quarta-feira, 26 de setembro de 2012


Something On Earth

Something must have happened

On earth

The clouds

That towered

For days and nights above the steppe

Pushing dents

In my winter-tired tent

Are bursting apart now

Moving on in gray clumps

Perhaps a knot loosened

From the great tent whose roof struts

Are beams of sun, moon and wind

Or it was you who sent a bright thought

This way or lured from a hiding place

The dream which

Long expected

Only arrived last night

And which I

Hunkered in hope

Passed on to the coming day.

Galsan Tschinag

Apresentação de Sacher-Masoch.


Em Os cento e vinte dias, o libertino se declara excitado não pelos “objetos que aqui estão”, mas pelo Objeto que não está ali, quer dizer a “idéia do mal”. Ora, essa idéia de algo que não está, essa idéia do Não ou da negação, que não é dada nem possível de ser dada na experiência, só pode ser objeto de demonstração (no sentido em que o matemático fala de verdades que guardam todo seu sentido mesmo se dormirmos, e mesmo não existindo na natureza). É o porquê também dos heróis sádicos desesperarem e se enfurecerem vendo seus crimes tão magros comparados àquela idéia que eles só conseguem atingir através da onipotência do raciocínio. Sonham com um crime universal e impessoal ou, como diz Clairwil, com um crime “cujo efeito perpétuo aja, mesmo quando eu não mais agirei, de forma que não se passe mais um só instante da minha vida em que, mesmo dormindo, eu não seja a causa de uma desordem qualquer”. 

 G. Deleuze

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Look Up






Look up
See the snowflakes
Floating down

They are travelers coming home

They inhabited this earth
Before you and me
They are ancestors, brothers and sisters
Companions in time and space
Then sand, wind, stars
That rested, blew, flickered

Many of them
Perhaps we knew
Lived with them
In harmony
But often in bitter
Discord as well

Now they have
Become clouds
And return home as snow

Listen to
Their rushing sounds
It is a whispering
About you or me
           
Be silent
As they are
Fearing
To wake us
From the dream
Called life



Galsan Tchinang

http://www.galsan.info/

sábado, 22 de setembro de 2012

Exercício



Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntou o que significavam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.


 Nuno Júdice.


No centro da minha vida
no núcleo capital da minha vida
ha uma fonte luminosa um chafariz
que levanta conviccoes coloridas
E eh lindo contempla-las e segui-las

no centro da minha vida
no núcleo capital da minha vida
há uma dor que palmo a palmo
vai ganhando seu tempo
e eh útil aprender sua marca firme

no centro de minha vida
no núcleo capital da minha vida
a morte fica longe
a calma tem cheiro de chuva
a chuva tem cheiro de terra

isto me contaram por que eu
nunca estou no centro da mina vida

MARIO BENEDETTI


dia sem automóveis


Os ecologistas e outros irresponsáveis propõem que por um dia, no dia de hoje, os automóveis desapareçam do mundo.
Um dias sem automóveis? E se o exemplo se contagia e esse dia passa a ser todos os dias?
Que Deus não permita, e o Diabo tampouco.
Os hospitais e os cemitérios perderiam sua clientela mais numerosa.
As ruas se encheriam de ciclistas ridículos e patéticos pedestres.
Os pulmões já não poderiam respirar o mais saboroso dos venenos.
As pernas, que tinham se esquecido de caminhar, tropeçariam em qualquer pedrinha.
O silëncio aturdiria os ouvidos.
As autopistas seriam desertos deprimentes.
As rádios, as televisões, as revistas e os jornais perderiam seus mais generosos anunciantes.
Os países petroleiros ficariam condenados à miséria.
O milho e a cana-de-açucar, agora transformados em comida de automóveis, regressariam ao humilde prato humano.

 Galeano - 22 de setembro

La Danaide


Sobre os Ombros Dourados da Felicidade



O Marcelo Paiva que me disse: esse conto dá filme. A pulga instalou-se atrás da minha orelha. Deixei pra lá. Um pouco por orgulho besta, isto é, por achar que o texto bastava-se por si mesmo e não precisava virar filme para existir. E outro tanto porque ninguém se interessou mesmo. Pois bem. O tempo passou e “Sobre os Ombros Dourados da Felicidade” virou uma peça-punk nas mãos do Fernando Maatz e da Anti-companhia de Teatro, garotada aqui do Rio de Janeiro.
Fui ver o ensaio ontem e saí feliz da vida com o resultado. Eles tão mandando muito bem. Vendo os espasmos do Bruno Aragão que no palco é uma mistura de Cazuza com Darth Vader, em conjunto com a fúria erótica da Fabiana Russeff e mais a violência dos Dissidentes ( a banda ) bem, vendo isso tudo, cheguei a conclusão de que sou punk desde criancinha.
E foi só um ensaio. Os garotos fizeram uns ¾ do texto e ainda tem luz e os efeitos especiais na jogada. Vai ficar nervoso, com diria meu amigo Brecão. Estreiam agora, no primeiro dia de outubro. Toda segunda-feira no Reserva +, que fica no Arpoador quase Ipanema, lugar ideal, segundo Fernando me garantiu, para falar de uma bolota escrota com pelos grisalhos que vai crescer sobre os ombros dourados da felicidade de uma cidade que continua sendo o Rio de Janeiro, apesar da visão pessimista que temos( resolvi incluir a garotada) dos barquinhos a deslizar sobre o macio azul do mar.

Marcelo Mirisola

Não quero saber


Samba  de Paulo Marquez

Quando ela perguntar por mim,
Diga - "Foi para onde não sei"
Diga que eu morri,
Desapareci,
Que é para o nosso próprio bem.

Não quero nem saber se ela pensa ou não em mim,
Porque com ela seria triste meu fim.

Não quero nem saber seu endereço,
Faz de conta que nem a conheço,
Será bem melhor assim.
Pois não quero saber se ela pensa ou não em mim,
Porque com ela seria triste meu fim.



Vou-me embora


Samba de Paulo Marquez (Cyro Monteiro)

Eu vou-me embora,
Minh´alma chora,
Muita saudade vou sentir, minha querida,

Você foi boa,
Você foi grande,
Você foi tudo o que sonhei na minha vida.

Mas eu tenho que dizer antes de dar adeus
Que jamais esquecerei os lindos olhos teus
E por toda minha vida hei-de recordar
As nossas noites de luar.


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

'' Io penso che un uomo senza utopia, senza sogno, senza ideali, vale a dire senza passioni e senza slanci sarebbe un mostruoso animale fatto semplicemente di istinto e di raziocinio, una specie di cinghiale laureato in matematica pura.'' * Eu penso que um homem sem utopia, sem sonho, sem ideais, e vale até dizer sem paixões e sem impulsos, seria um monstruoso animal feito simplesmente de instinto e de raciocínio, uma espécie de javalí formado em matemática pura* (Fabrizio De Andrè)
‎{a vida nada mais é que [...] uma estória contada por um idiota, cheia de som e fúria, que nada significa...} macbeth; w. Shakespeare

Gato negro

Alma de duende en cuerpo de sombra. Enjoyada la cabeza, el espinazo interrogante, el paso de seda. Las campanas desbordan sus doce vinos. Luna en los tejados. Brisa en las ramas deshojantes. La pedrería de los ojos de gato se abrillanta. Espera… La bruja de la escoba, andrajosa y hambrienta no ha de venir ahora; se durmió de cansancio en el campanario del pueblo. La desesperación en el lomo del gato forma un arco y lanza la flecha de un maullido. Un signo lúgubre se alarga en el silencio. Gato negro, embriagado de luna. Gato negro, bohemio de los tejados; eco del infierno, silueta de un pecado. Gato negro: seda, sombra y pedrería. Emma Posada

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Vai Querer?

O mundo é dos comerciantes Por isso é que antes Quando eu vendia alicates Ganhava uns trocados Arrancando uns dentes E agora preciso apertar uns parentes Pra pagar as contas Quem vai querer Ahê quem vai querer Ahêê quem vai querer Quem vai querer comprar O mundo é dos comerciantes Por isso é que antes Quando eu vendia tridentes A loja era cheia Fiz meu pé de meia Lucrei nos conflitos Agora preciso espetar uns palitos No lugar dos dentes Quem vai querer Ahê quem vai querer Ahêê quem vai querer Quem vai querer comprar O mundo é dos comerciantes Por isso é que antes Quando eu matava meus porcos Eu quase mudei Fui morar no planalto Mandava no povo E agora dou facada nos incautos E nunca devolvo Quem vai querer Ahê quem vai querer Ahêê quem vai querer Quem vai querer comprar (Luís Capucho/Suely Mesquita)
Não mandes contra essas moças de capas de revistas: um corpo bonito pertence aos olhos do mundo. _____Mario Quintana - Da preguiça ao método de trabalho

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

"Todo excesso é uma loucura. É tão insensato exagerar na comida e bebida como na dor e na alegria."

"De todas as flores da vida, a vingança é a que mais rápido murcha."

“A vida é uma jornada calorosa, e a morte é, talvez, um sopro de vento fresco."

“A solidão é patrimônio da idade adulta.”

“Como a água gasta lentamente a pedra, assim o tempo gasta os corações.”

19/9/1908 - Mika Waltari, escritor finlandês.
L'inferno dei viventi non è qualcosa che sarà: se ce n'è uno, è quello che abitiamo tutti i giorni, che formiamo stando insieme. Due modi ci sono per non soffrirne. Il primo riesce facile a molti: accettare l'inferno e diventarne parte fino al punto di non vederlo più. Il secondo è rischioso ed esige attenzione e apprendimento continui: cercare e saper riconoscere chi e cosa, in mezzo all'inferno, non è inferno, e farlo durare, e dargli spazio.

_____________________Italo Calvino

O inferno dos vivos não é algo que será, se houver um, é o que vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de escapar do sofrimento. A primeira é fácil para muitos: aceitar o inferno e tornar-se parte do ponto de não mais vê-lo. A segunda é arriscada e exige vigilância constante e apreensão: procurar e saber reconhecer quem éo que, no meio do inferno, não é inferno, então fazê-los durar, dar-lhes espaço.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

“Se o poeta falar num gato, numa flor,
num vento que anda por descampados e desvios
e nunca chegou à cidade…
se falar numa esquina mal e mal iluminada…
numa antiga sacada… num jogo de dominó…
se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que morriam de verdade…
se falar na mão decepada no meio de uma escada
de caracol…
...Se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá… Que importa?
Todos os poemas são de amor!”


Mario Quintana:

Ninguém Perde Sempre

tive um tio chamado Sol
que era um fracasso completo e
quase todo mundo comentava que ele deveria
ter partido para o vaudeville talvez pois meu Tio Sol podia
cantar McCann He Was A Diver na noite de natal como o Diabo o
que pode ou não explicar o fato de meu Tio

Sol haver se metido na possivelmente mais imperdoável
de todas para usar uma frase pomposa
extravagâncias que é ou para aprender
a fazer criações e cultivos e seja
desnecessariamente acrescentado

a fazenda de meu Tio Sol
fracassou porque as galinhas
comeram as verduras então
meu Tio Sol teve uma
fazenda de galinhas até que
os gambás comessem as galinhas quando

meu Tio Sol
teve uma fazenda de gambás mas
os gambás pegaram gripe e
morreram então
meu Tio Sol imitou os
gambás de uma sutil maneira

ou porque se afogou na cisterna
mas alguém que havia dado ao meu Tio Sol uma Vitrola
Victor e discos enquanto ele era vivo deu-lhe de presente
à auspiciosa ocasião de seu falecimento um
delicioso para não dizer esplêndido funeral com
meninos grandes de luvas negras e flores e tudo mais e

eu lembro que todos choramos como o Missouri
quando o caixão de meu Tio Sol súbito se moveu pois
alguém apertou um botão
(e para baixo se foi
meu tio
Sol

e começou uma fazenda de vermes)

by e.e. cummings/ tradução Rodrigo Madeira

domingo, 16 de setembro de 2012

O LOBISOMEM


O amor é para mim um Iroquês

De cor amarela e feroz catadura

Que vem sempre a galope, montado

Numa égua chamada Tristeza.

Ai, Tristeza tem cascos de ferro

E as esporas de estranho metal

Cor de vinho, de sangue, e de morte,

Um metal parecido com ciúme.



(O Iroquês sabe há muito o caminho e o lugar

Onde estou à mercê:

É uma estrada asfaltada, tão solitária quanto escura,

Passando por entre uns arvoredos colossais

Que abrem lá em cima suas enormes bocas de silêncio e solidão).



Outro dia eu senti um ladrido

De concreto batendo nos cascos:

Era o meu Iroquês que chegava

No seu gesto de anti-Quixote.

Vinha grande, vestido de nada

Me empolgou corações e cabelos

Estreitou as artérias nas mãos

E arrancou minha pele sem sangue

E partiu encoberto com ela

Atirando-me os poros na cara.

E eu parti travestido de Dor,

Dor roubada da placa da rua

Ululando que o vento parasse

De açoitar minha pele de nervos.

Veio o frio com olhos de brasa

Jogou olhos em todo o meu corpo;

Encontrei uma moça na rua,

Implorei que me desse sua pele

E ela disse, chorando de mágua,

Que era mãe, tinha seios repletos

E a filhinha não gosta de nervos;

Encontrei um mendigo na rua

Moribundo de fome e de frio:

“Dá-me a pele, mendigo inocente,

Antes que Ela te venha buscar.”

Respondeu carregado por Ela:

“Me devolves no Juízo Final?”

Encontrei um cachorro na rua:

“Ó cachorro, me cedes tua pele?”

E ele, ingênuo, deixando a cadela

Arrancou a epiderme com sangue

Toda quente de pêlos malhados

E se foi para os campos da lua

Desvestido da própria nudez

Implorando a epiderme da lua.

Fui então fantasiado a travesti

Arrojado na escala do mundo

E não houve lugar para mim.



Não sou cão, não sou gente - sou Eu.



Iroquês, Iroquês, que fizeste?

Décio Pignatari
''As revoluções não são fatos que se aplaudam ou que se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evoluções do Sol. São fatos fatais. Têm de vir. De cada vez que vêm é sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade. Decerto que os horrores da revolução são medonhos, decerto que tudo o que é vital nas sociedades, a família, o trabalho, a educação, sofrem dolorosamente com a passagem dessa trovoada humana. Mas as misérias que se sofrem com as opressões, com os maus regímens, com as tiranias, são maiores ainda. As mulheres assassinadas no estado de prenhez e esmagadas com pedras, quando foi da revolução de 93, é uma coisa horrível; mas as mulheres, as crianças, os velhos morrendo de frio e de fome, aos milhares nas ruas, nos Invernos de 80 a 86, por culpa do Estado, e dos tributos e das finanças perdidas, e da fome e da morte da agricultura, é pior ainda. As desgraças das revoluções são dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos são dolorosas infâmias''

Eça de Queiroz

sábado, 15 de setembro de 2012

Dois Poemas de Yu Xuanji


Poetisa chinesa (844-869 d.C.)

EM RESPOSTA A POEMA DE MEU NOVO
VIZINHO A OESTE, CONVIDANDO-O
E PEDINDO-LHE VINHO

Teu poema chegou e catei-o cem vezes
cada novo sentido em um som como ouro
Busco oeste: estou pronta a vencer tua cerca
À distância, não vai o coração virar pedra?
É tão longe a Via Láctea, vazio o horizonte
Desafina-se a cítara e os rios se acordam
Tremo à falta de casa neste inverno frio
Tens bom vinho: esta noite, não bebas sozinho!

• • •

A PARTIR DE POEMA DE UM RECÉM-APROVADO CANDIDATO AO SERVIÇO PÚBLICO, EM LUTO PELA MORTE DE SUA MULHER

I

Aos imortais perdem-se as coisas deste mundo
Outonos passam como apenas um momento
Fica às cobertas o calor do amor recente
Do papagaio à jaula o eco ainda circunda
O orvalho cobre as flores, rostos que se velam
O vento verga em sobrancelhas os chorões
Nuvens dissipam-se entre cores, tornam à sombra
Pan Yue lamenta e seu cabelo acolhe a neve*

II
Da cássia, um galho ergue-se à lua, encontra a névoa
Vermelho à chuva: ao rio, mil pessegueiros brotam
À frente, ofertam vinho; aceita, enche teu copo:
são alegria e dor unidas pelos séculos
___

* *Pan Yue (247-300) foi um poeta da Dinastia Jin (265-316, Jin do Oeste) famoso por sua beleza e pela poesia de luto e melancolia. Seus “Três Poemas para Minha Esposa Morta” são particularmente aclamados. Sobre ele se diz que, quando da morte da esposa, seu cabelo tornou-se branco da noite para o dia. Sua história pessoal é associada em textos chineses ao amor inconsolável diante da morte e entregue a um luto infindável – em Yu Xuanji, há um sentido de entrada na imortalidade pelo luto, que projetaria o amor para além “desta” vida.
Mais sore Yu Xuanji:

http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=4855

Remorso

Às vezes, uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando.
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

Olavo Bilac
“Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será…”

15/9/1933: Rubem Alves: psicanalista, educador, teólogo e escritor, seus livros e artigos abordam temas religiosos, educacionais e existenciais

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

POETA DE COMBATE

Poeta de combate me chamaram.
De combate serei. Não mercenário!
Poeta de combate é um operário
das palavras que nunca se entregaram.

Poeta de combate! E porque não?
Sou poeta. Serei também soldado.
O meu canto será um canto armado
e o meu nome de guerra uma canção.

Poeta de combate me quiseram
os que cedo da luta desertaram
ou aqueles que nunca combateram.

Poeta de combate eu hei-de ser
até quando o meu povo precisar
ou nada mais houver a combater.

* Joaquim Pessoa *


in AMOR COMBATE, Moraes Editores
Litexa, "Obra Poética, vol. 01.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Inverno branco
esqueletos pretos,
as desfolhadas árvores...

.......Xìang Rì Kuí.
[4. Sem ramos de oliveira

a invasão de Mar & Cia no litoral,
prolonga-se além dos esperados
150 dias
os pássaros não têm mais onde pousar:

indefinidamente,
seremos feras submarinas]

Daniel Faria, Desvio para o Vermelho
treze poetas brasileiros contemporâneos

PARA EVITAR LA MÚSICA DE LAS SIRENAS


-Eduardo Chirinos-

ESBOZO PARA UNA POÉTICA DEL MAR

Has de saber ante todo
que la poesía nos conduce a desconfiar del mar.
El mar es fuente de metáforas fáciles: muerte y nacimiento conviven en sus
[aguas,
del mar nace la vida y nuestras vidas
son los ríos que van a dar en la mar / que es el morir.
Peligroso bañarse entre sus aguas y aún mojarse los pies;
el mar seduce, su canto arrulla y nos ofrece salmos de gloria,
la música de las sirenas.
Pero no es conveniente la gloria: un poeta oscuro será siempre más valioso
[que cien héroes muertos, no lo olvides.
‎"Ich sah Viel Städt als flammenraub
Und Greuel auf Greuel häufen die Zeiten"
....
*Eu vi muitas cidades roubadas pelas chamas
E os tempos amontoarem horror sobre horror*
(Georg Trakl)

O mundo é minha pátria, os humanos, irmãos

O mundo é minha pátria, os humanos, irmãos

Salvador Allende e Pablo Neruda

(...)
Eu preconizo um amor inexorável.
E não me importa pessoa nem cão:
Só o povo me é considerável,
Só a pátria é minha condição.
Povo e pátria manejam meu cuidado,
Pátria e povo destinam meus deveres
E se logram matar o revoltado
Pelo povo, é minha Pátria quem morre.
É esse meu temor e minha agonia.
Por isso no combate ninguém espere
Que se quede sem voz minha poesia.
'' O indivíduo é ''livre'' . Nenhuma autoridade lhe pode dizer como ele deve se manter; cada um pode escolher trabalhar como lhe aprouver. Um indivíduo pode decidir produzir sapatos, outro, livros, um terceiro rifles, um quarto botões de ouro. Mas os bens que cada um produz são mercadorias, isto é, valores de uso, não para ele, mas para outros indivíduos.Cada um deve trocar seus produtos por outros valores que satisfarão suas necessidades.Em outras palavras , a satisfação das necessidades de cada um pressupõe que o produto do seu trabalho atenda a uma necessidade social.Mas não se pode saber com antecedência. Só quando traz os produtos do trabalho ao mercado é que se pode verificar se empregou , ou não, um tempo de trabalho social.
(...) O valor de troca das suas mercadorias decide seu destino social. A ''forma em que opera esta distribuição proporcional do trabalho, em um estágio da sociedade em que a interconexão do trabalho social se manifesta pela troca privada dos produtos individuais do trabalho, é precisamente o valor de troca destes produtos ", que assim determina a realização proporcional da necessidade social.''

Herbert Marcuse

(Os Fundamentos da Teoria Dialética da Sociedade , ''Razão e Revolução")

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O Direito ao Delírio


Que tal começarmos a exercer
O direito de sonhar?
Que tal se delirarmos um pouquinho?
No próximo milênio, o ar estará limpo
de todo veneno
O televisor deixará de ser
o membro mais importante da família
As pessoas trabalharão para viver,
em vez de viver para trabalhar.
Os economistas não chamarão
nível de vida o nível de consumo,
nem chamarão qualidade de vida
a quantidade de coisas.
Ninguém será considerado herói
ou tolo só porque faz aquilo que
acredita ser justo, em vez de fazer
aquilo que mais lhe convém.
A comida não será uma mercadoria,
nem a comunicação um negócio,
porque comida e comunicação
são direitos humanos.
A educação não será um privilégio
apenas de quem possa pagá-la.
A polícia não será a maldição daqueles
que não podem comprá-la.
A justiça e a liberdade,
irmãs siamesas
condenadas a viverem separadas,
voltarão a juntar-se, bem unidas
ombro com ombro.
E os desertos do mundo e os desertos
da alma serão reflorestados.

Eduardo Galeano

V [vaso]


um vaso é um vaso é um vaso e o mesmo vale para qualquer palavra que seja mais profunda do que ampla. é isso? ornamento não é um vaso embora ele o contenha. palavra é como algumas pessoas chegam ao que eles pensam deva ser um vaso, para deflorá-lo. que falta de profundidade, e sagacidade. ornamento, ornamento, estou cansado de seu entediado lamento. você precisa de um amante que iria escrever um vaso uma carta: vessel, querida, você não é uma palavra

Uljana Wolf;

tradução livre by Ricardo Pozzo

domingo, 9 de setembro de 2012

Ô bien-aimée, quels yeux tes yeux
Embarcadères la nuit, bruissant de mille adieux
Des digues silencieuses
Qui guettent les lumières
Loin... si loin dans le noir
Ô bien-aimée, quels yeux... tes yeux
Tous ces mystères dans tes yeux
Tous ces navires, tous ces voiliers
Tous ces naufrages dans tes yeux
Ô ma bien-aimée aux yeux païens
Un jour, si Dieu voulait
Un jour... dans tes yeux
Je verrais de la poésie, le regard implorant
Ô ma bien-aimée, quels yeux... tes yeux

(VINÍCIUS DE MORAES - JEANNE MOREAU/DOMINIQUE DREYFUS)

Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe dos breus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas era
Nos olhos teus.
Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.

(VINÍCIUS DE MORAES/PAULO SOLEDAE)
IL PARADISO SUI TETTI..................................


Sarà un giorno tranquillo, di luce fredda
come il sole che nasce o che muore, e il vetro
chiuderà l’aria sudicia fuori del cielo.

Ci si sveglia un mattino, una volta per sempre,
nel tepore dell’ultimo sonno: l’ombra
sarà come il tepore. Empirà la stanza
per la grande finestra un cielo più grande.
Dalla scala salita un giorno per sempre
non verranno più voci, né visi morti.

Non sarà necessario lasciare il letto.
Solo l’alba entrerà nella stanza vuota.
Basterà la finestra a vestire ogni cosa
di un chiarore tranquillo, quasi una luce.
Poserà un’ombra scarna sul volto supino.
I ricordi saranno dei grumi d’ombra
appiattati così come vecchia brace
nel camino. Il ricordo sarà la vampa
che ancor ieri mordeva negli occhi spenti.

(Cesare Pavese!)

O QUE A MATEMÁTICA DE CLINTON DIRIA DE FHC?

Bill Clinton, que os tucanos adoram, disparou a seguinte aritmética na convenção que aclamou Obama a buscar um segundo mandato na Casa Branca: "De 1961 para cá, os republicanos governaram o país por 28 anos, e os democratas, por 24 anos. Nesse período, foram criados 66 milhões de empregos, assim: 24 milhões pelos republicanos e 42 milhões pelos democratas". Curto e grosso, Clinton atingiu o fígado adversário. Se fosse manejar a mesma aritmética demolidora no Brasil, Clinton ( que os tucanos adoram, repita-se) diria o seguinte: "De 1994 para cá, o PSDB governou o Brasil por oito anos, e o PT, por 9 anos e meio (8 de Lula, e um ano e meio de Dilma). Nesse período, foram criados 18 milhões e oitocentos mil empregos: 800 mil pelos tucanos; 15 milhões por Lula e 3 milhões por Dilma". É por isso que FHC quando se manifesta é prolixo, mas foge dos números. Por isso, também, Serra recorre ao 'mensalão', na falta do que dizer diante do esfarelamento de sua candidatura. Por conta desse flanco aritmético o PSDB, igualmente, quer interpelar Dilma que anunciou um corte de 16% da tarifa elétrica residencial e de 28% na indústrial em pleno Sete de Setembro. Pudera: no governo FHC, em 2001 --diria a matemática de Clinton-- o corte que houve foi no fornecimento. O 'apagão', conforme cálculos insuspeitos de Delfim Netto, custou R$ 60 bi aos brasileiros. O equivalente a um salário mínimo extraído de cada cidadão, assim: perda de 2 pontos do PIB ($ 50 bi, em valores de 2001, em empregos, produção, renda) e mais R$ 10 bi de 'imposto apagão' para financiar termoelétricas. Vai falar do quê, não é Serra?

Alexandra Peixoto

sábado, 8 de setembro de 2012

em minha outra vida
eu gostaria de ser
flor de cerejeira

( matsuo bashô )

tradução de Geir Campos - Poesia do Japão

No limiar da insanidade

Palavras que invadem a mente e atraem sensações
Apenas expressões deliciosas
Que me invade a imaginação
É como energia ligando meu corpo
Onde meus hormônios disparam acelerado
Inebriando minha mente
Causando sentidos acalorados
Redescobrindo o novo sentido de meu ser
O extremo do prazer é deixar-se levar?
Se rebelar contra preconceitos errôneos?
Onde desejar é indecente?
Fazer é proibido
Se for errado sentir?
Porque nascemos com isso?
E suprimir nossas fantasias?
É ir contra nossa natureza?
Meu conflito é intimo e pessoal
Entre o que é certo ou errado
No limiar da insanidade

(Don Juan Castelano)


Al borde de la locura

Las palabras que invaden la mente y atraer sentimientos
Sólo expresiones deliciosas
Lo que la imaginación se apodera de mí
Es como si mi cuerpo la energía de unión
Cuando mis hormonas desencadenan acelerado
Inebriando mi mente
Causar sentidos con calefacción
Redescubriendo el nuevo sentido de mi ser
El placer extremo es dejarse ir?
Rebelde contra preconceptos erróneos?
¿Dónde quieres es indecente?
Hacer esté prohibido
Si te sientes mal?
Porque nacemos con él?
Y reprimir nuestras fantasías?
Va en contra de nuestra naturaleza?
Mi conflicto es íntimo y personal
Entre lo que está bien o mal
Al borde de la locura

(Don Juan Castelano)
‎"Minha vida se dispersa continuamente. Como um rio que sai do leito e transborda sobre a terra. Então, tenho de abandonar muitas coisas e pensar no que é útil e bom. Só assim controlo as águas e as faço voltar ao seu leito. É como um pêndulo. Foi sempre assim. Já me acostumei a viver com essas inundações que arrasam tudo, e depois a calma, o controle, a solidão, o silêncio. É como uma longa aprendizagem. Infinita. Desconfio que nunca se concluirá."

Pedro Juan Gutiérrez

Vidas desperdiçadas

"Quando todos os seres humanos se livrarem de Deus e da eternidade (como deverá acontecer, com a lógica impiedosa de sucessivas camadas geológicas) o homem irá se concentrar em "obter da vida tudo que ela pode dar, em nome da felicidade e da alegria, mas apenas neste mundo, aqui e agora". Então os seres humanos se tornarão eles próprios "como deuses", imbuídos do espírito e da "titânica presunção" divinos. O conhecimento de que a vida não passa de um instante fugidio, de que não há uma segunda chance, mudará a natureza do amor. O amor não terá um tempo para habitar. O que ele perder em duração vai ganhar em intensidade. Vai arder mais, de modo mais fascinante que nunca, consciente de que está destinado a ser vivido e usado num único momento e até o fim, em vez de se espalhar de maneira tênue e insípida, como antes, pela eternidade e pela vida imortal da alma..."

Vidas desperdiçadas Zygmunt Bauman;
tradução Carlos Alberto Medeiros.
- Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,2005 "

sexta-feira, 7 de setembro de 2012


Si yo salí de la tierra,
si yo he nacido de un vientre
desdichado y con pobreza,
no fue sino para hacerme
ruiseñor de las desdichas,
eco de la mala suerte,


y cantar y repetir
a quien escucharme debe
cuanto a penas, cuanto a pobres,
cuanto a tierra se refiere.

MIGUEL HERNANDEZ.

Desafios brasileiros na era dos gigantes

Desafios brasileiros na era dos gigantes
Samuel Pinheiro Guimarães
Ed. Contraponto
R$ 64,00

Os quatro grandes desafios do Brasil são: 1) a redução, gradual e firme, das extraordinárias disparidades sociais; 2) a eliminação das crônicas vulnerabilidades externas; 3) a construção do potencial brasileiro; e 4) a consolidação de uma democracia efetiva, em um cenário mundial violento, imprevisível e instável. É o que nos diz o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães no fim do primeiro capítulo deste livro. Estabelece-se assim um ponto de partida que difere fundamentalmente das análises correntes da situação brasileira, há muitos anos dominadas por diferentes versões de “macroeconomias do curto prazo”. Obcecadas pelos fluxos financeiros, elas são cegas para outras questões muito mais fundamentais: estruturas de poder, território, história, população, capacidade técnica, cultura e vontade. Essas são, justamente, as questões que predominam neste livro tão importante.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Em regra, aceitamos a simplificação que confundia uma obra de engenharia civil (a demolição de um muro) com um desejado fim do "comunismo".Penetrávamos no mundo em que não havia mais "guerra fria", não existiam "esquerda e direita", e mesmo a História se alegava acabada. Pesadelos de uma noite de tempestade. Vontades idiotas não foram satisfeitas, mas aí estão os resultados concretos da "queda do muro de Berlim": a restauração da união entre Igreja e Estado, o poder inquestionável do czar Putin, julgamentos que são comédias de non sense.

Sérgio Gonçalves
BRASÍLIA: fase final de construção, mas antes de ser habitada por vermes. Espíritos maus rondam a grande obra de JK: Jânio Quadros assumiu, bebeu, escreveu bilhetes e renunciou rapidamente. Surgem então as figuras tétricas: Auro Soares de Moura Andrade, açodado no seu dever de declarar a vacância do cargo, chama Ranieri Mazili, que assume, na ausência de Jango. Os militares sentem os bons ares favoráveis ao golpe e negam posse ao vice-presidente. Machado Lopes, um general que comandava o 3º Exército, sai de Porto Alegre e sobe, rumo ao Rio de Janeiro, para que se cumpra a Constituição. Jango assume: anos tumultuados, as reformas de base e a conspiração despudorada das direitas: as coisas ainda aconteciam no Rio de Janeiro, o comício da Central do Brasil, a "anta fardada", que desce de Minas Gerais, e a fuga de Jango. Vinte e cinco anos de vergonha, tendo enfim, como palco, a cidade que se faz um quartel, habitado por homens vestidos de verde e fantasmas sem caráter. A "democracia nova", com Jose Sarney e com o criminoso aspirador de pó. Esperanças de redenção com a chegada de FHC, o homem que vendeu o Brasil.
BRASÍLIA: NUNCA FOI E NÃO É O BRASIL!

Sérgio Gonçalves