома
Я вижу тонкий профиль твой.
Твои шаги звенят за мною,
Куда я ни войду, ты там,
Не ты ли легкою стопою
За мною ходишь по ночам?
Не ты ль проскальзываешь мимо,
Едва лишь в двери загляну,
Полувоздушна и незрима,
Подобна виденному сну?
Я часто думаю, не ты ли
Среди погоста, за гумном,
Сидела, молча на могиле
В платочке ситцевом своем?
Я приближался - ты сидела,
Я подошел - ты отошла,
Спустилась к речке и запела...
На голос твой колокола
Откликнулись вечерним звоном...
И плакал я, и робко ждал...
Но за вечерним перезвоном
Твой милый голос затихал...
Еще мгновенье - нет ответа,
Платок мелькает за рекой...
Но знаю горестно, что где-то
Еще увидимся с тобой.


Александр Блок
Somos folhas breves onde dormem
aves de silêncio e solidão.

Somos só folhas ou o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.

Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.


Eugénio de Andrade

SONETO XVIII



Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Ás vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.


William Shakespeare
"O escritor não precisa de liberdade econômica. Tudo de que precisa é lápis e papel. Eu nunca soube que algo bom em literatura tivesse se originado da aceitação de uma oferta gratuita de dinheiro. O bom escritor nunca pede auxílio a uma instituição cultural. Está ocupado demais escrevendo alguma coisa. Se não é um escritor de primeira classe, ilude-se dizendo que não tem tempo ou liberdade econômica. [...] As pessoas na verdade têm medo de descobrir que podem suportar muita adversidade e pobreza. Têm medo de descobrir que são mais resistentes do que pensam. Nada pode destruir o bom escritor. A única coisa que pode alterar o bom escritor é a morte. Os bons não têm tempo para pensar no sucesso ou em ganhar dinheiro."


----Willian Faulkner

Flores


De um pequeno degrau dourado -, entre os cordões
de seda, os cinzentos véus de gaze, os veludos
verdes e os discos de cristal que enegrecem como
bronze ao sol -,vejo a digital abrir-se sobre um
tapete de filigranas de prata, de olhos e de cabe-
leiras.
Peças de ouro amarelo espalhadas sobre a ágata,
pilastras de um cetim branco e de finas varas de
rubis rodeiam a rosa d'água.
Como um deus de enormes olhos azuis e de formas
de neve, o mar e o céu atraem aos terraços de
mármores a multidão das rosas fortes e jovens.


- Arthur Rimbaud, in: Iluminações [Tradução de Lêdo Ivo].
Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

Heterónimo de Fernando Pessoa

NOVA POÉTICA



Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelhecem sem maldade.


[Manuel Bandeira, poema escrito em 1948]

El endecasílabo


Hay quietud en tu alma,
las palabras, piensas,
vienen del silencio
y amaneces siempre hecho poema.
De día es tu secreto,
escribirás de noche:

"morir así, sin haber hecho nada"

Julio Herrera y Reissig.
9 de enero de 1875 en Montevideo. Murió en 1910.
''Nós não podemos apontar a uma única solução definitiva de nenhum dos problemas que nos confrontam - políticos, econômicos, sociais ou morais, isto é, não temos que fazer com a conduta da vida. Nós somos novatos imóveis, e por essa razão podemos melhorar. Derivar a esperança do progresso é a tolice final, a última palavra na pobreza do espírito e mesquinhez da mente. Não há nenhuma necessidade ficar desanimado pelo fato que nós não podemos ainda ter uma solução definitiva de nossos problemas, um descanso - lugar além do que nós não necessitamos tentar ir.''

- Peter Brian Medawar.
'Quando o pecado se atreve a avançar, ele é proibido pela polícia. Quando se esconde, recebe um alvará.''

--Karl Kraus, e seus aforismos.

A lógica da pesquisa científica.

''(...) Acredito que a teoria — pelo menos alguma teoria ou expectativa rudimentar — vem sempre primeiro; que precede sempre a observação: e que o papel fundamental das observações e dos testes experimentais é mostrar que algumas das nossas teorias são falsas e, assim, estimular-nos a produzir outras melhores.
Conseqüentemente, afirmo que não partimos de observações, mas sempre de problemas — de problemas práticos ou de uma teoria que caiu em dificuldades. Uma vez que defrontemos um problema, podemos começar a trabalhar nele. Podemos fazê-lo por meio de tentativas de duas espécies: podemos prosseguir tentando primeiro supor ou conjecturar uma solução para o nosso problema; e podemos depois tentar criticar a nossa suposição, habitualmente fraca. Às vezes, uma suposição ou uma conjectura podem suportar por certo tempo a nossa crítica e os nossos testes experimentais. Mas, via de regra, logo descobrimos que as nossas conjecturas podem ser refutadas ou que não resolvem o nosso problema ou que só o solucionam em parte; e verificamos que mesmo as melhores soluções — aquelas capazes de resistir à crítica mais severa das mentes mais brilhantes e engenhosas — logo dão origem a novas dificuldades, a novos problemas. Assim, podemos dizer que o crescimento do conhecimento avança de velhos problemas para novos problemas, por meio de conjecturas e refutações.''

-- Karl Popper; A lógica da pesquisa científica.
"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada".


-----Ayn Rand

Una cena de Nochebuena


Guy de Maupassant

No sé exactamente el año. Llevaba todo un mes cazando por aquellos lugares con un brío impetuoso y una alegría salvaje, con ese ardor que se tiene para las pasiones nuevas. Me hallaba en Normandía, en casa de un pariente soltero, Jules de Banneville; y éramos solamente nosotros dos, una doncella, un doméstico y el guarda del castillo señorial. Este castillo, viejo edificio grisáceo rodeado de pinos, en cuyo interior había unas largas avenidas de castaños azotados por el viento, parecía abandonado desde hacía siglos. Un mobiliario antiguo era lo único que contenían aquellos salones siempre cerrados, donde antaño unos personajes, cuyos retratos se veían colgados en un corredor tan desapacible como las avenidas, recibían ceremoniosamente a los nobles vecinos.

Pero nosotros nos habíamos refugiado en la cocina, único rincón habitable de la mansión, una inmensa cocina, cuyas paredes, perdidas en las tinieblas, se iluminaban cuando se arrojaba un nuevo haz de leña en la amplia chimenea. Todas las noches, después de despabilar una dulce modorra ante el fuego, y una vez que de nuestras botas se había evaporado la humedad, subíamos a nuestra habitación, mientras que los podencos, allí mismo, como sonámbulos, soñando escenas de caza, lanzaban ladridos amortiguados.

La habitación era la única pieza del castillo que se había techado y enyesado completamente, a causa de los ratones. Pero la habían dejado sin muebles, blanqueada de cal, y, en las paredes, solamente colgaban unas escopetas, varios látigos y algunos cuernos de caza. Colocadas en los dos rincones de esta choza siberiana había dos camas, en las cuales nos deslizábamos tiritando.

Frente al castillo, a una legua de distancia, el acantilado caía a pico sobre el mar; y, noche y día, los poderosos vientos del océano arrancaban suspiros de los recios árboles encorvados, gemidos al techo y a las veletas, y hacían rechinar todo el venerable edificio, invadido por el viento que entraba por entre sus tejas sueltas, sus chimeneas grandes como abismos y sus ventanas, que no cerraban ya.

* * *

Aquel día había helado de una manera horrible. Al llegar la noche nos sentamos a la mesa, ante el gran fuego de la alta chimenea, donde asaban un lomo de liebre y dos perdices, que olían muy bien. Mi primo levantó la cabeza, y dijo:

-No hará calor cuando nos acostemos.

Indiferente, repliqué:

-No, pero tendremos patos en los estanques mañana por la mañana.

La sirvienta, que ponía nuestros cubiertos en un extremo de la mesa y los de los domésticos en el otro, preguntó:

-¿Saben los señores que esta noche es Nochebuena?

Seguramente no nos habíamos enterado, pues apenas mirábamos el calendario. Mi compañero contestó:

-Entonces esta noche es la misa del gallo. ¡Y por eso las campanas han estado sonando todo el día!

La sirvienta replicó:

-Sí y no, señor; también han tocado porque ha muerto Fournel padre.

Fournel padre, anciano pastor, era una celebridad del país. Tenía ochenta y seis años de edad, y nunca había estado enfermo hasta el momento en que, un mes antes, había cogido un frío al caerse dentro de una charca en una noche oscura. Al día siguiente se había quedado en cama, y desde entonces estaba agonizando. Mi primo se volvió hacia mí:

-Si quieres -dijo-, iremos dentro de un rato a ver a esas pobres gentes.

Quería hablar de la familia del viejo, de su nieto. que tenía cincuenta y ocho años de edad, y de su nieta política, que era un año más joven. La generación intermedia no existía ya desde hacía mucho tiempo. Vivían en un miserable chamizo, a la entrada de la aldea, a la derecha. Pero no sé por qué esta idea de la Nochebuena, en medio de nuestra soledad, nos dio ganas de charlar. A solas los dos, nos contábamos antiguas historias de Nochebuena, aventuras de esta noche loca, los pasados lances amorosos y los despertares del día siguiente, acompañados de otra persona, con sus sorpresas imprevistas, y el asombro de los descubrimientos.

De esta manera, nuestra cena duró mucho tiempo, fumando numerosas pipas; y embriagados por esas alegrías de los solitarios, alegrías contagiosas que nacen de repente entre dos amigos íntimos, hablamos sin parar, rebuscando en nuestros propios casos para comunicarnos esos recuerdos confidenciales del corazón que se escapan en las horas de efusión.

La doncella, que se había ido un buen rato antes, volvió:

-Voy a la misa, señor.

-¡Ya!

-Son las once y cuarto.

-¿Y si fuésemos también a la iglesia? -me preguntó Jules-; esta misa de Nochebuena es muy curiosa en el campo.

Acepté, y nos fuimos, envueltos en nuestras pieles de caza. Un filo agudo pinchaba el rostro y hacía saltar las lágrimas en los ojos. El aire crudo entraba de golpe en los pulmones y secaba la garganta. El cielo profundo, limpio y duro, estaba tachonado de estrellas, que parecían pálidas por la helada; brillaban no como si fuesen unos astros de fuego, sino de cristal, como unas cristalizaciones brillantes. A lo lejos, sobre la tierra de acero, seca y retumbante, resonaban los chanclos de los campesinos; y por todo el horizonte, las campanitas de los pueblos tañían, lanzaban sus sones penetrantes, como friolentos también, en la vasta noche helada.

En el campo no dormía nada. Los gallos, engañados por esos ruidos, cantaban; y cuando se pasaba por delante de los establos, se sentía rebullir a los animales, turbados por esos rumores de vida. Al aproximarse a la aldea, Jules se acordó de repente de los Fournel.

-¡Aquí está su choza! -dijo-. ¡Entremos!

Aporreó largo tiempo en vano. Entonces una vecina, que salía de casa para ir a la iglesia, al vernos, dijo:

-Están en misa, señores; han ido a rezar por el padre.

-Los veremos al salir -dijo mi primo.

La luna, en su ocaso, perfilaba a ras del horizonte su forma de hoz en medio de una siembra infinita de granos de luz, arrojados a puñados en el espacio. Y por la campiña negra, unas lucecitas temblorosas se encaminaban desde todas las partes hacia el puntiagudo campanario, que repicaba sin descanso. Entre los patios de las granjas, salpicadas de árboles, en medio de las llanuras sombrías, esas lucecitas daban pequeños saltos, a medio metro del suelo. Eran farolillos de cuerno que llevaban los campesinos para alumbrarse en la noche, caminando delante de sus mujeres, tocadas con un gorro blanco y envueltas en largos mantos negros, y seguidas de rapazuelos medio dormidos y cogidos de la mano.

Por la puerta abierta de la iglesia se divisaba el coro iluminado. Una guirnalda de velas de sebo, de las más baratas, daba una vuelta completa alrededor de la nave de la iglesia; y en el suelo, en una capilla, a la izquierda, un gran niño Jesús, sobre paja verdadera, en medio de ramas de abeto, enseñaba su desnudez sonrosada y amanerada.

La misa había comenzado. Los hombres, agachados, y las mujeres, de rodillas, rezaban. Estas gentes sencillas, reanimadas por la noche fría, contemplaban muy conmovidas la imagen torpemente pintada, y juntaban las manos tan cándidamente convencidas como intimidadas por el humilde esplendor de esta representación pueril. El aire helado hacía palpitar las llamas. Jules me dijo:

-¡Salgamos, se está mejor fuera!

Y por el camino abierto, mientras que los toscos campesinos se prosternaban y tiritaban de frío devotamente, nos pusimos a charlar otra vez de nuestros recuerdos, y durante tan largo rato, que había terminado la misa cuando llegábamos a la aldea.

Un hilo de luz se veía bajo la puerta de los Fournel.

-Velan al muerto -dijo mi primo-. Entremos en casa de esta pobre gente, eso les agradará.

Agonizaban unos tizones en la chimenea. La pieza, negra, cubierta de un barniz de suciedad y con sus vigas carcomidas y ennegrecidas por el tiempo, estaba llena de un olor sofocante a morcillas asadas en una parrilla. En el centro de la gran mesa, debajo de la cual el arcón del pan alzaba su tapa abombada como un vientre, una vela, en una palmatoria de hierro retorcido, desenroscaba hasta el techo el humo acre de su pabilo. Y los dos Fournel, el marido y la esposa, cenaban a solas.

Taciturnos, con un aire afligido y sus caras de campesinos embrutecidos, comían gravemente sin decir una palabra. En un solo plato, colocado entre los dos, un gran trozo de morcilla despedía un olor pestilente. De cuando en cuando arrancaban un pedazo con la punta del cuchillo, lo aplastaban en el pan, que comían a bocados y después lo masticaban lentamente.
Cuando el vaso del marido estaba vacío, la mujer, cogiendo la cántara de sidra, se lo llenaba.

Al entrar nosotros, se levantaron, nos hicieron sentar, nos ofrecieron que “hiciésemos como ellos”, y, ante nuestra negativa, siguieron comiendo. Al cabo de unos minutos de silencio, mi primo preguntó:

-Pero, Anthime, ¿el abuelo de ustedes ha muerto?

-Sí, mi buen señor, ha muerto ya.

Tomó el silencio. La mujer, por cortesía, despabiló la vela. Entonces, por decir algo, añadió:

-Era muy viejo ya...

Su nieta política, de cincuenta y siete años, continuó:

-Sí, su tiempo habla terminado; ya nada tenía que hacer aquí.

De repente, me entraron ganas de ver el cadáver de ese centenario, y les rogué que me lo enseñasen. Los dos campesinos, plácidos hasta entonces, se conmovieron bruscamente. Sus ojos inquietos se interrogaron, y no respondieron. Mi primo, viendo su turbación, insistió. Entonces el hombre, con aire desconfiado y cazurro,  preguntó:

-¿Y de qué les servirá eso?

-De nada -dijo Jules-, pero eso se hace siempre. ¿Por qué no quieren enseñarlo?

El campesino se encogió de hombros:

-¡Oh, yo, yo sí quiero! Sólo que a estas horas es penoso.

Mil suposiciones nos pasaban por la mente. Y como los nietos del muerto no se movían, y permanecían frente a frente, con los ojos bajos, con esa cara de palo de las gentes descontentas, que parece decir: “Márchense”, mi primo le habló con autoridad:

-Vamos, Anthime, levántense y condúzcannos a su habitación.

Pero el hombre, que había tomado su resolución, respondió con gesto enfurruñado:

-Ésa es la pena, señor, no ha podido estar allí.

-Pero entonces, ¿dónde está?

La mujer atajó a su marido:

-Se lo voy a decir: lo hemos puesto hasta mañana en el arcón, porque no teníamos ningún sitio.

Y retirando el plato de morcilla, levantó la tapa de su mesa, se inclinó con la vela para iluminar el interior del gran cofre abierto, en cuyo fondo distinguimos una cosa gris, una especie de paquete largo del que salía por una punta una cabeza descarnada, con unos cabellos blancos desgreñados, y por la otra, dos pies desnudos.

Era el viejo, muy enjuto, con los ojos cerrados, enrollado en una manta de pastor, durmiendo allí su último sueño en medio de unos mendrugos de pan casi tan viejos como él. ¡Y habían cenado allí, encima del muerto! Jules, indignado y temblando de cólera, gritó:

-¿Por qué no lo han dejado en su cama? ¡ Palurdos!

Entonces la mujer se puso a lloriquear, y en seguida:

-Se lo voy a decir, mi buen señor; no tenemos más que una cama en la casa. Antes nos acostábamos con él, puesto que sólo éramos tres. Desde que cayó enfermo, nos acostamos en el suelo; y es muy duro, mi buen señor, en este tiempo. Pues bien, cuando murió, en seguida nos hemos dicho: “Puesto que no sufre ya, ¿de qué le sirve dejarlo en la cama? Podemos muy bien ponerle en el arcón hasta mañana”; pues ¡no podíamos dormir con el muerto, mis buenos señores!...

Mi primo, exasperado, salió bruscamente dando un portazo, y yo le seguí riendo nerviosamente entre lágrimas.

FIN


Biblioteca Digital Ciudad Seva

Los tres reyes magos


Rubén Darío

- IV -

-Yo soy Gaspar. Aquí traigo el incienso.
Vengo a decir: La vida es pura y bella.
Existe Dios. El amor es inmenso.
¡Todo lo sé por la divina Estrella!

-Yo soy Melchor. Mi mirra aroma todo.
Existe Dios. Él es la luz del día.
La blanca flor tiene sus pies en lodo.
¡Y en el placer hay la melancolía!

-Soy Baltasar. Traigo el oro. Aseguro
que existe Dios. Él es el grande y fuerte.
Todo lo sé por el lucero puro
que brilla en la diadema de la Muerte.

-Gaspar, Melchor y Baltasar, callaos.
Triunfa el amor y a su fiesta os convida.
¡Cristo resurge, hace la luz del caos
y tiene la corona de la Vida!



Biblioteca Digital Ciudad Seva

Macbeth

“Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã
Arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia,
Até a última sílaba do registro dos tempos.
E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos
o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve!
A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator
Que se pavoneia e se aflige sobre o palco –
Faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz.
É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria
E vazia de significado”.


Macbeth, Ato 5, Cena 5

Snow

Snow

All going to the whiteness, earthly,
As an unmoving immense wall,
There pours a snow, becoming denser,
And shields us from daylight at all.

Not giving to its move attention,
How slow is its heavy stream –
It seems, the force of gravitation
Directs it to the earthly realm.

Behind this shroud of the whiteness,
Towns are hidden and green woods,
Behind this whiteness of the silence,
There are the voices, rings and hoots.

Behind this curtain, white and giant,
Lies winter in the sunny lights,
Behind this mental whitened bound
Our universe, eternal, lies.

Then let all be in it in rightness:
Wide rivers’ floods and birds returns,
The cannonades of July’s thunders,
The noisy rain, the noiseless snows.

Konstanin Vanshenkin (1925-2012)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Mis palabras llovieron sobre ti acariciándote.
Amé desde hace tiempo tu cuerpo de nácar soleado.
Hasta te creo dueña del universo.
Te traeré de las montañas flores alegres, copihues,
avellanas oscuras, y cestas silvestres de besos.

Quiero hacer contigo
lo que la primavera hace con los cerezos.

PABLO NERUDA