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quarta-feira, 18 de março de 2020

SONETO DAS VOGAIS


- Arthur Rimbaud

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul, vogais,
Ainda desvendarei seus mistérios latentes:
A, velado voar de moscas reluzentes
Que zumbem ao redor dos acres lodaçais;

E, nívea candidez de tendas e areais,
Lanças de gelo, reis brancos, flores trementes:
I, escarro carmim, rubis a rir nos dentes
Da ira ou da ilusão em tristes bacanais;

U, curvas, vibrações verdes dos oceanos,
Paz de verduras, paz dos pastos, paz dos anos
Que as rugas vão urdindo entre brumas e escolhos;

O, supremo Clamor cheio de estranhos versos,
Silêncios assombrados de anjos e universos:
— Ó! Ômega, o sol violeta dos Seus olhos!

(Trad.: Augusto de Campos)


terça-feira, 22 de outubro de 2019

ADORMECIDO NO VALE



Arthur Rimbaud

É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata
Como se delirasse, e o sol da montanha
Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
Banhando a nuca em frescas águas azuis,
Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
Frágil, no leito verde onde chove luz.

Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.

Trad.: Ferreira Gullar

sábado, 9 de agosto de 2014

Ofelia



Arthur Rimbaud
                                  I
En las aguas profundas que acunan las estrellas,
blanca y cándida, Ofelia flota como un gran lilio,
flota tan lentamente, recostada en sus velos...
cuando tocan a muerte en el bosque lejano.

Hace ya miles de años que la pálida Ofelia
pasa, fantasma blanco por el gran río negro;
más de mil años ya que su suave locura
murmura su tonada en el aire nocturno.

El viento, cual corola, sus senos acaricia
y despliega, acunado, su velamen azul;
los sauces temblorosos lloran contra sus hombros
y por su frente en sueños, la espadaña se pliega.

Los rizados nenúfares suspiran a su lado,
mientra ella despierta, en el dormido aliso,
un nido del que surge un mínimo temblor...
y un canto, en oros, cae del cielo misterioso.

                             II

¡Oh tristísima Ofelia, bella como la nieve,
muerta cuando eras niña, llevada por el río!
Y es que los fríos vientos que caen de Noruega
te habían susurrado la adusta libertad.

Y es que un arcano soplo, al blandir tu melena,
en tu mente transpuesta metió voces extrañas;
y es que tu corazón escuchaba el lamento
de la Naturaleza -son de árboles y noches.

Y es que la voz del mar, como inmenso jadeo
rompió tu corazón manso y tierno de niña;
y es que un día de abril, un bello infante pálido,
un loco miserioso, a tus pies se sentó.

Cielo, Amor, Libertad: ¡qué sueño, oh pobre Loca!
Te fundías en él como nieve en el fuego;
tus visiones, enormes, ahogaban tu palabra.
-Y el terrible Infinito espantó tu ojo azul.

                             III

Y el poeta nos dice que en la noche estrellada
vienes a recoger las flores que cortaste,
y que ha visto en el agua, recostada en sus velos,
a la cándida Ofelia flotar, como un gran lis.


Biblioteca Digital Ciudad Seva

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Flores


De um pequeno degrau dourado -, entre os cordões
de seda, os cinzentos véus de gaze, os veludos
verdes e os discos de cristal que enegrecem como
bronze ao sol -,vejo a digital abrir-se sobre um
tapete de filigranas de prata, de olhos e de cabe-
leiras.
Peças de ouro amarelo espalhadas sobre a ágata,
pilastras de um cetim branco e de finas varas de
rubis rodeiam a rosa d'água.
Como um deus de enormes olhos azuis e de formas
de neve, o mar e o céu atraem aos terraços de
mármores a multidão das rosas fortes e jovens.


- Arthur Rimbaud, in: Iluminações [Tradução de Lêdo Ivo].

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Para Ela



À Elle
L'hiver nous irons dans un petit wagon rose
Avec des coussins bleus.
Nous serons bien. Un nid de baisers fous repose
Dans chaque coin moelleux.
Tu fermeras l'oeil, pour ne point voir, par la glace,
Grimacer les ombres des soirs,
Ces monstruosités hargneuses, populace
De démons noirs et de loups noirs.

Puis tu te sentiras la joue égratignée...
Un petit baiser, comme une folle araignée,
Te courra par le cou...

Et tu me diras: "Cherche!" en inclinant la tête,
–Et nous prendrons du temps à trouver cette bête
Qui voyage beaucoup...

Arthur Rimbaud
(En Wagon, le 7 octobre 1870)

A Ella

En el invierno, iremos en un pequeño vagón rosa
con cojines azules.
Nos sentiremos bien. Un nido de besos locos descansa
en cada rincón mullido.
Cerrarás los ojos, para no ver, por el cristal,
gesticular las sombras de la tarde,
esas monstruosidades coléricas, populacho
de demonios negros y de lobos negros.

Luego te sentirás la mejilla arañada...
Un pequeño beso, como una loca araña,
te correrá por el cuello...

Y me dirás: "¡Busca!", inclinando la cabeza,
–y nos llevará tiempo encontrar a esta bestia
que viaja mucho...

domingo, 21 de outubro de 2012


"Acredito que estou no inferno, portanto estou nele."

"A ação não é vida, mas sim uma maneira de gastar as forças."

"A vida é uma farsa que toda a gente se vê obrigada a representar."

"A nossa pálida razão esconde-nos o infinito."

"A moral é a debilidade do cérebro."

A mão na pena vale a mão na enxada.

De manhã, eu tinha o olhar tão perdido e a postura tão morta, que aqueles que encontrei talvez não me vissem.

"Eu escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens."

"É preciso reinventar o amor, toda a gente sabe."

“Eu é um outro.”

"Ninguém é sério aos 17 anos."

"O poeta faz-se vidente através de um longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sentimento, de loucura; ele procura nele mesmo, ele esgota nele todos os venenos, para só guardar as quintessências."

Por delicadeza, perdi a minha vida.
Os beijos são como pepitas de ouro e de prata encontradas na terra sem ter qualquer valor em si e que são preciosas por indicar que há uma mina por perto.

"Que vida! A autêntica vida está ausente. Não estamos no mundo."

Uma noite, sentei a Beleza no meu colo. - E a achei amarga. - E a xinguei.

20/10/1854 - Arthur Rimbaud, França, poeta e aventureiro francês.