domingo, 30 de junho de 2013

O pântano


Podem vê-lo, sem dor, meus semelhantes!...
Mas, para mim que a Natureza escuto,
Este pântano é o túmulo absoluto,
De todas as grandezas começantes!

Larvas desconhecidas de gigantes
Sobre o seu leito de peçonha e luto
Dormem tranqüilamente o sono bruto
Dos superorganismos ainda infantes!

Em sua estagnação arde uma raça,
Tragicamente, à espera de quem passa
Para abrir-lhe, às escâncaras, a porta...

E eu sinto a angústia dessa raça ardente
Condenada a esperar perpetuamente
No universo esmagado da água morta!


- Augusto dos Anjos, in "Eu e outras poesias". 42ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

Cárcere das Almas


Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
Que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!

Ó Formas vagas, nebulosidades!
Essência das eternas virgindades!
Ó intensas quimeras do Desejo...


- Cruz e Sousa, do livro Últimos Sonetos, 1905.
Tira-me a luz dos olhos: continuarei a ver-te
Tapa-me os ouvidos, continuarei a ouvir-te
E embora sem pés caminharei para ti
E já sem boca poderei ainda convocar-te.
Arranca-me os braços: continuarei abraçando-te
Com o meu coração como com a mão
Arranca-me o coração: ficará o cérebro
E se o cérebro me incendiares também por fim
Hei-de então levar-te no meu sangue.

---

“Gosta de rosas? Parece-me agora que todas as rosas do mundo florescem para ti e graças a ti – e que apenas uma generosa renúncia tua permite à Primavera mantê-las e fingir que são delas”



-Rilke a Lou Andreas Salomé, Correspondência.

Poética


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


- Manuel Bandeira, no livro "Libertinagem e Estrela da Manhã". 14ª ed., Editora Nova Fronteira, 2000, pág. 32-33.
Se tantas vezes te importuno, ó Deus meu vizinho,
batendo forte à tua porta na noite extensa,
é porque te ouço respirar, da tua presença
sei: estás na sala, sozinho.
Se de algo precisares, não há ninguém ali
que possa te trazer um gole d’água sequer.
Vivo sempre à escuta. Dá-me um sinal qualquer.
Estou bem perto de ti.

Entre nós há apenas um muro, coisa pouca,
por mero acaso aliás;
bem pode ser que um grito da tua ou minha boca —
e eis que se desfaz
sem só rumor ou ruído.

Com imagens tuas o muro foi construído.

Diante de ti tuas imagens são como nomes.
E quando um dia dentro de mim esteja acesa
a luz com que te conhece minha profundeza,
será, nas molduras, brilho que se esbanja e some.

E os meus sentidos, que um torpor célere consome,
estão sem pátria, exilados da tua grandeza.


Rilke | O livro de Horas | Trad. José Paulo Paes
Tu, escuridão da qual descendo
de ti gosto mais que da labareda:
ela reduz
o mundo em que reluz
a uma espécie de círculo
fora do qual nenhum ser a conhece.

já a escuridão, em si tudo contém:
formas e flamas e animais, e eu
- assim como também ela reúne
pessoas e potências…

e pode ser isto: uma grande força
a se mover nos subúrbios de mim…

Acredito nas noites.

Trad. Geir Campos

*

Tu, obscuridade de onde emana
meu ser, amo-te mais do que à chama
que o mundo reduz
ao círculo da sua luz:
ali dentro, resplandece;
fora dali, ser nenhum a reconhece.

Mas na obscuridade tudo se contém:
as formas e as chamas, os animais e eu também,
nela que consorcia
existências e energias —

Pode bem ser que uma força sombria
se mova em minhas cercanias.

É às noites que minha alma se confia.

Trad. José Paulo Paes


Rilke | O livro de Horas
Nunca te vi, que não tivesse o desejo de te rezar. Nunca te ouvi, que não tivesse o desejo de acreditar em ti. Nunca te esperei, sem o desejo de sofrer por ti. Nunca te desejei, sem ter também o direito de me ajoelhar à tua frente. Sou para ti como o bastão para o caminhante, mas sem te apoiar. Sou para ti como o cetro é para o rei, mas sem te enriquecer. Sou para ti como a última pequena estrela é para a noite, ainda que a noite mal a distinguisse e ignorasse a sua cintilação.

René


Rilke | "Correspondência Amorosa", Rainer Maria Rilke e Lou Andreas-Salomé | trad. Manuel Alberto, Relógio D'Água Editora.

terça-feira, 25 de junho de 2013

A Luz nos Pulmões

O poema são fogueiras levantadas na garganta
ou um sono inclinado sobre as facas.

Alguém diz, a prumo
todos os nomes queimam,
e há uma deflagração assombrosa,

a palavra acende-se
com uma árvore de sangue ao centro

Jorge Melícias |

Os Povos


Milton Nascimento

Na beira do mundo
Portão de ferro, aldeia morta, multidão
Meu povo, meu povo
Não quis saber do que é novo, nunca mais
Eh! Minha cidade
Aldeia morta, anel de ouro, meu amor
Na beira da vida
A gente torna a se encontrar só

Casa iluminada
Portão de ferro, cadeado, coração
E eu reconquistado
Vou passeando, passeando e morrer
Perto de seus olhos
Anel de ouro, aniversário, meu amor
Em minha cidade
A gente aprende a viver só

Ah, um dia, qualquer dia de calor
É sempre mais um dia de lembrar
A cordilheira de sonhos que a noite apagou

Eh! Minha cidade
Portão de ouro, aldeia morta, solidão
Meu povo, meu povo
Aldeia morta, cadeado, coração
E eu reconquistado
Vou caminhando, caminhando e morrer
Dentro de seus braços
A gente aprende a morrer só
Meu povo, meu povo
Pela cidade a viver só

(via Eduardo Lacerda)

"Estamos a construir uma sociedade de egoístas. Se a ti te dizem que o que importa é o que compras, e segundo o que compras têm mais ou menos consideração por ti, então convertes-te num ser que não pensa senão em satisfazer os seus gostos, os seus desejos e nada mais. Não existe em nenhuma faculdade uma disciplina do egoísmo, mas não é preciso, é a própria experiência social que nos vai fazendo assim. Ao longo da História as igrejas e as catedrais eram os lugares onde se procurava um valor espiritual determinado. Agora os valores adquirem-se nos centros comerciais. São as catedrais do nosso tempo."

José Saramago

 “Eu me interesso pela linguagem porque ela me fere ou me seduz.”

(Roland Barthes)
Era um país muito engraçado / Não tinha escola, só tinha estádio / Ninguém podia protestar, não/ Porque a PM sentava a mão.
Não grito Fora Dilma porque tenho muito a Temer.
Classe média pacifista não me representa.



Não nos iludamos com a ideologia da paz!
Não gosto de bala de borracha! Joga um Halls.
Seu filho ficou doente? Leva pro estádio.
Petição on-line é o caralho. Saímos do Facebook.


Se não posso liderar não é minha revolução.
Se meu partido não pode participar não é minha revolução.
Se usarem a bandeira do Brasil não é minha revolução.
Se tiver quebra -quebra mesmo que não seja coisa do movimento não é minha revolução.
Se não tiver uma pauta histórica de reivindicação não é minha revolução.
Se não divulgar meu movimento não é minha revolução.
Se criticarem o governo não é minha revolução.
Se atrapalhar a copa não é minha revolução.
Se cantarem o hino nacional não é minha revolução.
Se não tiver UNE, MST, CUT ou qualquer outra repartição pública não é minha revolução.
Se tiver violência mesmo que pontual e localizada não é minha revolução.
Se não tiver o meu coletivo não é minha revolução.
Se não tiver liderança não é minha revolução.
Se não tiver uma petição online não é minha revolução.

Claro que não é a revolução de vocês. Isso é uma revolução, não um cafezinho cazamiga no findi tarde.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Dialogo com Guimarães Rosa



"No sertão, cada homem pode se encontrar ou se perder. As duas coisas são possíveis. Como critério, ele tem apenas sua inteligência e sua capacidade de adivinhar."

- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".

Je suis comme je suis




Jacques Prévert

Je suis faite^comme ça »
Quand j'ai envie de rire
Oui je ris,aux éclats
J'aime celui qui m'aime
Est-ce ma faute à moi
Si ce n'est pas le même
Que j'aime chaque fois
Je suis comme je suis
Je suis faite comme ça
Que voulez-vous de plus
Que voulez-vous de moi
Je suis faite pour plaire
Et n'y puis rien changer
Mes talons sont trop hauts
Ma taille trop cambrée
Mes seins beaucoup trop durs
Et mes yeux trop cernés
Et puis après
Qu'est-ce que ça peut vous faire
Je suis comme je suis
Je plais à qui je plais
Qu'est-ce que ça peut vous faire
Ce qui m'est arrivé
Oui j'ai aimé quelqu'un
Oui quelqu'un m'a aimée
Comme les enfants qui s'aiment
Simplement savent aimer
Aimer aimer...
Pourquoi me questionner
Je suis là pour vous plaire
Et n'y puis rien changer.


 Littérature et Paroles

Nossa União



O tio Sam queria descansar
E o Brasil tratar do seu café.
Sempre que o mundo quer trabalhar,
Existe um mau elemento de pé.
E quando um louco
Diz que venceu,
Que o mundo é seu.
Quem é que vai-lhe dizer que não é?"

Valdemar Ressureição - Quatro Ases e Um Coringa.

sábado, 15 de junho de 2013

Pensar talvez não fosse

Pensar talvez não fosse

Pensar talvez não fosse a fórmula, o segredo,
senão dar-se e tomar perdida, ingenuamente,
talvez tenha podido eleger, ou necessariamente,
tinha que pedir sentido a toda coisa.

Talvez não fosse viver este estar silenciosa
e impiedosamente à beira da angústia
e este teimoso sentir por sob a sua música
um silêncio de morte, de abismo em cada coisa.

Talvez devesse quedar-me nos amores quietos
que poderiam encher minha vida com um nome
ao invés de buscar o evadido do amante,
despojado, sem alma, ser puro, esqueleto.

Pensar talvez não fosse a fórmula, o segredo.
senão amar-se e amar, perdida, ingenuamente.

Talvez pudesse subir como uma flor ardente
ou ter um profundo destino de embrionária
ao invés desta terrível lucidez amarela
e deste ser como estátua de olhos vazios.

Talvez tenha podido dobrar este meu destino
em música inefável. Ou necessariamente...


Idea Vilariño [trad. Matheus Pazos]

A alma encantadora das ruas

"A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas".
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A alma encantadora das ruas, texto encantador de João do Rio, pseudônimo de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, (Rio de Janeiro, 5 de agosto de 1881 — 23 de junho de 1921)1 jornalista, cronista, tradutor e teatrólogo brasileiro.)



Acrobata da Dor



Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! reteza os músculos, reteza
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.


- Cruz e Sousa, do livro “Broquéis”, 1893.
Sempre vieni dal mare
e ne hai la voce roca,
sempre hai occhi segreti
d'acqua viva tra i rovi,
e fronte bassa, come
cielo basso di nubi.
Ogni volta rivivi
come una cosa antica
e selvaggia, che il cuore
già sapeva e si serra.

Cesare Pavese

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A Escravidão de Nosso Tempo

''Muitas constituições foram criadas - a começar pela inglesa e a estadunidense, terminando com a japonesa e a turca - de modo a fazer com que as pessoas acreditassem que todas as leis estabelecidas atendiam a desejos expressos pelo povo. Mas a verdade é que não só nos países autocráticos, como naqueles supostamente mais livres - como a Inglaterra, os EUA, a França e outros - as leis não foram feitas para atender a vontade da maioria, mas sim a vontade daqueles que detêm o poder. Portanto elas serão sempre, e em toda parte, aqueles que mas vantagens possam trazer à classe dominante e aos poderosos. Em toda a parte e sempre, as leis são impostas utilizando os únicos meios capazes de fazer com que algumas pessoas se submetam à vontade de outras, isto é, pancadas, perda da liberdade e assassinato. Não há outro meio.

Nem poderia ser de outro modo, já que as leis são uma forma de exigir que determinadas regras sejam cumpridas e de obrigar determinadas pessoas a cumpri-las (ou seja, fazer o que outras pessoas querem que elas façam) e isso só pode ser obtido com pancadas, com a perda da liberdade e com a morte. Se as leis existem, é necessário que haja uma força capaz de fazer com que alguns seres se submetam à vontade de outros e esta força é a violência. Não a violência simples, que alguns homens usam contra seus semelhantes em momento de paixão, mas uma violência organizada, usada por aqueles que têm o poder nas mãos para fazer com que os outros obedeçam à sua vontade.

Assim, a essência da Legislação não está no Sujeito, no Objeto, no Direito, na idéia do domínio da vontade coletiva do povo ou em qualquer outra condição tão confusa e indefinida, mas sim no fato de que aqueles que controlam a violência organizada dispõe de poderes para forçar os outros a obedecê-los, fazendo aquilo que eles querem que seja feito

Assim, uma definição exata e irrefutável para legislação, que pode ser entendida por todos, é esta: "As leis são regras feitas por pessoas que governam por meio da violência organizada que, quando não acatamos, podem fazer com que aqueles que se recusam a obedecê-las sofram pancadas, a perda da liberdade e até mesmo a morte".


[Liev Tolstoi; A Escravidão de Nosso Tempo]

A Correspondência de Fradique Mendes

"A alma modela a face, como o sopro do antigo oleiro modelava o vaso fino."


- Eça de Queirós

Claridade



A minha claridade é noite escura,
sol negro desviado por um muro
branco de cal, clarão que apaga o sol,
luz que me ofusca, sendo treva e luz.

Às estrelas reclamo que iluminem
o papel branco do meu longo dia,
o grafito que suja o alvo muro
do sol que, sendo noite, me alumia.

Quanto mais luz procuro, mais obscuro
me torno em pleno dia, e mais me assombram
as sombras que se juntam no arrebol.

Recorro à noite se quero mostrar
as frutas expostas do meu ser.
E se quero esconder-me, busco o sol.

- Lêdo Ivo, in "Crepúsculo Civil", 1990.


Não nascemos prontos

"A internet, dentre as mídias contemporâneas, é a mais fantástica e estupenda ferramenta para acesso à informação; no entanto, transformar informação em conhecimento exige, dado que o conhecimento (ao contrário da informação) não é acumulativo, mas seletivo."


- Mario Sergio Cortella 

Os imaginários dos protestos para:


Extrema direita - Finalmente pensa ter uma base social oposicionista jovem para tentar derrubar o governo federal do PT e as prefeituras da base situacionista. Percebem nos movimentos o "cansei" rejuvenescido e com base social, que finalmente vai dar certo, tal como o Comício da Central do Brasil e as rebeliões de marinheiros e sargentos foram para o começo de 1964. Quanto mais "baderna" melhor para combater a corrupção com o retorno da ordem da ultradireita.

Extrema esquerda - Finalmente pensa em ter uma base social oposicionista para tentar derrubar o governo federal do PT e as prefeituras da base situacionista junto com os governos estaduais do PSDB e aliados. Percebem nos movimentos algo como outubro de 1917, ou pelo menos algo como o que aconteceu no Egito/Tunísia e que com a direção correta finalmente vai dar certo e levará à revolução ultra socialista.

Radicais chic da classe média/alta - Depois de anos de aumentos salariais e de rendas não tão altos como deveria ser e "apertos econômicos" para necessidades crescentes, como pagar outra viagem ao exterior, e aeroportos cheios, e infra-estrutura inadequada, etc. Órfãos ideológicos depois de anos de falta de opção eleitoral e convicção nos "plebiscitos" entre o real poder "sequestrado" somente entre o PT X PSDB, afinal nenhuma terceira via deles se criou, desde o voto de protesto no Enéas, Heloísa Helena, Marina, talvez possa haver algo considerado com um cheiro de Paris-tipo-maio-de-1968 para romper a "corrupa" e o spleen local. Quanta intrepidez e estética pós-moderna nos movimentos jovens. E como as suas últimas candidaturas eleitorais alternativas municipais e estaduais naufragaram, não se realizaram para tentar tirar ou o PT, ou o PSDB do poder e, nem os votos nulos ou brancos também parecem não ter levado à lugar nenhum mesmo, vamos ver o que pode acontecer de bom.

Jovens de classe média para cima - Alguns estão entediados, alguns sempre foram mimados consumidores e em alguns casos educados sem muitos limites, revoltado com o aumento recente do estacionamento? Vítimas temerosas das concretas contradições e ameaças da violência urbana, não aguentando mais os pais sempre reclamando do Lula-Dilma e sempre perdendo nas eleições. Querem fazer um movimento via facebook e IPhone-IPad, sem líderes, sem qualquer líder que tenha ou possa vir a ter uma cara ou nome conhecido no futuro, um movimento sem partidos políticos organizados, passeatas sem lugar para discursos e palavras-de-ordem, será que dava para usar o twitter e resumir logo tudo, ao invés de um comício com gente falando conceitos e com discursos demorados ?

Jovens de classe média para baixo - Lutadores econômicos da nova classe trabalhadora, batalhadores econômicos, percebem um primeiro movimento de rua importante nas suas vidas políticas, querem derrubar o aumento das passagens e que realmente os prejudica financeiramente. Vítimas da violência urbana constante. Misturam e confundem os projetos políticos e ideológicos de poder reais e a história dos partidos políticos nos últimos 30-20 anos, conjunturas que não viveram (a conjuntura anterior dos anos 1980). Os pais e familiares tendem mais a serem denominados como os novos "emergentes" da "classe C" ou mesmo "D" dos últimos 10 anos de poder do PT, com alguma melhoria desde o período do Sarney na presidência (não o último que assumiu como presidente do Senado, mas o anterior ao Collor) mas sentem ainda que tudo isto ainda é muito pouco e a coxinha aumentou na cantina.

PSDB - Quer derrotar e colocar toda a culpa e responsabilidade no PT.

PT - Quer derrotar e colocar toda a culpa e responsabilidade no PSDB.

Lumpesinato político (alguns). Onde é que vai ter a próxima briga e o próximo pancadão mesmo ?

Tropas (alguns) - Onde está o gatilho mesmo ?

Dois lados não brigam fisicamente para valer se houver uma maioria disposta a impedir a briga. Sem uma maioria de direita moderada, centro e esquerda moderada - o pau-vai-comer e não se sabe para que lado vai cair!

Salve-se quem puder se isso acontecer !

Ricardo Costa de Oliveira

FAZ MUITO TEMPO QUE ESTAMOS TRISTES ASSIM

texto do Mário Bortolotto sobre os protestos.

...

FAZ MUITO TEMPO QUE ESTAMOS TRISTES ASSIM

(sobre ontem à noite. Mas não começou ontem à noite)


Existe um santo que é o São Wolfgang que tenta convencer o diabo com palavras desafiando o capeta a construir uma igreja. Este é o santo que ainda acredita no poder do convencimento a partir de argumentos. Ontem eu tava em casa escrevendo. Como sempre, com todas as cortinas fechadas, completamente isolado do mundo. É preciso ficar fora do mundo, pra tentar entender com clareza o que tá acontecendo, assim como você tem que dirigir uma peça de teatro de fora, pra poder entender a cena e ver o que realmente está acontecendo. Então essa atitude de isolamento não é como muitos podem pensar uma atitude alienada. E não é preciso estar sempre no olho do furacão pra sacar o tamanho da encrenca. Então eu tava escrevendo em casa e ouvi o barulho lá fora. E abri a janela e olhei. Tinham jogado um monte de lixo na rua dificultando o tráfego. Algumas pessoas corriam com medo, outras mais curiosas paravam pra olhar. Aí liguei a tv e vi as notícias. Li o que meus amigos estavam escrevendo. O Batata me ligou do teatro e disse que a coisa tava feia. Que teve que fechar o teatro e tiveram que cancelar a peça da Michelle pq uma rapaziada passou tocando o terror e inclusive quebraram os vidros do carro do Batata. Como eu fiz na noite do PCC (e inclusive escrevi um texto pra Folha de São Paulo), simplesmente vesti minha roupa e fui pra rua ver na real o que tava acontecendo. Subi a Frei Caneca quase deserta e totalmente atulhada de lixo. O único bar que ficou aberto foi o da esquina da Paim (ninguém ia ter a manha de tentar depredar aquele bar com a rapaziada que frequenta ali, sabe como é que é). Cheguei no teatro, bati na porta, o Batata abriu e eu entrei. Mó clima de funeral. As pessoas discursavam a favor e contra a manifestação. E também a favor e contra a repressão. Fico imaginando se é assim mesmo, tão simples. Ou se como em 64, vamos todos marchar com as senhoras na luta com a família com Deus pela Liberdade acreditando que estamos mesmo do lado certo e rezando pelo Deus verdadeiro. A história é simples. É um direito do cidadão se manifestar. O que eu pergunto é se esse cidadão bem intencionado não está sendo apenas e tão somente usado por um interesse politico muito maior e que ele não está se dando conta. Sempre há interesses políticos por trás de tudo. E são esses interesses é que valem no final. O cara morrendo no Vietnã com o retrato da namorada e acreditando que estava morrendo pelo seu país, ou no Iraque ou em qualquer merda de guerra que for. Marighela costumava doar 94% de seu salário para o partido e viver com míseros 6%. Ele acreditava na causa. E acreditava também quando roubava bancos na época da ditadura. Marighela morreu acreditando na sua causa. Isso o transforma num herói? Se ele matou pessoas por isso, eu acredito que não. Nunca vou transformar em herói alguém que em nome do que quer que seja se acha no direito de tirar a vida de outro. Mas Marighela tinha convicções, e isso eu admiro. As pessoas que foram pra rua (a maioria delas) também acreditam que tem convicções, e isso é bacana. Acreditar é o primeiro passo. Se não fosse o aumento de 20 centavos (é claro que esses 20 centavos são só um pretexto. É absurdo alguém ficar indignado pq pessoas estão lutando contra um aumento de 20 centavos. Acho que todo mundo já entendeu que não são pelos 20 centavos. Se eu tivesse um cachorro aqui em casa, ele estaria mordendo o meu pé por eu perder tempo explicando isso) seria outro motivo qualquer. Alguém com interesses muito maiores chegou a conclusão que esse é o momento de fazer uma manifestação contra atitudes do governo. E essas pessoas apenas querem estar no governo num futuro próximo e nada vai mudar. E vamos ficar nos lamentando pq em algum momento nós acreditamos nela. E a idéia é essa mesma. Jogar a população contra o governo. E o governo tá mais sujo que banheiro de rodoviária, né? Então é alvo fácil. Os caras fazem por merecer. Bom, eu não votei no Haddad. Eu não votei em ninguém. Podem me chamar de alienado, mas enquanto não aparecer alguém que eu confie, eu não vou mais votar. Eu não voto em partidos. Voto em pessoas. E há muito tempo nenhum político consegue me convencer. É até muito simplista falar isso, mas o que eu posso fazer? Glauber Rocha já dizia que “política e poesia é muito pra uma pessoa só”. Eu fico com a poesia, é claro. Eu acredito em poetas, mesmo quando eles mentem. Eu não acredito em políticos, mesmo quando eles falam a “verdade”. Então não tem nada a ver com polícia. A polícia é só um instrumento muito mal utilizado pelas forças repressoras, é só isso. Mas de qualquer maneira, sou sempre a favor de qualquer manifestação. Mas é claro que mandaram fechar justamente a Paulista e assim prejudicar a vida de muita gente que não tinha nada a ver com isso. Foder o transito de uma cidade como São Paulo na hora do rush, vai atrair atenção internacional. Não é pouco. Mas é o preço que se paga, né? E não é pelos 20 centavos. Alguém tá ganhando muito mais com isso e com as boas intenções de quem estava participando da manifestação e podem ter certeza que não é o estudante ou o trabalhador que vai pagar 20 centavos a menos na sua passagem de ônibus. No fim, nós estamos sempre trabalhando pra eles. Seja se manifestando ou indo contra a manifestação. No final, não somos nós que vamos sair ganhando. Lembram das manifestações pelas eleições diretas? Foi bacana. Aparentemente o povo conseguiu o que queria. E aí o Collor foi eleito. E foi o povo que colocou ele lá. Mas será que foi o povo mesmo? Que eu saiba, a máquina é bem mais poderosa que a vontade popular (que não tem muita noção de qual é o alvo real) e atira sempre armado de boas intenções. Aí a manifestação acontece, muito legítima, é claro. E o tumulto está armado. A reação estúpida da polícia agredindo pessoas. As imagens são chocantes. Alguns policiais mais sádicos devem ter se divertido com aquilo. Outros que estavam apenas trabalhando, deviam estar bem constrangidos por fazer parte disso. Mas agora a população toda vai odiar a polícia. E quem é que pode tirar a razão da população quando vc sabe que um filho seu foi agredido covardemente? Quem vai tirar a razão de ficar revoltado do fotógrafo Sergio Silva que foi atingido por uma bala de borracha e vai perder a visão? E no meio disso tudo, pessoas se ferrando de ambos os lados. Enquanto os verdadeiros responsáveis por tudo estão muito longe daqui. E podem ter certeza que eles não vão dar a cara pra bater. Nós nem sabemos com exatidão quem são os nossos verdadeiros inimigos. Então saímos atirando apenas. Seja bolas de borracha, vinagre ou quebrando carros. Nos sentimos bem fazendo parte de algo, estando do lado que nós achamos certo. Aquelas senhoras da marcha com a família em 64 achavam que estavam certas. Os caras pintadas também achavam que estavam certo. E na verdade eles estavam apoiados em suas convicções. E um homem sem convicções não é porra nenhuma. Muitos aproveitam esse tipo de situação pra provocar baderna e sair depredando tudo como aconteceu ontem. Mas esses “baderneiros” não são teletransportados da Enterprise. Eles não aparecem por acaso, eles fazem parte do elenco contratado, não se iludam. E isso, é claro, só tira a legitimidade de quem estava apenas (e coberto de boas intenções, repito) querendo se manifestar contra algo muito maior do que os benditos 20 centavos a mais. Talvez já não seja mais o tempo de São Wolfgang, infelizmente. Ninguém mais presta atenção em argumentos e no poder da palavra. As pessoas querem ação e agem indiscriminadamente e quem age indiscriminadamente costuma “errar no alvo”. Voltei pra casa com essa imagem triste na minha cabeça. De uma sombra enorme pairando sobre a Avenida Paulista. E essa sombra enorme tinha uma imagem disforme, mas era possível ver os dentes brancos aparecendo no rosto dela. Eu sei que ela tava sorrindo. Nós aqui embaixo, estamos todos muito tristes. Mas já faz muito tempo que estamos assim. Mas alguém tá rindo disso tudo. Eles sempre ganham. E no final eles vão se abraçar e sorrir pras fotos. Eles sabiam que iam vencer. 

( Mario Bortolottodois)

Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio.

"O texto age como se não soubéssemos de mais nada e não nos esquecessemos de nada. Irritamos a palavra comum até que ela, literalmente, perca a paciência e ofereça aquilo que supera o seu conteúdo."
Pág. 136
Herta Muller, Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio.



O Espelho


Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

- Mia Couto, no livro "Idades Cidades Divindades",

Lisboa, Caminho, 2007.